domingo, 30 de março de 2014

ANIVERSÁRIO

Hoje meu filho André, que ilumina minha vida, faz anos.Não estaremos juntos, infelizmente. Para ele este poema:

ANIVERSÁRIO
Para o teu nascimento
o céu se arrumou inteiro:
estrelas escreveram teu nome,
cometas escreveram um caminho
com poeira de luz
para que o teu destino,
carruagem carregada de sonhos,
pudesse passar.

Para o teu nascimento
os anjos inventaram palavras
nunca antes pronunciadas,
e os jardins secretos
fabricaram flores desconhecidas.

Para o teu nascimento
o universo inteiro
desfraldou suas velas.

Tua mãe.

sábado, 29 de março de 2014

DIA DA TERRA

Hoje é o Dia da Terra. Mas e os outros dias? Será que hoje ninguém irá desmatar? Ninguém irá extrair petróleo , carvão e gás das profundezas da Terra? Será que hoje ninguém sairá de carro? Será que hoje ninguém irá poluir com dejetos, nascentes, rios e mares? Todos os dias destruímos mais um pouquinho e de grão em grão... destruiremos tudo?

sexta-feira, 28 de março de 2014

ESPERANDO VISITA

No feriadão espero uma linda visita em Mauá: José Mauro Brant. Para ele escrevi meu poema Oração que é mesmo uma oração para muita gente. Tenho uma admiração imensa por seu talento de Contador de Histórias, Ator, Roteirista. Zé Mauro pega um emaranho de textos feito um novelo cheio de nós e desamarra tudo e amarra tudo num lindo espetáculo. Foi assim com o Pequeno Poema Infinito do Lorca. Foi assim com o maravilhoso espetáculo de Contação de Histórias que levou junto com meu filho Guga Murray para as Canárias, na Espanha.
Zé Mauro é artista fiel ao seu coração , pulsa junto com o sol e as estrelas. Uma vez brigamos, eu já fui muito brigona , mas ainda bem , fizemos as pazes, pois eu o admiro demais, gosto dele demais e quando falo nele, ouço a sua voz e o vejo no palco.
Ouçam este pedacinho do texto da peça Pequeno Poema Infinito, textos de Federico García Lorca, que lindo!
" Temos que amar a lua sobre o lago da nossa alma e fazer nossas meditações religiosas sobre o abismo magnífico dos crepúsculos abertos... porque a cor é a música dos olhos..."

quinta-feira, 27 de março de 2014

REPARAÇÃO

Em 1492 os judeus foram expulsos da Espanha. Ficaram os que se converteram. Mas se antes dos cristãos tomarem a Espanha dos mouros, na época em que as três religiões conviviam, a vida dos judeus transcorria sem sobressaltos, apenas pagavam um imposto aos árabes, depois da chegada dos cristãos ao poder, antes da expulsão total, sua vida já não era nada fácil. Os que se convertiam eram vigiados de perto. Se caísse sobre eles a desconfiança de que ainda guardavam as leis judaicas, o destino certo eram as fogueiras, eles eram chamados "marranos" que quer dizer, porcos. Foram expulsos todos os judeus: médicos, filósofos, poetas, joalheiros, músicos, artesãos, etc, etc. Tiveram que deixar suas casas, cidades, suas vidas , ir embora para um destino incerto.Agora, centenas de anos depois, o Governo Espanhol vai dar cidadania aos que provarem que suas famílias foram expulsas da Espanha naquela época. Diz-se que muitas famílias guardaram as chaves da casa , que foram passando de geração em geração.Os judeus da Espanham tinham sua própria língua, o ladino. Quando fui a Córdoba assisti a um espetáculo onde contavam a história dos judeus na Espanha e cantavam belas canções em ladino.
Por conta disso estou relendo um lindo livro de uma escritora espanhola , Toti Martinez de Lezea, ela é basca, que se chama La Calle de La Judería, o livro conta esta história através de uma família que vai se convertendo aos poucos.O tema mexe tanto com minhas emoções que leio um pouco e tenho que parar para acalmar meu coração.A Espanha fez um gesto inacreditável, pois em muitos lugares as pessoas continuam antissemitas. Marrano é um xingamento horrível e ainda se usa. Meu filho me contou que na Semana Santa era acometido de um medo atávico, quando saiam às ruas aquelas procissões medievais.

Que todo homem se reconheça em outro homem. Que toda mulher se reconheça em outra mulher. Somos todos mortais.
       

quarta-feira, 26 de março de 2014

LOUCURA

Vi esta semana e a passada dois filmes sobre a loucura, entre outras coisas. Blue Jasmine e A História de Adèle H, história verdadeira, sobre a filha do Victor Hugo. Ambas enlouqueceram em tempos diferentes por motivos diferentes, mas que no fundo eram parecidos. Jasmine enlouquece por perder seu status, sua vida de futilidade e riqueza excessiva, enfim, por sua vida vazia, preenchida com vivências e objetos de luxo, sem nenhum olhar sobre o outro, sobre sua irmã, por exemplo.  Adèle enlouquece por amor, um amor doentio, que não lhe deixa respirar nem viver. No século XIX a mulher não tinha muita escolha quando era de uma certa classe social. O casamento era a sua única meta. Por ter sido rejeitada pelo homem que lhe prometera casamento, Adèle inventa , persegue, mente. Sem o homem desejado ela não existe. Finalmente, a fina linha que nos separa da insanidade se rompe. Com Jasmine acontece quase o mesmo, por não poder ter de volta o que perdeu, ela passa a vagar por um mundo imaginário. As duas são desmascaradas e nada pode trazê-las de volta. A loucura ainda é um dos mistérios que nos intrigam. Por que a maioria das pessoas se recuperam das perdas, de tragédias imensas e outras não conseguem, enlouquecem? Não posso acreditar que a chave seja apenas química, que enlouqueceriam de qualquer maneira, por um motivo ou outro. Prefiro crer no emaranhado que é a alma humana, cheia de caminhos perigosos, precipícios, florestas densas e muitas vezes intransponíveis, quando nos perdemos de nós mesmos passamos a vagar sem rumo. Ajuda amar todas as coisas vivas.  

terça-feira, 25 de março de 2014

ONDE VOCÊ ESTAVA?

É hora de revisitar a História. Começam a abrir a tampa de uma caixa escura e maldita. Onde eu estava no dia do golpe? Eu tinha 13 anos e estava na casa de uma amiga que amava, a Norma, e não entendia nada. Nós duas adorávamos brincar de teatro e estávamos montando uma peça. Voltei para casa, eu acho que logo depois das primeiras notícias, mas lá o ambiente era nervoso. Livros e revistas no quarto dos meus irmão faziam uma pilha imensa e iriam alimentar uma fogueira na casa da nossa maravilhosa babá-que ficou-com-a-gente-para-sempre, na favela onde morava, em nosso bairro, o Grajaú. Quando já tinha 16 anos fui a algumas passeatas, mas tive medo de me envolver, ir a reuniões, mesmo nas passeatas tinha muito medo quando jogavam os cavalos em cima da gente , quando tínhamos que correr como loucos. Muitos amigos eram presos. Eu tinha uma amiga mais velha que amava. Fui visitá-la , ela havia tido um bebê. Ela estava em casa com seu recém-nascido e na véspera seu marido havia sido preso.Nunca mais a vi. Casei no final de 68  e me mudei para Juiz de Fora. Logo engravidei e minha vida passou a girar em torno da gravidez. Claro que eu sabia de muita coisa que se passava, mas acompanhava de longe, como se fosse em outro planeta. O casamento e o nascimento do meu filho me salvaram de qualquer atitude que me comprometesse. O máximo que fiz foi receber por dois anos duas chilenas fugidas da repressão no Chile em 74. Elas ficaram em minha casa por um ano. Eram mãe, filha e neta, mas na verdade a mãe, uma grande escultora foi embora antes para Paris.Quando voltei para o Rio, depois de uns anos morando em Juiz de Fora e Belo Horizonte, procurei meu melhor amigo do tempo em que estudei no Lafayette e ele no Aplicação ao lado.Era meu companheiro de passeatas. Consegui encontrá-lo. Mas ele não era mais ele. Havia sido tão torturado que depois só se drogava. Foi uma das maiores perdas da minha vida. E escapei de irmos juntos porque me casei.

Que bom que tudo isso é passado.Não devemos flertar com nenhum tipo de autoritarismo. São aventuras que ofendem a dignidade humana.

segunda-feira, 24 de março de 2014

PENSAMENTO VERDE

Aprendo num livro de ecologia para crianças que devemos adotar em tempo integral um "pensamento verde". Assim, cada pequeno gesto revelará a nossa preocupação com o planeta e tornará a nossa pegada mais leve. Desde o momento em que acordo e economizo água para escovar os dentes e tomar banho, até a maneira como escolho locomover-me, o melhor seria usar a própria energia do corpo ou bicicleta, mas se vou de carro , o melhor é levar outras pessoas junto e de ônibus é dividir o gasto a energia com outros. O pensamento verde não me deixa usar sacos plásticos, mas sim de pano ou papel ou nenhum saco. O pensamento verde me faz consertar as coisas ao invés de jogá-las fora e comprar novas. E também me faz pensar muitas vezes antes de comprar alguma coisa se não preciso ou se posso comprar de segunda mão.
As escolas deveriam ter uma matéria intitulada "Pensamento Verde" onde se estudasse os animais já extintos, os que ainda podem ser salvos e todos os problemas pertinentes ao nosso tempo. Seria muito muito útil. Não é um pensamento fácil de usar no dia a dia, pois estamos muito mal acostumados, inclusive esta pessoa que está escrevendo agora. Falta muito para eu chegar perto do ideal. 

domingo, 23 de março de 2014

PEQUENA CHUVA

A verdade é que já não aguentava tanto sol. E ontem à noite, aqui na frente do mar, caiu uma chuva fina, mas molhou as plantas. E hoje há uma cara de outono. O céu está nublado e o mar está escuro, cinza chumbo, como gosto.Saquarema, além de toda a seca que assolou o sudeste, é uma região de semiárido, naturalmente já chove muito pouco e o jardim que temos no quintal é um milagre de perseverança. Tudo aqui é hostil ao jardim, o sal, o vento, a secura. Mas conseguimos . É quase um pequeno bosque. E debaixo de um flamboiã imenso que plantamos e que ainda não perdeu as folhas, me sento e sou acolhida.

sábado, 22 de março de 2014

OLAC

Em 1984 fiz duas oficinas de poesia na Olac no Leblon, na Rua Paul Redfern. Não existe mais. A porimeira foi com o Antonio Carlos Sechin, hoje membro da Academia Brasileira de Letras e a outra com a Rita, poeta também, como o Sechin. Eu me sentei muito tímida , no último lugar, insegura e perdida. Era jovem , tinha 33 anos. Como poderia imaginar , naquela época tão difícil para mim, que um dia, bem longe no futuro, meus poemas estariam no coração de milhares de leitores pelo Brasil? A vida é sempre uma caixa de surpresas imensas e nunca planejei nada. As coisas simplesmente aconteceram. A gente faz o melhor possível e se entrega ao vento, ao destino, ao acaso.

sexta-feira, 21 de março de 2014

DIA POR DIA

A vida é dia por dia, hora por hora, sonho por sonho. Numa entrevista para a rádio de Buenos Aires que depois virou livro, Borges diz uma coisa linda: o artista usa a vida como matéria prima. Ela é a substância com que constrói a sua obra, então há que aceitar tudo que a vida nos oferece, tristezas, desastres, alegrias. Neruda também diz num poema que :
Nós, os perecíveis, tocamos metais,
vento, margens do oceano, pedras,
sabendo que continuarão, imóveis ou ardentes,
e eu fui descobrindo, nomeando todas as coisas:
foi meu destino amar e despedir-me.

Porque somos perecíveis e frágeis, nos despedimos. Mas enquanto isso, há que colher a vida com todas as mãos e olhos e boca.

quinta-feira, 20 de março de 2014

FELICIDADE

A mãe da minha nora, Marta, japonesa, me conta que há uma palavra em japonês para algo de bom que você faz por outra pessoa, sem esperar nada em troca. Em hebraico também há, mitzvá, mas a que ela me disse em japonês, eu me esqueci. Isso é algo que deveria nos nortear sempre. A felicidade do outro é como uma onda de água boa que jorra sobre a gente. Às vezes basta um sorriso, um bom-dia, um elogio, a auto estima dos humanos é tão frágil (e dos bichinhos também). Todo o tempo a perdemos e recuperamos. Dependemos do outro sempre. E o que dizer de um abraço, de um toque na pele? É maravilhoso, nos devolve a nós mesmos, fortalecidos. E é tão fácil, tão mais fácil do que acordar de mal com a vida!
Vi uma entrevista com um neurocientista que passou muitos anos no Tibete estudando a felicidade de pessoas tão pobres. A felicidade brota de alguma fonte interna e não necessita de nada externo. Ele dizia, como pode estas pessoas tão pobres serem tão felizes? Pode até ser que do lado de fora as coisas não estejam lá muito bem... Agradecer também gera felicidade. O mundo está tão violento que precisamos nos fortalecer.

quarta-feira, 19 de março de 2014

CAFÉ, PÃO E TEXTO

Ontem, às 8.30h um ônibus escolar parou na minha porta e desceram 25 meninas de camiseta rosa. Maestro Moisés era quem puxava o fio da alegria. Foram direto para o jardim, junto com as coordenadoras das escolas, o músico e João, o namorado do Moisés.Fizeram um arco em volta da goiabeira, onde havia sombra e o músico sentou-se com seu violão na trave da roda de carro de boi que temos no jardim(junto com as rodas, claro, é o seu eixo). O Maestro compôs uma canção lindíssima para a Casa Amarela. Foi absolutamente emocionante. Com todo o calor eu tinha a pele arrepiada de tanta beleza.
Depois as meninas sentaram na grama em cima de colchas e os adultos em bancos e cadeiras. Os cinco jabutis se apaixonaram pelas meninas ou gostaram de ouvir o conto, ficavam andando no meio delas para lá e para cá, principalmente o Godofredo.
Falei um pouco sobre o tempo da ditadura. João contou uma história dessa época, para mim inédita. Ele morava no Sul , numa pequena cidade, com seus pais italianos. Sua mãe não falava português, mas os filhos sim. Só que estava proibido falar na rua qualquer língua estrangeira. Então para ir ao mercado, ela levava um filho e falava no seu ouvido em italiano o que queria e assim podiam comprar. Lembrando que numa cidade pequena não deveria haver supermercado, mas sim uma venda.   Li o conto "Lia", do meu livro Pequenos Contos de Leves Assombros. Quando acabei elas reconstituíram a história e depois entramos mais profundamente no conto. Foi muito bom.
Também preparei uma surpresa para o Maestro. Vanda , minha caseira, fez um imenso bolo de laranja com chocolate e cantamos os parabéns, pois ele havia feito anos poucos dias antes. Fiz pães bem cedinho de manhã, um recheado e outro integral, ´manteiga na mesa, café com leite e suco. Foi uma festa. . Às 11hs o ônibus chegou e se foram todos como uma revoada de pássaros coloridos. Deixaram na casa um rastro luminoso que não se apagará.

terça-feira, 18 de março de 2014

BUAKÊ

Para terminar meu relato sobre a África:

Françoise era a melhor amiga da minha irmã. Era tão delicada que quando estávamos juntas e ela precisava falar com alguém na sua língua, nos pedia licença e depois traduzia.Não sei quantas línguas falam na Costa do Marfim, são muitas.Mas há uma língua comum a todos, a do mercado e se chama djula.
Françoise nos convidou para passar o Natal em Buakê, onde morava seu pai. Fomos de trem .Um trem super lotado, com um calor de uns 60 graus! Muitas linguas, gente que viajava para suas aldeias. Na casa da Françoise não comemoravam o Natal.
Em sua casa tudo acontecia no quintal e seu pai tinha duas mulheres, , muitos filhos, muitos sobrinhos e sobrinhas e ele era o rei. Estalava os dedos e saía um prato de bananas fritas, outro de peixe frito...
 Buakê era uma cidade verdadeiramente africana, não se via brancos. Mulheres costuravam na frente das casas com os seios de fora. As crianças saiam correndo atrás da gente gritando em sua língua (esqueci a palavra, mas poderia ser algo parecido com tubabú): Brancas, brancas! Eu nem me lembrava mais que era branca . Fomos tratadas como rainhas, assim são tratados os visitantes na África. Ganhei um presente lindo do seu pai, um abridor de garrafas de bronze com a cabeça de um homem. Fomos ao mercado e compramos um colar para Françoise. Françoise pechinchava  (é ponto de honra nos mercados). Ela dizia: _ Elas são brancas, mas são minhas irmãs.
Fomos convidadas por uma amiga da Françoise para um café da manhã. A mãe da amiga era tão velha que parecia uma árvore de 100 anos. Com os seios de fora , coberta de colares e de amuletos, nos fazia tantos agrados, nos benzia sorrindo. Ainda posso vê-la 30 anos depois. Evelyn, que já havia avisado que era vegetariana comeu pão com manteiga e café com leite, como eu não havia falado nada , tive que comer um prato fumegante de carneiro com batata às 7 horas da manhã! Não se pode não comer o que é oferecido, é uma grande ofensa. Quando eu dizia para a Evelyn, minha irmã, em português, "não gostei", ela respondia em português, "cala a boca e engole".
Tivemos o privilégio de entrar na África negra, fomos a lugares onde nenhum branco podia colocar os pés.
Fiz muitas viagens na minha vida, nenhuma mais impactante. Levo a África no coração, e tenho tanta dor por todas as guerras, por toda a fome, por toda a pobreza, a doença. Os colonizadores destroçaram a África dividindo o continente de uma maneira artificial. Etnias inimigas tiveram que viver juntas no mesmo país. O mundo deve tudo a África, não deveria abandoná-la..

segunda-feira, 17 de março de 2014

FUTU

Continuando o relato da minha viagem:
Quando o avião pousou depois de passar bem baixinho por uma vasta e densa floresta, quando saí do avião, um soco de ar úmido me nocauteou. Evelyn me esperava radiante. Logo na calçada , antes de tomarmos um táxi, uma mulher vendia banana frita numa grande bacia. Comprei uma porção, seu nome sonoro: alokô. Ela embrulhou num pedaço de jornal e fomos para casa. As mulheres são coloridas, sua vestimenta de 3 peças é maravilhosa: saia, blusa e um pano mágico que elas amarram na cintura, desamarram, amarram de novo, seguram com ele as crianças nas costas, desde recém-nascidos até crianças maiores e não tenho certeza, mas talvez seja o mesmo pano que amarram na cabeça, não sei. Evelyn morava num condomínio aprazível, mas bastava virar uma esquina, se perder um pouquinho e já estávamos no mercado, a maravilha das maravilhas. O mercado é um mundo, uma enorme arca aberta de tesouros. Quilômetros de tecidos no chão, cobres e tapetes, comidas, verduras, peixes secos, frutas, farinhas, etc... Pessoas moram no mercado, dormem à noite nas barracas. E conversam, conversam, conversam...Mulheres sentadas no chão trançam os cabelos umas das outras e colocam apliques.
A uma certa hora descobri o que era futu. Pois se ouvia um barulho grave , pausado e constante: os pilões.
Pilava-se banana da terra ou inhame . Em qualquer lugar da cidade. A pasta , que era o produto no fundo do pilão, se cozinhava e se servia com molho de peixe ou de frango (kedjenú)  . Você podia escolher, futu de banana, meio adocicado, ou de inhame. Era a  comida nacional, como o nosso feijão com arroz. Mas também se comia muito cuscus.
Quando chegamos no apartamento começaram as visitas para me ver. Evelyn era muito querida pois logo se transformou numa africana branca. Vieram muitas crianças e adolescentes. Se sentavam no sofá e ficavam quietas. Não precisavam falar, pois vieram para olhar. Vieram para fazer companhia, eram como os gatinhos. Depois de um certo tempo , riam e iam embora.
Mas Evelyn tinha uma amiga em tudo especial: Françoise.
Continua na quarta-feira

domingo, 16 de março de 2014

VIAGEM PARA ÁFRICA

Agora que vamos discutir os contos da Karen Blixen, a autora da Fazenda Africana , com  adaptação maravilhosa para o cinema (Entre Dois Amores),em nosso Clube de Leitura da Casa Amarela, vou contar um pouco da minha viagem para a África. Se existem vidas passadas fui africana, tamanha a minha identificação .
No começo dos anos 80, minha irmã foi para Abidjan. Um mês depois vendi um cordão de ouro, arrumei um dinheiro emprestado com a minha tia, deixei filhos e marido em casa e lá fui eu via Dakar. Ao chegar ao saguão do aeroporto fiquei estupefata com a beleza das mulheres, seus rostos, seus corpos esguios, suas roupas coloridíssimas. Eu fui acompanhada da mulher de um funcionário da Embaixada do Brasil, ajudei a cuidar dos dois filhos na viagem. Seu marido era amigo do meu cunhado. Em Dakar havia um motorista da Embaixada do Brasil no Senegal nos esperando e enquanto esperávamos a troca do avião que seria muito longa, fomos passear pela cidade.
O avião da Air Afrique era todo remendado. E as pessoas não ficavam sentadas de jeito nenhum, em pé conversando e gesticulando, eu tinha certeza que o avião não iria aguentar. Ao meu lado um senhor bem gordo recusou a comida e me disse, vou comer futu em casa. O que seria futu? Conto amanhã. 

sábado, 15 de março de 2014

CHEGUEI EM SAQUAREMA

Fiquei 15 dias na montanha sem quase saber do mundo. Não queria saber, só queria meditar e contempklar e receber os amigos e beijar os filhos e os netos. Nas vésperas de ir embora, primeiro recebi a ilustradora do Abecedário (Poético) de Frutas, (ed. Rovelle), Cláudia Simões e a Márcia Patrocínio do Centro Cultural Visconde de Mauá para almoçar. Eu ainda não posso cortar legumes com a cirurgia da mão e elas me ajudaram. E no último dia vieram Salvador, meu amigo mais antigo, o que mora muito muito lá em cima, ele cria abelhas e me trouxe de presente um pote de mel, e Evelyn e Luis, irmã e cunhado. Foi maravilhoso. Fiz uma pasta com beringela e não dava para comer só um prato, sou muito gulosa.
Mas ao chegar em Saquarema as notícias entram por todos os poros. Um prefeito que joga lixo na rua, um avião que desaparece no vento, uma quase guerra nuclear.
O planeta não nos suporta mais, nós , os predadores. O planeta está se tornando muito hostil. Professoras e professores, há que trabalhar muito com arte e educação ambiental. Quero que no futuro meus netos possam beber água e respirar. A nossa geração de políticos, em todo o mundo, é insensível.
Mas quero dar uma linda notícia: o mar está de um azul  que dói de tanta beleza, a areia explode de branco, pena que ainda não tenha visto nenhuma baleia.

segunda-feira, 10 de março de 2014

NOITE DE LUA



Fico por aqui na montanha até quinta-feira. Não há nada que recorte o tempo, é um novelo de muitas cores que vai se desenrolando com calma, às vezes chuva, às vezes sol e ontem à noite uma lua já iluminava tudo de prata e ao voltar à noite da casa do meu filho pelo caminho mágico que me leva até a minha casinha, apagava a lanterna e parava para respirar toda a beleza que a noite derramava sobre as árvores.
Fiz um aumento na casinha. Fechei uma varanda e fiz uma sala grande para receber a família. Evelyn, minha irmã, fez uma placa linda de cerâmica dizendo ”Estação Família”. E agora , além do fogão de lenha, tenho uma lareira para os dias frios que virão. Adoro frio. Vou transformando a minha poesia em tijolo e cimento , em tintas e pregos. Transformando palavras e relâmpagos de emoção em casa.  
Ontem terminei um livro novo. Acho que já tenho editora, se ela gostar. Fique muito feliz e muito faminta, como sempre, quando termino um livro.

domingo, 9 de março de 2014

LONGE DE TUDO

Aqui na montanha, longe de tudo, como se tivesse passado por um portal mágico e desembarcado em outra dimensão, tudo fica esmaecido, e só o que importa são as flores, as borboletas imensas , azuis e amarelas. Muito longe fica a quase guerra lá pelos lados da Rússia, muito longe a crise na Venezuela , só o que existe é toda a beleza que me envolve, o livro que leio no momento. Na verdade releio um livro lindo que amo,"El Jinete Polaco" do escritor espanhol Antonio Muñoz Molina,  eu o deixei aqui para ir lendo aos poucos. A história vai do final do século XIX até a morte do Franco e o que a costura são fotografias antigas, um encontro improvável, uma linda história de amor e uma mulher emparedada que quando descoberta estava perfeita em toda a sua beleza. O escritor é muito pouco conhecido no Brasil e um livro seu que é uma maravilha, "Sefarad" está traduzido para o português. Vale a pena.

Ontem me dei de presente um almoço no Babel, restaurante do meu filho. A estradinha de 150m que vai da minha casinha até lá é de conto de fadas. Da minha mesa eu o via cozinhando pelo janelão de vidro. Ele parecia dançar. Isso é o que nós, mães queremos: que nossos filhos dancem com a vida. A comida do André é pura Festa de Babette, um delírio.Na mesa ao meu lado uma "amiga" virtual, que saiu do facebook para almoçar aqui, Sandra Vallim e seu marido, um lindo casal com uma filha bailarina. E passei o resto do dia flutuando.

sábado, 8 de março de 2014

DIA DA MULHER

Datas comemorativas servem para que? Para a gente que é mulher hoje, por exemplo, receber flores ou parabéns? Mulheres são perigosas , diz a Bíblia. Sim, é verdade, somos perigosas porque damos conta da vida. Carregamos a vida dentro da gente , carregamos as crianças, os velhos, somos desde sempre fazedoras de tudo, somos intuitivas, curadoras, sensuais. Os homens tiveram medo. Então nos amordaçaram, acorrentaram, amaldiçoaram, nos encheram de culpas. Mas de uns tempos para cá, um século? rompemos as amarras. Somos perigosas e maravilhosas e enquanto iluminamos o mundo o homem descobriu que pode chorar.
Mas em alguns lugares a mulher continua acorrentada. Choremos por elas.

sexta-feira, 7 de março de 2014

VIAJANDO PARA A ÍNDIA

Ontem, aqui na montanha, choveu muito e o dia esteve escuro. Li um livro sobre as mulheres na Índia, "O Vagão das Mulheres". O livro não é bem escrito, a tradução para o espanhol não é boa, mas a ideia é muito boa. Num trem, num vagão só de mulheres, seis mulheres passam a noite contando as suas vidas. Cada uma daria um romance. São vidas horríveis, de humilhação, subserviência, sonhos mortos, silêncio ou de pobreza extrema. A Índia é um país complexo, mas para além de toda a sua complexidade, a situação da mulher é muito triste e falta muito para que, em qualquer casta, a mulher seja respeitada. Os estupros nos ônibus são a prova disso. Mulher é nada.Muito triste.

Ontem minha irmã e meu cunhado, ambos ceramistas, vieram tomar café da manhã comigo. Eles me contaram que um arquiteto entrou na loja, enlouqueceu com seus pequenos azulejos e levou todos, 70 azulejos. E contou toda a história da sua vida. Evelyn tem este dom: as pessoas chegam perto dela e contam tudo. E eu penso que é uma dádiva ter a irmã, filhos e netos por aqui. 

Daqui do Babel Restaurante, do meu filho, onde há internet sujeita a humores, a vista é esplêndida, temos um parque. Poucos lugares eu conheço com tamanho grau de beleza. Hoje uma amiga do face virá comer no Babel e vamos nos encontrar. Não sei se a conheço no mundo real, esqueci de perguntar, mas hoje vou saber.

quinta-feira, 6 de março de 2014

HOSPITAL EM RESENDE

Segunda-feira passada acordei aqui em Mauá com dor de dente. Ao longo do dia foi piorando. Na terça já estava tão insuportável que desci à noite para Resende, com a cara inchada . Meu filho me levou ao Hospital de Urgências de Resende, onde há um plantão de 24hs para emergências odontológicas. Estava com medo. Chegar num hospital público, de urgências, numa terça de carnaval... mas que nada, para minha surpresa o hospital estava vazio, fui super bem acolhida , era tudo limpíssimo e o dentista espetacular. Dr. Emerson. Se alguém que estiver me lendo conhecer este dentista de Resende, conte a ele da minha gratidão.Ele fez o que tinha que fazer ( havia um nervo necrosado), havia todo o material que precisava disponível. Eu estava com uma infecção, fui medicada, me disse os próximos passos e posso esperar a minha chegada em Saquarema. Já estou sem dor, completamente e o rosto quase voltou ao normal.
Uma saúde pública com esta qualidade é o que todos deveriam encontrar em todos os lugares. Infelizmente é a exceção que confirma a regra: nossos hospitais públicos não são assim.

Hoje chove torrencialmente.As árvores agradecem. Dia maravilhoso para acender o fogo e ler.

domingo, 2 de março de 2014

DOMINGO PÉ DE CACHIMBO

Belíssimo domingo aqui na montanha. Choveu à noite e agora o dia está azul. Neruda disse que sua cor preferida era o azul e a minha também, embora ame especialmente as cores do outono, as cores da terra.
A paineira que plantei na década de 70 está imensa e completamente florida, toda cor de rosa. Uma acácia derrama suas flores amarelas sobre nossos olhos maravilhados. No caminho do restaurante do meu filho até a minha casinha dentro da mata, as árvores me abraçam e um eucalipto gigante perfuma o ar. Ele soltou a sua casca e está de pele nova.
Aqui não chega nenhum eco do carnaval. Apenas o canto dos pássaros, maritacas escandalosas salpicam o ar de verde. Domingo pé de cachimbo. Minha felicidade é total.  

sábado, 1 de março de 2014

PACO DE LUCÍA

André , meu filho, me conta que morreu Paco de Lucía, com apenas 66 anos. Um dos maiores violões flamencos se cala. Há tanta dor em seus acordes...Há tanta paixão. Amo a música flamenca e a sua dança e suas vozes doídas e guturais. Quando era muito jovem ouvi uma "saeta" num disco maravilhoso do Miles Davis e em 1994 , quando fui receber meu prêmio em Sevilha, no dia da chegada, não pude sair com os companheiros de viagem porque minha coluna me impedia. Fiquei no quarto e da janela via telhados e Sevilha tem cheiro de laranja, é perfumada. De repente eu ouvi a "saeta" do disco do Miles Davis, era assim, como eu me lembrava e a emoção quase não me deixava respirar.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

EM MAUÁ

Este lugar onde estou é mágico. Quando compramos o sítio em 1975 tudo era pasto , poucas árvores aqui e ali: araucárias, uma grande jabuticabeira, umas quaresmeiras. E só. Plantamos muito nestes quase 40 anos. Mas a verdade é que a floresta se refez. Deixamos a terra em paz e hoje estamos cercados de florestas. Foi morando aqui que publiquei meu primeiro livro.  Sinto que a minha poesia se alimenta destas árvores, deste lugar maravilhoso. E o ciclo se completa. Meu filho André fez aqui seu restaurante, o Babel e Guga teve aqui as suas primeiras aulas de música e nos fins de semana vem para cá. Então tenho os filhos e os netos bem juntinho. Numa mesa bem grande nos reunimos todos. Pão e vinho , comida do fogão de lenha e muito amor. Como agradecer tantas dádivas?

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

DIÁRIO

Quando tinha uns onze anos eu tinha um diário, pois adorava escrever. O diário se perdeu, claro, mas adoraria ler alguma daquelas páginas da minha vida de menina. Escrevia também pequenos contos que lia para minhas amigas no colégio Hebreu Brasileiro onde estudava. Elas me ouviam e gostavam. Todos os contos se perderam, claro. O banheiro era um lugar interessante. Ali falávamos dos meninos e nos tornávamos cúmplices. Algumas mais corajosas matavam aula no banheiro. Fui crescendo e escrevendo. Até que me casei com 17 anos e tive um filho com 18. Então saí da adolescência brutalmente e me perdi de mim e parei de escrever por exatos dez anos.  Foi a escrita que me recosturou. E meus livros me levaram por aí, me fizeram voar.

Amanhã vou para a montanha . Talvez desapareça por uns dias.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

VÍDEO DA CASA AMARELA

Lá pelo meio dos anos noventa conheci o Caó na Bahia. Ele me mostrou seus livros, seus desenhos e fizemos uma parceria. Temos vários livros juntos e as crianças realmente amam o seu trabalho. Um dia ele veio aqui em Saquarema me visitar. Estava por aqui perto. Seus desenhos animados ganham muitos prêmios. Tenho vários poemas animados no meu site, feitos pelo Caó. No dia da visita ele ia nos filmando o tempo todo e me disse que ia fazer um filme sobre a gente. Eu não acreditei. Até que ontem ele me enviou o trailer do filme.que está no yutube e no facebook . Fiquei radiante com este presente inesperado, porque o filme é a minha cara! Não é sério, não é certinho, é bem maluquinho, mistura filme com fotos, com desenhos da cena que passou. E ele mostra o esboço da casa amarela até chegar ao seu resultado final. Adoro quando o artista mostra seu processo de criação. Enfim, estou muito feliz. Acho que a minha casa amarela com seus habitantes e visitantes, já virou personagem.
E lembro que nossa casa está aberta para receber escolas. Basta agendar comigo.                     

domingo, 23 de fevereiro de 2014

ALGUÉM PARA CORRER COMIGO




Nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela, ontem, dia 22-02-14, foi cheio de alegria e surpresas maravilhosas.  Recebemos gente nova. Jurema e Caroline, professoras, vieram de São Paulo! Viajaram a noite inteira para estar aqui. Fiquei muito emocionada. Vieram também, pela primeira vez, José Prado, editor, Miriam,que também foi minha editora e duas alunas da Estação das Letras. Temos assim, um grupo bem heterogêneo  bem variado: Contadores, advogados, um vereador, professores, uma agente de viagens, uma ex diretora de escola, um arquiteto e escultor. Talvez seja esta diversidade o que torna o grupo tão interessante. As primeiras a falar sobre o livro Alguém para Correr Comigo, do israelense David Grossman, foram Maria Clara e Leila .   Maria Clara disse que de todos os livros lidos no nosso Clube, esse tinha sido o que ela mais gostou. Leila falou que se viu adolescente, com todas as indagações, questões existenciais, oscilações de auto-estima próprias desta época.  E acrescentou que achava que todos sentiram o mesmo. Hector leu algumas frases do livro em hebraico para que todos pudessem ouvir a sonoridade da língua original. Maria Clara ressaltou o tempo da narrativa, super interessante, os personagens estão sempre em tempos desencontrados e seus tempos só se encaixam no final. Várias pessoas leram trechos belíssimos do livro e falaram que é um livro policial, é um livro de amor ,e principalmente de amizade. Amizade da irmã pelo irmão, o que leva a personagem Tamar a viver situações limite, colocando várias vezes sua vida em risco. A cadela Dinka que leva Assaf a conhecer lugares e pessoas estranhas foi para muitos, a personagem principal. Uma trama toda picotada, um verdadeiro quebra cabeça onde pouco a pouco as peças vão se encaixando. Falamos da gruta para onde Tamar leva o irmão como lugar de renascimento. Falamos da capacidade maravilhosa de Tamar para ouvir.Da sua capacidade de ser para cada pessoa o que a pessoa precisava que ela fosse. Todos falaram do ritmo vertiginoso do livro . Todos falaram do começo do livro, confuso e difícil. Felipe falou que o livro é cheio de silêncios. Caroline disse que esperava um final mais mágico, menos real, eu discordei e disse que achava que o final era perfeito. Felipe disse que concordava com ela. E que eu tinha o péssimo hábito de maltratar as pessoas que vinham pela primeira vez. Ele disse que com personagens tão bizarros e situações inusitadas ele também queria um final mágico. Juan disse que a vida sempre supera a ficção e que a história de cada um é sempre extraordinária. Hélio falou que ficou surpreso de que Jerusalém, a mítica cidade , tivesse este submundo apresentado no livro. Juan lembrou que cada cidade tem várias camadas, várias cidades na mesma cidade. César disse que Tamar lhe parecia um espírito muito iluminado. Todos nos apaixonamos pela Freira Theodora.
Enfim, todos amaram o livro. Nossas discussões são feitas com o coração.
  Ângela trouxe para o Samuel, nosso jardineiro e ouvinte assíduo das discussões, de presente de aniversário, já que era seu aniversário, uma camiseta preta com o desenho da casa amarela com o título do clube. A camiseta era tão linda que todos morremos de inveja!
E o almoço foi servido no fogão de lenha, tudo preparado pela Vanda e sua filha Aline: Salada verde, maionese de batata, arroz de forno e abóbora com carne seca. Pães com azeite. Flora trouxe dois pães integrais magníficos Eu fiz um pão branco com a mão esquerda somente. Tudo regado a espumante, vento do mar e alegria. Brindamos ao Samuel, que cuida do nosso jardim desde 2002 e prepara a casa para receber o Clube. Com uma torta maravilhosa cantamos parabéns para ele e nosso próximo encontro será  dia 12 de abril com os livros A Tempestade de Shakespeare e Anedotas do Destino da Karen Blixen.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

RACISMO

Leio hoje que uma agência que fornece enfermeiros para idosos pergunta em seu questionário se o idoso (a) tem alguma restrição de cor.
Uma australiana , num Salão de Beleza, não quis fazer a unha com uma manicure negra.
Um jogador negro foi xingado de macaco.
Não há uma palavra adequada para este tipo de atitude abjeta. Racismo é uma palavra fraca. O que faz um ser humano se sentir superior a qualquer outro ser humano? Não existem raças, existe GENTE, a pior espécie do planeta Terra, capaz de destruir todas as outras espécies. Ao mesmo tempo, a única espécie capaz de produzir engenhos e arte, a única espécie capaz de viajar no tempo, imaginar... Com que direito um ser humano se sente superior a outro? Somos todos iguais e todos diferentes. Somos todos mortais.
O racismo é um crime e uma doença. Se fizermos, dentro de nós, no escurinho dos nossos pensamentos, alguma restrição a qualquer tipo de gente, pela cor da sua pele, religião, etc, etc, há que lutar e vencer este sentimento, como há que arrancar num jardim as pragas e as ervas daninhas.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

MÃO ESQUERDA

Nunca imaginei que conseguiria fazer tantas coisas com a mão esquerda. Antes da cirurgia do túnel do carpo eu treinava e era um fracasso. Agora o cérebro sabe que não há outro jeito... Digito, hoje fiz um pão, faço café... Faço quase tudo com a mão esquerda e a direita imobilizada até o dia 26.

Recebi para este ano várias agendas lindas, mas a da ed.Rovelle tem sabor de fruta. Para cada data a editora escolheu um livro e para o Dia da Poesia escolheu o meu Abecedário (Poético) de Frutas.

Quando eu era criança minha babá Eunice me levava para feira. Era uma festa. Eu ganhava frutas e doces e a minha paixão eram as bananinhas ouro. Até hoje a minha alegria é ver uma fruteira bem cheia e colorida. 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

SOBRE O POEMA

Diz Neruda em "Confesso que vivi" que o poema é como um pão ou uma cerâmica. Acho isso lindíssimo, o poema que nos alimenta, o poema que perdura dentro da gente. Tanto o pão quanto a cerâmica precisam ser amassados com as mãos. O corpo participa da feitura do poema, do pão e da cerâmica. 

Diz Octavio Paz, no belo livro " A duas vozes", que "o poema promove a intensificação da experiência presente, é uma imersão em camadas mais profundas da temporalidade, nas quais já não há mais a distinção entre o passado, o presente e o futuro." Então, dentro do poema o tempo simplesmente É.Sem divisões. A experiência poética nos leva a um mergulho para dentro de nós mesmos e para dentro do tempo.

Eu tinha uma amiga camponesa em Mauá na minha juventude. Ela tinha a idade da minha mãe. Quando saiu meu livro Fruta no Ponto, levei para ela ver as imagens, ela não sabia ler. Sua cozinha tinha um lindo fogão a lenha mineiro sempre aceso e dois bancos toscos, isso era tudo. Seu marido estava sentado num dos bancos perto da janela enrolando um cigarro com fumo de rolo, a cabeça baixa, na nossa frente, do outro lado da cozinha. D. Maria me pediu para ler o livro em voz alta. Li todos os poemas enquanto o fogo crepitava. Quando terminei, S. Elói se levantou e começou a gesticular e falar e tocava o coração querendo dizer a sua grande emoção e quase não conseguia. Era um homem rude, de mãos calosas e sempre sujas de terra. E ali experimentou algo que nunca havia sentido.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

ARCO-IRIS

Sempre acordo cedo. A manhã estava linda com o céu bem tumultuado e cheio de nuvens. Parecia chover no mar. Mas eu não tinha mais nenhuma esperança de que fosse chover e já me conformava com a umidade sobre as plantas. E de repente a chuva . Sem sudoeste, que é o telegrama do mar. Durou meia hora mais ou menos a linda chuva. E veio o sol enquanto chovia e um arco-íris nasceu no mar.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

AQUI E AGORA

Tenho uma deusa na minha vida. Fiz com ela algum tempo de terapia bio energética e ela me ensinou a meditar. Ela me ajudou a aceitar os limites físicos. Ela me passava dever de casa: exercícios de felicidade.
Estar aqui e agora é difícil para nós, ocidentais. A meditação ajuda. O passado é nosso tesouro de experiências, vivências, conhecimento. Mas podemos nos enredar em sua teia e ficar paralisados.  O futuro não existe ainda e na verdade será sempre presente e passado. Então o que temos é o aqui e agora. Estar inteira em cada tarefa que faço tampouco é simples. Mas vale a pena o exercício diário.Levo muitos anos me exercitando. Quando conseguimos a paciência aumenta. Esperamos com mais doçura, menos irritação.Ter clareza do que necessitamos de verdade é , para mim, também, um dos caminhos para a felicidade. 

Hoje desejo chuva. Ela não chegou a Saquarema. O mar está de ressaca, há uma névoa, mais umidade, mas de chuva nada. Eu a desejo "boa, prazenteira" .Acho que vou chorar quando chover. De felicidade.                                                  

sábado, 15 de fevereiro de 2014

SÁBADO

Vinicius cantou o sábado. O sábado é sagrado para os judeus. Desde a minha adolescência que não cumpro nenhum rito religioso. Para mim o sagrado está no cotidiano sem diferenciar dias e horas. O sagrado se manifesta no meu amor pelo outro, na minha maneira de me relacionar com as pessoas, na minha maneira de criar harmonia e beleza ao me redor, mas quando era criança adorava ver a minha avó preparar o shabat, acender as velas para os seus mortos. Eu adorava a sua figua miúda, sempre rezando, sempre com um xale de renda cobrindo a cabeça de lindos cabelos brancos. Volta e meia ela volta, eu a vejo, fazia parte da minha infância.
Hoje é sábado e vamos comer com amigos , há sempre que celebrar a amizade, fonte inesgotável de água limpa.

Acordei às 3.30h da madrugada sem sono nenhum. Fui para o jardim totalmente iluminado pelo luar. 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

TRES MULHERES

Ontem reli alguns relatos do Neruda em Confesso que Vivi.
Sou apaixonada perdidamente pela história das tres mulheres. Neruda foi convidado para uma festa da debulha do milho. E vai sozinho pelas cordilheiras A noite começa a cair e horrorizado ele se dá conta de que está perdido. Felizmente um índio cruza o seu caminho e ele explica a sua situação. O índio lhe indica uma trilha escondida que vai dar na casa de tres francesas madeireiras que vivem ali e são acolhedoras. Neruda consegue chegar e é recebido por uma linda senhora. Ao dizer que é estudante seu rosto se ilumina. As outras duas irmãs aparecem. A casa é feérica. Quando Neruda fala de Beaudelaire, elas explodem de felicidade. Uma criada índia avisa que o jantar está servido. A mesa, profusamente iluminada com velas, está repleta das mais maravilhosas iguarias, dos vinhos franceses mais esplendidos , guardados para ocasiões especiais, suas garrafas empoeiradas, como qualquer tesouro que se preze. Elas contam que para cada visitante que receberam fizeram um cardápio diferente nos 30 anos que já se passaram ali, naquele fim de mundo.
Neruda dorme dentro de um sonho e ao acordar um pouco antes do amanhecer sai sem se despedir. Tinha medo de quebrar o encantamento.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

DÁDIVAS

A vida é feita de tantas dádivas. Hoje fui até a Vila de Saquarema fazer algumas coisas. Fui ao cartório reconhecer a firma do contrato do meu novo livro com a ed. Moderna. Com o braço direito enfaixado até quase o cotovelo e na tipoia. Todos perguntam o que houve e me desejam melhoras. Idem no correio. E no bar onde me sentei para tomar café de frente para a lagoa. Saboreio o azul do dia e da lagoa junto com o café. Bebo com os olhos o verde das árvores e na volta para casa flamboaiãs floridos incendeiam de beleza meus pensamentos. O táxi, ao entrar na rua do mar me oferece o mar. Viver é bom e como disse Freud num texto maravilhoso que li (não me lembro do título) a nossa mortalidade, sermos finitos, deve fazer com que a vida seja muito preciosa, pois um dia ela acaba.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

LINDA IDEIA

Li e vi no facebook uma ideia belíssima. Crianças lendo para gatos. A relação das crianças com os animais é de igual para igual. Crianças que amam os animais possuem uma grande chance de lidar melhor com o outro,com o diferente. Os bichinhos são um exercício de amor. E são grandes mestres.
A ideia de crianças lendo para gatos é absolutamente deliciosa. Com certeza gatos gostam de histórias.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

GUERRA

Juan, meu marido jornalista me conta: 52.000 pessoas são assassinadas por ano no Brasil. A maioria negros, jovens e pobres. Trata-se de uma guerra civil. O primeiro jornalista é morto numa manifestação. Jornalistas não são respeitados no Brasil. A imprensa livre incomoda. A polícia no Brasil mata. Os índices de violência são assustadores. A corrupção é avassaladora. A corrupção mata. Há uma sensação generalizada de insegurança. É tudo muito triste.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

TECNOLOGIA

Antigamente escrevia a mão. Depois passava a limpo na máquina de escrever, uma Ollivetti vermelha que eu amava. Agora não consigo mais escrever a mão, é muito raro que eu o faça. Mas para mim a tela do computador continua sendo o papel em branco.
Não gosto de ler no computador, na verdade , não suporto, fico irritada, perco a paciência. Preciso do livro no papel.
Não tenho agenda no celular. Gosto de escrever a mão os nomes das pessoas. Gosto do meu caderno de telefone de papel reciclado, meio áspero. Dá um trabalho danado, não tem lógica, mas o que posso fazer?
Há uma overdose de fotos. Não tiro fotos, enjoei.
Não tenho internet no telefone, odeio.
Acho que estou virando elefante.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A PALAVRA

A palavra é a nossa matéria prima, nosso osso, cimento, pedra, com que construímos mundos e emoções. Uma palavra de desdobra em outra, em outra, uma palavra nunca se esgota, ela sempre nos remete a alguma outra coisa, num jogo quase infinito, se quero voar.
E amo este poema do Drummond:

A PALAVRA MÁGICA

Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo, vu pocurá-la.

Vou procurá-la a vida inteiera
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.
Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

ANJOS

Adoro a figura dos anjos desde criança. Porque são lindos, são etéreos, voam, são mensageiros de alegria.Amo os poetas que escrevem sobre os anjos, Rafael Alberti, Rilke."Quem se eu gritasse, entre a Legião dos Anjos me ouviria"? pergunta o poeta em Elegias de Duíno. Todas as vezes em que gritei, um anjo me ouviu.Todas as vezes em que gritei um anjo me ouviu, disfarçado de humano.
Cada um de nós é o anjo de alguém.
Juan é meu anjo. Ele me acolhe, me aceita, participa das minhas maluquices, me protege.
Quem é o teu anjo?

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

FANTASMAS

Ontem , na aula de Pilates, um senhor nos contou:

Estava numa pequenina cidade em Portugal, num castelo que se transformara em Pousada. A gente sabe que na Europa, basta virar a esquina do tempo e já se passaram 800 anos para trás. O castelo era muito, muito antigo.
No meio da sua última noite ele acordou com uma luz violeta, uma luz mortiça no quarto. Olhou para o lustre e não havia nenhuma luz acesa. Para a lâmpada de cabeceira: apagada. Sua mulher dormia profundamente. Olhou para o fundo do quarto e viu pessoas como sombras que se moviam. Tentou olhar para seus rostos e não era possível. Como se os rostos estivessem apagados. Só via os corpos. Quis chamar sua mulher e a voz não lhe saía da garganta. Depois de um tempo paralisado conseguiu acender a luz e tudo desapareceu.

Débora, nossa professora, não acredita em fantasmas , então disse que certamente havia sido uma sugestão. Eu acredito em tudo o que existe e em tudo o que não existe . E adorei a história.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

MOINHO DO MUNDO

Apesar da gente ter a sensação de que a vida começa na segunda-feira com o moinho do mundo voltando a funcionar depois do final de semana, a morte não tira férias, só no livro do Saramago mesmo, "As Intermitências da Morte". Morreu Eduardo Coutinho e eu tinha visto não faz muito tempo o seu belíssimo "Edifício Master". E morreu Philip Seymour Hoffman, ator do maravilhoso "Capote". O cinema fica órfão de dois monstros. As duas mortes foram tristíssimas, uma dor que dá na gente. Amo o filme "Ninguém é perfeito".

sábado, 1 de fevereiro de 2014

CAFÉ COM PÃO E TEXTO

Hoje o Instituto Paulo Montenegro e a Ong Ação Educativa , no jornal O GLOBO, nos dizem que 38% dos estudantes universitários são analfabetos funcionais, são pessoas que não compreendem um texto.São alunos que já passaram pelo Ensino Fundamental e Segundo Grau. Isso quer dizer falta de leitura, falta de literatura. As Rodas de Leitura teriam que ser obrigatórias em todas as escolas. A escola teria que formar seres pensantes. O pensamento também é um hábito. Questionar, olhar as coisas sob vários pontos de vista, saber ler o que não foi dito explicitamente, buscar nas entrelinhas, isso faz parte da formação de um leitor. E também a paixão pelas palavras, a paixão pela maneira com que um texto fala.

Por isso estou tão feliz com o meu recomeço: dia 13 próximo receberei em minha casa 40 jovens para um "Café com Pão e Texto". Vou ler um conto do meu livro Pequenos Contos de Leves Assombros que está à venda na Amazon, é meu primeiro livro apenas digital. Como as jovens fazem parte do coral Escola que Canta, do Maestro Moisés, são alunas de três escolas de Saquarema, no final, antes do café com pão, o coral vai cantar, ou depois do café, não sei, vai depender da fome.

Aguardo a próxima escola que se aventure para o mês de abril.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

CONVITE

Durante dois anos rcebi em minha casa, em Saquarema , alunos e professores para um Café da Manhã Literário. Era uma das maiores alegrias da minha vida. Infelizmente a atividade acabou e eu fiquei órfã dos meus cafés e da presença maravilhosa das crianças e adolescentes.
Pensei muito e decidi convidar as escolas que estiverem por perto e que possam se locomover até a minha casa para reiniciarmos esta atividade regularmente, uma vez por mês. Já recebi escolas de Duque de Caxias e de Nova Iguaçu e foi maravilhoso.
Fica então o convite. Os interessados podem fazer contato comigo através do facebook para marcarmos uma data e preciso de todos os dados da escola.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

PARA PENSAR


Tenho 63 anos. Impossível apagar as marcas da minha vida. Já tive que fazer tantas cirurgias por motivos sérios, que quase me benzo quando passo pela porta de um hospital.
Na época da minha mãe, as mulheres simplesmente envelheciam. No máximo pintavam o cabelo. O que faz com que nós mulheres tenhamos que perseguir a forma perfeita, a juventude eterna? Os padrões de beleza são inventados pelas indústrias da moda e dos cosméticos. Peço paz e saúde em meu envelhecimento. Cada dia é único e é menos um dia na minha vida, por isso tenho que viver consciente do tesouro que tenho. Claro, quero ser uma velhinha bem bonitinha e agradável aos olhos alheios e ao meu próprio espelho, mas não devemos nos mutilar para atingir um ideal imaginário.Quantas mulheres morrem ao fazer uma cirurgia plástica! Cada vez que desobedecemos a um padrão imposto ganhamos um voo maior.
Quero sim, ficar cada vez mais intuitiva, mais sensível, quero ler cada vez mais, quero escrever cada vez melhor. Quero cada vez mais receber meus amigos com alegria . E nunca me esquecer de agradecer a dádiva de estar viva.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

MAUÁ COM INTERNET

O Babel Restaurante do meu filho, a 150 metros da minha casinha do bosque, agora tem internet. Desde domingo. Uma grande surpresa para mim, o que facilita a minha vida e muito, para qualquer mensagem tudo era tão complicado.
Já sei que talvez vá a Friburgo fazer um encontro. Não quero mais viajar para longe, minha coluna sofre muito e depois me manda uma conta alta.
Estou em Visconde de Mauá desde o dia 16 e já perdi a noção do tempo completamente. Vim com a Mariana, minha grande leitora que mora em São Paulo e apesar da grande diferença de idade, somos muito amigas. Meditamos juntas. Estou tão feliz que nem sei o que escrever, é felicidade em estado puro. Amo o barulhinho do rio ao lado da minha casinha, amo cada segundo do dia , amo a mata e suas vidas e todos os tons de verde. Hoje o lagarto teiú voltou e eu fiquei radiante, ele mora dentro de um grande canteiro de hortênsias, num buraco . Ano passado era meu companheiro e havia sumido.
Por outro lado, os esquilos estão de férias, não os vi nenhuma vez. Eles moram numa árvore imensa na frente da varanda. Já os jacus são tão íntimos, chegam quase até a porta da casinha.
Hoje minha irmã Evelyn Kligerman faz dois anos de casada e viemos almoçar no BABEL. Um delírio absoluto. E agora vou para a casinha ler. O paraíso foi inventado aqui.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

CAFÉ DA MANHÃ

O café da manhã é a minha hora mais preciosa. Ainda está bem fresco, pois acordo muito cedo e o dia amanhecendo é de tirar o fôlego. Eu e Juan conversamos um pouco sobre tudo. Quem acorda primeiro faz o café primeiro. Quando meus caseiros chegam encontram uma linda mesa posta para eles, às vezes ainda estamos na mesa conversando. Às vezes desço para fazer companhia quando já estou aqui em cima , no estúdio trabalhando e Juan já está andando. Eles são nossos amigos e colaboradores . Participamos da vida deles e Juan os levou ao Cristo, ao Pão de Açúcar, ao Rio Sul, ao Museu de Niterói, ao Jardim Botânico e às vezes vão a Mauá e os colocamos numa pousadinha bem camponesa perto do sitio.Eles se sentem incluídos. Inclusão é o que falta no Brasil, oportunidade para todos. Quando a auto estima está alta, o ser humano fica forte e consegue sempre ir além. Um primeiro passo foi dado com a Bolsa Família, mas uma professora me relata que às vezes alunos vão para a escola desinteressados completamente de tudo,apenas para não perder o que recebem.A Bolsa deveria exigir boas notas, como qualquer bolsa. Para que possam libertar-se da ajuda num futuro próximo. Mas agora, com o rolezinho, estamos vendo que os jovens querem mais, querem um espaço digno, com os mesmos direitos que os outros, que não são da periferia. Aqui em Saquarema observo o seguinte: a classe média não anda de ônibus , então, com uma passagem custando 2,80, é oferecido um ônibus cheio, com muitas janelas travadas neste calor, sem ar condicionado, viaja-se sem nenhuma dignidade. E se fosse a classe média alta que estivesse andando de ônibus? Todo o tempo vejo os menos favorecidos serem muito maltratados. Estamos a séculos luz de alguma igualdade .

Hoje viajo. Escreverei quando estiver em algum lugar com internet, pois na montanha , na minha casinha do bosque, não pega nem celular. Até.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

ORAÇÃO

Regina Campana me conta que usa meu poema Oração, (que escrevi para um espetáculo do José Mauro Brant, escrevi em sua casa, para o lindo espetáculo de canções de ninar que montou), em todos os lugares. Já soube que o poema é lido em hospitais, presídios, fico muito emocionada!

Oração
A todos os ventos eu peço coragem.
A cada estrela, estrada.
Ao mar que não morre nunca, eu peço coragem.
E ao sol e à lua e a todo firmamento.
A cada pássaro, a cada pedra, a cada bicho da terra e do ar.
Peço coragem a tudo o que vive agora e ainda viverá.
Coragem para cavalgar os dias, navegar nas horas
E a cada minuto e segundo sonhar.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

PARA MUDAR O MUNDO

Um post no facebook me diz: Não fique calma. Mude o mundo.

Como não se desesperar com todas as cenas de fome, guerra, violência, injustiças que vemos e lemos diariamente? A questão é : O que posso fazer?
Posso ter esperança, pois o mundo já foi pior. Pouco a pouco se vai tomando consciência  de muitas coisas. Mas a guerra é lucrativa e não vivemos imersos numa cultura de paz. Os filmes violentos prevalecem, os jogos violentos também. Mas eu posso, além de ter esperança, esticar os braços para os lados e para cima. E este pequeno espaço que me pertence posso mudar. Posso fazer alguma coisa por alguém, mudar alguma vida para melhor. Posso respeitar o outro, pisar com cuidado para não machucar seu coração. Ás vezes sou bruta e impaciente, tento melhorar.  Então, ao invés de reservar uma passagem para Marte, eu tento sempre ter esperança. Os ditadores e os que amam a guerra não são eternos. O ser humano é o pior predador do nosso planeta, mas existem pessoas maravilhosas, doadoras, cuidadoras, incríveis. E o ser humano faz arte, cria beleza.

domingo, 12 de janeiro de 2014

ALGUÉM PARA CORRER COMIGO

Acabei ontem de ler pela segunda vez o livro Alguém Para Correr Comigo, de David Grossman, Cia das Letras, que será discutido no nosso encontro do Clube de Leitura da  Casa Amarela dia 22 de fevereiro. Gostei ainda mais do que da primeira vez. Segundas leituras são maravilhosas pois nos aproximamos do texto de uma outra maneira. E como um arquiteto quando olha uma casa, percebemos todos os andaimes que foram utilizados, a estrutura para amarrar aquilo tudo.Que coisa magnífica deve ser escrever um romance, eu, que sou poeta e às vezes me atrevo a escrever uns contos curtíssimos, não tenho nenhum fôlego para narrativas longas e minha admiração por estes construtores de histórias e vidas é imensa.

Ontem vi um documentário belíssimo na TV 5 sobre a Mongólia. Todos os aspectos do país foram mostrados, a Mongólia está em pleno desenvolvimento e sua cultura milenar, a dos nômades, talvez em breve acabe, pois os filhos dos nômades já querem estudar nas universidades, ir para as cidades. E me apaixonei por um gato da Mongólia, lindo de morrer, um gato selvagem, totalmente peludo por causa da neve e do gelo e que infelizmente foi caçado e morto e meu coração se partiu, desliguei a TV antes do documentário acabar.