quarta-feira, 26 de abril de 2017

RECADOS

Todos os dias recebo algum ou alguns recados maravilhosos. Relacionados com a minha poesia e com leitura, claro. Essa é a minha vida. Tudo gira em torno dos livros
E às vezes, tantos anos depois, alguém me diz: _ Eu era tua leitora quando criança, hoje leio teus poemas para meus alunos. Ou: _ Você nem imagina o quanto teus poemas me ajudaram.
E esses recados tão lindos, tão maravilhosos, são todos os dias o arco-íris do meu dia, as minhas estrelas cadentes.
Tem muita gente por aí que está fazendo muito esforço para me levar para um encontro com alunos, algum pequeno evento,  já que com a falta de recursos às vezes fica muito difícil.
Mas quero dizer que minha casa está sempre aberta para um poema e um café. Se não puder ir, cada leitor será bem recebido.
E que acredito que precisamos sonhar muito, usar toda a nossa delicadeza e amor para fazer a Terra dançar. Em cada pequena coisa que faço eu me jogo inteira. Ás vezes é perigoso, mas Guimarães já disse que viver é muito perigoso. Ás vezes dá errado, mas às vezes dá certo.  

terça-feira, 25 de abril de 2017

A VOLTA

Chego em Saquarema em todos os tons de azul.
Juan me diz que choveu muito, mas quando eu volto trago o sol.
Quando vou para a minha casa da montanha, as pessoas dizem : "Bom descanso", mas não é exatamente isso, embora sim, descanse muito. Mas lá é a minha outra vida, muito diferente da vida que levo aqui.
Chego e já estou no turbilhão das notícias e dos acontecimentos.
Muitas pessoas me pedem muitas coisas. Tento não deixar ninguém sem resposta. Fico muito triste quando escrevo para alguém e não recebo uma resposta de volta.. É algo muito comum em nossa época. Como disse o Manduca numa canção, filho do poeta Thiago de Mello que conheci num passado remoto, grande músico, "Gentileza é pedra rara, não se acha pelo chão..."
Entre as coisas que me pedem, às vezes sou premiada. O que aconteceu hoje, quando li o original de Julio Pires. Amei os seus poemas. Fiquei muito emocionada. Tomara que ele publique e ganhe um prêmio. Merece.
Esta semana recebo 15 professoras para um Café, Pão e Texto. Poucas coisas me deixam mais feliz do que esses encontros.
Espero com uma paciência de capricórnio, embora seja tão impaciente, que duas editoras me respondam. Estão analisando meus originais de poesia infantil. Gostaria muito de ter esses livros novos publicados. Seria uma grande felicidade. Já se foi o tempo em que eu não precisava me preocupar com isso. Mas os tempos mudaram.
A minha vida é inteiramente armada em cima de horizontes. Que mudam de lugar.
Tudo pode acontecer, podem me convidar para ir aqui ou ali e a mala está sempre meio aberta.
Hoje uma professora, Fabíola, me conta que encheu o quadro negro com meus poemas e crianças e adultos estão amando. Uma professora veio dizer que também havia perdido uma maleta cheia de amores...

terça-feira, 11 de abril de 2017

VISCONDE DE MAUÁ

Amanhã subo a montanha bem cedo. Vou ao encontro da família.
É uma longa viagem, mas devagar se vai ao longe.
Enquanto isso outras viagens vão sendo tramadas, trançadas. Nenhuma está fechada ainda, mas tenho vários esboços.Numa delas há uma possibilidade de um encontro com Gloria Kirynus em Curitiba, como já fizemos uma vez na Bienal do Rio. Duas amigas poetas que juntas dão certo.
Mas agora quero mesmo é chegar na entrada do Vale do Pavão, serpentear montanha acima, abrir a porta da minha casinha e respirar toda a saudade acumulada.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

NATAL E BIBLIOTECA

Em Natal, na I Jornada Pedagógica Potiguar, tive momentos de muita emoção. Marly Amarilha fez uma das falas mais lindas que já ouvi sobre literatura.
A garra e paixão dos professores era visível, saía pelos poros de cada um.
Meu mais novo editor, Rilder Medeiros, é um construtor de sonhos. Ele faz, concretiza.
Tive depoimentos belíssimos como o de Paula Belmino, que com apenas um livro na mão é capaz de fazer 1001 mágicas no interior do Rio Grande do Norte.
Tive o poeta José de Castro como anfitrião, incansável em seu envolvimento com a literatura e especialmente com a poesia.
E a inauguração da Biblioteca da E.M Sadi Mendes com meu nome. A escola fica num bairro complicado. E a literatura é o rio de águas maravilhosas por onde irão passar os peixes azuis de todos os sonhos.
Meu agradecimento maior do que o mundo a todos os professores que me escolheram e um cheiro especial para Vera Vilela de Mendonça que fez o primeiro contato comigo.
Meu coração agora pulsa nesta biblioteca.
Pulsa aqui em Saquarema na E.M. Clotilde que também tem uma vigorosa Sala de Leitura com meu nome. E em Olaria, com a Sala de Leitura Nos Caminhos de Murray, na E.M.Brasil, em Duque de Caxias com a Sala de Leitura da E.M.Pedro Paulo e no interior do Pará na E.M.Francisco Guillon e em S.Bernardo do Campo ( eu me esqueci o nome da escola).
Um dia irei virar estrela ou poeira cósmica, mas por enquanto sou além de gente, árvore, flor e biblioteca.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

NATAL

Faço a mala para Natal. Saio de casa amanhã às 5.35 da manhã.
Por que o Brasil é um país sem trens?
Queria ir pro aeroporto de trem, num vagão restaurante, tomando café e lendo. Haveria uma estação no terminal do Galeão.
Não posso ler no ônibus, pois fico enjoada.
A minha viagem para Natal é um embrulho de presente. Ganho um novo livro, Sete Sonhos e Um Amigo e uma Sala de Leitura com meu nome na E.M.Sadi Mendes.
Adoro fazer a mala para acontecimentos mágicos.

domingo, 2 de abril de 2017

DOMINGO

Aqui em casa, fora de temporada, parece que vivemos numa ilha. Não há nenhum movimento , nenhum barulho, só o silêncio feito com a música do mar, passarinhos, cachorros latindo e às vezes ao longe, um galo.
Aos domingos o isolamento se acentua. E eu me aconchego dentro dessa concha.
Sempre amei o silêncio e preciso de silêncio para conseguir viver e às vezes escrever.
Ao silêncio associo sempre um livro. Um sofá, uma cadeira de balanço, uma poltrona e pronto.
Para mim a felicidade está ao alcance da mão. Basta me perder dentro de um livro. Basta que uma história me apanhe em sua rede e não preciso de mais nada.
Lembro que numa fase muito difícil da minha vida, num daqueles momentos em que não vemos nenhuma saída, o Memorial do Convento veio parar nas minhas mãos.
E posso dizer que Blimunda me salvou. Tirei dela a sua força e então aquela força era minha. Quando conheci Saramago eu lhe disse que Blimunda para mim era um arquétipo.
Posso reler muitas vezes um livro que amo. É como voltar para casa  depois de uma viagem. Um prazer semelhante.Ser leitor nos salva. É uma dádiva. Como alguém pode afirmar que não gosta de ler? Será que não sabe que é um perdedor de mundos?                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          

terça-feira, 28 de março de 2017

HOMO DEUS

Estou nas cinco últimas páginas do livro HOMO DEUS de Yuval Noah Harari.
Se em Sapiens ele fazia todo o percurso da humanidade das cavernas até hoje, em Homo Deus é o nosso futuro, as suas possibilidades que ele aborda.
Na verdade já estamos vivendo nesse futuro e os caminhos que ele aponta como possibilidades
são apavorantes.
Nossa privacidade já acabou. Nossos dados são coletados e repassados. Google e Facebook já sabem quase tudo sobre nós..
Nossa interação com as maquinas é muito grande.
Passamos muitas horas por dia conectados, vivendo com amigos virtuais que não conhecemos pessoalmente, num mundo virtual. Como sou apreendida nesse mundo? São as minhas imagens que me constroem.
Hoje já temos medicamentos muito variados para mudar nosso  ambiente mental, nossos fluxos de consciência, nossos sentimentos.. Medicamentos para gerar felicidade e drogas para alterar o estado de consciência.
Nossos desejos já são manipulados.
As máquinas já tomam muitas decisões;
E no futuro há a possibilidade de que tomem todas as decisões. De que escolham totalmente os nossos desejos, os que devemos ter. Então liberdade e livre arbítrio já serão palavras sem função.
O que nos restará ? O que restará do humano em nós?
Mas o pior: a medicina genética poderá fabricar um outro homem com uma outra mente. Com uma expansão extraordinária das habilidades e da inteligência. Mas isso será para poucos.
E os que ficarem para trás?


segunda-feira, 27 de março de 2017

SETE SONHOS E UM AMIGO

Recebo um PDF com meu livro Sete Sonhos e Um Amigo. As ilustrações estão belíssimas.
Como descrever o que se sente quando se vê um trabalho finalizado? Difícil descrever.
Um certo frio na região do estômago, onde se acumulam, as emoções.
Quarta-feira entra na gráfica e deve estar pronto para o dia em que vou falar em Natal, dia 7 de abril.
Desde o Colo de Avó em 2015 que não tenho nenhum livro novo entre as mãos.

sexta-feira, 24 de março de 2017

ESCOLA EM BARCELONA

Hoje li uma matéria linda sobre uma escola de vanguarda que está chamando a atenção do mundo, em Barcelona.O Colégio se chama Joaquim Ruyra, está localizado num bairro complicadíssimo de imigrantes e seu IDEB (lá não se chama assim), é altíssimo, tão alto quanto o das melhores e mais caras escolas particulares.
E como conseguiram?
Porque a escola é em tudo diferente.
As classes ficam de portas abertas. Trabalham em grupos por 20 minutos (o que dura cada atividade) As aulas são divididas em atividades.
Tudo funciona como se fosse uma gincana. As matérias são dadas de outra maneira. O professor é parceiro e não aquele que sabe.O professor gosta de ser desafiado.
Cada grupo tem um monitor que não é professor. É alguém da família.
Pode ficar em pé, pular, fazer barulho. O estímulo à criatividade é total. Ninguém fica doido para ir embora ou para o recreio. Ficam doidos é para aprender! Para resolver as questões. Se pudessem dormiriam na escola.
A matéria saiu no jornal El Mundo no dia 18 deste mês.
É uma outra forma de ensinar. A escola, envolvendo as famílias, mudou as famílias. As famílias mudaram o bairro. O bairro se sente responsável pela escola, onde não há brigas entre os alunos, já que são todos parceiros.Um aluno ajuda o outro quando está com dificuldades. O método é interativo, de parcerias.
É uma escola com pouquíssimos recursos financeiros, mas com professores que adoram o desafio. E estão sabendo dos últimos descobrimentos da ciência em relação à aprendizagem.
Algumas coisas eu sempre soube.

Sem afeto, sem amor, não há aprendizagem.
Uma escola sem arte é prisão.
Amigos são o que há de mais importante dentro da escola.
Um ambiente lúdico, agradável é importantíssimo.
A leitura como os mais belos cavalos brancos puxando a carruagem.
Trabalhos em grupo, nada de carteiras arrumadinhas, um aluno atrás do outro.
Um certo caos criativo .
Família participando da escola.

A escola do nosso tempo não pode ser a escola do Século XIX.
E que a mudança venha de escolas públicas de periferia não me surpreende, só fortalece a minha crença de que se não fossem os bilhões roubados teríamos as melhores escolas públicas do mundo. Pois o nosso material humano é o que temos de melhor.
Aqui no Rio de Janeiro a E.M.Brasil é um exemplo. Fica em Olaria, não em Ipanema. Seu IDEB, invejável, é de 6.4
Seus alunos são leitores e pensam.

quinta-feira, 23 de março de 2017

PIO XII

Pio XII foi um Papa polêmico. Dizem que fechou os olhos para a situação dos judeus na era Mussolini, ou fez até mesmo um pacto com a Alemanha.
Mas Pio XII era o meu bairro de Madrid, quando morei lá por seis meses em 1997 com o Juan.
O bairro era lindo por dentro, cheio de casas. E o metrô Pio XII ficava ao lado do Supermercado Al Campo, que tinha os pães mais maravilhosos do mundo e uma menina que servia dizendo:
_ Más cositas, caballero?
Havia uma praça pertinho de casa e era para lá que íamos com o Rex, o setter inglês do Juan, todas as manhãs antes dele sair para trabalhar no jornal.
Nos seis meses que fiquei em Madrid, quase ninguém na praça falou comigo. Apenas um homem, o Felipe, um outsider total, ficou curioso e quis saber de onde eu era.
Ficamos muito amigos. Ele era desempregado e junto com a sua cunhada que havia sofrido um acidente e também estava desempregada, fazíamos um trio e tanto.  Ás vezes ele ia para a nossa casa depois que a cunhada nos encontrava na praça ( ela fazia fisioterapia) e tomávamos um café bem poético. Líamos poemas ou trechos de livros. Ela era francesa e eu amava poder falar em francês. Ou marcávamos um encontro e íamos para algum Museu à tarde ou simplesmente caminhávamos por Madrid. Ele me ensinou a andar olhando para o alto dos prédios.Quantos tesouros arquitetônicos lá no alto!
Eu sabia que não poderia viver na Europa. Isso era muito claro para mim. O povo brasileiro é único. Nós nos tocamos e nos abraçamos. Não posso viver sem isso.
Felipe virou um dos contos do meu livro Pequenos Contos de Leves Assombros , que está na Amazon, à venda como livro digital.E nos perdemos. Não sei seu sobrenome, não posso buscá-lo. Mas eu o vejo, tão bonito, tão sensível, tão desesperado.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                

quarta-feira, 22 de março de 2017

GENEALOGIA DE UM LIVRO

Na década de 90 escrevi um conto: Sete Sonhos e um Amigo.
Eu havia conhecido Mauricio Leite e me apaixonado por seu projeto das Malas de Leitura. Ficamos muito amigos, viajamos muitas vezes juntos pelo Proler.
Meu personagem então recebeu o nome de Mauricio.
Li o conto para o Rui de Oliveira. Nesta época éramos bem amigos e eu gostava de ficar no seu ateliê lá no Catete conversando com ele. Rui gostou muito, achou que os sonhos eram de iniciação, ritos de passagem. Ele me disse que gostaria de ilustrar, o grande Rui, sem nenhuma parceria comigo.
Isso não aconteceu. Consegui publicar o conto pela Ed. FTD, com ilustrações do Cárcamo, maravilhoso aquarelista chileno. Eu o conheci uma vez.
O livro não foi feito com cuidado pela editora. O papel era de segunda, a impressão péssima, essas coisas que acontecem na vida de um autor.
Faz algum tempo o livro foi retirado do catálogo.
E agora uma editora de Natal me pediu um texto.
Sempre quis reeditar este conto, mas ao reler, eu achei que ele precisava ser mudado.
Preservei os sete sonhos, mas refiz o resto.
Conservei o nome do Maurício, pois somos muito amigos até hoje e acrescentei a dedicatória. Esse livro dedico a ele.
Mas precisava de um sobrenome para o meu personagem e então busquei um amigo que mistura literatura e psicanálise. Pois os sonhos são a matéria prima com que o psicanalista irá trabalhar, além de tantas outras coisas. Não são muitos os psicanalistas que podem fazer essa mistura. Inclusive tenho indicado o William Amorim para Feiras , para que possa falar com propriedade sobre ficção e psicanálise, sobre poesia e psicanálise. Acho que trata-se de algo inovador.
Meu personagem ficou então com o nome de Maurício Amorim, misturei dois amigos, e está sendo ilustrado. Sairá pela Editora Comunique e estou muito feliz.

segunda-feira, 20 de março de 2017

OUTONO

Amo o outono. Que poeta não ama?
Passei um outono no Canadá em 1972.
Passei dois meses em Toronto.
Meu ex marido fazia um curso.
Eu quase enlouqueci de tanta beleza com os parques no outono. Com os esquilos comendo na mão da gente.
Amei o Canadá de paixão perdida. Teria ficado lá se pudesse. Vi uma Universidade dentro de um parque . Eu tinha 20 anos e sonhei um sonho assim: e se estudasse aqui? Fizesse literatura dentro deste parque?
Tentamos. Chegamos a pedir os papéis, mas a vida deu um nó cego e não pudemos ir.
Quem sabe o que teria acontecido se tivéssemos conseguido? Escreveria meus poemas em inglês? Seria uma poeta lida? Teria me separado e casado com um canadense ao invés de me casar com meu marido espanhol?  Meu segundo filho seria canadense...
O outono é a estação do se... das reticências...dos devaneios..


Chega o outono
com vento e chuva
e pincéis que tudo
apagam
quando as cores
se desmancham
em cinza e neblina.
O outono escreve cartas
ao coração,
estação de onde partem
os trens abarrotados
de poemas e suspiros,
amores abandonados,
folhas de cadernos
com sua caligrafia miúda,
que vieram
de outros tempos.
O outono diz aos poucos
os seus segredos.

sexta-feira, 17 de março de 2017

UMA SALA DE LEITURA EM ITABORAÍ

Ano passado fui "adotada" por Itaboraí, que tem um Projeto de Leitura maravilhoso. Fui lida por mais de 80 escolas, 31.000 crianças.
Hoje Prica Mota, minha amiga e professora em Itaboraí e Cabo Frio, foi tomar um café comigo e me contou que sua escola não tem uma Sala de Leitura. E seu sonho é uma Sala de Leitura. Torço para que a sua escola consiga.
Acho que um espaço de leitura numa escola é um luxo imprescindível. Com tapete, almofada e rede. Para que a criança associe a leitura ao aconchego, ao afago, ao melhor lugar do mundo.
Uma vez , na década de 80 fui trabalhar numa biblioteca numa favela, numa época em que se podia entrar na favela sem pedir permissão.
Fui com uma pessoa que ia contar histórias, mas não me lembro seu nome. Era uma Biblioteca Comunitária e a comunidade cuidava mesmo. Era uma casinha linda, com chão de vermelhão, muitas plantas, muitos paninhos bordados cobrindo as coisas, com cozinha e tudo. E com que orgulho me apresentaram a sua Biblioteca.
Na Biblioteca faziam festas de batizado, casamentos e etc. A Biblioteca era a menina dos olhos de todo mundo. E dava mesmo vontade de ficar ali, aconchegada, lendo.
Numa escola a Sala de Leitura tem que ser refúgio, oceano, horizonte e caverna. Tudo isso junto. E é lá que tem que pulsar o coração da escola.Toda Sala de Leitura deveria ter também um belo acervo para o professor. O que seria da escola sem um professor leitor?

quinta-feira, 16 de março de 2017

CAFÉ,PÃO E TEXTO

Como se forma um leitor?
Hoje tivemos um encontro aqui na Casa Amarela com jovens do nono ano da E.M.Gustavo Campos. Vieram a pé, com a Professora Sa Lima, da Sala de Leitura e o Professor Rafael. Por mim, caminhadas pela cidade deveriam fazer parte da grade. Para fotografar, para olhar e contar depois o que viram.
Dos dezoito alunos cinco se disseram leitores. E frequentadores da Sala de Leitura do Gustavo, que é muito boa.
E os outros treze?
Então algo precisa ser feito com urgência.
Esses jovens ano que vem irão para o Ensino Médio.
Acordei e antes de tomar café fiz um pão. Um jovem ficou emocionado e me contou que seu avô foi padeiro e fazia uma broa de milho maravilhosa.
Falamos sobre tantas coisas. Mas principalmente sobre o quanto temos que melhorar como seres humanos e o quanto e como a literatura pode ajudar.Uma das alunas leitoras contou o seu envolvimento com um romance. Foi muito bom ela ter contado sua própria experiência.
Li poemas. Falamos de identidade e desejos. Foi divertido, agradável, instigante.
Eles amaram o jardim e não queriam ir embora nunca mais!

quarta-feira, 15 de março de 2017

AS FOTOGRAFIAS DE GORIN

Monica Botkay é minha amiga desde 1973. Vivemos muita coisa juntas. Somos testemunhas de uma época.
Monica é em tudo especial. Foi na sua casa que fiquei um mês fazendo a recuperação da cirurgia na coluna em 2015.
Monica, para minha felicidade, tem uma biblioteca em francês. Sentada na sua varanda, numa casa antiquíssima no Rio de Janeiro, fui devorando livro por livro.
Monica é fotógrafa e me apresentou a Monique Malfatto, que foi paixão imediata. Monique faz um trabalho belíssimo em Gorin, Burkina Faso.
Fiz uma campanha no facebook para ajudar na construção de uma escola de educação infantil em Gorin.  Evelyn , minha irmã fez uma placa de cerâmica para a escola.
Agora Monica foi a Gorin e trouxe fotos maravilhosas das crianças mais belas do mundo.
E eu faço uma proposta publicamente para a Monica.
_Monica, quer fazer uma exposição comigo ? Eu faria um poema para cada foto.  

segunda-feira, 13 de março de 2017

FURACÃO

Foram todos embora depois do furacão de amor que varreu a casa. Ou seria um terremoto.
Hospedamos ao mesmo tempo filho, nora, neta e melhores amigos. Para o Clube de Leitura recebemos muita gente. De todas as profissões. Um Clube de Leitura assim com tanta gente diferente misturada é um celeiro maravilhoso de ideias e opiniões.
E já preparo o Café, Pão e Texto da quinta-feira, quando receberei a E.M.Gustavo Campos, a primeira escola onde comecei a colocar em movimento a minha oficina de leitura.
Por um ano trabalhei com alunos da oitava e nona séries, o que foi o começo de muita coisa.
Nesta quinta receberei alunos da nona série.
Quando estou envolvida com todos esses projetos de leitura e viagens para falar do poder da literatura, eu me sinto viva e pulsante. E mais do que tudo, me sinto útil e necessária.

quinta-feira, 9 de março de 2017

NATAL

Já tenho as passagens para Natal. Já tenho o título para a minha fala:
Livros na escola: Para mudar o coração da humanidade.
Já tenho confirmada a inauguração de uma biblioteca numa escola com meu nome.
Talvez consiga ter um livro novo publicado até lá.
E tudo isso ganhei de presente de uma maneira inesperada.
Saiu da caixinha de surpresas que é a vida.
Estarei em Natal dias 7 e 8 de abril.
E a bblioteca fica na E.M Sadi Mendes. Em Parnamirim

quarta-feira, 8 de março de 2017

DIA DA MULHER

Eu me casei em  1968. Com 17 anos.Tive um filho com 18. Eu me perdi de mim e não desejo a nenhuma mulher esse tipo de perdição.
Eu não sabia que caminho trilhar.Não consegui conciliar a minha vida interna com a vida externa.
Não dei conta de mim.
Por muitos anos tive um casamento machista e tradicional. A minha infelicidade era maior do que o mundo.
A poesia me salvou. A literatura me salvou. Ser leitora salvou a minha vida.
Para o Dia da Mulher desejo que toda e qualquer mulher consiga seguir o seu caminho, ouvir a voz do seu dom, que não se deixe humilhar. Que consiga conciliar dentro de si todas as mulheres que a habitam.

terça-feira, 7 de março de 2017

UMA ESTANTE E SUA FELICIDADE

A minha casinha da montanha é bem pequena. Era uma antiga casa de caseiros que foi modificada , mas sem perder seu ar de roça.
Tenho uma sala cozinha, com fogão de lenha, geladeira, tapetes e quadros.Não se parece em nada com uma cozinha.  Uma sala de reunir amigos, toda envidraçada. Chamei de Estação Família. Dois quartos minúsculos. Um banheiro também minúsculo. Solucionei o problema das roupas com uma arara, três prateleiras e uma cômoda na sala.
Mas não encontrava um lugar para uma estante de livros.
Então era uma produção. Cada vez levar livros e trazer de volta.
Eu quebrava a cabeça.
Então meu filho músico achou um lugar.A casa do caseiro foi construída sem lógica nenhuma, isso é uma delícia, eu adoro casas sem lógica, mas havia duas portas de entrada. Sem nenhum sentido. Uma pertinho da outra. Para não ter que fazer uma parede, tirei uma das portas e coloquei um vidro fixo. Ficou maravilhoso, pois trouxe luz para dentro. Ao lado do vidro fixo havia uma reprodução do Monet que ocupava toda a parede. Eu via aquela parede como um jardim.
E quebrava a cabeça.
Meu filho músico olhou para o quadro e disse: _ Mãe, vejo a estante no lugar do quadro.
Arrisquei. Bem rústica, construída ali mesmo, branca com um fundo azul. Ficou maravilhosa.
Agora é só encher de livros! Fico sentindo a felicidade que emana dos livros que ocuparão a estante.
Já separei vários para levar, livros que quero reler.

segunda-feira, 6 de março de 2017

TRABALHOS NOVOS

Volto de Mauá e uma pilha de obrigações burocráticas me esperavam. Vou destrançando essa pilha de papéis, pedidos, pagamentos, etc, como se penteia um cabelo embaraçado.
Mas entre uma coisa e outra escrevo um poema, finalizo um conto e claro, isso me produz sempre uma alegria selvagem.
O que não consigo é aumentar o número de visualizações, isto quer dizer leitores, dos meus e books, que estão gratuitos no meu site.
Como é que a gente conquista e seduz os leitores?
Essa é uma pergunta muito difícil de ser respondida.
Se você que está me lendo é professor ou professora, pode usar meus e books em suas aulas. De nono ano ao ensino médio. Mas também tenho um para crianças.
Eles são lindos. São objetos virtuais.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

PÉ NA ESTRADA

Quantas vezes já escrevi aqui que parto para a montanha!
Tenho saudades de tudo, Faz um mês que não vou. Saudades de um pouco de frio, de chuva, de cheiro de mato, dos netos, dos filhos, da irmã.
Saudades de percorrer mil vezes o caminho que liga a minha casa ao restaurante do meu filho.
Dessa vez tenho uma novidade: eu e minha irmã faremos aula de conversação em francês com uma francesa. Poucas coisas me deixam mais feliz do que ter com quem falar em francês, tão grande é o meu amor pela língua.
Escreverei quando puder, lá na montanha. ou melhor, quando a internet deixar.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

PATRÍCIA

Patricia de Arias, minha nora, ganhou Menção Honrosa no Prêmio de  Bolonha. São apenas duas menções honrosas para livros de todos os países, de todas as línguas.
Seu belíssimo livro O Caminho de Marwan, que traduzi e não foi publicado no Brasil, mas sim por uma editora chilena, fala com extrema delicadeza sobre a tragédia dos deslocados, de um menino que atravessa sozinho terras e desertos...
O livro é muito necessário. Toca o coração de qualquer um .
Patricia escreve divinamente. com música e imagens. Que bom que sou sua fada madrinha!!!        .                                                                                          

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

MAPA DO TESOURO

Como um mapa do tesouro , assim são meus amigos espalhados pelo Brasil.
Às vezes algum me escreve de tão longe ou me telefona e é como ouvir o som do arco íris.
Hoje meu amigo Cristiano Mota Mendes me escreveu:
"As boas coisas chegam de mansinho, sem alarde. Vagalumes é que acendem a noite. E trazem alegria."
Entendo que as crianças pulem ou gritem de alegria. No minuto em que li isso, ouvi sua voz, eu o vi e ao mesmo tempo me vi em Mauá, na varanda da minha casa na montanha, na noite escura, dentro da mata. Há um concerto de vagalumes, uma sinfonia silenciosa de luzes e a beleza é tão intensa que se poderia parar de respirar.
E sim, algumas coisas boas chegam de mansinho, sem fazer barulho, mas a gente tem que abrir o coração para recebê-las.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

TRABALHO NOVO

Começo um novo livro de poemas para criança.
Desde que a Manati fechou com um original pronto para publicar, desde que a Rovelle também com um original em andamento parou de publicar, desde que a Lê, com um original pronto para a gráfica não conseguiu publicar o livro, pela primeira vez desde que comecei a escrever para criança não tive mais vontade de escrever. Fiz o e book Livros e Leitores, um breve relato da minha vida de leitora e poeta, fiz o e book Delírios e já tenho outra coletânea pronta que pode virar um espetáculo de dança e ainda outra série de poemas em andamento. Para adultos.
Então subitamente passou por dentro de mim um desejo agudo de alegria e tive uma linda ideia. Os poemas vão saindo ensolarados e alegres, cheios de esperança, neste momento do mundo em que tudo é incompreensível e a barbárie corre solta.
Os poemas vão saindo como pássaros da cartola rumo ao sol.
É um milagre acontecendo dentro de mim. Um novo livro infantil.
Conseguir uma editora para ele é uma outra história.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

RITO DE PASSAGEM

A vida é feita de rituais de passagem. Alguns dias e fatos nos marcam profundamente.
Hoje é o primeiro dia de aula da minha neta Gabi, de três anos, sua primeira escola.
Ela tem uma vida diferente, vive no campo, mora dentro de um restaurante. Filha de pais artistas, nasceu numa família onde todos somos artistas e os valores que recebe diariamente não são os de uma sociedade consumista. Antes de tudo a alegria de se fazer o que se ama, depois a gente vê como paga as contas. Já tive períodos duríssimos, quando me separei sem nenhuma pensão, nenhum ganho fixo e em nenhum momento duvidei de que o meu caminho era esse: ter tempo para ler e escrever. Como diz uma amiga, Teresa Neves, há momentos de manteiga e outros de margarina. Outra amiga, Juliana Sperandeo diz: é o que temos para hoje.
Não há pior castigo do que se fazer o que não se gosta ou escolher um caminho só pensando nos ganhos. E morrer de trabalhar para ganhar, acumular.
A minha poesia me deu tudo o que tenho e sou fiel a ela.  Escrever poemas, como dizia o Manoel de Barros, um inutensílio, é a razão da minha vida.  Para que mesmo serve um poema?
A vida é muito breve. Não dá para desperdiçar nem um minuto sem amor.
E são esses os valores que cada dia a Gabi recebe em doses fartas.
Morar no campo e dentro de um restaurante com os sabores e aromas permeando a casa, é o maior tesouro que poderia ter recebido da vida.
Assim como meu neto Luis mora dentro de uma escola de música e essa já é uma outra belíssima história. Todos os dias caminha sobre sete notas musicais, com um pai músico e mãe poeta tecelã de sonhos.
E a partir de hoje Gabi construirá outros afetos dentro de uma escola rural.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

TOLERÂNCIA

Hoje falava de tolerância.Porque cedinho de manhã fui ao mar levar flores para Iemanjá. Não havia ninguém na praia imensa, quilômetros de areia branca, só eu e as flores e o mar. Acontece que sou judia. Meus pais vieram da Polônia e o judaísmo está profundamente enraizado em mim, raízes fortes e profundas, no que para mim o judaísmo tem de melhor: o humanismo (nada a ver, por favor, com o governo de Israel!), os livros, a comida. As festas religiosas na casa da minha avó Faiga eram o ponto alto da minha infância. Mas ofereço flores a Iemanjá e me sinto forte ao fazer isso. Viemos todos da África , o homem ancestral veio de lá. O primeiro casal.
Me sinto também africana. Quando estive em Abidjan me esquecia que era branca.
Quando passo numa Igreja, às vezes entro e me sento e faço um pedido, como faço meditação todos os dias. Entraria sem sustos numa mesquita. Não deixo nunca de ser judia.
Mas quando o judaísmo, o cristianismo e o islamismo se tornam intolerantes, sabemos o que acontece.Quando a sociedade se torna intolerante sabemos o que acontece.
Jesus era  judeu e o Islã nasceu de Ismael, o filho da escrava Agar que se deitou com Abrão.
Mas tolerância não é a palavra conveniente, porque tolerar é aguentar com dificuldade. E não é isso que quero dizer.
O que quero dizer é que é possível aceitar o outro e sua diferença. O outro e suas igrejas, o outro e suas convicções políticas. É nessa aceitação que o diálogo se faz. Desde que não se coloque a morte e o muro no meio.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

DISTÂNCIA

Às vezes dá uma saudade. Uma saudade de tudo. De pai, de mãe, tio, tia,de amigos e filhos e netos e irmã, tanta gente que a gente ama vivendo longe . Alguns nas estrelas.  Há uma fronteira para a saudade. A gente se distrai construindo as horas do dia, escrevendo, lendo, cozinhando, pensando e está tudo quieto do lado de dentro, mas de repente algo acontece. Um perfume, uma janela que bate com o vento, o azul de uma flor, uma linha que se lê ou um poema e pronto, sem nem reparar passamos a fronteira e a saudade vem com uma onda e submergimos até sairmos do outro lado.

DISTÂNCIA

A distância
não se mede
no mapa
por compasso,
em linha reta,
mas sim
por voo de pássaro,
abelha,
ou pela quantidade
de chuva ou luz
que inunda o espaço.
A distância se mede
com o número
de nós com que
se amarra a saudade,
se costura a saudade
na pele.

In DELÍRIOS, ebook.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

MAPA

Quando o ano começa, não sei nem faço ideia do mapa das minhas viagens, se é que acontecerão.
Existem algumas promessas, como velas brancas no horizonte, mas nenhum visto ou carimbo em meu passaporte feito de ar.
Talvez eu vá . Talvez eu vá para lá, não sei.
Mas ao mesmo tempo em que não sei, em que viajo a bordo dessa nebulosa , vejo tanto beleza no que pode ou não acontecer.
Como se houvesse uma caixa mágica, abro a caixa e não sei o que sairá de dentro, qual mapa será assinalado.
E é sempre a minha poesia que me leva , é a minha lamparina , é a palavra que abre todos os meus caminhos.
Sei que o caminho é sinuoso, nunca em linha reta.

LINHA RETA

Não busque
a linha reta,
o começo,
meio e fim,
a métrica.
Mas sim a desordem
da floresta,
dos fluxos,
a sede,
a falta.
E assim,
com as mãos molhadas
de vida
(porque são secas
as mãos dos mortos),
mergulhe
na voragem
do tempo.

In MIRAGENS, ebook

 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

ALGUMAS HORAS

Algumas horas do dia são especialmente mágicas. As primeiras, é maravilhoso ver amanhecer.
As últimas, é maravilhoso ver o dia se apagar.
O verão é duro, altas temperaturas, a cidade cheia, vizinhos que escutam música a toda altura ou queimam lixo junto com plástico esparramando fumaça tóxica por toda a casa.
Mas cedinho de manhã, tudo é perfeito. Como um presente antes de abrir. Ou um buquê de flores que recebemos sem esperar no dia do aniversário.
E ao entardecer quando as últimas luzes formam um belo acorde e as estrelas e o vento roçam a nossa pele.
Entre uma ponta e outra, a vida, o linho do cotidiano,as notícias, o mundo que entra pela janela. Mas por estes dias estou vivendo entre muitos países, Bulgária, Inglaterra, Viena, Zurique, andando pelas ruas da infância e juventude de Elias Canetti, no começo do século XX. Estou tão apaixonada pelo livro A Língua Absolvida, que não queria terminá-lo, mas aliviada descubro que é uma trilogia e não preciso me entristecer quando acabar. Terei mais dois. E sempre poderei ler de novo, pois adoro reler. Enquanto caminho e vivo com Elias a sua infância, consigo suportar o calor, nesse milagre que é poder viver tantas vidas ao mesmo tempo.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

UMA GATA EM JERUSALÉM

Tenho uma leitora brasileira em Jerusalém, Eliane Magal, que sabendo que gosto de gatos, me contou:
Que nunca havia tido um gato, sempre cachorros. Nem gostava de gatos. Mas um dia, um colega do trabalho (trabalhavam num asilo de velhos) lhe pediu para dar uma carona para uma gatinha abandonada para o trabalho. No asilo havia um quintal e os velhos alimentavam alguns gatos.
No carro a gatinha começou a miar e Eliane começou a conversar com ela, uma fala meio cantada, meio canção de ninar. A gatinha se acalmou completamente e no trabalho começou a buscá-la. Minha leitora conta que se apaixonou perdidamente e instantaneamente. O que os franceses chamam de "coup de foudre". E tomou uma decisão ali na hora.Ligou para casa, falou com seu companheiro que daquele momento em diante teriam uma gata. Ele não gostou da ideia mas ela seguiu em frente.
Colocou Bubi (nesse momento já tinha um nome!) dentro da caixa, avisou que iria embora mais cedo e fez o caminho inverso. Colocou Bubi no banco fora da caixa. A gata começou a subir em seus ombros. Eliane pediu a gata que ficasse quieta. E para sua surpresa Bubi ficou quieta.
E para sua surpresa Bubi obedecia , bastava dizer não uma vez que nunca mais Bubi faria aquilo que não queriam.
Bubi saía para dar uma volta no pátio na frente da casa. E sempre que minha leitora ia ao portão chamá-la,  ela vinha.  Já era uma gata adulta.
Mas não se sabia que uma outra gata se achava a dona do pedaço. E que uma guerra já estava sendo travada entre as duas.
Então, numa tarde, Bubi não voltou. Eliane e seu companheiro a encontraram morta. Sua coleirinha destroçada. A outra gata a matou.
Conta minha leitora, que muitos anos e muitos gatos depois, ainda a vê e ouve seu miado e sente seu cheiro.
Bubi ensinou para a minha leitora o tamanho do amor que pode existir entre um humano e um gato.    

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

ELIAS CANETTI

Depois que minha professora de italiano , Celmar dos Reis, foi embora de Saquarema, não consegui mais ninguém para me dar aula de conversação.Mas vejo a RAI e leio. Não tenho com quem falar.
Já li alguns livros em italiano, alguns muito bons. Mas agora estou lendo um livro maravilhoso do Elias Canetti, La Lingua Salvata, onde conta as suas memórias da infância e juventude.
As histórias são belíssimas e sua escrita é limpa  e mexe com nossas emoções.
Para uma criança decifrar o mundo é tarefa gigantesca e Canetti consegue fazer com maestria, que o leitor sinta isso.
Entra muitas histórias escolho uma.
A família vivia numa pequena cidade na Bulgária. Eram judeus sefarditas, de origem espanhola. Os parentes moravam muito perto uns dos outros.
E de repente todos falavam que o mundo iria acabar por causa da aparição de um cometa, visível dentro de alguns dias. Os adultos tinham um ar consternado, de tristeza profunda. Olhavam para o pequeno Elias com pena e tristeza, coitadinho, tão pequeno e já perderia o mundo e a vida. Como o pequeno poderia entender isso?Sabia apenas que algo muito estranho e perigoso estava acontecendo.
E então chegou o cometa. Imenso, iluminando o céu, de uma beleza fulgurante e todos achavam que cairia na Terra. O pequeno Elias foi para fora, junto com a família. Havia já uma multidão. Ninguém prestava atenção na criança, todos com os olhos grudados no céu. Elias comia uma cereja e seu pescoço doía de tanto olhar para cima, tão extasiado, que sem querer engoliu o caroço da cereja. Para ele, o cometa Halley e o gosto das cerejas estariam para sempre interligados.
E o cometa não caiu na Terra e o mundo não acabou.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

FELICIDADE E JULGAMENTO

Hoje me deparo com um post publicado no facebook:

" Vivemos em um mundo onde somos julgados por tudo . Até por tentar ser feliz. "

Leio inúmeros artigos sobre as redes. Estamos nos expondo continuamente. Queremos ser lidos e vistos e aplaudidos. Dividimos nossas vidas com desconhecidos. Antes éramos julgados pela família e por um número muito restrito de conhecidos. Hoje a nossa rede se ampliou de uma maneira que nunca poderíamos imaginar . Acontece que em cada tempo estamos imersos em nosso tempo.Não dá para fugir disso. É bom ou ruim vivermos conectados desta maneira a tantos gente que não conhecemos? Não sei dizer. Nem temos distanciamento ainda para saber. É tudo muito novo. Sei que quando publico um poema inédito imediatamente sou lida por 100 pessoas, no mínimo. E sim, sou julgada. Quando escrevo algo que penso, sim, sou lida e julgada.É um risco.
A felicidade é outra questão complexa. Como definir a felicidade? É alegria, sensação de plenitude, desejos realizados? Como ser feliz neste mundo terrível, que parece às vezes um beco sem saída? Tenho direito de ser feliz enquanto milhares de pessoas vagam por aí fugindo de guerras?
Então, o que se faz para que esse julgamento não nos afete? Para que nossa busca prossiga já que a vida dos humanos é tão breve?  E já que faz parte do humano desde sempre buscar a felicidade, buscar o voo?
Penso num livro do meu escritor espanhol predileto Antonio Muñoz Molina, "Ardor Guerrero". Amo de paixão este livro. O autor está servindo o exército. Para sua sorte sabe escrever à máquina, então pode trabalhar num escritório, o que o salva de milhares de humilhações. Mas sobram algumas. Muitas vezes um sargento terrível entra no escritório, espalha papéis e terror, xinga, acaba com a auto estima dos dois. Ridiculariza cada um deles em suas incapacidades.  E seu amigo, o que trabalha junto com ele, que também é um apaixonado por literatura e consequentemente não cabe no exército, não se abala. Molina quase morre , quando o sargento sai ele está tremendo da cabeça aos pés. Então pergunta ao amigo como é que ele faz para não se deixar aniquilar. O amigo responde :
"_ Te cagas".
Assim, com a maior simplicidade. Você pensa: e daí?  que me importa?
Se não estou fazendo mal a ninguém não vou deixar que isso me afete. A minha consciência será sempre o meu juiz.  Em tempos de rede social temos que ter clareza em nossas buscas.                                                                        

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

DESENHOS E PALAVRAS

Nunca soube desenhar. Não tenho nenhuma imagem minha na infância desenhando e pintando.
Lembro que as aulas de arte no ginásio eram muito difíceis . Nada do que eu fazia dava certo ou era bom.
Mas sempre gostei de ler e escrever.
Então se não posso desenhar ou pintar tenho que fazer isso com palavras.
Mas quando escrevo um poema eu vejo e sinto em mim as imagens . Às vezes tenho que correr para que não se desmanchem. E isso é curioso. Por que sei dizê-las mas não sei desenhá-las?
Antes de olhar uma imagem busco a legenda. Meus olhos sempre serão atraídos pelas palavras.
Claro que gostaria de desenhar, deve ser maravilhoso ter esse dom.
Gosto do conto da Bela Adormecida quando cada fada oferece um dom para a menina que nasceu.
Também acho, como a Natália Ginsbourg no texto O Meu Ofício, do livro As Pequenas Virtudes, que escrever é o meu ofício, é o que sei fazer e escrevo com tudo o que tenho, tanto faz se escrevo para crianças ou adultos. Escrever é o meu melhor dom.
Escrevo com o corpo inteiro, as entranhas, a alma toda, tudo o que já vivi, tudo o que sonho e sonhei, com todos os meus desejos. Escrevo com tudo que já sofri. Mesmo que o poema seja um haicai, ali dentro coloquei meu sopro.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A VOLTA DO BABEL

Babel, nosso gato desapareceu por dois dias.
Babel está conosco há uns oito meses. Chegou caminhando pelo muro, tão pequeno, com fome, com sede.
Nana, nossa gata de uns 8 anos o acolheu. São muito amigos.
Luna, a gata persa de 17 anos, que tem um apartamento no jardim, pois não suporta a Nana, o ignorou solenemente.
Babel é nossa alegria. É um gato borbulhante, amoroso, engraçado.
E subitamente desapareceu por dois dias nos deixando a possibilidade horrenda de que nunca mais voltasse.
Entrei no limbo, virei zumbi. Eu e Juan ficamos muito muito tristes e extenuados com nosso sofrimento.
Então hoje voltou pela manhã restaurando a paz na casa e nos nossos corações.
 

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

MISTERIAR

Recebo uma crônica maravilhosa do escritor e amigo Flávio Carneiro. Me apaixonei, então divido com vocês .

                Se você é um cronista sem ideias, tenha filhos.
Claro, há formas mais práticas, e mais baratas, de encontrar assunto para uma crônica, mas essa é infalível.
                Me lembro do poema de Oswald de Andrade:
“Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi”
                Minhas duas filhas, tão pequenas ainda, me dão lições diárias de poesia. Recentemente escrevi aqui sobre a expressão que Luísa, a caçula, deixou como mensagem de voz no meu celular: de saudade com você.
                Hoje é a vez da Maria, que do alto dos seus seis anos me apareceu dia desses com o mais novo verbo da língua portuguesa. O verbo misteriar.
                Muito recente, o vocábulo ainda não entrou no dicionário. Mas deve constar em breve, talvez com a seguinte definição:
                Misteriar. [Do grego Mystérion, pelo latim Mysteriu, do marianês Misteriar e pronto] V. t.d. 1. Decifrar, desvendar um mistério. “Pai, você jamais vai misteriar isso, pode esquecer.” 2.  Descobrir onde alguém (uma filha) se esconde, ignorando os pés de fora, atrás da cortina.  “Pai, você misteriou muito rápido, assim não vale.”
Misteriar não é, portanto, como parece à primeira vista, criar, inventar algum mistério. Foi esse, aliás, o sentido que atribuí ao novo verbo quando o ouvi pela primeira vez. Não. Seria óbvio demais. Misteriar é justamente o contrário!
                Sherlock Holmes era um ótimo misteriador. Fera na arte de misteriar, o Sherlock. Poirot misteriava usando sua “massa cinzenta”, como gostava de dizer. Nos Estados Unidos da década de 30, época de Al Capone e companhia, o durão Sam Spade misteriava mais com a intuição do que com o cérebro (misteriava com os punhos também, se necessário).
                A verdadeira arte do detetive é a arte de misteriar. Se o fizer bem, ganha a vida. Se errar, corre o risco de não voltar para casa.
                Os antigos navegadores misteriavam rotas guiando-se pelas estrelas. Os modernos preferem o céu virtual. Uns e outros navegam por mares desconhecidos, misteriando conforme seus dotes, mestres, limites.
                Todo leitor é, antes de mais nada, um misteriador. Seguindo pistas, signos que insistem em mudar de lugar a cada releitura, o leitor vai misteriando um poema, um romance, muitas vezes sem se dar conta. A esse misteriar, que é sempre único, e que pode ser mais ou menos difícil, divertido, doloroso, o leitor chama de prazer. E, se é de fato um leitor, não pode viver sem ele.
                Crianças misteriam livros de uma forma muito particular. Podem segurá-los de cabeça para baixo, de trás para frente, sem a mínima noção do que vai escrito ali. Mas nisso estão misteriando, você pode ter certeza. E quando aprendem a ler, muitas vezes perdem a magia de misteriar um objeto sem saber o que de mais valioso (supõe-se) há dentro dele, misteriando apenas pelo olhar, pelo tato, se aproximando misteriosamente daquele objeto de papel que os adultos guardam na estante.
                Há misteriadores muito inteligentes, com sólida formação no ofício. Alguns são tão bons que deixam discípulos. Existem aqueles que estudam a vida inteira, dedicando décadas e décadas de existência a perseguir um único mistério, que nem sempre conseguem misteriar. Há misteriadores de todo tipo, em todas as áreas. Afinal, parafraseando Drummond, o que pode uma criatura, entre outras criaturas, senão misteriar?
Nenhum misteriador, no entanto, por mais esperto, talentoso ou genial que seja, vai alcançar o que se passa de fato na cabeça de uma menina de seis anos ao criar, como quem não quer nada, uma palavra nova, feita de pedaços de palavras antigas, tão fresca e saborosa como uma frutinha que não existe. 

Flávio Carneiro




segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

VISITAS DE LEITORES

Hoje recebo a visita de Edna Apollinario, uma leitora que não conheço. Ela vem de Mato Grosso.É muito longe.
Como descrever essa sensação?
Alguém que você não conhece leu algum poema que você escreveu, esse poema entrou na corrente sanguínea dessa pessoa e ela precisa te conhecer.
Lembro quando Juan me convidou para irmos juntos fazer a entrevista em Lanzarote com Saramago. Eu havia lido alguns livros dele e tinha medo deste encontro.
Lembro quando conheci o Gullar. Não queria conhecê-lo. Era meu poeta amado. Tinha muito medo.
Conheci Vargas Llosa, sou muito fã. Tomamos um café da manhã juntos e fiquei com tanta vergonha. Não tive a sorte de conhecer o Gabo. acho que me esconderia dentro do armário. Mas conheci a Clarice Lispector. Tinha muito medo dela, Tremia de medo. Eu era muito jovem, uma menina. Quem teve a sorte de ser queimado pelo olhar da Clarice nunca será a mesma pessoa. Cada linha que Clarice escreveu queimará como fogo.
Espero nunca decepcionar alguém quem vier até a minha casa para me conhecer.  

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

SOBRE GATOS

Hoje uma leitora que não conheço me contou uma história linda.
Conheceu uma senhora de mais de 80 anos na rua. A senhora lhe contou que escrevia, apesar de ter estudado muito pouco.
E lhe mostrou uma história.  Uma história de gatos. Disse que seu maior sonho seria publicá-la.
Então ela resolveu organizar uma antologia de contos e crônicas sobre gatos e buscar recursos para publicar.
E me fez o convite: que eu escrevesse alguma coisa sobre o Babel, meu gato.
Eu já havia escrito um conto lindo, nos anos 90, sobre a Babel, gata. Babel foi embora para o planeta dos gatos e hoje temos o Babel em versão masculina.
Pois bem, agora tenho esse desafio.
Gosto muito de desafios. 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

VISCONDE DE MAUÁ

Venho para Mauá desde 1974. Acampei aqui a primeira vez quando meu filho menor tinha seis meses. Foi amor fulminante.
Compramos nossa terra quando tudo por aqui era pasto e a terra não valia nada.
Aos poucos reflorestamos. Aos poucos os passarinhos e o vento eram nossos parceiros no reflorestamento. Visconde de Mauá virou APA. E os pastos viraram mata. Morei aqui em vários períodos da minha vida. Quando os meninos eram pequenos vivemos aqui por três anos. Depois quando me separei morei aqui por mais um ano e meio. Mas sempre passei largos períodos aqui.
Então já são mais de 40 anos a minha convivência com este lugar.
Sinto que aqui se encontra a fonte do meu ser. A fonte da minha poesia.
Minha casinha fica na beirada da mata. E eu simplesmente viro árvore. 

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

INDIGNAI-VOS

O que estamos assistindo no Brasil pede a leitura outra vez do pequeno livro de Stéphane Hessesl, Indignez Vous, Indignai-Vos. Um chamamento , um pedido para que nos indignemos diante dos fatos, dos absurdos que o Estado comete, do abuso de poder, da falência da dignidade.
É indigno que pessoas que estão em altos cargos confundam vida pública com vida privada. Que gastem rios de dinheiro com aviões privados e helicópteros, quando a população não dispõe de uma rede decente de transporte público.
A indignação não deve escolher partidos. A mesma decência deve valer para todos. A palavra chave para quem está no poder deve ser austeridade, pois parcelas imensas da população estão sem receber seus salários, então qualquer abuso é indecente, é uma afronta.
Política não é jogo de futebol quando se torce para este ou aquele time. Política é a orquestração de uma sociedade para o seu bem estar. Quem quer que esteja no poder, de qualquer partido, deve ser vigiado, nada justifica enriquecimento ilícito, roubos, privilégios, mentiras. Somos nós quem pagamos seus salários .
Os fins não justificam os meios. E se existe uma lei que concede privilégios incompatíveis com a dignidade, melhor ignorar a lei.
O pequeno livro manifesto levou milhares de pessoas para as ruas na Europa. É necessária a sua releitura. É urgente.

"O livro “Indignai-vos” faz parte da coleção “Ceux qui marchent contre le vent” (Os que andam contra o vento), da editora Leya e é leitura recomendada para os estudantes de Direitos Humanos. Quem o escreve é  Stéphane Hessel, militante da resistência francesa, diplomata e ferrenho defensor dos direitos humanos. Detentor de uma biografia riquíssima, Hessel, nascido em Berlim, em 1917,  falecido, em fevereiro de 2013 foi um dos redatores da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948).Em seu manifesto, exalta a indignação como motivo para a resistência, repudia o medo e o egoísmo, critica a indiferença em relação aos excluídos, especialmente aos palestinos, em Gaza, o abismo entre as classes e conclama a todos que, de modo pacífico, em qualquer local do planeta, se indigne e reaja frente a alguma injustiça,  apenas pela singela condição de sermos humanos."

Resenha de Thaís S. Ruiz Bichler

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

MÁQUINA DO TEMPO

Vou relendo devagarinho as Memórias de Adriano e para meu deleite releio em francês.
O livro é de uma beleza tão fulminante que realmente a leitora jovem que eu era não poderia alcançar.
Leio devagarinho mesmo pro livro durar.
Adriano foi o Imperador que buscava a paz.
Como é difícil  paz, essa palavra tão pequena e grande.
Tenho um livro que se chama Qual a Palavra? É um longo poema sobre a palavra paz. Só isso. E acho bonito.
Pois, bem, eu estava em Sevilha em 1994 para receber meu certificado do I..B.B.Y e conheci uma editora israelense. Resolvi traduzir meu livro para que ela pudesse ler. Ela sabia francês.Passei para o francês e Lino Albergaria corrigiu, ele havia estudado em Paris. A editora levou meu texto para Israel.
Muito tempo depois recebi uma carta sua. Ela me dizia que meu livro era lindo mas que em Israel já existiam muitos livros sobre a paz.
Uma das guerras que Adriano fez foi contra os judeus. Ele não podia entender aquele povo obstinado em ter um único Deus quando Roma oferecia construir os mais belos templos para os mais variados Deuses..
Mas enfim, nada mais difícil do que a paz hoje no mundo. Sempre. Desde sempre.
O que há de errado com a raça humana? Capaz de chegar até as mais altas expressões da beleza e capaz de destruir com tanta violência o seu semelhante. Este é o maior dos enigmas..

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

2016

Se não acontecer nenhuma tragédia nas nossas vidas, os anos , feitos de dias e noites  sonhos e insônias, são a mistura de tantos momentos e quando olhamos para trás, às vezes nossa vida parece um romance bastante fragmentado.
O Brasil atravessa dias duros, recessão, desemprego, professores e servidores sem receber seus salários.Mas esperamos que a economia melhore, que tudo melhore.
Neste ano, em agosto, meu marido Juan Arias ficou oscilando entre o nosso mundo e o outro, passei 18 dias morando no hospital e joguei xadrez com a morte. Ganhamos. Minha família e alguns amigos maravilhosos foram o meu pão, meu alimento. Agradeço ao Cristiano Mota Mendes, meu maisqueamigoirmão, Monica Botkay, Bia Hetzel, Silvia Negreiros, William Amorim.  Neste ano, apesar da maioria dos meus amigos pensar politicamente de uma maneira diversa da minha, não perdi nenhum amigo, não bloqueei ninguém por ter posições e pensamentos diferentes dos meus. Basta ver como os políticos que ontem eram inimigos, hoje se defendem entre si e se abraçam. Não vale a pena perder amigos por política. Políticos passam.
Neste ano não consegui publicar nenhum livro, foi um ano muito duro para as editoras, para a cultura de um modo geral. Mas encontrei um atalho, um caminho como aqueles que existem dentro da mata, meio escondidos e que vão dar numa clareira. Os meus e books Livros e Leitores e Delírios, pouco a pouco vão conseguindo leitores e para 2017 tenho algumas publicações em papel. E uma coletânea nova de poemas para virar ebook ano que vem no segundo semestre.
Neste ano conheci pessoas maravilhosas e amizades se fortaleceram, Meu projeto Café, Pão e Texto deu um grande sentido para a minha vida.Neste ano fiz viagens incríveis para apresentar meus livros e falar de leitura.
Então talvez o segredo deste romance de milhares de páginas que é a nossa vida, seja mergulhar profundamente nos sentimentos, viver a vida como a mais perigosa e emocionante das aventuras e tudo de bom ou de ruim pode acontecer.
Espero que em 2017 aconteçam só coisas boas para todos nós.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

ENGOLINDO CÉU

Hoje foi dia de ganhar lindos presentes. De Delmino Gritti, um apaixonado por poesia com vários livros sobre o tema publicados, recebo um arquivo belíssimo. Copiei algumas frases do Manoel de Barros falando de poesia. É de gritar!
O poeta lê o mundo de um ponto de vista insólito ou encantado. Ele transvê o mundo”. (Manoel de Barros)

Os andarilhos, as crianças e os passarinhos têm o dom de ser poesia. Dom de ser poesia é muito bom. (M. de Barros)

Uma árvore bem gorjeada, com poucos segundos, passa a fazer parte dos pássaros que a gorjeiam. (Manoel de Barros)

O sentido normal das palavras não faz bem ao poema. Há que se dar um gosto incasto aos termos.  (M. de Barros)

Minhocas arejam a terra; poetas, a linguagem e a vida. (Manoel de Barros)

Os grilos de olhos sujos se criam nos armazéns. (Manoel de Barros)

Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina. (Manoel de Barros)

A quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso. (Manoel de Barros)

Há nas árvores avulsas uma assimilação maior de horizontes. (Manoel de Barros)

Escurecer ascende os vagalumes. (Manoel de Barros)

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma e que você não pode vender no mercado como, por exemplo, o coração verde dos pássaros serve para a poesia. Tudo aquilo que a nossa Civilização rejeita, pisa e mija em cima serve para a poesia.  (M. de Barros)

Aquele que não morou nunca em seus próprios abismos nem andou em promiscuidade com seus fantasmas não foi marcado. Não será marcado. Nunca será exposto às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema. (M. de Barros)

As coisas que não levam a nada têm grande importância para a poesia. Pessoas desimportantes dão para a poesia. O que é bom para o lixo é bom para a poesia.
                                                                                                                                                                                                                     (M. de Barros)

 Poesia é a loucura das palavras. O poeta é mais a palavra com febre, decaida, fodida em sarjeta. O poema é antes de tudo um inutensílio. (M. de Barros)

O sabiá, uma pequena coisa infinita do chão. Nas fendas do insignificante ele procura grãos de sol. Seu canto é o próprio sol tocado na flauta. (M. de Barros)

Poeta, individuo que enxerga semente germinar e engole céu. Espécie de vazadouro para contradições. Sabiá com trevas. Sujeito inviável, aberto a desentendimentos como um rosto. (M. de Barros)

Trapo- andarilho-mendigo: pessoa que tendo passado muito trabalho e fome, deambula com olhar de água-suja no meio das ruínas. Quem as aves preferem para fazer seus ninhos. Diz-se também de quando um ser humano caminha para o nada. (M. de Barros)

E me chegou pelo correio dois livros de uma escritora que na minha santa ignorância eu nunca havia lido, Cristiane Lisbôa. O primeiro que estou já terminando se chama Duas Pessoas são Muitas Coisas e o segundo Papel Manteiga,. A editora é Memória Visual. 
O mais incrível é que veio junto um cartão lindíssimo de uma pessoa chamada Vera. Mas não me lembro quem é. Veio assinado sem sobrenome. Vera, se você estiver me lendo, me avise, pois estou encantada com o primeiro livro. É lindo, leve,sua escrita tão interessante e poética. Estou amando! As receitas que estão trançadas com a narrativa são maravilhosas. E quero agradecer.
Levo os dois para a montanha (parto amanhã em dois ônibus e um carro, embora preferisse ir de Pégaso) e mais o livro da Elvira Vigna, Em Palimpsesto de Putas, que também me chegou pelo correio com dedicatória (ganhou o A.P.C.A) e que também já comecei e que é um livro duro, desses que machucam, assim são os romances da Elvira. .Elvira dói. Deixa a gente em carne viva.
Como podem ver, estes presentes já estão no coração. E começa bem o Natal.
Segundo a definição para poeta do Manoel de Barros, eis o que sou: indivíduo que enxerga semente germinar e engole céu. Vou para a montanha engolir céu e virar árvore, como sempre.

domingo, 18 de dezembro de 2016

E TUDO VOA

E tudo voa ao meu redor. Borges disse numa entrevista e escrevi dentro de mim: Para o escritor a vida é a sua matéria prima, então nada pode ser descartado. Nem alegrias nem tristezas, nem momentos sublimes, nem momentos da mais profunda dor.
E eu voo junto, já que a Terra não está parada. Tudo sempre em movimento.
Apanho em pleno voo uma palavra, uma imagem, uma sensação, uma lembrança, um sentimento e faço o poema. Que às vezes se comporta como um gato:  vem quando não chamo e quando chamo não vem.
Em algumas épocas duras da minha vida escrevi muito e isso me ajudou. Em outras a poesia me desabitava e tudo ficava muito pior.
O poema é um jeito de respirar? É o meu diafragma, existe dentro de mim mesmo quando não é escrito?
Li e me apaixonei quando tinha 23 anos pelo poeta Jules Supervieille, porque ele retira todas as coisas do chão. Mesmo a sua rua em Paris, Boulevard Lanne, vai parar no céu. E pelos quadros do Chagall pelo mesmo motivo. Então entendi que a minha poesia sempre quer fugir pro céu, sempre quer voar.
Às vezes levo meu leitor junto, e como na música do Coltrane, A Love Supreme, essa é a felicidade suprema, quando alguém voa junto comigo.

sábado, 17 de dezembro de 2016

EÇA DE QUEIRÓS

Quando decidi que leríamos Eça , A Relíquia e As Cidades e as Serras, Rafael, do nosso grupo me disse que sua amiga Monica Figueiredo, professora de literatura portuguesa da UFRJ, certamente gostaria de vir. Ela é especialista em Eça. Como ela mesma nos disse hoje, Eça é o seu homem.
Devo confessar que estava nervosa e com medo. Nossas discussões são afetivas e não seguimos nenhuma linha.
Rafael me acalmou ontem. Ele me disse, a Monica é maravilhosa você vai ver.
Como é dezembro faltou muita gente, mas mesmo assim a sala estava cheia. E Monica começou esbanjando tudo, charme, simpatia, ironia. Monica fala com paixão e com o corpo todo, além de ser íntima de cada suspiro do "seu homem", de quem ela não esconde os "defeitos". Começou nos dizendo que o século XIX ainda não acabou e nos colocou politicamente nesta época de tantas mudanças. Falou do declínio de Portugal, das vertentes literárias e começou nos contando, como ela mesmo disse, histórias de "cozinha", os bastidores, as fofocas. Falou do estranho nascimento de Eça, que só foi reconhecido aos 40 anos pela mãe, ou seja, era reconhecido pelo pai mas não pela mãe! Falou da sua vida desastrada, das suas idas e vindas, de como fez sozinho um jornal inteiro e como O Crime do Padre Amaro fez sucesso imediato. Como era um escritor que reescrevia mil vezes o seu texto, extremamente zeloso e consciente do seu talento. Falou da crítica negativa de Machado de Assis, e oh que delícia, falou que certamente essa crítica foi movida por uma certa inveja de Eça que lhe atrapalhava as vendas com seu sucesso e que esse fato, a crítica negativa, ajudou ainda mais o sucesso do livro. Ao nos colocar no século XIX, Monica chamou a atenção para o leitor do século XIX, um leitor burguês, lendo um romance burguês: exatamente como nós.
A Relíquia, todos sabem, é um romance que tira qualquer leitor da depressão. Se alguém estiver triste, abra A Relíquia em qualquer página e a tristeza se dissipará imediatamente. O livro é  debochado e demolidor. Eça ridiculariza tudo e escreve tão magnificamente que sentimos os cheiros, ouvimos as vozes, andamos pela antiguidade na viagem mais inesquecível, na cena do sonho. Voltamos com a certeza absoluta de que estivemos lá, naquele dia, há dois mil anos atrás.
A trama mirabolante da troca dos embrulhos tendo como consequëncia a perda da herança, também é perfeita. E o que dizer do ridículo que são as relíquias? Falamos da maravilha que são as personagens femininas do romance, as prostitutas incríveis do Eça. Falamos da perfeição que é a personagem da titi.
Enfim, aplaudimos de pé.
Monica nos disse que As Cidades e as Serras era um romance mais problemático por ser póstumo e mexido por Ramalho Ortigão na parte das serras.
Talvez Eça não tivesse sido tão romântico e bonzinho no final. Eça não era bonzinho. Mas é também um romance maravilhoso. Como Eça foi profético! Ele já anuncia a nossa terrível sociedade de consumo, a nossa frivolidade de possuir coisas inutilmente. E as cenas do livro são tão cinematográficas. Os passeios por Paris, aquela nobreza decadente, o vazio, o spleen do fin de siècle, está tudo ali. Destaque para a cena do peixe entalado no elevador.
E Monica ressalta um ponto muito importante, a salvação do Jacinto vem pelo trabalho. É o trabalho que lhe dá outra existência. Fala também da crítica social, da descoberta por Jacinto da miséria e de seu desejo então de consertar o mundo.
Falamos das comidas maravilhosas no romance, nos dois romances.
Fechamos o encontro com a leitura de poemas de Fernando Pessoa.
Trocamos livros como presentes de Natal.
E fomos para a mesa, Eça nos deu fome: escondidinho de aipim com carne seca, empadão de legumes, abóbora , arroz, salada. Fernando ofertou brownies artesanais e os proseccos , Ângela trouxe lindos presentes,
Hoje tivemos a volta do Paulo e o ingresso de Renée, minha prima e seu marido. Minha tia Alice, a última da sua linhagem, imã da minha mãe, veio e adorou.
Eu e Felipe fomos os aniversariantes presentes, já que Cristiano e Ana não vieram.
Monica, nossa convidada, ficou muito impressionada com a duração do Clube, já são mais de 6 anos e já somos uma família. Vida longa para nosso Clube, que é uma das maiores alegrias da minha vida.
Que pessoas se juntem para falar de livros e festejar a vida, é um acontecimento.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

FIM DE TARDE FIM DE ANO

É estranha e interessante essa energia de fim de ano. Penso nisso aqui sentada no fim da tarde.
Este foi um ano duro: recessão, desilusão com os rumos políticos, de ambos os lados. Descobrimos um Brasil abjeto, sabíamos da sua existência, mas agora todos os holofotes se acenderam e não podemos mais fingir que a lama não está aí. De certa maneira estamos todos contaminados.Os políticos nos contaminam com suas ações vergonhosas.
Mas mesmo assim, a energia desse fim de ano, de todos os finais de ano, é algo diferente. Há uma pressa, uma espécie de frenesi, há um vaivém, há uma urgência , como se fôssemos perder o trem, a carruagem, o navio, um grande encontro.
Penso nos meus amigos. Quase todos dispersos por este mundão de Deus. Queria nomeá-los todos. Os antiquíssimos, os novos, os que estão sempre em meu coração, em meus pensamentos. E agradecer. Porque o que nos sustenta a cada minuto é o dom da amizade. Saber que mesmo longe eu habito outras pessoas que por alguma razão possuem um laço comigo, isso me ajuda a viver .Porque viver, todos sabem, é muito perigoso. Gostaria de juntá-los todos, como num sonho, numa grande festa. E então seria a festa de fim de ano mais bela do mundo.
 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

NATAL

Mas de verdade o que é o Natal? O espírito natalino não seria um entrelaçamento-entendimento entre todos?
Há uma atmosfera tão carregada neste dezembro. Todos gritam. Não haverá trégua.
Vi um filme muito lindo, não me lembro o nome e me chega agora pelos caminhos estranhos das lembranças, é um filme francês.
No interior da França um velho e sua filha pianista são obrigados a receber um oficial nazista.
O nazista ouve a moça tocar. Se emociona. Para no umbral da porta e fala com ela. Fala que ama a música. que é músico, que não queria estar na guerra. Ela não responde. Ela nunca responde.
Seu pai também nunca responde.
Mas dia por dia ele fala com a moça ao chegar a casa. Ao ouvi-la tocar. Ela não responde.
Ela nunca responde.
Ela é da Resistência. Numa manhã, há um carro que espera fora da casa. O hóspede e vários oficiais estão juntos para embarcar. No último minuto ela o chama e ele então não entra no carro. Que explode. Então eles fizeram isso um pelo outro. Ela salvou a sua vida. E ele agradeceu em silêncio e não a denunciou ou matou.
Para mim isso seria o espírito natalino.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

PROFESSORAS

Recebo professoras em minha casa, no Projeto Café, Pão e Texto. Neste ano fui homenageada por Itaboraí e lida em mais de 80 escolas. Recebi muitas e muitas professoras. Maravilhosas. Guerreiras. Incansáveis.
Agora me contam um pouco do seu desespero. Não recebem o salário desde outubro. E também em outros municípios essa triste história se repete.
Fica registrado o meu espanto. Se não pagarmos o aluguel recebemos uma ordem de despejo. Se pegarmos algo de graça no supermercado vamos presos. Se adoecermos mas não pudermos comprar o remédio necessário pioramos, etc, etc, etc. Então, como assim, é permitido não pagar o salário aos professores?
O professor e a professora são responsáveis por nossas escolhas, nossos rumos, quando, ainda crianças a vida é descoberta Ninguém é mais importante do que um professor. Talvez eu escreva porque Rosa Hermann acreditou em mim, minha professora da quarta série. Talvez tenha publicado meu primeiro livro porque Sandra, professora do meu filho amou os poemas.
Em que mundo estamos vivendo?

domingo, 11 de dezembro de 2016

VERÃO

Na minha infância morei no bairro Grajaú, na Rua Caruaru 40, na zona norte do Rio de Janeiro.
Era um sobrado amarelo. As casas onde vivemos nos primeiros anos de nossas vidas são indestrutíveis, embora não existam mais. Já disse Drummond.
O verão sempre me pegava desprevenida e me jogava num atordoamento.
Hoje o verão me traz a casa da minha infância. O ar está grosso, quase irrespirável aqui em Saquarema e nos dezembros da minha infância. E ela me aparece quase palpável. Feito miragem ou alucinação por causa do calor.
Naquela época a grande felicidade de dezembro eram as férias, que eram longas. E meu aniversário que sempre me traria algum presente.
Não tínhamos Natal, éramos judeus. Cresci sem espírito natalino.
Agora toda a minha existência é de outra matéria. É feita de livros. De palavras. É dezembro, faz um calor insuportável e vou buscar algum conto russo para sentir um pouco de frio.  

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

ELVIRA VIGNA

Acabo de saber que Elvira Vigna ganhou o Prêmio A.P.C.A por seu último romance "Como se estivéssemos em palimpsesto de putas".
Sinto uma alegria selvagem e telefono para Elvira, que me diz na sua simplicidade:
- Isso não tem a menor importância.
Nós nos conhecemos desde 1978, eu acho. É dela a primeira edição do meu livro Fardo de Carinho, que voltou a ilustrar tantos anos depois.
Somos pessoas reclusas, nós duas. Somos avessas a todo o burburinho social.
Eu sempre vivi bem retirada e Elvira também e hoje, no telefonema, falamos disso.
Das nossas esquisitices, das nossas bizarrices.
Faz pouco tempo um amigo me disse que eu pareço uma mulher francesa irritada, às vezes. Elvira nem se fala.
Vivo em duas casas, em dois lugares fora de grandes centros, sem nenhuma vida social. Saquarema parece um mosteiro ou um templo. Aqui sou regida pelo mar.
Na montanha vivo dentro do bosque. Sou regida pelas árvores. E nas duas casas, nos dois lugares, vivo para fazer poesia, mesmo quando não estou escrevendo. Isolamento maior impossível.
Quis falar disso e escrevi um texto muito bonito que se chama DUAS CASAS.
Elvira ilustrou e faz dois anos, por conta da crise, o livro espera a chance de sair, pela Lê Editora.
As ilustrações da Elvira são belíssimas, como sempre. E ela amou meu texto, como sempre.
Esta semana recebo a boa notícia de que o livro deve sair no primeiro semestre de 2017.
Elvira também ilustrou lindamente meu e book Livros e Leitores. E o livro já está com 977 visualizações.Logo chegará a 1000, e claro, vou abrir um vinho para festejar, pois estou apostando nesse novo caminho. Pescar leitores não é como pescar peixes. E eu jamais seria uma boa pescadora: sou ansiosa e impaciente. Com minha ansiedade e impaciência às vezes cometo erros fatais. Mas os leitores estão chegando e eu e Elvira estamos juntas nessa pescaria.
Natália Ginzburg diz no livro  As Pequenas Virtudes, que se o escritor não escrever a sua verdade o leitor descobrirá. Escrevo com tudo o que tenho, com tudo o que sou. E o meu leitor sabe disso.  

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

MAESTRO MOISÉS

Conheci o Maestro Moisés na E.M Castelo Branco aqui em Saquarema. Dei um nome para o Coral que o Maestro dirigia: Escola que Canta.
Depois o Maestro foi embora. Está em Búzios com um belo Coral de meninas.
O trabalho do Maestro vai além, muito além da música. Ele resgata a auto estima dessas jovens. Ele faz com que se sintam importantes, quando às vezes elas chegam de realidades muito complicadas.
A alegria do Maestro Moisés é dourada e sua alegria e seu amor pela vida é um convite.
Hoje conversávamos.
Ele me conta: No dia 21 fará uma caminhada musical com as suas meninas por Búzios desejando Feiz Natal e esperança para o próximo ano.
Ele me diz:"Vamos fazer a nossa parte! A vida não basta... por isso existimos! Poesia e Música.".
Claro, o mundo está horrível. Mas a gente não desiste. Vai trabalhando no pequeno, aranhas laboriosas, abelhas fabricando mel...
Tenho o sonho de que o Maestro possa voltar para Saquarema. Que trabalhe nas escolas. Que possamos juntar nossas vontades , misturar nosso pó de pirlimpimpim e fazer isso : Leitura e Música. Já vou fazendo minhas bruxarias e poções mágicas para que isso aconteça.