terça-feira, 31 de julho de 2012
PERGAMINHO DE MEMÓRIAS
Meu filho Guga que voltará para o Brasil em setembro depois de oito anos vivendo na Espanha, me telefona hoje de manhã:
_Mãe, achei a escola pro Luis.
A família viverá em Resende onde Guga fará uma Escola de Música.
A escola se chama Artes e Manhas e fica ao lado de onde vai morar. Tem capoeira, judô, aula de espanhol, belo espaço físico,e, milagres da tecnologia, ele conversou com a diretora enquanto falava comigo pelo skype e foi muito bem recebido.
Luis começa as aulas dia 24 de setembro e entrará na escola sem falar português. Mas certamente aprenderá em uma semana, já que entende tudo.Patrícia, minha nora, oferecerá aulas de flamenco para as crianças.
Não parece verdade que terei meu neto perto de mim. E a escola tem todo mês o Dia das Avós que deveria ser matéria obrigatória em todas as escolas. As avós são um pergaminho de memórias e já me vejo contando histórias para a turma do Luis.
segunda-feira, 30 de julho de 2012
MOMENTO
Uma fotografia do momento:
Da minha mesa que dá para as montanhas ouço o mar rugir atrás de mim. A casa vibra, quase balança, me sinto em alto-mar. Bastaria um par de velas e a casa se transformaria em barco. Um sudoeste envolve o cenário.
Nana, minha gata, dorme em cima de uma cadeira dourada, herança da minha mãe, é a sua última paixão. Escuto Cazuza e cachorros latem na casa ao lado.
domingo, 29 de julho de 2012
JORGE AMADO EM PRAGA
Hoje o jornal O GLOBO publica um lindo caderno sobre Jorge Amado que faria 100 anos dia 10 de agosto.
É impressionante como antes da internet, antes da globalização, Jorge Amado já levava o Brasil para o mundo.
Em 2001 fui a Praga. Fiquei hospedada num apartamento num prédio incrível, na frente da Ponte Carlos. A dona do apartamento se chamava Zdena e ficamos amigas. Ela alugava o apartamento e nós o encontramos por acaso. Era aconchegante, maravilhoso, queria ter ficado aí por alguns meses, mas infelizmente só tinhamos uma semana. Zdena falava um inglês horroroso, como o meu, mas nos entendemos maravilhosamente. Ela me contou que o prédio era muito antigo, talvez do ano 1200 e tinha uma passagem subterrânea que levava ao Castelo. Ela me contou que o prédio era da sua sogra e que o devolveram quando mudou o regime.
No dia da nossa partida finalmente ela me convidou para ir até a sua casa e ela já tinha internet, pude mostrar meu site. O seu escritório tinha uma estante cheia de livros e ela foi até a estante , retirou um volume e me mostrou: Jorge Amado. Era um livro bem antigo e gasto. Ela também me presenteou com um livro de um amado poeta tcheco de nome impronunciável.
Logo depois Roger Mello iria a Praga, acho que era no ano seguinte. Então consegui uma tradutora através do Consulado, paguei a tradução do meu livro Tantos Medos e Outras Coragens e Roger levou para Zdena.
Depois nos perdemos. Que pena.Tentei muitas vezes encontrá-la. Em vão.
sábado, 28 de julho de 2012
UM DIA ESPECIAL
Hoje eu e Juan fazemos 12 anos de casamento. Em 1994, ao ir para a Europa para receber meu prêmio, entrar na lista de honra do I.B.B.Y, no aeroporto Tom Jobim sentei ao lado de um homem. Começamos a conversar. Ele era jornalista , o fundador do caderno Babelia, do El País. Falei que era poeta e que ia a Sevilha. Ele me perguntou se eu passaria por Madrid. Respondi que sim, ficaria 3 dias em Madrid. Ele me convidou para conhecer o seu jornal e levar algum livro de poesia, quem sabe ele pudesse publicar algum poema . Fui ao seu jornal com uma amiga. Fiquei muito impactada com a sua cultura, a sua força. De lá fui para Paris e lhe mandei um cartão agradecendo a acolhida. Recebi um exemplar do jornal, em um atigo ele havia publicado um pedaço de um poema do livro Classificados Poéticos. Começamos a trocar poemas , numa longa correspondência . Ele se apaixonou pela minha poesia.
Em 1997 ele veio ao Brasil para me ver. Em 1998 fui morar com ele em Madrid. Em 1999 viemos para o Brasil, ele já como correspondente. Em 2000, no dia 28 de julho, nos casamos num cartório no Estácio, no Rio de Janeiro. Chegamos no cartório e havia uma fila de gente bem simples esparramada pela rua. Com suas melhores roupas. Os meus filhos foram nossos padrinhos. O Juiz nos casou em segundos, não fez nenhum discurso , acho que ele estava com muita pressa.
Nunca nestes 12 anos comemoramos a data, quase nunca nos lembrávamos. Mas este ano tenho vontade de comemorar. De relembrar as 1001 viagens que fizemos juntos, os livros que publicamos, as árvores que plantamos, só não fizemos filhos porque eu já não podia mais.Passamos o dia inteiro juntos, trabalhamos no mesmo espaço, eu leio o que ele escreve, ele também lê o que escrevo.
Um almoço só para nós dois, uma bela pasta italiana,pão fresco feito em casa, vinho espanhol.Comemorar o milagre de estarmos vivos e apaixonados.
sexta-feira, 27 de julho de 2012
A AVENTURA DO CONTO PERDIDO
Estou escrevendo um livro de contos. Já tenho 50 páginas. Assim como escrever poesia para mim é simples como respirar, a poesia é o sangue que corre em minhas veias, escrever ficção é outra história. Primeiro preciso inventar uma história e as pessoas precisam acreditar nela. Depois tenho que encontrar a escrita para a história. É bastante complicado quando não nascemos com este talento. Mas vou mastigando pedras e acabo conseguindo. Pois bem, estava rearrumando os contos, mudando alguns de lugar, quando o conto que eu estava querendo trocar de lugar, simplesmente desapareceu, ficou invisível. Sumiu. Eu não tinha cópia. Isso aconteceu quando estava em Mauá.Revirei o computador pelo lado do avesso e não encontrei meu conto. Voltei para Saquarema com o conto desaparecido ocupando um lugar imenso dentro de mim. Ele assumiu a forma de uma tristeza difusa. O Valdinei, o menino que me ajuda nas horas cruciais estava viajando e só voltou ontem. Ele também virou e revirou o computador, espremeu, quase fez um suco de letras e ... achou o conto bem escondidinho num desvão , atrás de alguma escada.
O alívio, a felicidade, eu jamais conseguiria escrever meu conto outra vez!
Ah, diria a minha avó, habitante das estrelas, isso não aconteceria se você fizesse cópias...
quinta-feira, 26 de julho de 2012
NA CASA DO MEU IRMÃO
Ontem fui ao Rio e dormi na casa do meu irmão.
Somos meio-irmãos, já que ele é filho de outra mãe, que morreu muito antes do meu nascimento.
Mas nosso amor é antigo, quando eu nasci ele já estava lá e nosso amor não é um meio-amor, é um amor inteiro.
Ele sempre se engana e me chama pelo nome da sua filha.
Quando nos juntamos sempre falamos do nosso pai. Meu filho André se parece com meu pai e com ele.
Ontem ele não estava, mas minha cunhada me recebeu com um banquete, como faz sempre e tomamos um proseco juntas, só nós duas, para celebrar a vida, a saudade. Falamos do passado, dos filhos, dos netos. Sempre me lembro dela cozinhando e meu irmão sempre me diz: _ Ela gosta muito de você, ela só cozinha para quem gosta.
Voltei bem cedo. Gosto de passar pelas fazendas que margeiam a estrada. A luz era linda e há um túnel verde de árvores entrelaçadas em certo trecho da estrada que produz uma emoção intensa.Juan me esperava na esquina.
Pequenas felicidades tecem a vida.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
EMBARQUE E DESEMBARQUE
Recebi muitas mensagens pelo meu texto de ontem aqui no blog. Todos me pedem que eu não desembarque.
Eunice da Silva Rosado me escreve:
"Roseana, li o texto de hoje no seu blog e queria te dizer que não desembarque não! As escolas precisam e devem oferecer momentos de sensibilidade, emoção, solidariedade, beleza aos alunos, porque violência eles já têm de sobra, às vezes até em casa.
Seus poemas são verdadeiros oásis! Não desanime!!!!"
Claro que não vou desembarcar nem vou desistir. Era só um desabafo diante de uma carnificina. Pelo contrário, embarco todos os dias num barco iluminado que é a vida.
Escrevo todos os dias e acredito fervorosamente que a violência pode ser neutralizada com beleza, eu ia escrever combatida, mas combate vem de guerra e se repararmos bem a nossa linguagem está cheia de palavras que nos remetem à guerra!
Acredito na bondade, solidariedade, delicadeza, poesia, beleza. Acredito que podemos transformar o lugar em que vivemos com gestos simples.Com amor.
Acredito no amor e na compaixão.
terça-feira, 24 de julho de 2012
NO ESCURINHO DO CINEMA
Jabor escreve hoje no O Globo uma crônica maravilhosa, imperdível, sobre o massacre no cinema, na estréia do filme Batman, nos Estados Unidos.
Os jovens replicam na realidade o que lhes é oferecido em doses cavalares em seu cotidiano: violência gratuita. Nos filmes, nos jogos, nas relações interpessoais.
A sociedade é absolutamente responsável pelos monstros que alimenta. O escurinho do cinema foi construido para sonhar e namorar, para refletir,para voar de olhos bem abertos. Banalizar a violência é perigoso e desemboca em toneladas de insensibilidade, frieza, sadismo, ruelas cheias de cadáveres, a eliminação do diferente, campos de extermínio.
Não dá para desembarcar do mundo, mas algumas atitudes simples melhorariam o mundo: a eliminação das armas, a eliminação dos filmes e jogos com violência gratuita.Sabemos que o cérebro é plástico e pode ser modificado com simples pensamentos, imaginem com toda esta exposição à violência. Claro que estes desejos são irrealizáveis , são utopia. Então , por favor, parem o mundo. Eu quero desembarcar.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
MINHA VIDA COM MAMÃE
Angela, leitora do nosso Clube de Leitura, me trouxe de presente o livro "Minha Vida com Mamãe" de Bety Orsini. Ela me disse : "você vai adorar".
Ontem meu filho André me ligou e disse :"Mãe, você está fazendo muita falta". Estive sete dias na minha casinha em Visconde de Mauá e todos os dias passávamos algumas horas juntos em sua casa, no Babel Restaurante. Ontem falei pelo skype com meu filho Guga , que mora em Granada. Todos os dias preciso falar com meus filhos. Todos os meus pensamentos são para eles.
Bety Orsini escreve crônicas deliciosas do seu cotidiano com a mãe. E me traz a minha mãe de volta e também a mãe que eu sou. Ela nos diz algo tão simples: as mães não são eternas, elas são mortais e enquanto existem devemos todos os dias falar com elas do nosso amor por elas, já que o amor delas é como o universo, não dá para medir.
A imagem mais forte que o livro me traz, é a imagem da minha própria mãe, é dela me esperando em seu apartamento em Teresópolis, já terminal, toda vestidinha no sofá, com a sua melhor roupa, me esperando feliz, com seus 40 quilos , e a primeira coisa que ela me dizia: "Roseana,que saudade, você está tão bonita".
E de súbito eu a vejo na minha infância trabalhando todos os dias e horas e minutos para que nós pudessemos estudar, para que tivessemos uma vida digna, ela comia em pé muitas vezes para não perder nem um segundo do seu precioso tempo. Eu me sentia abandonada, triste, cuidada por mãos estranhas, mas hoje entendo que ela só queria que estudassemos numa boa escola, que pudessemos comprar livros, fazer um curso de dança ou de música e o dinheiro da casa era tão pouco, ela fazia verdadeiros milagres.
Porque não falei mais vezes que a amava?
Quem ainda tem a sua mãe bem viva, que corra hoje para abraçá-la.Pois as mães , por um erro terrível da natureza, embora imortais dentro da gente, são mortais .
domingo, 22 de julho de 2012
LUZ
A luz de Saquarema nesta época do ano é quase líquida, se mistura com o mar e a lagoa e transtorna nossos sentidos.
Da minha janela vejo as montanhas distantes com uma nitidez imensa como se pudesse alcançá-las com a mão.
Todos sairam para caminhar,o barulho do mar embrulha a casa.
Já alimentei os jabutis e coloquei frutas nas árvores para os passarinhos. Minhas primeiras tarefas.
Hoje começo a colocar a correspondência em dia, sete dias sem internet e é uma avalanche prestes a despencar em cima de mim, mensagens e mais mensagens.
Hoje vivemos em uma teia, a rede que mergulhamos no mundo nunca volta vazia e é como colocar frutas para os pássaros, há que alimentar os que estão em nossa rede com palavras.
sábado, 21 de julho de 2012
CLUBE DE LEITURA DA CASA AMARELA
Cheguei de Visconde de Mauá ontem para o almoço . Passei sete dias na minha casinha dentro da mata, como todos sabem, sem nenhuma tecnologia.
Havia convidados na casa aqui em Saquarema, nem pude abrir a internet. E hoje já seria o nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela.
Salvador, meu amigo ermitão, que mora bem acima do nosso sítio, veio comigo pois ontem foi o aniversário do Juan. Eles são muito amigos.
E o nosso encontro de hoje foi na casa rural de um dos membros do clube. Lugar magnífico com anfitriões magníficos.
Nosso encontro foi debaixo de uma mangueira imensa, na beira da lagoa, entre pavões e galinhas d'angola. Estavam todos, menos a Cris que não conseguiu vir do Rio.Mas outros vieram , Dr. Messias, Kátia, Angela, Leila, Felipe e a namorada, Andrea. Vieram do Rio para o nosso encontro e isso me comove muito.E o pessoal daqui de Saquarema, Flora, Hector, Francisco, Maria Clara, Gil.
O Amante da Marguerite Duras, foi tema de muitos temas paralelos. Falamos da estrutura do livro, do texto como fotografias, falamos do interdito, do amor, da paixão, da simplicidade beleza e densidade da escrita. Falamos sobre a memória. Francisco disse que o verdadeiro amor, o que nunca se apaga é o amor dos amantes, o que não cai na rotina. E isso foi muito discutido. E no livro o amor de um chinês por uma jovem "branca" de quinze anos está cercado de proibições por todos os lados. Falamos dos segredos, de como a casa onde se encontravam era ao mesmo tempo escondida e exposta , num equilíbrio precário. Falamos de como a família da jovem nos lembrava o romance Dois Irmãos do Milton Hatoum. De toda a ambiguidade que reinava nas relações daquela família. Falamos de incesto. Da fragilidade do amante, do seu pai opressor em contraponto com a mãe louca da jovem. Falamos de amor.Das muitas formas de amor, no passado e hoje.
Muitos acharam o livro difícil. Felipe e a namorada passaram dois dias lendo o livro em voz alta um para o outro e ele reclamou das lacunas do livro e das oscilações do texto. Mas depois da nossa discussão todos gostaram do livro. Hector nos chamou a atenção para a fluidez das relações hoje, do ser humano como objeto descartável. Messias disse que caminhamos para algo novo. Encontraremos um equiliíbrio entre razão e desejo.Juan falou da hipocrisia das relações antigamente e de como estamos indo em direção a algo muito melhor.
O conto do James Joyce OS MORTOS foi lido por poucos e não pode ser muito discutido. Quem leu ficou comovido com a beleza do conto.
Cada um levou um poema do Drummond e foi maravilhoso ouvir a sua poesia naquele cenário estonteante. Fernando esqueceu os óculos, mas o Hélio leu para ele.
O almoço era tão espetacular, uma mesa tão farta de iguarias, que nem sabíamos por onde começar. Hélio fez um discurso lindíssimo pelo aniversário do Juan e o bolo e a sobremesa mereciam um tratado .
Depois do almoço cada membro do clube plantou uma árvore. Eu escolhi um cajá manga, mas na verdade quem plantou para mim foi meu amigo Salvador, pois a árvore era pesada, a pá nem se fala e a minha coluna complicada como sempre.
O próximo encontro será dia 15 de setembro. O livro: A DAMA DO CACHORRINHO de Anton Tchekov da ed.LPM, livro de bolso. E um poema do Quintana. Cada um escolha o seu.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
BARRA DE SÃO JOÃO
Lá vou eu com a minha sacola de livros para Barra de São João. Qual livro escolho, o que levarei na bagagem? Gosto de fazer dinâmicas com as crianças a partir dos poemas, brincadeiras com os versos, o conteúdo, as palavras. Faço a platéia interagir. E hoje também conversarei com os pais. E isso é uma boa idéia. Um encontro com os filhos e outro com a família.
Antes preparo um almoço para Gisela e Arnaldo, o casal de taxistas que me leva para cima e para baixo. Eles são adoráveis e já fazem parte da família. Teremos que almoçar como os camponeses, pois terei que chegar na escola às 13.30hs e são duas horas de viagem até lá. Mas o caminho é lindo, vamos seguindo a imensa lagoa de Araruama. É um privilégio viver nesta região.
quarta-feira, 11 de julho de 2012
CARTA DE UMA LEITORA
Angela, nossa companheira do Clube de Leitura da Casa Amarela, pessoa de extraordinária sensibilidade, não conseguiu ir ao lançamento do meu livro em Mauá. E ficou muito triste, pois já estava tudo arquitetado .Então me fez uma surpresa : semana passada ela foi a Mauá, foi ao atelier de cerâmica da minha irmã Evelyn Kligerman e foi almoçar no Babel. Ela queria ver os lugares por onde o livro Diário da Montanha passou. E hoje ela deixou um comentário tão emocionante aqui no blog que eu reproduzo no post. Agradecida, orgulhosa, vaidosa:
Roseana!
No dia 07 de julho conheci e almocei com a minha sobrinha Clarissa, talvez, no mais belo restaurante da cidade de Visconde Mauá. Tudo nele me surpreendeu e me fez acreditar ainda mais no que o amor é capaz de fazer, pois só com muito amor e respeito pelo próximo se é capaz de criar algo assim tão acolhedor.
Fiquei impactada com tanta criatividade e bom gosto.
Enquanto esperava os nossos pratos que estavam sendo preparados, fiquei olhando atentamente a natureza a nossa volta procurando, não sei a razão, para o sucesso do restaurante.
Diante daquela vista maravilhosa pensei:
_ Meu DEUS, só pode ser isso, eu encontrei a razão maior: A NATUREZA REVERENCIOU ESSE LUGAR. Ela aceitou muito bem o seu mais novo habitante. Dá para entender perfeitamente, agora, o sucesso dessa casa que alimenta não só o nosso corpo, mas, sobretudo a nossa a alma.
É como se a natureza e os habitantes da belíssima floreta quisessem todo o tempo lhe dizer:
_ Obrigada, querido restaurante.
Nós os habitantes da floresta agradecemos a sua presença entre nós, pois você recebe com amor os alimentos que lhe oferecemos e com o esse mesmo amor, sabedoria e habilidade artística retribui com uma verdadeira dádiva, uma obra prima que DEUS reconhece.
Nossa eu pensei:
Tudo nesse restaurante foi construído com o coração nos mínimos detalhes, desde onde se lava as mãos com sabonetes de diferentes aromas (eu amo sabonete), as toalhas da mesa com algumas barras bordadas e trocadas a todo o momento que sai um cliente, os utensílios usados e o prato maravilhoso que nos é servido.
É para se comer em silêncio e agradecendo o momento.
Tudo ali tem um toque de elegância, de sofisticação, de requinte e, sobretudo de família, pois para mim, família é tudo.
Parece que em cada pedacinho daquele lugar está gravado o amor e um desejo: da mãe, do pai, da tia, (percebi o toque artístico da tia Evelyn Kligerman), da gatinha BABEL que foi homenageada com o nome do restaurante. Está gravado no comentário do escritor Juan Arias na contracapa do cardápio, nas frases da mãe Roseana Murray e no carinho de amigos para que tudo dê muito certo, e já está acontecendo.
A natureza aprovou e se ela aprovou não há como contestar.
Saí de lá muito feliz e agradecida. A lareira ainda não estava acesa, mas certamente mais tarde seria a testemunha mais viva do calor que ali se renova a cada dia.
Voltei orgulhosa, pois estive diante de dois grandes Chefs de cozinha (marido e mulher) e professores de gastronomia que são os proprietários do restaurante. Os dois nos acolheram com carinho, bem como a todos que estavam ali almoçando.
Eu gostaria, então de aproveitar esse espaço no BLOG da escritora Roseana Murray e agradecer a você André Murray e Dani Keiko a acolhida carinhosa e a comida maravilhosa que nos foi servida com capricho e refinamento e idealizada com criatividade.
Quando constatei todo respeito de vocês pelos seus clientes, me veio a palavra africana SAWABONA que quer dizer:
_“Eu te respeito, eu te Valorizo você é importante pra mim”
Eu acho André, Dani, Paula, e outros funcionários que aí trabalham que essa é a razão maior para o êxito do restaurante. É muito bom a outra pessoa se sentir assim, e em retribuição dizemos: SHIKOBA que quer dizer:
“Então eu existo para você”.
Vocês, André e Dani merecem tudo de bom e tenho certeza que ainda verei os seus nomes dentre os maiores Chefs de cozinha.
Eu agradeço a você também Roseana pela preocupação comigo e com a minha sobrinha desejando que ficássemos muito bem.
Pois é, leitores do BLOG eu falei muito, mas acabei de falar do belíssimo restaurante BABEL no VALE DO PAVÃO.
Se alguém pensa que estou exagerando por estar falando do filho da escritora Roseana Murray, é só dar uma chegadinha em Visconde Mauá (uma cidade mágica) e conferir.
Ninguém vai se arrepender, eu tenho certeza.
Com carinho,
Angela Quintieri
DE MALAS PRONTAS
Sexta-feira volto para Visconde de Mauá. Hoje encontrei a Maria Clara, do nosso Clube de Leitura , e ela me perguntou:
- De novo? Agora você mora lá?
Não, eu moro em Saquarema! Mas aproveito a presença do meu filho André em todos os dias de julho com seu restaurante aberto para ficar be perto dele, pois saudades de mãe nunca acaba. E levo trabalho, pois em Mauá nada me distrai. Tenho que refazer meus contos e pensar em outros.
Tenho acompanhado a série que está saindo no O Globo sobre as escolas públicas que dão certo. A receita é simples: dedicação, aulas de reforço, afeto, mais horas na escola, a família na escola. O fracasso do aluno é o fracasso do professor. E muita leitura.
- De novo? Agora você mora lá?
Não, eu moro em Saquarema! Mas aproveito a presença do meu filho André em todos os dias de julho com seu restaurante aberto para ficar be perto dele, pois saudades de mãe nunca acaba. E levo trabalho, pois em Mauá nada me distrai. Tenho que refazer meus contos e pensar em outros.
Tenho acompanhado a série que está saindo no O Globo sobre as escolas públicas que dão certo. A receita é simples: dedicação, aulas de reforço, afeto, mais horas na escola, a família na escola. O fracasso do aluno é o fracasso do professor. E muita leitura.
terça-feira, 10 de julho de 2012
EM QUE LIVRO?
Gustavo Garzo, escritor espanhol, faz a seguinte pergunta:
" Em que livro você gostaria de morar" ?
Imagino que a pergunta tenha uma longa curvatura e retroceda até a infância. Pois eu não tenho nenhuma dúvida: queria morar no Sítio do Pica-Pau-Amarelo para sempre. Aliás, quando compramos o sítio em Visconde de Mauá em 1976 o meu modelo era o Pica-Pau Amarelo. E as tardes tinham cheiro de bolo de fubá e bolinho de chuva que eu fazia para meus filhos pequenos.
Alguns livros sao magníficos mas não gostaríamos de morar dentro deles.
Quando era jovem li "Como era verde o meu vale" do escritor Richard Llevellyn e a imagem que ficou fortissima dentro de mim foi a de um vale inundado por música, a imagem me acompanha até hoje, no entanto, não gostaria de viver aí ,nesta época, numa região mineira. Adoro Madame Bovary, mas não viveria aí. Amo Cartas a Milena , já li tantas vezes que gastei as páginas do livro, mas não quereria viver aí , em Praga, nos anos vinte, com todo o frio e o antissemitismo.
Que cada um faça a sua lista e escolha um livro para morar!
" Em que livro você gostaria de morar" ?
Imagino que a pergunta tenha uma longa curvatura e retroceda até a infância. Pois eu não tenho nenhuma dúvida: queria morar no Sítio do Pica-Pau-Amarelo para sempre. Aliás, quando compramos o sítio em Visconde de Mauá em 1976 o meu modelo era o Pica-Pau Amarelo. E as tardes tinham cheiro de bolo de fubá e bolinho de chuva que eu fazia para meus filhos pequenos.
Alguns livros sao magníficos mas não gostaríamos de morar dentro deles.
Quando era jovem li "Como era verde o meu vale" do escritor Richard Llevellyn e a imagem que ficou fortissima dentro de mim foi a de um vale inundado por música, a imagem me acompanha até hoje, no entanto, não gostaria de viver aí ,nesta época, numa região mineira. Adoro Madame Bovary, mas não viveria aí. Amo Cartas a Milena , já li tantas vezes que gastei as páginas do livro, mas não quereria viver aí , em Praga, nos anos vinte, com todo o frio e o antissemitismo.
Que cada um faça a sua lista e escolha um livro para morar!
segunda-feira, 9 de julho de 2012
O AMANTE
Releio O AMANTE de Marguerite Duras para o nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela dia 21. Sua escrita dura, precisa, cortante. A história é terrível. Acho que será um grande encontro.
Conto os dias para a chegada do meu filho da Espanha. Ele chega em setembro. Com meu neto na algibeira. Guga fará uma Escola de Música em Resende que irá funcionar dentro da Escola de Cozinha do André, meu filho mais velho. Patrícia, minha nora, dará aulas de Flamenco em alguma escola de dança. Gosto muito da idéia de misturar atividades diferentes no mesmo espaço. O nome Babel , que é como se chama a Escola de Cozinha, será também o nome da Escola de Música e cai como uma luva, linguas diferentes na mesma Torre de poesia. E Babel era a nossa gata siamesa que se desdobrou em livros , restaurante e etc. Gosto de pensar que Babel, nossa gatinha amada está viva em todos estes lugares.
Quinta-feira vou a Barra de São João falar numa escola. A cidade é linda com seu rio, a ruazinha de casas coloniais, o Museu Casemiro de Abreu, a Igreja antiga que precisa de uma reforma urgente. Todas as escolas deveriam ter uma disciplina que se chamasse OLHAR. Eu me alimento de olhares.
Conto os dias para a chegada do meu filho da Espanha. Ele chega em setembro. Com meu neto na algibeira. Guga fará uma Escola de Música em Resende que irá funcionar dentro da Escola de Cozinha do André, meu filho mais velho. Patrícia, minha nora, dará aulas de Flamenco em alguma escola de dança. Gosto muito da idéia de misturar atividades diferentes no mesmo espaço. O nome Babel , que é como se chama a Escola de Cozinha, será também o nome da Escola de Música e cai como uma luva, linguas diferentes na mesma Torre de poesia. E Babel era a nossa gata siamesa que se desdobrou em livros , restaurante e etc. Gosto de pensar que Babel, nossa gatinha amada está viva em todos estes lugares.
Quinta-feira vou a Barra de São João falar numa escola. A cidade é linda com seu rio, a ruazinha de casas coloniais, o Museu Casemiro de Abreu, a Igreja antiga que precisa de uma reforma urgente. Todas as escolas deveriam ter uma disciplina que se chamasse OLHAR. Eu me alimento de olhares.
domingo, 8 de julho de 2012
CHUVA
Chove torrencialmente. O mar está negro. As ondas altas. Gosto do tempo assim. Parece que o tempo fica mais lento, quase anda para trás. A casa, mais do que nunca, assume a sua função primordial de abrigo. E range e oscila como se fosse um barco.
sexta-feira, 6 de julho de 2012
CONTOS
Ontem fui ao encontro de uma editora que publicará meu livro de contos, o que estou escrevendo. Conversamos sobre o que falta ao livro, sobre o que sobra no livro. Assim como a poesia flui em mim como um rio, a ficção é dura e não me obedece, me dá muito trabalho escrever um pequeno conto. Mas ao ler um conto novo, que ainda não tinha lido, a minha editora se emocionou e sua emoção foi o meu presente.
Enquanto não compro o livro do poeta Adonis que a Cia das Letras publicou, o que farei hoje, busco alguma coisa na rede e só encontro em espanhol:
Canción al significado
No es este tiempo inicial ni el final de los tiempos,
es el río de la herida que fluye del pecho de Adán.
Su significado penetra en la tierra
y el sol es su imagen premonitoria.
Acho linda a imagem do rio do tempo que escorre desde o primeiro homem e que ao mesmo tempo que é imóvel, flui .
Enquanto não compro o livro do poeta Adonis que a Cia das Letras publicou, o que farei hoje, busco alguma coisa na rede e só encontro em espanhol:
Canción al significado
No es este tiempo inicial ni el final de los tiempos,
es el río de la herida que fluye del pecho de Adán.
Su significado penetra en la tierra
y el sol es su imagen premonitoria.
Acho linda a imagem do rio do tempo que escorre desde o primeiro homem e que ao mesmo tempo que é imóvel, flui .
quinta-feira, 5 de julho de 2012
MÃOS E PÉS
Ainda jovem eu pulava
as pedras do rio, sentia
sua dureza em meus pés,
as nuvens corriam junto
comigo, céu e terra
me esmagavam em seu abraço
e meu corpo latejava
com os dias que ainda existiriam.
Aquelas pedras se inscreveram
profundamente em minha pele,
são as minhas consoantes em dias de espera.
Mergulhava as mãos na água fria
e minhas linhas da mão se desfaziam,
corriam junto com o rio,
quando ainda era jovem.
Hoje meus pés gostam de caminhar
sobre a névoa, a fina película
de irrealidade que cobre a vida,
e minhas mãos tentam apreender
o voo das borboletas.
in DIÁRIO DA MONTANHA, ed. Manati
as pedras do rio, sentia
sua dureza em meus pés,
as nuvens corriam junto
comigo, céu e terra
me esmagavam em seu abraço
e meu corpo latejava
com os dias que ainda existiriam.
Aquelas pedras se inscreveram
profundamente em minha pele,
são as minhas consoantes em dias de espera.
Mergulhava as mãos na água fria
e minhas linhas da mão se desfaziam,
corriam junto com o rio,
quando ainda era jovem.
Hoje meus pés gostam de caminhar
sobre a névoa, a fina película
de irrealidade que cobre a vida,
e minhas mãos tentam apreender
o voo das borboletas.
in DIÁRIO DA MONTANHA, ed. Manati
quarta-feira, 4 de julho de 2012
AMIGOS JAPONESES
Recebo uma carta dos nossos amigos (virtuais) japoneses, Kats e Yuki, que traduziram um livro do Juan Arias, meu marido.
Eles são delicadíssimos. E nos contam um pouco da sua trajetória super cheia de aventuras.
Kats se apaixonou pelo meu livro Carteira de Identidade e está tentando publicá-lo. Não é tarefa fácil, mas saber que alguém do outro lado do mundo passeia às margens de um rio mastigando meus poemas é maravilhoso. Yuki, sua esposa, me conta: ele anda triste e meus versos o acalmam.
]
Enquanto escrevo o Hospital Pedro Ernesto no Rio de Janeiro pega fogo num incêndio que , parece, começou no almoxarifado. . Messias, meu grande amigo, Diretor da Nesa, me manda um torpedo: o prejuízo será enorme , mas não há vítimas.
Talvez, quem sabe, aproveitem para refazer o Hospital que abriga projetos maravilhosos e que literalmente caia aos pedaços. Havia o desejo de fazer uma biblioteca para os adolescentes e eu seria a madrinha, pelas mãos da Dra. Heloisa Groissman, a Loló.
Eles são delicadíssimos. E nos contam um pouco da sua trajetória super cheia de aventuras.
Kats se apaixonou pelo meu livro Carteira de Identidade e está tentando publicá-lo. Não é tarefa fácil, mas saber que alguém do outro lado do mundo passeia às margens de um rio mastigando meus poemas é maravilhoso. Yuki, sua esposa, me conta: ele anda triste e meus versos o acalmam.
]
Enquanto escrevo o Hospital Pedro Ernesto no Rio de Janeiro pega fogo num incêndio que , parece, começou no almoxarifado. . Messias, meu grande amigo, Diretor da Nesa, me manda um torpedo: o prejuízo será enorme , mas não há vítimas.
Talvez, quem sabe, aproveitem para refazer o Hospital que abriga projetos maravilhosos e que literalmente caia aos pedaços. Havia o desejo de fazer uma biblioteca para os adolescentes e eu seria a madrinha, pelas mãos da Dra. Heloisa Groissman, a Loló.
terça-feira, 3 de julho de 2012
O MAR OUTRA VEZ
Cheguei em Saquarema ontem na hora do almoço, exausta, como se tivesse feito uma viagem interplanetária. Havia acordado às 5hs da manhã e ver o sol iluminando as montanhas na hora da partida foi um espetáculo único, deslumbrante.
Toneladas de trabalho me esperavam e ainda me esperam. Não consegui fazer quase nada. Sempre que volto de Mauá sinto um cansaço imenso, paralisante, que não sei explicar.
Agora é colocar o trabalho em dia, continuar com meu livro de contos , e deixar que o mar novamente corra em minhas veias.
Toneladas de trabalho me esperavam e ainda me esperam. Não consegui fazer quase nada. Sempre que volto de Mauá sinto um cansaço imenso, paralisante, que não sei explicar.
Agora é colocar o trabalho em dia, continuar com meu livro de contos , e deixar que o mar novamente corra em minhas veias.
quinta-feira, 28 de junho de 2012
RAPOSA
Estou no atelier da minha irmã Evelyn Kligerman em Visconde de Mauá, em Maringá Minas, para olhar a correspondência. Na minha casinha não tenho internet.
Bia Hetzel, quando esteve na casinha me perguntou: "que bichos você vê por aqui?" Na verdade não vejo muitas coisas. Vejo jacus, tucanos, muitos pássaros, eu tinha um lagarto teiú que era meu amigo, sei que existem jaguatiricas, muitos outros bichos, mas eu não vejo. Mas depois da passagem da Bia pela minha casa eu vi:
ontem ao entardecer, estava sentada na varanda quando no jardim abaixo vi um vulto grande num tronco de árvore com bromélias. O vulto pulou para o chão e era pesado. Então foi andando para o bosque com toda a calma do mundo . Era do tamanho de um cachorro, bem peludo, tinha um rabo enorme e peludo e um focinho alongado. Na verdade o corpo parecia de um pequeno urso. Meu filho me disse que eu tive o privilégio de ver uma raposa que aqui chamam de cachorro do mato. Sei que a raposa foi enviada pela Bia!
Fui convidada pelo Sesc para João Pessoa em agosto. De lá vou direto para para Goiás Velho. estou radiante.
E agora só voltarei a escrever em Saquarema dia 3 de julho. Até lá.
Bia Hetzel, quando esteve na casinha me perguntou: "que bichos você vê por aqui?" Na verdade não vejo muitas coisas. Vejo jacus, tucanos, muitos pássaros, eu tinha um lagarto teiú que era meu amigo, sei que existem jaguatiricas, muitos outros bichos, mas eu não vejo. Mas depois da passagem da Bia pela minha casa eu vi:
ontem ao entardecer, estava sentada na varanda quando no jardim abaixo vi um vulto grande num tronco de árvore com bromélias. O vulto pulou para o chão e era pesado. Então foi andando para o bosque com toda a calma do mundo . Era do tamanho de um cachorro, bem peludo, tinha um rabo enorme e peludo e um focinho alongado. Na verdade o corpo parecia de um pequeno urso. Meu filho me disse que eu tive o privilégio de ver uma raposa que aqui chamam de cachorro do mato. Sei que a raposa foi enviada pela Bia!
Fui convidada pelo Sesc para João Pessoa em agosto. De lá vou direto para para Goiás Velho. estou radiante.
E agora só voltarei a escrever em Saquarema dia 3 de julho. Até lá.
terça-feira, 26 de junho de 2012
LANÇAMENTO MÁGICO
O lançamento do meu livro Diário da Montanha foi totalmente mágico, fora da curva do tempo. Parecia uma irrealidade.
Bia Hetzel e Silvia Negreiros, minhas editoras, que construíram um livro belíssimo, eram os meus anjos da guarda. Evelyn Kligerman e Luis Mérigo, minha irmã e meu cunhado, esvaziaram a sala do atelier de cerâmica para que coubessem os músicos. Então era assim: do lado de fora do atelier havia um caminho de velas e um rio de luz. Algumas mesinhas com cadeiras no meio de belas esculturas. A noite estava fria. Na entrada do atelier ficava o bar com os vinhos e se passava para a sala. Minha tia Alice sentada numa mesa antiga com uma pilha de livros e uma caixinha colorida para o dinheiro, toda produzida e linda nos seus mais de 80 anos, estava totalmente compenetrada na sua função de vendedora. O coquetel preparado pelo Babel Restaurante era estonteante, sofisticado e maravilhoso.Meu filho André Murray e minha nora Dani Keiko trabalharam muito para que tudo saísse perfeito. Dino, um violinista cigano, era o meu sonho personificado. Quando pensei em música , pensei num violino. Ele tocava divinamente bem, um verdadeiro escândalo e tornava a atmosfera mágica, abria um portal para uma outra dimensão. As pessoas iam chegando, chegando, era um fluxo incessante e belo. Meus amigos do passado estavam quase todos aqui. Quando Dino tocou música cigana de repente estávamos dançando numa roda no meio da sala e ele emendou com música judaica e era tudo uma coisa só, afinal judeus e ciganos se abraçam. O Coral de Visconde de Mauá, sob a batuta da Márcia Patrocínio cantou uma música para mim.
Elisa Lucinda que viria e leria alguns poemas me telefonou desejando felicidade , não poderia vir. Juan não pode vir. Messias e Kátia, meus grandes amigos médicos vieram e tiveram que ir embora no domingo por causa de uma emergência. Hélio e Fernando viriam, mas Hélio teve uma pneumonia. Angela Carneiro quebrou o pé e não pode vir, mas garanto que todos os ausentes estavam presentes. E também meus antepassados, e meu tio violinista na longínqua Polonia num tempo longínquo. Numa penteadeira antiga, na sala, uma foto dos meus pais colada num espelho. Todos presentes.
Agora o livro Diário da Montanha já existe .
Bia Hetzel e Silvia Negreiros, minhas editoras, que construíram um livro belíssimo, eram os meus anjos da guarda. Evelyn Kligerman e Luis Mérigo, minha irmã e meu cunhado, esvaziaram a sala do atelier de cerâmica para que coubessem os músicos. Então era assim: do lado de fora do atelier havia um caminho de velas e um rio de luz. Algumas mesinhas com cadeiras no meio de belas esculturas. A noite estava fria. Na entrada do atelier ficava o bar com os vinhos e se passava para a sala. Minha tia Alice sentada numa mesa antiga com uma pilha de livros e uma caixinha colorida para o dinheiro, toda produzida e linda nos seus mais de 80 anos, estava totalmente compenetrada na sua função de vendedora. O coquetel preparado pelo Babel Restaurante era estonteante, sofisticado e maravilhoso.Meu filho André Murray e minha nora Dani Keiko trabalharam muito para que tudo saísse perfeito. Dino, um violinista cigano, era o meu sonho personificado. Quando pensei em música , pensei num violino. Ele tocava divinamente bem, um verdadeiro escândalo e tornava a atmosfera mágica, abria um portal para uma outra dimensão. As pessoas iam chegando, chegando, era um fluxo incessante e belo. Meus amigos do passado estavam quase todos aqui. Quando Dino tocou música cigana de repente estávamos dançando numa roda no meio da sala e ele emendou com música judaica e era tudo uma coisa só, afinal judeus e ciganos se abraçam. O Coral de Visconde de Mauá, sob a batuta da Márcia Patrocínio cantou uma música para mim.
Elisa Lucinda que viria e leria alguns poemas me telefonou desejando felicidade , não poderia vir. Juan não pode vir. Messias e Kátia, meus grandes amigos médicos vieram e tiveram que ir embora no domingo por causa de uma emergência. Hélio e Fernando viriam, mas Hélio teve uma pneumonia. Angela Carneiro quebrou o pé e não pode vir, mas garanto que todos os ausentes estavam presentes. E também meus antepassados, e meu tio violinista na longínqua Polonia num tempo longínquo. Numa penteadeira antiga, na sala, uma foto dos meus pais colada num espelho. Todos presentes.
Agora o livro Diário da Montanha já existe .
terça-feira, 19 de junho de 2012
DENTRO DA MALA
Amanhã cedo vou para Mauá. Levo dentro da mala muitos sentimentos. Um pouco de ansiedade: será que as pessoas irão ao meu lançamento? Tenho um terror infdantil de que não apareça ninguém! Levo uma saudade imensa do meu filho e minha nora, da minha irmã ,da minha casinha, da beleza estonteante da montanha.
Meus grandes amigos Messias e Kátia já chegarão na sexta-feira e levo também na mala o sabor antecipado do nosso encontro. Juan chegará domingo, na véspera do lançamento e levará nossos caseiros Samuel e Vanda. Já reservei uma pousada para eles. Pena que meu filho Guga com sua linda família só chegará em setembro de Granada, quase que a família fica completa. Escreverei no blog quando estiver no atelier da Evelyn, pois no sítio não tenho internet.
Ontem a Roda de Leitura com os jovens da E.E Oscar de Macedo foi maravilhosa. O espaço do CACS é lindo e os 20 jovens gostaram do meu conto, participaram, foi muito descontraído o nosso encontro. Ficou com gosto de quero mais.
Silvane da E.M.Herman Muller em Joinville me conta e me manda fotos, está no blog da escola, que uma avó foi até o colégio ensinar aos alunos a fazer pão de batata. Esta é uma linda idéia. Copiem!!!
Afinal o que fica da Rio+20? Está aberto o debate.
Meus grandes amigos Messias e Kátia já chegarão na sexta-feira e levo também na mala o sabor antecipado do nosso encontro. Juan chegará domingo, na véspera do lançamento e levará nossos caseiros Samuel e Vanda. Já reservei uma pousada para eles. Pena que meu filho Guga com sua linda família só chegará em setembro de Granada, quase que a família fica completa. Escreverei no blog quando estiver no atelier da Evelyn, pois no sítio não tenho internet.
Ontem a Roda de Leitura com os jovens da E.E Oscar de Macedo foi maravilhosa. O espaço do CACS é lindo e os 20 jovens gostaram do meu conto, participaram, foi muito descontraído o nosso encontro. Ficou com gosto de quero mais.
Silvane da E.M.Herman Muller em Joinville me conta e me manda fotos, está no blog da escola, que uma avó foi até o colégio ensinar aos alunos a fazer pão de batata. Esta é uma linda idéia. Copiem!!!
Afinal o que fica da Rio+20? Está aberto o debate.
segunda-feira, 18 de junho de 2012
LEITURA DE UM CONTO
Hoje no final da tarde terei um encontro com adolescentes no CACS em Saquarema para ler um conto do meu livro Território de Sonhos. Tomara que a sala fique bem cheia. Tomara que eles gostem! A Telma Cavalcanti , que dirige o Círculo Artístico Saquarema tem atuado em muitas frentes e seu sonho seria trazer uma bela Feira de Livros para a nossa cidade, já até conversamos com o Salgado Maranhão que ajuda a organizar a Feira de Teresina, mas não há verba, é um evento caro, sonho para o futuro.
Hoje recebí meu livro Diário da Montanha. Ficou lindíssimo e agradeço as minhas maravilhosas editoras Bia Hetzel e Silvia Negreiros por tanto carinho. Estou pronta para o lançamento no dia 25 em Visconde de Mauá.
Hoje recebí meu livro Diário da Montanha. Ficou lindíssimo e agradeço as minhas maravilhosas editoras Bia Hetzel e Silvia Negreiros por tanto carinho. Estou pronta para o lançamento no dia 25 em Visconde de Mauá.
domingo, 17 de junho de 2012
BEIJA-FLORES
Hoje saberemos o futuro da Grécia, o futuro da Europa. A situação é muito grave. Meu filho ainda está morando na Europa e me conta coisas terríveis. Todos estão com muito medo. Como antídoto, para não deprimir, busco a beleza. A beleza é de graça, basta saber olhar.
Beija-flores no jardim:
Beija-flores pendurados
nas flores
são coloridos
trapezistas
fazendo acrobacias
e distribuindo beijos.
No azul do dia
beija-flores
são beijos voadores.
in, Luna, Merlin e Outros Habitantes, ed. Miguilim
Beija-flores no jardim:
Beija-flores pendurados
nas flores
são coloridos
trapezistas
fazendo acrobacias
e distribuindo beijos.
No azul do dia
beija-flores
são beijos voadores.
in, Luna, Merlin e Outros Habitantes, ed. Miguilim
sábado, 16 de junho de 2012
ANJOS E HUMANOS
Adoro anjos. Li o livro Ângela e Antonio de Maria Helena Latini, ed. Nitpress, de rara beleza. Um anjo que cai na terra ou um louco que pensa que é anjo ou um ser etéreo e sensível? Antonio era um anjo ou pensava que era um anjo e tinha vagas lembranças de uma outra dimensão. Era jardineiro e músico, além de anjo. Caiu na terra por distração, por olhar demais para uma mulher, Ângela. A mulher o encontra vagando perdido pelas ruas e o recolhe. Eles se amam , mas há uma impossibilidade. Anjos e humanos não podem se amar. Não os seus corpos. Apenas suas almas. Numa prosa belíssima Antonio nos conta a sua história. Com poemas lindíssimos Ângela nos conta este encontro. Recomendo.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
POEMA VOADOR
Recebí o belo livro de poemas "haicaos" de Múcio Góes e Sandra Regina, ed. Limiar. O livro é um objeto precioso, cuidadíssimo e é bom ter algo tão bonito entre as mãos, capa e recheio.
Reproduzo um poema:
peguei um poema voador
peguei assim com a mão
como se o limite do voo
fosse o céu
como se o limite do céu
fosse o chão
Todos os poemas são pássaros e não sabemos onde irão pousar, aqui, ali, onde menos esperamos. São livres e não podemos controlar seu voo. Às vezes entram por debaixo da pele das pessoas e se misturam com seu sangue.
Reproduzo um poema:
peguei um poema voador
peguei assim com a mão
como se o limite do voo
fosse o céu
como se o limite do céu
fosse o chão
Todos os poemas são pássaros e não sabemos onde irão pousar, aqui, ali, onde menos esperamos. São livres e não podemos controlar seu voo. Às vezes entram por debaixo da pele das pessoas e se misturam com seu sangue.
quinta-feira, 14 de junho de 2012
EQUILÍBRIO
Maria José , minha sobrinha que veio de Granada, hoje vive o seu último dia completo em Saquarema. Amanhã volta para a Espanha. Estes dias conversamos muito sobre o equilíbrio que é preciso buscar numa hora tão difícil como a que a Espanha está vivendo, onde os espanhóis estão constantemente com a sensação de um terremoto debaixo dos pés. Estão todos com muita raiva, com muito mau humor, defendidos contra o outro como se estivessem em guerra. É preciso encontrat o ponto de equilíbrio entre tantas forças antagônicas, tantas correntes submarinas dentro do ser. Há que se ter otimismo, apesar da crise, há que acreditar na força da arte e que é possível viver de outra maneira, voltar a um tempo mais simples. Ela nos diz que sai de Saquarema mais forte. Maria José e seu marido possuem uma terra onde cultivam hortas orgânicas. Formaram uma associação e em breve poderão vender seus produtos. Ela toca contrabaixo numa banda de rock onde seu marido é vocalista. Há muitas fontes de alegria na vida de cada um e em momentos difíceis é preciso encontrá-las. Menos às vezes é mais.
quarta-feira, 13 de junho de 2012
CONSUMO
O nosso mundo, o que conhecemos, se apoia num pilar corroído que certamente se não for mudado fará o mundo desabar: o consumo. De nada adiantará a Rio+20 se não houver uma mudança de mentalidade.
Esta é a encruzilhada do planeta, esta a rua sem saída. Para o mundo funcionar há que consumir e então temos todo o desastre atual. Não cabem mais carros nas ruas, mas há que vender carros. Não cabem mais roupas nos armários, mas a a cada estação a moda nos diz o que vestir e há que trocar tudo. Lembro das festas de aniversário dos meus filhos quando eram pequenos, tão singelas. Hoje há um aparato imenso para as festas infantis. A cada minuto o desejo de ter, de consumir joga os seres humanos numa tristeza imensa ou numa falsa alegria que dura um tempo muito pequeno. E como mudar?
Há que fazer um esforço e resistir.Há que andar do outro lado da rua, na contramão. Há que saber diferenciar os desejos verdadeiros dos falsos desejos e este é um longo caminho. O que é verdadeiro não pode ser comprado: amor, amizade, compaixão.
Esta é a encruzilhada do planeta, esta a rua sem saída. Para o mundo funcionar há que consumir e então temos todo o desastre atual. Não cabem mais carros nas ruas, mas há que vender carros. Não cabem mais roupas nos armários, mas a a cada estação a moda nos diz o que vestir e há que trocar tudo. Lembro das festas de aniversário dos meus filhos quando eram pequenos, tão singelas. Hoje há um aparato imenso para as festas infantis. A cada minuto o desejo de ter, de consumir joga os seres humanos numa tristeza imensa ou numa falsa alegria que dura um tempo muito pequeno. E como mudar?
Há que fazer um esforço e resistir.Há que andar do outro lado da rua, na contramão. Há que saber diferenciar os desejos verdadeiros dos falsos desejos e este é um longo caminho. O que é verdadeiro não pode ser comprado: amor, amizade, compaixão.
terça-feira, 12 de junho de 2012
PARA O DIA DOS NAMORADOS
Para o Dia dos Namorados 3 poemas:
LAGO
No lago dos desejos
teu corpo flutua.
Entrelaço teu nome
no meu,
trança mágica
com que me alimento.
GEOGRAFIA
Faça do meu corpo
o teu mapa,
teu continente perdido,
Atlântida de mistérios,
tua ilha nunca antes habitada.
Faça do meu corpo
teu porto e teu pequeno barco.
Faça do meu corpo tua carta,
tua secreta caligrafia,
tua estrela cadente.
CAMINHO
Teus olhos traçam uma estrada
de pedras enluaradas.
Aí caminho com os bolsos
cheios de música,
as mãos cheias de pássaros.
Em cada curva fabrico um sonho
e semeio dança.
in No Cais do Primeiro Amor, ed. Larousse com azulejos de cerâmica de Evelyn Kligerman.
LAGO
No lago dos desejos
teu corpo flutua.
Entrelaço teu nome
no meu,
trança mágica
com que me alimento.
GEOGRAFIA
Faça do meu corpo
o teu mapa,
teu continente perdido,
Atlântida de mistérios,
tua ilha nunca antes habitada.
Faça do meu corpo
teu porto e teu pequeno barco.
Faça do meu corpo tua carta,
tua secreta caligrafia,
tua estrela cadente.
CAMINHO
Teus olhos traçam uma estrada
de pedras enluaradas.
Aí caminho com os bolsos
cheios de música,
as mãos cheias de pássaros.
Em cada curva fabrico um sonho
e semeio dança.
in No Cais do Primeiro Amor, ed. Larousse com azulejos de cerâmica de Evelyn Kligerman.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
MOINHO DO MUNDO
Segunda-feira: gira o moinho do mundo , nem a morte nem a vida escolhem os dias. Gira o moinho do mundo, tritura ossos e sentimentos e faz correr a seiva , a vida, a delicadeza. Todos os dias o amor.
Hoje acendemos o fogão de lenha, fogo com espuma do mar. Maria José, minha sobrinha andaluza, faz o almoço, uma comida da infância do Juan, para que se lembre. Seus pais eram professores na Espanha franquista, durante a guerra civil e se passava muita fome. Eram então as comidas, cada uma, celebrações.
Cada dia alguém me diz: vou poder ir ao seu lançamento em Visconde de Mauá. Ou vou tentar. Fico muito emocionada. Minha casinha na montanha me espera. Eu a ouço pulsar dentro da noite, quando me deito.
Hoje acendemos o fogão de lenha, fogo com espuma do mar. Maria José, minha sobrinha andaluza, faz o almoço, uma comida da infância do Juan, para que se lembre. Seus pais eram professores na Espanha franquista, durante a guerra civil e se passava muita fome. Eram então as comidas, cada uma, celebrações.
Cada dia alguém me diz: vou poder ir ao seu lançamento em Visconde de Mauá. Ou vou tentar. Fico muito emocionada. Minha casinha na montanha me espera. Eu a ouço pulsar dentro da noite, quando me deito.
domingo, 10 de junho de 2012
CHUVA E SOL
A chuva apaga da memória
todos os dias de sol,
apaga as cores, e em minhas mãos
nascem rios de melancolia.
No fundo do armário um guarda-chuva
espera paciente por esta tarde,
ele me leva, antigo e desbotado,
por um mundo quase submerso.
No final da rua um arco-íris me espera...
in Poemas para Ler na Escola, ed. Objetiva
O azul já começa a rasgar uns pedaços de nuvem e o sol aparece e desaparece. Choveu muito aqui em Saquarema. Três dias seguidos. Mas agora já nos inunda uma outra luz. Não está descartada ainda a possibilidade de um arco-íris no final da rua, que no meu caso, se seguirmos em frente, é no horizonte.
todos os dias de sol,
apaga as cores, e em minhas mãos
nascem rios de melancolia.
No fundo do armário um guarda-chuva
espera paciente por esta tarde,
ele me leva, antigo e desbotado,
por um mundo quase submerso.
No final da rua um arco-íris me espera...
in Poemas para Ler na Escola, ed. Objetiva
O azul já começa a rasgar uns pedaços de nuvem e o sol aparece e desaparece. Choveu muito aqui em Saquarema. Três dias seguidos. Mas agora já nos inunda uma outra luz. Não está descartada ainda a possibilidade de um arco-íris no final da rua, que no meu caso, se seguirmos em frente, é no horizonte.
sábado, 9 de junho de 2012
DEPOIMENTO
Gil, nossa leitora do Clube de Leitura da Casa Amarela, ontem passou aqui em casa para buscar a travessa onde trouxe uma mousse de amendoim em nosso último encontro. E quando já estávamos no portão me disse que agora lê sem parar, que a leitura abriu uma grande janela em sua vida, que ela enxerga tudo diferente e que até está com vontade de escrever poesia. Gil não era uma leitora. Em muito pouco tempo os livros já ocupam um espaço em sua vida. Acho que foi um dos depoimentos mais belos que já me deram de presente. Comecei a trabalhar com formação de leitores em 1990 com o Sesc e em 1994 fui trabalhar com o Proler até 1997 e aprendí muito. Li muito também sobre o tema da formação dos leitores e segui sempre a minha intuição. Frequentei algumas Rodas de Leitura no CCBB organizadas pela Suzana Vargas e aprendi muito com ela.
Uma vez a Suzana me convidou para fazer uma Roda de Leitura no CCBB para crianças. Eu teria que escrever um conto inédito e escreví Babel, Um Conto de Natal, que está no meu livro Pequenos Contos de Leves Assombros, ed. FTD. Foi uma experiência absolutamente impactante: eu tinha uma platéia cheia de crianças , umas 300 ou 500, não sei, e todas as que sabiam ler acompanhavam o conto em silêncio absoluto com a sua cópia na mão! No final faziam fila no palco para contar suas experiências com os seus bichinhos. Ouvi muitas histórias tristes e ali os pequenos leitores encontraram um espaço para desabafar, porque a literatura te permite isso: liberar as emoções.
Uma vez a Suzana me convidou para fazer uma Roda de Leitura no CCBB para crianças. Eu teria que escrever um conto inédito e escreví Babel, Um Conto de Natal, que está no meu livro Pequenos Contos de Leves Assombros, ed. FTD. Foi uma experiência absolutamente impactante: eu tinha uma platéia cheia de crianças , umas 300 ou 500, não sei, e todas as que sabiam ler acompanhavam o conto em silêncio absoluto com a sua cópia na mão! No final faziam fila no palco para contar suas experiências com os seus bichinhos. Ouvi muitas histórias tristes e ali os pequenos leitores encontraram um espaço para desabafar, porque a literatura te permite isso: liberar as emoções.
sexta-feira, 8 de junho de 2012
QUE LIVRO ABALOU O SEU MUNDO?
Tenho entre as mãos um livro muito interessante que se chama 10 LIVROS QUE ABALARAM MEU MUNDO, ed. Casa da Palavra e 10 autores falam do "seu" livro.
Muito cedo, quando era criança, um livro abalou o meu mundo. Eu teria uns 8 ou 9 anos e era uma aventura. Não me lembro o seu nome nem o autor, mas com este livro descobri que também podia ser um menino, pois o personagem principal era um menino, na pré-história, de 12 anos. A sua tribo havia ido embora para outro lugar, fugindo do inverno. Seu pai havia adoecido gravemente e sua mãe não quis abandoná-lo. Ficaram sozinhos os quatro, pois havia um irmão menor. O pai morreu um pouquinho antes da chegada do inverno e a tribo já estaria muito longe, mas a mãe resolveu correr o rico e partir. O menino agora teria que ajudar a proteger a sua família. Eles passam por muitas e muitas aventuras perigosíssias e no final do livro conseguem encontrar a tribo. Eu ERA o menino. Eu estive lá na pré-história. Morei lá, claro, eu era o menino. Era uma emoção tão violenta descobrir isso, bastava entrar num livro e já estava morando em outro lugar!!! Então logo depois passei a viver no Sítio do Pica-Pau Amarelo . Vivi no Sítio até a adolescência.
Muito cedo, quando era criança, um livro abalou o meu mundo. Eu teria uns 8 ou 9 anos e era uma aventura. Não me lembro o seu nome nem o autor, mas com este livro descobri que também podia ser um menino, pois o personagem principal era um menino, na pré-história, de 12 anos. A sua tribo havia ido embora para outro lugar, fugindo do inverno. Seu pai havia adoecido gravemente e sua mãe não quis abandoná-lo. Ficaram sozinhos os quatro, pois havia um irmão menor. O pai morreu um pouquinho antes da chegada do inverno e a tribo já estaria muito longe, mas a mãe resolveu correr o rico e partir. O menino agora teria que ajudar a proteger a sua família. Eles passam por muitas e muitas aventuras perigosíssias e no final do livro conseguem encontrar a tribo. Eu ERA o menino. Eu estive lá na pré-história. Morei lá, claro, eu era o menino. Era uma emoção tão violenta descobrir isso, bastava entrar num livro e já estava morando em outro lugar!!! Então logo depois passei a viver no Sítio do Pica-Pau Amarelo . Vivi no Sítio até a adolescência.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
MÚSICA
Hoje acordei com vontade de dançar. Ouço música e danço sozinha e a alegria invade cada recanto do corpo. Todos sairam e estou só na casa . Minha mãe dançava sozinha até quando a doença a derrubou e já não podia mais. Até quase noventa anos. Dançar nos liberta do peso terrestre, é uma maneira de voar.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
ALMA
ALMA
Onde mora a alma,
em que esconderijo
dentro de mim?
Fugidía como peixe
em águas profundas,
às vezes num espelho
um lampejo, um brilho
ou uma sombra...
Seria a alma o pergaminho
onde o corpo escreve
seus poemas?
in Carteira de Identidade
Penso no conto do Machado, o do Alferes, que quando tira o uniforme não consegue ver mais a sua imagem no espelho. E no conto do Guimarães, que depois de anos e anos de treino um homem consegue ver a sua alma no espelho, um lampejo...
O que somos então?
Onde mora a alma,
em que esconderijo
dentro de mim?
Fugidía como peixe
em águas profundas,
às vezes num espelho
um lampejo, um brilho
ou uma sombra...
Seria a alma o pergaminho
onde o corpo escreve
seus poemas?
in Carteira de Identidade
Penso no conto do Machado, o do Alferes, que quando tira o uniforme não consegue ver mais a sua imagem no espelho. E no conto do Guimarães, que depois de anos e anos de treino um homem consegue ver a sua alma no espelho, um lampejo...
O que somos então?
terça-feira, 5 de junho de 2012
LUNA
Minha gata Luna está envelhecendo com uma velocidade assustadora. Está muito magra, já perdeu dois dentes, a agilidade, e quando a tenho nos braços meu coração quase quebra. Sinto que não a teremos por muito tempo. Ela fez todos os exames possíveis e é envelhecimento mesmo. Ela se isola, parece deprimida. Num dia distante, num ano distante, Juan me trouxe a Luna de presente, uma bolinha de pelo. Vivíamos num apartamento no Rio Comprido com a nossa outra gata, Babel e o cachorro do Juan que veio da Espanha, o Rex. Luna se apaixonou pelo Rex perdidamente. Foi uma linda história de amor. Está no livro Luna. Merlin e Outros Habitantes, ed. Miguilim (o livro ainda existe). Quando a tenho nos meus braços parece um passarinho, tão frágil e meu coração quase quebra.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
NOTÍCIAS (TRISTES) DA ESPANHA
Minha sobrinha Maria José chegou ontem da Espanha com toda a sua alegria e vivacidade. Mas trouxe em sua bagagem muitas notícias tristes : sabemos que a Espanha está numa situação terrível, que muita gente perdeu suas casas, perdeu o trabalho, já muita gente vive de caridade. Mas , ela nos diz, existem pequenas coisas que ensombreiam o cotidiano. Sua filha fazia aula de teatro no teatro da municipalidade e era grátis. Agora há que pagar 150 euros para usar o teatro.Estão começando a privatizar a saúde. Fecharam a biblioteca do seu pueblo. Para ela vir ao Brasil teve que fazer um cartão de crédito, pois tinha medo de vir sem dinheiro e sem cartão. Pois bem, o banco a obrigou a comprar umas panelas (obrigatório para ter o cartão) e para isso lhe abriam uma conta. E disseram: não se espante se aparecer dinheiro nesta conta, mas não pode usar a conta, é para as panelas. E ela tem que depositar 25 euros durante seis meses nesta conta. Agora ela tem 3.000 euros na conta mas não é seu dinheiro, ela não sabe como o dinheiro foi parar aí.. Que loucura é essa ? O banco utiliza laranjas para lavar dinheiro!!! O pior para a Europa é que não há perspectiva nenhuma de melhorar a situação e eles estão perdendo o que conquistaram com tanto esforço, a situação de bem estar, saúde, educação de qualidade, seguro desemprego, etc. Nós, do terceiro mundo, que nunca tivemos isso, não podemos avaliar o que seria perder isso. E a paz da Europa, tão duramente costurada, o que acontecerá?
Mas há que ser otimista e pensar que a Europa se reinventará, com toda a sua arte e beleza, não poderá afundar.
Mas há que ser otimista e pensar que a Europa se reinventará, com toda a sua arte e beleza, não poderá afundar.
domingo, 3 de junho de 2012
ABRAÇO
ABRAÇO
Entrelaçar os braços,
misturar com as tuas
as minhas linhas da mão,
ouvir a música ardente
dos teus anseios,
encostar nossas almas,
nossos olhos, costurar
nossas esperanças,
com o mesmo fio
dividir os sonhos.
in Rios da Alegria, ed. Moderna
Com este poema inauguro o dia, que será de espera, enquanto escrevo, minha sobrinha Maria José voa de Madrid para Saquarema num chão de nuvens, com este poema abraço todos os amigos. Hoje a neblina cobre o mar, apaga os contornos. Farei pão e um creme de abóbora com gorgonzola para a sua chegada. Leio vários livros ao mesmo tempo, com temas tão diferentes e como um beija-flor vou de um para outro. Juan me convida: _"Vamos almoçar no Marisco?" um restaurante bem popular na Vila de Saquarema, e eu agradeço, só a caminhada até a vila já é uma maravilha. E assim la nave va, a vida, feita de tantas esperas, chegadas, partidas, abraços.
Entrelaçar os braços,
misturar com as tuas
as minhas linhas da mão,
ouvir a música ardente
dos teus anseios,
encostar nossas almas,
nossos olhos, costurar
nossas esperanças,
com o mesmo fio
dividir os sonhos.
in Rios da Alegria, ed. Moderna
Com este poema inauguro o dia, que será de espera, enquanto escrevo, minha sobrinha Maria José voa de Madrid para Saquarema num chão de nuvens, com este poema abraço todos os amigos. Hoje a neblina cobre o mar, apaga os contornos. Farei pão e um creme de abóbora com gorgonzola para a sua chegada. Leio vários livros ao mesmo tempo, com temas tão diferentes e como um beija-flor vou de um para outro. Juan me convida: _"Vamos almoçar no Marisco?" um restaurante bem popular na Vila de Saquarema, e eu agradeço, só a caminhada até a vila já é uma maravilha. E assim la nave va, a vida, feita de tantas esperas, chegadas, partidas, abraços.
sábado, 2 de junho de 2012
TITABRUJA
Minha sobrinha Maria José chega amanhã de Granada . estaremos juntas por 12 dias. Maria José me chama de Titabruja e eu adoro. Ela diz que não tem nenhuma dúvida de que sou bruxa e que cozinho muitas coisas no meu caldeirão de poesia. Vou colocar o título no meu curriculum que já tem o de hemerocallis e cidadã honorária de Saquarema.
Mas agora queria mesmo era o título de Avó Honorária, desde que o Sr. Aleksander Laks nos contou no encontro do Clube de Leitura que que era avô honorário de alguma instituição , já não me lembro qual. Fiquei desejando o título como se deseja um pedaço da lua, uma comida estranha, um arco-íris.
Mas agora queria mesmo era o título de Avó Honorária, desde que o Sr. Aleksander Laks nos contou no encontro do Clube de Leitura que que era avô honorário de alguma instituição , já não me lembro qual. Fiquei desejando o título como se deseja um pedaço da lua, uma comida estranha, um arco-íris.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
O MAR
Da varanda do nosso estúdio mergulho os olhos no mar cinza chumbo, violento . Mergulho os olhos como gaivotas e pouco a pouco mergulho inteira, meu corpo se desmancha, vira onda, vira espuma.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
JARAGUÁ DO SUL E FACEBOOK
Voltei. Levei para Jaraguá do Sul uma bagagem de frio. Acho que fiquei com a imagem, a lembrança do frio que passei ano passado em São Bento. Mas... fazia trinta e cinco graus! não olhei na internet e fui rumo a um frio que não existiu.
O encontro com quase 500 crianças foi maravilhoso, crianças leitoras! Atentas, confortáveis, à vontade, participaram de todos os poemas, de todas as brincadeiras.E fazia muito calor, mas era uma energia tão linda que ninguém ligava.
Silvane, minha amiga querida, diretora da E.M.Hermann Muller de Joinville foi ao meu encontro com a Silvia, sua irmã e Kelly, professora da escola. Sempre cheia de novidades maravilhosas!
Conheci o Ovídio, que foi o mediador do encontro, ele organiza a Off-Flip em Paraty e é uma linda pessoa, filósofo e escritor. Reencontrei Carlos Shroeder que foi quem me levou e conheci o João, figura doce e calma, que me buscava e levava para lá e para cá.
Depois do encontro, já no hotel, exausta, me sentei com o Ovídio no saguão envidraçado, numa mesa redonda com uma vista magnífica para um prado, um rio. E de repente lá estava uma bela capivara comendo a grama com seus olhos ternos e um pelo convidativo, fiquei louca para passar a mão! Tranquila, nos olhava sem medo nenhum e fez jorrar dentro de mim rios de alegria.
Fui expulsa do meu facebook, dizem, por motivos de segurança. Devo mesmo ter cara de terrorista, pois apito nos aeroportos, fico presa na porta do banco, etc. Talvez seja porque mulheres poetas são perigosas.
Tento reconhecer as fotos que eles colocam para que eu possa ser readmitida e me sinto desconfortável como num vestibular: erro muitas e não sou readmitida. Quem sabe um dia volto...
O encontro com quase 500 crianças foi maravilhoso, crianças leitoras! Atentas, confortáveis, à vontade, participaram de todos os poemas, de todas as brincadeiras.E fazia muito calor, mas era uma energia tão linda que ninguém ligava.
Silvane, minha amiga querida, diretora da E.M.Hermann Muller de Joinville foi ao meu encontro com a Silvia, sua irmã e Kelly, professora da escola. Sempre cheia de novidades maravilhosas!
Conheci o Ovídio, que foi o mediador do encontro, ele organiza a Off-Flip em Paraty e é uma linda pessoa, filósofo e escritor. Reencontrei Carlos Shroeder que foi quem me levou e conheci o João, figura doce e calma, que me buscava e levava para lá e para cá.
Depois do encontro, já no hotel, exausta, me sentei com o Ovídio no saguão envidraçado, numa mesa redonda com uma vista magnífica para um prado, um rio. E de repente lá estava uma bela capivara comendo a grama com seus olhos ternos e um pelo convidativo, fiquei louca para passar a mão! Tranquila, nos olhava sem medo nenhum e fez jorrar dentro de mim rios de alegria.
Fui expulsa do meu facebook, dizem, por motivos de segurança. Devo mesmo ter cara de terrorista, pois apito nos aeroportos, fico presa na porta do banco, etc. Talvez seja porque mulheres poetas são perigosas.
Tento reconhecer as fotos que eles colocam para que eu possa ser readmitida e me sinto desconfortável como num vestibular: erro muitas e não sou readmitida. Quem sabe um dia volto...
segunda-feira, 28 de maio de 2012
JARAGUÁ DO SUL
Hoje estou indo para Jaraguá do Sul. Estou radiante pois vou encontrar a minha amiga Silvane, diretora da E.M Hermann Muller de Joinville. Moramos tão longe uma da outra , mas a vida vai fazendo com que nos encontremos sempre. A sua escola é um projeto tão magnífico que quarta-feira ela irá ao Rio gravar uma entrevista para o Canal Futura. Em Jaraguá vou falar de poesia, leitores, da vida.Deve estar muito frio na serra de Santa Catarina!
Ontem vi um dos filmes mais belos da minha vida, presente da Angela para o Clube de Leitura. O filme foi sorteado durante o almoço e Samuel, meu caseiro, ganhou o filme e me emprestou.
TARDES COM MARGUERITTE de Jean Becker, com Gérard Depardieu e Gisèle Casadesus é uma obra prima desde o primeiro segundo até o último. Uma obra prima de delicadeza, amor, esperança no ser humano. E para quem ama literatura é absolutamente imperdível. Recomendo com todas as minhas fibras, músculos, alma e sangue. Além disso a senhora é igualzinha a minha mãe na sua maneira de se vestir e de andar. Minha mãe era modista e o que é a poesia para mim, eram os tecidos para ela, as cores, as formas, as linhas. Terminei de ler um livro belo: El Tiempo entre Costuras, de Maria Dueñas, a história de uma modista na II Guerra e o livro também trouxe minha mãe de volta e o momento feliz em que, criança, eu a acompanhava até as lojas de tecidos.
Maria Clara, leitora do nosso Clube, me manda um poema que escreveu a partir do livro A Trégua, do Primo Levi. É belo:
Todo judeu vivo
Um judeu não anda nu
Maria Clara
Acho que não terei tempo de escrever lá em Jaraguá. Até quinta!
Ontem vi um dos filmes mais belos da minha vida, presente da Angela para o Clube de Leitura. O filme foi sorteado durante o almoço e Samuel, meu caseiro, ganhou o filme e me emprestou.
TARDES COM MARGUERITTE de Jean Becker, com Gérard Depardieu e Gisèle Casadesus é uma obra prima desde o primeiro segundo até o último. Uma obra prima de delicadeza, amor, esperança no ser humano. E para quem ama literatura é absolutamente imperdível. Recomendo com todas as minhas fibras, músculos, alma e sangue. Além disso a senhora é igualzinha a minha mãe na sua maneira de se vestir e de andar. Minha mãe era modista e o que é a poesia para mim, eram os tecidos para ela, as cores, as formas, as linhas. Terminei de ler um livro belo: El Tiempo entre Costuras, de Maria Dueñas, a história de uma modista na II Guerra e o livro também trouxe minha mãe de volta e o momento feliz em que, criança, eu a acompanhava até as lojas de tecidos.
Maria Clara, leitora do nosso Clube, me manda um poema que escreveu a partir do livro A Trégua, do Primo Levi. É belo:
O judeu errante
reza à sorte de ter sobrevivido
a um campo de concentração.
Essa alegria triste os perfilia.
Alvo ambulante,
setas em sua direção apontam:
ali vai um judeu errante pela Terra,
carregado de estrelas.
Entre o solidéu e o solilóquio,
fia as tranças.
- a não ser para a morte.
E se preparam tanto,
são tantas guerras pretextadas,
e bombas pelo interior dos templos implodindo,
que penso nos meninos:
Se lhe dessem por um par de horas o globo,
marcavam um amistoso e jogavam bola.
E as meninas,:
Lhe dessem glebas, de manhã cedinho,
desarmavam a chave da luz elétrica,
arrancavam cercas,
e iam brincar na casa da vizinha.
E no conserto de um desenho novo
no deserto de chão arenoso
(se há jardins milagrosos que por lá vingaram...)
poderiam afinal encontrar-se
sobre a terra dos túmulos de comuns ancestrais.
Todo judeu sobre a Terra erra
ou sonha com liberdade.
-
Pra quando
o final da guerra?
Maria Clara
domingo, 27 de maio de 2012
ENCONTRO DO CLUBE DE LEITURA DA CASA AMARELA
TEAR:
Com fios de pensamento
se tece o mundo
se costuram pedaços
rasgados de vida,
nesse tear estranho
que só o homem possui:
tear de sonhos.
in Residência no Ar, ed. Paulus, Roseana Murray, aquarelas Evelyn Kligerman
Nós, crianças, rogamos-Lhe,
nosso Deus, criador do mundo:
conceda-nos uma vida delicada e pura
e cultive em nós a bondade.
Epígrafe do livro O Sobrevivente, Memórias de um brasileiro que escapou de Auschwitz, Ed.Record
Ontem o encontro do nosso Clube de Leitura da Casa Amarela para discutir o livro A TRÉGUA do Primo Levi foi diferente de tudo o que eu havia imaginado. Praticamente não pudemos discutir o livro, mal conseguimos nos aproximar dele, pois Angela, uma das leitoras do Clube trouxe como testemunha o Sr.Aleksander Henryk Laks com seu livro O Sobrevivente. A realidade explodiu a ficção. Aleksander foi prisioneiro de Auschwitz, escapou, veio para o Brasil, se naturalizou brasileiro e vive para contar. Ao contrário do que se poderia imaginar, é um homem alegre, cheio de vida, emotivo, sorridente e nos conquistou a todos, além do seu humor judaico. Em várias ocasiões ele desmentiu o Primo Levi, pois A Trégua é um livro filtrado, literatura e realmente não nos importa o que ali é verdade ou não, nos importa como o livro está escrito.
O Sr. Aleksander nos contou. Respondeu a muitas, muitas perguntas. Nos falou da fome, imensa, indescritível, algo com que ninguém que não tenha sido prisioneiro de Campo, vivido a guerra pode imaginar. O Sr. Aleksander nos contou. E foi muito impactante ouvir. estávamos todos na beira do abismo da emoção, quase todos com um nó na garganta. Hector, novo membro do Clube, trouxe um artigo sobre o antissemitismo hoje no mundo, previu uma nova Hecatombe, um futuro Holocausto e nos falou da sua descrença em tudo. Mas a epígrafe do livro (já comecei a ler, estou na metade e é muito forte e muito bem escrito) do livro O Sobrevivente nos fala da bondade e não da maldade. No livro A Trégua , encontramos dentro das relações humanas, que é a base do livro, a bondade espalhada como fina poeira luminosa dentro do horror. No livro A Escritura e a Vida, Jorge Semprún nos fala da bondade quando um homem, prisioneiro alemão comunista , troca a sua profissão de estudante de filosofia pela de estucador: provavelmente ali sua vida foi salva. Não acredito em nenhuma repetição do passado. Acredito que um dia o mundo descobrirá a paz e a bondade será a partitura do mundo. A presença luminosa do Sr. Aleksander que depois de ter passado cinco anos comendo 200 calorias por dia, ficou vivo para contar, para que o passado não se repita, nos deixou a todos completamente emocionados. E esperançosos.
Francisco leu um poema que escreveu a partir da Trégua. Felipe estava felicíssimo de namorada nova, apaixonado e nos leu, maravilhosamente Pasárgada, do Bandeira, para que cada um construa a sua Pasárgada possível. Maria Clara também leu um novo poema. Juan perguntou ao Sr. Aleksander sobre a história do Padre Kolbe, que morreu em Auschwitz no lugar de um homem e o Sr. Aleksander disse que isso seria totalmente impossível, que ele não acreditava.
Durante o almoço Angela tocou violão e todos cantamos a música "Para não dizer que não falei de flores" , do Vandré, todos cantamos juntos. O Sr. Aleksander se apaixonou pelo meu pão e só queria comer o pão! Tomou proseco, riu, se divertiu, nos seduziu. Minhas duas pastas, a de beringela e de gorgonzola fizeram sucesso.
Messias, nosso médico e amigo-irmão, foi nosso grande ausente, pois às nove horas da manhã me telefonou dizendo que não poderia vir, estava com febre . Eu havia feito um bolo de aniversário para ele, mas cantamos parabéns e ele ouviu pelo telefone.
Fernando e Hélio , emocionadíssimos, nos disseram da oportunidade única de conhecer um sobrevivente de um Campo de Concentração. Dentro de muito pouco tempo , já não haverá mais nenhum sobrevivente vivo para contar com a sua própria voz.
Póximo encontro dia 21 de julho. Livros: O Amante, Marguerite Duras e o conto Os Mortos, do James Joyce. Um poema do Drummond, cada um escolha o seu.
Com fios de pensamento
se tece o mundo
se costuram pedaços
rasgados de vida,
nesse tear estranho
que só o homem possui:
tear de sonhos.
in Residência no Ar, ed. Paulus, Roseana Murray, aquarelas Evelyn Kligerman
Nós, crianças, rogamos-Lhe,
nosso Deus, criador do mundo:
conceda-nos uma vida delicada e pura
e cultive em nós a bondade.
Epígrafe do livro O Sobrevivente, Memórias de um brasileiro que escapou de Auschwitz, Ed.Record
Ontem o encontro do nosso Clube de Leitura da Casa Amarela para discutir o livro A TRÉGUA do Primo Levi foi diferente de tudo o que eu havia imaginado. Praticamente não pudemos discutir o livro, mal conseguimos nos aproximar dele, pois Angela, uma das leitoras do Clube trouxe como testemunha o Sr.Aleksander Henryk Laks com seu livro O Sobrevivente. A realidade explodiu a ficção. Aleksander foi prisioneiro de Auschwitz, escapou, veio para o Brasil, se naturalizou brasileiro e vive para contar. Ao contrário do que se poderia imaginar, é um homem alegre, cheio de vida, emotivo, sorridente e nos conquistou a todos, além do seu humor judaico. Em várias ocasiões ele desmentiu o Primo Levi, pois A Trégua é um livro filtrado, literatura e realmente não nos importa o que ali é verdade ou não, nos importa como o livro está escrito.
O Sr. Aleksander nos contou. Respondeu a muitas, muitas perguntas. Nos falou da fome, imensa, indescritível, algo com que ninguém que não tenha sido prisioneiro de Campo, vivido a guerra pode imaginar. O Sr. Aleksander nos contou. E foi muito impactante ouvir. estávamos todos na beira do abismo da emoção, quase todos com um nó na garganta. Hector, novo membro do Clube, trouxe um artigo sobre o antissemitismo hoje no mundo, previu uma nova Hecatombe, um futuro Holocausto e nos falou da sua descrença em tudo. Mas a epígrafe do livro (já comecei a ler, estou na metade e é muito forte e muito bem escrito) do livro O Sobrevivente nos fala da bondade e não da maldade. No livro A Trégua , encontramos dentro das relações humanas, que é a base do livro, a bondade espalhada como fina poeira luminosa dentro do horror. No livro A Escritura e a Vida, Jorge Semprún nos fala da bondade quando um homem, prisioneiro alemão comunista , troca a sua profissão de estudante de filosofia pela de estucador: provavelmente ali sua vida foi salva. Não acredito em nenhuma repetição do passado. Acredito que um dia o mundo descobrirá a paz e a bondade será a partitura do mundo. A presença luminosa do Sr. Aleksander que depois de ter passado cinco anos comendo 200 calorias por dia, ficou vivo para contar, para que o passado não se repita, nos deixou a todos completamente emocionados. E esperançosos.
Francisco leu um poema que escreveu a partir da Trégua. Felipe estava felicíssimo de namorada nova, apaixonado e nos leu, maravilhosamente Pasárgada, do Bandeira, para que cada um construa a sua Pasárgada possível. Maria Clara também leu um novo poema. Juan perguntou ao Sr. Aleksander sobre a história do Padre Kolbe, que morreu em Auschwitz no lugar de um homem e o Sr. Aleksander disse que isso seria totalmente impossível, que ele não acreditava.
Durante o almoço Angela tocou violão e todos cantamos a música "Para não dizer que não falei de flores" , do Vandré, todos cantamos juntos. O Sr. Aleksander se apaixonou pelo meu pão e só queria comer o pão! Tomou proseco, riu, se divertiu, nos seduziu. Minhas duas pastas, a de beringela e de gorgonzola fizeram sucesso.
Messias, nosso médico e amigo-irmão, foi nosso grande ausente, pois às nove horas da manhã me telefonou dizendo que não poderia vir, estava com febre . Eu havia feito um bolo de aniversário para ele, mas cantamos parabéns e ele ouviu pelo telefone.
Fernando e Hélio , emocionadíssimos, nos disseram da oportunidade única de conhecer um sobrevivente de um Campo de Concentração. Dentro de muito pouco tempo , já não haverá mais nenhum sobrevivente vivo para contar com a sua própria voz.
Póximo encontro dia 21 de julho. Livros: O Amante, Marguerite Duras e o conto Os Mortos, do James Joyce. Um poema do Drummond, cada um escolha o seu.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Lembranças
Enquanto faço a lista do que tenho que comprar para o almoço de amanhã do Clube de Leitura da Casa Amarela, agora que já voltei para a minha alimentação frugal de frutas, peixes e verduras, relembro as comidas maravilhosas que comi em Veneza.
Na primeira noite, a noite em que chegamos , comemos uma salada caprese e um risoto de frutos do mar , inesquecível.
Em Murano comi uma pasta com lula e sua tinta. No Al Conte Pescaor comemos flores de abóbora recheadas com algumas delicadezas da lagoa.
Pasta negra com verduras. Pasta a la Carbonara. Pasta com isso e aquilo. Pedaços de pizza na rua. Frutos do mar fritos. Lazanha com creme de flores da abóbora.
Fora os vinhos, as sobremesas fantásticas, os pães com azeite. Todos estes aromas passeiam por minha memória junto com os belos ruídos de veneza.
Então amanhã tenho que caprichar na cozinha, e já começo hoje, pois em nossa mesa da varanda teremos os leitores da Casa Amarela e todos eles são muito especiais.
Na primeira noite, a noite em que chegamos , comemos uma salada caprese e um risoto de frutos do mar , inesquecível.
Em Murano comi uma pasta com lula e sua tinta. No Al Conte Pescaor comemos flores de abóbora recheadas com algumas delicadezas da lagoa.
Pasta negra com verduras. Pasta a la Carbonara. Pasta com isso e aquilo. Pedaços de pizza na rua. Frutos do mar fritos. Lazanha com creme de flores da abóbora.
Fora os vinhos, as sobremesas fantásticas, os pães com azeite. Todos estes aromas passeiam por minha memória junto com os belos ruídos de veneza.
Então amanhã tenho que caprichar na cozinha, e já começo hoje, pois em nossa mesa da varanda teremos os leitores da Casa Amarela e todos eles são muito especiais.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
DIÁRIO DA MONTANHA EM VISCONDE DE MAUÁ
Estou preparando o lançamento do Diário da Montanha com muito esmero. Ontem contratei os músicos: Bernardino Guterres Lopes, violino e Gustavo Gama, violão. Eles foram indicadíssimos pelo Henrique, grande conhecedor, dono da Pousada Terra da Luz . O livro sai a qualquer hora da gráfica. O atelier de cerâmica da Evelyn e do Luis, que finalmente está completamente pronto com forno a gás e tudo, será um pouco modificado para a festa, e ficará com a lareira acesa. Estará muito frio no dia 25 de junho. Nos aqueceremos com o fogo e o calor dos corpos e das vozes (do vinho tinto também) .Este lançamento para mim é mais do que o lançamento de um livro: é uma celebração.
Celebro muitas coisas, antes de tudo, estar viva. Celebro a vida. Celebro a memória da minha mãe e dos meus antepassados que estão no livro. Celebro a confiança da Bia Hetzel e Silvia Negreiro, minhas editoras da Manati que abraçaram o livro e acreditaram na sua força quando ainda era um caderno com poemas escrito a mão. Celebro a amizade , o amor do Juan, todos os amigos , presentes, ausentes, longe, perto, eles são a minha âncora. Visconde de Mauá foi onde nasceu a minha poesia. Ela se alimentou das suas águas e matas. Aí escrevi meus primeiros poemas. E celebro a minha casinha minúscula, escondida dentro da floresta onde me encontro com o mais secreto de mim, idéia do meu filho André Murray e da minha nora Dani Keiko, de reformar uma casinha de caseiro em ruínas , até transformá-la num conto de fadas.
Todos estão convidados.
Celebro muitas coisas, antes de tudo, estar viva. Celebro a vida. Celebro a memória da minha mãe e dos meus antepassados que estão no livro. Celebro a confiança da Bia Hetzel e Silvia Negreiro, minhas editoras da Manati que abraçaram o livro e acreditaram na sua força quando ainda era um caderno com poemas escrito a mão. Celebro a amizade , o amor do Juan, todos os amigos , presentes, ausentes, longe, perto, eles são a minha âncora. Visconde de Mauá foi onde nasceu a minha poesia. Ela se alimentou das suas águas e matas. Aí escrevi meus primeiros poemas. E celebro a minha casinha minúscula, escondida dentro da floresta onde me encontro com o mais secreto de mim, idéia do meu filho André Murray e da minha nora Dani Keiko, de reformar uma casinha de caseiro em ruínas , até transformá-la num conto de fadas.
Todos estão convidados.
quarta-feira, 23 de maio de 2012
CASAS
Recebo mais uma edição do meu livro CASAS que sai como pão do forno.A editora diz que é a quarta tiragem da nona edição e eu não sei o que quer dizer isso. Só sei que os poemas do livro viajam por todo o Brasil. Hoje mesmo uma escola me escreve contando que os alunos fizeram uns decalques maravilhosos sobre um dos poemas do livro. É um livro muito antigo e sei direitinho como aconteceu dentro de mim. Foi em 1994. Eu estava me separando e teria que mudar de casa. Pensei então em todos os tipos de casa, fiz uma lista, casa de amigo, de avó, casa mal-assombrada, etc.E comecei a fabricar os poemas. E um dos poemas era como um recado que eu me mandava:
MUDANÇA
Mudar de casa
é coisa
muito complicada,
porque uma casa
não cabe
em outra casa:
sempre fica faltando,
sempre fica sobrando.
O caminhão de mudanças,
bicho cruel,
engole mesas, cadeiras, lembranças,
e lá se vai mundo abaixo.
Na casa nova o caminhão
despeja
mesas, cadeiras, lembranças,
e a casa vai criando asas,
criando vida,
já se pode forrar o teto
de sonhos.
E em quantas casas morei depois do livro pronto! Em cada uma forrei tetos e paredes de sonhos.
MUDANÇA
Mudar de casa
é coisa
muito complicada,
porque uma casa
não cabe
em outra casa:
sempre fica faltando,
sempre fica sobrando.
O caminhão de mudanças,
bicho cruel,
engole mesas, cadeiras, lembranças,
e lá se vai mundo abaixo.
Na casa nova o caminhão
despeja
mesas, cadeiras, lembranças,
e a casa vai criando asas,
criando vida,
já se pode forrar o teto
de sonhos.
E em quantas casas morei depois do livro pronto! Em cada uma forrei tetos e paredes de sonhos.
terça-feira, 22 de maio de 2012
EM CASA
Chegamos ontem à noite em casa e a viagem Madrid - Saquarema cansa muito. Cheguei exausta. Nana , nossa gata, dava pulos de felicidade e Luna, a persa, ficou de mal comigo (ainda está de mal, como ousei abandoná-la?)
Toneladas de correspondências atrasadas, contratos, notas fiscais, papeladas que durante horas me soterraram, mas da minha janela vejo as montanhas, as gaivotas voando e o silêncio da casa, atravessado pelo mar, é restaurador.
Hoje tive uma das grandes emoções da minha vida: André, meu filho Chef de cozinha, gravou um programa para a TV Rio Sul para o Dia das Mães e só vi hoje. É tão bonito que eu não sabia o que fazer com a minha felicidade. O vídeo está no meu site em Poemas Animados.
E já começo a preparar o menú para o almoço de sábado do nosso Clube de Leitura da Casa Amarela. Farei duas pastas , pois Primo Levi, nosso autor, era italiano e eu acabo de voltar de Veneza. Aliás, dois quilos e meio mais gorda por tudo o que comi! Mas valeu a pena.
Toneladas de correspondências atrasadas, contratos, notas fiscais, papeladas que durante horas me soterraram, mas da minha janela vejo as montanhas, as gaivotas voando e o silêncio da casa, atravessado pelo mar, é restaurador.
Hoje tive uma das grandes emoções da minha vida: André, meu filho Chef de cozinha, gravou um programa para a TV Rio Sul para o Dia das Mães e só vi hoje. É tão bonito que eu não sabia o que fazer com a minha felicidade. O vídeo está no meu site em Poemas Animados.
E já começo a preparar o menú para o almoço de sábado do nosso Clube de Leitura da Casa Amarela. Farei duas pastas , pois Primo Levi, nosso autor, era italiano e eu acabo de voltar de Veneza. Aliás, dois quilos e meio mais gorda por tudo o que comi! Mas valeu a pena.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
DORSODURO
Ao virar uma esquina depois da Accademia, os turistas desaparecm e começo Dorsoduro, um bairro belíssimo, cheio de pontes e praças e muita vida sem os grupos imensos atravancando o caminho. Vimos uma feira de peixes e frutas e legumes ao ar livre numa praça e as gaivotas faziam uma festa com o resto de peixe que os peixeiros lhes davam.
Comemos numa cantina linda, a AnticaLocanda Montin. Comida inesquecível. Juan diz que se lembra da cena de um filme gravado aí, mas não se lembra do filme.
Há que guardar todo este cenário dentro da retina para levar, enrolado debaixo da pele, como uma tapeçaria.
Comemos numa cantina linda, a AnticaLocanda Montin. Comida inesquecível. Juan diz que se lembra da cena de um filme gravado aí, mas não se lembra do filme.
Há que guardar todo este cenário dentro da retina para levar, enrolado debaixo da pele, como uma tapeçaria.
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