quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

NETOS

Gabriela fará dois meses dia 12. Na última vez em que estivemos juntas, no Natal, ela mal abria os olhos. Ontem recebi uma foto nova. Gabriela de olhos bem abertos, já olhando o mundo com assombro e bastante diferente , com ares de mocinha. É por este motivo que semana que vem arrumo novamente meu tapete voador para aterrissar no sítio em Mauá. Não quero perder suas transformações intensas. Quero guardar os primeiros sorrisos da minha neta.

Luis, meu neto de 4 anos, totalmente bilingue me diz:
-Vovó, quando você fala espanhol eu entendo, mas você fala mal. Quase engasguei.
Luis passou uma semana aqui em casa com seu amigo Igor, neto da Vanda, nossa caseira. O amor dos dois é comovente. Na despedida Luis chorou muito e dizia:
-Estou muito triste, muito triste, estou chateado. E chorava baixinho, as lágrimas escorriam.

Temos um encontro marcado, na sua casa da árvore. Em abril levaremos o Igor, já está prometido. 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

PRESENTE

A temperatura ontem e hoje aqui na minha casa em Saquarema , trouxe um presente inesperado: há um vento suave e fresco  na beira do mar e a pele não é mais um polvo pegajoso e eu renasço e posso trabalhar. Aquela onda de calor terrível deu uma trégua.Tenho dois livros em andamento e acima dos 32 graus não consigo pensar nem escrever, mal posso respirar ou ler. Eu e meu marido temos uma grande incompatibilidade meteorológica, enquanto ele ama o calor de paixão perdida, eu amo o frio. Eu ligo o ventilador e ele desliga. Eu abro a janela e ele fecha. Estou de camiseta e ele de manga comprida. Eu quase desmaio acima dos 30 graus e ele pula de alegria. E assim vamos vivendo até o final do verão .

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

UMA CRIANÇA NO CORAÇÃO

Apadrinhei ou amadrinhei uma criança em Moçambique pela ActionAid. Eles escolheram o país e me mandaram a foto . É uma menina, ela é linda e se chama Amissina. Tem 5 anos. Usa uma roupa africana: saia verde estampada e blusa com aqueles padrões africanos bem coloridos. Está descalça. Num primeiro plano vejo lixo no chão. Um pouco mais longe vejo uns telhados de sapê e três árvores. Meu coração se enche de amor. Enviarei um livro para que ela veja as ilustrações e minha foto também. Sua comunidade é muito pobre e espero que alguém possa ler meus poemas para Amissina.    

domingo, 5 de janeiro de 2014

JANEIRO

Janeiro é um barco azul e quente (aqui em Saquarema). No último dia do ano fizemos promessas, balanços, traçamos metas. Vamos fiando a vida , pensando que somos capitães, mas às vezes é a vida quem nos fia em sua roca que pode nos espetar, como no conto da Bela Adormecida. Melhor que tentar controlar a vida é soltar a alma e o corpo. A partitura vai se desenhando. Há que fazer sempre o melhor possível, isso sim e com amor e alegria.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

GAIVOTAS

Depois de um temporal de madrugada o céu está lavado e limpo e penduradas no vento gaivotas dançam. Meu corpo gostaria de se livrar de seu peso e flutuar como as gaivotas por uma rota assim toda azul. Em alguns momentos especiais criamos asas. Que este ano que começa nos deixe voar.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

SOL E FELICIDADE

A casa está cheia. Sobrinhos do meu marido vieram da Espanha com seus filhos e meu filho, sua mulher , meu neto. O sol se derrama pela casa e de longe escuto vozes de criança na praia. Estão todos na praia e da cozinha cheiros maravilhosos sobem até o estúdio onde trabalhamos. Então, embora eu não goste de calor, sol e felicidade se entrelaçam. Amanhã é o último dia do ano mas no dia primeiro de janeiro de 2014, tudo continuará igual: nossa construção diária do cotidiano, da harmonia entre todos os que amamos, das pequenas felicidades que são como borboletas em trânsito, há que sorvê-las. 

domingo, 29 de dezembro de 2013

EM SAQUAREMA OUTRA VEZ

Aqui estou , em Saquarema outra vez. Sair da montanha , sem internet, sem telefone na minha casinha, é passar de um planeta para outro. Lá, o mercadinho mais perto está a 3km da casa. Sendo assim há que pensar bem nas compras porque não basta ir até a esquina. Passamos dias lindíssimos com filhos e netos e sobrinhos que vieram da Espanha. Passamos meu aniversário com um almoço num hotel tradicional , o primeiro de Mauá, O Hotel Buller. Há no Hotel um museu da memória de Mauá e é emocionante. Foram muitas vivências cheias de emoção. E chego e o mar já me invade com seu cheiro maravilhoso mas o calor é grande e eu na verdade não gosto de calor. Mas minha sobrinha espanhola me pergunta: _você não tem um leque? Digo que sim , mas não me lembro de usar, não tenho a cultura do leque. E ela me diz: _ pois todas nós, mulheres, na Andaluzia usamos. E passo a usar meu belíssimo leque espanhol, que todo feliz, radiante, me diz vento.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

ENCONTRO EM DUQUE DE CAXIAS

Foi lindíssimo ontem o encontro em Duque de Caxias. Encontros. Roger Mello e Carolina, minha editora da Rovelle, José Prado, Andrea do nosso Clube de Leitura e conheci Fábio Sombra.
Crianças e adolescentes fizeram apresentações que comoveram a todos. Regina Crivano , que na chegada nos levou a um restaurante ótimo, estava brilhando, radiante. Arnaldo, o taxista que me levou , e depois me trouxe até Resende, disse que nunca teve um dia melhor nas ua vida de taxista.
E uma escola de Caxias já vai agendar um dia na minha casa em Saquarema em janeiro.
Depois do almoço vou para Mauá. Chove muito aqui em Resende e soube que ontem o Rio ficou debaixo da água. É muito triste.Espero que todos os cariocas , amigos do face , estejam bem.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

AUSÊCIA

Vou agora cedinho para Duque de Caxias, um Encontro de Leitura e de lá vou para Resende e amanhã para Mauá. Na minha casinha da montanha não tenho internet, portanto ficarei ausente por um tempo. Escreverei quando puder, quando for até o ateliê da minha irmã, pois lá sim, há internet.
Não se esqueçam de mim!
E para me despedir , mais um poema do livro Rios de Alegria:

Alfabeto

É muito útil estudar
o alfabeto das flores miúdas
esquecidas na beira dos caminhos.
Pequenas florezinhas amarelas
como mensagens perdidas.
Elas dizem sim à vida, ao Sol,
à chuva, sim ao amor que nasce
todos os dias, invisível,
e com sua luz ilumina a Terra.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

RIOS DA ALEGRIA

Ainda do meu livro Rios da Alegria da ed. Moderna:

FELICIDADES

Pequenas felicidades
passeiam por nossos dias
como joaninhas na palma
da mão,
como um desenho de orquídea
trazido pelo vento.
Para não desperdiçá-las
há que estar sempre atento,
caminhar vagarosamente
pelos contornos da tarde,
encher os bolsos com a areia
dourada do tempo.

Amanhã viajo bem cedinho, vou para Duque de Caxias e de lá para Resende-Mauá ao encontro dos meus filhos e netos.

domingo, 8 de dezembro de 2013

TRIBO

Uma vez, numa conferência do Saramago estava presente, ele disse que no mundo há uma tribo da sensibilidade e essa tribo se reconhece sempre. Achei a ideia linda e fiaz um poema que está no livro Rios da Alegria, ed. Moderna:

TRIBO

Há uma tribo que sonha
e nunca esqueceu as asas.
E acredita em coisas simokes,
sol, pão, chuva, beijo, lua.
E mesmo quando o sangue
tinge as tardes e os rios,
e as palavras se transformam
em veneno, pedras e facas,
alimenta as sementes da esperança
com lágrimas e pequenos gestos limpos
para que virem árvore.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

MERGULHO

Dizem que um mês antes do aniversário a gente entra num inferno astral, não sei bem o que isso quer dizer, mas neste dezembro mergulhei profundamente para dentro , refiz percursos da minha vida, senti falta de amigos que se foram, senti falta dos pais. De certa maneira fiz uma viagem sujeita a ventos e tempestades. Saber o que realmente é vital para mim, o que realmente quero, é muito importante para que eu não mande sinais trocados para o Universo. Quero todos os meses passar uns 10 dias na minha casinha da montanha, perto dos netos e filhos. Quero viajar menos a trabalho e que meus filhos Guga Murray e Patricia de Arias levem o Livro-Concerto que tão maravilhosamente fazem juntos, em meu lugar. Quero cada vez mais consumir menos e chegar o mais perto possível do essencial.

E Nelson Mandela nos deixa órfãos de paz e beleza.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

HUMANOS

Ossos de 400.000 anos nos falam de outros humanos que não são os neandertais. Muitos humanos, diferente de nós, de uma maneira que nunca saberemos, habitaram este planeta e desapareceram deixando-nos em nossa solidão barulhenta e destruidora. Por que sobrevivemnos e os outros não? Será que por sermos tão violentos? Fantasio: eles, os outros, eram mais dóceis, mais compassivos, menis assassinos e então se foram , deixando para os cientistas um quebra-cabeças de DNAS. Imagino um grupo destes outros,  reunidos, contando histórias dentro da noite escura e perigosa. Não sei se já havia fogo, sou muito ignorante, mas se houvesse, a fogueira estaria acesa, e uma mãe tão jovem amamentaria o seu bebê, sem saber que sua espécie desaparecia.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

NOITE

Acordo ainda dentro da noite. Abro as portas do estúdio para que entrem as estrelas, a música do mar. A temperatura é perfeita. Nem os galos acordaram ainda. E não se adivinha a gestação da manhã. Gosto tanto deste momento único quando todos dormem, a rua inteira, o bairro, a cidade.E eu tão pequena existindo dentro da noite, carregando meus sonhos

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

AINDA DEZEMBRO

Ainda dezembro: Que cada um construa o seu dezembro e não se deixe sugar pelos shoppings , não se deixe abduzir pela histeria coletiva, mas saboreie as flores vermelhas, os amigos, os filhos, netos, os amados, os amantes, as lembranças, o Peru de Natal do Mário de Andrade, recheado com farofa. Que uma surpresa espreite em cada esquina e curva de dezembro. Para mim o nome do mês é tão sonoro que enche minha boca de castanhas e frutas raras. 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A ESCOLHA DE SOFIA

A Escolha de Sofia é um grande filme. Faz muitos anos que o vi num cinema, eu era jovem, a Meryl Streep também, lindíssima. Eu me lembrava de cada mínimo detalhe. Mas quando suas confissões ao jovem escritor a levam para Aushwitz, tive que desligar, não aguentei ver.

Ontem, num debate sobre política internacional a pergunta crucial era : " O mundo está menos perigoso?"
Deixo a pergunta no ar.

sábado, 30 de novembro de 2013

TÚNEL DO TEMPO

Entro no túnel do tempo. Eu morava numa chácara na Tijuca, R.J, no começo da década de 70. No porão tínhamos um estúdio. Nesta noite tínhamos dois convidados: Vitor Assis Brasil e um americano chamado Kenny. Franklin da Flauta chegou com sua namorada, Monica, uma mulher interessantíssima, linda, que me cativou desde o primeiro momento. Talvez eu estivesse grávida do meu filho Guga. Monica ficou minha amiga-irmã até que a vida fez uma curva e nos perdemos. Ontem ela me achou e me diz: "Minha memória é feita de flashes e sensações". Mas eu me lembro até das roupas que ela vestia, dos seus trejeitos de 40 anos atrás, e tenho que contar para ela.Ela me diz: _"Eu fiquei muito esquisita." E eu retruco: _"Ficou, não, sempre fomos esquisitas, por isso nos amamos." Dentro de alguns dia nos encontraremos. E o tempo será abolido.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

GAIVOTAS

Gaivotas

Gaivotas em sua rota de sal e ar.
Gaivotas mergulham,
abre-te-sésamo
e abrem o mar.

in O Mar e os Sonhos, ed Lê

Fui bem cedo ao mar. Por pura contemplação. Até virar espuma, até virar voo, até virar gaivota.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

LIVROS NOVOS

Alguns livros novos estão entrando em produção. Hora da escolha dos ilustradores.Meu livro de contos , Exercícios de Amor, para jovens e adultos, que sairá pela Lê, não terá ilustrações. Ainda não vi a capa, não vi nada. O livro sairá em janeiro.
Poço dos Desejos, que sairá pela Moderna, foi avaliado por mim como um livro infantil e parece que a editora o está considerando um livro juvenil e quer ilustrá-lo em preto e branco. Não digo nada, a poesia não tem fronteiras, apenas surpresas.
E o livro de poesia que entreguei ontem para a Lê, para jovens e adultos, me diz claramente que Elvira Vigna deveria ilustrar, é o meu desejo.
Será que estou de férias? Tenho vários originais já começados , mas aguardo o sinal verde das editoras.Então estou de férias! Mas não é bem assim. Escrever é o que me coloca em meu centro. Sem escrever eu quase me estilhaço. A poesia me amarra em mim mesma. É absolutamente necessária, ser poeta é meu ofício.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

DEZEMBRO

Nós, humanos, precisamos fazer marcas no tempo para suportar a imensidão do tempo e nossa estadia tão breve na Terra. Inventamos datas, festejamos aniversários, Natais, formaturas. E ao chegar dezembro refletimos sobre o ano que acaba , sobre nossos desejos para o próximo ano. Farei 63 anos em dezembro e tenho bem claro o que quero. Cada vez mais necessito de silêncio e valorizo o ouro puro das amizades. O que me faz mais feliz é doar felicidade a quem está perto de mim. A felicidade que posso dar ao outro é meu maior tesouro. Preparo todos os dias uma linda mesa de café da manhã para minha caseira e meu jardineiro. Eles que limpam minha casa e cuidam do meu jardim, ao chegar encontram um belo desjejum. Cuido muito de todos os que me cercam. A minha casa está aberta para os amigos, as escolas, professores, a quem quiser vir me visitar e conversar. Não quero nada além do que tenho. E gostaria muito que no ano que vem houvesse mais paz, menos desperdício, menos hipocrisia.E já estou pronta para receber dezembro que me traz tantas alegrias e flores.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

ESPERANDO O SOL

Amo a chuva, mas já gostaria de um raio de sol e se não fosse pedir muito, quem sabe um arco-íris. Tenho uma receita no livro Fio de Lua & Raio de Sol que fiz junto com a Patrícia de Arias. Os meus poemas são os de sol.

RECEITA DE ARCO-ÍRIS

Junte o fim de um temporal
(guarde seus trovões e raios
debaixo da cama)
com três raios de sol.
Misture bem na peneira do céu,
como se misturam sal e açúcar.
Deixe que as sete cores façam
o mais belo dos caminhos,
e então, na ponta dos pés
faça uma pirueta, uma careta,
e receba os aplausos.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

CACHORROS E GATOS

Ler um gato é muito diferente do que ler um cachorro. O gato é um texto que se esquiva, se esconde entre duas auroras, na fronteira entre o mágico e o irreal. O gato é sinuoso, seu texto é macio, é poesia, nunca se deixa apreender por inteiro. O gato é escorregadio, vive nas entrelinhas.
Para ler um cachorro não se precisa de óculos especiais. Seu texto é escrito em maiúscula, diz claro e em bom tom o que pensa e a que veio.
O cachorro é prosa, o gato é música, é poesia.

A UN GATO

No son más silenciosos los espejos
Ni más furtiva el alba aventurera:
Eres, bajo la luna, esa pantera
Que nos es dado divisar de lejos.
Por obra indescifrable de un decreto
Divino, te buscamos vanamente:
Más remoto que el Ganges y el poniente,
Tuya es la soledad, tuyo el secreto,
Tu lomo condesciende a la morosa
Carícia de mi mano. Has admitido,
Desde esa eternidad que ya es olvido,
El amor de la mano recelosa.
En otro tiempo estás. Eres el dueño
De un ámbito cerrado como un sueño.

Jorge Luis Borges, Obra Poética, Emecé Editores.

domingo, 24 de novembro de 2013

VIOLETA PARRA

Vi o filme "Violeta vai para o céu" sobre a chilena Violeta Parra que fez as canções mais lindas, os poemas mais lindos , recolheu o folclore do seu país e teve uma vida impressionante e trágica. O  filme é belo. Recomendo. O suicídio sempre nos desorganiza, nos deixa na beira do precipício e é um tema bastante complicado que as pessoas evitam, as famílias evitam. Violeta se suicidou. Como alguém que escreveu "Gracias a la vida" teve coragem de desistir da vida?

Meu novo livro Poço dos Desejos que sairá pela ed. Moderna já entrou em produção. Que cada um pense num desejo forte e verdadeiro. Desejos são perigosos, pois se realizam. 

sábado, 23 de novembro de 2013

VERDE E VERMELHO

Notícia em verde e vermelho:
O flamboyant do jardim já deu suas primeiras flores. É ele quem me anuncia dezembro, um mês sempre tão lindo e cheio de presentes. Chove e o jardim está perfumado de terra molhada e algas, está tão úmido que é quase se fosse uma pasta, daria para passar no pão. É um perfume inebriante. E um sábado maravilhoso para todos! 

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

TEMPO NUBLADO

Hoje, depois do calor infernal de ontem, o dia amanheceu macio e nublado, fresco, o jardim exalava felicidade e eu também. Não gosto de calor, minha pressão fica baixa e penso que vou definitivamente virar uma lesma com a inteligência de um alface. Basta um sopro de brisa para que eu me reanime e tudo comece a funcioar de novo dentro de mim.
Ontem vi um documentário duro sobre a matança de rinocerontes para a retirada de seu lindo chifre. É o mal em estado puro. Eles são tão belos e ainda por cima me levam de volta ao Sítio do Pica Pau Amarelo.Será que não há nenhuma campanha contra esta barbaridade?
Mas vamos fechar este post com alguma felicidade, me ajudem, quem sabe os cientistas tenham descoberto que os homens estão a um passo de dar um salto quântico em suas mentes e logo nenhum homem matará outro homem. E ainda não estamos sabendo.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

TROCA

Ao lado do ateliê da minha irmã em Visconde de Mauá há uma loja muito interessante, a loja da Edith. Ela vende uma linha de perfumes que amo, com cheiro de mato e é só o que uso, na verdade são águas de cheiro. Desta vez quando fui comprar o meu perfume de sempre , pois o outro já estava acabando, a Edith me disse: "vamos fazer uma troca? Troco o perfume pelos teus dois livros , o Diário da Montanha e o Abecedário de Frutas. E ainda tive troco! Achei o máximo trocar poemas por perfume, ambos são voláteis...

EXISTÊNCIA

Será que o destino
é um mapa
e se conseguir decifrar
o que está oculto,
os rios subterrâneos,
as pegadas no chão
de terra,
poderei responder ao poeta
"existirmos, a que será
que se destina?

Será que o destino
é uma teia
e somos nós as aranhas
e fabricamos as esquinas,
as bifurcações
com nossa saliva?

Basta seguir a seta
onde se lê a palavra
vida?

in Diário da Montanha, ed. Manati, Prêmio O Melhor de Poesia de 2013, F.N.L.I.J

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

PARA ENCONTRAR

No dia da Consciência Negra dedico este post ao Salgado Maranhão, poeta negro contemporâneo, maravilhoso, com reconhecimento pleno. Dedico também ao meu cunhado Jesus, antropólogo negro, estudioso das africanidades (palavra inventada ou já existe?), com uma cultura absurda. E façamos um jogo de memória:
Quantos astrônomos negros você conhece? Quantos químicos? Quantos médicos? Quantos professores universitários? Quantos engenheiros,biólogos, cientistas? Diplomatas? Quantos cineastas? Inventores? A lista é longa, por favor, me ajudem e completem.
Mas quantos zeladores, porteiros, caseiros, empregadas domésticas, auxiliares de enfermagem, guardas de trânsito, bombeiros, PMs negros vemos por aí?
Nenhum preconceito contra nenhuma profissão.Todas as profissões são absolutamente dignas. Mas existe um abismo entre negros e brancos em nosso país e só há uma saída: a educação. 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

POEMA PARA GABRIELA

Gabriela é o sonho mais sonhado
em cada raio de sol
em cada som do luar.
Gabriela é gente e é lugar
onde o amor, onda imensa,
vem desaguar.
Gabriela nasceu com poeira
de estrelas nos olhos
e nas mãos um feixe de sementes
de felicidade.
Gabriela é o sonho mais sonhado
no âmago da noite
na primeira gota de luz.

da vovó Roseana para a neta Gabriela

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

GABRIELA AKEMI

Fiquei desaparecida por alguns dias pois no dia 12 à noite, em Saquarema fui avisada de que minha nora Daniela entrava no hospital em Resende, em trabalho de parto. O bebê estava adiantado por duas semanas . Eu não quis avisar a ninguém. Saí no dia seguinte bem cedo ao encontro da minha neta que nasceu às 22.30 do próprio  dia 12. Gabriela foi muito sonhada e esperada. Por muitos anos ela foi esperada. Ela é lindíssima. Não me canso de olhá-la. E minha mãe que nos últimos dias nos visitou (a quase todos da família) em sonhos, hoje nos fez uma surpresa: alguém mandou a sua foto com meu pai para a minha irmã. Eles estão jovens e lindos. Uma foto que ninguém conhecia. É como se dissessem: estamos vendo a Gabriela.
André me pediu para ir com ele para Mauá, pois estava muito triste por ter que se separar da sua filhinha por três dias, mas tinha que abrir o restaurante. Fui então para a minha casinha do bosque. Não quis avisar a ninguém , pois sábado teríamos nosso encontro do Clube de Leitura para discutir AS BRASAS do Sandor Marai. Como eu poderia faltar ao meu próprio Clube? Mas Juan cuidou de tudo e Maria Clara foi a mediadora. Tive medo de avisar. E se as pessoas desistissem de ir? Mas aqui estou, em Resende, com os netos e internet. Volto para Saquarema na quarta.E envio muito amor para todos.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

TIA ALICE

Eram três irmãs inseparáveis ao longo de toda uma vida. Alice, Berta, Cecília. Berta, minha mãe e a tia Cecília, já se mudaram para as estrelas com malas e malas abarrotadas de histórias e amor. Tia Alice me recebeu em seu lindo apartamentozinho em Teresópolis, onde com 86 anos, mora sozinha, cozinha magnificamente, vai ao banco, faz compras, e lê muito, é uma leitora. Parece uma menina de 20 anos, sempre aberta para as novidades e para o mundo. Ela habita as minhas mais remotas lembranças, pois quando eu tinha uns 3 anos me levava para passear. Ela carrega a memória da minha mãe criança por isso além de ser linda, ela é muito preciosa . Que viva até 126 anos fazendo as suas inesquecíveis tortas de legumes!

Voltei para casa e a internet desapareceu por dois dias. Mas agora estou aqui.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

OFICINA LETRAS DO BARRO


Estou em Teresópolis. Hoje à tarde vamos, eu e minha irmã ceramista Evelyn Kligerman, para a E.M Professora Aclimea , no bairro São Pedro , dar uma oficina de barro e poesia. As crianças fabricarão azulejos com frutas para fazer um pequeno mural na escola, inspirados no meu livro Abecedário (Poético) de Frutas da Ed. Rovelle. A escola, onde estivemos ontem para o Livro-Concerto Fio de Lua & Raio de Sol com meu filho e minha nora, é absurdamente espetacular. As crianças escolhem o que vão estudar. O horário é integral. Agora escolheram estudar os trens e então paralelamente pesquisam Villa Lobos e seu trenzinho Caipira. Estudam mitologia grega. Leonardo Da Vinci , estudam vulcões, vão estudando o que lhes interessa!!! Eles fazem uma horta orgânica, um lindo jardim. É uma escola irmã da E.M.Hermann Muller, em Joinville E se todas as escolas do Brasil fossem assim, o que aconteceria?  



























































































































































































































































































































terça-feira, 5 de novembro de 2013

EM MAUÁ

Aqui em Visconde de Mauá está chovendo muito, o dia inteiro. Depois de seis dias dentro da mata sem celular nem internet volto para o mundo. Para falar no telefone eu tinha que ir até o Babel Restaurante , perto da minha casinha, mas longe o suficiente para me deixar fora do ar. O livro que estou lendo combina com tudo à minha volta: é uma linda história de amor com muitas outras histórias de amor dentro dela. Uma das histórias é a de um fotógrafo que se apaixona loucamente por uma moça linda que foi emparedada por seu marido e ficou perfeita até seu corpo ser descoberto por acaso 70 anos depois. Era o fotógrafo oficial da cidade e ele fotografava os mortos para a polícia. O livro, que leio pela terceira vez, é El Jinete Polaco do escritor espanhol Antonio Muñoz Molina e é uma obra-prima.
Hoje estou aqui no ateliê da minha irmã e durmo aqui. Amanhã vamos para Teresópolis. Dia 7 meu filho Guga Murray e minha nora Patricia de Arias estarão no palco do SESC Teresópolis às 10hs da manhã. Eu e minha irmã Evelyn Kligerman estaremos em alguma escola cujo nome não sei, fazendo um encontro da poesia com o barro.
E dia 9 volto para Saquarema. Não se esqueçam de mim!

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

MAUÁ À VISTA

Amanhã vou para Resende-Mauá ver meus filhos e neto. Minha casinha do bosque me espera. Vou ler pela terceira vez o livro El Jinete Polaco do Antonio Muñoz Molina, por quem sou apaixonada e que acaba de ganhar o Prêmio Príncipe de Astúrias. É um livro que pede silêncio e o sussurro das folhas.

Ficarei fora por algum tempo, já que de lá vou direto para o Sesc Teresópolis onde a família vai trabalhar unida. Guga Murray, meu filho e Patricia de Arias, minha nora, dia 7 com um Livro-Concerto e não sei que surpresas Patricia prepara. Dia 8 eu e minha irmã Evelyn Kligerman, ceramista, estaremos em alguma escola, ela vai dar uma oficina "Letras do Barro" e eu vou conversar com os leitores. 

Escreverei onde tiver internet.

domingo, 27 de outubro de 2013

UM ASSUNTO AQUI E OUTRO ALI

Começo o domingo com o sol nascendo atrás da Igreja, atrás do morro, a praia imensa e vazia, apenas um pescador. Beleza em estado absoluto.

O ser humano não consegue viver sem um bode expiatório? Sempre a culpa é do outro? Agora é a vez dos ciganos, a segunda vez em que são um alvo tão atacado. Hitler já os odiava e matava e agora a situação deles é terrível na França. Odiados porque misteriosos, Lorca os amou e cantou nos poemas mais maravilhosos e evoco sua música para protegê-los

A GUITARRA

Começa o pranto
da guitarra.
Quebram-se os copos
da madrugada.
Começa o canto
da guitarra.
É inútil calá-la.
É impossível calá-la.
Chora monótona
como chora a água,
como chora o vento
sobre a nevada.
É impossível
calá-la.
Chora por coisas
distantes.
Areia do Sul quente
que pede camélias brancas.
Chora flecha sem alvo,
a tarde sem manhã,
e o primeiro pássaro morto
sobre o ramo.
Oh! guitarra!
Coração malferido
por cinco espadas.

Federico García Lorca, Poema do Cante Jondo, in Obra Poética Completa, tradução de william Angel de Melo, ed. UNB 

Meu filho Guga Murray está hoje em Salvador com uma oficina de música para professores do Ensino Fundamental e um Livro-Concerto. Guga, quando morava em Granada tinha amigos ciganos e quando traduzi o espetáculo Pequeno Poema Infinito, para o José Mauro Brant, Guga tirou a dúvida de algumas palavras com seus amigos ciganos. Gostei mito de fazer uma tradução artesanal, apenas com dicionário de papel, a consultoria do Juan e dos amigos do Guga de Granada. Os textos eram lindíssimos e eu quase sufocava de emoção. Não há nada mais belo do que um poema do Lorca.

sábado, 26 de outubro de 2013

DIA DAS BRUXAS

Passei um Dia das Bruxas no Canadá, em Toronto em 1972, na casa de uns amigos que tinham dois filhos de uns 7 e 8 anos. Participei da construção da abóbora. O bairro era lindo, só de casas e parecia um filme ver aquelas crianças correndo fantasiadas de bruxas e fantasmas correndo para lá e para cá pedindo doces. É uma festa deles, o Haloween nunca pegou de verdade por aqui, é uma festa de tradição celta. Milhares de mulheres foram mortas e bem queimadas por bruxaria na Idade Média, a Inquisição tinha Manuais para ajudar a reconhecê-las. Mas adoro a figura das bruxas e suas vassouras voadoras , um meio de transporte espetacular, porque silencioso e não poluente. Ser mulher é ser um pouco bruxa, já que nascemos sabendo tantas coisas, somos intuitivas e curamos com nosso amor.Peço então que ajudem a divulgar nas escolas o meu e-book A Bruxa da Casa Amarela, ( no site www.roseanamurray.com) a história de uma bruxa jardineira que inventa flores maravilhosas e vive entre dois mundos. As ilustrações do Caó são muito divertidas. Conto com vocês!

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A BRUXA DA CASA AMARELA

Acordei e estava ainda escuro.A lua ainda no céu.  Tomei café na varanda . É lindo ver amanhecer. Abro o computador um pouco ansiosa, pois o Gabriel, o menino que cuida do meu site iria colocar o meu e-book A Bruxa da Casa Amarela hoje. Mas ele primeiro me enviou a prova e eu já disse que sim, está tudo certo, então a qualquer momento meu e-book entra no ar.
Na verdade o texto teria que ter sido publicado por alguma editora, mas como estavam demorando muito para me responder, eu tive a ideia de fazer o livro digital para que as escolas pudessem usá-lo.Assumi os custos e é um presente para meus leitores. Adoro os desenhos do Caó, são lindos e divertidos. Ficou muito bom, eu amei, agora é só esperar um pouco.A minha amizade com o Caó vem de longa data. Nos conhecemos na casa de uma amiga em comum na Bahia, na praia de Ipitangas (acho que é esse o nome) e ele dirigia um jipe muito original que ligava com um palito de sorvete. Ele me mostrou seus desenhos e escrevi a historia do jipe que foi publicada pela ed. Memórias Futuras que se desmanchou. O livro foi para a ed. Moderna e infelizmente Caó não fez as ilustrações da segunda edição, que saiu com os belos desenhos da Helena Alexandrina. O livro existe e se chama Carona no Jipe. Agora Caó está fazendo um filme sobre a nossa Casa Amarela que já virou personagem.
Kira, minha neta de estimação, me deu a ideia da história do e-book e fez o desenho de abertura. Ela agora tem 8 anos e mora em Barcelona. Ela também está esperando para mostrá-lo na escola . Bom, isso é magia, que várias crianças possam ler o livro ao mesmo tempo em vários lugares!   

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

ESPELHO DO CORPO DO OUTONO

Meu corpo está no outono. Farei 63 anos em dezembro. Sinto que minha alma cresce enquanto meu corpo diminui. Alguns sentimentos pertenciam mais ao corpo: raiva, por exemplo. Tenho menos raiva . O perdão vem mais fácil, não tenho que lutar com ele , talvez já raramente me ofenda. Isso me faz bem, me deixa respirar. Sei que diante da tela em branco, diante de uma folha em branco, sempre conseguirei escrever alguma coisa. Já não duvido tanto de mim. Meu corpo está no outono e o outono é belo em sua melancolia, em suas folhas que o vento espalha, talvez este desfolhamento seja a minha poesia voando por aí.

ESPELHO DO CORPO DO OUTONO

Você já viu a mulher
como carrega o corpo do outono?
Primeiro ela mistura o rosto e a calçada
depois tece um vestido com os fios
     da chuva
as pessoas
     na cinza da rua
são brasa apagada.

ADONIS,  in Poemas,Cia das Letras

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

ERA UMA VEZ

Uma vez, não sei quanto tempo faz, autores e ilustradores foram chamados ao Jardim Botânico para fazer uma atividade com Escolas Municipais. Sentamos em volta de alguma árvore maravilhosa. Li meu livro Uma História de Fadas e Elfos, da ed. FTD, lindamente ilustrado pela Elvira Vigna. É uma história estranha, nem sei se gosto dela. Conversamos, e quando acabou e já nos dispersávamos, um menino grande, deveria ter uns 12 anos, se abraçou com a árvore , fechou os olhos e disse baixinho: _Eu sou o elfo.
Este é o poder curativo das histórias, da literatura. Eu sou o outro, não importa se elfo , elefante ou ser humano.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

VERÃO

Chegou o verão antes do verão. Como um convidado que envia suas bagagens antes da data marcada para a sua presença. Não é só o calor, é a qualidade do ar, o cheiro do ar, a tonalidade do canto dos pássaros e a luz. 
Em nosso estúdio escolhi a janela que dá para as montanhas, mas num primeiro plano há o casario, os telhados. Gosto das telhas mais escuras, mais velhas, cheias de limo. Nelas meu olhar descansa por alguns instantes . Gostaria de percorrer suas texturas como os gatos. Agora sopra um vento ameno, mais frio, vem do mar que está nas minhas costas.  Também o ritmo do canto do mar muda no verão. A música do mar já se misturou com meu sangue, com certeza tenho salitre em minhas veias e alguns restos de madeira velha de barcos .
Como não gosto de fotografar, escrevi a fotografia deste instante.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

NOTÍCIA MARAVILHOSA

Ontem li no O Globo uma das notícias mais lindas que já caiu nas minhas mãos: O pedreiro Evando dos Santos, analfabeto até os 18 anos, fundou uma biblioteca na Vila da Penha , Rio de Janeiro, com 55 mil livros. Mistura de filósofo, poeta , vidente, sonhador , mantém a biblioteca com seus mínimos recursos. Seu discurso é tão lindo que deveria ser chamado para dar palestras de formação de leitores. Por favor, meus leitores, busquem a matéria! Secretarias de Educação, façam contato com este homem maravilhoso!

Ontem li a crônica da Martha Medeiros e me identifiquei muito, mas estou no facebook e ela não.Acho muito positivo meus leitores me acharem. Só que cada vez mais busco a simplicidade, a lentidão, a contemplação, o que é essencial. Meus quase 63 anos me dão licença poética para viver apenas o que quero viver. E hoje leio que há um movimento por menos consumo de notícias dentro da rede. Falando em consumo sou anti consumista por convicção, só compro o que é necessário, conserto os objetos até não dar mais. Gosto das coisas gastas.

Vi um filme iraniano que me impactou: A Separação. O que o medo é capaz de fazer com as pessoas! Medo de amar, de falar o que se sente, e o que se sente vai se avolumando , vira um novelo terrível.  É tão bom a gente dizer o quanto a gente ama quem está perto da gente, amigos, amores, filhos, gatos, cachorros, netos.

sábado, 19 de outubro de 2013

CHÁ LITERÁRIO

Ontem fui homenageada com um Chá Literário em São Gonçalo e a emoção foi imensa, a energia era a do afeto, entusiasmo, plateia linda falando de livros. Éramos muitos autores e cada um falou do seu passado como leitor e do seu processo de criação. Mas antes, a surpresa: cada um leu um poema do Abecedário (Poético ) de Frutas e tinha que falar da sua relação com a fruta linda. Uma delícia.
Voltei para casa voando de felicidade. Dormi com um temporal imenso e acordei mergulhada num dia azul.  

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

EM MADRID

Fui a Madrid pela primeira vez em 1994, quando recebi meu Diploma de Honra do I.B.B.Y em Sevilha. Havia conhecido um jornalista ao sair do aeroporto no Brasil,. Ele era espanhol e trabalhava no El País. Eu mal sabia que a partir daquele momento nossas vidas estariam para sempre ligadas. Voltei a Madrid em 1997 para encontrar meu grande amor e e ele me perguntou: _" Você conhece Antonio Machado?" Eu não conhecia e fui buscá-lo. Comprei uma edição lindíssima de capa dura e me sentei num bar onde li sua poesia pela primeira vez. Poesia linda e musical, completamente imersa na magia da natureza. Hoje, com a casa cheirando a algas, com a música do mar, tão longe daquele dia em Madrid , abro o livro do poeta e sua poesia me traz aqueles momentos de volta, com apenas um verso: "Hoy es siempre todavia"
Ou seja, tudo pode acontecer hoje, pois hoje é ainda. E naquele "hoje" tão distante, meu futuro estava sendo urdido em silêncio com os fios da vida.

CLXVI
(Viejas Canciones)

   A la hora del rocío,
de la niebla salen
sierra blanca y prado verde.
El sol en los encinares!
   Hasta borrarse en el cielo
suben las alondras.
Qui´pen puso plumas al campo?
Quién hizo alas de tierra loca?
   Al viento, sobre la sierra,
tiene el águila dorada
las anchas alas abiertas.
   Sobre la picota
donde nace el río
sobre el lago de turquesa
y los barrancos de verdes pinos:
sobre veinte aldeas,
sobre cien caminos...
   Por los senderos del aire,
señora águila,
donde vais a todo vuelo tan de mañana?
...............................................................................
Antonio Machado, Espasa Calpe, Poesías Completas.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

NA MINHA PASÁRGADA

Na minha Pasárgada eu seria bailarina, meu corpo leve como o ar. Dançaria noite e dia. Na minha Pasárgada eu seria cantora, teria uma voz rouca de algodão.Na minha Pasárgada andaria de bicicleta, como o poeta. Na minha Pasárgada faria magias. Na minha Pasárgada não existiria dor nem crueldade . Ninguém nunca seria humilhado. Na minha Pasárgada não seria preciso ser amigo do Rei, apenas carregar nas mãos sementes de amor.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

PRIVACIDADE

Há uma grande polêmica em torno das biografias não autorizadas. Sou contra a proibição. Podem nos caluniar de tantas maneiras pela rede ou pela boca mesmo. Isso deve ser tão antigo quanto a humanidade.
Uma vez falaram uma coisa terrível de mim quando estive em Friburgo, eu acho, com o Proler. Disseram que eu deixei uma conta de vinho sem pagar no hotel. Acontece que dinheiro público para mim é tabu igual incesto e eu tenho lá o meu código de ética, cada um tem o seu. Preferiria morrer de sede ou de fome do que fazer algo assim. Como se desfaz uma calúnia dessas? A pessoa nem escreveu para que eu pudesse processá-la. Com o livro escrito é mais fácil, a gente pode brigar na justiça. E como esconder alguma coisa hoje em dia? O nosso último reduto, onde guardamos nossas loucuras, segredos terríveis, nossas sombras, desejos inconfessáveis, fantasias que não podem ser ditas, é o nosso pensamento.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

LIÇÕES DE VIDA

Tenho meus livros para aeroporto e avião. Tem que ser grosso, tem que me agarrar. Geralmente eu os compro na Rodoviária ou no aeroporto, pois adoro a aventura de encontrar um livro que me chame no meio de tanta auto ajuda, tanta coisa  tão fora do meu universo. Desta vez, voltando de Visconde de Mauá comprei Lições de Vida de Anne Tyler (o livro ganhou o Pulitzer Prize) e me apaixonei pelo livro desde a primeira linha.Tudo acontece na estrada com um casal que vive junto há 28 anos e está indo para um funeral. Não conto mais para não estragar o prazer dos leitores.

O próximo encontro do nosso Clube de Leitura será dia 16 de novembro. Já está lotado. Vamos discutir sobre o livro As Brasas do Sandor Marai. O livro é uma maravilha, uma obra prima. E teremos, eu acho, algumas surpresas.  

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

VENTO

Venta muito. Desde alguns dias o vento é constante e de tanto soprar desarruma algumas coisas dentro da gente.

Leio artigos interessantes sobre o crescimento dos países. Por que os países precisam crescer? O crescimento traz destruição. Os países precisam dividir a sua riqueza e pensar em bem estar , cultura, felicidade.

Um artigo interessante fala de rádios clandestinas para países fechados. Uma rádio israelense que transmite para o Irã em persa. A rádio tem uma grande audiência no Irã. Por que não se faz uma política de aproximação e amizade entre países inimigos?

Tenho horror a qualquer tipo de censura. E o que é diferente de mim me atrai. Tenho amigos de todas as idades , classes sociais, gostos sexuais. Por que dividir os seres humanos em categorias? Somos todos humanos, os animais ma is predadores do planeta, os animais mais sublimes do planeta: Fabricamos arte e fabricamos morte.

domingo, 13 de outubro de 2013

O PODER DA LITERATURA

Luiz Ruffato fez um discurso impressionante, duríssimo e verdadeiro , na Feira de Frankfurt. Reproduzo um trecho emocionante:

"Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro --seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual-- como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora."

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

CANÇÃO DE NINAR DO MAR

Ontem , ao voltar de Bacaxá para Saquarema, encontrei o Maestro Moisés no ônibus. Maestro Moisés criou um coral belíssimo na E.M.Castelo Branco (penso nesta escola como um belo castelo branco num país encantado, pois é inadmissível que escolas tenham nomes de generais da ditadura) e criou outros corais. Maestro Moisés fez a cidade cantar. Seu trabalho deveria ser tombado pela Secretaria de Educação e Cultura.

E toda hora alguém me diz: -Como são lindos os poemas da sua nora, Patricia de Arias:

CANÇÃO DE NINAR DO MAR
Canta o mar,
baila a espuma
e os golfinhos
beijam a lua.

A noite chega ao mar:
caracóis ajoelhados
fazem a sua cama
sobre as oindas.

O mar se balança, mexe,
adormece,
enquanto o vento canta
canções de ninar.

Patricia de Arias, in Fio de Lua & Raio de Sol
 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

TRANQUILIDADE

Voltei de Visconde de Mauá ontem no final do dia. Exausta, pois não é uma viagem qualquer, é como passar de uma dimensão para outra. Durante o trajeto perco muita energia. Choveu todo o tempo em que estive lá e fazia um frio intenso, úmido, por causa da chuva. Foi magnífico mergulhar na mata. As saracuras vinham até quase a porta da casa com suas cores belíssimas de outono. Um esquilo brincou com um jacu em cima da árvore e o fogo crepitava enquanto as horas escorriam lentas. Terminei o romance do Agualusa, O Vendedor de Passados e penso que deve ser muito triste modificar um passado ou uma genealogia, somos o que vivemos e nossos ancestrais.
Tranquilidade , esta é a palavra exata para os dias que passei dentro do bosque. Li, escrevi 3 poemas, fiz meditação, alongamento e sobretudo contemplei a mata por horas seguidas.
E apresento aos meus leitores uma jovem poeta de 14 anos, minha amiga real, que vive em Madrid. Eu a conheci com 2 anos e para mim é uma surpresa ler a sua poesia tão bela, tão firme, tão madura. Seu nome é Ines e acho que terá um caminho iluminado .Espero que possam saboreá-lo em espanhol


Tranquilidad
Si fuera un color, sería blanco entero
Si es un sonido, el silencio bajo el mar
Si hablamos de tacto, es como el deshielo

Como el ojo de un huracán que destruye sin parar,
Es un vacío que no te produce miedo,
Algo inmóvil cuando el mundo quiere girar.

Es la ausencia de toda debilidad,
Y hay algo con lo que lo quiero comparar,
Es como un aleph, siento tranquilidad.

INES

terça-feira, 1 de outubro de 2013

TATO

Só ao chegar em Resende vi meu livro Fio de Lua & Raio de Sol. Metade meu. Metade da Patricia de Arias, minha nora. Mas os poemas se interpenetram, como a luz escorre durante o crepúsculo e o dia se mistura com a noite.. Tatear a capa, suas folhas, seu formato, cheirar o papel, é tudo emocionante. Os poemas fazem um todo cheio de emoção e harmonia. Aos meus leitores recomendo o livro. É da Ibep Jr.
A alegria de ter meus filhos e neto bem junto de mim...São como orquídeas raras. São minha âncora.