quarta-feira, 5 de julho de 2017

ENCOMENDA

Quando morei no Rio Comprido havia um correio dentro da Faculdade Estácio de Sá.
A moça que me atendia sabia que eu era poeta.
Então um dia ela me disse:
-Faz por favor um poema pro aniversário do meu namorado.
Alguém me pede um poema pro inverno.
Minha irmã Evelyn Kligerman me diz :
- Faz um poema pro arco-íris que você viu.
Sim, eu tenho em casa uma fábrica de poesia.
É engraçado como as pessoas fazem encomendas.
Mas a fábrica não tem uma linha específica de produção.
Funciona não se sabe como, às vezes movida a sensações, beleza, outras vezes por espanto ou dor.
Verdade que o arco-íris que vimos ontem juntas, eu e Angela Carneiro , nos fez sapatear de alegria. Parecia um portal imenso, pois era um arco perfeito, mas a poesia daquele momento não era traduzivel.
Eu apenas fiz um pedido. Mas pedidos a gente não pode contar.
E quanto ao poema de inverno... quem sabe.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Enquanto o Sono não Vem

Depois que o livro Enquanto o Sono não Vem, do José Mauro Brant foi recolhido, leia-se censurado, penso que temos que resistir pelo belo, pelo insigante, pelo que atiça e acende o pensamento.
Pois vivemos tempos sombrios.
Madame Rosa, no livro de Émile Ajar, La Vie Dévan Soi, guarda um retrato do Hitler debaixo da cama, ela, sobrevivente de Aushwitz. Quando as coisas vào muito mal, ela retira o retrato e pensa que irá sobreviver.
Iremos sobreviver. Mas nós, que escrevemos para as crianças e jovens, temos que apostar na capacidade, no potencial de cada um.
Quantos talentos perdidos no Brasil, por falta de um exercício de pensamento, de oportunidades.
As crianças podem ver na TV que um bebê é vítima de um tiro perdido na barriga da mãe, ouvem falar de milhões roubados ( poque ouvem tudo!) e não podem ouvir uma história que fala de incesto?
Não vamos colocar amarras em nossas criações.
A nossa resistência é pela arte.