sexta-feira, 30 de agosto de 2013

LIVROS DIGITAIS

Terei meu primeiro livro unicamente digital. É uma reediçao: Pequenos Contos de Leves Assombros e a editora se chama Descaminhos, um nome lindíssimo! Que meu livro encontre um belo descaminho por rotas sinuosas. E a ed. Rovelle escolheu meu livro Abecedário (Poético) de Frutas para ser seu primeiro e-book e estou orgulhosíssima.
Confesso que só consigo ler no papel, preciso do toque e do cheiro, é uma relação sensual que não tenho com  a tela. Imagino que que o papel será um dia o que foi o pergaminho, mas já estarei passeando pelas estrelas quando isto acontecer.  De qualquer maneira já tenho um e-book lindo no meu site e estou esperando a finalização do texto A Bruxa da Casa Amarela pelo Caó Cruz Alves para ter um e-book infantil.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

SAQUAREMA

Cheguei em casa de Mauá-Resende. Como é subjetivo o tempo. Parece que fiquei longe meses, parece que voltei de outro planeta! Faz frio, o canto do mar é quase um acalanto. E agora é recomeçar. Puxar novamente o fio do meu cotidiano, dos textos que me esperam.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

EM RESENDE

Estou em Resende com meus filhos e neto. Gosto da cidade, suas casinhas, seus recantos, a parte velha,, o rio Paraíba do Sul, belo e sinuoso. Algumas ruas bem antigas possuem lojinhas fantásticas, parece que viramos a esquina e entramos na década de 40.
Ontem comprei uma fantasia para o Luis de algum Super-Herói (não conheço os nomes) e a sua felicidade era a coisa mais linda de se ver. Ao chegarmos em casa ele se vestiu inteiro, empunhou a sua espada e como um cavaleiro medieval estava pronto para me defender de todos os males.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

VIAGEM

Mudei minha data da viagem para Mauá. Estou indo amanhã cedinho e ficarei uns dias ausente do blog. Até a volta.

VIAGENS À VISTA

Tenho duas viagens no horizonte. Dia 11 vou para Uberaba, para a Feira de Livros. Vou fazer uma oficina, a "Estação Lunar", vou dar uma palestra, "Os cinco sentidos e alguns outros" e Guga Murray, meu filho , fará seu Livro-Concerto Caixinha de Música. (Guga estará apresentando seu concerto na Bienal do Rio dia 1 de setembro, pela manhã e à tarde).

Mas antes vou para Resende-Mauá, semana que vem , ao aniversário do meu neto Luis. Sua festa será na escola e estamos os dois super ansiosos! Ele me conta pelo telefone que já sabe qual presente quer ganhar e sabe onde comprar. É um super herói e eu sou a Super-Vovó! Luis gosta de brincar de homem aranha e fica me enredando em teias imaginárias e eu amarro o meu neto bem forte numa teia de amor!

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

MEU PRIMEIRO AMOR

Meu primeiro amor foi Peter Pan. Eu tinha muitos ciúmes da Wendy. Um amor que durou anos. Quando fiquei um pouco maior tive outros amores literários até chegar um primeiro amor de carne e osso. O primeiro amor do Bandeira foi um porquinho da índia e o poema me enche de ternura:

PORQUINHO-DA-ÍNDIA

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho da índia.
Que dor de coraçao me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Nao fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

_ O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

POEMAS E POETAS

Desde criança escrevia sem saber que mais tarde seria poeta. Quando era criança gostava de ler revistas de terror e eu mesma escrevia pequenos contos de terror. Não sei como explico isso! No Ginásio Hebreu Brasileiro escrevia uns textos bem poéticos e lia no banheiro para as minhas amigas. Quando eu terminava de ler havia um silêncio emocionado. Já contei isso muitas vezes: foi o encontro com o Poema Sujo do Gullar e com o livro Gravitations do Jules Supervielle  tive coragem de escrever poemas. Mas o que é um poeta e para que serve a poesia?
Responde Manoel de Barros:

DESPALAVRA

Hoje eu atingi o reino das imagens, o reino da
despalavra.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades
humanas.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades
de sapo.
Daqui vem que todos os poetas podem ter qualidades
de árvore.
Daqui vem que os poetas podem arborizar os pássaros.
Daqui vem que os poetas podem humanizar
as águas.
Daqui vem que os poetas devem aumentar o mundo
com as suas metáforas.
Que os poetas podem ser pré-coisas, pré-vermes,
podem ser pré-musgos.
Daqui vem que os poetas podem compreender
o mundo sem conceitos.
Que os poetas podem refazer o mundo por imagens,
por eflúvios, por afeto.

in Ensaios Fotográficos, ed. Record

Então a poesia e os poetas servem para refazer o mundo cada dia.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

POETA DO MAR

Gloria Kirinus, minha amiga poeta peruana curitibana vai dar uma oficina sobre poetas do mar e me colocou em seu acervo. Fiquei vaidosa.. Desde que moro em Saquarema o mar entrou por minha poesia , pelas portas, janelas, por todas as frestas. Meu coração lateja junto com o mar. Acho que tenho cheiro de algas e anêmonas. Mas ao mesmo tempo sou árvore. Consigo conciliar o mar e a floresta : os dois me habitam.

sábado, 17 de agosto de 2013

A CASA AMARELA

Ontem, aqui em Saquarema, quando saia do Pilates, alguém gritou meu nome. Eu não a conhecia, mas ela sim e me perguntou: _Onde é a Casa Amarela? Já fui a todos os lugares, a todas as Secretarias e ninguém sabe! Queria levar minha filha de 10 anos até a Casa Amarela, pois ela ama ler e é tua fã.
Respondi que a Casa Amarela é a minha casa e que meus leitores são sempre bem recebidos.
Aproveito para confirmar o encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela no dia 21 de setembro às 11hs. O livro: A Catedral do Mar de Ildefonso Falcones, ed. Rocco e poemas do Lorca.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

PRIMAVERA

A primavera árabe entrou por um caminho tortuoso, escuro, desembocou numa guerra civil. O que será do Egito? Nossas manifestações terminam em violência gratuita, quebradeira, tudo muito longe de uma primavera. Não há saída para nós, humanos? Será tão difícil amar a paz? O que se constrói com violência? Na Colômbia os índices terríveis de assassinato foram diminuídos de maneira impressionante com cultura e arte, com as Bibliotecas Parque.  Acredito na transformação pela arte e literatura. Precisamos acreditar que não existe nenhuma razão para que uma linha de pensamento subjugue outra diferente. Que diferentes podem conviver em harmonia e respeito, com suas crenças ideológicas e religiosas. Se isso for possível algum dia, não haverá motivo para a destruição.Será que para isso nosso DNA terá que ser modificado?

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

RETRATO D MAR

Haicai em preto e branco do mar hoje, aqui em Saquarema:

cinza preto e chumbo
com suas ondas gigantes
o mar grita espuma

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

FERRAMENTAS ANTIGAS

Sou apaixonada pelos neandertais e seu grande enigma. Por que desapareceram? Porque não puderam conviver com os humanos que somos? Não há vestígios de que tenha havido nenhum massacre. Simplesmente sumiram e nós ficamos. Agora arqueólogos encontraram ferramentas dos neandertais de cinquenta mil anos e a evidência de que ou nós copiamos estas ferramentas ou houve uma troca de informações e eles copiaram as ferramentas.Elas foram encontradas num lugar exclusivamente neandertal sem nenhum vestígio humano.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

TERAPIA DA FLORESTA

Leio na Revista Amanhã do O Globo que o Japão criou uma "Terapia da Floresta" e vem investindo ao longo dos anos uma verba significativa para criar bosques onde as pessoas possam passear para recuperar bem estar e felicidade, já que a ciência afirma que o contato direto com a natureza reduz a pressão, o estresse e eleva a imunidade. Se uma pessoa não pode caminhar num bosque deve ter plantas em casa, elas acalmam e sem saber interagimos com elas e alguma magia acontece.
Em Saquarema convivo com o mar e sua música já entrou em meu fluxo sanguíneo. Em Visconde de Mauá minha casinha fica dentro da mata e não há nada que eu goste mais no mundo do que ser abraçada pelas árvores. Não posso viver longe da natureza , como uma planta sem água, eu não resistiria.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

NA COZINHA

Hoje chega visita da Espanha. Hoje sou uma poeta-cozinheira. Adoro cozinhar. Quando estou nervosa, agitada, faço muitos pratos para me acalmar. Fiz um pão bem cedo, agora está no forno. Preparei um caldo de camarão, está no fogo. E farei um arroz com este caldo, uma moqueca com dourado, lula e camarão e farofinha de dendê. O sudoeste foi embora, mas ainda está nublado, a temperatura está linda.
A casa adora receber visitas, ela se anima, fala, estala. E a casa já está muito perfumada, da cozinha os cheiros escapam e invadem o estúdio onde escrevo.

domingo, 11 de agosto de 2013

SUDOESTE

Acordei hoje com o sudoeste tentando fazer com que a casa levantasse voo. O dia está escuro, o mar derrama preto e branco em meus olhos. Gosto do cheiro de algas com sal.

Hoje é dia dos Pais, mas penso em meu pai todos os dias! Meu pai me deixou de herança um certo jeito de olhar a vida e um grande senso de justiça.  Às vezes eu o vejo em meu filho mais velho, eles se parecem . Ele era tímido em relação ao seu passado, não gostava de nos contar quase nada. Dizia que passou muito frio e fome na Polônia. Por sorte veio antes da Segunda Guerra. Ele era alegre e triste ao mesmo tempo. Foi embora com sua gargalhada única, suas lindas mãos, seu jeito de me chamar, acho que em 1985, não tenho certeza. Mas parece que nunca foi embora.

sábado, 10 de agosto de 2013

SÀBADO

Porque hoje é sábado, como dizia o poeta, vou tomar café da manhã na zona rural de Saquarema, num sítio às margens da lagoa, um lugar luxuriante. Meus amigos me convidaram e aceitei feliz da vida. Saquarema é linda quando a gente se adentra , um pouco longe do mar. Já saboreio a mesa farta de frutas e beleza.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A MAÇÃ DO PARAÍSO

Cada leitor, a cada livro, morde a maçã do paraíso e é expulso: da comodidade, do não pensamento. E a sua maldição é saber da dor do mundo, de outras vidas, outras histórias, é mergulhar num tempo que pode ser feito de todos os tempos. A formação do leitor deveria ser prioridade em todas as escolas . Um bom leitor tem ferramentas para se defender de um pensamento único, dos fundamentalismos. Um bom leitor sabe que as armadilhas nos espreitam a cada passo, por isso temos que ler as lacunas, as entrelinhas.É difícil manipular um bom leitor. Um bom leitor se destaca do rebanho. Leia junto com os amigos, os filhos, os alunos. A leitura compartilhada fortalece os laços de afeto e nos torna mais abertos para recebermos as histórias do outro.. 

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

FOLHA EM BRANCO

Na folha em branco posso escrever a beleza deste dia, a música do mar, meu neto Luis de 3 anos que me diz quando tiro os óculos: _ "Vovó não tire os óculos porque você fica um pouco feia".e posso escrever o horror : um espanhol morre assassinado no Brasil, em Lídice, no Estado do Rio, por cuidar da mata e denunciar caçadores e outros violadores do meio ambiente.  Era um homem silencioso, era um leitor e um grande protetor da natureza. O Brasil não tem polícia ambiental suficiente nem para um quarteirão quanto mais para fiscalizar um parque inteiro. Então na folha em branco escrevo a morte de um homem bom, assassinado a sangue frio porque nosso país não sabe cuidar das nossas matas. E seu desaparecimento apaga o mar, o canto dos pássaros, a árvore de canela florida no jardim. 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

EXERCÍCIOS DE AMOR

Escrevi um livro de contos: Exercícios de Amor. Sairá no final do ano pela editora Lê de B.H. Escrever ficção para mim é difícil, mas gostei dos contos. Muitas vezes eles me levaram pelas mãos por recantos inesperados. Escrevi parte em Saquarema, parte em Visconde de Mauá. na minha casinha da montanha. Para mim a vida é um exercício de amor. Cada interação humana difícil ou fácil, um exercício de amor. Ao longo do tempo vamos melhorando (ou piorando, que pena!). O amor permeia cada encontro, cada gesto. E não existe manual ou bula. Temos que percorrer nosso próprio caminho, amar, descobrir, se assombrar, perdoar. O outro é meu espelho.  

terça-feira, 6 de agosto de 2013

AZUL

Muitos pequenos leitores me perguntam: -Qual a sua cor preferida?
_Azul.
Hoje o dia está azul. Para mim azul é a cor da paz tão sonhada. As montanhas ao longe, que vejo da minha janela, são azuis. Se olho para trás vejo o mar: azul. Para mim o amor é azul. A felicidade é azul.
Faço um haicai agora:

a felicidade
borboleta inconstante
mergulha no azul

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

CAFÉ COM ALGAS

Hoje, ao acordar, parecia que o mar estava dentro da casa. Um cheiro forte de algas flutuava pela sala. Soprava um certo sudoeste. Passei o café. Café com algas. O jornal que chega bem cedo me diz numa belíssima reportagem da Miriam Leitão e Sebastião Salgado, que começou ontem, os mitos e a destruição do povo Awá na floresta que restou no Maranhão. O povo é belíssimo e a reportagem nos deixa em carne viva. Que país é o nosso que não consegue proteger suas florestas e os homens que estavam aqui desde sempre? Os índios Awá estão acuados e então todos nós estamos ameaçados também.  

domingo, 4 de agosto de 2013

LIBERDADE

Leio um poema curioso da maravilhosa poeta Alejandra Pizarnik que ouso traduzir:

ANTES
                  A Eva Durrel

bosque musical
os pássaros desenham em meus olhos
pequenas jaulas


e sobre o poema penso que os pássaros deveriam desenhar em seus olhos liberdade, mas desenham pequenas jaulas. Será para lembrar-nos de nossa condição de prisioneiros do corpo, nós, pobres mortais que só podemos voar com a alma e com a memória? 



sexta-feira, 2 de agosto de 2013

POEMAS E COMIDINHAS

Recebo a sexta edição do meu livro POEMAS E COMIDINHAS que fiz em parceria com meu filho André Murray. O livro é uma delícia mesmo E se alguém quiser fazer um piquenique na lua dou o poema e a receita:

PIQUENIQUE LUNAR

Vamos fazer um piquenique
lunar?
Primeiro subimos no telhado
e construímos uma escada
de vento,
depois do terceiro degrau
já começamos a flutuar.

Do alto, já dizia o astronauta,
a Terra é azul
e os astros tocam
a sinfonia do céu.

Pousamos.
A lua é de poesia e prata.
Levamos as mais doces
iguarias.

Para voltar, basta
fechar os olhos com força
e suspirar...

E lá vai a receita de um bom sanduíche, pois a viagem é cansativa:

SANDUÍCHE LUNAR

Ingredientes:
3 fatias de pão de forma
1 fatia de filé mignon batido
3 rodelas de tomate
4 fatias de queijo suíço (aquele furadinho)
orégano

Preparo:
Grelhe o filé e toste as fatias de pão na torradeira.
Monte as rodelas de tomate sobre uma das fatias, cubra com queijo e sobre a outra fatia coloque o filé mignon também coberto com o queijo.
Salpique com orégano e leve ao forno para o queijo derreter.
Monte o sanduíche e leve envolvido em papel de prata para o seu piquenique lunar.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

PEQUENAS DELICADEZAS

Ontem, em meu primeiro dia em casa, em Saquarema,  depois dos vinte dias que passei na montanha mergulhada no bosque, afastada do mundo, as horas foram feitas de pequenas e amáveis delicadezas: ao voltar da sua caminhada, Juan me chama: _Venha ver as baleias!
Desci correndo do estúdio e lá estavam elas, passeando sua majestade pelo mar imenso e azul.
Amigos me escrevem e virão me visitar. Outra amiga traz um livro lindo de presente para o Juan, A Alma Imoral, do Nilton Bonder que foi peça de grande sucesso.
E há uma luz esplêndida de inverno que invade tudo, todos os recantos da casa e do nosso ser. 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

VOLTA PARA CASA E CLUBE DE LEITURA

Depois de vinte dias na minha casinha da montanha voltei ontem à tarde para casa. Lá não tenho internet e foram dias magníficos de mergulho num outro mundo.
Nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela desta vez aconteceu na montanha. Muitos aproveitaram para passar alguns dias de férias com a família em Visconde de Mauá.
A nossa reunião começou na varanda do Babel Restaurante do meu filho André Murray, com sua vista magnífica. Discutimos o livro A Mocinha do Mercado Central de Stella Maris Rezende,ed. Globo.
O que seduziu a todos foi o jogo com os nomes. A cada novo nome acrescentado uma nova personagem nascia e todos ressaltaram o jogo de espelhos, o teatro. A estrutura do romance, nos levava a discutir o texto como um quebra cabeça. Movíamos as peças no tabuleiro .O que era sonho, o que era realidade ou ficção , impossível dizer. Ressaltamos o "aparato" imagina-mágico . A partir destas duas palavras tudo se torna possível.
O pai da mocinha foi posto no banco dos réus e absolvido. O romance , de busca do pai, do amor, de novas identidades para encontrar a sua própria identidade ia sempre se desdobrando, se abrindo em encontros mágicos e desencontros: o desencontro da Valentina com a vida. O romance traz para o leitor temas fortes e violentos , estupro, suicídio, a morte de uma criança. Mas com extrema delicadeza vai desatando nomes e nós. Para todos os leitores do Clube, a autora deixou o final em aberto. Assim cada um podia escrever o seu final, escolher um caminho. Todos sublinharam o encontro da mocinha com a poesia , pura magia.
Depois brincamos com o significado de nossos próprios nomes e eu ganhei meu nome escrito num grão de arroz, presente de Gil e Maria Clara.
Num segundo momento ouvimos histórias das 1001 Noites e poemas do Leminsky.
E então fomos para a minha casinha onde comemos um cozido magnífico preparado pelo meu filho André.Fazia frio, a amizade e o prazer do texto discutido nos aquecia. Tivemos novos leitores em nosso encontro: Fátima, César, Denise e algumas jovens e lindas meninas.   Maria Clara e Gil plantaram bromélias na mata que envolve a casa. E uma alegria imensa jorrava de dentro de mim.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

DE MALA PRONTA

Minha mala já está pronta: roupa de frio, livros. Amanhã às 5hs manhã vou para a minha casinha da montanha. Lá não tenho internet, portanto ficarei ausente até os primeiros dias de agosto. Não se esqueçam de mim. Quando for visitar a minha irmã em seu ateliê, escreverei contando .

terça-feira, 9 de julho de 2013

CONTINUANDO O CONTO

Continuando o conto:

   Bella me transformou. Sua escrita delicada construiu pontes de silêncio dentro de mim. Seu jeito de olhar a vida, os objetos, as pessoas, foi uma revelação quase religiosa. Ah, se ela soubesse que andaria assim pela minha vida, pelas minhas ruas, dentro do meu sangue, tão longe no tempo e no espaço da sua Vitebsk natal! Enquanto eu a leio, as palavras que contam a sua vida vão fazendo em minha alma um mosaico de músicas, imagens, cheiros. Não conheço a Rússia e com certeza a cidadezinha onde viveram Bella e Marc Chagall não existe mais ou se existe ninguém daquela época a reconheceria hoje. Mas eu a reconheço e a umidade que se desprende do rio, assim como o pátio das casas.
   Durante muitos anos, este pequeno livro de capa azul andava sempre em minha bolsa, em minhas mesas. Quando eu estava triste eu o abria ao acaso e deixava que Bella conduzisse minha alma. Dentro de mim, essa mulher que nunca conheci, que morreu tão jovem, essa mulher feita de palavras, arruma os castiçais. Suas velas nunca se apagam. As palavras não morrem.

                                          FIM

segunda-feira, 8 de julho de 2013

UM CONTO

Vou contar um conto . Hoje um pedaço e amanhã termino. Este conto está no meu livro Território de Sonhos da ed. Rocco e nasceu da minha paixão por um livro. Paixão violenta.

PALAVRAS

Bella é seu nome. Viveu no começo do século XX, numa pequena cidade chamada Vitebsk, na Rússia. Tenho um livro nas mãos. Sua capa é azul e se chama "Luzes Acesas". O livro foi escrito por Bella Chagall e é todo ilustrado em bico de pena pelo próprio Chagall. Ao abrir o livro, o texto mais delicado de que se tem notícia me agarra pelos cabelos e me leva para junto de uma criança, Bella. Estamos juntas num trenó, embora ela não me veja. Descemos encostas íngremes cheias de neve, é noite. Sem saber, Bella me conduz tão grudada em sua pele, que já não se distingue quem é a leitora e quem é a escritora. Entramos numa casa de banhos rituais. Quando voltamos, Bella tem sono e eu também. Fecho o livro. Dormimos as duas: ela, viva novamente. Mais tarde, com Bella, atravesso a ponte da cidade rumo à casa de sua amiga Théa, onde ela conhecerá seu único e grande amor, Marc Chagall. Assisto a festas, casamentos, juntas viramos a cidade pelo lado avesso. Enquanto leio, somos uma, nosso coração bate em uníssono. Vejo Chagall pintar o quadro "O Aniversário". Bella havia enchido a pequena casa do pintor de tapetes e flores e com um buquê nos braços sairam os dois voando pela janela.
As palavras de Bella me enfeitiçam, me transformam. Ela faz de mim a ouvinte da sua vida tão breve, a ouvinte de seus segredos. Espectadora dos seus sonhos, eu a vejo encher cadernos e cadernos em sua lingua natal, para que um dia travessassem o tempo e chegassem às minhas mãos.

                         CONTINUA AMANHà

sábado, 6 de julho de 2013

ALIMENTAÇÃO

Continuo a falar do café da manhã. Aqui estou novamente com a minha xícara de café com leite quente e já amanheceu. Faz frio aqui em Saquarema e o céu está lindíssimo. Ouvi o jornal sendo depositado na caixa do correio. E a primeira notícia da capa é justamente sobre alimentação. O subtítulo é: "TCU tira verba de seu programa de controle de gastos para pagar auxílio retroativo de ministros". E a notícia continua dizendo que "a presidência do Tribunal de Contas da União (TCU) retirou R.1.02 milhão do programa de fiscalização da aplicação dos recursos públicos federais , etc, etc, para depositar R.636.5 mil nas contas pessoais dos seus ministros, doze na ativa e seis aposentados. É um auxílio alimentação retroativo."
Nosso dinheiro está pagando o que os ministros já comeram.
Não sei o que dizer sobre isso.É tamanha a vergonha que sinto . Por que a alimentação deles precisa ser paga separadamente ? Além do salário precisam receber auxílio alimentação?  E por que fazem o tempo andar para trás se já comeram? É um teatro macabro. Já que falo sobre o meu café da manhã, deixemos que o leite ferva e entorne. Pelas praças e ruas e ruelas. Sem violência. Basta a nossa indignação.  E um dia eles também sentirão vergonha e medo.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

IMPOSTOS

Ainda é noite, mas acordo muito cedo. Escrevo na mesa do café  da manhã que se aproxima (em silêncio). Bebo café com leite e como uma fatia da broa de milho salgada que fiz ontem à noite. Meu café não leva açúcar . Não sei o custo do que comi, mas sei que grande parte deste custo volta para o governo , paga-se muito imposto em cada alimento . Então o voo dos jatinhos dos Presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado foram pagos , em parte, com o que como. E este recurso deveria ser usado para o bem da população. Embora a lei diga que isso é possível, o bom senso, quando  se sabe tudo o que precisa ser feitoi no Brasil, nos diz que isso é  vergonhoso. Desperdiçar dinheiro público deveria ser crime gravíssimo. O que os dois políticos fizeram é um ato de extremo descaso e arrogância com todo o povo brasileiro no momento em que o povo descobre que desde tantos séculos vem sendo enganado.. 
Ontem vi no noticiário uma escola em Friburgo, na Serra do Rio de Janeiro, ainda depredada desde as últimas enchentes . Os recursos para a reconstrução foram liberados mas a escola continua como estava.
Dinheiro público deveria ser sagrado, intocável, deveria ser usado apenas para o bem da população. Como um governo pode manter tantos Ministérios com o nosso dinheiro? Às vezes o que é óbvio fica invisível.
Mastigo todas estas questões junto com a minha broa de milho.  

quinta-feira, 4 de julho de 2013

PROJETO GRÁFICO

Ontem recebí o projeto gráfico do livro Fio de Lua & Raio de Sol que sairá em setembro pela IBEP Jr. Patricia, minha nora, poeta andaluza, escreveu os poemas da lua e eu fiz os poemas de sol. O projeto está lindíssimo, o livro já vem todo diagramado e onde há uma mancha cinza, Regina Rennó colocará suas belas ilustrações. É o primeiro livro da Patricia que já tem outros dois na fila que serão publicados pela Rovelle.
Conheci Patricia em 1998 em Granada, ela é sobrinha do meu marido. Ela me mostrou seus poemas e eu nunca poderia sonhar que faríamos um livro juntas algum dia, que no futuro ela se casaria com meu filho Guga, que me daria o Luis (que já virou livro, é claro, o Lá Vem o Luis, ed. Leya).
A hisória de amor foi assim: Patricia veio nos visitar em Saquarema e Guga que morava em outra cidade estava aqui nos visitando. Quando ela chegou e eles se olharam, eu vi eles se apaixonando. Guga tinha, por coincidência, um trabalho nas Ilhas Canárias para um mês depois e de lá já foi para Granada. Logo se casaram aqui em Saquarema. E agora eu tenho a alegria de apresentar a linda poesia da Patri. Sou sua tradutora, pois embora ela more no Brasil, sempre escreverá em espanhol, a sua lingua. O meu desafio é fazer com que o leitor nem repare que os poemas não foram escritos em português. E sinceramente, acho que conseguí.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

DIA MÁGICO

Ontem fiz parte de uma das festas mais lindas da minha vida, na Biblioteca Parque Manguinhos, um espaço totalmente mágico, dentro de uma comunidade bastante precária. A Biblioteca tem 23.000 metros quadrados e é completíssima, tem até teatro. Fui pelas mãos da Ed. Rovelle e logo ao chegar nos esperava uma bela mesa de café da manhã. Os professores foram chegando e me abraçando, querendo fotos, construindo para mim um casulo de amor. O evento era a entrega dos prêmios do Concurso dePoesia do Município para alunos e profissionais da Educação e faz parte do projeto Poesia na Escola. Eu era a poeta homenageada.A MultuRio passou um filme com poemas concretos dos alunos, uma maravilha. A Secretária Cláudia Costin estava presente e sua bela fala, pessoal e poética emocionou..Depois vieram os prêmios, depois eu falei. Mas  o melhor estava no palco: a Orquestra da Maré. Que maravilha! Haja coração! Ela é a prova viva de quantos milhões de talentos se perdem por este Brasil afora. É a prova viva de que a arte salva e transforma. Guardarei esta manhã como uma das mais belas experiências que já vivi. Os livros premiados que ganhei de presente , me trazem uma linda poesia.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

FRESTA/FRONTEIRA

Gosto da palavra fresta, que nos permite passar para outros mundos, atravessar espelhos e paredes. Gosto da palavra fronteira que também nos permite passar, embora os homens tenham criado fronteiras artificiais e guardas para impedir a passagem.Cada vez mais as fronteiras se diluem, ficam enevoadas, quase líquidas. Fronteiras entre países com o mundo globalizado, fronteira entre etnias, cores, gêneros literários e sexuais. Até os idiomas se interpenetram, palavras estrangeiras se alojam na nossa lingua e vão ficando. A poesia é o melhor meio de transporte para se atravessar frestas e fronteiras.

POEMA

Um poema líquido
que escorra
pelas frestas do dia,
encontre o tempo exato
onde a noite cai
e traga para dentro da vida
a fragrância de flores:
violetas, margaridas, jasmins.

in Carteira de Identidade, ed. Lê

domingo, 30 de junho de 2013

OBJETOS

Por que alguns objetos nos acompanham por tantos anos? O que existe neles que faz com que de casa em casa nos sigam?
Minha casa é cheia de coisas assim que atravessaram o tempo intactas e transbordam afeto.
Em cima da mesa de jantar tenho uma gamela com uma flor vermelha pintada no fundo. Eu a comprei em 1980 de um artista que morava em Visconde de Mauá, Ricardo Saboya. Posso ler em sua madeira gasta os anos que passei na montanha quando meus filhos eram pequenos e da gamela , diante dos meus olhos , seus risos escapam e os dias luminosos que vivemos juntos.
Tenho um malão antigo na cozinha, que é a minha despensa. Herdei da minha mãe e ele traz de volta a sua figura miúda, a sua voz, cada vez que abro o malão para buscar arroz ou café.
E assim, os objetos são um mapa estranho, caótico, que tentam costurar alguns pedaços de tempo.

sábado, 29 de junho de 2013

KAFKA

Comprei um pequeno livro do Kafka quando fui a Praga em 2001. Cuadernos en Octavo e não sei se existe em português.O meu livro está em espanhol. Amo este livro. São pedaços soltos de texto. Leio traduzindo:

"Como um caminho no outono: acabam de limpar e já está outra vez coberto de folhas secas".

Penso: assim a vida, em todas as horas,  minutos,  segundos, há que recomeçar. Varrer, limpar, escrever, cozinhar, abraçar, amar, acreditar, construir....

sexta-feira, 28 de junho de 2013

UM ALMOÇO ESPECIAL

Ontem recebi 18 crianças e 4 professores de Nova Iguaçu para um almoço. Eram maravilhosas as crianças. Elas me trouxeram uma boneca de pano em tamanho gigante com o meu rosto. A boneca Roseana ficava uma semana na casa de cada um e eles fizeram um diário lindíssimo com as suas atividades com a boneca. Nos sentamos na varanda , li para elas o livro Nana e Juan buscou a Nana de verdade para que fosse apresentada à plateia. A Nana é uma gata muito vaidosa, ela adorou. Por uma coincidência mágica , a querida professora Eunice, de Natal, estava no Rio e veio também. Li o livro Quatro Jabutis e depois todos foram ao jardim encontrar os jabutis. A brincadeira era reconhecer o Godofredo. Cada um trouxe um livro para que eu autografasse. As mães mandaram brigadeiros, bolo de fubá, sonhos, que foram feitos a partit do livro Poemas e Comidinhas. A escola enviou uma cesta lindíssima de frutas em homenagem ao livro Abecedário (Poético) de Frutas. Depois do almoço as crianças foram ver o mar que estava muito brabo, rugia, esperneava, dava cambalhotas e molhou todo mundo! Quando foram embora a casa estava iluminada de amor.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

SAQUAREMA

Ontem eu soube, não sei se é verdade, que terça-feira, no dia da manifestação aqui em Saquarema, quatro ônibus foram interceptados na estrada cheios de gente que não é daqui e que vinha para quebrar. Não puderam, felizmente chegar a Saquarema. Está claro que há uma parcela de gente que só quer destruir. Não sei porque, nem a quem isso interessa. Ontem morreu um homem em Belo Horizonte. Caiu de um viaduto por causa da confusão. A quem isso interessa?
Vivo em Saquarema desde 2002 . É uma cidade maravilhosa, limpa, linda, pacífica, cheia de coisas boas. As escolas são belas, super bem cuidadas, a cidade possui ruas para pedestres,praça para a terceira idade com aulas de hidroginástica, etc, o lixeiro passa e não se vê lixo nas ruas. Os únicos problemas são o transporte que é péssimo, pois ineficiente nos lugares mais distantes (além dos motoristas mal educados) e a saúde.Na saúde sim temos um grave problema. Mas há um hospital novo a ser entregue para a população e que isso se faça rápido, pois já está quase pronto e que não se espere o ano das eleições e o Posto de Saúde foi reformado e está pronto, mas também está em compasso de espera. E os salários dos professores são muito baixos.Nada mais justo que uma manifestação pedindo mais Saúde e um transporte melhor. Portanto, Saquarema tem problemas pequenos e que podem ser sanados. Nada justificaria uma ação violenta, uma quebradeira.  E ainda mais por gente que não é daqui. Uma cidade tão bem cuidada não pode e não merece ser quebrada. E insisto: a quem interessa toda esta violência que vemos nas manifestações?

quarta-feira, 26 de junho de 2013

PEQUENOS LEITORES

Amanhã recebo um grupo de pequenos leitores de Nova Iguaçu, R.J, para um almoço comigo. É uma grande alegria. Sinto muita falta dos meus Cafés Literários, encontros com os alunos e professores aqui da rede pública de Saquarema que aconteciam mensalmente , mas que já não existem por decisão da Secretaria de Educação de Saquarema, infelizmente. Líamos sempre um conto, um poema, um artigo de jornal e discutíamos. Asaudade que sinto dos encontros é imensa. Eu oferecia o café e a cópia dos textos, fazíamos canjica, bolos, pães, cachorro-quente, chocolate quente, era uma festa! A Secretaria precisava apenas trazer as escolas. Mas a minha casa está aberta para as escolas de Saquarema que queiram vir trazendo seus alunos por conta própria. Basta agendar. Contribuir para que cada um se converta em leitor e leitor crítico é uma das tarefas mais importantes. Faço tudo o que está ao meu alcance. Bons leitores não se deixam enganar.
Criei o Clube de Leitura da Casa Amarela pensando nos professores de Saquarema, e eles estão vindo . Não existe ato mais revolucionário do que a leitura. Os tiranos sempre queimaram livros, sempre proibiram livros.

terça-feira, 25 de junho de 2013

GOSTO NÃO SE DISCUTE

Tenho amigos de todas as idades, religiões, cores, opções sexuais, partidos políticos, gostos literários. Tenho como lema de vida aceitar opiniões diferentes da minha, amo a liberdade e a diversidade. Esta é a grande riqueza. Sou poeta, ser poeta é meu ofício. A poesia é a essência da liberdade, a poesia não admite amarras. Jamais irei agredir alguém porque não pensa como eu penso. Jamais me sentirei superior a alguém por conta das minhas convicções e jamais deixarei de dar o crédito a alguém por algo que tenha feito.

GOSTO NÃO SE DISCUTE

Eu gosto de azul,
você gosta de laranja,
eu gosto de caju,
você gosta de pitanga,
eu gosto de escuro,
você gosta de luar,
eu gosto de bosque,
você gosta de mar,
eu gosto de seda,
você gosta de algodão,
eu gosto de cão,
você gosta de gato,
eu gosto de girassol,
você gosta de jasmim,
mas o que importa
é que eu gosto de você
e você gosta de mim.

In Quem Vê Cara Não Vê Coração, ed. Callis/ Instituto Houaiss

segunda-feira, 24 de junho de 2013

AS ÁGUAS AZUIS

No filme Asas do Desejo os anjos escutam os pensamentos dos homens. Quando se juntam 300.000 pessoas numa manifestação seus pensamentos são tão diversos (com alguns pontos e desejos em comum), que os anjos enlouqueceriam. Aceitar o diverso e pensamentos diferentes do nosso é próprio da democracia. O pensamento único é violento e destrói. O que move estas pessoas é o desejo legítimo de mudanças na maneira de se fazer política no Brasil, na maneira com que o Brasil trata os seus cidadãos , na maneira com que o Brasil destrói o seu futuro. Os políticos deveriam ter conselhos de urbanistas, historiadores, artistas, filósofos, enfim, pensadores.E principalmente deveriam ouvir a voz que vem das ruas. Muitas tragédias da história não teriam acontecido se os políticos tivessem se debruçado sobre o pergaminho da história. Nas Mil e Uma Noites o Sultão Harum-Al-Rachid se disfarça e sai pelas ruas para ouvir o seu povo. Os políticos se isolam numa redoma de ouro, saem apenas para fazer campanha. Leio que 75% do Brasil apoia as manifestações. Mais que nunca é preciso pedir paz. ,
"essa palavra tão pequena
e grande,
pássaro palpitante,
palavra viva em carne viva.
Palavra de mudar o mundo,
de fazer pão e telhado,
de abrir os cadeados,
as porteiras trancadas
do universo,
as águas ázuis
que dormem no fundo
de cada homem.,"

in Qual a Palavra, ed. Paulus, Roseana Murray

domingo, 23 de junho de 2013

LORCA OUTRA VEZ

"... A poesia não tem limites. Pode nos esperar sentada na soleira da porta, nas madrugadas frias quando se volta com os pés cansados e a gola do casaco levantada. Pode estar nos esperando na água de uma fonte, trepada na flor de uma oliveira, posta para secar no pano branco estendido no terraço da casa. O que não se pode fazer é propor uma poesia com rigor matemático."

Federico García Lorca, in Pequeno Poema Infinito, ed. Imprensa Oficial

Há poesia nas ruas e há violência, mas não há matemática. Não há direita, centro ou esquerda. Há um movimento ondulante por mais dignidade, por menos humilhação. Como panos coloridos ao vento.

sábado, 22 de junho de 2013

NOVELO

Hoje , ao abrir o facebook, encontrei meu poema Novelo, não me lembro em que livro está, mas acho que a imagem do novelo que se desenrola é muito boa para o nosso momento único . Estamos, o Brasil inteiro, imensas, médias e pequenas cidades, escrevendo uma nova história, já que não podemos mudar o que existiu. Um novelo de esperança corre , se desenrola.
Pobre no Brasil é o resto da escravidão, é periferia. Pobre é maltratado em todos os níveis. Mas o que está acontecendo no Brasil, é tão único em  nossa história, que realmente será um divisor de águas. Dinheiro público tem que ser sagrado, é simples assim. E as prioridades: o que for melhorar o cotidiano e o futuro das pessoas.Mesmo quem não está nas ruas porque não pode estar, manda o seu coração para a rua. No futuro todos serão tratados com dignidade.É o nosso sonho. É um momento único para se refletir sobre valores, solidariedade, compaixão, amor, respeito, amizade, delicadeza. E repudiar a violência.

NOVELO

Com fina linha prateada
o sonhador borda a sua vida:
na fronteira entre o dia e a noite,
entre uma estrela e outra,
uma palavra e sua sombra,
ergue um castelo de vento,
desfralda as bandeiras da paz.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

POESIA

" A poesia é algo que anda pelas ruas. Que se move, que passa ao nosso lado. Todas as coisas têm o seu mistério e a poesia é o mistério que contém todas as coisas. Se passamos junto de um homem, se olhamos uma mulher, se adivinhamos a marcha oblíqua de um cão, em cada um desses objetos humanos está a poesia."

Federico Garcia Lorca, in Pequeno Poema Infinito, ed. Imprensa Oficial.

Milhares de pessoas se movem pelas ruas em manifestações impressionantes, coloridas, gigantescas. Isso é poesia.Mas não vejo poesia na violência.  As depredações ferem, machucam, deixam cicatrizes.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

CAVALO AZUL

Sou apaixonada pelos cavalos azuis que só existem em nosso imaginário, nas obras de Chagall, no belíssimo filme Pele de Asno, na poesia. Cavalos azuis sempre me habitaram , comem grama fresca e bebem orvalho dentro de mim. Recebo um belo livro de poemas de Alexandre Bonafim , Arqueologia dos Acasos e lá está ele , o Cavalo Azul, maravilhoso poema final.

" Um tropel de silêncio e eternidade
desdobra o ar em acordes levíssimos,
feitos de orvalho e bruma.
As crinas vão desatando o infinito,
as estrelas , a solidão mais aguda.
Eis a sagração do céu em nós."

Fragmento de O Cavalo Azul, in Arqueologia dos Acasos, Alexandre Bonafim, ed. Delicatta

Que hoje, nas manifestações, cada um carregue um delicado cavalo azul dentro de si, para que as mudanças tão necessárias possam vir.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

CIDADES PEQUENAS

  • As cidades pequenas começam a entrar na dança. Há uma manifestação marcada para Resende, onde moram meus filhos e Saquarema, onde moro. Não poderei ir, não posso correr se precisar, pois estou operada! mas os ônibus aqui são um deboche. Numa cidade tão pequena custam caríssimo e você pode ficar esperando muito tempo. Os lugares mais afastados , Mombaça, Vilatur, talvez tenham no máximo uns três por dia. Os motorista são grossos, mal educados, freiam propositadamente para que os velhinhos caiam. Os trabalhadores que moram nestes lugares com nomes lindos, Jaconé, Rio da Areia, etc, e vão trabalhar na cidade, podem ter um cotidiano muito difícil.
  • Os salários dos professores são muito baixos, embora as escolas sejam lindíssimas, talvez as mais bonitas do Brasil. Gostaria de poder comparar os salário de um professor daqui com o de um político, mas não sei os números. Desde que me mudei para cá , em 2002, os ônibus são o maior problema da cidade e não conseguem  ou não querem resolver o problema. A Região dos Lagos não tem uma circulação entre as cidades. Se quiser ir a Búzios tenho que tomar um ônibus até Bacaxá, outro até Cabo Frio e depois outro até Búzios. São os pequenos desrespeitos do cotidiano que vão se somando até explodir num rio de águas turbulentas. Torço para que a polícia consiga isolar os depredadores, é o mínimo que se espera, uma polícia que saiba atuar sem machucar, mas protegendo o espaço público, os tesouros arquitetonicos, as lojas, os bancos. Os vândalos são poucos e facilmente localizáveis. A maioria, a imensidão, o mar de gente , é pacífica, colorida e finalmente fala.

terça-feira, 18 de junho de 2013

RESPEITO & DESRESPEITO

Brasileiros pobres ou de classe média possuem um baú cheio de histórias de desrespeito para contar. Os pobres são sempre maltratados, tudo o que recebem é de segunda categoria, é raro que não seja assim., aplaudo as escolas públicas belas e limpas, os parques nos subúrbios. Os de classe média precisam pagar um seguro particular de saúde, escolas particulares para os filhos, se querem algum tratamento melhor, quando pagam os impostos mais caros do mundo. Nunca entendí porque um deputado ganha mais do que um professor e tem transporte grátis. Agora o baú foi aberto e as histórias pessoais de desrespeito saem descontroladas. Acho que o brasileiro não se cala mais.Uma pena que os vândalos de plantão se aproveitem para destruir o que é de todos.  

segunda-feira, 17 de junho de 2013

RESPIRAÇÃO

Quero contar uma experiência pessoal que pode ajudar muita gente. Desde 1993 quando fiz uma cirurgia de hérnia de disco que não deu muito certo, sofro de dores na coluna, que variam de intensidade de acordo com a minha tensão muscular, stress emocional, cansaço físico. Fazem alguns meses minha voz começou a desaparecer, fiquei rouca e ficava exausta para falar. A voz é um dos meus instrumentos e fiquei com muito medo. Fiz uma laringoscopia no consultório do meu irmnão que é oncologista e não era nada grave, dois nódulos nas cordas vocais por mau uso da voz.
Comecei a fazer sessões de fono e a surpresa: com os exercícios respiratórios as dores na coluna foram desaparecendo (além da voz estar voltando). Junto com a respiração sou obrigada a tomar dois litros de água por dia.
A respiração junto com a água estão levando embora as dores que me acompanham cotidianamente , visitante indesejada, fazendo do meu corpo uma moradia desconfortável. Faço pilates, mas agora estou conseguindo caminhar . Estou maravilhada. Além disso o ar por enquanto ainda é grátis. Como o amor.

domingo, 16 de junho de 2013

0,20 e 6.000,00

Tanta confusão por causa de vinte centavos?  Hoje leio que jovens gastam R6.000,00 por noite numa boate, numa iha perto de Angra dos Reis. Leio que numa favela no Rio alguns moradores possuem dois televisores, celular, máquina de lavar, mas a "casa" não tem banheiro, nenhum tipo de saneamento. Um trabalhador de baixa renda passa muitas vezes horas no trânsito, engarrafado , enlatado, agredido , para chegar ao trabalho. O brasileiro tem orgulho em sediar a Copa mas ao mesmo tempo sente náusea ao pensar no preço dos estádios e no que falta em saúde pública , saneamento, educação. O Brasil é uma colcha de retalhos mas o visual da colcha não é belo. É um imenso acorde dissonante que fica entalado entre a garganta e os pulmões. E agora este acorde se esparrama em manifestações caóticas que traduzem esta esquizofrenia, o mal estar.
O brasileiro pobre é tão mal tratado em todos os aspectos que o que espanta é o seu  silêncio e não as manifestações. Que sua voz comece a ser ouvida. Transportes limpos , civilizados e baratos. Hospitais dignos. Moradias populares em bairros com praças, jardins,bibliotecas, um entorno belo e agradável. Escolas onde convivam todas as artes e onde se eduque para a paz  .  Consigo ouvir dentro do acorde anárquico e dissonante, estas notas musicais, este pedido.

sábado, 15 de junho de 2013

NOTÍCIAS DO MAR

O mar hoje está escrevendo em preto e branco. Melhor: cinza chumbo. Eu gosto. A casa vibra, estremece com as suas ondas. O mar me alimenta com seu cheiro salgado e rude. Meus pais vieram pelo mar. Habitaram um navio de imigrantes. Tenho um documento que fala da chegada do meu pai. É uma cópia. O original: seus medos, seus sentimentos, a vida que iria construir aqui no Brasil. Minha mãe me dizia: _Eu não me lembro.
Estes fragmentos de tempo são também a música do mar.

AS CONCHAS
As conchas ouvem música.
O mar rolando seus violinos,
às vezes violas de gamba,
ou mesmo flautas e sinos.
As conchas ouvem,
e depois,
quando em nossos ouvidos,
cantam baixinho.

in O Mar e OS SONHOS, ed. Lê. 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

MANIFESTAÇÕES

Mariana, minha leitora e amiga de São Paulo, nos contava, quando esteve aqui em casa para o último encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela, a sua odisséia diária para chegar até a Escola de Dança onde estuda. São dois ônibus e dois trens superlotados, inchados de gente a ponto de não se poder respirar. Um serviço horroroso, caro, que desrespeita cada um em sua história pessoal. Pagamos os impostos mais altos do mundo.
Finalmente a população acorda e pede por cidadania . E a polícia ataca ferozmente como se estivéssemos vivendo numa ditadura. Será impossível separar os vândalos sem machucar a todos? Os vândalos de plantãi estarão sempre em todas as manifestações no mundo inteiro, mas eles não são a maioria.  As cenas que o mundo viu ontem em São Paulo e no Rio são terríveis , a população acuada e ferida num regime democrático por uma polícia que deveria estar ali para defender a manifestação. Somos cidadãos de décima categoria se nem ao menos podemos protestar. Ótimo motivo para os professores conversarem com os seus alunos sobre os anos de chumbo e sobre os valores de uma verdadeira democracia.