quarta-feira, 4 de julho de 2018

PARTIDA

Estou de partida para a montanha.
Mergulharei na mata com todos os meus sentidos, pois realmente estou precisando parar o mundo e virar árvore.
Anseio pela noite escura e sua respiração.
Anseio pelas manhãs geladas.
Evoco o livro da Bella Chagall, Luzes Acesas, ela conta suas incursões solitárias pelo bosque quando criança e seu maravilhamento, quando a leio, é o meu.
Mas quando criança, eu morava no Grajaú, no Rio de Janeiro e não tive nenhum contato com fazendas ou matas ou sítios. Não tive essa sorte. Entretanto, recuperei o tempo perdido.
Várias vezes morei na montanha: Com meus filhos pequenos e depois quando me separei do primeiro casamento..
Não é fácil viver em isolamento. Mas nada pode nos ensinar tanto. Sei que muito do que sou foi forjado ali. Hoje tenho luz e todas as facilidades, mas no passado, sem luz e sem quase nada que tornasse a vida cômoda, viver ali era o exercício mais precioso de virar poeta.
Muitas vezes pensava: Se um antepassado chegasse, por alguma brecha do tempo, de algum tempo paralelo onde ainda vivesse, se sentiria em casa, com poucas diferenças.  Então me sentia próxima a pessoas de um álbum de família inexistente, pessoas que são feito as sombras da tarde quando a luz se esvai, não podemos nomeá-las, mas quem sabe o que deixaram em nós, em nossos genes.
Acabo de reler De Repente Nas Profundezas do Bosque, de Amós Oz e estou pronta para entrar no bosque e tentar ouvir, com ouvido afiado, a aranha em sua teia.

terça-feira, 3 de julho de 2018

ENTRE UMA VIAGEM E OUTRA

Muita gente me diz: é maravilhoso estar contigo em teu cotidiano.
Acompanhar a tua vida, as tuas viagens. Muita gente me disse isso em Londrina e em cada lugar por onde passo.
A minha vida é simples demais. Mas acontece que moro num lugar esplêndido, de uma beleza fulminante e minha casa é aberta para receber meus leitores para um café. Sempre aberta.
E em Visconde de Mauá, onde também moro um pouquinho, a mata é soberana e exercito a essencialidade no mais alto grau. Nem armário de roupas eu tenho, pois não cabe no quarto e é incrível como podemos viver com tão poucas coisas.
Entre uma viagem e outra há o mar, o bosque, os jardins. E a poesia. E o silêncio, para mim, imprescindível. 

quarta-feira, 27 de junho de 2018

A ESCOLA DOS SONHOS

Quase que a escola não veio. E eu teria perdido uma das experiências emocionais mais impactantes da minha vida.
Na sexta-feira, a Professora Lenilsa me ligou dizendo que afinal não tinham conseguido o ônibus, será que eu não poderia adiar o encontro?
Disse que não, infelizmente, tenho muitas escolas querendo uma vaga.
Ela se desculpou e desligamos. Logo me liga outra vez e diz que a escola viria sim, alugariam um ônibus.
Eu não fazia a menor ideia de nada. Nem de que escola se tratava. Sabia apenas que era de Jaconé, mas já no Município de Maricá. Não mais Saquarema.
Acordei às 5 horas da manhã para começar a preparar tudo. Tomei café com os gatos, fiz o pão. Gosto que o pão ainda esteja quente na hora do café.
Às 9.10h um ônibus todo branco, antigo, ultrapassado, meio 1950, encostou no outro lado da rua. As crianças se arrumaram para uma foto com o mar ao fundo.
Fui até lá, ao seu encontro.
Depois da foto viemos juntos para a casa.
Já vieram me abraçando, me beijando. Eu fiquei no portão e dizia, podem entrar, sentem nos bancos e no tapete.
Recebi a Diretora, as professoras.
Eram 30 crianças. Nunca sei como vou começar. Mas então começamos pelo momento pipi.
Pedi ao Samuel que acompanhasse as crianças até a casinha de hóspedes do jardim, pois lá há um banheiro enorme, há um espelho enorme, além do passeio pelo jardim. É uma alegria.
Na volta, realmente tomo contato com aquelas crianças. Duas meninas lindas são apresentadas. São gêmeas. Fazem aniversário hoje: Raissa e Raiane.
Essas crianças são diferentes. Me contam os seus projetos. Amam ler. Fazem perguntas incríveis. Sabem coisas da minha vida. Possuem vocabulário, são donas das palavras.
São da quarta e da quinta série de uma escola rural:
E.M.Prof Dilza da Silva Sá Rêgo
Então falamos de bichos. Eles sabem muito dos bichos. Trouxeram um painel de pano pintado com meu poema A Morte do Sabiá, do livro Fardo de Carinho. Falamos de gaiolas, prisões, caçadas. Eles querem que eu fale como fiz esse poema, o que senti.
Falam de animais em extinção. Me contam que na lagoa há jacarés. Jacarés ou crocodilos? Um menino diz: Jacaré, crocodilos são da Austrália.
Falam com propriedade, lindeza, sabedoria.
Fazemos um intervalo para o café. Foi a mais linda dinâmica, algo tão amoroso, uma troca incrível entre as professoras e a Diretora e as crianças. Parecia uma dança, tudo fluia, flutuava, eles comiam como se come nuvens. Comiam com delícia e delicadeza. 
Trouxeram biscoitos que prepararam na cozinha da escola junto com as merendeiras. Me dizem a receita tintim por tintim. Trouxeram um doce de maçã.
Havia uma criança especial, sorridente, integrada e uma mediadora só para ela.
Comemos e bebemos absolutamente tudo o que havia sobre a mesa: sanduíches, pão caseiro, biscoitos, tomate ralado, manteiga, mel, bolos, leite com chocolate, suco de goiaba, café. Não sobrou nenhuma migalha.
Era uma festa no céu. Um disse, esse pão é maravilhoso, vamos fazer na escola?
Voltamos para os lugares.
Então fizemos brincadeiras com meus poemas.
Cada vez que eu precisava de silêncio eu pedia para eles ouvirem o mar.
Falamos de paz e guerra, eles sabiam da Síria.
Leram em voz alta . Sabem ler perfeitamente, com sentimento. Leram meu poema do Classificados Poéticos, o do Habitante de outra galáxia.
Eles sabiam o que é uma galáxia.
Uma teia de amor une essas crianças.
Mas qual é o segredo?
A Diretora me conta que é uma escola de horário integral. Entram cedinho e saem às 17h, jantam na escola.
Ela me diz que tem tudo na escola. Biblioteca. Tem fantasias, ela me diz, tem espelho.
Tem investimento na escola e isso é visivel, os resultados são muiito impressionantes.
Crianças lendo fluentemente, com um vocabulário incrível, entendendo o texto perfeitamente, amorosas, sem nenhum clima de violência entre elas.
Trouxeram os poemas mais lindos que escreveram, inspirados nos meus.
Se uma escola pode funcionar assim e conseguir resultados assim, por que todas as escolas do país não podem ser assim? Por que os governos não escolhem educar assim como prioridade, como escolha de mudar o mundo?
Quero agradecer a Diretora Raquel e as professoras que acompanharam essas crianças lindas:
Lenilsa, Ana Rita, Jociene, Jacira, Cláudia.
Hoje fiquei abalada com o que vivi. Ainda estou abalada. Ficarei abalada para sempre.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

O TEMPO TODO AO MESMO TEMPO



Uma vez, entrava na Rua Citiso, no Rio Comprido, R.J (onde morava), com meu filho Guga Murray, criança, quando ele parou de repente e me disse muito espantado:
- Mãe, agora mesmo estão acontecendo muitas coisas no mundo ao mesmo tempo!
Sim. Estão. Coisas maravilhosas e terríveis. Mas é a primeira vez na história que todos os acontecimentos nos chegam de uma vez ao mesmo tempo e de uma maneira incrível, com fotos, vídeos, vozes, músicas.
Vejo ao mesmo tempo as iniciativas mais maravilhosas, os trabalhos de arte mais incríveis, as descobertas científicas mais impressionantes e crianças engaioladas, separadas dos pais. Nada justifica a maldade de um humano contra outro. 
Nada justifica uma favela ser metralhada com vidas de civis sendo interrompidas. 
Não é possível ficar imune a tantas crueldades e tantas maravilhas. 
Mas a crueldade machuca mais ainda quando somos impotentes.
Cada um faz o que pode quando tantas injustiças nos deixam atônitos.
Eu escrevo poemas e trabalho com professores que tentam por todos os meios salvar suas crianças, vejo o quanto o amor fabrica. Trabalho com a beleza. Sempre .
Vejo como a poesia toca as crianças. Toca os adolescentes.
A minha ideologia é a bondade e a religião também. Então não importa se a crueldade está acontecendo num regime assim ou assado. É crueldade aqui ou ali.
Quando a nossa capacidade de se identificar com o outro termina, a nossa capacidade de sentir a sua dor não existe, a humanidade está morta em nós.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

DE VOLTA PARA O MAR

De volta ao mar. Toda casa possui a sua engrenagem. São fios e roldanas, máquinas de fabricar pequenas alegrias, poemas.
O mar traz música e perfume.
Os gatos amaciam os hiatos do mar.
Faço pão, arrumo os dias que passei em Teresina no baú dos afetos. 

quinta-feira, 7 de junho de 2018

ENTREVISTAS

Jun Arias me conta: entrevistou os mais maravilhosos personagens do Século XX na Itália.
Não levava gravador, anotava tudo.
Se tivesse gravado, hoje poderíamos ouvir as vozes de Fellini, Calvino, Pasolini e tantos outros
Mas se lembra de cada detalhe das conversas e posso visualizar o que me conta.
Acompanhei Juan em algumas entrevistas aqui no Brasil : Milton Nascimento e João Ubaldo. Também me lembro de tudo, como se fosse um filme.
Juan fez uma coleção de livros de entrevistas também e pude estar presente em dois, o do Saramago e do Paulo Coelho. Quando fez o do Fernando Savater ainda não o conhecia.
Eram entrevistas longas, que duravam cinco dias e a convivência com o autor se tornava estreita e íntima.
Juan é um grande entrevistador.
Quando chegamos à casa do Saramago, ele já tinha nas mãos um esboço do que seria feito e toda a sua biografia que Juan havia recolhido de outras entrevistas e aqui e ali, na internet.
Pilar nos recebeu e nos sentamos os quatro à mesa para um café. Com os papéis na mão Saramago disse: - Quantas besteiras ao meu respeito! Juan respondeu: - Tudo isso se diz. Agora você vai poder corrigir tudo o que quiser.
E assim foi.
Quando Juan fez a primeira pergunta a Fellini: "Como nascem os seus títulos?" Ele respondeu: "Mas que pergunta idiota"
Juan disse que a pergunta podia ser idiota, mas a resposta certamente seria maravilhosa. E foi, ele me diz.
Não me canso de ouvir enquanto caminhamos pelas ruas de dentro do bairro, aqui em Saquarema, tantos anos depois, num dia cinzento de junho, no Século XXI.

terça-feira, 5 de junho de 2018

FEIRA DE TERESINA

Cinéas Santos me diz: "Dona Poeta, a senhora não se pertence".
E não me pertencendo vou ao encontro dos meus leitores em Teresina.
William Amorim disse, em sua fala, que as Feiras de Livro são um gol contra a bárbarie.
E são mesmo um espaço de resistência a todo o horror que nos assola, a toda a falta de pensamento. Nas Feiras de Livro as ideias circulam e hoje, em nossa sociedade do abandono, das falsas notícias, da velocidade inútil, da falta de memória, há que parar e ler e ouvir. Ouvir o passado para que horrores não se repitam.
Sabemos que as Feiras se fazem com pouco patrocínio e muita tenacidade. E ainda bem que resistem a toda essa barbárie que pouco a pouco nos devora.
Nunca as Feiras de Livros, por menores que sejam, significaram tanto.
Ontem comecei a ver um documentário indiano sobre uma escola para filhos de intocáveis. Entram na escola com 4 anos e saem com 17. Suas vidas seriam perdidas. Mas a educação completa que recebem, além de dança, teatro, música e literatura, é a ponte para outra vida. Ser intocável deixa então de ser um destino, como no Brasil o destino de milhões de crianças e jovens seria outro com esse tipo de educação que dá ao ser humano a chance de ser um humano melhor.
Então vou ao encontro da minha crença. Que não é religiosa. A minha crença na Literatura e seu poder de transformação.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

RACISMO

Notícias de racismo sempre me chocam. Fico estarrecida.
Mas não podemos ficar mudos.
Aliás a palavra racismo está completamente equivocada. Só existe uma raça entre os humanos: a nossa. Somos os Sapiens. 
Todos iguais na sua insignificância frente ao universo, todos iguais na sua finitude.
Cumprimos a mesma regra, todos, ninguém escapa: morreremos.
E no entanto, somos diferentes em nossas singularidades, nossa maneira de ser, nossas culturas, crenças, etc.
Mas que alguns humanos sintam-se superiores a outros porque a sua pele é azul ou vermelha ou lilás, é de um non sense absoluto. Que um branco sinta-se superior a um negro, isso obedece a que lógica?
Leio sobre um episódio inacreditável onde estudantes universitários brancos xingam e humilham estudantes negros numa competição. Alunos de uma Universidade privada, cristã. Uma Universidade rica.
O "racismo" , na falta de uma palavra que exclua o conceito de raça, é crime no Brasil.
Leio o artigo e não sei direito quando aconteceu, mas não importa. Importa que aconteceu e a gente se pergunta:
Como será a família dessas pessoas? O que carregam dentro, que vazio é esse onde se aloja o escorpião do ódio?
Sendo o racismo um crime terrível, já que um humano ao sentir-se superior a outro humano, xinga, humilha, agride, precisa ser punido. (Tenho em minhas veias o sangue derramado nos pogroms contra os judeus e todas as humilhações que meus antepassados viveram)
A Universidade precisa se posicionar e deveria tomar alguma atitude.
Ninguém deve se calar quando um Sapiens, a única raça de humanos hoje, em nosso planeta, humilha seu semelhante.

domingo, 3 de junho de 2018

DOIS LIVROS NOVOS E TERESINA

Tenho dois livros novos nas mãos. 
Poemas para Metrônomo e Vento, ed. Penalux e Desejo de Árvores e Pássaros, ed. Imeph.
São azuis em sua essência. Talvez porque eu viva mergulhada no azul aqui no mar.
Talvez porque a estrada azul dos pássaros seja a que meus pés desejam sempre.
Talvez porque o voo e a liberdade sejam o meu destino e meu desejo .
Dois bens são os mais preciosos de todos: o tempo e a liberdade.
Liberdade se aprende quando se escuta a história do outro tão diferente da nossa.
Existem tantas maneiras de existir.
E o tempo, tão escasso, tão finito, não deveríamos vender nosso tempo, mas usá-lo com amor infinito, buscar incessantemente fazer o que se ama e quando isso não for possível, fazer com amor o que não se ama.
Meus dois livros novos foram publicados por editoras pequenas(uma do interior de S.Paulo e outra de Fortaleza). As editoras pequenas são corajosas e essenciais.
A poesia é um ofício. E o livro publicado é o maior prêmio que há.
Então este ano de 2018, de tantas coisas duras, me traz livros novos, pessoas, viagens. Há que agradecer.
Dia 8 estarei em Teresina com leitores e amigos, no Salipi, a Feira de Livros.
Farei uma fala junto com o psicanalista William Amorim, nessa maravilhosa mistura de poesia e psicanálise.
É a quarta vez que vou ao Piauí! E agora levo na mala meus livros novos.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

GABO

Vi o documentário Gabo, na Netflix. 
Aconselho. É divino ver os recortes da sua vida, ouvi-lo, ouvir seus amigos.
Em nosso Clube de Leitura lemos O Amor nos Tempos do Cólera e Gabo conta como se inspirou no amor de seus pais, disse também que era um risco escrever um romance de amor com final feliz, mas que iria colocar na moda finais felizes.
Lemos Cem Anos de Solidão e não existe nada mais belo.
Quando estivemos em Lanzarote para que Juan fizesse uma longa entrevista com Saramago, ele nos contou como encontrou a sua escrita sem pontuação.
Gabo também conta no documentário como chegou ao realismo mágico, a partir da casa dos avós.
É divino acompanhar o processo de criação de escritores que a gente ama.
Amós Oz escreveu que um leitor toma o café da manhã lendo os rótulos de tudo o que está na mesa, lendo os jornais no celular e tendo um romance aberto na página em que parou na noite anterior.
Eu diria que além disso, o leitor apaixonado gosta de saber o que é que o escritor, objeto de sua paixão, come no café da manhã, o que lê, o que pensa, como escreve.
Li um livro de entrevistas com a Marguerite Yourcenar em que ela, que morava numa ilha pequena, era amiga de todas as pessoas simples que a cercavam, o carteiro, o padeiro, etc e como colaborava com todas as causas humanitárias que conhecia e eu, apaixonada por sua obra, pude imaginá-la, imaginar seu coração e minha felicidade foi imensa.
Assim a relação do leitor com o escritor que ama e que para ele não importa se está vivo ou se morreu há trezentos anos ou três mil anos, já que ouve a sua voz.

terça-feira, 29 de maio de 2018

TRIBO

Hoje cozinho no fogão de lenha, aqui na Casa Amarela. O fogo sempre me acalma. Ele crepita e me diz o quanto sou antiga nessa genealogia de humanos que desde o tempo mais arcaico acenderam o fogo para cozinhar, para se proteger.
Aqui em Saquarema o fogão de lenha fica na varanda. Estou de costas para o mar, mas a sua música se enreda com o fogo.
Acendo o fogo para enganar o coração com beleza, já que parece que engoli pedaços de chumbo derretido.
Para onde vamos como país? Essa é uma pergunta muito difícil. É quase o enigma da esfinge. E apavorante.
Mas como vivo dentro da natureza, e para o mar e o fogo e o vento (que faz a palmeira cantar nesse instante e faz algumas madeiras da casa estalarem), nada disso faz diferença.
TRIBO
Há uma tribo que sonha
e nunca esqueceu as asas.
E acredita em coisas simples,
sol, pão, chuva, beijo, lua.
E mesmo quando o sangue
tinge as tardes e os rios
e as palavras se transformam
em veneno, pedras e facas,
alimenta as sementes da esperança
com lagrimas e pequenos gestos limpos
para que virem árvore.
In Rios da Alegria, Ed. Moderna

segunda-feira, 28 de maio de 2018

NOVA IGUAÇU

Sou a poeta homenageada da Feira de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro.
Até setembro milhares de crianças estarão lendo meus poemas.
Como se minha poesia fosse poeira de estrelas.
A minha alegria é imensa. Nenhuma palavra consegue traduzir.
Um dia, em 1990, uma criança lá no Sul me entregou uma cartinha que dizia assim:
"Nunca deixe de ser a poeta das crianças".
Esse bilhete era o grande prêmio da loteria da felicidade.
Adoro escrever poesia para as crianças. E não pretendo parar.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

SYLVIA

Quando ouvi a iraquiana Zainab Salbi falar sobre seu programa Women for Women International, imediatamente decidi participar.
A ideia é dar suporte a uma mulher em zonas de conflito.
Mas não só dinheiro. Claro que o dinheiro fará toda a diferença na sua vida.
Mas você recebe uma pessoa com toda a sua humanidade e essa pessoa te recebe.
Cada ser humano cuida de muitas pessoas e mesmo aqueles destituídos de tudo, mesmo os que perderam tudo, cuidam de algo, nem que seja de uma lembrança.
Escrevo para Silvya no meu péssimo inglês.
Digo quem sou: Brasileira, escritora. Faço livros para as crianças. Isso ela vai entender.
Vou enviar uma foto.
Tive as minhas dores. Os meus sofrimentos. Mas nada se compara ao que ela sofreu: guerra e abuso.
Rezo para que a minha carta chegue ao seu destino na Nigéria.
E se alguma mulher que estiver me lendo quiser fazer parte desse projeto de humanidade, que abarca todos os lugares do planeta em conflito, eu acho que vale a pena, se puder. Não é barato. São trinta dólares por mês.
Mas se compro um vestido por esse preço, decido não comprar o vestido e usar esse dinheiro para ajudar a Sylvia.
Estou lendo um livro maravilhoso: O Feminino e o Sagrado, de Catherine Clément e Julia Kristeva.
Acho que a minha conexão com o sagrado é cuidar, ajudar.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

OGA MITÁ

Foi diferente ontem nosso encontro no Café, Pão e Texto com a Escola Oga Mitá.
A escola trabalha com meus poemas desde a década de oitenta. Então contei o meu caminho, com todos os seus descaminhos, com os anos em que estive perdida de mim, quando a poesia me salvou.
Ia contando e me dando conta de que apesar de muitas vezes andar perdida como dentro de um nevoeiro, trabalhava grão por grão e um livro atrás do outro, eles foram me apontando a saída. Às vezes basta abrir a porta e não conseguimos encontrar a chave.
Ter um filho ainda adolescente, tive meu filho com 18 anos, pode ser muito duro, pode ser um corte violento. Vejo tantas meninas gravidas ou com um bebê no colo aqui em Saquarema, que me pergunto como é que as escolas não possuem um forum permante, aberto, sobre sexualidade? Existe algum caminho além do diálogo? Hoje a mulher pode escolher se engravida ou não. Penso na geração da minha mãe quando essa escolha era quase impossível. Tenho quase cem livros, para menos ou para mais, escrever para a criança e para o jovem é uma dádiva e acho que não existe um público mais maravilhoso e participativo.
Meus livros aconteceram por acaso. Porque de btincadeira comecei a escrever poemas para o meu filho Andre Murray. Naquela época tive a sorte de conhecer a Elvira Vigna, que foi minha parceira por tantos anos, tive a sorte de conhecer Antonieta Cunha, mãe do Leo Cunha, que me abriu as portas da editora mais incrível, a Miguilim. O acaso foi desenhando acontecimentos tão maravilhosos na minha vida, foi me dando as pedras mais preciosas
E o que sinto: um agradecimento profundo pelos meus leitores. Devolvo como posso.
Recebo emocionada esse depoimento de Valeria Barros:
"Roseana Murray, sem palavras para expressar o que representou para cada um de nós, da escola Oga Mitá.
Encontro desejado, esperado e realizado ! Mas tudo não terminou aí, na casa amarela, com cheiro de café e gosto de pão quentinho.
Tudo continua, pois sua poesia está escrita em nós.
Foi maravilhoso.
Ainda respiro cada segundo.
Obrigada!!!"

terça-feira, 22 de maio de 2018

AVENTURA

A vida é a maior e mais imprevisível aventura. Como dar sentido a esse caos, esse turbilhão de estrelas e precipícios?
Para mim, quando se toca na alma do outro, quando se faz alguma coisa mesmo que pequena pelo outro, de repente o caos se arruma e nos apaziguamos e todo o non sense da vida é um desenho que podemos entender.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

OS INVISÍVEIS

Há demasiada dor no planeta. E o Brasil é campeão no quesito produção de desigualdade social e horror.
Nem todo o dicionário, nem todas as palavras podem dar conta de falar o que deve ser a vida da massa de excluídos em nosso país.O que deve ser não ter casa. Não ter trabalho nem as mínimas coisas que são o que confere dignidade à vida humana.
Mas não dá para varrer essa grande tragédia para debaixo do tapete. Interminavelmente.
A Constituição assegura moradia, saúde e ensino e trabalho para os seus cidadãos.
A imagem de um prédio ardendo e desmoronando obriga qualquer um a olhar de frente para a falta de políticas públicas de moradia no país.
É obrigatório olhar de frente para todas as questões que fazem com que o Brasil seja um país feito de castas, de gente invisível, que não faz parte.
O Brasil é um país que até agora não deu certo.
Somos prisioneiros de políticos com os cofres abarrotados de privilégios. E de desonestidade.
A única coisa que sei fazer é poesia. E o que posso fazer para não desmoronar é acreditar que uma educação pública de qualidade, o que quer dizer toneladas de literatura e arte é a única possibilidade de se dar voz e vez a quem não tem nada. E isso se faz em uma geração.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

PAZ E LITERATURA

Logo no princípio do Dr.Fausto, do Thomas Mann, lemos que nem as religiões podem reprimir as forças arcaicas e destruidoras que habitam o homem. Apenas a literatura pode fazer isso.
Escrevo sentada num Café e não tenho o livro comigo para fazer a citação exata.
Mas é mais ou menos isso.
Sabemos que os regimes totalitários sempre queimaram livros. A própria Igreja Católica tinha o seu índice de livros proibidos. 
Penso que essas forças arcaicas podem sim ser domadas com a literatura, pois é quando nos misturamos com um personagem, assumimos sua vida e suas dores, que aprendemos a compaixão no melhor sentido da palavra e exercitamos a empatia.
Fiquei pensando também no quanto as guerras representavam uma honra e um sacrifício necessário. Penso em como os soldados partiam cantando para matar ou morrer ou as duas coisas. Penso nos heróis de guerra, nas medalhas e em como, ainda bem, ir para a guerra já não representa uma honra para as famílias.
Viver sem utopias é muito difícil. E a paz é quase uma utopia. Não completamente, porque a paz é possível.
Então penso na literatura como um instrumento fazedor de paz.

domingo, 29 de abril de 2018

NOS PRESÍDIOS

Soube pela coluna da Miriam Leitão hoje, que Marco Lucchesi faz o mais maravilhoso trabalho de leitura nos presídios. Algo tão imenso e emocionante que deixa o coração da gente abalado.
Lucchesi nos diz o que é absolutamente óbvio e gritante: Que se não investirmos na criança e numa cultura da paz, os presídios continuarão abarrotados. 
Lucchesi contou que começou a ir aos presídios quando um detento o chamou porque havia conseguido montar uma biblioteca.
O preso disse que a biblioteca era o Olimpo do presídio.
Então chegamos ao princípio de tudo.
O Ensino Fundamental tem que ser extremamente fortalecido e a escola tem que ser um oásis e não uma prisão. Para que as prisões de verdade não continuem se expandindo.
A Sala de Leitura tem que ser o coração da escola. Tudo deve partir daí. E o Professor/a precisam ser reconhecidos e valorizados (e bem pagos), como estrela-guia que são.
O Brasil é um país cruel, injusto. São milhões de talentos desperdiçados. Um holocausto de talentos.
Acredito, é a minha fé, de que com uma escola pública que "ouça" a criança, uma escola com o foco na literatura e na arte, o país estaria em condições de reverter as suas injustiças. Muitas escolas públicas de qualidade existem, mas não é uma política de Estado. Elas teriam que ser a regra e não a excessão.
O trabalho do Marco Lucchesi emociona mais ainda quando sabemos como são as prisões brasileiras. Há que ter muita coragem para entrar nesse inferno.
Eu já o admirava como poeta. Agora, ao saber desse trabalho tão imenso, eu realmente fico sem palavras para dizer o meu agradecimento.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

LIVRO NAS MÃOS

Tenho meu livro Poemas para Metrônomo e Vento da Editora Penalux nas mãos.
A emoção é tão imensa que poderia chorar um rio.
Explico porque.
Desde 1980 publico livros para crianças e jovens.
Fui carimbada e o mercado de livros de poemas para adultos é outro.
Leo Cunha já disse que coloco todo o talento que tenho nos livros infanto juvenis.
Mas escrevo poemas para gente grande também, desde sempre.
Muitos me diziam: Impossível conseguir uma editora.
Mas Salgado Maranhão, o grande poeta, se interessou por mim. E a editora me aceitou.
E o milagre aconteceu.
Milagres sempre acontecem.
Tenho nas mãos um livro belíssimo. Desde a capa, assinada por Silvia Negreiros, a contra capa do Salgado Maranhão e Ferreira Gullar, a orelha, assinada por José Inácio Vieira de Melo, até a qualidade do papel, que parece um pergaminho.
Os poemas falam do que é importante. Vida, amor e morte e o cotidiano no meio, que é o lugar onde se vive.
Dedico o livro aos meus primeiros leitores, aqueles que me dizem isso ou aquilo e o que me dizem realmente importa.
Quando estive com Saramago em Lanzarote, ele disse que nunca esperou tanto da vida. Nem eu.
Nunca esperei ter tantos leitores espalhados pelo país.
Hoje me telefonou Tiana Tapety para me contar o que faz a minha poesia com as crianças de Oeiras. Milhares de crianças lendo os meus poemas. Ela me diz: A tua poesia conduz.
Sei fazer poucas coisas. Mas amar e acolher eu sei.
E agradecer. Sou tão grata por ser acolhida. Durante muito mais da metade da minha vida me senti excluída. Era tímida demais. Não gostava de esportes, tinha muitos medos, era esquisita. Me achava incapaz.
Felizmente a poesia me pegou pelas mãos e me levou. É a minha pele, meu barco, minha estrela.
Essa edição tão cuidada e pequena quase não cabe em mim, de tão imensa.

 

sexta-feira, 20 de abril de 2018

O QUE NÃO TENHO PARA TE DAR

O que não tenho
para te dar:
os centauros
que galoparam
nos prados doloridos
da infância e que escaparam
para nunca mais,
os anos que já vivi,
as ruínas onde
me aninho às vezes
quando não sei decifrar
a esfinge na orla
do deserto,
os dons que nunca
me habitaram
e são como países
longínquos
que nunca verei,
o escaravelho dourado,
que te daria se pudesse,
mas não é meu.
Roseana Murray
Poema Inédito

quarta-feira, 18 de abril de 2018

DIA NACIONAL DO LIVRO INFANTIL

No Dia Nacional do Livro Infantil, o que tenho a dizer é muito simples.
Que bênção ter crianças como leitores.
As histórias maravilhosas que já vivi do contato das crianças com a minha poesia são o paraíso.
Quando o editor fica em dúvida se a criança entenderá o que escrevo, sem dúvida nenhuma ela entenderá.
Numa palestra do Saramago em que eu estava presente, ele disse que era a favor de que sempre se oferecesse à criança um pouco mais. Também penso assim. 
Comecei a escrever para as crianças por puro acaso, como já contei tantas vezes. Não foi uma decisão. Não pensei: Vou fazer literatura infantil.
Mas esse acaso iluminou a minha vida para sempre.
E continua iluminando.

terça-feira, 17 de abril de 2018

GENTE ESQUISITA

Quando li "Mulheres que correm com os Lobos" da Clarissa Pinkola Estes, na década de 90, fiquei muito impactada com muitas coisas.
Por exemplo: ela diz que os outros sabem quando você é uma pessoa autêntica, quando você é você. E sentem-se bem ao seu lado.
Em nosso Identidades: Atelier Poético Psinalítico, William Amorim leu um texto da Clarice Lispector onde ela fala maravilhosamente sobre o tema: Se eu fosse eu.
Acontece que é muito difícil ser o que se é mesmo.
Ê muito difícil que a tua fala, a tua vida e teu corpo estejam em sintonia, dizendo a mesma coisa.
Isso é um trabalho de anos. Clarice dizia mais ou menos isso ( não sei se alguém me contou ou se li em algum lugar):
Tem gente que costura para fora. Eu costuro para dentro.
De tanto costurar para dentro, sou apaixonada por pessoas que são elas mesmas. Que deixam sua singularidade aflorar. Sou apaixonada por gente que é meio fora da norma, do rebanho. Gente esquisita.
A Elvira Vigna sempre me dizia: - "Você é muito esquisita." Para mim era um elogio melhor do que se me dissesse: Você é tão doce, bonita, etc, etc.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

TEMPO ESTRANHO

Vivemos um tempo estranho, tempo de ódio, onde as palavras viram facas ou pedras.
Um tempo de guerra. 
Não só verbal, pois as armas precisam ser vendidas e usadas. Afinal, o mercado de armas e drogas move o mundo. Então, seja aqui ou do outro lado do mundo, o sofrimento tinge manhãs, tardes e noites. Talvez se Gagárin visse hoje a Terra do alto, sua famosa frase mudasse de cor. Quem sabe diria " A Terra é vermelha", mas vermelha de sangue.
Desde a Segunda Guerra não se vê tanta gente deslocada.
Desde a Guerra Fria o perigo do uso de armas nucleares nunca foi tão presente.
Qual seria a saída? Há saída?
Talvez mergulhar no melhor do humano.
Resgatar esse melhor do humano submerso, escondido entre os ossos. O melhor em nós.
Esse é um longo trabalho. O trabalho de uma vida.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

VISITA

Uma pessoa maravilhosa de Goiânia fez sua dissertação de Mestrado sobre a minha obra.
Porque o destino quis, eu a conheci, já que uma Faculdade de Pedagogia de Goiânia me chamou para falar. Eu avisei que não era acadêmica nem formada em Pedagogia.
Depois Gloria Kirinus, que publicou o magnífico Synthomas de Poesia, imprescindível para quem se preocupa com o tema, me deu licença poetica para falar apenas como poeta.
Pois bem, a pessoa que escreveu a dissertação, estava na plateia e foi amor ao primeiro encontro.
Ela fez um jantar maravilhoso, porque além de tudo o que faz, cozinha divinamente, convidou algumas pessoas especiais, entre elas a Gaby, uma freira mexicana absolutamente incrível.
Pois bem, Sônia Santos chega hoje na minha Casa Amarela. Nunca mais, desde aquele dia distante, perdemos o contato.
Amor é coisa séria.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

VOLTA

Volto para Saquarema depois de passar 10 dias em Mauá, depois de dar uma oficina no Instituto Estação das Letras no Rio de Janeiro, depois de visitar Paquetá, o que não fazia desde 1999.
Em Visconde de Mauá tive um encontro lindíssimo na Casa Beatles com umas 30 professoras. Falamos sobre a vida, sobre leitura, sobre poesia. O Atelier Identidades com William Amorim foi maravilhoso. Os dois encontros se entrelaçaram cheios de emoção.
Quando volto para casa, onde para usar uma imagem marítima, sinto como o meu barco mais estável, aqui tenho um escritório com mesa e computador, as correspondências transbordam, os pedidos de tantas coisas transbordam, os gatos me ignoram porque fiquei muito tempo longe.
Mas enfim, cheguei, tento colocar todos os pedidos em dia e me preparo para receber uma visita especial: Sonia Santos, de Goiânia.
Além de minha leitora, ela fez a dissertação de Mestrado sobre a minha obra. Eu a conheci pessoalmente e ela é adorável e agora me preparo para recebê-la.
Começo a pensar no próximo Atelier Poético-Psicanalítico sobre Intolerância, matéria farta em nossos dias, em nosso mundo, que deve acontecer em julho. Começo a me preparar para o lançamento do meu livro Poemas para Metrônomo e Vento, que acontecerá no Babel Restaurante, do meu filho André Murray, no dia 10 de maio.
Alguns amigos de longe irão ao lançamento. O Coral do Visconde deve cantar ( e meu filho Guga Murray compôs uma música para um poema) sob a batuta da Márcia Patrocínio. 
Para costurar tudo isso tenho a minha fábrica de poemas.
Hoje dizia para um amigo querido: poesia é dom e ofício.
Escrevo como respiro, mas escrevo sempre e isso ajuda na fabricação do poema, onde além de imagens e palavras entram tantas coisas, nossa alma, nossos desejos, nossa bagagem de vida, nossas estradas, nossos medos. 

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Redes

Quando em 1997 fui com Juan Arias a Lanzarote fazer uma longa entrevista com Saramago, fomos recebidos por Pilar del Rio. Eu conhecia Pilar das dedicatórias de seus livros. E de repente ela era de carne, osso e amor.
No último dia Juan entrevistou Pilar. E ela disse: José escreve porque precisa ser amado.
Todos queremos ser amados . É o primeiro mandamento do humano.
Por isso queremos ser lidos, elogiados, vistos, compartilhados.
Que possamos estar em contato com milhares de pessoas ao redor do mundo ao mesmo tempo, é algo muito novo. Ainda é muito cedo para avaliarmos as consequencias, para o bem e para o mal. Já que todos sabemos que bem e mal caminham juntos.
Algumas coisas são do conhecimento de todos: a privacidade acabou, vivemos no tempo da construção de imagens. Já sabemos também que estamos inundados por notícias falsas e manipulações. Sabemos que "eles" , que não sei quem são, escolhem o que será veiculado. Começamos a saber que as "curtidas" podem ser compradas!
As redes sociais são uma extensão das nossas vidas, na palma da nossa mão, a um clique.
Para disseminar o bem e o mal.
Ser leitor é mais do que importante para sabermos como é que nos movimentamos nessa intrincada floresta.
Mais do que nunca a literatura é nosso anjo da guarda.

terça-feira, 27 de março de 2018

LIVROS NOVOS

Este ano alguns livros estão em andamento, alguns já quase saindo e não pode existir alegria maior.
De repente o Governo deixou de comprar livros de literatura, acho que em 2015, para as Salas de Leitura e Bibliotecas e nestes anos muitas editoras fecharam e outras diminuiram drasticamente suas publicações.
É triste para todos. As escolas precisam estar sempre recebendo coisas novas, os editores precisam vender, os autores precisam publicar, os ilustradores precisam ilustrar. Para que o moinho não pare.
Mas algumas editoras pequenas se animam e vou por esse caminho.
Sempre amei as editoras pequenas. Posso falar com o editor, me sinto ouvida e acolhida. Posso até indicar o ilustrador.
As grandes são distantes e frias. Quase invisíveis para mim. Publicarei por duas editoras do Nordeste. Uma do Ceará e outra do Piauí.
E tenho meus E Books no site. São gratuitos e lindos. Podem ser lidos nas escolas e foi por isso que os criei. Não ganho nada com eles. Aliás, o que nos dá felicidade muitas vezes não dá dinheiro mas a felicidade é um bem maior, já que não é um produto, não posso comprar a quilo no mercado.
A felicidade é sutil feito um perfume.
Estou extremamente feliz nesse momento em que sairão livros novos para os meus leitores.
E hoje estarei no Sarau das Artes da UFF, às 18hs, em Icaraí, Niterói, como poeta homenageada. Vou rever amigos.
Momento luminoso.

segunda-feira, 26 de março de 2018

SOBRENOME

O que é um sobrenome? A marca de um clã, a marca da tribo, um sinal de pertencimento.
Quando me casei, num passado distante, era obrigatório colocar o nome do marido.
Como já tinha um sobrenome estrangeiro, achei melhor ficar apenas com Murray e retirei o Kligerman.
Acrescentei ao meu primeiro nome um país que não conheço, que não pulsa em meu sangue. 
Quando comecei a publicar como Roseana Murray, aconteceram duas coisas:
Meu pai ficou triste ao não ver seu sobrenome na capa dos livros.
Meu sogro, filho de escoceses, ficou feliz mas achava os meus livros muito fininhos. Ele me perguntava: - Quando vai escrever um livro grosso, um livro de verdade?
Quando meu pai morreu, tentei acrescentar o Kligerman no meio. Mas não deu certo. Como pronunciar esses nomes complicados? Não era sonoro. Fiquei num grande conflito. Mas fui pragmática e mantive apenas o Murray.
É o sobrenome dos meus filhos e se nem conheço a Escócia e falo muito mal inglês, meus filhos estão aí, sempre colados em mim.
Meu pai pode ficar tranquilo. Sei bem quem sou. E ele vive dentro de mim todos os dias, todas as horas. Faz parte dos que se mudaram para dentro de mim, tenho certeza de que os carrego com muito cuidado, nas entrelinhas dos meus poemas.
Quanto ao meu sogro, que me amava tanto, eu o decepcionei. Meus livros são finos, mas meus poemas voam.

domingo, 25 de março de 2018

COREOGRAFIA

Hoje o espetáculo na lagoa era a dança e o canto das centenas de gaivotas e outros pássaros. Todos brancos.
E misturados. Perguntei a um bombeiro se sabia quais eram seus nomes e me disse que que os de tamanho médio se chamavam trinta réis.
Algumas garças solitárias pontilhavam a água. Lindas. Com porte de rainha.
De repente o bando inteiro alçava voo para dançar no azul e era uma coreografia estonteante.
Um pouco mais tarde vieram os patos.
Estávamos nessa contemplação depois do café da manhã na Padaria da Ponte, quando uma mulher se aproximou com uma criança no colo e disse:
- Fotografei vocês. Achei tão bonito vocês aí sentados no caramanchão.
E me mostrou a foto. Perguntei seu nome:
Nathália Reis, me disse.
Perguntei se era professora e me disse que sim, mas estava de licença.
Perguntei se não me conhecia e disse meu nome.
Ela disse que sim, que nunca poderia imaginar que fosse a Roseana dos poemas!
E me deu a foto de presente.
Bom domingo para todos.

quarta-feira, 21 de março de 2018

RACISMO

Que pais se sintam ofendidos a ponto de pedir a retirada de um livro por conter referências à Cultura Africana me parece um absurdo tão grande, tão chocante, que é difícil entender.
O que é que incomoda esses pais?
Que verdades podem ser descobertas e são perigosas?
Como a árvore mais frondosa, de imensas raízes, assim o flamboyant do meu jardim. Assim a Cultura Africana no Brasil. A árvore mais frondosa numa mescla impressionante de culturas. Um país que já foi estudado por sua tolerância, porém...
Um legado de valor inestimável e as crianças, num país onde metade de seus habitantes são negros ou mestiços, precisam ter contato com as suas raízes. Genealogia devia ser matéria.
Aliás, todos viemos da África. Gosto de pensar no tempo sem divisões. Milhares de anos atrás era agora.
As escolas precisam estar atentas. Retirar um livro que fale de princesas africanas para agradar os pais, para mim é crime de racismo.
Sou judia e me interessam todas as religiões, parte do humano.
(Omo-Oba, autora: Kiusam de Oliveira, livro retirado do Sesi . O Sesi voltou atrás por protestos)

terça-feira, 20 de março de 2018

Marielle

Tudo o que li sobre a Marielle é magnífico.E li tudo o que pude, já que não a conhecia, não conhecia seu trabalho, não sou simpatizante do PSOL.
Ela foi de uma coerência total e lutava pela paz. Pela paz na favela, pela paz no asfalto, por uma cidade que não fosse partida.
Não havia ódio em seu discurso. Havia um chamamento para a paz.
Havia sim revolta, porque esse país está abaixo da linha de dignidade.
Acho que Marielle traz para a luz do dia toda a truculência da sociedade brasileira.
Agora não há como não discutir a violência e o racismo abertamente. Somos uma sociedade quebrada, como um país em guerra.
A Alemanha diz que a Síria é mais segura que o Brasil.
Pois em cinco anos o Brasil matou mais que a Guerra da Síria.
Mas Marielle desperta em nós a chama de uma tênue esperança. Sua voz é a de todos que acreditam que assim não pode continuar.

domingo, 18 de março de 2018

SONHO

Domingo, como meus leitores deste espaço já sabem, é dia de tomar café na Padaria da Ponte, com vista para a lagoa e a montanha. Saímos de casa às 6.15h. Tudo deserto. Só a maravilha da luz prateada sobre o mar para encher nossos olhos. Depois do café atravessamos a rua e nos sentamos debaixo do caramanchão para contemplar.
E falávamos, eu e Juan:
E se o homem não tivesse a violência inscrita no seu DNA?
E se todo o dinheiro investido em guerras e armas, em drogas, fosse usado para a paz e o bem estar das pessoas?
E se acolher o outro fosse natural, pois o instinto de matar não estaria em nós?
Leio que na Islândia o governo conseguiu diminuir drasticamente o alcoolismo e as drogas entre os jovens, simplesmente oferecendo Centros ou Clubes de esportes e artes...
E se a crueldade e o ódio desaparecessem para sempre de nossa genética?
E se confiar no outro fosse natural pois todos se ajudariam e a alegria seria a moeda de troca?
Mas infelizmente, a crueldade e a violência, corre nas veias do ser humano. Em alguns mais, em outros menos, em poucos privilegiados em doses ínfimas, quase que não se pode detectar (penso nos que dão ou dedicam sua vida aos outros).
Sonho com um dia, no ano 3.000, em que o homem terá dado esse passo imenso em direção à sua humanidade. Terá que ter outro nome, pois passará de homo sapiens, o que destrói e mata, para outra categoria. Outra espécie de humano.
E a morte provocada estará apenas nos livros de história.

sexta-feira, 9 de março de 2018

MOMO

Cada vez que vejo um varredor de rua compenetrado em seu ofício, me lembro do Beppo, personagem de Momo, do Michael Ende e sua filosofia de vida.
A sua tarefa era imensa: varrer um grande emaranhado de ruas. Mas ele não pensava no que ainda teria que varrer. Ele simplesmente se concentrava naquele pedacinho na sua frente. Então não se afligia, não se angustiava.
Cada momento que vivo, cada cena que vejo, me traz alguma coisa que li, ao longo do tempo.
Os livros não são apenas lidos e acariciados. Eles entram na corrente sanguínea, tenho certeza que meu sangue está cheio de palavras mágicas.
E a varredora de rua ( é uma mulher) segue na minha frente, varrendo a pracinha, varrendo, varrendo... se estivesse ventando o vento me traria o poema do Bandeira...
" O vento varria as folhas
O vento varria os frutos
O vento varria as flores
...................................................................................

quinta-feira, 8 de março de 2018

Dona Maria

No Dia Internacional da Mulher quero evocar a minha amiga camponesa D.Maria, que me ensinou a fazer pão.
Ela não deixou nenhuma obra de arte, não descobriu nada, mas talvez seja o símbolo das mulheres silenciosas do seu tempo. Se estivesse viva teria uns cem anos.
Passei horas e horas sentada na beira do seu fogão de lenha em Visconde de Mauá, no Vale do Pavão, ouvindo as suas histórias, ouvindo a sua vida que não era nada fácil.
Criou muitos filhos, 14 ou 16, não sei. Naquela época os partos eram em casa.
Seu marido podia ser violento quando bebia.
Perdeu dois filhos já adultos. Um por suicídio.
Mas carregava suas dores mansamente, sem uma queixa, com a doçura de um bezerro.
Tinha uma pequena horta. As galinhas entravam na cozinha.
Sempre me acolheu com café, pão quente que fazia pra vender e sustentar a casa e que nunca me deixou pagar.
Sempre saía da sua casa mais rica e aquecida.
Ela era o pilar e o esteio daquela família imensa.
No fim da vida me disse que os filhos queriam levá-la para a cidade, mas ela queria morrer na sua casa.
A vida e a morte para ela estavam tão entrelaçadas que eram a sua grande sabedoria.
Hoje, quando passo por seu casarão fechado sinto uma grande saudade.
Ela era puro amor e aceitação.
Minha homenagem a essa mulher que representa um tempo bem próximo de nós onde dizer sim e aceitar era a regra. Ainda bem que não é mais assim. Mas ainda é em muitas casas, em muitos lugares do mundo. E porque não é mais assim os homens matam.
D.Maria não sabia ler nem escrever.
Mas leu meu coração naquelas horas diante do fogo enquanto nós duas dividiamos as nossas vidas.

quarta-feira, 7 de março de 2018

MULHERES

Se quisermos chegar ao passado mais remoto, basta dar a mão a um antepassado e outro e outro... 
Cada mulher pode buscar suas ancestrais, as que lavavam roupa no rio, as que eram escravas, as que sempre diziam sim e as que diziam não e de uma maneira ou de outra foram queimadas. As obedientes e as transgressoras. As que dançavam para a lua e sabiam o segredo das ervas e unguentos, o segredo do fogo, dos acalantos.
Para que estivéssemos aqui hoje, com todos os direitos e tudo o que ainda resta conquistar:
Um mundo mais compassivo e feminino, por exemplo, onde as fronteiras seriam apagadas.

segunda-feira, 5 de março de 2018

VISITA

A gente se prepara para receber visita. Ainda mais quando é uma visita rara: a minha neta.
Mas, com as chuvas caíram tantas barreiras na Serra de Visconde de Mauá, que minha família ficou ilhada.
Agora sim abriram um pedaço da estrada e minha neta poderá chegar.
Ela é uma princesa ao avesso.
Gosta de monstros, de aventuras,é um caldeirão de surpresas. Adora bruxa e lobo mau.
Abram alas: Gabi vai chegar. 

sexta-feira, 2 de março de 2018

VOLTEI

Voltei.
Na verdade, como escrevo no facebook, me dá preguiça escrever no blog também.
Mas prometo espanar a preguiça e escrever sempre que puder.
Começo contando que reli agora meu e book Livros e Leitores com as belas ilustrações da minha amiga que virou estrela, Elvira Vigna.
E se você não leu, pediria que lesse, porque quando leio a minha vida, com distanciamento, como fiz agora, acho impressionante. É uma história de superação.
Hoje contei: já fiz 15 cirurgias! E sempre consegui transformar a dor em poesia.
Estou investindo nos E Books. Eles podem entrar nas salas de aula, de informática , de leitura. São lindos e os alunos , todos podem ler sem custo nenhum.
Acabo de ver a última prova do Poesia Essencial que vai entrar no ar esta semana.
Fica feito o meu convite.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

OEIRAS

Começo hoje minha longa viagem a Oeiras, no Sertão do Piauí. De Saquarema até lá é muito céu e chão.
Estou radiante com essa viagem, pelo maravilhoso motivo de que aí a educação é prioridade, de que a alfabetização é prioridade, de que cada criança conta. Obrigada, Oeiras, obrigada, Tiana Tapety, por me receber com tanto carinho.
Obrigada, Cineas Santos, um poeta apaixonado pela educação, pelo Piauí.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

CAFÉ, PÃO E TEXTO

Eram 12 professoras e uma contadora de histórias, a Emilly. Vieram de Macaé, das Escolas Municipais Amil Tanos e
Zelia de Souza Aguiar.
Chegaram e Claudia Marcia recitou meu poema " Quero asas de borboleta azul" bem no portão.
Ela disse que eu faço parte da sua vida desde sempre.
Foi a manhã mais maravilhosa do mundo, onde falamos de leitura, Salas de Leitura, Rodas de Leitura, Clubes de Leitura e Professor Leitor! Ufa!!!
Vieram atrás de ideias.
Me trouxeram presentes: mangas maduras, queijos, requeijão, manteiga,sabonetes maravilhosos. Vanda Oliveira fez o café com leite e os sucos. Samuel, nosso jardineiro, foi decretado Mestre das Orquídeas.
Acho que não saíram com as mãos vazias.
Fazia a manhã de paraíso que um encontro desses pede. Eu havia feito os bolos ontem e o pão recheado hoje bem cedinho. Foi servido ainda quente.
Emilly nos contou uma história linda.
Li alguns poemas.
Um segredo: a felicidade existe e tem todas as cores.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

UMA GARÇA

As águas calmas sempre me fazem bem.
Água de lago, logo sou transportada para dentro de um conto de fadas. A lagoa, espelho de nuvens, suas águas me fazem flutuar devagarinho por dentro. E de repente sou a garça que vejo. Ela me carrega em seu voo, em sua beleza:

Uma garça
rasga o céu,
carrega
essa música
tão
azul e silenciosa,
essas vogais
que pressinto,
impregnadas
de beleza
e do infinito
que existe
dentro de cada
segundo.
Seu voo
é o meu.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

PROJETO BOTINHO

Em Saquarema tenho um escritório ao ar livre: no café, bar, restaurante Marisco.
Posso ficar ali horas pensando e olhando a lagoa. Já me conhecem e o moço do balcão sabe exatamente como gosto do meu pingado.
E hoje de repente passou por mim um grupo com, sei lá, no mínimo 100 pessoas, entre crianças e jovens, conduzidos por salva-vidas, andando e cantando, rumo ao mar.
Era tão bonito de se ver, a alegria deles, palpável feito uma baleia esguichando água.
É uma colonia de férias, um Projeto que se chama Botinho do Corpo de Bombeiros.
Eu me senti sugada para dentro daquele grupo, embora meu corpo continuasse ali, no mesmo lugar, mas minha alma era criança.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

IDENTIDADES: ATELIER POÉTICO-PSICANALÍTICO

Neste ano de 2018 estou colocando no ar, junto com o psicanalista William Amorim, de S.Luis do Maranhão, um Atelier especial:
Identidades: atelier poético-psicanalítico.
Misturar poesia com psicanálise é pura magia.
Oferecemos nosso Atelier para Secretarias de Educação, Feiras, Escolas.
William tem um trabalho reconhecido em sua área, mas além disso fez sua formação em literatura e é um leitor extraordinário.
Identidades: atelier poético-psicanalítico, tem o objetivo de sensibilizar o leitor com a poesia de Roseana Murray, contos de Clarice Lispector e a abordagem psicanalítica de William Amorim, para as várias possibilidades de uso e fruição de qualquer texto literário.
A oficina percorre com textos e depoimentos orais e escritos, todas as fases da existência: nascimento, infância, adolescência, a descoberta do amor e do outro, até o momento atual. Vida e Morte.
Um mergulho nas identidades, desejos e memórias de cada um.
Público Alvo: professores.
Tempo de duração: 8 horas
Custo: passagens, alimentação, hospedagem.
Pró labore R5.000,00

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

OEIRAS

Estou preparada para ir a Oeiras no dia 26 de janeiro.
A oficina para os professores já está no papel, na cabeça, no coração e nas mãos da Tiana Tapety .
William Amorim , grande psicanalista em S.Luis, reconhecido por seu trabalho com crianças, especialista em autismo, será meu companheiro de oficina.
William é meu leitor desde 1990, quando nos conhecemos, numa Feira do Sesc.
Misturar literatura e psicanálise, poesia e psicanálise é um grande luxo e a primeira formação do William foi letras, fez sua dissertação de mestrado sobre Uma Aprendizagem, O Livro dos Prazeres de Clarice Lispector
Falaremos sobre identidades: Nosso nome, infância, adolescência, o amor, o outro, nossa tribo.
Cinéas Santos, poeta, é quem sugeriu meu nome para ser a homenageada da Flor, a Feira Literária de Oeiras. Não é a primeira vez que Cinéas me leva para o Piauí. É a terceira.
Mas agora, durante todo este ano, seis mil alunos estarão lendo meus poemas. É uma emoção de tirar o fôlego.
Vou agora ser apresentada aos Professores e Diretores e volto em novembro para a culminância da Flor.
Tiana Tapety, a Secretária de Educação, me fala do seu grande sonho:
Todos os seis mil alunos muito bem alfabetizados e leitores críticos.
Assim se construiria um outro Brasil.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

BABEL

Um dia estava na minha casinha no bosque e recebi a visita maravilhosa de Angela Carneiro e Gisele Toledo.
Não nos conhecíamos. Nessa época ela vivia em Itamonte, num sítio e sem que ninguém desconfiasse logo a sua vida mudaria radicalmente.
Gisele era adorável e logo depois foi para a África.
As duas passaram o dia comigo e fomos almoçar no Babel, o Restaurante do meu filho Andre Murray, a 50 metros da minha casinha.
Angela, grande conhecedora de tantas coisas, tinha um blog sobre comida. Ela amou o Babel e agora, tantos anos depois, me escreve:
"O melhor restaurante do MUNDO. E quem fala é quem ganhou bolsa de um mes em Paris comendo diariamente nos restaurantes incríveis de lá. Babel é uma maravilha!!!!!! Comida criativa , combinação perfeita de sabores. Quantidade de gente, não de passarinho. Satisfação."
Andre e Daniela Keiko Takahagui Murray optaram por sair de uma grande cidade e fazer algo diferente. Um restaurante na casa do Chef.
Não é nada fácil. Mas é maravilhoso conseguir manter o Restaurante, ano após ano.
Muita gente diz o que disse Angela, o Babel é inesquecível.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

MEDOS E CORAGENS

Fui a Bacaxá, o bairro que fica a 6 km de Saquarema, onde fica o comércio.
É uma confusão, de cada loja sai uma música diferente, em volume altíssimo. Mas mesmo assim acho interessante essa mixórdia. Gosto de me sentar na Bela Bel com meu café e ficar olhando toda a gente que passa, que pára, que come.
Mas hoje me deparei com uma arte urbana que puxou meus olhos quase para dentro do muro. " A vida começa onde termina o medo".
Alguém escreveu com spray e stencil . Alguém precisou escrever isso para vencer o próprio medo?
Escrevi um livro, Tantos Medos e Outras Coragens, ed. FTD, que me colocou entre os melhores do mundo em 1994.
Quando me separei, em 1993, tinha medos tão paralisantes, que era quase uma múmia precisando se desenfaixar.
Consegui descobrir as minhas coragens para vencer aqueles medos paralisantes.
Claro que tenho ainda tantos medos. Mas as minhas outras coragens me ajudam a viver.
Às vezes os medos são necessários, mas aí, me diz Mariana Esteves, não é medo, é prudência.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

SELO DISTINÇÃO

Meu livro DUAS CASAS, Lê Ed, ganhou o Selo Distinção da Cátedra Unesco.
É uma felicidade grande demais.
Porque por dois anos não consegui publicar nenhum original. Porque foi o último trabalho de ilustração da minha amiga Elvira Vigna e ela amou o meu texto. Conversamos muitas vezes sobre o livro. Ela queria tanto que ele saísse. Não deu tempo de que ela o visse na rua. Isso é muito triste.
Mas ele está na rua e já começa honrando o seu nome. Cada pintura é um quadro maravilhoso.
Mal deu tempo de que o livro esfriasse as suas tintas, ele acaba de sair e já ganha esse selo tão importante.
Quando a felicidade é muita o coração cria asas!
Agradeço a minha editora Lourdinha esse belo presente.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

AGRADECIMENTO

" O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim:
Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem".
Guimarães Rosa
Todo fim de ano, já que somos humanos e precisamos dividir o tempo contínuo, fazemos um balanço, traçamos sonhos, metas, catalogamos desejos.
Faço uma lista das dádivas recebidas em 2017:
Ninguém da família ficou doente. Não precisamos fazer nenhuma cirurgia.
Eu pude caminhar o ano inteiro.
Todas as viagens que fiz a trabalho foram maravilhosas e pude rever amigos reais, fazer amigos, conhecer fisicamente leitores. Além de voltar a Joinville onde me fizeram flor e conhecer e me apaixonar pelos adolescentes do Instituto Zanette, onde Silvane Silva trabalha com horta, jardim e leitura.
Pude fazer encontros mensais com as escolas aqui na minha casa em Saquarema.
Pude passar alguns dias na montanha quase todos os meses com a minha família.
Li os livros mais maravilhosos.
Todos os encontros do Clube de Leitura da Casa Amarela foram magníficos.
Vi amanhecer. Vi entardecer.
Escrevi poemas de madrugada.
Tenho certeza que esse foi um dos anos mais belos da minha vida.
Agradeço a cada pessoa que vive dentro de mim.
Dentro de mim as ruas são largas e o tempo é um fio luminoso amarrado em meu pulso.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

TRÊS ARTIGOS

Ontem li três artigos que me fortaleceram.
Gao Xing Jian, Prêmio Nobel chinês, mas fora da China por motivos óbvios, perseguições, prisão, etc, diz o que estou amadurecendo desde que a esquerda no Brasil, dentro de mim se quebrou em mil pedaços a partir de suas tenebrosas alianças e corrupção e populismo.
Cresci numa casa progressista. Meu pai era simpatizante do PCB. Mas ele, que nunca pode estudar ( se alfabetizou sozinho ), teve a maior decepção da sua vida quando a União Soviética invadiu a então Tchecoslováquia(assistam ao belíssimo filme Kolia). Algo imenso se quebrou dentro dele também.
Nunca fui simpatizante de nenhuma direita, tenho a esquerda no meu DNA, mas não essa que está aí nem o comunismo que matou milhões de pessoas e só existe como um regime nefasto na Coréia do Norte e Miammar.
Um comunismo utópico que não existe nem nunca existiu.
Pois bem, Gao Xin Jian diz o que ansiava ouvir e é tão raro ouvir: estamos aprisionados em ideologias do Século XX, e enquanto se fortalecem os populismos ditos de esquerda e a direita fascista, teríamos que inventar um Renascimento para fazer frente a esse capitalismo destruidor e selvagem. A essa onda horrorosa de moralismo e perseguição aos artistas e a própria arte e literatura. Algo novo.
Que coloque o bem estar do ser humano acima de qualquer projeto de poder. Que seja semeador de alegrias.
E Guy Standing, num outro artigo, o inventor do projeto de renda mínima, nos coloca frente ao absurdo que é o mercado de trabalho onde só o que vale é a produção. E o tempo que nos dedicamos a cuidar dos idosos, das crianças, dos bichos, o tempo que é usado para pensar, ler, escrever, fazer algum esporte, estudar música, esse tempo não é considerado trabalho. Mas é esse tempo que nos humaniza.
Daniel Becker, Pediatra e Pesquisador, completa: as crianças precisam BRINCAR com outras livremente para aprender a viver, para aprender a solucionar conflitos, para aprender a perder e a ganhar sem ter os pais cono mediadores.
E li também vários artigos maravilhosos sobre a importância da arte e literatura nas escolas.
Sem arte e literatura estaremos muito longe de um Renascimento, uma mudança de paradigma.
Apenas reproduziremos os seres humanos terríveis que somos, estaremos alimentando os populismos, alimentando os salvadores da pátria, ajudando a fabricar falsos ídolos.