terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

PÉ NA ESTRADA

Quantas vezes já escrevi aqui que parto para a montanha!
Tenho saudades de tudo, Faz um mês que não vou. Saudades de um pouco de frio, de chuva, de cheiro de mato, dos netos, dos filhos, da irmã.
Saudades de percorrer mil vezes o caminho que liga a minha casa ao restaurante do meu filho.
Dessa vez tenho uma novidade: eu e minha irmã faremos aula de conversação em francês com uma francesa. Poucas coisas me deixam mais feliz do que ter com quem falar em francês, tão grande é o meu amor pela língua.
Escreverei quando puder, lá na montanha. ou melhor, quando a internet deixar.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

PATRÍCIA

Patricia de Arias, minha nora, ganhou Menção Honrosa no Prêmio de  Bolonha. São apenas duas menções honrosas para livros de todos os países, de todas as línguas.
Seu belíssimo livro O Caminho de Marwan, que traduzi e não foi publicado no Brasil, mas sim por uma editora chilena, fala com extrema delicadeza sobre a tragédia dos deslocados, de um menino que atravessa sozinho terras e desertos...
O livro é muito necessário. Toca o coração de qualquer um .
Patricia escreve divinamente. com música e imagens. Que bom que sou sua fada madrinha!!!        .                                                                                          

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

MAPA DO TESOURO

Como um mapa do tesouro , assim são meus amigos espalhados pelo Brasil.
Às vezes algum me escreve de tão longe ou me telefona e é como ouvir o som do arco íris.
Hoje meu amigo Cristiano Mota Mendes me escreveu:
"As boas coisas chegam de mansinho, sem alarde. Vagalumes é que acendem a noite. E trazem alegria."
Entendo que as crianças pulem ou gritem de alegria. No minuto em que li isso, ouvi sua voz, eu o vi e ao mesmo tempo me vi em Mauá, na varanda da minha casa na montanha, na noite escura, dentro da mata. Há um concerto de vagalumes, uma sinfonia silenciosa de luzes e a beleza é tão intensa que se poderia parar de respirar.
E sim, algumas coisas boas chegam de mansinho, sem fazer barulho, mas a gente tem que abrir o coração para recebê-las.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

TRABALHO NOVO

Começo um novo livro de poemas para criança.
Desde que a Manati fechou com um original pronto para publicar, desde que a Rovelle também com um original em andamento parou de publicar, desde que a Lê, com um original pronto para a gráfica não conseguiu publicar o livro, pela primeira vez desde que comecei a escrever para criança não tive mais vontade de escrever. Fiz o e book Livros e Leitores, um breve relato da minha vida de leitora e poeta, fiz o e book Delírios e já tenho outra coletânea pronta que pode virar um espetáculo de dança e ainda outra série de poemas em andamento. Para adultos.
Então subitamente passou por dentro de mim um desejo agudo de alegria e tive uma linda ideia. Os poemas vão saindo ensolarados e alegres, cheios de esperança, neste momento do mundo em que tudo é incompreensível e a barbárie corre solta.
Os poemas vão saindo como pássaros da cartola rumo ao sol.
É um milagre acontecendo dentro de mim. Um novo livro infantil.
Conseguir uma editora para ele é uma outra história.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

RITO DE PASSAGEM

A vida é feita de rituais de passagem. Alguns dias e fatos nos marcam profundamente.
Hoje é o primeiro dia de aula da minha neta Gabi, de três anos, sua primeira escola.
Ela tem uma vida diferente, vive no campo, mora dentro de um restaurante. Filha de pais artistas, nasceu numa família onde todos somos artistas e os valores que recebe diariamente não são os de uma sociedade consumista. Antes de tudo a alegria de se fazer o que se ama, depois a gente vê como paga as contas. Já tive períodos duríssimos, quando me separei sem nenhuma pensão, nenhum ganho fixo e em nenhum momento duvidei de que o meu caminho era esse: ter tempo para ler e escrever. Como diz uma amiga, Teresa Neves, há momentos de manteiga e outros de margarina. Outra amiga, Juliana Sperandeo diz: é o que temos para hoje.
Não há pior castigo do que se fazer o que não se gosta ou escolher um caminho só pensando nos ganhos. E morrer de trabalhar para ganhar, acumular.
A minha poesia me deu tudo o que tenho e sou fiel a ela.  Escrever poemas, como dizia o Manoel de Barros, um inutensílio, é a razão da minha vida.  Para que mesmo serve um poema?
A vida é muito breve. Não dá para desperdiçar nem um minuto sem amor.
E são esses os valores que cada dia a Gabi recebe em doses fartas.
Morar no campo e dentro de um restaurante com os sabores e aromas permeando a casa, é o maior tesouro que poderia ter recebido da vida.
Assim como meu neto Luis mora dentro de uma escola de música e essa já é uma outra belíssima história. Todos os dias caminha sobre sete notas musicais, com um pai músico e mãe poeta tecelã de sonhos.
E a partir de hoje Gabi construirá outros afetos dentro de uma escola rural.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

TOLERÂNCIA

Hoje falava de tolerância.Porque cedinho de manhã fui ao mar levar flores para Iemanjá. Não havia ninguém na praia imensa, quilômetros de areia branca, só eu e as flores e o mar. Acontece que sou judia. Meus pais vieram da Polônia e o judaísmo está profundamente enraizado em mim, raízes fortes e profundas, no que para mim o judaísmo tem de melhor: o humanismo (nada a ver, por favor, com o governo de Israel!), os livros, a comida. As festas religiosas na casa da minha avó Faiga eram o ponto alto da minha infância. Mas ofereço flores a Iemanjá e me sinto forte ao fazer isso. Viemos todos da África , o homem ancestral veio de lá. O primeiro casal.
Me sinto também africana. Quando estive em Abidjan me esquecia que era branca.
Quando passo numa Igreja, às vezes entro e me sento e faço um pedido, como faço meditação todos os dias. Entraria sem sustos numa mesquita. Não deixo nunca de ser judia.
Mas quando o judaísmo, o cristianismo e o islamismo se tornam intolerantes, sabemos o que acontece.Quando a sociedade se torna intolerante sabemos o que acontece.
Jesus era  judeu e o Islã nasceu de Ismael, o filho da escrava Agar que se deitou com Abrão.
Mas tolerância não é a palavra conveniente, porque tolerar é aguentar com dificuldade. E não é isso que quero dizer.
O que quero dizer é que é possível aceitar o outro e sua diferença. O outro e suas igrejas, o outro e suas convicções políticas. É nessa aceitação que o diálogo se faz. Desde que não se coloque a morte e o muro no meio.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

DISTÂNCIA

Às vezes dá uma saudade. Uma saudade de tudo. De pai, de mãe, tio, tia,de amigos e filhos e netos e irmã, tanta gente que a gente ama vivendo longe . Alguns nas estrelas.  Há uma fronteira para a saudade. A gente se distrai construindo as horas do dia, escrevendo, lendo, cozinhando, pensando e está tudo quieto do lado de dentro, mas de repente algo acontece. Um perfume, uma janela que bate com o vento, o azul de uma flor, uma linha que se lê ou um poema e pronto, sem nem reparar passamos a fronteira e a saudade vem com uma onda e submergimos até sairmos do outro lado.

DISTÂNCIA

A distância
não se mede
no mapa
por compasso,
em linha reta,
mas sim
por voo de pássaro,
abelha,
ou pela quantidade
de chuva ou luz
que inunda o espaço.
A distância se mede
com o número
de nós com que
se amarra a saudade,
se costura a saudade
na pele.

In DELÍRIOS, ebook.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

MAPA

Quando o ano começa, não sei nem faço ideia do mapa das minhas viagens, se é que acontecerão.
Existem algumas promessas, como velas brancas no horizonte, mas nenhum visto ou carimbo em meu passaporte feito de ar.
Talvez eu vá . Talvez eu vá para lá, não sei.
Mas ao mesmo tempo em que não sei, em que viajo a bordo dessa nebulosa , vejo tanto beleza no que pode ou não acontecer.
Como se houvesse uma caixa mágica, abro a caixa e não sei o que sairá de dentro, qual mapa será assinalado.
E é sempre a minha poesia que me leva , é a minha lamparina , é a palavra que abre todos os meus caminhos.
Sei que o caminho é sinuoso, nunca em linha reta.

LINHA RETA

Não busque
a linha reta,
o começo,
meio e fim,
a métrica.
Mas sim a desordem
da floresta,
dos fluxos,
a sede,
a falta.
E assim,
com as mãos molhadas
de vida
(porque são secas
as mãos dos mortos),
mergulhe
na voragem
do tempo.

In MIRAGENS, ebook

 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

ALGUMAS HORAS

Algumas horas do dia são especialmente mágicas. As primeiras, é maravilhoso ver amanhecer.
As últimas, é maravilhoso ver o dia se apagar.
O verão é duro, altas temperaturas, a cidade cheia, vizinhos que escutam música a toda altura ou queimam lixo junto com plástico esparramando fumaça tóxica por toda a casa.
Mas cedinho de manhã, tudo é perfeito. Como um presente antes de abrir. Ou um buquê de flores que recebemos sem esperar no dia do aniversário.
E ao entardecer quando as últimas luzes formam um belo acorde e as estrelas e o vento roçam a nossa pele.
Entre uma ponta e outra, a vida, o linho do cotidiano,as notícias, o mundo que entra pela janela. Mas por estes dias estou vivendo entre muitos países, Bulgária, Inglaterra, Viena, Zurique, andando pelas ruas da infância e juventude de Elias Canetti, no começo do século XX. Estou tão apaixonada pelo livro A Língua Absolvida, que não queria terminá-lo, mas aliviada descubro que é uma trilogia e não preciso me entristecer quando acabar. Terei mais dois. E sempre poderei ler de novo, pois adoro reler. Enquanto caminho e vivo com Elias a sua infância, consigo suportar o calor, nesse milagre que é poder viver tantas vidas ao mesmo tempo.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

UMA GATA EM JERUSALÉM

Tenho uma leitora brasileira em Jerusalém, Eliane Magal, que sabendo que gosto de gatos, me contou:
Que nunca havia tido um gato, sempre cachorros. Nem gostava de gatos. Mas um dia, um colega do trabalho (trabalhavam num asilo de velhos) lhe pediu para dar uma carona para uma gatinha abandonada para o trabalho. No asilo havia um quintal e os velhos alimentavam alguns gatos.
No carro a gatinha começou a miar e Eliane começou a conversar com ela, uma fala meio cantada, meio canção de ninar. A gatinha se acalmou completamente e no trabalho começou a buscá-la. Minha leitora conta que se apaixonou perdidamente e instantaneamente. O que os franceses chamam de "coup de foudre". E tomou uma decisão ali na hora.Ligou para casa, falou com seu companheiro que daquele momento em diante teriam uma gata. Ele não gostou da ideia mas ela seguiu em frente.
Colocou Bubi (nesse momento já tinha um nome!) dentro da caixa, avisou que iria embora mais cedo e fez o caminho inverso. Colocou Bubi no banco fora da caixa. A gata começou a subir em seus ombros. Eliane pediu a gata que ficasse quieta. E para sua surpresa Bubi ficou quieta.
E para sua surpresa Bubi obedecia , bastava dizer não uma vez que nunca mais Bubi faria aquilo que não queriam.
Bubi saía para dar uma volta no pátio na frente da casa. E sempre que minha leitora ia ao portão chamá-la,  ela vinha.  Já era uma gata adulta.
Mas não se sabia que uma outra gata se achava a dona do pedaço. E que uma guerra já estava sendo travada entre as duas.
Então, numa tarde, Bubi não voltou. Eliane e seu companheiro a encontraram morta. Sua coleirinha destroçada. A outra gata a matou.
Conta minha leitora, que muitos anos e muitos gatos depois, ainda a vê e ouve seu miado e sente seu cheiro.
Bubi ensinou para a minha leitora o tamanho do amor que pode existir entre um humano e um gato.    

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

ELIAS CANETTI

Depois que minha professora de italiano , Celmar dos Reis, foi embora de Saquarema, não consegui mais ninguém para me dar aula de conversação.Mas vejo a RAI e leio. Não tenho com quem falar.
Já li alguns livros em italiano, alguns muito bons. Mas agora estou lendo um livro maravilhoso do Elias Canetti, La Lingua Salvata, onde conta as suas memórias da infância e juventude.
As histórias são belíssimas e sua escrita é limpa  e mexe com nossas emoções.
Para uma criança decifrar o mundo é tarefa gigantesca e Canetti consegue fazer com maestria, que o leitor sinta isso.
Entra muitas histórias escolho uma.
A família vivia numa pequena cidade na Bulgária. Eram judeus sefarditas, de origem espanhola. Os parentes moravam muito perto uns dos outros.
E de repente todos falavam que o mundo iria acabar por causa da aparição de um cometa, visível dentro de alguns dias. Os adultos tinham um ar consternado, de tristeza profunda. Olhavam para o pequeno Elias com pena e tristeza, coitadinho, tão pequeno e já perderia o mundo e a vida. Como o pequeno poderia entender isso?Sabia apenas que algo muito estranho e perigoso estava acontecendo.
E então chegou o cometa. Imenso, iluminando o céu, de uma beleza fulgurante e todos achavam que cairia na Terra. O pequeno Elias foi para fora, junto com a família. Havia já uma multidão. Ninguém prestava atenção na criança, todos com os olhos grudados no céu. Elias comia uma cereja e seu pescoço doía de tanto olhar para cima, tão extasiado, que sem querer engoliu o caroço da cereja. Para ele, o cometa Halley e o gosto das cerejas estariam para sempre interligados.
E o cometa não caiu na Terra e o mundo não acabou.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

FELICIDADE E JULGAMENTO

Hoje me deparo com um post publicado no facebook:

" Vivemos em um mundo onde somos julgados por tudo . Até por tentar ser feliz. "

Leio inúmeros artigos sobre as redes. Estamos nos expondo continuamente. Queremos ser lidos e vistos e aplaudidos. Dividimos nossas vidas com desconhecidos. Antes éramos julgados pela família e por um número muito restrito de conhecidos. Hoje a nossa rede se ampliou de uma maneira que nunca poderíamos imaginar . Acontece que em cada tempo estamos imersos em nosso tempo.Não dá para fugir disso. É bom ou ruim vivermos conectados desta maneira a tantos gente que não conhecemos? Não sei dizer. Nem temos distanciamento ainda para saber. É tudo muito novo. Sei que quando publico um poema inédito imediatamente sou lida por 100 pessoas, no mínimo. E sim, sou julgada. Quando escrevo algo que penso, sim, sou lida e julgada.É um risco.
A felicidade é outra questão complexa. Como definir a felicidade? É alegria, sensação de plenitude, desejos realizados? Como ser feliz neste mundo terrível, que parece às vezes um beco sem saída? Tenho direito de ser feliz enquanto milhares de pessoas vagam por aí fugindo de guerras?
Então, o que se faz para que esse julgamento não nos afete? Para que nossa busca prossiga já que a vida dos humanos é tão breve?  E já que faz parte do humano desde sempre buscar a felicidade, buscar o voo?
Penso num livro do meu escritor espanhol predileto Antonio Muñoz Molina, "Ardor Guerrero". Amo de paixão este livro. O autor está servindo o exército. Para sua sorte sabe escrever à máquina, então pode trabalhar num escritório, o que o salva de milhares de humilhações. Mas sobram algumas. Muitas vezes um sargento terrível entra no escritório, espalha papéis e terror, xinga, acaba com a auto estima dos dois. Ridiculariza cada um deles em suas incapacidades.  E seu amigo, o que trabalha junto com ele, que também é um apaixonado por literatura e consequentemente não cabe no exército, não se abala. Molina quase morre , quando o sargento sai ele está tremendo da cabeça aos pés. Então pergunta ao amigo como é que ele faz para não se deixar aniquilar. O amigo responde :
"_ Te cagas".
Assim, com a maior simplicidade. Você pensa: e daí?  que me importa?
Se não estou fazendo mal a ninguém não vou deixar que isso me afete. A minha consciência será sempre o meu juiz.  Em tempos de rede social temos que ter clareza em nossas buscas.                                                                        

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

DESENHOS E PALAVRAS

Nunca soube desenhar. Não tenho nenhuma imagem minha na infância desenhando e pintando.
Lembro que as aulas de arte no ginásio eram muito difíceis . Nada do que eu fazia dava certo ou era bom.
Mas sempre gostei de ler e escrever.
Então se não posso desenhar ou pintar tenho que fazer isso com palavras.
Mas quando escrevo um poema eu vejo e sinto em mim as imagens . Às vezes tenho que correr para que não se desmanchem. E isso é curioso. Por que sei dizê-las mas não sei desenhá-las?
Antes de olhar uma imagem busco a legenda. Meus olhos sempre serão atraídos pelas palavras.
Claro que gostaria de desenhar, deve ser maravilhoso ter esse dom.
Gosto do conto da Bela Adormecida quando cada fada oferece um dom para a menina que nasceu.
Também acho, como a Natália Ginsbourg no texto O Meu Ofício, do livro As Pequenas Virtudes, que escrever é o meu ofício, é o que sei fazer e escrevo com tudo o que tenho, tanto faz se escrevo para crianças ou adultos. Escrever é o meu melhor dom.
Escrevo com o corpo inteiro, as entranhas, a alma toda, tudo o que já vivi, tudo o que sonho e sonhei, com todos os meus desejos. Escrevo com tudo que já sofri. Mesmo que o poema seja um haicai, ali dentro coloquei meu sopro.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A VOLTA DO BABEL

Babel, nosso gato desapareceu por dois dias.
Babel está conosco há uns oito meses. Chegou caminhando pelo muro, tão pequeno, com fome, com sede.
Nana, nossa gata de uns 8 anos o acolheu. São muito amigos.
Luna, a gata persa de 17 anos, que tem um apartamento no jardim, pois não suporta a Nana, o ignorou solenemente.
Babel é nossa alegria. É um gato borbulhante, amoroso, engraçado.
E subitamente desapareceu por dois dias nos deixando a possibilidade horrenda de que nunca mais voltasse.
Entrei no limbo, virei zumbi. Eu e Juan ficamos muito muito tristes e extenuados com nosso sofrimento.
Então hoje voltou pela manhã restaurando a paz na casa e nos nossos corações.
 

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

MISTERIAR

Recebo uma crônica maravilhosa do escritor e amigo Flávio Carneiro. Me apaixonei, então divido com vocês .

                Se você é um cronista sem ideias, tenha filhos.
Claro, há formas mais práticas, e mais baratas, de encontrar assunto para uma crônica, mas essa é infalível.
                Me lembro do poema de Oswald de Andrade:
“Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi”
                Minhas duas filhas, tão pequenas ainda, me dão lições diárias de poesia. Recentemente escrevi aqui sobre a expressão que Luísa, a caçula, deixou como mensagem de voz no meu celular: de saudade com você.
                Hoje é a vez da Maria, que do alto dos seus seis anos me apareceu dia desses com o mais novo verbo da língua portuguesa. O verbo misteriar.
                Muito recente, o vocábulo ainda não entrou no dicionário. Mas deve constar em breve, talvez com a seguinte definição:
                Misteriar. [Do grego Mystérion, pelo latim Mysteriu, do marianês Misteriar e pronto] V. t.d. 1. Decifrar, desvendar um mistério. “Pai, você jamais vai misteriar isso, pode esquecer.” 2.  Descobrir onde alguém (uma filha) se esconde, ignorando os pés de fora, atrás da cortina.  “Pai, você misteriou muito rápido, assim não vale.”
Misteriar não é, portanto, como parece à primeira vista, criar, inventar algum mistério. Foi esse, aliás, o sentido que atribuí ao novo verbo quando o ouvi pela primeira vez. Não. Seria óbvio demais. Misteriar é justamente o contrário!
                Sherlock Holmes era um ótimo misteriador. Fera na arte de misteriar, o Sherlock. Poirot misteriava usando sua “massa cinzenta”, como gostava de dizer. Nos Estados Unidos da década de 30, época de Al Capone e companhia, o durão Sam Spade misteriava mais com a intuição do que com o cérebro (misteriava com os punhos também, se necessário).
                A verdadeira arte do detetive é a arte de misteriar. Se o fizer bem, ganha a vida. Se errar, corre o risco de não voltar para casa.
                Os antigos navegadores misteriavam rotas guiando-se pelas estrelas. Os modernos preferem o céu virtual. Uns e outros navegam por mares desconhecidos, misteriando conforme seus dotes, mestres, limites.
                Todo leitor é, antes de mais nada, um misteriador. Seguindo pistas, signos que insistem em mudar de lugar a cada releitura, o leitor vai misteriando um poema, um romance, muitas vezes sem se dar conta. A esse misteriar, que é sempre único, e que pode ser mais ou menos difícil, divertido, doloroso, o leitor chama de prazer. E, se é de fato um leitor, não pode viver sem ele.
                Crianças misteriam livros de uma forma muito particular. Podem segurá-los de cabeça para baixo, de trás para frente, sem a mínima noção do que vai escrito ali. Mas nisso estão misteriando, você pode ter certeza. E quando aprendem a ler, muitas vezes perdem a magia de misteriar um objeto sem saber o que de mais valioso (supõe-se) há dentro dele, misteriando apenas pelo olhar, pelo tato, se aproximando misteriosamente daquele objeto de papel que os adultos guardam na estante.
                Há misteriadores muito inteligentes, com sólida formação no ofício. Alguns são tão bons que deixam discípulos. Existem aqueles que estudam a vida inteira, dedicando décadas e décadas de existência a perseguir um único mistério, que nem sempre conseguem misteriar. Há misteriadores de todo tipo, em todas as áreas. Afinal, parafraseando Drummond, o que pode uma criatura, entre outras criaturas, senão misteriar?
Nenhum misteriador, no entanto, por mais esperto, talentoso ou genial que seja, vai alcançar o que se passa de fato na cabeça de uma menina de seis anos ao criar, como quem não quer nada, uma palavra nova, feita de pedaços de palavras antigas, tão fresca e saborosa como uma frutinha que não existe. 

Flávio Carneiro




segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

VISITAS DE LEITORES

Hoje recebo a visita de Edna Apollinario, uma leitora que não conheço. Ela vem de Mato Grosso.É muito longe.
Como descrever essa sensação?
Alguém que você não conhece leu algum poema que você escreveu, esse poema entrou na corrente sanguínea dessa pessoa e ela precisa te conhecer.
Lembro quando Juan me convidou para irmos juntos fazer a entrevista em Lanzarote com Saramago. Eu havia lido alguns livros dele e tinha medo deste encontro.
Lembro quando conheci o Gullar. Não queria conhecê-lo. Era meu poeta amado. Tinha muito medo.
Conheci Vargas Llosa, sou muito fã. Tomamos um café da manhã juntos e fiquei com tanta vergonha. Não tive a sorte de conhecer o Gabo. acho que me esconderia dentro do armário. Mas conheci a Clarice Lispector. Tinha muito medo dela, Tremia de medo. Eu era muito jovem, uma menina. Quem teve a sorte de ser queimado pelo olhar da Clarice nunca será a mesma pessoa. Cada linha que Clarice escreveu queimará como fogo.
Espero nunca decepcionar alguém quem vier até a minha casa para me conhecer.  

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

SOBRE GATOS

Hoje uma leitora que não conheço me contou uma história linda.
Conheceu uma senhora de mais de 80 anos na rua. A senhora lhe contou que escrevia, apesar de ter estudado muito pouco.
E lhe mostrou uma história.  Uma história de gatos. Disse que seu maior sonho seria publicá-la.
Então ela resolveu organizar uma antologia de contos e crônicas sobre gatos e buscar recursos para publicar.
E me fez o convite: que eu escrevesse alguma coisa sobre o Babel, meu gato.
Eu já havia escrito um conto lindo, nos anos 90, sobre a Babel, gata. Babel foi embora para o planeta dos gatos e hoje temos o Babel em versão masculina.
Pois bem, agora tenho esse desafio.
Gosto muito de desafios. 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

VISCONDE DE MAUÁ

Venho para Mauá desde 1974. Acampei aqui a primeira vez quando meu filho menor tinha seis meses. Foi amor fulminante.
Compramos nossa terra quando tudo por aqui era pasto e a terra não valia nada.
Aos poucos reflorestamos. Aos poucos os passarinhos e o vento eram nossos parceiros no reflorestamento. Visconde de Mauá virou APA. E os pastos viraram mata. Morei aqui em vários períodos da minha vida. Quando os meninos eram pequenos vivemos aqui por três anos. Depois quando me separei morei aqui por mais um ano e meio. Mas sempre passei largos períodos aqui.
Então já são mais de 40 anos a minha convivência com este lugar.
Sinto que aqui se encontra a fonte do meu ser. A fonte da minha poesia.
Minha casinha fica na beirada da mata. E eu simplesmente viro árvore. 

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

INDIGNAI-VOS

O que estamos assistindo no Brasil pede a leitura outra vez do pequeno livro de Stéphane Hessesl, Indignez Vous, Indignai-Vos. Um chamamento , um pedido para que nos indignemos diante dos fatos, dos absurdos que o Estado comete, do abuso de poder, da falência da dignidade.
É indigno que pessoas que estão em altos cargos confundam vida pública com vida privada. Que gastem rios de dinheiro com aviões privados e helicópteros, quando a população não dispõe de uma rede decente de transporte público.
A indignação não deve escolher partidos. A mesma decência deve valer para todos. A palavra chave para quem está no poder deve ser austeridade, pois parcelas imensas da população estão sem receber seus salários, então qualquer abuso é indecente, é uma afronta.
Política não é jogo de futebol quando se torce para este ou aquele time. Política é a orquestração de uma sociedade para o seu bem estar. Quem quer que esteja no poder, de qualquer partido, deve ser vigiado, nada justifica enriquecimento ilícito, roubos, privilégios, mentiras. Somos nós quem pagamos seus salários .
Os fins não justificam os meios. E se existe uma lei que concede privilégios incompatíveis com a dignidade, melhor ignorar a lei.
O pequeno livro manifesto levou milhares de pessoas para as ruas na Europa. É necessária a sua releitura. É urgente.

"O livro “Indignai-vos” faz parte da coleção “Ceux qui marchent contre le vent” (Os que andam contra o vento), da editora Leya e é leitura recomendada para os estudantes de Direitos Humanos. Quem o escreve é  Stéphane Hessel, militante da resistência francesa, diplomata e ferrenho defensor dos direitos humanos. Detentor de uma biografia riquíssima, Hessel, nascido em Berlim, em 1917,  falecido, em fevereiro de 2013 foi um dos redatores da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948).Em seu manifesto, exalta a indignação como motivo para a resistência, repudia o medo e o egoísmo, critica a indiferença em relação aos excluídos, especialmente aos palestinos, em Gaza, o abismo entre as classes e conclama a todos que, de modo pacífico, em qualquer local do planeta, se indigne e reaja frente a alguma injustiça,  apenas pela singela condição de sermos humanos."

Resenha de Thaís S. Ruiz Bichler

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

MÁQUINA DO TEMPO

Vou relendo devagarinho as Memórias de Adriano e para meu deleite releio em francês.
O livro é de uma beleza tão fulminante que realmente a leitora jovem que eu era não poderia alcançar.
Leio devagarinho mesmo pro livro durar.
Adriano foi o Imperador que buscava a paz.
Como é difícil  paz, essa palavra tão pequena e grande.
Tenho um livro que se chama Qual a Palavra? É um longo poema sobre a palavra paz. Só isso. E acho bonito.
Pois, bem, eu estava em Sevilha em 1994 para receber meu certificado do I..B.B.Y e conheci uma editora israelense. Resolvi traduzir meu livro para que ela pudesse ler. Ela sabia francês.Passei para o francês e Lino Albergaria corrigiu, ele havia estudado em Paris. A editora levou meu texto para Israel.
Muito tempo depois recebi uma carta sua. Ela me dizia que meu livro era lindo mas que em Israel já existiam muitos livros sobre a paz.
Uma das guerras que Adriano fez foi contra os judeus. Ele não podia entender aquele povo obstinado em ter um único Deus quando Roma oferecia construir os mais belos templos para os mais variados Deuses..
Mas enfim, nada mais difícil do que a paz hoje no mundo. Sempre. Desde sempre.
O que há de errado com a raça humana? Capaz de chegar até as mais altas expressões da beleza e capaz de destruir com tanta violência o seu semelhante. Este é o maior dos enigmas..

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

2016

Se não acontecer nenhuma tragédia nas nossas vidas, os anos , feitos de dias e noites  sonhos e insônias, são a mistura de tantos momentos e quando olhamos para trás, às vezes nossa vida parece um romance bastante fragmentado.
O Brasil atravessa dias duros, recessão, desemprego, professores e servidores sem receber seus salários.Mas esperamos que a economia melhore, que tudo melhore.
Neste ano, em agosto, meu marido Juan Arias ficou oscilando entre o nosso mundo e o outro, passei 18 dias morando no hospital e joguei xadrez com a morte. Ganhamos. Minha família e alguns amigos maravilhosos foram o meu pão, meu alimento. Agradeço ao Cristiano Mota Mendes, meu maisqueamigoirmão, Monica Botkay, Bia Hetzel, Silvia Negreiros, William Amorim.  Neste ano, apesar da maioria dos meus amigos pensar politicamente de uma maneira diversa da minha, não perdi nenhum amigo, não bloqueei ninguém por ter posições e pensamentos diferentes dos meus. Basta ver como os políticos que ontem eram inimigos, hoje se defendem entre si e se abraçam. Não vale a pena perder amigos por política. Políticos passam.
Neste ano não consegui publicar nenhum livro, foi um ano muito duro para as editoras, para a cultura de um modo geral. Mas encontrei um atalho, um caminho como aqueles que existem dentro da mata, meio escondidos e que vão dar numa clareira. Os meus e books Livros e Leitores e Delírios, pouco a pouco vão conseguindo leitores e para 2017 tenho algumas publicações em papel. E uma coletânea nova de poemas para virar ebook ano que vem no segundo semestre.
Neste ano conheci pessoas maravilhosas e amizades se fortaleceram, Meu projeto Café, Pão e Texto deu um grande sentido para a minha vida.Neste ano fiz viagens incríveis para apresentar meus livros e falar de leitura.
Então talvez o segredo deste romance de milhares de páginas que é a nossa vida, seja mergulhar profundamente nos sentimentos, viver a vida como a mais perigosa e emocionante das aventuras e tudo de bom ou de ruim pode acontecer.
Espero que em 2017 aconteçam só coisas boas para todos nós.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

ENGOLINDO CÉU

Hoje foi dia de ganhar lindos presentes. De Delmino Gritti, um apaixonado por poesia com vários livros sobre o tema publicados, recebo um arquivo belíssimo. Copiei algumas frases do Manoel de Barros falando de poesia. É de gritar!
O poeta lê o mundo de um ponto de vista insólito ou encantado. Ele transvê o mundo”. (Manoel de Barros)

Os andarilhos, as crianças e os passarinhos têm o dom de ser poesia. Dom de ser poesia é muito bom. (M. de Barros)

Uma árvore bem gorjeada, com poucos segundos, passa a fazer parte dos pássaros que a gorjeiam. (Manoel de Barros)

O sentido normal das palavras não faz bem ao poema. Há que se dar um gosto incasto aos termos.  (M. de Barros)

Minhocas arejam a terra; poetas, a linguagem e a vida. (Manoel de Barros)

Os grilos de olhos sujos se criam nos armazéns. (Manoel de Barros)

Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina. (Manoel de Barros)

A quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso. (Manoel de Barros)

Há nas árvores avulsas uma assimilação maior de horizontes. (Manoel de Barros)

Escurecer ascende os vagalumes. (Manoel de Barros)

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma e que você não pode vender no mercado como, por exemplo, o coração verde dos pássaros serve para a poesia. Tudo aquilo que a nossa Civilização rejeita, pisa e mija em cima serve para a poesia.  (M. de Barros)

Aquele que não morou nunca em seus próprios abismos nem andou em promiscuidade com seus fantasmas não foi marcado. Não será marcado. Nunca será exposto às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema. (M. de Barros)

As coisas que não levam a nada têm grande importância para a poesia. Pessoas desimportantes dão para a poesia. O que é bom para o lixo é bom para a poesia.
                                                                                                                                                                                                                     (M. de Barros)

 Poesia é a loucura das palavras. O poeta é mais a palavra com febre, decaida, fodida em sarjeta. O poema é antes de tudo um inutensílio. (M. de Barros)

O sabiá, uma pequena coisa infinita do chão. Nas fendas do insignificante ele procura grãos de sol. Seu canto é o próprio sol tocado na flauta. (M. de Barros)

Poeta, individuo que enxerga semente germinar e engole céu. Espécie de vazadouro para contradições. Sabiá com trevas. Sujeito inviável, aberto a desentendimentos como um rosto. (M. de Barros)

Trapo- andarilho-mendigo: pessoa que tendo passado muito trabalho e fome, deambula com olhar de água-suja no meio das ruínas. Quem as aves preferem para fazer seus ninhos. Diz-se também de quando um ser humano caminha para o nada. (M. de Barros)

E me chegou pelo correio dois livros de uma escritora que na minha santa ignorância eu nunca havia lido, Cristiane Lisbôa. O primeiro que estou já terminando se chama Duas Pessoas são Muitas Coisas e o segundo Papel Manteiga,. A editora é Memória Visual. 
O mais incrível é que veio junto um cartão lindíssimo de uma pessoa chamada Vera. Mas não me lembro quem é. Veio assinado sem sobrenome. Vera, se você estiver me lendo, me avise, pois estou encantada com o primeiro livro. É lindo, leve,sua escrita tão interessante e poética. Estou amando! As receitas que estão trançadas com a narrativa são maravilhosas. E quero agradecer.
Levo os dois para a montanha (parto amanhã em dois ônibus e um carro, embora preferisse ir de Pégaso) e mais o livro da Elvira Vigna, Em Palimpsesto de Putas, que também me chegou pelo correio com dedicatória (ganhou o A.P.C.A) e que também já comecei e que é um livro duro, desses que machucam, assim são os romances da Elvira. .Elvira dói. Deixa a gente em carne viva.
Como podem ver, estes presentes já estão no coração. E começa bem o Natal.
Segundo a definição para poeta do Manoel de Barros, eis o que sou: indivíduo que enxerga semente germinar e engole céu. Vou para a montanha engolir céu e virar árvore, como sempre.

domingo, 18 de dezembro de 2016

E TUDO VOA

E tudo voa ao meu redor. Borges disse numa entrevista e escrevi dentro de mim: Para o escritor a vida é a sua matéria prima, então nada pode ser descartado. Nem alegrias nem tristezas, nem momentos sublimes, nem momentos da mais profunda dor.
E eu voo junto, já que a Terra não está parada. Tudo sempre em movimento.
Apanho em pleno voo uma palavra, uma imagem, uma sensação, uma lembrança, um sentimento e faço o poema. Que às vezes se comporta como um gato:  vem quando não chamo e quando chamo não vem.
Em algumas épocas duras da minha vida escrevi muito e isso me ajudou. Em outras a poesia me desabitava e tudo ficava muito pior.
O poema é um jeito de respirar? É o meu diafragma, existe dentro de mim mesmo quando não é escrito?
Li e me apaixonei quando tinha 23 anos pelo poeta Jules Supervieille, porque ele retira todas as coisas do chão. Mesmo a sua rua em Paris, Boulevard Lanne, vai parar no céu. E pelos quadros do Chagall pelo mesmo motivo. Então entendi que a minha poesia sempre quer fugir pro céu, sempre quer voar.
Às vezes levo meu leitor junto, e como na música do Coltrane, A Love Supreme, essa é a felicidade suprema, quando alguém voa junto comigo.

sábado, 17 de dezembro de 2016

EÇA DE QUEIRÓS

Quando decidi que leríamos Eça , A Relíquia e As Cidades e as Serras, Rafael, do nosso grupo me disse que sua amiga Monica Figueiredo, professora de literatura portuguesa da UFRJ, certamente gostaria de vir. Ela é especialista em Eça. Como ela mesma nos disse hoje, Eça é o seu homem.
Devo confessar que estava nervosa e com medo. Nossas discussões são afetivas e não seguimos nenhuma linha.
Rafael me acalmou ontem. Ele me disse, a Monica é maravilhosa você vai ver.
Como é dezembro faltou muita gente, mas mesmo assim a sala estava cheia. E Monica começou esbanjando tudo, charme, simpatia, ironia. Monica fala com paixão e com o corpo todo, além de ser íntima de cada suspiro do "seu homem", de quem ela não esconde os "defeitos". Começou nos dizendo que o século XIX ainda não acabou e nos colocou politicamente nesta época de tantas mudanças. Falou do declínio de Portugal, das vertentes literárias e começou nos contando, como ela mesmo disse, histórias de "cozinha", os bastidores, as fofocas. Falou do estranho nascimento de Eça, que só foi reconhecido aos 40 anos pela mãe, ou seja, era reconhecido pelo pai mas não pela mãe! Falou da sua vida desastrada, das suas idas e vindas, de como fez sozinho um jornal inteiro e como O Crime do Padre Amaro fez sucesso imediato. Como era um escritor que reescrevia mil vezes o seu texto, extremamente zeloso e consciente do seu talento. Falou da crítica negativa de Machado de Assis, e oh que delícia, falou que certamente essa crítica foi movida por uma certa inveja de Eça que lhe atrapalhava as vendas com seu sucesso e que esse fato, a crítica negativa, ajudou ainda mais o sucesso do livro. Ao nos colocar no século XIX, Monica chamou a atenção para o leitor do século XIX, um leitor burguês, lendo um romance burguês: exatamente como nós.
A Relíquia, todos sabem, é um romance que tira qualquer leitor da depressão. Se alguém estiver triste, abra A Relíquia em qualquer página e a tristeza se dissipará imediatamente. O livro é  debochado e demolidor. Eça ridiculariza tudo e escreve tão magnificamente que sentimos os cheiros, ouvimos as vozes, andamos pela antiguidade na viagem mais inesquecível, na cena do sonho. Voltamos com a certeza absoluta de que estivemos lá, naquele dia, há dois mil anos atrás.
A trama mirabolante da troca dos embrulhos tendo como consequëncia a perda da herança, também é perfeita. E o que dizer do ridículo que são as relíquias? Falamos da maravilha que são as personagens femininas do romance, as prostitutas incríveis do Eça. Falamos da perfeição que é a personagem da titi.
Enfim, aplaudimos de pé.
Monica nos disse que As Cidades e as Serras era um romance mais problemático por ser póstumo e mexido por Ramalho Ortigão na parte das serras.
Talvez Eça não tivesse sido tão romântico e bonzinho no final. Eça não era bonzinho. Mas é também um romance maravilhoso. Como Eça foi profético! Ele já anuncia a nossa terrível sociedade de consumo, a nossa frivolidade de possuir coisas inutilmente. E as cenas do livro são tão cinematográficas. Os passeios por Paris, aquela nobreza decadente, o vazio, o spleen do fin de siècle, está tudo ali. Destaque para a cena do peixe entalado no elevador.
E Monica ressalta um ponto muito importante, a salvação do Jacinto vem pelo trabalho. É o trabalho que lhe dá outra existência. Fala também da crítica social, da descoberta por Jacinto da miséria e de seu desejo então de consertar o mundo.
Falamos das comidas maravilhosas no romance, nos dois romances.
Fechamos o encontro com a leitura de poemas de Fernando Pessoa.
Trocamos livros como presentes de Natal.
E fomos para a mesa, Eça nos deu fome: escondidinho de aipim com carne seca, empadão de legumes, abóbora , arroz, salada. Fernando ofertou brownies artesanais e os proseccos , Ângela trouxe lindos presentes,
Hoje tivemos a volta do Paulo e o ingresso de Renée, minha prima e seu marido. Minha tia Alice, a última da sua linhagem, imã da minha mãe, veio e adorou.
Eu e Felipe fomos os aniversariantes presentes, já que Cristiano e Ana não vieram.
Monica, nossa convidada, ficou muito impressionada com a duração do Clube, já são mais de 6 anos e já somos uma família. Vida longa para nosso Clube, que é uma das maiores alegrias da minha vida.
Que pessoas se juntem para falar de livros e festejar a vida, é um acontecimento.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

FIM DE TARDE FIM DE ANO

É estranha e interessante essa energia de fim de ano. Penso nisso aqui sentada no fim da tarde.
Este foi um ano duro: recessão, desilusão com os rumos políticos, de ambos os lados. Descobrimos um Brasil abjeto, sabíamos da sua existência, mas agora todos os holofotes se acenderam e não podemos mais fingir que a lama não está aí. De certa maneira estamos todos contaminados.Os políticos nos contaminam com suas ações vergonhosas.
Mas mesmo assim, a energia desse fim de ano, de todos os finais de ano, é algo diferente. Há uma pressa, uma espécie de frenesi, há um vaivém, há uma urgência , como se fôssemos perder o trem, a carruagem, o navio, um grande encontro.
Penso nos meus amigos. Quase todos dispersos por este mundão de Deus. Queria nomeá-los todos. Os antiquíssimos, os novos, os que estão sempre em meu coração, em meus pensamentos. E agradecer. Porque o que nos sustenta a cada minuto é o dom da amizade. Saber que mesmo longe eu habito outras pessoas que por alguma razão possuem um laço comigo, isso me ajuda a viver .Porque viver, todos sabem, é muito perigoso. Gostaria de juntá-los todos, como num sonho, numa grande festa. E então seria a festa de fim de ano mais bela do mundo.
 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

NATAL

Mas de verdade o que é o Natal? O espírito natalino não seria um entrelaçamento-entendimento entre todos?
Há uma atmosfera tão carregada neste dezembro. Todos gritam. Não haverá trégua.
Vi um filme muito lindo, não me lembro o nome e me chega agora pelos caminhos estranhos das lembranças, é um filme francês.
No interior da França um velho e sua filha pianista são obrigados a receber um oficial nazista.
O nazista ouve a moça tocar. Se emociona. Para no umbral da porta e fala com ela. Fala que ama a música. que é músico, que não queria estar na guerra. Ela não responde. Ela nunca responde.
Seu pai também nunca responde.
Mas dia por dia ele fala com a moça ao chegar a casa. Ao ouvi-la tocar. Ela não responde.
Ela nunca responde.
Ela é da Resistência. Numa manhã, há um carro que espera fora da casa. O hóspede e vários oficiais estão juntos para embarcar. No último minuto ela o chama e ele então não entra no carro. Que explode. Então eles fizeram isso um pelo outro. Ela salvou a sua vida. E ele agradeceu em silêncio e não a denunciou ou matou.
Para mim isso seria o espírito natalino.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

PROFESSORAS

Recebo professoras em minha casa, no Projeto Café, Pão e Texto. Neste ano fui homenageada por Itaboraí e lida em mais de 80 escolas. Recebi muitas e muitas professoras. Maravilhosas. Guerreiras. Incansáveis.
Agora me contam um pouco do seu desespero. Não recebem o salário desde outubro. E também em outros municípios essa triste história se repete.
Fica registrado o meu espanto. Se não pagarmos o aluguel recebemos uma ordem de despejo. Se pegarmos algo de graça no supermercado vamos presos. Se adoecermos mas não pudermos comprar o remédio necessário pioramos, etc, etc, etc. Então, como assim, é permitido não pagar o salário aos professores?
O professor e a professora são responsáveis por nossas escolhas, nossos rumos, quando, ainda crianças a vida é descoberta Ninguém é mais importante do que um professor. Talvez eu escreva porque Rosa Hermann acreditou em mim, minha professora da quarta série. Talvez tenha publicado meu primeiro livro porque Sandra, professora do meu filho amou os poemas.
Em que mundo estamos vivendo?

domingo, 11 de dezembro de 2016

VERÃO

Na minha infância morei no bairro Grajaú, na Rua Caruaru 40, na zona norte do Rio de Janeiro.
Era um sobrado amarelo. As casas onde vivemos nos primeiros anos de nossas vidas são indestrutíveis, embora não existam mais. Já disse Drummond.
O verão sempre me pegava desprevenida e me jogava num atordoamento.
Hoje o verão me traz a casa da minha infância. O ar está grosso, quase irrespirável aqui em Saquarema e nos dezembros da minha infância. E ela me aparece quase palpável. Feito miragem ou alucinação por causa do calor.
Naquela época a grande felicidade de dezembro eram as férias, que eram longas. E meu aniversário que sempre me traria algum presente.
Não tínhamos Natal, éramos judeus. Cresci sem espírito natalino.
Agora toda a minha existência é de outra matéria. É feita de livros. De palavras. É dezembro, faz um calor insuportável e vou buscar algum conto russo para sentir um pouco de frio.  

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

ELVIRA VIGNA

Acabo de saber que Elvira Vigna ganhou o Prêmio A.P.C.A por seu último romance "Como se estivéssemos em palimpsesto de putas".
Sinto uma alegria selvagem e telefono para Elvira, que me diz na sua simplicidade:
- Isso não tem a menor importância.
Nós nos conhecemos desde 1978, eu acho. É dela a primeira edição do meu livro Fardo de Carinho, que voltou a ilustrar tantos anos depois.
Somos pessoas reclusas, nós duas. Somos avessas a todo o burburinho social.
Eu sempre vivi bem retirada e Elvira também e hoje, no telefonema, falamos disso.
Das nossas esquisitices, das nossas bizarrices.
Faz pouco tempo um amigo me disse que eu pareço uma mulher francesa irritada, às vezes. Elvira nem se fala.
Vivo em duas casas, em dois lugares fora de grandes centros, sem nenhuma vida social. Saquarema parece um mosteiro ou um templo. Aqui sou regida pelo mar.
Na montanha vivo dentro do bosque. Sou regida pelas árvores. E nas duas casas, nos dois lugares, vivo para fazer poesia, mesmo quando não estou escrevendo. Isolamento maior impossível.
Quis falar disso e escrevi um texto muito bonito que se chama DUAS CASAS.
Elvira ilustrou e faz dois anos, por conta da crise, o livro espera a chance de sair, pela Lê Editora.
As ilustrações da Elvira são belíssimas, como sempre. E ela amou meu texto, como sempre.
Esta semana recebo a boa notícia de que o livro deve sair no primeiro semestre de 2017.
Elvira também ilustrou lindamente meu e book Livros e Leitores. E o livro já está com 977 visualizações.Logo chegará a 1000, e claro, vou abrir um vinho para festejar, pois estou apostando nesse novo caminho. Pescar leitores não é como pescar peixes. E eu jamais seria uma boa pescadora: sou ansiosa e impaciente. Com minha ansiedade e impaciência às vezes cometo erros fatais. Mas os leitores estão chegando e eu e Elvira estamos juntas nessa pescaria.
Natália Ginzburg diz no livro  As Pequenas Virtudes, que se o escritor não escrever a sua verdade o leitor descobrirá. Escrevo com tudo o que tenho, com tudo o que sou. E o meu leitor sabe disso.  

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

MAESTRO MOISÉS

Conheci o Maestro Moisés na E.M Castelo Branco aqui em Saquarema. Dei um nome para o Coral que o Maestro dirigia: Escola que Canta.
Depois o Maestro foi embora. Está em Búzios com um belo Coral de meninas.
O trabalho do Maestro vai além, muito além da música. Ele resgata a auto estima dessas jovens. Ele faz com que se sintam importantes, quando às vezes elas chegam de realidades muito complicadas.
A alegria do Maestro Moisés é dourada e sua alegria e seu amor pela vida é um convite.
Hoje conversávamos.
Ele me conta: No dia 21 fará uma caminhada musical com as suas meninas por Búzios desejando Feiz Natal e esperança para o próximo ano.
Ele me diz:"Vamos fazer a nossa parte! A vida não basta... por isso existimos! Poesia e Música.".
Claro, o mundo está horrível. Mas a gente não desiste. Vai trabalhando no pequeno, aranhas laboriosas, abelhas fabricando mel...
Tenho o sonho de que o Maestro possa voltar para Saquarema. Que trabalhe nas escolas. Que possamos juntar nossas vontades , misturar nosso pó de pirlimpimpim e fazer isso : Leitura e Música. Já vou fazendo minhas bruxarias e poções mágicas para que isso aconteça.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

DELÍRIOS

Há muito tempo publiquei o primeiro e book em meu site. Era uma coletânea de poemas para adultos, que fiz a partir de desenhos de Elvira Vigna. Chamei de Variações sobre Silêncio e Cordas. Ganhei uma resenha maravilhosa  no Prosa e Verso . Ganhei muitos leitores e alguns elogios de peso. Foi lido em escolas, em turmas do EJA e Ensino Médio. Fiz tudo sozinha, Elvira me deu os desenhos de presente e o acesso é grátis.
Depois fiz um e book para crianças com Caó Cruz Alves.
E o Livros e Leitores, novamente com desenhos da Elvira, onde conto a minha trajetória de leitora e poeta.
E agora entra no ar meu e book DELÍRIOS. São 33 poemas com uma linda apresentação do grande poeta José Salgado Maranhão.
Os desenhos são da minha irmã Evelyn Kligerman, ceramista e escultora. Ela fez placas de cerâmica, desenhou sobre as placas, quebrou as placas para conseguir os efeitos que queria, criou texturas e fez o designer gráfico. Meu cunhado Luis Mérigo, fotografou e fez a montagem e Gabriel Duarte criou o movimento. O efeito é belíssimo, maravilhoso.
Por que estou criando essa linha de e books com acesso livre para todos?
É simples. Quero leitores. O livro pode ser aberto no computador, tablet ou smarphone. No compútador ele tem movimento, e é muito mais bonito, mas no celular ou tablet, está em PDF.
Claro que também gostaria de ter o livro em papel, por uma boa editora. Mas entre ficar com meus poemas no cofre ou colocá-los ao alcance de qualquer leitor com um simples clique, optei por esse novo caminho.
É um caminho alternativo e preciso do meu leitor para ter êxito. Preciso de você.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

A MALA CHEIA DE LIVROS

Estou novamente arrumando a mala para a montanha, Visconde de Mauá. Viajo amanhã bem cedo e gostaria imensamente que já tivessem inventado algum meio de transporte mais , digamos, interessante.
São dois ônibus e um carro. Muito melhor seria ir de vassoura voadora ou quem sabe, teletransporte. A gente pensava aqui e já estava lá.
Levo a mala cheia de livros. Os Delírios para o lançamento dia 29 e os que estou lendo.
Ontem terminei de ler o Um Mapa Todo Seu, da Ana Maria Machado, sobre Eufrásia Teixeira Leite e Joaquim Nabuco. Uma mulher bem impressionante para a sua época. Então, este não preciso levar. Já está dentro de mim. Ontem passei o dia inteiro no século XIX. Era muito difícil ser mulher e Ana faz uma reconstrução preciosa desse tempo.
Mas comecei a reler Memórias de Adriano da Marguerite Yourcenar e estou AMANDO reler este livro maravilhoso.
Levo o livro do Rafael Cardoso, Os Remanescentes, que me fará mergulhar pela milésima vez em minhas raízes, pois é a história do seu bisavô, a história do Holocausto, dos refugiados. O livro O Inferno Dos Outros , do David Grossman,  escritor israelense, fantástico, de quem lemos no Clube de Leitura Alguém Para Correr  Comigo e finalmente os dois livros do Eça de Queiróz que vou reler para o nosso encontro do Clube no dia 17 de dezembro: A Relíquia e As Cidades e As Serras. Amo os dois.
A mala vai pesada. E estou tão feliz com o meu lançamento que será uma grande festa junto com a família e os amigos.

 

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

AMIGOS

A Professora Jaline da Silva inventou um bingo para seus alunos com pedaços dos meus poemas . Mas há uma regra: todos os poemas falam de amigo.
Para mim a amizade é sagrada. É o vínculo mais forte que há. Uma paixão se apaga. Uma paixão faz sofrer. Mas o amor da amizade é feito de outra matéria. É uma chama que ilumina o dia e a noite, é uma âncora em porto seguro, é a árvore que quanto mais antiga,  mais maravilhosa. E algumas amizades , mesmo que novas, são antigas. Logo as recobre uma pátina de compreensão mútua.
Talvez por isso tenha feito tantos poemas sobre essa espécie de amor que é a amizade, onde a aceitação do outro sem que se queira modificá-lo é a única lei.
Tenho amigos de todas as espécies, de todos os jeitos. Sei que são meus amigos porque se preciso estão presentes, porque me adivinham, porque me amarraram com cordas fortíssimas nas linhas de suas mãos.
Grande parte dos meus amigos está longe. Mas o que é a distância se temos a telepatia, o coração e toda a tecnologia ?


AMIGO

que um amigo se reconheça
sempre
na face de outro amigo
e nesse espelho descanse
seus olhos
e derrame sua alma
como a crina de um cavalo
levemente pousada no vento

In Poesia Essencial, Ed. Manati

terça-feira, 22 de novembro de 2016

UM JARDIM DE PALAVRAS

Recebi os presentes mais lindos dos adolescentes da EMAFA de Cachoeiras de Macacu, alunos e alunas da Professora Jaline Silva, hoje, em nosso Café, Pão e Texto.
Eles criaram um jardim especialmente para mim.
Sãos os "Dez motivos para ofertar flores à Roseana Murray (se pudéssemos lhe ofertar flores para cada motivo que temos para amar você e a sua poesia, lhe daríamos...)

1 - Rosas... pela maneira sensível de você ver o mundo...
2 - Dálias... pela sua criatividade poética que nos envolve...
3 - Margaridas...pela sua generosidade em compartilhar conosco suas inspirações e sentimentos...
4 - Girassóis... por você ser uma pessoa que irradia energias positivas...
5 - Tulipas... por ser a poesia a sua verdadeira casa...
6 - Camélias... pela delicadeza com que escolhe as palavras que irão nos tocar
7 - Cravos... pela pureza de cada verso com o qual nos presenteia
8 - Lírios... por encontrar tanta riqueza na simplicidade cotidiana...
9 - Petúnias... por encher nossas vidas de um colorido especial...
10 - Orquídeas... por nos receber de braços abertos em sua casa e nos acolher com tanto carinho e infinita poesia.

Cantaram meus poemas, dançaram meus poemas, me encheram de amor.
A minha emoção é maior que o mar.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

UM ALMOÇO ESPECIAL

Para amanhã começo a preparar um almoço muito especial. Vou receber os alunos da Professora Jaline Silva, da oitava série, de Cachoeiras de Macacu. A E.M.Almerinda Ferreira de Almeida.
Essa escola encerra o Café, Pão e Texto de 2016.
Por ter recebido uma carta de uma aluna, onde todos os outros alunos assinam, com uma carga de emoção imensa, resolvi, ao invés do café da manhã, fazer um almoço de despedida, onde a varanda se transformará num restaurante, pois aluguei mesas e cadeiras.
É uma grande tarefa, receberemos mais de 30 pessoas. Mas virá uma merendeira para nos ajudar. E também alguns professores.
Um dos meus desejos para 2017 é que tenha escolas para que meu projeto possa continuar.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

AMOR

Hoje um amigo me disse : o amor é a única vacina para esse tempo de tanto ódio.
E no entanto, todos queremos amor, todos queremos ser amados.
Quando fomos a Lanzarote, nas Canárias, eu e Juan, fazer uma longa entrevista com José Saramago, Pilar nos disse: "José escreve para ser amado".
É mais fácil amar que odiar. O ódio dá trabalho. Gera muita confusão nas oficinas do ser. Confusão e barulho.
O amor gera mergulho e silêncio e poesia.
Prefiro o amor.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

VIAGENS

Começam a se esboçar as primeiras viagens para o ano que vem.
Ainda são esboços, mas já trazem em seus traços o gosto da aventura, como ao olharmos uma pera na fruteira, já antecipamos seu gosto de nascente.
Então olho o mar e logo ali, atrás do horizonte, um Barco a Vela me espera, um Pégaso, um Tapete Voador.

BAGAGEM

Como desembaraçar
os fios,
os rios,
oceanos, montanhas,
as linhas do passado
e as teias do futuro?
Como entender
as setas
e os instrumentos
que afinam o tempo?
De que matéria,
de que vento
o mapa escrito
na pele,
na fronte,
onde a fonte
que acende as palavras?
Tudo,
as sombras,
as sobras,
são a bagagem do viajante?

Poema inédito.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

ESPANHOL

Somos uma ilha de português num mar de espanhol por todos os lados.
Cada vez que faço um Café, Pão e Texto, Juan, meu marido que é espanhol, diz: Buenos Dias e eles repetem.  E querem mais. ADORAM!!!
Todos sabemos que uma criança aprende uma língua brincado, de um minuto para outro.
Então fica a pergunta tão simples: Por que nenhuma criança sai falando espanhol das escolas quando termina a quinta série? Por que não sai falando nenhuma língua estrangeira?
Somos América Latina. Por que se optou por ensinar inglês e não espanhol, mas ninguém sai falando inglês tampouco?

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

MACONDO

Chove em Saquarema como em Macondo.
Chove em Visconde de Mauá, onde mora a metade de mim, sem parar, desde muitos dias. Minha família fica enviando notícias. Caiu uma barreira na estrada Resende -Mauá.
A chuva tem um efeito hipnótico, como o fogo.
Mas enquanto o fogo nos acorda, a chuva constante nos adormece. Nos conduz para um estado de semi vigília, para o reino da nostalgia, as cores se apagam, há uma bruma que vai também apagando as fronteiras entre o que é hoje e o que é sempre. E parece que nunca , nunca mais, vai parar de chover. Faço um poema cedo de manhã e logo em seguida me mudo para Macondo, onde estou vivendo agora algumas horas do meu dia, enquanto releio maravilhada, Cem Anos de Solidão.Como disse meu grande amigo Cristiano Mota Mendes, As Mil e Uma Noites Caribenhas.

A chuva me diz memórias
que flutuam
por sobre os telhados
encharcados, escorregadios.
Me diz melancolia
e folhas pisadas
e as horas que escorrem
feito água
ninguém sabe para onde,
para que desvãos.
A chuva toca seus sinos
na manhã que ainda
é fino esboço quase aquarela.
E as mãos buscam sol.

domingo, 13 de novembro de 2016

POETAS

Alguns poetas nos acompanham para sempre, onde quer que estejamos, fritando um ovo na cozinha, andando no bosque, lendo sobre o massacre no Congo. E nos ajudam a viver.
Alguns poetas, entre os inúmeros poetas que amo, me chegaram da maneira mais linda.
 No que seria hoje o quinto ano, naquela época o último ano do ginásio, ganhei um livro de poemas do Vinicius da minha professora Rosa Hermann. Foi um grande encontro. Abriu meu coração para a poesia.

Muito jovem, quase menina, apareceu em minhas mãos, não sei como,  o Romancero Gitano do Lorca,  Era um livro bem pequeno com uma rosa vermelha na capa. Uma rosa que era um incêndio. E fiquei tão abalada com a musicalidade extrema da sua poesia, com as suas imagens maravilhosas-maravilhosas e inesperadas sempre.
Neruda me chegou pelas mãos da Bárbara Vicuña, uma chilena que abriguei em minha casa na época do Golpe . Ela me deu os 20 Poemas de Amor e Uma Cancão Desesperada. Sempre estive apaixonada por Neruda.
Assim que saiu o Poema Sujo do Ferreira Gullar, ganhei um exemplar da minha amiga Ana Cristina Chiara e este livro foi um dos maiores terremotos poéticos que já vivi.
E os meus outros poetas que vivem comigo, eu mesma fui ao seu encontro, como quem vai caminhando na rua e de repente acha um arco íris, a árvore mais intensa.

PRELUDIO

Las alamedas se van
pero dejan su reflejo.

Las alamedas se van,
pero nos dejan el viento.

El viento está amortajado
a lo largo bajo el cielo.

Pero ha dejado flotando
sobre los rios sus ecos.

El mundo de las luciérnagas
ha invadido mis recuerdos.

Y un corazón diminuto
me va brotando en los dedos.

Federico García Lorca


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

DELÍRIOS

Lá em Recife, quando da primeira apresentação do meu livro tão pequeno, Delírios, com William Amorim, que fez uma leitura psicanalítica dos poemas, para a inauguração da Casa Azul, de Joana Cavalcânti, eu disse que tudo começa com um Delírio. Algo que se sonha antes que aconteça ou não.
Fui escrevendo esses poemas ao longo dos dias e meses, sem pensar que estaria fazendo um livro. Mas depois os juntei, como se fossem um ramalhete de flores ou um feixe de trigo e sonhando na vigília, delirei: E porque não fazer um e book e porque não fazer um livro artesanal, construído devagarinho, com uma capa de pano? Então Domingo Gonzalez, que eu não conhecia apareceu para fazer o livro. E minha irmã Evelyn Kligerman fez placas incríveis de cerâmica para fazer os desenhos do ebook. E sabendo que não encontraria uma editora para os poemas, levei a tarefa adiante.
O livro está pronto. Hoje Domingo me entregou os últimos exemplares dos 50 que encomendei.Tenho que escrever o título e meu nome à mão , em cima da capa verde de algodão. O livro cabe no bolso, na bolsa, mas seus poemas são fortes, latejam.
E continuei delirando. E por que não fazer o lançamento no Babel Restaurante, com meu filho André Murray preparando o coquetel? O restaurante estará fechado e podemos usar o seu espaço para isso.
E pedi ao Centro Cultural de Visconde de Mauá que levasse o Coral, porque para o meu delírio ficar completo preciso ouvir a música Celador de Sueños . E Márcia Patrocínio me disse que sim. Só fica faltando meu filho Guga Murray e seu magnífico violão, pois como o lançamento cai numa terça-feira, dia 29 de novembro, Guga não pode ir, pois estará dando aula.
Em nossa família de artistas gostamos de trabalhar juntos. É um prazer imenso saber que a música, a poesia, a comida e a cerâmica, nessa família, estão bem entrelaçadas.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

E.M.JOÃO BAPTISTA CAFFARO

Vou começar a história pelo fim. O encontro das crianças com o mar.
Muitas crianças da E.M.João Baptista Caffaro, nunca haviam visto o mar.
Hoje, especialmente, o mar havia feito uma piscina imensa e as crianças não aguentaram de felicidade.
Foi para elas uma experiência extraordinária.
Sabiam tudo da minha vida, lemos muitos poemas brincando, comemos e rimos.
A manhã passou voando e agora vive na mala das lembranças inesquecíveis, dentro de cada um.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

TRUMP

Como acalmar o coração sabendo que Trump, eleito Presidente dos Estados Unidos, afina a sua voz com os grandes ditadores do planeta de todos os tempos, o seu talento histriônico e seu gestual nos lembram Mussolini e o conto Mário e O Mágico do Thomas Mann?
Para onde nos levará, se sua música são os muros, as armas, a expulsão do diferente e seu discurso traz os ecos dos piores nacionalismos?
O mundo já caminhava a passos largos para a destruição. Mas agora, com o ódio como bandeira, há um abismo desconhecido sem passagem de volta.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

MISTURINHA

Misturar crianças da Educação Infantil com primeiro, segundo e terceiro ano dá certo?
Deu certíssimo hoje no Café, pão e Texto da E.M.Outeiro das Pedras, de Itaboraí. Bem que a Paula Botelho, Diretora de todas as boas idéias de leitura de Itaboraí tinha me avisado.
As crianças me fizeram tantas declarações de amor , que saí do planeta , alcancei a lua e agora navego nos anéis de Saturno.
Eu realmente poderia abrir uma loja de suspiros de felicidade, pois hoje suspirei umas 3000 vezes.
Brincamos, rimos, cantamos. As professoras Sabrina, a Diretora Maria do Socorro, Jussara, Suely, Suzana, Gisele, Maria de Fátima, a Supervisora de alunos Adriana Silva e o Professor Lucas , (acho que não esqueci ninguém) acompanhavam as crianças. Minha amiga, também professora, Prica Mota, veio. E vieram 3 convidadas e um marido, alunas de pedagogia da Faculdade Veiga de Almeida de Cabo Frio.Luana, Elisângela e Ana Paula. O marido era o Rubens.
Hoje as crianças brincaram horas no jardim antes de partir. E se encantaram com as árvores de cravo e canela.
Samuel e Vanda, incansáveis na produção do Café junto comigo.
E ninguém queria r embora. Todo mundo queria morar aqui. Para Sempre.

sábado, 5 de novembro de 2016

CHUVA

Chove sem parar aqui na montanha. A época das águas. Frio e neblina.
Amo esse tempo de hortências, fogo para aquecer a casa, livros e novos poemas. Mas hoje é meu último dia aqui. O tempo escorre como a chuva que cai e desaparece entre a terra. O tempo que nos encharca de afetos, amores, perdas e ganhos.
Construo devagarinho uma nova coletânea de poemas. A poesia é a minha verdadeira casa.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

NA MONTANHA

Estar na montanha desmancha o tempo. Quando chego parece que sempre estive aqui, desde sempre.
No livro que estou lendo, do Manguel, A Cidade das Palavras, ele fala do conceito de tempo entre os esquimós e é assim que sinto o tempo: Imóvel . Nós é que nos movemos, para frente, para trás, em círculos. E quado uma história é contada, mesmo que seja tão antiga, que tenha mais de mil anos, o ouvinte está lá, naquele tempo.
Então, nós, leitores, temos a capacidade de sim, viajar no tempo e no espaço, pois vivemos em mundos paralelos. E o tempo não pode ser dividido, claro que não.
Aqui, na montanha, eu flutuo na pele do tempo.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

VINTE E SETE PROFESSORAS DE ITABORAÍ (BASTIDORES)

Receber vinte e sete professoras para o Café, Pão e Texto, é tarefa maravilhosa. Há toda uma preparação prévia. Encomendo o empadão de legumes alguns dias antes da Liliam, filha da Vanda, a minha caseira. Samuel vai buscar o empadão de bicicleta.
Acordo muito cedo para fazer o pão. Quero que saia do forno às 8.30 h, para que comam o pão quentinho. Hoje ralei tomate para passar no pão, receita espanhola, muito simples: rala-se o tomate no lado grosso com casca e tudo. A casca fica inteira na mão da gente, e então, a gente põe azeite e sal.
Bolos e café com leite, sucos também. Ah, a toalha mais linda, que comprei em Olinda com Joana Cavalcânti e Conceição Cavalcânti, num domingo inesquecível.
Separo os livros .Estão ao alcance da mão. Mas nunca tenho um roteiro prévio. Tudo vai se desenrolando naturalmente. Vou puxando o fio da meada.
Todo mundo quer fotos. Todo mundo quer abraços. Todo mundo quer carinho e autógrafos.
Falamos poesia, falamos vida. O que podemos fazer, o que está ao nosso alcance.
E assim, juntando um poema no outro, um desejo de mudança no outro, uma inquietação na outra, um assombro no outro, o tempo escorre das nossas mãos e já fica um gosto de sabor indefinido, uma certa nostalgia : saudade.    

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

OUTRA VEZ A MALA ABERTA

Fui ao Recife e voltei. Foi tudo tão maravilhoso que parece que foi um sonho bom. Dois eventos que tiraram a Terra de sua órbita sossegada e a emoção era tanta que não podia nem dormir à noite. Joana Cavalcânti criou uma atmosfera real e onírica ao mesmo tempo. Eu e William Amorim inauguramos a série de Saraus da Editora Massangana, da Fundação Joaquim Nabuco e inauguramos a Casa Azul, simbolicamente na Livraria Cultura, que logo começará a funcionar em sua sede. Será um Centro irradiador de literatura e arte.
Mas já estou novamente com a mala aberta. Sexta-feira bem cedo vou para Visconde de Mauá, para a minha casinha da montanha.
Dentro da mala levo uma tonelada de saudades da família. Faz muito tempo que não nos vemos. A viagem é muito longa, pois não se trata apenas de estradas. Mas é preciso passar de uma dimensão para outra. De uma atmosfera para outra. De um perfume de algas para os cheiros magníficos da montanha.
Gosto mais do que tudo do cheiro da terra quando a chuva cai. E do cheiro da lenha quando acendo o fogão e inunda a casa. Gosto do cheiro da manhã e da noite. Gosto do breu da noite.
Quando vou subindo a serra uma alegria selvagem começa a me inundar.
Tudo isso eu já sei ao olhar para a mala aberta.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

NORDESTE

Parece que os ventos estão me levando para o Nordeste. Amanhã vou para o Recife fazer dois eventos que me enchem de alegria: Um encontro com professores dia 21 na Fundaj e o Sarau Residência no Ar, a primeira apresentação do meu livro Delírios, que será feita por William Amorim, escritor e psicanalista de S.Luis, na Livraria Cultura Paço Alfândega. O Sarau é a inauguração da Casa Azul de Joana Cavalcânti, um espaço de arte e sonhos.
Esse nome Paço Alfândega é lindo e mexe com a minha memória:
Quando eu era criança, meu pai muitas vezes me levava até o porto, na Praça XV, ou para se despedir de alguém ou para receber alguém. Naquela época as pessoas vinham de outros países de navio e tinham, claro, que passar pela alfândega. Uma parada obrigatória.
Eu era fascinada com um homem gordo, que ficava sentado atrás de uma mesa com uma tabuleta onde se lia POLIGLOTA.
Eu o imaginava falando todas as línguas do mundo e jamais o esqueci.

 Deve ser por isso que meu gato se chama Babel, que o restaurante do meu filho se chama Babel. Adoro uma mistura de línguas!!!

terça-feira, 18 de outubro de 2016

CAFÉ, PÃO E TEXTO

Recebi a E.M.Natércia Rodrigues Rocha, de Itaboraí, para o penúltimo Café, Pão e Texto do ano, pelas mão das professoras Élida, Raquel, Eveline, Geruza e Carmem Valéria.
Vieram crianças de várias séries misturadas e deu muito certo! As dinâmicas com os poemas saíram lindas, as crianças eram vivas, maravilhosas.
Conversamos sobre muitas coisas, sérias e engraçadas.
Com meu livro Colo de Avó, muitos falaram da sua avó e do que ela gostava de fazer. O amor que sentem pela avó transborda. Uma disse que a avó gostava de costurar e li o poema Máquina de Costura. Foi lindo ver como o poema se encaixava na sua avó.
Foi lindo ver como dando linha, a pipa da imaginação deles vai muito longe na apreensão do poema.
As professoras eram tão amorosas, o encontro foi tão bom, as crianças nunca querendo ir embora, que agora estou em pleno voo.