quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O QUE SERÁ?

O que será o destino? Uma pedra no meio do caminho que nos faz tropeçar ou desviar ou atravessar a rua, a cidade , o país? Em 1971 passei o outono em Toronto no Canadá e me apaixonei perdidamente pelos parques, pelos tapetes de folhas, pelos esquilos que vinham comer na nossa mão. Eu também era um esquilo assustado e sabia muito pouco de mim. Mas aquele país de amplos espaços, nenhuma miséria e gente amável me conquistou. Tentamos emigrar para o Canadá e tudo corria muito bem, já tínhamos a papelada da imigração em curso mas uma contra ordem desmontou nosso castelo de vento e não pudemos ir. E se a contra ordem não tivesse chegado, se aquela pessoa que disse não tivesse dito sim? Basta trocar uma palavra e tudo já é outra coisa, como no O Cerco de Lisboa, do Saramago.
Eu seria quem sou hoje, teria escrito todos os meus livros, onde estaria agora?

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

PARA VIAJAR

Quando viajamos rompemos com o cotidiano, com o desenho conhecido de nossas vidas e nos diz Claudio Magris em seu livro Danúbio, parece que de certa maneira voltamos para a infância, pois olhamos o mundo maravilhados, como se fôssemos outra vez crianças e então , pela lógica da poesia, temos todo o futuro pela frente, já que somos crianças outra vez. Sempre fui viajante, pois sempre fui leitora.Agora mesmo viajo pelo Danúbio, por suas cidadezinhas maravilhosas de nomes impronunciáveis. Além disso, estou sempre com as malas abertas, estou sempre indo e voltando. Quando viajo o que mais me encanta é sentar num café e ficar olhando o grande teatro que se desenrola diante dos nossos olhos: as pessoas andando, falando, gesticulando, sérias ou sorridentes. Troco a rua por qualquer programa.

PARA VIAJAR

Como é que se vai para a Atlântida?
De cavalo-marinho?
E de unicórnio,
dá para chegar nas montanhas da lua?
Para o centro da Terra
vamos de dragão dourado?
De Maria-fumaça a gente atravessa
o tempo?


in Pera, Uva ou Maçã? Ed. Scipione

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

GALA SOLAR

Os dias estão belíssimos. Da minha janela que dá para as montanhas posso ver até onde o olho já não alcança. Do outro lado o mar é de um azul claro e profundo, um azul inominável.O dia começa fresco mas dentro de algumas horas fará muito calor.
Escolho um poema do livro Sinais do Mar da Ana Maria Machado para ilustrar este dia. Fabriquem vocês as imagens, é um convite:

GALA SOLAR

calor
coral
colar de pura marola
no alvo colo da praia
decote sem gola
nas costas de gala.

rola
roda
em baile de aberta sala
e toda a baía enrola
na luz que estala
solar.

Ana Maria Machado, in Sinais do Mar, Cosacnaify

domingo, 5 de fevereiro de 2012

PEPITO E AULAS DE TANGO

Pepito é meu cunhado poeta, um menino travesso que faz hoje 77 anos e só vem confirmar os novos tempos. Pepito é professor de tango e reiki. E está apaixonadíssimo. Tudo começou via internet com uma troca de poemas. Em dezembro Pepito foi conhecer a sua amada Gabriela em Lima e confirmaram: querem se casar. Agora cada um arruma as suas papeladas para que possam viver juntos em Lima. Com grande entusiasmo Pepito está sempre recomeçando . É um grande aventureiro e uma lição de vida. Totalmente alternativo, suas coisas cabem em uma pequena maleta, a sociedade de consumo não o seduz: Pepito é essencial.Para ele faremos hoje um belo almoço, abriremos uma champagne e cantaremos com Violeta Parra: Gracias a la vida!

sábado, 4 de fevereiro de 2012

SAFO

Safo, a poeta grega que viveu no século VII A.C e de quem só nos chegam fragmentos de segunda mão, me seduziu quando eu tinha 14 anos com um poema. Uma flechada certeira no coração. Foi na aula de História Antiga, no Instituto Lafayette. Meu professor era adorável e para agradá-lo, para fazer bonito, decidí comprar um livro de poesia grega. O fragmento, que ficou tatuado do lado de dentro da minha pele , era assim:

Meia-noite.
A lua já se pôs
as pleiades também.
Foge o tempo
e estou tão sozinha.

Que uma mulher 2.700 anos antes de mim falasse o que eu sentia era uma revelação quase religiosa. Eu a a sentia viva, respirando ao meu lado. E me apaixonei por ela. Ganhei o livro Eros, Tecelão de Mitos , de Joaquim Brasil Fontes em 1990 em Campinas. E ao lhe contar que o fragmento acima me habitava desde a adolescência, ele me falou o poema em grego num dos momentos mais mágicos da minha vida. E me contou que ao viver tão intensamente com Safo na sua exaustiva pesquisa, os deuses lhe cobraram um preço: havia perdido a audição de um ouvido.

...................
aqui, rumoreja a água fria, entre ramos
de macieiras; recobre este lugar uma sombra
de rosas e, do alto das folhas trêmulas,
flui um sono profundo;

in Eros, Tecelão de Mitos, A poesia de Safo de Lesbos,Joaquim Brasil Fontes, Estação Liberdade.

Poetas não morrem, apenas dormem um sono profundo, enrolados em camadas de tempo.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

JULIA

Julia, minha sobrinha, passou em primeiro lugar na Marinha, como psicóloga, fez um ano de treinamento militar (para mim é um mistério as razões que levam a Marinha a treinar um psicólogo para a guerra)muito pesado, mas agora se mudou para Natal com seu marido e me conta:
_" Tia, Natal é linda!!!" Ela está radiante.Da sua janela ela vê um pedaço do mar.

E hoje me escreve uma aluna de literatura infantil justamente de Natal :
Olá, Roseana!
Boa noite!
Gostaria de te agradecer mais uma vez por me conceder algumas obras.
Apresentamos o trabalho hoje, não sei se ficou a sua altura, mas o fizemos com bastante empenho. Estudamos tudo o que estava no seu site e também fiz pesquisas a seu respeito e a respeito de suas obras no GOOGLE. Fizemos uma encenação do Poema (A menina e a boneca), Mundo da Lua. Levamos tapetes, brinquedos de menina e uma boneca de perna fina. Fomos bastante aplaudidas.
...............................................................
Lemos 10 de suas obras. Adorei todas, mas assim como meu filho, nos apaixonamos pelo Mundo da Lua.
Obrigada!!!!!!!!!!!!!!!!
Lucélia


E já me convidam para ir a Fliporto em Olinda em novembro. Ainda não é certo pois eles precisam levantar a verba, mas é uma possibilidade. Estou pré convidada. Então poderei visitar a Julia.

Hoje fui ao mar bem cedinho e era tudo tão absurdamente belo que eu poderia perder a voz.
Digo como Lorca: " Mas o que vou dizer da poesia? O que vou dizer destas nuvens, deste céu? Olhar, olhar, olhá-las, olhá-lo e nada mais"

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

MATÉRIA LINDA

Acabo de ler no Caderno Boa Viagem do O Globo uma matéria linda sobre Visconde de Mauá. E o Babel Restaurante do meu filho André recebeu os mais rasgados elogios. Transcrevo:
"Com a alma lavada e a cabeça fresca, a fome vai começar a bater. Um bom lugar para o almoço é o Restaurante Babel, que fica em lugar de acesso complicado: ou seja, é melhor ir até lá durante o dia.
..............................
Com poço e queijo, ou não, o Restaurante Babel é um daqueles que justificam inteiramente algum sacrifício para se chegar. Dirigindo com cautela , qualquer carro vai até lá. Num local agradável, cercado de verde e com amplos janelões que valorizam a paisagem, o casal Daniela Keiko e André Murray serve uma cozinha refinada, com forte inspiração franco-italiana. Para começar capuccino de cebola com funghi porcini e figos ao mel e balsâmico com queijo de cabra. Para o prato principal uma boa sugestão é o Alcantilado, uma canela de cordeiro cozida à perfeição ao mel e especiarias, servida com polenta trufada e cebola assada. Outra? O inusitado fetuccini caseiro de curry com truta e aspargos frescos. Vale a pena investir no menu degustação."

Depois disso só um babador para a minha condição de mãe.

UM BELO POEMA

Um belo poema todas as manhãs. Assim começo meu dia. A leitura diária de poesia ajuda a respirar. Pego um livro por acaso na estante e também abro ao acaso. Hoje me coube Alejandra Pizarnik, a esplêndida poeta argentina:

FIESTA
He desplegado mi orfandad
sobre la mesa, como um mapa.
Dibujé el itinerário
hacia mi lugar al viento.
Los que llegan no me encuentran.
Los que espero no existen.

Y he bebido licores furiosos
para transmutar los rostros
en un ángel, en vasos vacíos.

Alejandra Pizarnik, in Poesía Completa, Editorial Lumen

E já se aproxima nosso encontro do Clube de Leitura. Várias pessoas me telefonam ou escrevem dizendo que não conseguem ler O CERCO DE LISBOA, do Saramago. Ler Saramago não é uma fácil tarefa, é como entrar numa cidade estrangeira e ter que decifrar uma lingua que não conhecemos. Mas no final, sempre vale a pena, saimos enriquecidos.

Sua poesia , levemente surreal, possui uma musicalidade intensa.

Maristela, que vem de Maringá ao nosso encontro do Clube no dia 11 ,leu o blog e escreve:Sobre a História do cerco de Lisboa estou no fim, faltam 16 páginas; leitura difícil mas deliciosa quando pegamos o ritmo... Eu penso que se parece quando dançamos com alguém pela primeira vez, a gente pisa no pé vai pra lá e ele pra cá, depois passa o estranhamento bailamos e rodopiamos deliciosamente ao sabor da música. Beijos e até daqui a pouco (11.02)..

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

LIVROS NOVOS

Espero meus livros novos com uma paciência que vou tecendo ao redor dos dias.
Espero a reedição do meu livro Retratos que entraria na gráfica em novembro, escrevo mas a editora não me responde. Aliás, é muito rara uma relação generosa entre o autor e a editora.Ainda bem que tenho algumas editoras maravilhosas para compensar.
O livro sairá com fotos antigas da minha família e agora que minha mãe já não está mais aqui, tudo adquire outro significado.Enquanto o livro não chega leio no O Globo que foram descobertas gravações muito antigas e há a voz de um homem do século XVIII.É quase como viajar no tempo.É quase como se pudéssemos estar lá, atravessamos a fina película do tempo, pois aquele instante foi aprisionado junto com a voz.
E como adoro fotos antigas escreví o poema Fotografia para o livro Poemas e Comidinhas da Ed. Paulus. Em todos os poemas falo de comida, o livro é uma delícia:

FOTOGRAFIA

Algodão doce, pirulito,
cocada,quebra-queixo,
pé de moleque, suspiro,
brigadeiro, maria-mole,
um mundo inteiro
de doces coloridos
na festa da praça.

Moça bonita come de graça
um lambe-lambe fotografa.

Isso era antigamente,
está no álbum de retratos.

in Poemas e Comidinhas, ed. Paulus

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

BAILE MACABRO

Dia 27 de janeiro é o dia de nos lembrarmos das vítimas do Holocausto. Não só judeus, mas ciganos, homossexuais, dissidentes políticos, resistentes, comunistas. Este ano se deu especial atenção às mulheres e meninas. Lembremo-nos de Anne Frank. E nenhum livro fala mais alto do que É Isto Um Homem? do Primo Levi
Pois bem, a humanidade viveu muitos Holocaustos, mas o quase extermínio do povo judeu simboliza a crueldade humana em seu ápice.Cheguei de Mauá e Juan me diz: Sabe que em Viena neonazis comemoraram o Holocausto com um baile de gala?

Quando era criança, na década de 50, conviví com sobreviventes de Campo. Minha mãe tinha uma cliente belíssima com o número tatuado no braço.Lembro do seu rosto. A guerra ainda estava muito perto, respirava em nossas nucas.Dançar sobre os milhões de corpos que flutuam sobre a memória da humanidade é impressionante.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

CAIXINHA DE MÚSICA

Acabo de chegar de Visconde de Mauá . Comecei um livro de contos que chamei de Exercícios de Caligrafia. Não são contos infantis e para mim escrever ficção é muito difícil. Mas já fiz o primeiro e talvez não tenha ficado tão ruim. A idéia é escrever quando estiver lá , são contos de amor e terminam sem terminar, são como exercícios mesmo.Escrevo na minha casinha do bosque. Comprei um netbook que é bem leve e posso carregar sem problemas.

Nancy Macedo vai me dar de presente um espetáculo Caixinha de Música para que eu possa oferecer à E.M Pedro Paulo Silva em Duque de Caxias que fez uma Sala de Leitura com meu nome. Iremos em março.O espetáculo é lindíssimo e estou muito feliz com o presente que recebí e vou passar adiante.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

RELATO MÁGICO

Andréa me conta que sua turma da E.M Municipal Barão do Amapá viveu uma experiência magnífica. Deixo o texto dela falar. Era para o texto ter saído numa publicação intitulada: No Chão da Escola: Um universo apaixonante lançado pela SME , mas infelizmente o texto não entrou. Assim eu o publico aqui no blog para deleite dos meus leitores. É a prova concreta de que basta um poema para mudar um mundo:
Descoberta

Com a sutileza de seus oito anos, Patrícia foi chegando na roda e dizendo:
Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
não sei se ele é bravo.
O mar não me importa.
Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
E calma também.
Na chuva de cores
da tarde que explode
a lagoa brilha
a lagoa se pinta
de todas as cores.
Eu não vi o mar.
Eu vi a lagoa...
Patrícia havia tirado os versos da alma e oferecido a todos com entusiasmo, gesticulava e entoava a voz num ritmo encadeado pela emoção. A turma aplaudiu! A professora surpresa pelo fato da menina ter dito de memória, sorriu abertamente. _ É Drummond professora, desse livro aqui! Disse a menina enquanto corria até a carteira para pegar o livro meio surrado dentro da mochila. Era um exemplar da coleção “Literatura em minha casa” que a professora havia lhe emprestado na véspera.
Tomando de novo a palavra, Patrícia continuou: _É tia, eu também não vi o mar, não ouvi o barulho das ondas e nem sei como é o canto da sereia...
Estarrecida a professora quis saber mais: _Como assim não viu o mar? Esse bairro fica a 40 min. da praia de Copacabana, seus pais nunca te levaram? Patrícia fez um gesto negativo e baixou a cabeça. Fez-se um silêncio rápido e, em seguida, um menininho lá de trás disse baixinho: _ Eu também não vi o mar não, tia. _ Nem eu. Disse outro e mais outro... Em pouco tempo a sala de aula estava repleta de pequenos poetas sem mares a falar ao mesmo tempo.
A professora aproveitou o blá, blá, blá para refazer-se, nesse instante sentindo-se distante, se deu conta do abismo que a separava daquelas crianças que julgava conhecer tão bem, pois vinha acompanhando aquela turma há quase três anos. Tomou fôlego e disse: _Atenção, crianças! A sala encheu-se de silêncio e ela continuou: Eu os levarei para conhecer o mar! Essas palavras ressoaram dentro de si como uma promessa de amor... Um canto sagrado, um hino de louvor...
Novo blá, blá, blá agora mais intenso. A professora esqueceu o caderno de planos, naquele momento, levou as crianças para o quintal e embaixo da grande árvore, continuaram a conhecer-se pelas linhas da poesia de Drummond, leu todo o livro para a turma.
Não tinha a menor idéia de como conseguiria concretizar aquela promessa, fretar um ônibus não seria coisa fácil para ela, muito menos para os alunos, mas estava determinada, e tanto insistiu que conseguiu um patrocínio para financiar o passeio que não custou nada para os alunos.
Chegou o grande dia: os primeiros raios de sol emolduravam a cena, anunciando a formosura que viria. Ansiosa a professora foi a primeira a chegar, aos poucos e bem cedinho foram se juntando a ela, embaixo da velha árvore, todos os alunos, ninguém faltou. Seria um dia inteiro de diversão, ela tinha programado cuidadosamente o trajeto atentando para os mínimos detalhes: primeiro o contato com o mar através da praia de Copacabana, conheceriam a estátua de Drummond que fica no calçadão em seguida visitariam o Forte na mesma praia, depois fariam um passeio marítimo pela Bahia de Guanabara à bordo de um navio da Marinha e finalizariam o dia visitando Museu da Marinha.
O ônibus partiu na hora combinada, rumo ao primeiro ponto. Carinhas curiosas povoavam os bancos. Da calçada, chegavam jorros de bênçãos dos acenos das mães.
O mar despontou no horizonte, as crianças eufóricas viram aquela imensidão de água, não podiam imaginar que fosse tão grande, nada as segurava no banco, agitação total. Tudo era novidade para elas... Prédios, pessoas, biquínis, pranchas, quiosques, skates, turistas de outros países misturavam-se com aqueles pequenos turistas do lugar. No calçadão, um grupinho pediu para tirar foto com os surfistas que passaram por ali. A professora fez de tudo para convencê-los a se contentar em ficar na areia, em vão. Teve de permitir que molhassem os pés, seus olhos brilhavam, eles riam, pulavam, gritavam, catavam conchinhas e na areia moldada pequenas fantasias eram construídas. Muito bonito de ver...
Andaram mais um pouco pelo calçadão até chegar à estatua de Drummond, ficaram espantados com a obra... Muitas fotos tiradas na tentativa de eternizar aquela felicidade.
Patrícia, sempre ao lado da professora, não conteve as lágrimas. Alguns coleguinhas mais atentos, ao perceberem que ela chorava, perguntaram: _ Por que você tá triste? Ela respondeu: _Não é tristeza, é felicidade. Eu sabia que o mar era bonito, aprendi nas histórias, mas de perto, de pertinho, eu descobri que ele é cheio de poesia, tem movimento, cheiro, cor e sabor, é a continuação do céu aqui pertinho de nós,...
E tirando a voz do fundo do coração gritou: _ Eu vi o mar!
Andréa Lopes de Souza, a professora que acreditou em um sonho.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

UM CACHO DE BEIJOS

Publiquei meu primeiro livro, o Fardo de Carinho, em 1980. Foi muito difícil encontrar uma editora que ousasse publicar poesia. Elvira Vigna fez as ilustrações em bico de pena e finalmente o livro saiu. Depois foi reeditado pela Lê em 1986 com desenhos da Pat Gwinner e finalmente em 2009 a própria Lê fez um livro novo outra vez com a Elvira, mas um livro de arte, maravilhoso. Entrou no PNBE e já está na terceira edição.
Fiz os poemas para meu filho André que tinha 7 anos e hoje tem 42. São bem infantis e muito impregnados (ainda)do Ou Isto ou Aquilo da Cecília. Não é no primeiro trabalho que o poeta encontra a sua respiração, a sua voz. Mas os poemas, tão ingênuos, são atemporais e musicais.
Hoje dedico o poema abaixo para a minha irmã Evelyn Kligerman que se casa amanhã com seu grande amor da juventude , meu cunhado Luis, reencontrado. Eles estão radiantes, exalam felicidade e à sua volta espalham a poeira dourada do amor:

EU QUERO

Eu quero um cacho de beijos
para levar pra minha irmã
e também um quilo de nuvens
para a minha gatinha anã.

Quero um pedaço de arco-íris
para plantar um vaso de barro,
um pedacinho do azul do céu
para pintar o meu jarro

Estas coisas todas eu quero
e não sei onde comprar,
quem souber onde eu encontre
que venha me avisar...

in Fardo de Carinho, ed. Lê

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

AS PRAIAS DE AGNÈS

A memória é feita de fragmentos. Impossível uma memória linear. Os tempos se misturam dentro de nós, e o que fica são as vivências, não dias, meses ou anos. Os vivos se misturam com os mortos e todos estão vivos dentro de nossas memórias.
Ontem vi um filme belíssimo, As praias de Agnès. São as memórias da cineasta Agnès Varda por ocasião dos seus 80 anos. Ela nos mostra como o filme vai sendo criado, mistura fotos do passado, filmes e instalações maravilhosas no presente recriando algum momento deste passado. É uma lição de vida e de cinema.E foi incrível pescar este filme quando voltei da praia, às oito horas da noite. Fomos ver o sol cair no mar e quando saía da praia, por um momento, parecia que a casa dos meus pais ainda estaria lá, na rua atrás da praia, bastaria atravessar a rua, virar a esquina e encontraria todos na casa , minha mãe sentada no jardim, meu pai jogando cartas com os tios, minha tia Cecília cozinhando. Foi uma lufada que passou em segundos. Então ver o filme da Agnès Varda, que começa com uma cena de espelhos na praia, foi muito impactante.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

JABUTÍS

Tenho quatro jabutís no jardim. Nasceram aqui. A história começa com uma jabutí chamada Belinha que veio para cá de um apartamento no Leblon. Depois ganhamos um macho, o Céu, daqui mesmo. Então compramos um pequeno sítio no interior de Saquarema e nos mudaríamos para lá porque a minha necessidade de mato é insaciável. Marcamos a mudança e coisas inesperadas aconteceram. Desistimos de nos mudar pelo isolamento do sítio. Mas já havíamos dado o casal de jabutís, no sítio não havia muros e como eles são andarilhos iriam embora.
Algum tempo depois achamos alguns ovos enterrados no jardim. E nasceram seis filhotes do tamanho de uma unha. Perdemos dois. Agora os jabutís estão enormes Sou apaixonada por todos. Aqui é um habitat perfeito para eles. Todos os dias de manhã eles dão a volta no jardim. São como guardiães. As gatas gostam deles, ficam olhando. Então escreví um texto que sairá pela ed. Lê. Conto um pedacinho:

"Quatro jabutis
guardam o jardim,
leste oeste
norte sul,
como se guarda
papéis de seda
numa caixa azul:
com delicadeza.
.............................."

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

ARTE DE NAVEGAR

Os dias aqui em Saquarema estão belíssimos. Todo azul é pouco para falar do azul. Mar e céu se misturam num estreito abraço. As manhãs são frescas mas as tardes derretem o corpo . Há que saber navegar no ar espesso do verão. Eugénio de Andrade ensina:

ARTE DE NAVEGAR

Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito,

e a noite se faz barco,

e minha mão marinheiro.


EUGÉNIO DE ANDRADE in Poemas de Eugénio de Andrade, ed. Nova Fronteira

domingo, 22 de janeiro de 2012

JANELA SOBRE UMA MULHER

Eduardo Galeano escreve no livro As Palavras Andantes um dos textos de amor mais belos que já li:

Essa mulher é uma casa secreta.
Em seus cantos, guarda vozes e esconde fantasmas.
Nas noites de inverno jorra fumaça.
Quem entra nela, dizem, não sai nunca mais.
Eu atravesso o fosso profundo que a rodeia. Nessa casa serei habitado. Nela espera o vinho que me beberá.Muito suavemente bato na porta, e espero.

sábado, 21 de janeiro de 2012

SOL

Hoje vimos o sol nascer às 6:20hs. Um pouco antes o céu era uma aquarela em todos os tons de rosa e amarelo. O mar entre dourado, vermelho e azul. Instantes fugazes como poeira mágica, como são todos os instantes.
O dicionário me diz que a palavra persuasão é o ato ou efeito de persuadir, certeza fortemente estabelecida, convicção.
Leio em "Danúbio" de Claudio Magris:

A persuasão, escreveu, Michelstaedter, é a posse presente da própria vida e da própria pessoa, a capacidade de viver até o fundo o instante sem a obsessão frnética de queimá-lo rapidamente, de valer-se dele e usá-lo com vistas a um futuro que deveria chegar o mais rápido possível e consequentemente de destruí-lo à espera de que a vida, toda a vida, passe rapidamente. Quem não está persuadido consome a própria pessoa na espera de um resultado que sempre está por vir, que não é nunca. A vida como carência, continuamente aniquilada na esperança de que a difícil hora atual já tenha passado, para que tenha cessado a gripe, esteja superado o exame, seja celebrado o casamento ou registrado o divórcio, tenha acabado um trabalho, tenham chegado as férias e o laudo médico. Espera esperando/ que chegue a hora/ de ir-se embora/ para não mais esperar.

in Danúbio, Claudio Magris, Cia de Bolso.

Assim , penetro profundamente no instante, mergulho em seu vórtice e arranho o sol com as mãos.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

APESAR

Apesar da destruição sistemática da Amazonia, apesar do BBB e do que faz com a mente das pessoas, apesar das horrorosas perspectivas para o planeta, apesar da fome na África, das guerras, apesar do Oriente Médio e da suposta bomba atômica do Irã, apesar dos ídolos de fumaça, apesar dos capitães que fogem do barco, apesar das ideologias e religiões que fazem do homem o animal mais violento do planeta, apesar da camisa de força que amarra milhões de mulheres pelo mundo, eu acredito na força da liberdade e do amor.

ESTRADAS

Nas estradas do ar
trafegam pássaros e sonhos,
e pensamentos
de mudar o mundo.
Nas entranhas do ar
pequenas partículas de amor
flutuam para que possamos
caminhar na terra como se fosse
no céu.

in Roseana Murray Poemas para Ler na Escola, ed. Objetiva

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

MEUS LIVROS NO JAPÃO

Enviei um pacote de livros para o Japão. Kats e Yuki, tradutores me escrevem: receberam ontem meus poemas e se encantaram particularmente com o livro Caixinha de Música. Vão tentar uma edição japonesa e só a tentativa já me deixa sonhadora, penso: meus poemas numa lingua que jamais entenderei! Mas a Marta, mãe da minha nora Dani, poderá ler os poemas para mim e navegarei em sua música estranha.

Recebí as canções que Alexandre Lemos, que não conheço, fez com alguns dos meus poemas . São lindas de verdade e é maravilhoso ouvir os poemas transformados.Agradeço imensamente.

Ontem meu neto Luis fez uma perfomance via skype com seu violãozinho e sua mãe no pandeiro. Ele , com dois anos e meio , já fingia que afinava o violão e dizia para a mãe como deveria tocar o pandeiro.Quando terminava ele pedia palmas. E pedia para ela cantar o sapo cururu.

O ano já se desdobra como um leque. Os trabalhos vão aparecendo no horizonte e eu , como toda viajante, estou sempre de malas abertas.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

EM CASA

Cheguei ontem à noite de Visconde de Mauá onde passei alguns dias com Felipe, Andréia e Cris, do nosso Clube de Leitura. O filho da Andréia, o Manú foi também, ele é fã de esportes radicais para desespero da sua mãe. Eles foram uma linda companhia.
Na minha casinha do bosque o mundo me chega de muito longe, um eco distante. Sem internet, jornais ou televisão flutuo numa outra dimensão. Mergulho dentro da natureza com muita intensidade. Li um maravilhoso livro de contos do D.H.Lawrence, O Cego e Outros Contos, terminei de ler O Monte do Mau Conselho do Amoz Oz e comecei a ler Danúbio de Claudio Magri. Não escreví nem uma linha. O último conto do livro do Amoz Oz é tão cortante, tão terrível e maravilhoso que vale por um ano de leituras. Fiquei muito impactada.
Hoje, quando acordei, uma neblina de algas cobria a casa. Mergulhar da montanha para o mar é uma experiência belíssima.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

EM MAUÁ

Agora sempre que venho para Visconde de Mauá, dou uma parada em Maringá para passar o dia no ateliê de cerâmica da minha irmã Evelyn. Adoro ver a Evelyn e o Luis trabalhando.
Agora espero meu filho me buscar e vou para a minha casinha do bosque, lá no sítio. Já passei no Bistrô das Meninas, um café-livraria muito simpático e me abastecí de livros.
Ontem fiz a aula na Escola de Culinária do André e amei. Fizemos quiches, saladas e sanduíches e finalmente aprendí a fazer uma quiche mais do que maravilhosa, parecia uma nuvem de tão leve. As saladas eram fantásticas e os vinhos também.O jantar durou horas, todo mundo comendo o que preparou, uma felicidade. E às 6hs da manhã o táxi me buscou. Subimos a serra com o dia começando numa paisagem indescritível de tão bela.
Lá no sítio não tenho internet, ficarei desconectada. Volto dia 18.Por favor, não se esqueçam de mim!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

VIAGEM

Vou hoje para Resende onde faço uma parada na Escola de Culinária Babel do meu filho André. Hoje à noite teremos uma aula Cozinhando para Os Amigos.A aula é engraçada, todo mundo cozinhando junto e depois é servido um jantar com tudo o que se cozinhou. Então na quinta subo às 6hs da manhã para Mauá. Receberei meus amigos Felipe, Andréa e Cris, professores de Duque de Caxias e participantes assíduos do Clube de Leitura. Estou super feliz com a visita deles.
Terminei o Diário da Montanha que escreví em Mauá ao longo de 10 meses num bloco de papel reciclado.É a primeira vez que vou sem o caderno dos poemas. Acho que me sentirei um pouco órfã, mas já comecei outro livro de poesia para criança e já tenho 15 poemas. Estou amando fazer este livro com uma pitada de non sense. Não existe prazer maior do que estar envolvida em um trabalho.
Ontem na Revista Terra saiu uma matéria maravilhosa sobre energia solar no deserto do Saara, sobre consumo. Recomendo. Parece que já existe no planeta a possibilidade de fazer tudo diferente. Basta mudar a mentalidade dos humanos.Não temos escolha. Há que mudar a nossa mentalidade consumista e predadora ou neste ritmo no futuro não haverá mais o que consumir, não haverá mais planeta.
Ficarei ausente por alguns dias, já que em Mauá não tenho internet.

Abro o livro Muitas Vozes do Ferreira Gullar. Ele me oferece este maravilhoso poema:

INFINITO SILÊNCIO

houve
(há)
um enorme silêncio
anterior ao nascimento das estrelas

antes da luz

a matéria da matéria

de onde tudo vem incessante e onde
tudo se apaga
eternamente

esse silêncio
grita sob nossa vida
e de ponta a ponta
a atravessa
estridente

Ferreira Gulla, in Muitas Vozes

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

AMARELINHA

Quando criança adorava jogar amarelinha. Era um jogo mágico e chegar ao céu valia qualquer esforço. Hoje, chego ao céu com bastante facilidade: basta uma flor, um entardecer, uma árvore, um pássaro, um poema... Na minha infância o céu era um lugar desenhado no chão. Hoje o céu é cada dia, é a vida.

AMARELINHA

Pulo amarelinha
com o tempo:
às vezes para a frente,
às vezes para trás,
zás-trás, rodopio,
mergulho no vento,
me reinvento, rio
adentro, mar afora,
a vida é agora.


in Carteira de Identidade, ed. Lê

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

LIBERDADE RELIGIOSA

Durante a infância estudei em escola pública. Nasci numa família judia e meus pais pediram que eu fosse dispensada da aula de religião, que naquele tempo era matéria obrigatória. Eu ficava no pátio com outra judia da minha sala. Era horrível. Eu me sentia estranha, diferente, os colegas me olhavam quando eu saia da sala.No último ano meus pais me trocaram de escola, pois queriam que eu tivesse alguma formação religiosa, fui para uma escola judaica, Hertzlia.
Sou absolutamente contra qualquer tipo de aulas de religião em escolas públicas. Sou contra orações no começo da aula, no meio ou no fim. Explico: O Brasil é um país laico onde há separação entre Religião e Estado. A mistura de Religião e Estado é explosiva, perigosa.E cria constrangimentos como o que eu vivi na infância. Aula de que religião? Se for da religião católica onde ficam os judeus, muçulmanos, budistas, umbandistas, espíritas, evangélicos? No pátio, como eu ficava? E que oração se faz antes da aula? Uma oração cristã? Por que não um mantra hindu? Uma aula de determinada religião fere a liberdade religiosa que vigora no Brasil.
A questão religiosa deveria ser assunto mais do que privado, assunto de foro íntimo, como o sexo, o amor.A relação que cada um tem com o seu Deus, com o divino, o mistério, a espiritualidade é particular e pertence a cada um e não ao coletivo.Se os pais querem uma educação religiosa para os filhos existem escolas particulares para isso, onde a educação é paga. Educação dada pelo Estado tem que ser laica. Outra coisa seria o ensino da História das Religiões desde os primórdios do mundo, esta sim uma matéria interessantíssima, desde os ritos da pré história, passando pela Babilônia, Egito, Grécia, Roma, etc, etc, etc.

domingo, 8 de janeiro de 2012

TEMPOS DISTANTES

Recuperar a possibilidade de ir ao sítio em Visconde Mauá foi um dos maiores presentes da minha vida. Fiquei muitos anos sem poder ir por causa da coluna. A estrada era horrível e eu ficava destroçada. Com os exercícios ao longo do tempo fui me fortalecendo e apesar da instabilidade da coluna , hoje aguento qualquer dificuldade. Além disso asfaltaram a estrada.Compramos o sítio em 1976 quando a terra aí não valia nada. Abrimos a estrada com trator e mesmo assim era tão ruim que o jipe com tração nas quatro rodas atolava. Morei no sítio quando meus filhos eram pequenos e voltei a morar quando me separei, na década de 90. Morei com meu filho Guga por um ano e meio. Tínhamos um amigo filósofo que morava na Serra Negra e vinha nos visitar a cavalo com sua cachorra Josie, uma mistura de labrador com a nossa São Bernardo. Eram quatro horas de cavalgada. Naquela época o sítio não tinha luz, telefone, internet, celular, nada. Então fomos obrigados a desenvolver um sistema telepático com o Léo. Era assim: eu acordava algum dia com a sensação no corpo , uma sensação muito forte, de que o Leo viria. Guga sentia a mesma coisa. Ou eu ou o Guga dizíamos: "O Leo vem." Então eu fazia bolo de fubá e o esperávamos. Ele chegava sempre ao entardecer. Josie, sua cachorra, chegava primeiro.Naquela época as visitas vinham para passar alguns dias e o Leo ia ficando. Era um grande conversador.Nunca a nossa telepatia falhou. Fiz um conto com a história, está no livro PEQUENOS CONTOS DE LEVES ASSOMBROS, ed. FTD.
Os anos se passaram e nos afastamos. Mas sei que ele continua lá na Serra Negra. Sei que a Josie morreu. Hoje o sítio não está mais tão isolado e com o advento dos celulares não sei se o meu sistema telepático continua funcionando tão bem assim.

sábado, 7 de janeiro de 2012

O DIÁRIO DA MONTANHA

Passei quase um ano escrevendo os poemas do Diário da Montanha. Entreguei o original para a Bia , minha editora da Manati, com muito medo. E se A Bia não gostasse do resultado final? E se a Bia desistisse?
Transcrevo a maravilhosa resposta da Bia. O livro sairá em abril. No começo de maio vou para a Europa e já poderei levar meu livro novo para Granada, para o meu filho. Sonho com o lançamento em Visconde de Mauá onde o livro foi escrito. No ateliê da minha irmã Evelyn, com um coquetel do Babel, oferecido pelo restaurante do meu filho André. A Evelyn produzirá um pequeno azulejo para quem comprar o livro. Sonho com um violino tocando, pois no livro falo de ancestrais e eu tinha um tio na Polonia que tocava violino e isso me remete ao Chagall e ao Violinista no Telhado do escritor Sholem Aleichem. Adoro pensar em como os textos se entretecem.

Na véspera de Natal,
Quando o Rio de Janeiro fervilhava... nos shoppings
movido pela cega pulsão de consumo
Quando as ruas começavam a se esvaziar
Depois de dias de neuroses
coletivas e individuais totalmente engarrafadas
Quando as pessoas tentavam, em vão, engolir o nó da angústia pelos encontros, desencontros e perdas das famílias que em breve encontrariam por uma obrigação que há muito perdeu o sentido
Quando as crianças dos trópicos sonhavam com um senhor de barba, gordinho, simpático, de olhos azuis, que desceria pelas chaminés que não existem, em meio à neve que jamais caiu, para trazer quem sabe os prêmios por vários meses de chantagem
Pedi ao meu marido um presente de verdade para mudar de canal energético:
Várias horas de passeio pela floresta, na montanha onde um dia moramos
Aqui no quintal suspenso do Rio de Janeiro.
Gritos de alegria misturados ao canto das aves
Sorrisos sinceros trocados pelos poucos humanos que também preferem à terra ao asfalto
Um farto abraço na árvore que atravessa os séculos esperando por mim e não sabe o que é Natal
Uma pausa para descansar e tomar um refresco no riacho geladinho e límpido que corta a trilha da Cachoeira das Almas
Uma espiada na Cova da Onça
E um encontro com o azul esvoaçante do mirante do Excelsior para fechar como um laço de fita mágico o meu presente de Natal.

Voltei à cidade, dividi um pouco da energia e do amor do meu presente com pessoas queridas, voltei ao batente, virei o ano lavada de chuva, e agora, DIA DE REIS, chega, pelos fios óticos da internet, o maior de todos os presentes:
O DIÁRIO DA MONTANHA, um livro original da Roseana (Murray), minha amiga-irmã, dedicado a mim.
Voltei à floresta da montanha suspensa por uma breve eternidade.
Em mais algumas semanas, o livro deve sair editado pela Manati, e então terei a alegria selvagem de compartilhar com todos vocês a poesia da montanha e o presente do DIA DE REIS. Quem quiser me acompanhar pode ir preparando a mochila para o passeio!Ver mais
De: Bia Hetzel

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

MAPAS

Gosto de mapas, não os verdadeiros, mapas imaginários. Gosto de imaginar o que já foi, o que já houve. Lugares que existiram e que hoje são apenas memória. E há o mapa do corpo, o mapa dos afetos, o lugar que cada pessoa ocupou ou ocupa em nossas vidas.
Em 2002 publiquei o livro Poesia Essencial, pela ed. Manati. É uma antologia. Eu havia escrito o livro As Cidades e a Casa, em Madrid, em 1998. Oferecí o original mas a editora quis ver mais. Eu tinha também um inédito, Caravana, que havia ganho o concurso Cidade de Belo Horizonte, com um prêmio em dinheiro , mas sem publicação. E tinha um livro Paredes Vazadas, esgotado. Mostrei tudo e as minhas editoras escolheram misturar . Hebe Coimbra fez a seleção.

MAPA

me toque assim
em voo rasante
como a chuva
que se aproxima
o vento entre
as dobras da chuva
abrindo as janelas
do sótão

me toque assim
a ponta dos dedos
tirando a poeira
de tantos séculos
de luz mortiça

me toque assim
como o último pássaro
do mundo
engole o sol
e adormece no mar

me toque debaixo da pele
ali onde dormem
gerânios esquecidos
onde o sangue é mais
leve
e as lembranças
fazem cem vezes
o mesmo caminho.

in Poesia Essencial, ed. Manati

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O RELÓGIO

Faz muito tempo comprei um relógio em oito num antiquário em Teresópolis para o aniversário do Juan. Juan sonhava com um relógio assim. Ele está na parede da sala e há que dar corda todos os dias. Ele toca as horas, às vezes fica rouco. É muito antigo mas suas engrenagens estão perfeitas. Mesmo assim, às vezes enlouquece, mas quem se importa, o tempo está sempre escorrendo. Juan cuida do relógio como se fosse vivo e enquanto gira a pequena chave, a casa fica solene e parece que tudo é para sempre.

O RELOJOEIRO

Mal raia o dia
o relojoeiro se debruça
com sua lupa
sobre o coração dos relógios.

Com suas mãos delicadas
apalpa, escuta
o sono encantado do tempo.

Para ele os relógios estragados
são como pequenos pássaros
adormecidos.

Quando um relógio fica bom,
o relojoeiro suspira.

in Artes e Ofícios, ed. FTD

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A MORENA DA ESTAÇÃO

Angela, membro do Clube de Leitura da Casa Amarela e leitora do blog, comprou o livro A Morena da Estação do Ignacio de Loyola Brandão, indicação do blog. A história que dá título ao livro daria um filme! É belíssima.
Kats e Yuki, meus amigos japoneses virtuais, tradutores, me escrevem contando que compraram El Jinete Polaco do Muñoz Molina que indiquei no ano passado. Infelizmente El Jinete Polaco não está traduzido para o português, que eu saiba. Mas é um livro impactante, maravilhoso.
Dividir livros é um dos maiores prazeres da vida. Dividir histórias, o olhar do autor, seus pontos de vista, sua escrita. A cumplicidade que o amor por um livro cria entre duas pessoas é imensa, pois fala de coisas mais profundas.
Encomendei ontem o último livro do Amoz Oz, O Monte do Mau Conselho e espero ansiosamente a sua chegada. Há uma certa beleza em esperar o correio. Eu e Juan namoramos por quase dois anos através de cartas. A menina do correio lá no Rio Comprido já me conhecia. Ela sabia que eu era poeta, não me lembro como. Deve ter visto eu colocar algum livro meu numa caixa de sedex para o Juan. Um dia, ao levar a carta do dia, ela me pediu:
_ Por favor, faz um poema agora para mim. É aniversário do meu namorado!
Um dia, no metrô do Rio, na década de 90, uma mulher jovem lia Os Doze Contos Peregrinos do Garcia Marquez. Desejei aquele livro tão ardentemente que me doeram os ossos. Ganhei o livro de presente. É impressionante a força do desejo!

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

DE MARINGÁ PARA SAQUAREMA

No próximo encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela receberemos um casal que virá de Maringá, no Paraná. Maristela e Wagner souberam dos nossos encontros através do blog , já compraram o livro O Cerco de Lisboa, do José Saramago e dia 11 de fevereiro estarão aqui. Ficarão hospedados na Pousada do Luis e da Sandra, Farol de Saquarema, ao lado da nossa casa. Luis e Sandra são adoráveis, os melhores vizinhos do mundo . Luis é engenheiro eletricista e embora já não trabalhe mais com eletricidade , várias vezes nos socorreu. Pagamos com tortillas espanholas, ele é louco por tortillas.
Li o livro O Cerco de Lisboa , que será discutido em nosso próximo encontro, na década de 90, eu acho. Faz muito tempo. Tenho as melhores recordações do livro, duas histórias de amor entrelaçadas , um sim e um não que mudam a História. A primeira vez que tive um contato real com a cultura árabe foi em Sevilha. Ao desembarcar, eu vinha da Alemanha, um cheiro fortíssimo de laranja me invadiu, Sevilha entrava assim por todos os meus poros. À noite, sozinha no quarto do hotel, eu não aguentava sair por causa das dores na coluna (estava ainda muito mal por causa da cirurgia recente de hérnia de disco), ouvi uma saeta como a do disco Concertos de Aranjuez do Miles Davis. Palácios, ruelas, a Giralda, fui jogada num tempo em que os árabes eram os senhores da Espanha. E se não tivessem perdido a guerra? Sobre isso nos fala Saramago. Antonio Muñoz Molina tem um livro belíssimo sobre Córdoba que nos dá a dimensão do que foi esta época.
Nosso Clube já recebeu algumas visitas de outros estados e até da França e Portugal. Ainda temos vagas , nossas portas estão abertas.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

SEMPRE DE NOVO

Chove muito. O dia está para ler poesia. Abro um livro do Rilke ao acaso, como gosto de fazer com os livros de poesia. Ele me oferece um belo poema de amor:

SEMPRE DE NOVO

Sempre de novo, mesmo conhecendo a paisagem do amor
e o pequeno cemitério com os seus nomes comoventes,
e o abismo, terrivelmente mudo, onde os outros
terminaram: sempre de novo saímos, a dois,
sob as velhas árvores: deitamo-nos, sempre de novo,
entre as flores e de frente para o céu.

Rainer Maria Rilke
Tradução Karlos Rischbieter, ed. Posigraf


Sempre de novo fazemos as mesmas coisas, os mesmos gestos, falamos as mesmas palavras: estamos vivos.

domingo, 1 de janeiro de 2012

O PRIMEIRO DIA DO ANO

Chove no primeiro dia do ano de 2012. Uma chuva mansa, musical. As plantas cantam de felicidade, se ficarmos em silêncio absoluto, podemos ouvi-las.
Ontem eu e Juan preparamos um jantar só para nós dois com os presentes que recebemos dos amigos:
Uma champagne Moet et Chandon , presente do Hélio e Fernando
Bruschetas com as alcachofras em conserva, que Angela, que vive em Casanova Staffora,Província de Pavia, numa comunidade na Itália, nos trouxe.
Folhas de presunto Pata Negra que Maite, da Ed. Maeva nos enviou dentro das páginas do maravilhoso livro Mujeres Admiradas, Mujeres Bellas , da série de livros ilustrados sobre mulheres. O presunto veio como um viajante clandestino.
Uma pasta negra italiana , artesanal, feita com tinta de lula: linda
Pesto que fizemos com manjericão da horta e queijo Parmeggiano Reggiano que também nos trouxe Angela. Este queijo é fabricado desde 1.300!!!
A sobremesa veio da Espanha pelas mãos de Boni e Alícia, que vivem nas Canárias: um turrón maravilhoso, feito com amêndoas escolhidas. É nítida a sua influência árabe.

Depois do jantar fomos para a rua. Pusemos duas cadeiras na calçada. Parecia uma procissão: centenas de pessoas passavam caminhando para a Vila. Da porta de casa assistimos a queima de fogos na Igreja, de longe a pequena igrejinha iluminada de verde, de 1630, parecia feita de sonho. Havia uma poeira de chuva.

E assim , todos os dias a vida recomeça. Hoje, no primeiro dia de 2012, farei o que faço todos os dias: arrumo a casa, cozinho, leio, contemplo, escrevo, amo.

sábado, 31 de dezembro de 2011

O ÙLTIMO DIA DO ANO

No último dia do ano convém pronunciar todas as palavras belas, sussurá-las, soprá-las ao vento, semeá-las.
Dizem os astrônomos que há um cometa visível no céu. Não o vejo, mas com a notícia,o céu fica mais belo no último dia do ano .
O primeiro lírio dos que trouxe de Joinville floresceu no nosso jardim.
E o primeiro girassol, que plantamos para iluminar dezembro.
O primeiro miquinho veio nos visitar, depois de 10 anos morando aqui, foi a primeira vez.
E bem cedo, às 5:30hs da manhã, havia um filhotinho de gambá pendurado no coqueiro.
Leio um livro delicioso sobre trens: A Morena da Estação, de Ignacio Loyola Brandão, ed. Moderna.. Excelente para este último dia de 2011 pois os trens nos ajudam a sonhar.
O último dia do ano é lindo em Saquarema. Não vieram os amigos, mas estão todos aqui, percorrendo a casa, num ir e vir contínuo. Amigos que moram longe, em outros estados, em outros países, amigos que já se foram, moram em outros planetas. Minha mãe e meu pai, jovens e apaixonados, na linda foto emoldurada com conchas, me sorriem de muito longe no tempo. Meus filhos , que não estão aqui, meu neto Luis, minha irmã, meu novo cunhado, minha sobrinha Julia, não estão estão aqui, mas sim, estão.
Para todos o meu amor tão imenso que quase não cabe em meu corpo pequeno.
E que todos os dias , para sempre, sejam sempre o primeiro dia.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A CASINHA DA FOTO

Ontem publiquei uma foto no meu post. A minha casinha do bosque, em Visconde de Mauá. Sonia Menezes , de Goiânia, que fez sua tese de Mestrado sobre a minha obra, que cozinha divinamente e que ficou minha amiga depois da tese, me escreveu dizendo que a casinha, imersa na neblina, fabrica sonhos.
Li Bachelard muito jovem e me apaixonei perdidamente pela sua Poética do Espaço. Minha casinha parece ter saído das páginas do seu belíssimo livro e realmente faz sonhar e nos leva por infinitos devaneios . É uma casa tão pequena, tão essencial , que a gente acaba reaprendendo a viver. Todos os dias, quando estou aí, ao acordar, a primeira coisa que faço é abrir a porta para que a floresta entre . Tomo o café na varanda, se está chovendo ou faz muito frio, me cubro com um xale. São momentos preciosos, indescritíveis. Depois acendo o fogo para esquentar a água para o banho. O cheiro do fogão aceso e o perfume da mata se misturam e me fazem levitar.
Guardo todas as sensações no meu cofre de felicidade .

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

EM CASA OUTRA VEZ



Depois de 15 dias nas profundezas do bosque, sem internet, jornal, etc, volto para casa e para o mundo virtual que já um prolongamento do nosso ser. Há que separar as cartas acumuladas, os e-mails, refazer contatos. A viagem de volta de Visconde de Mauá para Saquarema durou 10 horas, pois havia um caminhão virado na Serra das Araras. É um tempo justo para passar de uma dimensão a outra. Fico exausta cada vez que volto, pois é muita emoçao acumulada. Dormi 11 horas seguidas. Reli um livro belíssimo do Amoz Oz, Não Diga Noite e também estive por um certo tempo no deserto. Recomendo a bela e estranha história de amor. Terminei o meu livro de poemas O Diário da Montanha que será publicado pela ed. Manati.
E como nós humanos precisamos dividir o tempo para seguirmos vivos, 2011 já vai se transformando em papel picado de lembranças.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

E O LUIS VEIO!

E o Luis veio, meu neto, chegou de Granada. Os dias agora são feitos de assombro. Ele fala espanhol e mistura com alguma ou outra palavra em português. Está apaixonado pelo bosque, pelo Merlin, o cavalo velhinho do sítio, pelas gatas, Mia e Nina, as gatas da Dani, minha nora. Está apaixonado pela Dani e a paixão de uma criança de dois anos e meio é coisa muito forte e séria. Joga pedrinhas no fio de água no caminho da minha casinha maravilhado com o mundo.
Desejo a todos os meus leitores que encontrem o pote de amor que se esconde no fim do arco-íris. E que os dias de festa sejam todos os dias!

sábado, 17 de dezembro de 2011

ARCO-ÍRIS

Hoje descemos o vale para vir almoçar em Maringá.Então aproveito a internet. Os dias passam de uma maneira tão bela, contemplando, lendo, escrevendo. Ontem , ao abrir a porta de manhã cedo, havia um arco -íris impressionante . Estar com meu filho André é uma dádiva e nunca nos cansamos de conversar. Amanhã chega meu neto da Espanha.
Plantei meus lírios que vieram de Joinville, fiz uma mandala no jardim. E vi um tucano muito de perto, pois tenho um pessegueiro carregado que se debruça na varanda da casa. Pude me aproximar e por alguns segundos ele se deixou quase tocar. Então voou. Estou feliz. Minha alma voa.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

EM VISCONDE DE MAUÁ

Estou em Visconde de Mauá, em Maringá, na casa-loja-ateliê da minha irmã Evelyn Kligerman. É seu aniversário. Passaremos o dia juntas e estou muito feliz.
Hoje de manhã cedo, enquanto acendia o fogão de lenha da minha casinha para ter água quente para o banho, num dos jornais que usaria havia um poema inédito do Cazuza de 1989:

QUAL É A COR DO AMOR ?

Pimeiro é o beijo
quente, procurado
a lingua procurando a outra
e vendo se a boca combina
se combina o beijo
meio caminho andado

Depois é a pele
se a textura vale
ou pelo com pelo
ou o pelo com o seu pelo
ou os pelos com meu pelo
ou o medo

Depois o cheiro
um procura no outro
o cheiro de colônia ou
o cheiro de prazer
e os dois se embriagam
ou vão até o banheiro

Depois a cor
o amor tem cor?
Cada amor tem uma cor
cada beijo tem uma cor
cor de caramelo doce
cor de madrugada fria.
Cazuza, 1989

domingo, 11 de dezembro de 2011

DENTRO DE UMA ÁRVORE

Hoje faço os últimos preparativos para minha partida amanhã às 5hs da manhã. Vou para Visconde de Mauá onde fico até depois do meu aniversário dia 27. Dentro do bosque, a casinha me espera. E as árvores. E os pássaros.

DENTRO DE UMA ÁRVORE

Existo dentro de uma árvore,
em seu oco,
em seu silêncio, sou sua seiva
enquanto fabrica sementes.
Os pés se misturam
com as raízes,
caminham dentro da terra,
reconhecem o rumor
da noite subterrânea.
Os braços são galhos,
as mãos se balançam
ao redor do vento:
eu e a árvore
o mesmo pensamento.
Minha imobilidade
dura alguns séculos.


in Carteira de Identidade, Ed. Lê

sábado, 10 de dezembro de 2011

OSTRA

Recebemos o livro Sísifo desce a montanha do Affonso Romano de S'Antanna, ed. Rocco.
Viver é trabalho de Sísifo. Todos os dias recomeçamos. Sua poesia é bela e emociona. Percorre todos os temas da vida, desde as miudezas do cotidiano até as grandes perguntas, as que querem nos devorar.

OSTRA

Estou num trabalho de ostra.
A areia entrou-me na concha
na carne.

Sangro.
Mas não se vê. O mar é grande
e a pérola
pequena
embora reluza
como um poema.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

ANJOS

Gosto dos anjos. Da sua existência alada.A um palmo de nós, os humanos.Gosto dos versos do Rilke: "Quem, se eu gritasse, dentre a legião de anjos me ouviria?" Em muitos momentos difíceis este grito era o meu, mas eu sempre soube que no fundo os anjos me ouviam. Todos os dias leio alguns poemas. Os poemas são as minhas orações. Hoje li Jules Supervielle que vive com um pé no céu e Rafael Alberti, seu livro SOBRE LOS ÁNGELES.

EL ÁNGEL BUENO

Vino el que yo quería,
el que yo llamaba.

No aquel que barre cielos sin defensas,
luceros sin cabañas,
lunas sin patria,
nieves.
Nieves de esas caídas de una mano,
un nombre,
un sueño,
una frente.

No aquel que a sus cabellos
ató la muerte.

El que yo quería.

Sin arañar los aires,
sin herir hojas ni mover cristales.

Aquel que a sus cabellos
ató el silencio.

Para, sin lastimarme,
cavar una ribera de luz dulce en mi pecho
y hacerme el alma navegable.

Rafael Alberti,
in Sobre los Ángeles, ed. Alianza Losada

Arrisco a tradução:

O ANJO BOM

Veio o que eu queria,
o que eu chamava,

Não aquele que varre os céus sem defesas,
estrelas sem cabanas,
luas sem pátria,
neve.
Neve como essa que cai de uma das mãos,
um nome,
um sonho,
uma fronte.

Não aquele que aos seus cabelos
enlaçou a morte.

O que eu queria.

Sem arranhar os ares,
sem ferir folhas nem mover vidros.

Aquele que aos seus cabelos
enlaçou o silêncio.

Para, sem ferir-me,
cavar uma margem de luz doce em meu peito
e tornar minha alma navegável.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

PRESENTES DE NATAL

Nada mais longe do que o "espírito natalino" do que o consumo desenfreado. Não faz sentido. A essência do cristianismo é outra. Jesus se preocupava com temas muito atuais: a discriminação da mulher e de todos os excluídos, a bondade, a aceitação do diferente,o perdão, a compaixão. Dar presentes por obrigação é ridículo, mas é bom presentear quem a gente ama, não só no natal, mas em qualqer ocasião. Dar livros é tarefa das mais agradáveis, pois supõe um certo conhecimento do outro, dos seus gostos, preferências, imaginário. Dar livros de presente é um ato de muito amor, pois há que imaginar a trajetória do leitor que amamos dentro da história, do ensaio, do poema.Não vemos na televisão publicidade de livros, é raríssimo. Talvez os editores não possam pagar ou , mais grave ainda, talvez o livro ainda ocupe na nossa sociedade um lugar subalterno. Para uma pessoa extremamente sensível, um livro de poesia,Lorca, Gullar, Manoel de Barros, Cecília, Hilda Hilst, para um quem goste de cozinhar, um livro da Isabel Allende bem cheio de receitas,para quem gosta de mistério, romances policiais ou Umberto Ecco,para quem gosta de viajar, 1000 dias em Veneza, etc, etc, etc...
Ganhei um livro antiquíssimo e lindo da Maria Clara ,sobre o poeta que amo (e com seus poemas) Jules Supervielle . Por trás do livro há todo o gesto, a busca, e este sim é o maior presente.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

DO JAPÃO

Recebo um e-mail do Japão:

É uma alegria ler palavra por palavra seu blog,
(ainda estou no ano 2009 !) , é realmente muito interessante para mim.
Estou aprendendo pouco a pouco com o livro NOVO PORTUGUES BASICO DO BRASIL.
Afortunadamente o livro ten um CD.
Ate logo.
Kats Yaegashi


Minhas palavras atravessam mares, montanhas, mergulham no tempo e pousam na mesa de um lindo casal no Japão. Os dois são tradutores e apaixonados por livros. E de tão longe compartilhamos muitos sentimentos e idéias e espero que um dia possam nos visitar. Não nos conhecemos pessoalmente, mas eles traduziram um livro do Juan e nos mandaram fotos, livros, CDS e cartas de verdade. Que um dia possam abrir nosso portão e dividir alguns dias conosco.

Gosto de fazer listas. Desde sempre. Lista de livros, de compras do supermercado, de idéias. Assim escreví Receitas de Olhar (fiz a lista das receitas antes dos poemas), o Manual da Delicadeza (fiz a lista das palavras em ordem alfabética), o livro Casas (fiz a lista dos tipos possíveis de casas). Agora meu filho me pede: _ Mãe, faça a lista das frutas, legumes e verduras que vai querer para a primeira semana em Mauá, assim já deixo tudo encomendado. Fazer a lista do que vou querer me traz a imagem da mesa no jardim cheia das pessoas que amo: filhos, noras e netos. Do fogão de lenha aceso, dos aromas , da cesta cheia de frutas, do meu neto correndo pela casa. E a lista das verduras, frutas e legumes crepita com a chama da felicidade.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O BEM DA BIA

Bem é o gato da Bia. Temos um caso amoroso. Por causa do Bem, a Bia Hetzel escreveu seu maravilhoso livro "De Bem com a Vida", da ed. Manati.
Porque estou com saudades do Bem e da Bia, dedico meu poema GATOS do livro Fruta no Ponto da ed. FTD, aos dois:

GATOS
Os gatos são para se beber
com o olhar
bem devagar
de um jeito oblíquo felino
quando os gatos andam
fazem hiatos de veludo
na fazenda azul do ar

Os gatos são para se tocar
bem de leve
que se esgarçam de preguiça
carícia
em sussurros de luar

Os gatos têm alma
de silêncio tafetá

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

BANANAS PODRES

Não gosto de falar de política aqui no blog. Prefiro falar de poesia e do cotidiano, do jardim, dos livros. É um espaço para se respirar. Mas , como banana podre, finalmente cai o sexto Ministro por corrupção no Brasil, e é um alívio. Dinheiro público desviado é assassinato.
E leio que Gullar, o poeta que me emociona até a medula, publica um lindo livro ilustrado por ele e com a reprodução dos manuscritos. BANANAS PODRES sai hoje do prelo. Os poemas não são inéditos mas chegam de uma maneira diferente até o leitor: com a caligrafia do poeta e com suas colagens.

E pense bem:também
um tumor é um ponto intenso
da matéria viva,
de alta temperatura
como a gestar um astro
de pus
(assim se engendram os sóis,
os sons
no vazio abissal)

e assim também as vozes
de açúcar
( um negro lampejo)
que assustam os mosquitos
(nuvens deles)
pairando no ar
dos escuros cantos
do depósito
de frutas
nos fundos da quitanda
na rua da Alegria esquina de Afogados.

Ferreira Gullar

domingo, 4 de dezembro de 2011

EQUADOR

Ontem nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela foi no sítio de um dos participantes. O cenário era perfeito para discutirmos o livro EQUADOR, de Miguel Souza Tavares. Parecia que estávamos numa das propriedades da ilha de São Tomé: a casa esplêndida, o mobiliário , a mata, a natureza luxuriante. Pavões lançavam seus gritos tornando a atmosfera onírica. Mas a temperatura era amena, não estávamos na África mas sim em Saquarema.
Conversamos debaixo de umas árvores, ao ar livre e começamos com a leitura do poema do Manoel de Barros "O Menino que Carregava Água na Peneira" . Messias leu a "entrada" que o poeta escreveu para a sua Obra Completa da ed. Leya e aí está , em uma página, toda a sua poética.Felipe, que é contador de histórias, leu o poema maravilhosamente bem, e falamos um pouco sobre a belíssima tarefa de carregar água na peneira. Chico leu um poema de sua autoria, cheio de humor. Maria Clara trouxe uma convidada , uma bailarina de Portugal, tão leve que parecia uma garça e que nos presenteou com seu acento português. Angela disse que estragou o livro , pois, muito ansiosa para saber se a história de amor termina bem, leu antes de tudo, o final e ficou arrasada, já não conseguia mais ler o livro. Juan falou sobre o conflito ético entre os dois amigos que vai além do triângulo amoroso. Gil, falou da sua dor e identificação com os trabalhadores escravos, por ser negra, a dor deles era a sua dor.Falamos da teoria do bode expiatório de Renné Girard e como alguém teria que morrer. Maria Clara lembra que não só uma pessoa precisou morrer, mas todo o sistema vigente morreu.Buscamos uma outra saída para o personagem. Haveria outra saída?
Lembramos que a morte já estava anunciada logo no príncipio do livro. E falamos do crescimento do personagem ao longo do livro, como seus ideais vão se tornando a razão da sua vida. Falamos do livro As Cidades e as Serras do Eça de Queiros , da semelhança dos personagens dos dois livros no começo do Equador.
Felipe nos deu um depoimento belíssimo sobre a sua trajetória de leitor a partir do nosso Clube de Leitura. Ele também criou um Clube de Leitura em Duque de Caxias.
Angela e Andréia estiveram presentes com a sua ausência.
O almoço foi servido numa varanda paradisíaca. Comida farta, no fogão de lenha, comida maravilhosa. Novamente estávamos no cenário de uma das roças de São Tomé e nosso anfitrião era incansável em suas delicadezas. Depois fomos até a Capela e demos um passeio pela propriedade que é uma reserva das maravilhas que Saquarema amorosamente guarda em seu interior.
Nosso próximo livro será O Cerco de Lisboa, do José Saramago. E também os Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada do Pablo Neruda.Nosso encontro será dia 11 de fevereiro.
E para os ansiosos já tenho o livro de abril: A Trégua, do Primo Levi.E o poema Pasárgada do Bandeira.
Ainda temos vagas no Clube. Quem se aventurar, me avise.

sábado, 3 de dezembro de 2011

NOTÍCIAS DO JARDIM

A roseira que a minha leitora Mariana , que veio de São Paulo para o último encontro do Clube de Leitura,me deu de presente, (eu não conhecia a Mariana!), floresceu. Está com dois botões.
As hemerocallis que trouxe de Joinville e plantei aqui estão ótimas, já com folhas novas.
Uma leitora me conta que participa de um grupo de mulheres que bordam juntas meu livro Jardins.
Hoje a casa amanheceu envolta numa neblina de algas. O jardim parece suspenso , flutua dentro de uma nuvem de mar. O cheiro é salgado.
O mar está misturado com o céu e com suas ondas gigantescas transforma a casa num barco à deriva, ao sabor do destino. Aqui dentro, abrigados, fabricamos poesia.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

CLARICE E OUTROS ASSUNTOS

Ontem vi uma gravação de uma entrevista com a Clarice Lispector em 1977. Ela estava tão linda, tão triste, tão viva, tão aqui do lado, que a gente se pergunta: o que é a morte? Tudo o que ela falava era tão luminoso e verdadeiro, era pura poesia, ela não tinha medo de se expor, de dizer de verdade o que acontecia bem lá dentro, em seus porões. Eu a conhecí e tinha muito medo dela. Eu era nova demais e Clarice queimava. Fui muitas vezes até a sua casa, eu a ouvia, sua voz tão diferente, tão diferentes as coisas que dizia. Por um momento , assistindo ao vídeo, estive com ela de outra maneira: agora tinhamos quase a mesma idade, na verdade eu era a mais velha e podia entender tudo o que ela dizia, na minha alma, no meu corpo. Naquela época, na década de 70, a minha juventude me atrapalhava.

Amanhã é o nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela. Estou feliz, acho que será um lindo encontro.Fecharemos o ano com Equador, chave de ouro.

Ontem estive na festa de Natal do Castelo, a ESCOLA QUE CANTA, com seu coral maravilhoso regido pelo Maestro Moisés. Ontem o coral veio cheio de surpresas, com mímicas e palhaços. Além do coral a escola tem teatro e uma rádio. Seria ótimo se a rádio "falasse" um poema por dia. A comunidade estava toda presente, a escola, lindíssima, de frente para a lagoa, estava abarrotada. Uma escola pública como a E.M Castelo Branco deixa a gente nas nuvens!

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

POSSIBILIDADES

Comprei o livro Poemas da poeta polonesa, Prêmio Nobel de Literatura em 1996, Wislawa Szymborska. Ela está viva e já tem 90 anos. Wislawa viveu a segunda guerra e o stalinismo e o humor terrível e surpreendente são as suas ferramentas. Fiquei muito impactada com a sua poesia, tão diferente. O tempo todo ela nos oferece eletrochoques. Escolhí um poema que amei:

POSSIBILIDADES

Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoiévski.
Prefiro-me gostando das pessoas
do que amando a humanidade.
Prefiro ter agulha e linha à mão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não achar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrevê-los.
Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,
para celebrá-los todos os dias.
Prefiro os moralistas
que nada me prometem.
Prefiro a bondade astuta à confiante demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos conquistadores.
Prefiro guardar certa reserva.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas outras também não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
do que postos em fila para formar cifras.
Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro ponderar a própria possibilidade
de ser ter sua razão.

Wislawa Szymborka, Poemas, tradução de Regina Przybycien, Companhia das Letras



Não sabemos o que a poeta está vivendo no momento em que escreve prefiro isto e não aquilo. Este fato, eu acho, aumenta o impacto do poema.
A edição é bilingue e é uma lástima não se poder ler os poemas no original, mas a tradução é fluente, perfeita.