segunda-feira, 31 de outubro de 2011

DIA D

Hoje é o DIA D de Drummond que será comemorado todos os anos em Brasil e Portugal. Hoje o poeta faria 109 anos. Escolho um poema que sempre me emocionou muito e agora ainda mais, depois que minha mãe partiu:

PARA SEMPRE

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura,
ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
in Lição de Coisas

domingo, 30 de outubro de 2011

RUAS

Lembro de todas as ruas onde morei e da sensação que cada uma me despertava, a atmosfera que me envolvia ao entrar em minhas ruas.
Meu primeiro endereço foi na Rua Araxá, no Grajaú, na Zona Norte do Rio. A rua era linda, só de casas e prédios pequenos. O nosso edifício tinha miosótis na frente e as flores azuis me acompanharam por toda a vida.
A Rua Barão do Bom Retiro, para onde nos mudamos quando eu tinha uns 5 anos era feia, suja, com um movimento incessante. Mas na frente da nossa casa, do outro lado da rua, morava a minha avó e isso transformava a rua.
A Rua Caruaru para onde fomos quando eu tinha uns 8 ou 9 anos, era uma rua calma. Nossa casa, morávamos num sobrado, está intacta na minha memória, com cada azulejo, cada recanto. Na frente da nossa casa havia um orfanato e eu tinha muita pena daquelas crianças sem pais.
Então me mudei para Juiz de Fora, depois do meu casamento e tantas ruas fazem parte da minha vida.

RUAS

Por que ruas tão largas?
Por que ruas tão retas?
Meu passo torto
foi regulado pelos becos tortos
de onde venho.
Não sei andar na vastidão simétrica
implacável.
Cidade grande é isso?
Cidades são passagens sinuosas
de esconde-esconde
em que as casas aparecem-desaparecem
quando bem entendem
e todo mundo acha normal.
Aqui tudo é exposto
evidente
cintilante.Aqui
obrigam-me a nascer de novo, desarmado.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

BOITEMPO III

sábado, 29 de outubro de 2011

LÁ VEM O LUIS

Lá vem o Luis, meu livro novo, finalmente chegou aqui em casa depois de meses de espera pela entrega do meu lote de exemplares. O livro já estava sendo vendido e eu não conseguia receber a minha cota. Fiz um texto bem bonito sobre a chegada de um filho, desde o momento da concepção até a velhice. É um um livro que serve para qualquer mãe, pai, avô, avó, basta trocar o nome Luis para o nome da criança que se quiser.
A fabricação do texto foi bem interessante: a ed. Leya me escreveu pedindo um texto com máxima urgência para inscrever num programa do governo. Eu tinha 2 poemas para o Luis, meu neto e 1 poema para o Dia da Criança que fiz para a Folhinha de São Paulo. Sentei na cadeira de balanço com os 3 poemas no colo e a idéia inteira na cabeça. Escreví todo o texto ao redor dos 3 poemas. Escreví num caderno, e na mesma tarde tinha o texto pronto. E agora espero que o pequeno livro emocione muitas mamães por aí. E lá vem o Luis, meu neto, de verdade, em carne e osso!!! de avião, de Granada para Sao Paulo, de São Paulo para Visconde de Mauá e eu não vejo a hora de sentir o seu cheiro, pois nos vemos bastante pelo skype mas não posso farejá-lo e isso é horrível! Vamos passar muitos dias juntos e no final de 2012 Luis virá morar no Brasil, se tudo der certo. Se tudo der certo, Guga dará aulas de música e abrirá um lugar em Penedo para vinhos e "tapas". As "tapas" espanholas são uma invenção maravilhosa: junto com o cálice de vinho o cliente recebe uma entradinha, um petisco que já está incluido no preço do vinho. Já vejo a família numa casinha em Penedo, que é um lugar lindo, bem pertinho de Visconde de Mauá, a bicicleta do Luis encostada na cerca...

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

EDUCAÇÃO

Manuela, de quem sou fada-madrinha, agora trabalha numa biblioteca numa escola e numa pousada. Ano que vem termina a Faculdade de Pedagogia .
Manuela me conta: em sua escola muitos professores estão querendo sair do magistério, estão querendo trabalhar em outras coisas. Manuela me conta outras coisas tristes :como os alunos estão agressivos, como não ouvem, como não respeitam.
E me diz que não quer mais trabalhar com educação, prefere turismo. Diz que não tem estrutura emocional para brigar tanto por alguma coisa. Enquanto falava isso ela tocava em seu coração e dizia, "eu não aguento".Prefere o trabalho na Pousada e quer seguir este caminho.
Decidimos juntas que ela fará uma pós em Turismo e Hotelaria.A Educação perde uma pessoa sensível,delicada, criativa, cheia de idéias. Uma pessoa lindíssima.Manuela ama dança e teatro. É uma pena imensa, mas eu a entendo. Os professores, muitos, estão desistindo e é a escola que precisa mudar. Não apenas uma ou outra escola , mas todo o sistema está equivocado.Se a escola fosse o que pensamos que deveria ser, um ambiente maravilhoso e criativo,um celeiro de idéias, se os professores fossem estimulados a criar e ganhassem excelentes salários, não desistiriam.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

CORA CORALINA

Ontem almocei com as minhas editoras e amigas Silvia Negreiros e Bia Hetzel. O gato da Bia, o Bem, depois de um ano sem me ver me reconheceu e foi carinhosíssimo comigo, conversamos muito. Ele gostou do cheiro das minhas gatas e não quis se despedir de mim, pois esteve todo o tempo na sala e quando fui embora , ao tentar me despedir dele, ele havia desaparecido. Recomendo com paixão os livros que a Manati está produzindo para o tablet. São MARAVILHOSOS! e custam apenas US1 cada um. Quem tem tablet não pode perder.

Recebí hoje da minha cunhada Maria Amália Kligerman um texto comovente que (diz o enunciado do texto) faz parte de uma entrevista. Parece ser verdadeiro, mas como não tenho a referência e a rede não é confiável, não posso jurar. Mas é uma lição de vida, de qualquer maneira:

"Eu não tenho medo dos anos e não penso em velhice.
E digo prá você, não pense.Nunca diga estou envelhecendo, estou ficando velha. Eu não digo. Eu não digo estou velha, e não digo que estou ouvindo pouco.
É claro que quando preciso de ajuda, eu digo que preciso.Procuro sempre ler e estar atualizada com os fatos e isso me ajuda a vencer as dificuldades da vida.
O melhor roteiro é ler e praticar o que lê. O bom é produzir sempre e não dormir de dia.

Também não diga prá você que está ficando esquecida, porque assim você fica mais.Nunca digo que estou doente, digo sempre: estou ótima.
Eu não digo nunca que estou cansada.Nada de palavra negativa. Quanto mais você diz estar ficando cansada e esquecida, mais esquecida fica.
Você vai se convencendo daquilo e convence os outros. Então silêncio!Sei que tenho muitos anos.
Sei que venho do século passado, e que trago comigo todas as idades, mas não sei se sou velha não.
Você acha que eu sou?Posso dizer que eu sou a terra e nada mais quero ser. Filha dessa abençoada terra de Goiás.
Convoco os velhos como eu, ou mais velhos que eu, para exercerem seus direitos.Sei que alguém vai ter que me enterrar, mas eu não vou fazer isso comigo.
Tenho consciência de ser autêntica e procuro superar todos os dias minha própria personalidade, despedaçando dentro de mim tudo que é velho e morto, pois lutar é a palavra vibrante que levanta os fracos e determina os fortes.
O importante é semear, produzir milhões de sorrisos de solidariedade e amizade.Procuro semear otimismo e plantar sementes de paz e justiça.
Digo o que penso, com esperança.Penso no que faço, com fé. Faço o que devo fazer, com amor. Eu me esforço para ser cada dia melhor, pois bondade também se aprende.Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir."
(Cora Coralina)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

MEDITAÇÃO

Amanhã saio bem cedinho , às 5:25hs da manhã. Com o horário de verão ainda é noite. Vou para o Rio, para a Meditação com o grupo de mulheres da Helô. Amo a meditação que a Helô conduz - o healling. Saio feliz e renovada, apesar do cansaço da viagem.Além disso vejo amigas muito queridas, isso é uma grande felicidade.
Hoje terminei um livro novo para a ed. Rovelle, fiquei radiante com o resultado. Acho que os poemas ficaram muito bons. .Terminar um trabalho é uma mistura de alegria com orfandade, já que os poemas já existem e existem fora de mim! Que alcancem lugares longínquos...

NOTÍCIA MARAVILHOSA

Ontem Maria Clara, professora e poeta, leitora apaixonada, esteve aqui em casa no final da tarde e conversamos muito sobre educação. A escola hoje é medieval e não atende aos anseios dos jovens. Mas, diz ela, nas minhas Rodas de Leitura seis alunos vibram, seus olhos brilham, então sei que há esperança.
E hoje, quando abro minha caixa de correio, encontro a notícia maravilhosa que ela me enviou:


Paredes coloridas e limpas, canteiros com flores, livros espalhados pelos corredores, e, na entrada, o simpático recado: "Você está entrando em uma escola de leitores".

É o Centro de Educação Integrado 1º de Maio, uma escola municipal que está encantando alunos e pais pelo ambiente acolhedor e qualidade de ensino.

A escola fica em uma região em que se localizam três favelas violentas no Rio de Janeiro. Há pouco tempo, era um colégio que desagradava os moradores, mal cuidado e com poucas iniciativas para melhorar o ensino na região.

Tudo mudou em 2005, depois que a instituição passou a ser dirigida pela ex-servente escolar Sueli Gaspar, vitoriosa, após ter passado por quatro concursos públicos até chegar ao cargo de diretora-geral.

Sueli transformou a escola e a vida dos alunos. O estopim inicial foi reformar a escola de ponta a ponta.

"Um espaço de ensino bagunçado faz com que os alunos se sintam desvalorizados. Antes de pedir respeito, precisamos dá-lo. Depois da reforma, demos outro passo: ensinamos que a escola é de todos e precisa ser cuidada", conta.

Paralelamente às mudanças estruturais, a equipe de professores, coordenadores e diretores também buscou novas formas de melhorar a qualidade do ensino. Criaram algumas regras junto com os pais, como pontualidade no horário e presença em sala de aula todos os dias.

Também descobriram que não bastava oferecer as disciplinas básicas, como português, matemática e ciências. Logo, foram criadas aulas de reforço, oficinas com sucata, aulas de pipa, teatro, dança e poesia, salas de leitura confortáveis, brincadeiras de cantigas e ritual de relaxamento diário.

O resultado foi concreto: os alunos passaram a ter prazer de ir à escola e a instituição ficou em primeiro lugar dentre 750 escolas municipais do Rio de Janeiro, ao tirar a nota 8,1 na Prova Rio deste ano.

"Assim como a educação transformou minha vida, eu queria transformar a vida dessas crianças. E é isso que eu estou fazendo”, afirma Sueli.

Fonte: Revista Bons Fluidos / Planeta Sustentável / O Dia / Globo Educação

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

MOSTEIRO ZEN

Quando voltava de João Neiva entramos numa estradinha que levava ao Mosteiro Zen Morro da Vargem. O caminho era lindíssimo e chegamos, digamos assim, ao portal do Mosteiro. Um cartaz avisava que visitas só aos domingos e era sábado. Uma mulher veio nos atender e não nos deixou entrar. Fiquei tão triste que queria chorar, mas não houve jeito. A senhora me trouxe entao alguns postais lindos de papel reciclado , amarrados com um barbante especial e a partir destes postais e do que pesquisou na internet , Juan, meu marido, escreveu um artigo belíssimo sobre o Mosteiro em seu blog no El País com fotos maravilhosas. Os monges plantaram meio milhão de árvores e restauraram uma área imensa. Os pássaros voltaram.O Mosteiro recebe escritores e artistas que queiram paz para criar. Tenho minha casinha na montanha que é como um mosteiro, mas confesso que fiquei com muita água na boca.Sou apaixonada pelo zen budismo que é um caminho de vida.

domingo, 23 de outubro de 2011

JOÃO NEIVA

João Neiva é uma cidade bem pequena que nasceu há 110 anos a partir da Estação de Trem. Era um núcleo da Vale do Rio Doce. Hoje a Estação não existe mais e a locomotiva dorme no Museu do Trem que fui visitar e é lindo. Fiquei hospedada num hotel estranho e pitoresco, mistura de casa de família com albergue e no caminho para o café da manhã encontrei as samambaias choronas mais bonitas do mundo! Fui recebida por Tatiana Mai que é um feixe elétrico de entusiasmo. Deixei minhas coisas no hotel e fomos almoçar na Casa Brasil, um restaurante muito simpático na beira da estrada. Comi uma farofa capixaba inesquecível. Antes de chegar a João Neiva passamos pela entrada de um Templo Budista e fiquei com muita vontade de conhecer o templo.
A minha fala aconteceu num salão imenso onde estavam todas as instalações que as escolas fizeram para o Festival Literário da cidade e eram lindas. Haveria um jantar depois da nossa conversa e as professoras estavam sentadas em mesas para quatro pessoas. Eu teria que competir com queijinhos e azeitonas e o impulso que qualquer ser humano tem para conversar quando estão vários juntos em volta de uma mesa! Mas felizmente as pessoas me ouviram, era uma platéia maravilhosa, muito receptiva e estavam presentes o Prefeito e o Secretário de Educação que foram super gentis comigo.
Foi servido o jantar, delicioso. Foram sorteados muitos presentes, era uma homenagem ao Dia do Professor. Eu que nunca tenho sorte em sorteios desta vez fiquei surpresa: ganhei uma torradeira maravilhosa que estreamos hoje no nosso café da manhã!!!
Na volta para Vitória, fomos ao Templo Budista, mas não nos deixaram entrar, já que não era dia de visita. O lugar era tão lindo que tive vontade de sentar no chão e chorar de tanta decepção. Trouxe uns postais que me deram e Juan, meu marido , ficou tão apaixonado que a partir dos postais e do que pesquisou na internet, escreveu um blog para seu jornal, o El País, que será publicado amanhã.
O motorista me sugeriu, já que tinhamos tempo, que subissemos a serra até Santa Teresa e foi o que fizemos. Chovia e havia neblina. O caminho, sinuoso, era belíssimo e a pequena cidade é linda mesmo, com uma praça toda florida, com um coreto super antigo. Cristina, a professora que era nossa carona, pois estava indo a Vitória visitar a avó de 96 anos, foi uma guia excelente. Paramos na padaria para tomar café e descemos a serra. Meu voo foi perfeito e a casa me esperava, Juan me eserava, as gatas me esperavam...Vanda, nossa caseira, fez um almoço lindo e Arnaldo e Gisela, nossos amigos taxistas ficaram para almoçar.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

JOÃO NEIVA

Estou saindo agora para o Rio, vou dormir na casa do meu irmão onde me recebem como rainha e amanhã bem cedinho vou para Vitória e depois para João Neiva.Tenho um encontro com professores.
Recebo de Silvane, a Diretora da E.M.Herman Muller, em Joinville um artigo que saiu no jornal A Notícia:

20 de outubro de 2011.
NOME DE FLOR
Uma hemerocale em homenagem à poetisa
Flor desenvolvida em Joinville vai levar o nome da escritora Roseana Murray.
As pétalas são vermelhas, em um tom aproximado ao cor-de-rosa. O amarelo também chama a atenção, junto ao verde do caule. A hemerocale é do jeito que a poetisa carioca Roseana Murray, de 61 anos, gosta. Colorida e apaixonante, assim como suas poesias. A flor criada em Joinville ganhará o nome da escritora que já possui 60 títulos publicados. A homenagem partiu de um grupo de crianças do bairro Pirabeiraba. A homenagem será no dia 15 de novembro.

Por enquanto, um jardim encantado, com poemas da autora está na Escola Hermann Müller, de Pirabeiraba. O espaço cultivado na unidade tem como objetivo educar as crianças por meio da natureza. Com sementinhas que eles trazem de casa e que eles mesmos plantam, os alunos descobrem os nomes das plantas, aprendem a ler e a preservar o meio ambiente. Para dar um toque ainda mais lúdico, a diretora da escola, a pedagoga Silvane Aparecida da Silva, coloca poesias e poemas em placas espalhadas pelo jardim.

No ano passado, a escritora esteve em Joinville para participar do evento que a escola realiza todo ano: o Café, Flor e Poesia. Ao escutar as crianças recitarem seus poemas, em frente ao “jardim encantado”, Roseana não conteve as lágrimas. “Toda minha estadia (em Joinville) esteve embrulhada em cheiro de bosque”, comentou a escritora em seu blog. A ligação entre ela e a escola, este ano, ficou ainda maior.

“Todos os anos, a empresa Agrícola da Ilha, que desenvolve flores em Joinville, cria uma hemerocale e homenageia com o nome de uma pessoa. Convidamos os responsáveis para escutar um pouco da poesia na voz das crianças. E sugerimos que eles homenageassem Roseana Murray”, explicou a diretora Silvane. A ideia, para felicidade das crianças, foi prontamente atendida pela Agrícola da Ilha. A escritora virou uma bela flor.

Neste ano, a planta ainda não floriu. Ela revelará suas pétalas e suas cores somente no final do mês. O auge da floração será em novembro, quando a própria Roseana estará em Joinville para receber a homenagem. “Acaba de me acontecer uma coisa extraordinária: em novembro, serei transformada em flor, mais precisamente uma hemerocale, um daqueles maravilhosos lírios coloridos”, comentou a escritora, quando recebeu a notícia.

LANÇAMENTO EM CASA

Ontem nosso lançamento dos livros Poemas para ler na Escola, ed. Objetiva e Falando com as Estrelas, ed.Paulinas, foi umas das vivências mais impressionantes da minha história como autora.
Preparei tudo, duas mesas com os pães que fiz, os queijos, os vinhos. Uma na varanda e outra na sala. Não fazia idéia de quanta gente viria. As primeiras professoras chegaram devagarinho, umas cinco. E de repente foi como uma onda gigantesca e perfeita: foi chegando gente e mais gente e mais gente. Tenho que agradecer o belo trabalho de divulgação que a Secretaria de Educação fez do nosso encontro, ao Valdinei e Ana Paula,pois acho que tinhamos no mínimo umas 120 pessoas. Vieram quase todos os amigos , veio a Prefeita Franciane, a Secretaria de Educação em peso, o ex Prefeito Peres, nosso Procurador poeta Chico, membro do Clube de Leitura. Todos entrelaçados . o Professor Robledo leu um poema, a professora Rosiléia leu um trecho do livro do Juan, para isso subiram numa cadeira e todos fizeram silêncio para ouvir. Abri 15 garrafas de vinho! A noite estava lindíssima, sem chuva e sem vento. Evelyn, minha irmã, sentada numa mesinha, vendeu 65 livros! E a grande surpresa: veio Miriam, da editora Rovelle e todo o pessoal da editora! Vieram do Rio apenas para o evento e voltaram ontem mesmo.. Trouxeram duas cestas lindíssimas de frutas, um código secreto para o livro que estou escrevendo para eles e que já está quase pronto.Tânia e Dodora vieram de Araruama, Maria Clara não pode vir, mas passou antes e comprou um monte de livros para dar de presente no natal.
Foi como se uma chuva de estrelas tivesse coberto nossa casa . Agradeço a cada um a bela presença.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

LANÇAMENTO

Hoje é o lançamento, aqui em casa, dos nossos livros Poemas para ler na Escola e Falando com as estrelas. Trabalho desde cedo para fazer a produção dos pães e pastinhas, Juan já fez as tortillas e já arrumei a casa para o evento. Não chove e isso é muito bom! Não sei quanta gente virá, acho que muita gente, amigos, professores, a Secretaria de Educação. Torçam por mim.Amanhã conto tudo.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

EM ALGUMA PARTE ALGUMA

EM ALGUMA PARTE ALGUMA, o maravilhoso livro de poesia do Ferreira Gullar ganhou o Pêmio Jabutí. Gullar é o meu poeta estrela-guia, sou apaixonada por seus poemas.

A PLANTA

haverá mesmo tanta
diferença
entre mim e a planta
do vaso da sala?

Ao que se percebe
ela é verde
e não fala

Pode ser que ouvido
melhor que o meu
ouça-lhe a voz da seiva
a irrigar-lhe o caule

Ao contrário de mim
(forma pronta)
a planta
se multiplica em folhas
que ela
a cada dia puxa
de si
(do ventre)
como sabres
feito um jogador
a exibir seus naipes

in Em Alguma parte alguma, Ferreira, Gullar, Ed. José Olympio.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

RESISTÊNCIA

Aqui em casa somos resistentes: não temos carro, já que não precisamos, só trocamos alguma coisa na casa quando realmente não dá mais para consertar, só compramos o que necessitamos de verdade. Tentamos não deixar que a sociedade de consumo nos manipule ou esmague. Mas o grande dilema é como pensar o mundo sem a sociedade de consumo. O que se coloca no lugar para que continue havendo desenvolvimento? Há que haver uma alternativa ao modelo de mundo em que vivemos, já que somos 7 bilhões de habitantes no planeta Terra e os recursos são finitos. É impossível pensar na equação um adulto-um carro, por exemplo.Há que pensar alternativas para todo o nosso modo de vida . Muitas soluções já existem e são gritantes, como por exemplo reaproveitar os resíduos, o lixo é grande riqueza, transporte coletivo de qualidade, praças com muito verde, reflorestamento em áreas devastadas. Mas os políticos não querem ver as soluções, já que pensam apenas num período pequeno, pensam curto e apenas em votos e ganhos. O mundo não acompanha o mundo. Estamos numa encruzilhada. Ou o futuro será muito diferente da vida como vivemos hoje, ou simplesmente não haverá futuro.

domingo, 16 de outubro de 2011

COISAS OCULTAS

Ando com muita vontade de reeditar uma agenda que fiz em 1995. É lindíssima e não perdeu a validade. Foi Mariana, a leitora dançarina que passou alguns dias em nossa casa, quem me deu a idéia. Fazia anos que eu não a folheava. Agora, com a agenda nas mãos, vejo que no dia 6 de janeiro escrevi um poema e ele não cabia inteiro na página do dia 6 e eu continuei na página do dia 7:

COISAS OCULTAS

Há um poço oculto
posso sentir sua água
em minhas mãos
o peso da sua água
entre meus dedos
a corda que canta
quando ao relento
se diz a palavra
concha.
Há uma estrada oculta
minhas mãos podem
sentir seu chamado
o musgo que cresce
em suas beiradas
tênue promessa de voo.

Dentro da noite
imóvel
adivinho o coração
das pedras.


Eu poderia ter escrito o poema hoje, mas escreví em 1995. Mudei muito mas minha poesia não mudou. É como se fosse o fio que me sustenta.

sábado, 15 de outubro de 2011

MANIFESTAÇÕES

Hoje, 15 de outubro, Indignados de todo o mundo pedem mudanças em todas as áreas. São 952 cidades de 85 países.É mais do que um grito, é um clamor. Antecipam um mundo sem fronteiras, realmente aberto para todos, sem passaportes e sem as imensas crueldades e diferenças sociais. Antecipam um mundo com mais compaixão e cuidado com o outro, o diferente. Pela primeira vez na Espanha, Madrid e Barcelona se unem.Pela primeira vez no mundo há um protesto global.
Os nossos conceitos estão velhos. Direita e esquerda não existem mais . Teremos que inventar novas palavras para o mundo que desejamos. As palavras que saem da boca dos políticos estão mortas como pássaros mortos. Nossos políticos estão vazios, não nos representam. Hoje tenho orgulho de ser humana.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

CONVITES

Hoje saí por aí distribuindo convites para o lançamento dos nossos livros dia 19. Entreguei ao dono da papelaria. Ao rapaz do correio. Ao taxista que nos atende. Ao vizinho que se mudou para a rua alguns meses atrás. Ao dono da farmácia.Ao dono do supermercado da esquina. Sou apaixonada pela vida da cidade do interior onde muitos nos conhecem e tenho a sensação de viver na década de 50 quando era criança e o bairro inteiro era a minha casa. Também adoro sentar no ponto do õnibus (aqui em Saquarema os ônibus demoram uma eternidade para chegar)e ouvir as conversas.Hoje uma mulher contava que seu filho quase morreu com uma uva, ficou entalada na garganta e felizmente conseguiram retirá-la.E, dizia ela, pior ainda são as maçãs, perigosíssimas. O ônibus chegou, subimos no ônibus e até o final da minha viagem ela enumerava os perigos de cada fruta.Mas não tenho medo de uvas e no nosso lançamento espalharemos uvas na mesa junto com os pães e os queijos.
Convidei nosso amigo e grande poeta Salgado Maranhão recebí uma resposta maravilhosa que divido com vocês:
Que luxo, meus queridos, com certeza será um encontro lindo, regado a poesia e afeto. Mas eu ainda estou nos Estados Unidos, onde tive a alegria e a honra de participar de uma mesa redonda, na Brown University, em torno da traducão do meu livro, Sol Sanguineo, para o ingles. Neste momento, Roseana, estou hospedado, com meu tradutor, numa cidade universitaria do estado de NY, e comentei com ele sobre a sua obra, acho que vou abrir uma porta para sua bela poesia nesta terra. Boa sorte a voce e a Juan, Salgado Maranhao.


O Movimento dos Indignados se espalha pelo Brasil. Até que enfim!

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

LUNA, MERLIN E OUTROS HABITANTES

Em Visconde de Mauá , depois de longos meses de seca, pude presenciar a chegada das águas com alguns temporais impressionantes. A orquestra dos sapos logo se põe em movimento, já que temos um belo lago onde, parece, eles dormiam o longo sono da ausência das chuvas. Do novo (antigo, pois é uma reedição)livro Luna, Merlin e outros Habitantes, copio o poema:

Sapos forram a noite
com seu canto,
tecem uma rede sonora
de embalar o sono.
São cantigas molhadas,
encharcadas de folhas e chuva.
Quando amanhece,
a luz engole
o canto dos sapos.


Recebo agora a linda notícia da Silvane, diretora da E.M.Herman Muller:

Nessa segunda-feira (10/10), aconteceu a abertura do Seminário de Turismo Pedagógico de Base Comunitária, evento promovido pela Fundação Turística de Joinville, com apoio da Secretaria Municipal de Educação e Ministério do Turismo. A abertura teve início com a apresentação de três alunas da Escola Municipal Hermann Müller, que declamaram versos de Roseana Murray, poeta que escreve para crianças e jovens e uma das mais importantes da atualidade.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

CHEGADA

Cheguei em Saquarema cansada demais, foi muita emoção em Mauá. A emoção nos deixa esgotados, acho isso bastante estranho. E amanhã vou a Magé conversar com alunos em uma escola.
Dia 19 faremos, eu e Juan, um lançamento aqui em casa dos nossos últimos livros. É uma grande felicidade abrir a casa para a comunidade. Já penso nos preparativos. Serviremos queijos e vinhos e nossos pães caseiros.
Tenho tantas viagens pela frente que pareço uma cigana, viajo nas asas da minha poesia.
Escreví bastante em Mauá e gostei do resultado. Talvez em dezembro consiga terminar meu livro.
Receberemos em novembro alguns amigos das Canárias. Há no fundo do mar das Canárias uma erupção vulcânica que preocupa os cientistas. Estes nossos amigos são maravilhosos e talvez possam nos contar alguma coisa mais concreta.Estive em Lanzarote, em Palmas e na Isla Graciosa. São paisagens muito diferentes e o povo das ilhas é muito hospitaleiro. Tenho as melhores recordações destas viagens.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

COQUETEL

Estou aqui, em Visconde de Mauá, na casa-loja-atelier da minha irma Evelyn Kligerman, para o coquetel de inauguração às 11hs da manhã. Depois de uma noite magnífica de lua-cheia, de madrugada o tempo virou e choveu torrenciamente durante horas. O tempo está feio, mas pelo menos parou de chover. Espero que o tempo feio não espante as pessoas e que a chuva traga sorte.
Estes dias na minha casinha dentro do bosque foram maravilhosos. Escreví muitos poemas.
Salvador, meu amigo de juventude veio me visitar e contou que agora tem uma televisão em preto e branco para os dias de chuva e uma colorida para os dias de sol! Sua luz é toda de energia solar.Quando há sol a TV colorida funciona, mas quando o tempo está encoberto, só mesmo em preto e branco.
Amanhã desço às 6hs da manhã e é uma longa viagem até Saquarema. Volto cheia de árvores por dentro.

A inauguração foi um sucesso total!!! Mais de 100 pessoas e uma energia maravilhosa enrolava a casa inteira, um novelo de luz.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

CEDINHO DE MANHÃ

É muito bonito acordar aqui, na casa-atelier da Evelyn. A casa tem um quintal que vai até o rio. Na beira do rio há um muro de pedra onde se pode sentar. Do outro lado do rio há um bambuzal que se debruça na água.
É um milagre como ela conseguiu arrumar tudo tão rápido. A casa-atelier está deslumbrante.
Daqui a pouco vou para a minha casinha escondida dentro da mata. Levo o meu caderno de folhas ásperas para escrever meus poemas do Diário da Montanha. Espero que eles venham, pois como já disse em algum poema, são como pássaros desobedientes e amestrados.
Ontem à noite tomamos uma sopinha num café-livraria aqui ao lado.Que maravilha ter uma livraria ao lado de casa e com livros magníficos! Tomei um cálice de vinho e a sensação de paraíso percorria minha pele...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

VISCONDE DE MAUÁ

A minha história de amor com Mauá é muito antiga. Morei aqui na década de 70 e já contava histórias na Escolinha da Terra. Publiquei meu primeiro livro quando morava aqui em 1980, o Fardo de Carinho. Mauá é a fonte primeira da minha poesia.
Agora minha irmã, a ceramista e escultora Evelyn Kligerman se mudou para cá e a inauguração do seu ateliê será dia 11 às 11hs da manhã. Encontramos agora uma senhora na rua, Evelyn perguntou: _A senhora mora aqui? Ela respondeu que sim e quando a Evelyn a convidou para o coquetel ela falou que os números eram promissores, dia 11 às 11hs! Deve ser numeróloga.
Hoje durmo aqui , antes de ir para a minha casinha encantada dentro da bosque, A casa-loja-atelier da Evelyn está deslumbrante, nem sei como ela conseguiu arrumar tudo em tão pouco tempo. Lola, sua gata, já é a rainha da casa.
Estou feliz. Aqui estão minhas raízes, profundamente entranhadas na terra.Minha avó vivia no campo, na Polônia, e me sinto camponesa.

Juan Arias, meu marido, inaugurou seu blog no El País e se chama Vientos de Brasil. Hoje o seu post conta a visita das crianças de Duque de Caxias a Saquarema. Com a foto dos meninos na praia! A Escola Municipal pedro Paulo Silva está famosa!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

RESENDE E ESTRELA NO GUIA

Hoje saí de Saquarema com a minha leitora Mariana, que veio participar do Clube de Leitura, bem cedinho. Fomos juntas até a Rodoviária do Rio. Vim para Resende e Mariana comprou sua passagem para São Paulo. Antes de subir no ônibus Mariana veio correndo atrás de mim e me entregou uma carta. A carta mais linda do mundo! Ela me conta da sua emoção em passar 4 dias na casa da sua poeta preferida. Mariana nos deixou encantados com a sua doçura e leveza. Deixou saudades. Volte sempre , Mariana!!!
Cheguei em Resende e meu filho André e minha nora Dani estavam me esperando. Marta, a mãe da Dani que agora mora aqui nesta bela casa-escola-de-gastronomia, fez um sukyaki fantástico.
André e Dani ganharam , pelo quarto consecutivo, uma estrela no Guia Quatro Rodas pelo maravilhoso trabalho que fazem no Babel Restaurante em Mauá. Eles seguem a linha do slow food e seus pratos são criações fantásticas. O sítio onde o Babel existe, é um verdadeiro parque, com uma vista inigualável , por isso, comer no Babel é uma experiência gastronômica e metafísica.
Hoje durmo em Resende e amanhã vou bem cedinho para Mauá. A minha felicidade em estar com André e Dani é tão grande que meu corpo é pequeno para carregá-la. Ela escapa e vira luz.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O DIÁRIO DA MONTANHA E PALESTINA

Amanhã vou muito cedo para Visconde de Mauá, para a minha casinha dentro da mata. Retomarei meu novo livro de poesias o Diário da Montanha, já passei da metade. Dia 11 é a inauguração do novo atelier da minha irmã Evelyn Kligerman. O Babel Restaurante fará um coquetel às 11hs da manhã e será deslumbrante. Voltarei dia 12. Nos primeiros dias tentarei escrever num cyber, pois no sítio não temos internet.
Um colega do ginásio, Jacques Gruman, me achou pelo site. Ele escreve uma crônica semanal e ontem a recebí. Transcrevo aqui no blog por se encaixar em tudo o que penso sobre a questão palestina:

Algumas bobinas, uns fios, base de papelão, sabe-se lá mais o quê. Montou-se um pequeno transmissor, primitivo, de pequeno alcance, e colocamos no ar as notícias que recebíamos dos mais velhos. Era junho de 1967 e a mais nova guerra no Oriente Médio, na verdade uma blitzkrieg israelense, faca na manteiga, não parava de excitar os estudantes do Hebreu Brasileiro. Adolescente, eu ajudava na locução (que alcançava, no máximo, alguns prédios vizinhos). Atenção, urgente: a aviação egípcia foi destruída em terra. Jordanianos são derrotados em Jerusalém e as tropas israelenses avançam sobre a Cisjordânia. Simulando um noticioso de verdade, nós, candidatos mambembes a Heron Domingues, ainda satirizávamos os intervalos comerciais. Uma loja de roupas masculinas muito conhecida na época, a Ducal, tinha um reclame com o refrão: Ducal, Ducal, Ducal. Transformamos em Ducairo, Ducairo, Ducairo. Tudo era festa para nós, que não tínhamos a menor ideia do que se passava a tantos quilômetros de distância.
Os tempos inocentes acabaram. Mal desconfiávamos que ali se gestava o agravamento da questão palestina. A fácil vitória militar jogou no colo dos israelenses a maior parte de um povo que não se deixaria colonizar sem resistência. Aos desterrados de 1948 se juntou uma imensa massa humana, pauperizada mas com identidade própria. Quiseram, desde sempre, negar-lhe direitos. A senhora Golda Meir chegou mesmo a dizer que não existia um povo palestino. Criaram o mito de uma ocupação benigna: nós os exploramos economicamente, asfixiamos culturalmente, expropriamos suas terras, destruímos seus campos, impomos barreiras físicas à sua movimentação, recusamos sua reivindicação nacional, reprimimos com brutalidade, mas... somos melhores que seus irmãos árabes, ah, isso somos mesmo. Ainda tem gente que acredita nisso. Ou se consola, o que dá tristemente no mesmo.
A opressão colonial, devastadora para os colonizados, sempre deixa sequelas no colonizador. Em recente debate, o cineasta Silvio Tendler contou uma conversa que teve em Israel com um colega palestino. Este apontou para o alto de alguns prédios, onde apareciam caixas d’água brancas e pretas. O palestino disse que as brancas eram de condomínios judeus, com abastecimento permanente. As negras eram de árabes, com abastecimento intermitente. Havendo escassez de água, os prédios com caixas brancas tinham prioridade no abastecimento. Disse também que, caso roubasse uma padaria, seria julgado por um tribunal militar. Se o ladrão fosse judeu, iria para um tribunal civil. Acrescentou que há bairros onde vigora uma proibição branca para árabes e lembrou que há estradas onde não se permite o trânsito de árabes. Silvio foi categórico: isso é racismo. Avigdor Liberman, atual Ministro de Relações Exteriores de Israel, chegou a sugerir uma lei que obrigasse os cidadãos árabes a jurarem lealdade ao Estado. Ideia fascista, que, felizmente, não foi adiante. Degradação a olho nu. Uma vigorosa tradição humanista, não rara em vários momentos da história judaica, maculada por esses efeitos colaterais do militarismo, da xenofobia, da opressão de outro povo e, em certos casos, do fundamentalismo religioso.
Quando foram expulsos da Península Ibérica, no século 15, muitos judeus levaram consigo as chaves de suas casas. Era, ao mesmo tempo, uma demonstração de pertencimento e esperança de que algum dia voltariam. Existem famílias que conservam as chaves até hoje. Situação parecida viveram famílias palestinas. Expulsas de seus lares em 1948, levaram as chaves. Das casas sobraram, quase sempre, apenas as fundações. Muitas aldeias árabes de antes de 1948 transformaram-se em povoamentos judaicos. Mesmo assim, avós mostram aos netos as chaves, que já não abrem portas, mas iluminam o drama da diáspora. Sou solidário com os expulsos de qualquer lugar, de qualquer época.
Agora, os representantes legítimos do povo palestino apresentaram à ONU o pedido de aceitação do Estado da Palestina como membro pleno. Pleito justo, pacífico e politicamente inteligente, merece o apoio de quem luta por um mínimo de justiça histórica no Oriente Médio. O novo Estado não deslegitima Israel, cuja existência em fronteiras seguras não está em questão. No atual estágio do conflito, não há alternativa sensata para a fórmula Dois Povos, Dois Estados, primeiro passo para que se crie, num futuro imprevisível, um clima desarmado e cooperativo. Somente a paz será revolucionária no Oriente Médio.
Se pudesse, voltaria ao transmissorzinho do Hebreu e completaria o noticiário. Um noticiário especulativo, do futuro, de sonho. Diria que espero viver o suficiente para ver um Estado de Israel integrado ao Oriente Médio e que não discrimine seus cidadãos pela origem étnica ou religiosa. Para ver os povos árabes comandarem seu destino, com democracia e sem a intervenção cínica e predatória dos imperialismos e seus aliados. Para ver o Estado da Palestina acolhendo seus filhos dispersos e construindo uma história de harmonia e desenvolvimento. Todos, absolutamente todos, sem a intromissão da religião no Estado e no rumo de sociedades socialistas, onde o homem deixará de explorar seu semelhante.
Amém.

Jacques Gruman

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

DOIS POEMAS



Pepito, meu cunhado poeta, fez um poema para os dois irmãos do livro, mas não nos contou. Achei o poema quando todos já tinham ido embora e o publico aqui. Pepito tem tradição andaluza e a poesia para ele é música, corre fácil em suas veias:

DOS HERMANOS

Si los hermanos se matan
y el odio corre en sus venas
no hay nada que los detenga
y nunca habrá paz en su casa
bulle la sangre en venganza
y todo acaba en peleas.

Los devoran los de "afuera"
como diria Martin Hierro
y el odio construye infiernos
donde el amor debió estar
nunca entre ellos habrá paz
se jugaron odio eterno.

Pero también hay hermanos
que son hermanos de veras
que en las malas y en las buenas
se van a amar de verdad
pués para siempre correrá
la misma sangre en sus venas.

José de Arias Martinez


Mariana, minha leitora que veio de São Paulo para me conhecer, que fez 23 anos, que é dançarina, me trouxe um poema que escreveu para a minha poesia quando tinha 14 anos:

domingo, 2 de outubro de 2011

CLUBE DE LEITURA E ANIVERSÁRIO

Hoje é o aniversário do meu filho Guga, que vive em Granada. Gostaria de aninhá-lo hoje, mas ele está longe. E o dia em que nasceu, hoje,pela lembrança, está perto. Morávamos numa chácara belissima, na Tijuca, no Rio. André, meu filho mais velho, me pedia exaustivamente um irmão. Foi ele quem escolheu o nome Gustavo. Assim como André é um nome aberto e amarelo, Gustavo é um nome lunar, prateado. O André, tão pequeno , adivinhou o irmão. Guga sempre foi felino, silencioso, filósofo, pensador, solitário.Nós dois podemos dividir o silêncio por horas a fio, então Guga diz alguma frase impactante e maravilhosa, para a gente saborear como uma fruta rara. Guga me deu muitos presentes inestimáveis, mas o maior , claro, foi o que fez com a Patrícia: meu neto Luis . Quem sabe o próximo aniversário do Guga já seja no Brasil, pois ele quer voltar. E eu, depois de sete anos , gostaria mesmo de ter meu filho morando aqui perto.

Ontem foi o nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela. Recebemos muitas pessoas maravilhosas pela primeira vez: Loló, médica do Nesa, a unidade de Adolescentes do Hospital Pedro Ernesto, Mariana, médica do Nesa também e Messias, nosso maior amigo, culto e interessante como Diderot. E recebemos minha leitora Mariana, que veio de ônibus de São Paulo só para me conhecer, pois, diz ela que é apaixonada pela minha poesia desde os 7 anos!e quis festejar aqui o seu aniversário. Angela voltou, veio do Rio, Felipe, Andreia e Cris, da Secretaria de Educação de Duque de Caxias, Francisco, Pepito, Hélio, grande advogado, mas sobretudo grande paisagista e amante das árvores, Fernando,Maria Clara, eu e Juan. Este o nosso grupo que se reuniu ontem para discutir o livro Dois irmãos do Miltom Hatoum e o Poema Sujo do Ferreira Gullar.
Juan abriu a conversa lendo um trecho do seu livro a Bíblia e seus Segredos. O trecho que fala de Caim e Abel. A partir daí mergulhamos na casa incestuosa e fechada, que apodrece aos poucos como a floresta , falamos do narrador tão misterioso, que parecia a sombra da sombra, já que um irmão é a sombra do outro. Mergulhamos nos cheiros, na escrita caudalosa, na personalidade das mulheres, na urdidura perfeita do romance.Falei do que disse Vera Tietzman, que um irmão é fogo, o outro é gelo. E o grupo se dividiu ; metade aceitava o Caçula como pai do narrador, a outra metade achava que a questão estava em aberto, era mistério.Messias falou sobre o que é o segredo para a psicanálise: tão terrível que não pode ser nomeado. Andréia acusou o Francisco de querer sempre um final bem claro! E Felipe, para nossa surpresa, amou o livro, já que quase nunca gosta dos livros indicados. Pepito, só descobrí depois , trouxe um poema sobre os dois irmãos, mas manteve o poema em segredo, que pena.
Mariana, minha leitora, perguntou se escolhí o Poema Sujo junto com os Dois Irmãos pela questão do exílio. Eu não havia pensado nisso, mas claro que a questão do exílio e muitas outras coisas unem os dois livros.Foi maravilhoso o que a discussão do poema nos trouxe: a força avassaladora da poesia. Hélio ia ler o trecho do poema escrito sobre a partitura do Villa Lobos, mas lembrei de como Maria Clara tem uma linda voz e ela cantou este pedaço do poema. Mariana leu um poema que fez sobre a minha poesia quando tinha 14 anos.Samuel, nosso caseiro que a tudo assistia, ficou tão inspirado, que ali mesmo, fez uma trova para a Vanda, sua mulher.
O almoço, comidinha bem brasileira, arroz, feijão mulatinho, abóbora, batatas assadas no forno, farofa de couve, foi um sucesso absoluto.
E o próximo encontro será no dia 3 de dezembro com o livro Equador, de Miguel Souza Tavares e O Menino que Carregava Água na Peneira, do Manoel de Barros .
Mariana é dançarina e no final da tarde, Manuela trouxe um CD de música árabe e Mariana dançou maravilhosamente bem para nós três tendo o mar sobre a melodia.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

LEITURA

Amanhã é o nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela. Discutiremos o livro Dois Irmãos do Miltom Hatoum e o Poema Sujo do Ferreira Gullar. Teremos gente nova no Clube, assim parece. Mariana, que vem de São Paulo! E Loló com uma amiga, médica que trabalha no Hospital Pedro Ernesto, na Unidade de Adolescentes.
Quando tive a idéia de fazer o Clube, pensei nos professores de Saquarema. Eles são minoria. Temos um advogado, um procurador, um bancário, uma contadora, professores da Secretaria de Educação de Duque de Caxias, um terapeuta alternativo e duas professoras de Saquarema. Claro que fico com pena, pois me chamam de todo o Brasil, ontem mesmo me chamaram para Vilhena, Rondônia, e abro minha casa aqui onde vivo e os professores não respondem ao meu convite. A casa continua aberta.
Quando estive esta semana em Petrópolis me perguntaram sobre o projeto Uma Onda de Leitura. O projeto anda bem, mas a Secretaria de Educação suspendeu os nossos Cafés Literários mensais. Eu oferecia um café na nossa varanda e recebia de 25 a 40 pessoas entre alunos e professores para uma Roda de Leitura. Entendo que a atividade supõe alguns problemas para a Secretaria: tirar os professores da sala de aula, vir até a minha casa. Mas é uma atividade extra curricular maravilhosa, é um passeio, há uma confraternização entre escolas diferentes. Talvez as pessoas precisem entender que a leitura de mundo, das ruas, também é leitura e retirar os alunos da escola para um passeio é muito frutífero.
Mas dia 19 de outubro faremos um lançamento de livros aqui em casa com queijos e vinhos, na varanda. A Secretaria de Educação vai passar os convites para as escolas e eu agradeço muito este gesto. Espero que os professores de Saquarema venham confraternizar com a gente.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

JULIA

Década de 80. Minha irmã chega da África grávida. Seus cabelos estão tingidos de henna, vermelhos. Ela está lindíssima, radiante. Seu marido ficou em Abidjan , na Costa do Marfim.
Evelyn estava com uma gravidez de risco e quis ter a filha no Brasil.
Julia nasceu e as duas ficaram na minha casa. Dei o primeiro banho na Julia.Quando Julia tinha dois meses, elas voltaram para Abidjan e meu coração se quebrou. A casa ficou vazia.
Evelyn voltou para o Brasil e Julia, com dois anos era minha companheira constante. Eu passava longos períodos na montanha com ela. Julia era tímida e silenciosa feito uma gata. Era a minha gatinha humana.Desenvolvemos uma linguagem mútua sem palavras. Apenas a maravilha de estarmos juntas.
Hoje Julia se casa. Ela, como sua mãe, também irá para longe. E continuará a tecer a maravilhosa tapeçaria feita de fios humanos. Um dia, quem sabe, darei em seu filho o primeiro banho.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

PETRÓPOLIS IDA E VOLTA

Às nove horas da manhã de ontem embarquei para Petrópolis com o motorista René e Miriam, da ed. Rovelle. Nos reconhecemos desde a primeira sílaba. Iríamos por Magé mas nos perdemos e fomos por Cachoeira de Macacu. A estrada era belíssima, mas muito mais longa. Miriam que foi professora a vida inteira e agora que se aposentou descobriu a vocação de editora e trabalha na Ed. Rovelle,me contava mil e uma histórias, verdadeira Sherazade. Miriam participa de um grupo que conta histórias em hospitais. Conseguimos chegar a tempo de comer e o teatro, logo em frente, nos esperava. Renata nos recebeu com toda a sua delicadeza e a platéia estava lotada, quase 500 pessoas! Antes da minha fala nos apresentaram um teatro de uma turminha de educação infantil. Eles eram tão pequenininhos e lindos e a história de uma festa no castelo do príncipe era maravilhosa, pois no final, a bruxa que teme aparecer como bruxa, se transforma em princesa para conquistar o coração do príncipe, deixa o príncipe indiferente. Mas quando o feitiço acaba e ela vira bruxa outra vez, aí sim, o príncipe se apaixona perdidamente numa linda transgressão.
A platéia era muito receptiva e senti aquela onda de energia boa me envolvendo. Foi muito bonito.
Na viagem de volta reatamos, eu e Miriam, a nossa conversa sobre a vida e acho que ainda temos muito o que conversar, pois os que são da tribo da sensibilidade imediatamente se reconhecem. Convidei a Miriam para participar do nosso Clube de Leitura da Casa Amarela , quem sabe ela vem.Miriam me presenteou com um lindo livro de poemas da Silvia Orthof. A Ed. Rovelle caprichou, o livro está lindíssimo!

Há poesia nas bagagens
das palavras esquecidas,
já chorei tantas partidas,
vem comigo: me avoa!
Juventude é uma pessoa
que se culpa...
Me perdoa!

in Adolescente Poesia, Silvia Orthof, ed. Rovelle

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

PETRÓPOLIS

Amanhã estarei em Petrópolis para o II Encontro de Leitura. Vou conversar com 450 professores. Não sou pedagoga, mas me chamam para falar sobre educação. Peço licença e levo minha voz de poeta. É a poeta quem fala. É a mulher que anda pelo país, observa e pensa. Divido sempre com a platéia as minhas indagações, dúvidas, perplexidades.E levo a minha poesia e o retorno que recebo dos meus leitores.
Da minha escola , a da infância, não tenho boas lembranças. Era rígida e triste. Não podíamos criar, apenas obedecer. Nossa história de vida não existia. Éramos um uniforme, um nome na chamada e um rosto anônimo. Em muitas escolas encontro a minha escola da infância. Estas escolas não deveriam mais existir e se por acaso o professor se encontra com uma instituição assim , cabe a ele a tentativa de libertá-la, como se abre a porta de uma gaiola para que o pássaro possa enfim voar.

LÁGRIMA

Ânforas esquecidas ao relento,
ao longo do tempo,
a as histórias acumuladas
em suas bordas, transbordam
quando uma lágrima, em algum lugar
do mundo, fala mais que todos os alfabetos.

in Poemas para ler na escola, ed. Objetiva

Silvane, minha amiga da E.M Herman Muller leu o blog e me enviou o texto que acrescento:

“Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas“
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.(Rubem Alves)


Fico tão feliz em saber que Petrópolis irá te receber... torço para que os professores estejam abertos a ponto de beber da tua poesia e de transformá-la em ÁRVORE nas suas escolas.
Beijos!

domingo, 25 de setembro de 2011

MINHA FLOR NO ANCELMO GOIS

Hoje, no O Globo, minha poesia virou flor e notícia!!! Fiquei muito impactada e divido a emoção com meus leitores. Recebo uma carta linda da amiga Maria Clara, do nosso Clube de Leitura.Sigo seu conselho e publico a carta e a notícia aqui no blog:

Roseana:
Coisa linda virar flor antes de dar teu corpo a húmus. Flor de sol! Amarela, vermelha, flutuando na planta sem espinhos.

A flor que leva o teu nome, criada pela imaginação botânica da moça impregnada de tua poesia, deixa os jabutis tristemente terrestres no ato de tua coroação.

Sei que plantas híbridas não dão sementes e nem pegam de galho, mas se a moça decidir espalhar o teu lírio aos quatro ventos, gostaria de ter um exemplar de tua flor em meu jardim de Saquarema.

Compartilhando profunda e alegremente de tua emoção,

Clara.



E recebo agora uma mensagem da Pilar del Rio, mulher do José Saramago para quem Juan enviou a matéria:

¿Roseana no era ya una flor?
Besos para los dos. Y felicita a O GLobo por haberlo visto: aunque hayan tardado.
Pilar

DO DESEJO

Para este domingo chuvoso separo o belíssimo livro DO DESEJO de Hilda Hilst. Seus poemas maravilhosos e densos me envolverão por todo o dia junto com o rugido do mar:

DA NOITE

I

Vi as éguas da noite galopando entre as vinhas
E buscando meus sonhos. Eram soberbas, altas.
Algumas tinham manchas azuladas
E o dorso reluzia igual à noite
E as manhãs morriam
Debaixo de suas patas encarnadas.

Vi-as sorvendo as uvas que pendiam
E os beiços eram negros e orvalhados.
Uníssonas, resfolegavam.

Vi as éguas da noite entre os escombros
Da paisagem que fui. Vi sombras, elfos e ciladas.
Laços de pedra e palha entre as alfombras
E vasto, um poço engolindo meu nome e meu retrato.

Vi-as tumultuadas. Intensas.
E numa delas, insone, a mim me vi.

Hilda Hilst, in Do Desejo, ed. Globo

sábado, 24 de setembro de 2011

PRIMAVERA

Chegou a primavera e o sábado amanhece envolto em neblina, mar e céu se confundem, como se o dia não conseguisse nascer. Mas já sinto um cheiro diferente no ar. Um cheiro de flores ainda contidas mas que logo irão explodir. Do jardim se ouve o mar e o grito das gaivotas e há uma expectativa de vidas em gestação.Fico atenta: a qualquer momento uma orquídea nos oferecerá a sua flor, seu poema.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

NA HORA DO ALMOÇO

Ontem, na hora do almoço, Juan e Samuel, nosso caseiro conversavam sobre as profundas mudanças do nosso tempo. Juan contava para o Samuel que num futuro próximo as portas já não terão fechaduras e serão abertas com a voz do próprio dono. Samuel escutava. De repente disse: "_ Mas isso é muito complicado! E se eu estiver rouco e a porta não reconhecer a minha voz? Vou ter que dormir na calçada?" E foi a vez do Samuel contar que lá em Minas um pequeno fazendeiro, quando pela primeira vez chegou a luz elétrica,soprava a lâmpada como se fosse uma vela para apagá-la.
Nunca as coisas mudaram com tamanha velocidade, em tempo nenhum. Mas os homens decidem as fronteiras matando como na Antiguidade. Como judia torço por um Estado Palestino, o único caminho para a paz.

Recebo uma carta linda de um amigo antiquíssimo, Arnoldo de Souza, que vive em Governador Valadares. Em 1984 fizemos juntos uma oficina na OLAC, no Leblon, primeiro com a Rita Moutinho e depois com o Antonio Carlos Sechin. Estas oficinas de poesia foram fundamentais para a minha poesia, de certa maneira forjaram e iluminaram o meu caminho. Arnoldo foi um grande amigo: acreditava nos meus versos, eu, tão jovem e insegura. Não esquecí a sua voz, o seu incentivo. Tenho memória de elefante e sua carta sobre meu livro Poemas para ler na Escola me deixou muito emocionada:

Querida Roseana. Desculpe a demora em lhe responder, mas além de outras múltiplas tarefas e viagens, esta se deu pelo fato de ter lido e relido o seu livro, suavemente, literalmente me deliciando, pois dessa vez você se superou, com uma poesia que não é sòmente para ler em casa e sim em cada lugar onde se possa ir, viajar, viver enfim e comemorar a maravilha do cotidiano. Em você a poesia perpassa todos os reinos e hierarquias. Ela é mineral, pois densa e seca as vezes , como as pedras, com relevos inéditos em sua geografia. É etérica pois esbanja vitalidade , numa torrrente , avalanche , numa verdadeira enchente , desaguando versos em grande velocidade. É anímica ou astral, pois traz consigo um poço de desejos e tormentas revelado as vezes de forma sutil , outras de forma explícita , mas sempre com ritmo e harmonia singulares e de incrível riqueza. E , por fim , emana profunda da consciência, da verdadeira intimidade do Eu, trazida em parceira com o sentim ento do mundo e de suas cercanias.
Como disse, dessa vez você se superou , com uma poesia , eu diria, quântica, alternando ondas e partículas na incerteza dos caminhos da energia, num oceano cósmico de possibilidades e dimensões invisíveis, apenas sentidas por quem a lê.
Sim , Poesia pra se ler, pra se ter sempre imanente no fundo oculto de nós mesmos, para que a possamos reler sempre que a vida parecer eclipsarse.

Arnoldo de Souza

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

TERRITÓRIO DE SONHOS

Em 2001 fomos a Praga. Fiquei totalmente apaixonada pela cidade, gostaria de ter passado um ano aí. Foram apenas 5 dias gravados em minha pele para sempre. Alugamos um apartamento em Malá Strana, no bairro antigo do Castelo, de frente para a Ponte Carlos. O tempo era magnífico. A dona do apartamento se chamava Zdena e morava no mesmo prédio. Fui até a sua casa ver a sua biblioteca, de onde tirou um exemplar de um livro do Jorge Amado. Ela me contou que debaixo do prédio havia um túnel secreto que levava diretamente ao castelo. O prédio era antiquíssimo. Ficamos amigas. Conseguí uma tradutora e mandei traduzir para ela meu livro "Tantos Medos e Outras Coragens". Roger Mello levou o livro traduzido pessoalmente. Depois nos perdemos na avalanche da vida, ela mudou de e-mail, eu também, por anos guardei seu cartão. Quando escreví o "Território de Sonhos" usei seu nome para uma personagem.
Comprei em Praga um pequeno livro de Kafka que não conhecia: "Cuadernos en Octavo". Não o encontrei em português, comprei em espanhol. Fiquei muito impactada com o livro e a partir de um pequeno trecho:
" Todo hombre lleva dentro una habitación. Se puede comprobar este hecho incluso acústicamente. Cuando alguién anda a paso ligero y se escucha con atención de noche talvez, cuando todo está en silencio, se oye por ejemplo el tintineo de un espejo mal afianzado en la pared."
decidí inventar um exercício. Escolher como epígrafe alguns trechos de livros que amava especialmente e escrever um conto a partir da epígrafe que seria o trecho escolhido. Assim nasceu o livro Território de Sonhos. Para o belíssimo parágrafo do Kafka inventei uma adolescente em seu quarto, filha de imigrantes e a chegada de uma parente distante, de sua idade, vinda do país de origem dos seus pais, de algum campo de refugiados. Em todos os contos há um personagem leitor.
Para mim a vida é um território de sonhos.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

GENEROSIDADE

Li ontem um artigo belíssimo no El País sobre a generosidade:um economista americano, George .F.Loewenstein, fez uma experiência muito interessante. Deu a um grupo de pessoas bem diferentes uma quantia, US6.000 por pessoa. Dividiu o grupo em dois. A metade teria que gastar o dinheiro em presentes para si. A outra metade teria que usar o dinheiro para presentear outras pessoas. Depois , entrevistando cada um, o resultado foi que o grupo que se presenteou teve uma sensação de bem estar e euforia bastante passageira que em nada mudou as suas vidas. O grupo que presenteou outras pessoas expandiu suas vidas, pois a sensação de felicidade que o fato proporcionou nunca foi embora.Ter contribuído para a felicidade alheia trouxe de volta um bem estar verdadeiro.
Presentearam amigos com viagens, pagaram cursos, pagaram dívidas de pessoas queridas, etc.
A nossa sociedade de consumo nos consome. O Buraco Negro do ser humano é muito profundo para que possa ser preenchido com um carro ou um novo modelo de celular. Mas se constribuirmos para salvar ou mudar uma vida, encheremos o nosso vazio com terra fresca e fértil .

terça-feira, 20 de setembro de 2011

VISITA DIFÍCIL

Ano passado tive um câncer de mama e superei bastante bem o susto e o que veio depois. Tomo um remédio que é supressor de hormônios e que às vezes produz alguns indesejáveis efeitos colaterais, por exemplo aumento de peso. Decidí perder peso e entrei numa alimentação bastante restrita e como adoro fazer lista, passei bastante tempo fazendo uma lista de tudo o que comia durante o dia. Perdi 6 quilos em oito meses. O remédio também aumenta muito o risco de osteoporose , então aumentei os exercícios e acrescentei uma bicicleta ergométrica todos os dias. Está tudo ótimo, torci o vento contrário ao meu favor. Faço meditação todos os dias. Mas ontem fui ao oncologista. Aparentemente estava calma e sem medo. Ele confirmou que está tudo bem e só preciso refazer os exames em fevereiro. Mas quando saí, desmontei. Sentia um cansaço maior do que o mundo e queria me esconder em alguma caverna em posição fetal. Quando cheguei em casa, em Saquarema, Juan Arias, meu marido, dava uma entrevista para a TV Brasil que vai ao ar hoje às 10hs da noite.Veio uma equipe até aqui para entrevistá-lo. Afinal, os organizadores da manifestação de hoje na Cinelândia afirmaram ontem que o movimento começou com o artigo do Juan "Por que os brasileiros não reagem?"
Então penso na nossa imensa responsabilidade quando escrevemos um artigo ou um poema.
Uma jovem me escreve que é minha leitora desde os 7 anos e que vai fazer 23 e que o seu presente de aniversário será vir ao nosso Clube de Leitura. Um menino de 9 anos me escreve dizendo que leu meu livro "Receitas de Olhar" e que mandei muito bem.
Não posso então ficar encolhida na caverna.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O QUE É UM GATO?

¿QUÉ ES EL GATO?

El gato
es una gota
de tigre.



USTED

Usted

que es una persona adulta

- y por lo tanto-

sensata, madura, razonable,

con una gran experiencia

y que sabe muchas cosas,

¿qué quiere ser cuando sea niño?

ANÍBAL NIÑO


Recebí do meu amigo do Sul, Delmino Gritti, estes deliciosos poemas de Aníbal Niño, poeta colombiano que não conhecia e que morreu no ano passado. Divido com vocês.


Ontem vi um filme maravilhoso: Tempos de Paz, do Daniel Filho. Trouxe meu pai para perto de mim. Tenho a certidão de sua entrada no Brasil e este simples papel me emociona muito.

Torço pelos Indignados do mundo inteiro. O mundo anda muito esquisito, como sempre.

domingo, 18 de setembro de 2011

NO MUNDO DA LUA

Em 1982 publquei meu segundo livro, NO MUNDO DA LUA, pela editora Miguilim. São pequenos poemas lindos para criança pequena, onde falava um pouco de tudo e já era a minha voz. Agora o livro sai em nova edição, maravilhosamente ilustrado pela Mari Ines Piekas que tem feito muitos livros comigo. Sai pela Ed.Paulus numa edição requintada, é uma alegria saber que o livro está vivo outra vez:

NO MUNDO DA LUA

VOU INVENTAR UMA RUA
ONDE SE PINTE E BORDE,
SE FAÇA E ACONTEÇA
SE CANTE E DANCE
SE PLANTEM CORAÇÕES...
UMA RUA ONDE TODOS VIVAM
NO MUNDO DA LUA.


in No Mundo da Lua, ed. Paulus

sábado, 17 de setembro de 2011

CARROS E ENGARRAFAMENTOS

Cada vez que vou ao Rio os engarrafamentos estão piores. Cada vez há mais carros nas grandes cidades. É uma questão de física, eu acho, simplesmente não há lugar para todos. Mas se você prestar bem atenção, a publicidade de carros ocupa 80 por cento do espaço das propagandas.Teríamos que repensar as grandes cidades, pois dentro de muito pouco, haverá um nó cego e ninguém chegará a lugar nenhum. As pessoas já passam um tempo imenso presas dentro dos carros. Como será então daqui a 50 anos, se tudo continuar no mesmo ritmo? Mas existem soluções , não são difíceis. Transporte coletivo de qualidade e de vários tipos, penso até em balões! carros elétricos e minúsculos, claro, carros compartilhados, vias expressas para bicicletas, patins, skates e etc. Aqui em casa não temos carro por absoluta falta de necessidade, já que Saquarema é uma cidade pequena e nos locomovemos de ônibus ou caminhando. Mas muita gente aqui tem carro sem precisar e ao invés de caminhar duas esquinas tira o carro da garagem para ir até a padaria comprar pão.Resistir ao massacre diário da nossa sociedade de consumo é muito difícil e precisamos fazer um exercício diário com uma simples pergunta: _ Eu preciso mesmo disso?

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

DINOSSAUROS

Divido com meus leitores um artigo que li no EL País sobre as penas dos dinossauros conservadas em âmbar. Fiquei muito impactada:

Plumas de dinosaurio conservadas en ámbar
Los especímenes dan nuevas pistas sobre el aspecto que tendrían algunos de esos animales de hace entre 70 y 85 millones de años

ALICIA RIVERA - Madrid -

15/09/2011

Los huesos de dinosaurios abundan en el registro fósil mundial, pero mucho más escasa es la información directa del plumaje que cubría el cuerpo de muchos de ellos. De ahí la importancia de un tesoro descubierto ahora de plumas de dinosaurios y de aves conservadas en ámbar, procedente de Alberta (Canadá), y con una antigüedad comprendida entre 70 y 85 millones de años (los dinosaurios se extinguieron hace 65 millones). El hallazgo ofrece una oportunidad única para los científicos de conocer la estructura e incluso el aspecto cromático de aquellos dinosaurios, que tendrían plumaje de colores difusos (marrones, grisáceos, negros...) similares a aves actuales, con plumas moteadas y translucidas.

16 segmentos de pluma, conservados en ámbar (de Alberta, Canadá), de hace entre 70 y 85 millones de años.- SCIENCE / AAAS
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Además del interés que tiene la coloración de los dinosaurios, el hallazgo del ámbar de Alberta, permite a los investigadores examinar la morfología y la función de sus plumas, así como conocer mejor su evolución. "El plumaje especializado para el vuelo y para la natación subacuática había evolucionado ya en la aves del Cretácico superior", escriben Ryan C. McKellar (Universidad de Alberta) y sus colegas en la revista Science.

Estos científicos han descubierto 11 especímenes de plumas o protoplumas en el análisis de más de 4.000 piezas de ámbar recuperadas en la zona del lago Grassy (Alberta) que forman parte de las colecciones del Museo Royal Tyrell de Paleontología y de la Universidad de Alberta. Los especímenes abarcan cuatro fases distintas de evolución de las plumas, incluidos filamentos similares a las protoplumas de dinosaurios no avianos que se desconocen en las aves modernas, a la vez que plumas ya mucho más complejas y parecidas a las actuales. Pero McKellar y sus colegas reconocen que no hay posibilidad de asociar los fragmentos conservados en ámbar con especies concretas de dinosaurios o de aves, ni siquiera pueden determinar qué plumas son de unos o de otras, aunque identifican claramente filamentos y estructuras que son muy similares a las improntas descubiertas en fósiles de dinosaurios de otros yacimientos.

En un análisis del descubrimiento, el especialista Mark A. Norell (Museo Americano de Historia Natural, Nueva York) recuerda que en los últimos años se está avanzando mucho en la investigación del color de los dinosaurios, incluso con análisis de fósiles, si están excepcionalmente bien conservados, porque en algunos casos es posible identificar la forma de las células de pigmento que se pueden comparar con las de animales actuales.

BIBLIOTECA DA MARÈ

Ontem fui conversar com duas turmas na Bblioteca da Maré. Mas na saída tive muito medo. Passamos por um tiroteio, pessoas correndo, e meu coração parecia um tambor. Não gostei da experiência. A Biblioteca é fria, faltam tapetes, faltam almofadas, falta calor humano. A turma era difícil, claro, como poderia ser diferente? Mas talvez , quem sabe, se antes do nosso encontro eles tivessem ouvido meu nome ou lido alguns poemas meus? A biblioteca deveria ser um oásis de felicidade num lugar tão hostil, mas não é. Nem ao menos um lanche as crianças receberam. Elas chegaram falando que estavam com fome.Foi para mim uma experiência muito dura e espero que alguma coisa boa tenha ficado . Tentei brincar o tempo todo para que a experiência fosse leve para eles. A minha surpresa é que uma aluna de uns 8 anos leu dois poemas meus maravilhosamente bem.Levo um tênue fio de luz de esperança no coração com a leitura da linda menina.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

CRIANÇAS NO JARDIM

Escrevo hoje meu post de amanhã, já que vou muito cedo para o Rio de Janeiro.
Hoje a manhã foi uma cachoeira de alegria com 40 crianças sentadas no jardim e a Professora Andréia da Sala de Leitura da E.M.Pedro Paulo Silva lendo o novo livro do Juan, "Falando com as Estrelas". As crianças ouviam fascinadas. Depois fizemos uma lista dos habitantes do mar e então li alguns poemas do meu livro "O Mar e os Sonhos". Mas volto alguns minutos para trás e um Ônibus enorme com um cartaz no vidro da frente "Casa da Roseana Murray" estaciona na porta e as crianças saem maravilhadas e me abraçam e me beijam.Depois da Roda de Leitura no jardim fomos para a varanda e servimos a feijoada.Que crianças educadas! Comeram compenetradamente, sentadinhas no chão.De sobremesa fiz brigadeiro de colher que foi um sucesso e voltamos a fazer outra Roda de Leitura, agora na varanda. Recebí presentes, recitaram poemas, Vanda foi ovacionada pela comida maravilhosa e fomos para a praia.
Mais pareciam passarinhos do que crianças!!! Eram o néctar da felicidade.O mar estava com piscinas e eles tropeçavam, caiam na água, catavam conchas. Lourdes, a diretora, ria , radiante e até o fotógrafo da Secretaria de Educação e o Motorista estavam maravilhados. Fizemos uma ciranda e gritamos muito, de felicidade. Gritamos para o mar. Depois foi uma mangueirada para tirar a areia dos pés e a ruidosa despedida.

FALANDO COM AS ESTRELAS

"Para falar com as estrelas, basta olhar o céu e sonhar, navegar em seu azul profundo, suspirar quando a via láctea derrama leite em nossos olhos. Para falar com as estrelas há que usar um alfabeto mágico, feito de luz. Com mãos de poeta, Juan Arias nos leva pelas ruas de Roma até a casa de Luz, a menina italiana que fala com as estrelas e, nela, nosso coração se reconhecerá."
Escreví este texto para apresentar o livro do Juan, meu marido, "Falando com as Estrelas", ed. Paulinas, que traduzí. As ilustrações, belíssimas, são de Mari Ines Piekas e o livro é terno e quente como uma noite estrelada. Recebemos ontem pelo correio o pacote com os nossos exemplares e ficamos cobertos por uma camada de poeira cósmica: felicidade.

O fogão de lenha já está aceso, as panelas no fogão, para a feijoada de hoje. Às 11hs chegarão as crianças da E.M Pedro Paulo Silva, de Duque de Caxias e os professores. O dia está lindo e a esta hora, tão cedinho de manhã, a lua ainda está acesa e os passarinhos anunciam mais um dia de vida.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

FEIJOADA

Tenho uma história de amor com a E.M.Pedro Paulo em Duque de Caxias e sua diretora Lourdes. A Escola fez uma Sala de Leitura com meu nome e serei eternamente agradecida. Amanhã virão 40 crianças e mais os professores comer uma feijoada na minha varanda. Faremos uma Roda de Poesia no Jardim.Certamente muitas crianças terão seu primeiro encontro com o mar.

Angela, leitora do blog, em seu comentário sobre o post do acaso, citou um trecho do livro Demian, do Herman Hesse. Demian foi um farol na minha juventude, eu o li 300 vezes! Mas encontro na minha estante caótica O LOBO DA ESTEPE ,do mesmo autor, que também amava e começo a reler . Sou e não sou a mesma pessoa que leu O Lobo da Estepe muito jovem e ao mesmo tempo em que estarei lendo o livro, estarei, como loba, farejando quem fui.

André, meu filho, me conta: o jantar com o cardápio do filme Como Água para Chocolate, em seu Babel Restaurante, em Visconde de Mauá, foi um sucesso. Os clientes jantavam enquanto o filme passava num telão. No final um crítico de cinema fez suas considerações.Evelyn, minha irmã, emprestou uma reprodução da Frida Kahlo para dar um toque mexicano ao ambiente.

Evelyn me conta: seu ateliê de cerâmica em Visconde de Mauá está quase pronto. Em outubro, certamente, poderá começar a dar aulas. Irei visitá-la no dia 5 de outubro. Preciso ver a transformação da bela casa que alugou.E preciso continuar a escrever meus poemas do novo livro O Diário da Montanha.

domingo, 11 de setembro de 2011

BONDADE

Quando tudo aconteceu, no dia 11 de setembro de 2001, eu estava num café da manhã com poesia, numa escola, conversando com adolescentes. Meu filho André e minha nora Dani Keiko moravam em Miami. Era aniversário da Dani. André, quando finalmente conseguimos nos falar, me disse: "quero me lembrar de todas as pessoas que estão nascendo hoje, neste dia."Então, já que , ao longo destes dez anos, tantas pessoas nasceram no dia 11 de setembro, gostaria de falar da bondade humana, da capacidade que o ser humano tem de compaixão, de sacrifício pelo outro, de se dedicar a causas belas em todos os lugares do planeta, de ajudar a quem precisa.
Juan me conta que seu pai, Guillermo, na Espanha devastada pela Guerra Civil, onde as pessoas não tinham o que comer, era professor. A escola funcionava na sua própria casa. Muitas vezes os camponeses, por gratidão, lhe traziam alguns ovos ou azeite, já que era ele quem escrevia cartas para todos. Ele dizia para sua mulher Josefa que não aceitasse, pois aqueles ovos poderiam matar a fome de uma família que não tinha nada para comer e eles pelo menos tinham os livros e um pequeno salário.Quando um familiar morreu e uma terra teria que ser dividida como herança , ele abriu mão da sua parte, já que, ele disse que já eram ricos, apesar da pobreza, pois sabiam ler, escrever e pensar.
Penso em todas as pessoas que arriscaram suas vidas para esconder judeus em suas casas na Segunda Guerra Mundial. Penso nos milhões de seres humanos que agora, neste momento , estão doando amor para alguém.
Então desejo que minha nora Dani Keiko, uma mulher corajosa, forte, amorosa, sempre pronta a ajudar a todos que estão ao seu redor, possa comemorar seu aniversário hoje pensando na capacidade que nós, seres humanos temos de exercer a bondade.

sábado, 10 de setembro de 2011

ACASO

Por acaso, em 1994, sentei ao lado de um homem no Aeroporto do Galeão enquanto esperava uns amigos na sala de embarque , pois estava indo com um grupo para a Feira de Frankfurt. Conversamos. Ele era espanhol, jornalista e me disse que se eu fosse a Madrid passasse por seu jornal , o El País e levasse alguns livros . Fui a Madrid, levei alguns livros para o tal jornalista. Ele se apaixonou pela minha poesia. Começamos uma longa correspondência e nos casamos alguns anos depois. Com nosso casamento mudamos a vida de muita gente.
Por acaso comecei a escrever poesia para criança. Em 1979 meu filho queria ler meus poemas. Ele era criança e eu achava que meus poemas , densos, pessimistas, existenciais, não eram para ele. Brincando, comecei a escrever uns poemas bem leves e lúdicos. Juntei uns 20 poemas e mandei para a sua professora, ela se entusiasmou e me mandou um bilhete: _ " São lindos! Por que você não tenta publicar? "
Por acaso conhecí a Elvira Vigna, mulher de um colega de trabalho do meu ex marido. Ela escrevia e ilustrava para crianças. Mostrei meus poemas e ela adorou e pediu para ilustrá-los. Conseguimos uma editora, a Murinho e o livro saiu em dezembro de 1980. Fardo de Carinho foi a primeira pedra de uma longa estrada: não me deixaram mais parar.
Se eu tivesse entrado na sala de embarque alguns minutos depois, talvez o Juan não estivesse mais lá, ou alguns minutos antes. Talvez a cadeira ao seu lado estivesse ocupada.
Se meu filho de 7 anos não fosse um leitor e se interessasse pelo que eu escrevia, talvez nunca tivesse começado a escrever para criança.
O que é o acaso que rege as nossas vidas?
Ontem encomendei um livro do físico Leonard Mlodinow, " O andar do bêbado", ed. Zahar. Ele sustenta que toda a nossa vida é obra dos acasos, mas que temos que estar preparados para aproveitar as oportunidades que o acaso nos oferece.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

CAIXINHA DE MÚSICA

Faz tempo Nancy, uma atriz, me pediu licença para montar meu livro Caixinha de Música, que fiz em parceria com meu filho Guga Murray com o selo da Manati. Hoje recebo uma carta que reproduzo aqui. Fiquei radiante:

Olá Roseana Murray....


Volto a dar notícias sobre "Caixinha de Música".


Resumindo, não fui atrás de patrocínio, e conseguimos montar um show (creio eu
que está ficando muito bonito - logicamente com sua poesia que encanta a todos, seria difícil não estar ficando bom - mas devo admitir que a responsabilidade é grande! E espero do fundo do meu coração que lhe agrade o resultado).

Consegui agendar o show em Rio das Ostras para os dias 21/22 e 28/29 deste mês no Teatro da Fundação de Rio das Ostras.

Entrei em contato com várias escolas e algumas já confimaram presença. Estou cobrando valores mais que populares para crescer o acesso: R$ 3,00 para as mais carentes e R$ 4.00 para outras.

E faremos apresentação numa escola particular, no auditório do colégio. Você esteve lá e são encantados por ti. Será no Colégio Casulo. Eu nem sabia.

Já em Saquarema, apresentaremos dia 06 de outubro no Teatro Mário Lago. E também no dia 08 de novembro.

Consegui falar com a secretaria da educação, e se manifestaram para ajudar e facilitar o acesso de escolas no evento. Faremos mais de uma sessão, o teatro é pequeno e já estava comprometido de agendas.

Estava ansiosa para lhe dar essas notícias mas esperei um pouco até que tudo se concretizasse mais. Cheguei a pensar: Já pensou se ela fica sabendo do show antes que eu lhe dê notícias?!!!!

Beijos,
Nancy Macedo



UM DIA DE POESIA

Ontem passamos um dia de poesia. Gloria Kirinus leu seus poemas, seus belíssimos mini contos , eu li meus poemas, alguns contos. Nos sentamos no jardim, falamos dos filhos, dos netos, dos amigos perdidos, de outros achados. Falamos de como a poesia nos torna aventureiros, criaturas assombradas com os milagres de cada dia.Falamos sobre a beleza e seu poder curativo, a força da lua, a força do sol.Falamos dos encontros mágicos, dos desencontros. Falamos da vida, a matéria prima de todos os criadores.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

LATUF E CAFÉ LITERÁRIO

Hoje faz um ano que meu grande, imenso amigo Latuf foi embora para Pasárgada, com suas túnicas, seus poemas, seus gestos largos, seu sorriso. Todos os dias eu o chamo e de alguma estrela longínqua ele me responde: "estou aqui, meu bem", ouço nitidamente a sua voz com um timbre aveludado e único. Conversamos muito, pois éramos amigos-irmãos-de-alma-e-poesia. Sei que onde estiver estará cercado de beleza.

Ontem o Café Literário foi muito bom, com a Gloria Kirinus e Guto Lins. Lemos poemas, contamos casos, a platéia estava repleta e receptiva. Saí iluminada. trouxe Gloria comigo para Saquarema e hoje passaremos o dia juntas.A poesia da Gloria é linda:

Minha lâmpada
de lua
não estoure,
por favor,
este é o último

-Prometo-

Segredo de amor.


Gloria Kirinus, Lâmpada de Lua, ed. Larousse Junior

Todos os livros da Gloria são bilíngues, pois ela é peruana. Ler os poemas nas duas linguas é uma fonte de prazer.