segunda-feira, 6 de agosto de 2018

ZEN

Não há receita melhor do que a receita zen de viver dia por dia e saber que todos os dias ganhamos e perdemos e que o imprevisível é a rota, pois tantas vezes estamos tão confortáveis e entra um sudoeste pelas janelas da casa e vira a vida do avesso.
Quantas vezes senti o abismo logo ali, a um milímetro dos meus pés.
Mas depois voltamos para a superfície.
Algumas perdas são muito duras e nunca cicatrizam, é impossível, então aprendemos a caminhar com essa dor, como os marinheiros, meio de lado.
No entanto, a vida é tudo isso que nos carrega e cada um faz o que pode, pinta, escreve, cozinha, canta, dança, pesquisa, descobre, cava, planta. E o amor amarra todas as pontas.

sábado, 4 de agosto de 2018

MALAS DE LEITURA

Hoje cedo li um dos relatos mais emocionantes, a história do Maurício Leite e sua Mala de Leitura e Aventuras. Seu trajeto por lugares remotos faz a gente chorar, rir, perder o fôlego.
Vou colocar aqui uma amostra pequenininha do seu relato, que acho que deveria se transformar em livro o quanto antes possível.
Maurício Leite trabalha quietinho, sem fazer alarde e já faz durante anos um dos mais belos trabalhos de leitura desse país, levando nossos livros para crianças da África e Portugal. Além de lugares incríveis do Brasil de dentro.
Leia o texto completo na Revista Cátedra da PUC:
"Moçambique

Como o tempo passa rápido nas histórias, aqui estou embarcando para Moçambique, levando na bagagem dois mil e quatrocentos livros infantis para 40 Malas de Leitura. Como um rio que tem que cumprir seu curso e desaguar no mar, o rio da minha vida desaguou no Oceano Índico, bem de frente para a ilha de Madagascar.
Levava nas mãos o livro Terra Sonâmbula de Mia Couto. Em cada página lida ia conhecendo um pouco das histórias e dos mistérios do continente africano, a beleza da cultura e da gente moçambicana. Tristes relatos da guerra, lindas mágicas e personagens e cenários que logo eu iria conhecer. Algumas palavras diferentes para mim: machimbombo, berma, maningue, canimambo. Ficou-me na memória a frase: “que a guerra é uma serpente que usa os nossos próprios dentes para nos morder”. Vivendo por lá vamos sendo lentamente apresentados à África e seus mistérios, ou não! (canimambo – obrigado changana Moçamibique, machimbombo é ônibus, maningue é muito, berma, beira, berma da estrada.)
Visitei, trabalhei e vivi em alguns desses países em seu pós-guerra: guerras coloniais, as lutas pela independência e novas guerras para saber de quem seria o poder. Povos lutando e defendendo e ferindo a terra, matando sua gente, expulsando pessoas, separando famílias, esparramando minas terrestres e recrutando crianças para a luta. Nem os animais quiseram ficar por lá.
Vivi dois anos em Moçambique. Uma experiência rica e cheia de aventuras. Afinal, estamos em África! Trabalhei por aldeias e lugarejos distantes. Andei em parques naturais de elefantes, regiões com minas terrestres, praias desertas, savanas, florestas de imbondeiros (baobá). Sobrevoei o Saara e levei muitos, muitos baculejos da polícia local em busca de propinas. Como dizem por lá: “é para a gasosa, patrão!” (gasosa – refrigerante).
Nem lembro mais quantas vezes fui parado, detido e até seqüestrado pela polícia e duas vezes preso. No mercado do Roque Santeiro (era o maior mercado a céu aberto em Luanda, o nome vem da telenovela brasileira que era apresentada lá na época em surgiu o Roque, como era conhecido), o policial achou que eu estava a vender mercadorias ilegais. “O que levas aí nessa Mala?” Eu disse que levava livros. “E o que é isso de livros?” E lá fui eu para a esquadra policial. Ligo para a embaixada do Brasil e alguém vem me soltar. Isso no caso da prisão. No caso de seqüestros e assaltos tive que me virar sozinho, sendo muito criativo e não demonstrando medo. Jamais!
Trabalhei nos oito distritos de Maputo, uns bem longe da capital como o distrito de Namaacha que faz divisa com a Suazilândia e a África do Sul. Na primeira etapa, implantamos 80 Malas de Leitura nos distritos da Província de Maputo. Trabalhei para cooperações portuguesa, canadiana, francesa, holandesa, finlandesa e muitas africanas, como a Direção Provincial de Educação de Maputo. Biblioteca Nacional, Ministério da Cultura da Educação, todos ligados aos governos locais.
Cabo Verde

Saída de Brasília para São Paulo, de lá para Lisboa (caí de amores pela cidade). De Lisboa voei para a Ilha de Sal e depois para a Ilha de Santiago em Praia, a capital, onde fica a Embaixada do Brasil. Voltar para a Ilha de Sal, embarcar para Ilha de São Vicente ( a terra onde Deus esparramou a sua alegria) e uma travessia de barco para a Ilha de Santo Antão, onde me esperariam para chegar do outro lado da ilha, na Ribeira Grande.
O barco chegou e partiu e eu fiquei sozinho na praia a espera de que me viessem buscar. Não vieram. Duas longas horas de espera. Praia de negras pedras vulcânicas. Enterrei minha bagagem nas pedras, minha mala, a Mala de Leitura, e mais uma sacola com livros. Enterrados os tesouros, marcando no céu, na terra e no ar a localização e de costas para o mar pensei: para que lado seguir? Direita ou esquerda? Atrás o mar e à frente uma enorme montanha. Senti o vento, segui pela direita e acertei, pois estava a sair de um posto da capitania dos portos o senhor que era o seu diretor.
Por poucos minutos eu já não o encontraria lá no posto. Contei para ele que eu deveria ir lá para o outro lado, para a Ribeira Grande. Ele me levou de carro até onde minha bagagem estava enterrada e seguimos para a casa de um vereador amigo dele que ligou para o Senhor da Ribeira Grande, dizendo que estava ali o professor brasileiro das Malas de Leitura. Ouviu a seguinte resposta: “Ê pá, mas então não era amanhã que chegava o gajo professor? Julgava que fosse amanhã. Veja lá amigo, mande lá o professor para cá, se faz favor.”
Tudo resolvido? Claro que não! Era um sábado e a Câmara Municipal estava fechada. O senhor vereador ligou para outro senhor, responsável pelos transportes, e pediu uma viatura para levar o professor para o outro lado. Conseguimos o carro. Agora temos que conseguir um motorista. Liga para um e outro e finalmente conseguimos um que me levasse para o outro lado da ilha. Carro e motorista. Tudo certo? Não! Agora temos que ligar para o outro senhor que conseguirá uma requisição para o gasóleo. Já temos combustível. Vamos? Ainda não. O motorista: “não quero voltar sozinho, vamos à casa do meu primo buscá-lo para me fazer companhia”. O primo não estava em casa. Estava a pescar na praia. Manda o filho ir buscar o pai e finalmente embarcamos rumo à Ribeira Grande.
Lá muito em cima, nas montanhas há uma passagem chamada “Delgadinho”. Estreita e emocionante como nos filmes de aventura. E do alto, muito, muito alto, ver e sentir, não sem um pouco de medo, desabar sobre nós as maiores nuvens em formas de altas ondas como nos engolindo. Lá, bem nas alturas, sendo tocado por nuvens, pensei: valeu à pena toda a longa viagem feita até aqui.
Na implantação das Malas de Leitura com os professores, o clima foi de festa e alegria, como é tudo por lá, com aquela gente tão de bem com a vida. Acompanhei as Malas subindo, carregadas por mulas, até as escolas localizadas em regiões nas encostas das montanhas da maravilhosa Ilha de Santo Antão. Nessas escolas, nas alturas, os professores e os alunos receberam os mais encantadores livros. Lá embaixo, bem longe, até onde o olhar alcança, a imensidão do oceano atlântico cercando de beleza aquela ilha maravilhosa do arquipélago de Cabo Verde."
Relato de Maurício Leite
Leia o texto completo na Revista
REVISTA.CATEDRA.PUC-RIO.BR
Mauricio Leite Brasil   (Karingana wa Karingana – Língua Changana – Era uma vez, ou uma maneira de pedir permissão para contar/Moçambique.) Era em Nova York, voltar a viver em Nova York, que eu pensava quando entrei no Palácio do Itamaraty naquela tarde no início do ano 2000. Fui para uma ...

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

EM BRANCO E PRETO

Meu pai teve durante muitos anos uma depressão severa e algumas vezes me disse o quanto sofria.
Talvez a vida para ele fosse em branco e preto com pinceladas de cinza.
Como separar a tristeza da depressão é tema para entendidos.
Mas sei que com tristeza se pode fabricar muita coisa, mas com uma depressão séria a existência fica difícil.
Vivemos no melhor ou no pior dos mundos? Já foi muito pior, certamente, mas hoje a felicidade e a juventude são artefatos obrigatórios e isso pode gerar muita infelicidade.
Fiquei maravilhada quando as professoras do meu último encontro do Café, Pão e Texto, me contaram que na sua UMEI Áurea Pimentel de Menezes, em Niterói, as criancinhas bem pequenas tinham aulas de sentimentos. Criança também fica triste. Também tem sensação de abandono, medo, insegurança.
Ter aula de sentimentos é maravilhoso. É maravilhoso saber que os sentimentos possuem todas as cores e não são em branco e preto. E poder lidar com isso. E pedir ajuda e se deixar ajudar quando for necessário.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

TESOURO

Quando voltava da escola, de bonde, do Colégio Hebreu Brasileiro, na Tijuca, no Rio de Janeiro, na década de 60, gostava de imaginar a vida das pessoas que viajavam comigo.
Hoje, com as Redes Sociais, tantas vidas estão ao nosso alcance, num gênero intermediário entre ficção e realidade, não é um romance que estou lendo, mas o que será? Nem preciso imaginar, já vou entrando em casas, restaurantes, hospitais, cozinhas, quintais, participo de festas, lutos, aniversários, desabafos, de gente que só conheço numa dimensão virtual.
Essa linguagem fragmentada, onde se fala de tudo e de nada, onde tanto nos é mostrado ao mesmo tempo, já faz parte do nosso cotidiano.
Apanhamos aqui e ali, poemas e agressões, na mais alucinante colcha de retalhos.
E o que não queremos mostrar, não queremos dizer, será então o nosso verdadeiro tesouro?

terça-feira, 31 de julho de 2018

MEMÓRIA SUBMERSA

Roseana Murray está em Saquarema.
1 h
Ontem na TV 5 vi um grupo de africanos desembarcando em Cádiz, Espanha, corriam desesperados pela areia da praia fugindo da polícia, chegaram vivos, pelo menos, mas para onde vão? O que será de suas vidas?
Ninguém sai da sua terra se puder ficar. Salvo um ou outro aventureiro. Porque o mundo não ajuda a África, depois de ter sugado seus tesouros, matado, escravizado suas populações, roubado suas terras?
Depois comecei a ver o filme Shoah, ontem passava a primeira parte.
Mas não aguentei mais do que uma hora.
Eu via aquelas cidadezinhas polonesas, quase aldeias, e dali, de uma delas, saiu meu pai, por milagre antes da guerra.
Eu já havia visto essa primeira parte no cinema, quando muito jovem, mas não me lembrava de quase nada. Apenas uma cena guardei intacta.
O filme é uma obra-prima. Não mostra o que houve. Trabalha apenas com a memória.
Há essa memória
submersa,
feito algo
que repousasse
dentro de um lago
às margens de uma floresta.
Pequenas cidades
adormecidas,
suas casas, armarinhos,
oficinas, lojas claras
e escuras, sinagogas,
de algum canto
saiu meu pai,
o futuro como três grãos
de ervilha no bolso
e um grito na garganta.
Faz muitos muitos
anos, mas eu também
fugi dali junto com
meu pai menino
e aquele lago, aquela
luz ao entardecer,
os pinheiros,
suas sombras,
os mortos,
tudo me pertence.

Poema Inédito

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Bia Hetzel, minha editora e amiga amada, publicou uma carta de uma leitora onde contava que por ter lido na infância os seus livros sobre baleias, hoje era estudante de biologia.
O impacto que um livro pode ter sobre o destino e as escolhas de uma pessoa é impressionante.
O impacto que um livro pode ter na vida de uma criança é monumental.
Por isso, uma escola sem uma Biblioteca ou Sala de Leitura é inconcebível. Deveria ser crime e os governos deveriam ser punidos por omissão.
A Bia me contou uma história linda.
Uma vez ela foi a um abrigo e ao falar do livro Jardins que era editado pela Manati, um menino disse que era muito meu amigo.
Ela perguntou: - Mas de onde você conhece a Roseana?
Ele disse que me encontrou num lugar cheio de trens e que eu havia lhe dado um livro de presente.
Realmente eu participei de um projeto belíssimo no Museu do Trem. E cada criança ganhava um livro. Eu e o Demóstenes fizemos uma atividade com meu livro Maria Fumaça Cheia de Graça. As crianças, diante de um pano imenso no chão, bordaram juntas.
Depois a Bia soube que o menino era sobrevivente de uma chacina. E que, ao entrar no abrigo, carregava meu livro como um tesouro.
O quanto meu trem deve ter ajudado esse menino! Para que lugares onde pudesse respirar ele o conduziu?
Assisto maravilhada a campanha que Volnei Canonica e Roger Mello estão fazendo pelo livro infantil e juvenil.
Tudo começa com a literatura.
Sempre contei que, filha de imigrantes judeus poloneses, para não sufocar numa casa triste, eu me mudei, assim que aprendi a ler, para o Sitio do Pica-Pau Amarelo com as minhas melhores bagagens.
O Sitio salvou a minha vida e foi algo tão forte que transferi esse abrigo para meu sítio em Visconde de Mauá. Já adulta, em momentos de muita dureza e dor, eu ia para lá em pensamento.
Os livros sempre nos salvam. E uma criança sem livros é feito uma semente sem terra e água.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

PARTIDA

Estou de partida para a montanha.
Mergulharei na mata com todos os meus sentidos, pois realmente estou precisando parar o mundo e virar árvore.
Anseio pela noite escura e sua respiração.
Anseio pelas manhãs geladas.
Evoco o livro da Bella Chagall, Luzes Acesas, ela conta suas incursões solitárias pelo bosque quando criança e seu maravilhamento, quando a leio, é o meu.
Mas quando criança, eu morava no Grajaú, no Rio de Janeiro e não tive nenhum contato com fazendas ou matas ou sítios. Não tive essa sorte. Entretanto, recuperei o tempo perdido.
Várias vezes morei na montanha: Com meus filhos pequenos e depois quando me separei do primeiro casamento..
Não é fácil viver em isolamento. Mas nada pode nos ensinar tanto. Sei que muito do que sou foi forjado ali. Hoje tenho luz e todas as facilidades, mas no passado, sem luz e sem quase nada que tornasse a vida cômoda, viver ali era o exercício mais precioso de virar poeta.
Muitas vezes pensava: Se um antepassado chegasse, por alguma brecha do tempo, de algum tempo paralelo onde ainda vivesse, se sentiria em casa, com poucas diferenças.  Então me sentia próxima a pessoas de um álbum de família inexistente, pessoas que são feito as sombras da tarde quando a luz se esvai, não podemos nomeá-las, mas quem sabe o que deixaram em nós, em nossos genes.
Acabo de reler De Repente Nas Profundezas do Bosque, de Amós Oz e estou pronta para entrar no bosque e tentar ouvir, com ouvido afiado, a aranha em sua teia.

terça-feira, 3 de julho de 2018

ENTRE UMA VIAGEM E OUTRA

Muita gente me diz: é maravilhoso estar contigo em teu cotidiano.
Acompanhar a tua vida, as tuas viagens. Muita gente me disse isso em Londrina e em cada lugar por onde passo.
A minha vida é simples demais. Mas acontece que moro num lugar esplêndido, de uma beleza fulminante e minha casa é aberta para receber meus leitores para um café. Sempre aberta.
E em Visconde de Mauá, onde também moro um pouquinho, a mata é soberana e exercito a essencialidade no mais alto grau. Nem armário de roupas eu tenho, pois não cabe no quarto e é incrível como podemos viver com tão poucas coisas.
Entre uma viagem e outra há o mar, o bosque, os jardins. E a poesia. E o silêncio, para mim, imprescindível. 

quarta-feira, 27 de junho de 2018

A ESCOLA DOS SONHOS

Quase que a escola não veio. E eu teria perdido uma das experiências emocionais mais impactantes da minha vida.
Na sexta-feira, a Professora Lenilsa me ligou dizendo que afinal não tinham conseguido o ônibus, será que eu não poderia adiar o encontro?
Disse que não, infelizmente, tenho muitas escolas querendo uma vaga.
Ela se desculpou e desligamos. Logo me liga outra vez e diz que a escola viria sim, alugariam um ônibus.
Eu não fazia a menor ideia de nada. Nem de que escola se tratava. Sabia apenas que era de Jaconé, mas já no Município de Maricá. Não mais Saquarema.
Acordei às 5 horas da manhã para começar a preparar tudo. Tomei café com os gatos, fiz o pão. Gosto que o pão ainda esteja quente na hora do café.
Às 9.10h um ônibus todo branco, antigo, ultrapassado, meio 1950, encostou no outro lado da rua. As crianças se arrumaram para uma foto com o mar ao fundo.
Fui até lá, ao seu encontro.
Depois da foto viemos juntos para a casa.
Já vieram me abraçando, me beijando. Eu fiquei no portão e dizia, podem entrar, sentem nos bancos e no tapete.
Recebi a Diretora, as professoras.
Eram 30 crianças. Nunca sei como vou começar. Mas então começamos pelo momento pipi.
Pedi ao Samuel que acompanhasse as crianças até a casinha de hóspedes do jardim, pois lá há um banheiro enorme, há um espelho enorme, além do passeio pelo jardim. É uma alegria.
Na volta, realmente tomo contato com aquelas crianças. Duas meninas lindas são apresentadas. São gêmeas. Fazem aniversário hoje: Raissa e Raiane.
Essas crianças são diferentes. Me contam os seus projetos. Amam ler. Fazem perguntas incríveis. Sabem coisas da minha vida. Possuem vocabulário, são donas das palavras.
São da quarta e da quinta série de uma escola rural:
E.M.Prof Dilza da Silva Sá Rêgo
Então falamos de bichos. Eles sabem muito dos bichos. Trouxeram um painel de pano pintado com meu poema A Morte do Sabiá, do livro Fardo de Carinho. Falamos de gaiolas, prisões, caçadas. Eles querem que eu fale como fiz esse poema, o que senti.
Falam de animais em extinção. Me contam que na lagoa há jacarés. Jacarés ou crocodilos? Um menino diz: Jacaré, crocodilos são da Austrália.
Falam com propriedade, lindeza, sabedoria.
Fazemos um intervalo para o café. Foi a mais linda dinâmica, algo tão amoroso, uma troca incrível entre as professoras e a Diretora e as crianças. Parecia uma dança, tudo fluia, flutuava, eles comiam como se come nuvens. Comiam com delícia e delicadeza. 
Trouxeram biscoitos que prepararam na cozinha da escola junto com as merendeiras. Me dizem a receita tintim por tintim. Trouxeram um doce de maçã.
Havia uma criança especial, sorridente, integrada e uma mediadora só para ela.
Comemos e bebemos absolutamente tudo o que havia sobre a mesa: sanduíches, pão caseiro, biscoitos, tomate ralado, manteiga, mel, bolos, leite com chocolate, suco de goiaba, café. Não sobrou nenhuma migalha.
Era uma festa no céu. Um disse, esse pão é maravilhoso, vamos fazer na escola?
Voltamos para os lugares.
Então fizemos brincadeiras com meus poemas.
Cada vez que eu precisava de silêncio eu pedia para eles ouvirem o mar.
Falamos de paz e guerra, eles sabiam da Síria.
Leram em voz alta . Sabem ler perfeitamente, com sentimento. Leram meu poema do Classificados Poéticos, o do Habitante de outra galáxia.
Eles sabiam o que é uma galáxia.
Uma teia de amor une essas crianças.
Mas qual é o segredo?
A Diretora me conta que é uma escola de horário integral. Entram cedinho e saem às 17h, jantam na escola.
Ela me diz que tem tudo na escola. Biblioteca. Tem fantasias, ela me diz, tem espelho.
Tem investimento na escola e isso é visivel, os resultados são muiito impressionantes.
Crianças lendo fluentemente, com um vocabulário incrível, entendendo o texto perfeitamente, amorosas, sem nenhum clima de violência entre elas.
Trouxeram os poemas mais lindos que escreveram, inspirados nos meus.
Se uma escola pode funcionar assim e conseguir resultados assim, por que todas as escolas do país não podem ser assim? Por que os governos não escolhem educar assim como prioridade, como escolha de mudar o mundo?
Quero agradecer a Diretora Raquel e as professoras que acompanharam essas crianças lindas:
Lenilsa, Ana Rita, Jociene, Jacira, Cláudia.
Hoje fiquei abalada com o que vivi. Ainda estou abalada. Ficarei abalada para sempre.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

O TEMPO TODO AO MESMO TEMPO



Uma vez, entrava na Rua Citiso, no Rio Comprido, R.J (onde morava), com meu filho Guga Murray, criança, quando ele parou de repente e me disse muito espantado:
- Mãe, agora mesmo estão acontecendo muitas coisas no mundo ao mesmo tempo!
Sim. Estão. Coisas maravilhosas e terríveis. Mas é a primeira vez na história que todos os acontecimentos nos chegam de uma vez ao mesmo tempo e de uma maneira incrível, com fotos, vídeos, vozes, músicas.
Vejo ao mesmo tempo as iniciativas mais maravilhosas, os trabalhos de arte mais incríveis, as descobertas científicas mais impressionantes e crianças engaioladas, separadas dos pais. Nada justifica a maldade de um humano contra outro. 
Nada justifica uma favela ser metralhada com vidas de civis sendo interrompidas. 
Não é possível ficar imune a tantas crueldades e tantas maravilhas. 
Mas a crueldade machuca mais ainda quando somos impotentes.
Cada um faz o que pode quando tantas injustiças nos deixam atônitos.
Eu escrevo poemas e trabalho com professores que tentam por todos os meios salvar suas crianças, vejo o quanto o amor fabrica. Trabalho com a beleza. Sempre .
Vejo como a poesia toca as crianças. Toca os adolescentes.
A minha ideologia é a bondade e a religião também. Então não importa se a crueldade está acontecendo num regime assim ou assado. É crueldade aqui ou ali.
Quando a nossa capacidade de se identificar com o outro termina, a nossa capacidade de sentir a sua dor não existe, a humanidade está morta em nós.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

DE VOLTA PARA O MAR

De volta ao mar. Toda casa possui a sua engrenagem. São fios e roldanas, máquinas de fabricar pequenas alegrias, poemas.
O mar traz música e perfume.
Os gatos amaciam os hiatos do mar.
Faço pão, arrumo os dias que passei em Teresina no baú dos afetos. 

quinta-feira, 7 de junho de 2018

ENTREVISTAS

Jun Arias me conta: entrevistou os mais maravilhosos personagens do Século XX na Itália.
Não levava gravador, anotava tudo.
Se tivesse gravado, hoje poderíamos ouvir as vozes de Fellini, Calvino, Pasolini e tantos outros
Mas se lembra de cada detalhe das conversas e posso visualizar o que me conta.
Acompanhei Juan em algumas entrevistas aqui no Brasil : Milton Nascimento e João Ubaldo. Também me lembro de tudo, como se fosse um filme.
Juan fez uma coleção de livros de entrevistas também e pude estar presente em dois, o do Saramago e do Paulo Coelho. Quando fez o do Fernando Savater ainda não o conhecia.
Eram entrevistas longas, que duravam cinco dias e a convivência com o autor se tornava estreita e íntima.
Juan é um grande entrevistador.
Quando chegamos à casa do Saramago, ele já tinha nas mãos um esboço do que seria feito e toda a sua biografia que Juan havia recolhido de outras entrevistas e aqui e ali, na internet.
Pilar nos recebeu e nos sentamos os quatro à mesa para um café. Com os papéis na mão Saramago disse: - Quantas besteiras ao meu respeito! Juan respondeu: - Tudo isso se diz. Agora você vai poder corrigir tudo o que quiser.
E assim foi.
Quando Juan fez a primeira pergunta a Fellini: "Como nascem os seus títulos?" Ele respondeu: "Mas que pergunta idiota"
Juan disse que a pergunta podia ser idiota, mas a resposta certamente seria maravilhosa. E foi, ele me diz.
Não me canso de ouvir enquanto caminhamos pelas ruas de dentro do bairro, aqui em Saquarema, tantos anos depois, num dia cinzento de junho, no Século XXI.

terça-feira, 5 de junho de 2018

FEIRA DE TERESINA

Cinéas Santos me diz: "Dona Poeta, a senhora não se pertence".
E não me pertencendo vou ao encontro dos meus leitores em Teresina.
William Amorim disse, em sua fala, que as Feiras de Livro são um gol contra a bárbarie.
E são mesmo um espaço de resistência a todo o horror que nos assola, a toda a falta de pensamento. Nas Feiras de Livro as ideias circulam e hoje, em nossa sociedade do abandono, das falsas notícias, da velocidade inútil, da falta de memória, há que parar e ler e ouvir. Ouvir o passado para que horrores não se repitam.
Sabemos que as Feiras se fazem com pouco patrocínio e muita tenacidade. E ainda bem que resistem a toda essa barbárie que pouco a pouco nos devora.
Nunca as Feiras de Livros, por menores que sejam, significaram tanto.
Ontem comecei a ver um documentário indiano sobre uma escola para filhos de intocáveis. Entram na escola com 4 anos e saem com 17. Suas vidas seriam perdidas. Mas a educação completa que recebem, além de dança, teatro, música e literatura, é a ponte para outra vida. Ser intocável deixa então de ser um destino, como no Brasil o destino de milhões de crianças e jovens seria outro com esse tipo de educação que dá ao ser humano a chance de ser um humano melhor.
Então vou ao encontro da minha crença. Que não é religiosa. A minha crença na Literatura e seu poder de transformação.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

RACISMO

Notícias de racismo sempre me chocam. Fico estarrecida.
Mas não podemos ficar mudos.
Aliás a palavra racismo está completamente equivocada. Só existe uma raça entre os humanos: a nossa. Somos os Sapiens. 
Todos iguais na sua insignificância frente ao universo, todos iguais na sua finitude.
Cumprimos a mesma regra, todos, ninguém escapa: morreremos.
E no entanto, somos diferentes em nossas singularidades, nossa maneira de ser, nossas culturas, crenças, etc.
Mas que alguns humanos sintam-se superiores a outros porque a sua pele é azul ou vermelha ou lilás, é de um non sense absoluto. Que um branco sinta-se superior a um negro, isso obedece a que lógica?
Leio sobre um episódio inacreditável onde estudantes universitários brancos xingam e humilham estudantes negros numa competição. Alunos de uma Universidade privada, cristã. Uma Universidade rica.
O "racismo" , na falta de uma palavra que exclua o conceito de raça, é crime no Brasil.
Leio o artigo e não sei direito quando aconteceu, mas não importa. Importa que aconteceu e a gente se pergunta:
Como será a família dessas pessoas? O que carregam dentro, que vazio é esse onde se aloja o escorpião do ódio?
Sendo o racismo um crime terrível, já que um humano ao sentir-se superior a outro humano, xinga, humilha, agride, precisa ser punido. (Tenho em minhas veias o sangue derramado nos pogroms contra os judeus e todas as humilhações que meus antepassados viveram)
A Universidade precisa se posicionar e deveria tomar alguma atitude.
Ninguém deve se calar quando um Sapiens, a única raça de humanos hoje, em nosso planeta, humilha seu semelhante.

domingo, 3 de junho de 2018

DOIS LIVROS NOVOS E TERESINA

Tenho dois livros novos nas mãos. 
Poemas para Metrônomo e Vento, ed. Penalux e Desejo de Árvores e Pássaros, ed. Imeph.
São azuis em sua essência. Talvez porque eu viva mergulhada no azul aqui no mar.
Talvez porque a estrada azul dos pássaros seja a que meus pés desejam sempre.
Talvez porque o voo e a liberdade sejam o meu destino e meu desejo .
Dois bens são os mais preciosos de todos: o tempo e a liberdade.
Liberdade se aprende quando se escuta a história do outro tão diferente da nossa.
Existem tantas maneiras de existir.
E o tempo, tão escasso, tão finito, não deveríamos vender nosso tempo, mas usá-lo com amor infinito, buscar incessantemente fazer o que se ama e quando isso não for possível, fazer com amor o que não se ama.
Meus dois livros novos foram publicados por editoras pequenas(uma do interior de S.Paulo e outra de Fortaleza). As editoras pequenas são corajosas e essenciais.
A poesia é um ofício. E o livro publicado é o maior prêmio que há.
Então este ano de 2018, de tantas coisas duras, me traz livros novos, pessoas, viagens. Há que agradecer.
Dia 8 estarei em Teresina com leitores e amigos, no Salipi, a Feira de Livros.
Farei uma fala junto com o psicanalista William Amorim, nessa maravilhosa mistura de poesia e psicanálise.
É a quarta vez que vou ao Piauí! E agora levo na mala meus livros novos.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

GABO

Vi o documentário Gabo, na Netflix. 
Aconselho. É divino ver os recortes da sua vida, ouvi-lo, ouvir seus amigos.
Em nosso Clube de Leitura lemos O Amor nos Tempos do Cólera e Gabo conta como se inspirou no amor de seus pais, disse também que era um risco escrever um romance de amor com final feliz, mas que iria colocar na moda finais felizes.
Lemos Cem Anos de Solidão e não existe nada mais belo.
Quando estivemos em Lanzarote para que Juan fizesse uma longa entrevista com Saramago, ele nos contou como encontrou a sua escrita sem pontuação.
Gabo também conta no documentário como chegou ao realismo mágico, a partir da casa dos avós.
É divino acompanhar o processo de criação de escritores que a gente ama.
Amós Oz escreveu que um leitor toma o café da manhã lendo os rótulos de tudo o que está na mesa, lendo os jornais no celular e tendo um romance aberto na página em que parou na noite anterior.
Eu diria que além disso, o leitor apaixonado gosta de saber o que é que o escritor, objeto de sua paixão, come no café da manhã, o que lê, o que pensa, como escreve.
Li um livro de entrevistas com a Marguerite Yourcenar em que ela, que morava numa ilha pequena, era amiga de todas as pessoas simples que a cercavam, o carteiro, o padeiro, etc e como colaborava com todas as causas humanitárias que conhecia e eu, apaixonada por sua obra, pude imaginá-la, imaginar seu coração e minha felicidade foi imensa.
Assim a relação do leitor com o escritor que ama e que para ele não importa se está vivo ou se morreu há trezentos anos ou três mil anos, já que ouve a sua voz.

terça-feira, 29 de maio de 2018

TRIBO

Hoje cozinho no fogão de lenha, aqui na Casa Amarela. O fogo sempre me acalma. Ele crepita e me diz o quanto sou antiga nessa genealogia de humanos que desde o tempo mais arcaico acenderam o fogo para cozinhar, para se proteger.
Aqui em Saquarema o fogão de lenha fica na varanda. Estou de costas para o mar, mas a sua música se enreda com o fogo.
Acendo o fogo para enganar o coração com beleza, já que parece que engoli pedaços de chumbo derretido.
Para onde vamos como país? Essa é uma pergunta muito difícil. É quase o enigma da esfinge. E apavorante.
Mas como vivo dentro da natureza, e para o mar e o fogo e o vento (que faz a palmeira cantar nesse instante e faz algumas madeiras da casa estalarem), nada disso faz diferença.
TRIBO
Há uma tribo que sonha
e nunca esqueceu as asas.
E acredita em coisas simples,
sol, pão, chuva, beijo, lua.
E mesmo quando o sangue
tinge as tardes e os rios
e as palavras se transformam
em veneno, pedras e facas,
alimenta as sementes da esperança
com lagrimas e pequenos gestos limpos
para que virem árvore.
In Rios da Alegria, Ed. Moderna

segunda-feira, 28 de maio de 2018

NOVA IGUAÇU

Sou a poeta homenageada da Feira de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro.
Até setembro milhares de crianças estarão lendo meus poemas.
Como se minha poesia fosse poeira de estrelas.
A minha alegria é imensa. Nenhuma palavra consegue traduzir.
Um dia, em 1990, uma criança lá no Sul me entregou uma cartinha que dizia assim:
"Nunca deixe de ser a poeta das crianças".
Esse bilhete era o grande prêmio da loteria da felicidade.
Adoro escrever poesia para as crianças. E não pretendo parar.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

SYLVIA

Quando ouvi a iraquiana Zainab Salbi falar sobre seu programa Women for Women International, imediatamente decidi participar.
A ideia é dar suporte a uma mulher em zonas de conflito.
Mas não só dinheiro. Claro que o dinheiro fará toda a diferença na sua vida.
Mas você recebe uma pessoa com toda a sua humanidade e essa pessoa te recebe.
Cada ser humano cuida de muitas pessoas e mesmo aqueles destituídos de tudo, mesmo os que perderam tudo, cuidam de algo, nem que seja de uma lembrança.
Escrevo para Silvya no meu péssimo inglês.
Digo quem sou: Brasileira, escritora. Faço livros para as crianças. Isso ela vai entender.
Vou enviar uma foto.
Tive as minhas dores. Os meus sofrimentos. Mas nada se compara ao que ela sofreu: guerra e abuso.
Rezo para que a minha carta chegue ao seu destino na Nigéria.
E se alguma mulher que estiver me lendo quiser fazer parte desse projeto de humanidade, que abarca todos os lugares do planeta em conflito, eu acho que vale a pena, se puder. Não é barato. São trinta dólares por mês.
Mas se compro um vestido por esse preço, decido não comprar o vestido e usar esse dinheiro para ajudar a Sylvia.
Estou lendo um livro maravilhoso: O Feminino e o Sagrado, de Catherine Clément e Julia Kristeva.
Acho que a minha conexão com o sagrado é cuidar, ajudar.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

OGA MITÁ

Foi diferente ontem nosso encontro no Café, Pão e Texto com a Escola Oga Mitá.
A escola trabalha com meus poemas desde a década de oitenta. Então contei o meu caminho, com todos os seus descaminhos, com os anos em que estive perdida de mim, quando a poesia me salvou.
Ia contando e me dando conta de que apesar de muitas vezes andar perdida como dentro de um nevoeiro, trabalhava grão por grão e um livro atrás do outro, eles foram me apontando a saída. Às vezes basta abrir a porta e não conseguimos encontrar a chave.
Ter um filho ainda adolescente, tive meu filho com 18 anos, pode ser muito duro, pode ser um corte violento. Vejo tantas meninas gravidas ou com um bebê no colo aqui em Saquarema, que me pergunto como é que as escolas não possuem um forum permante, aberto, sobre sexualidade? Existe algum caminho além do diálogo? Hoje a mulher pode escolher se engravida ou não. Penso na geração da minha mãe quando essa escolha era quase impossível. Tenho quase cem livros, para menos ou para mais, escrever para a criança e para o jovem é uma dádiva e acho que não existe um público mais maravilhoso e participativo.
Meus livros aconteceram por acaso. Porque de btincadeira comecei a escrever poemas para o meu filho Andre Murray. Naquela época tive a sorte de conhecer a Elvira Vigna, que foi minha parceira por tantos anos, tive a sorte de conhecer Antonieta Cunha, mãe do Leo Cunha, que me abriu as portas da editora mais incrível, a Miguilim. O acaso foi desenhando acontecimentos tão maravilhosos na minha vida, foi me dando as pedras mais preciosas
E o que sinto: um agradecimento profundo pelos meus leitores. Devolvo como posso.
Recebo emocionada esse depoimento de Valeria Barros:
"Roseana Murray, sem palavras para expressar o que representou para cada um de nós, da escola Oga Mitá.
Encontro desejado, esperado e realizado ! Mas tudo não terminou aí, na casa amarela, com cheiro de café e gosto de pão quentinho.
Tudo continua, pois sua poesia está escrita em nós.
Foi maravilhoso.
Ainda respiro cada segundo.
Obrigada!!!"

terça-feira, 22 de maio de 2018

AVENTURA

A vida é a maior e mais imprevisível aventura. Como dar sentido a esse caos, esse turbilhão de estrelas e precipícios?
Para mim, quando se toca na alma do outro, quando se faz alguma coisa mesmo que pequena pelo outro, de repente o caos se arruma e nos apaziguamos e todo o non sense da vida é um desenho que podemos entender.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

OS INVISÍVEIS

Há demasiada dor no planeta. E o Brasil é campeão no quesito produção de desigualdade social e horror.
Nem todo o dicionário, nem todas as palavras podem dar conta de falar o que deve ser a vida da massa de excluídos em nosso país.O que deve ser não ter casa. Não ter trabalho nem as mínimas coisas que são o que confere dignidade à vida humana.
Mas não dá para varrer essa grande tragédia para debaixo do tapete. Interminavelmente.
A Constituição assegura moradia, saúde e ensino e trabalho para os seus cidadãos.
A imagem de um prédio ardendo e desmoronando obriga qualquer um a olhar de frente para a falta de políticas públicas de moradia no país.
É obrigatório olhar de frente para todas as questões que fazem com que o Brasil seja um país feito de castas, de gente invisível, que não faz parte.
O Brasil é um país que até agora não deu certo.
Somos prisioneiros de políticos com os cofres abarrotados de privilégios. E de desonestidade.
A única coisa que sei fazer é poesia. E o que posso fazer para não desmoronar é acreditar que uma educação pública de qualidade, o que quer dizer toneladas de literatura e arte é a única possibilidade de se dar voz e vez a quem não tem nada. E isso se faz em uma geração.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

PAZ E LITERATURA

Logo no princípio do Dr.Fausto, do Thomas Mann, lemos que nem as religiões podem reprimir as forças arcaicas e destruidoras que habitam o homem. Apenas a literatura pode fazer isso.
Escrevo sentada num Café e não tenho o livro comigo para fazer a citação exata.
Mas é mais ou menos isso.
Sabemos que os regimes totalitários sempre queimaram livros. A própria Igreja Católica tinha o seu índice de livros proibidos. 
Penso que essas forças arcaicas podem sim ser domadas com a literatura, pois é quando nos misturamos com um personagem, assumimos sua vida e suas dores, que aprendemos a compaixão no melhor sentido da palavra e exercitamos a empatia.
Fiquei pensando também no quanto as guerras representavam uma honra e um sacrifício necessário. Penso em como os soldados partiam cantando para matar ou morrer ou as duas coisas. Penso nos heróis de guerra, nas medalhas e em como, ainda bem, ir para a guerra já não representa uma honra para as famílias.
Viver sem utopias é muito difícil. E a paz é quase uma utopia. Não completamente, porque a paz é possível.
Então penso na literatura como um instrumento fazedor de paz.

domingo, 29 de abril de 2018

NOS PRESÍDIOS

Soube pela coluna da Miriam Leitão hoje, que Marco Lucchesi faz o mais maravilhoso trabalho de leitura nos presídios. Algo tão imenso e emocionante que deixa o coração da gente abalado.
Lucchesi nos diz o que é absolutamente óbvio e gritante: Que se não investirmos na criança e numa cultura da paz, os presídios continuarão abarrotados. 
Lucchesi contou que começou a ir aos presídios quando um detento o chamou porque havia conseguido montar uma biblioteca.
O preso disse que a biblioteca era o Olimpo do presídio.
Então chegamos ao princípio de tudo.
O Ensino Fundamental tem que ser extremamente fortalecido e a escola tem que ser um oásis e não uma prisão. Para que as prisões de verdade não continuem se expandindo.
A Sala de Leitura tem que ser o coração da escola. Tudo deve partir daí. E o Professor/a precisam ser reconhecidos e valorizados (e bem pagos), como estrela-guia que são.
O Brasil é um país cruel, injusto. São milhões de talentos desperdiçados. Um holocausto de talentos.
Acredito, é a minha fé, de que com uma escola pública que "ouça" a criança, uma escola com o foco na literatura e na arte, o país estaria em condições de reverter as suas injustiças. Muitas escolas públicas de qualidade existem, mas não é uma política de Estado. Elas teriam que ser a regra e não a excessão.
O trabalho do Marco Lucchesi emociona mais ainda quando sabemos como são as prisões brasileiras. Há que ter muita coragem para entrar nesse inferno.
Eu já o admirava como poeta. Agora, ao saber desse trabalho tão imenso, eu realmente fico sem palavras para dizer o meu agradecimento.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

LIVRO NAS MÃOS

Tenho meu livro Poemas para Metrônomo e Vento da Editora Penalux nas mãos.
A emoção é tão imensa que poderia chorar um rio.
Explico porque.
Desde 1980 publico livros para crianças e jovens.
Fui carimbada e o mercado de livros de poemas para adultos é outro.
Leo Cunha já disse que coloco todo o talento que tenho nos livros infanto juvenis.
Mas escrevo poemas para gente grande também, desde sempre.
Muitos me diziam: Impossível conseguir uma editora.
Mas Salgado Maranhão, o grande poeta, se interessou por mim. E a editora me aceitou.
E o milagre aconteceu.
Milagres sempre acontecem.
Tenho nas mãos um livro belíssimo. Desde a capa, assinada por Silvia Negreiros, a contra capa do Salgado Maranhão e Ferreira Gullar, a orelha, assinada por José Inácio Vieira de Melo, até a qualidade do papel, que parece um pergaminho.
Os poemas falam do que é importante. Vida, amor e morte e o cotidiano no meio, que é o lugar onde se vive.
Dedico o livro aos meus primeiros leitores, aqueles que me dizem isso ou aquilo e o que me dizem realmente importa.
Quando estive com Saramago em Lanzarote, ele disse que nunca esperou tanto da vida. Nem eu.
Nunca esperei ter tantos leitores espalhados pelo país.
Hoje me telefonou Tiana Tapety para me contar o que faz a minha poesia com as crianças de Oeiras. Milhares de crianças lendo os meus poemas. Ela me diz: A tua poesia conduz.
Sei fazer poucas coisas. Mas amar e acolher eu sei.
E agradecer. Sou tão grata por ser acolhida. Durante muito mais da metade da minha vida me senti excluída. Era tímida demais. Não gostava de esportes, tinha muitos medos, era esquisita. Me achava incapaz.
Felizmente a poesia me pegou pelas mãos e me levou. É a minha pele, meu barco, minha estrela.
Essa edição tão cuidada e pequena quase não cabe em mim, de tão imensa.

 

sexta-feira, 20 de abril de 2018

O QUE NÃO TENHO PARA TE DAR

O que não tenho
para te dar:
os centauros
que galoparam
nos prados doloridos
da infância e que escaparam
para nunca mais,
os anos que já vivi,
as ruínas onde
me aninho às vezes
quando não sei decifrar
a esfinge na orla
do deserto,
os dons que nunca
me habitaram
e são como países
longínquos
que nunca verei,
o escaravelho dourado,
que te daria se pudesse,
mas não é meu.
Roseana Murray
Poema Inédito

quarta-feira, 18 de abril de 2018

DIA NACIONAL DO LIVRO INFANTIL

No Dia Nacional do Livro Infantil, o que tenho a dizer é muito simples.
Que bênção ter crianças como leitores.
As histórias maravilhosas que já vivi do contato das crianças com a minha poesia são o paraíso.
Quando o editor fica em dúvida se a criança entenderá o que escrevo, sem dúvida nenhuma ela entenderá.
Numa palestra do Saramago em que eu estava presente, ele disse que era a favor de que sempre se oferecesse à criança um pouco mais. Também penso assim. 
Comecei a escrever para as crianças por puro acaso, como já contei tantas vezes. Não foi uma decisão. Não pensei: Vou fazer literatura infantil.
Mas esse acaso iluminou a minha vida para sempre.
E continua iluminando.

terça-feira, 17 de abril de 2018

GENTE ESQUISITA

Quando li "Mulheres que correm com os Lobos" da Clarissa Pinkola Estes, na década de 90, fiquei muito impactada com muitas coisas.
Por exemplo: ela diz que os outros sabem quando você é uma pessoa autêntica, quando você é você. E sentem-se bem ao seu lado.
Em nosso Identidades: Atelier Poético Psinalítico, William Amorim leu um texto da Clarice Lispector onde ela fala maravilhosamente sobre o tema: Se eu fosse eu.
Acontece que é muito difícil ser o que se é mesmo.
Ê muito difícil que a tua fala, a tua vida e teu corpo estejam em sintonia, dizendo a mesma coisa.
Isso é um trabalho de anos. Clarice dizia mais ou menos isso ( não sei se alguém me contou ou se li em algum lugar):
Tem gente que costura para fora. Eu costuro para dentro.
De tanto costurar para dentro, sou apaixonada por pessoas que são elas mesmas. Que deixam sua singularidade aflorar. Sou apaixonada por gente que é meio fora da norma, do rebanho. Gente esquisita.
A Elvira Vigna sempre me dizia: - "Você é muito esquisita." Para mim era um elogio melhor do que se me dissesse: Você é tão doce, bonita, etc, etc.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

TEMPO ESTRANHO

Vivemos um tempo estranho, tempo de ódio, onde as palavras viram facas ou pedras.
Um tempo de guerra. 
Não só verbal, pois as armas precisam ser vendidas e usadas. Afinal, o mercado de armas e drogas move o mundo. Então, seja aqui ou do outro lado do mundo, o sofrimento tinge manhãs, tardes e noites. Talvez se Gagárin visse hoje a Terra do alto, sua famosa frase mudasse de cor. Quem sabe diria " A Terra é vermelha", mas vermelha de sangue.
Desde a Segunda Guerra não se vê tanta gente deslocada.
Desde a Guerra Fria o perigo do uso de armas nucleares nunca foi tão presente.
Qual seria a saída? Há saída?
Talvez mergulhar no melhor do humano.
Resgatar esse melhor do humano submerso, escondido entre os ossos. O melhor em nós.
Esse é um longo trabalho. O trabalho de uma vida.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

VISITA

Uma pessoa maravilhosa de Goiânia fez sua dissertação de Mestrado sobre a minha obra.
Porque o destino quis, eu a conheci, já que uma Faculdade de Pedagogia de Goiânia me chamou para falar. Eu avisei que não era acadêmica nem formada em Pedagogia.
Depois Gloria Kirinus, que publicou o magnífico Synthomas de Poesia, imprescindível para quem se preocupa com o tema, me deu licença poetica para falar apenas como poeta.
Pois bem, a pessoa que escreveu a dissertação, estava na plateia e foi amor ao primeiro encontro.
Ela fez um jantar maravilhoso, porque além de tudo o que faz, cozinha divinamente, convidou algumas pessoas especiais, entre elas a Gaby, uma freira mexicana absolutamente incrível.
Pois bem, Sônia Santos chega hoje na minha Casa Amarela. Nunca mais, desde aquele dia distante, perdemos o contato.
Amor é coisa séria.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

VOLTA

Volto para Saquarema depois de passar 10 dias em Mauá, depois de dar uma oficina no Instituto Estação das Letras no Rio de Janeiro, depois de visitar Paquetá, o que não fazia desde 1999.
Em Visconde de Mauá tive um encontro lindíssimo na Casa Beatles com umas 30 professoras. Falamos sobre a vida, sobre leitura, sobre poesia. O Atelier Identidades com William Amorim foi maravilhoso. Os dois encontros se entrelaçaram cheios de emoção.
Quando volto para casa, onde para usar uma imagem marítima, sinto como o meu barco mais estável, aqui tenho um escritório com mesa e computador, as correspondências transbordam, os pedidos de tantas coisas transbordam, os gatos me ignoram porque fiquei muito tempo longe.
Mas enfim, cheguei, tento colocar todos os pedidos em dia e me preparo para receber uma visita especial: Sonia Santos, de Goiânia.
Além de minha leitora, ela fez a dissertação de Mestrado sobre a minha obra. Eu a conheci pessoalmente e ela é adorável e agora me preparo para recebê-la.
Começo a pensar no próximo Atelier Poético-Psicanalítico sobre Intolerância, matéria farta em nossos dias, em nosso mundo, que deve acontecer em julho. Começo a me preparar para o lançamento do meu livro Poemas para Metrônomo e Vento, que acontecerá no Babel Restaurante, do meu filho André Murray, no dia 10 de maio.
Alguns amigos de longe irão ao lançamento. O Coral do Visconde deve cantar ( e meu filho Guga Murray compôs uma música para um poema) sob a batuta da Márcia Patrocínio. 
Para costurar tudo isso tenho a minha fábrica de poemas.
Hoje dizia para um amigo querido: poesia é dom e ofício.
Escrevo como respiro, mas escrevo sempre e isso ajuda na fabricação do poema, onde além de imagens e palavras entram tantas coisas, nossa alma, nossos desejos, nossa bagagem de vida, nossas estradas, nossos medos. 

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Redes

Quando em 1997 fui com Juan Arias a Lanzarote fazer uma longa entrevista com Saramago, fomos recebidos por Pilar del Rio. Eu conhecia Pilar das dedicatórias de seus livros. E de repente ela era de carne, osso e amor.
No último dia Juan entrevistou Pilar. E ela disse: José escreve porque precisa ser amado.
Todos queremos ser amados . É o primeiro mandamento do humano.
Por isso queremos ser lidos, elogiados, vistos, compartilhados.
Que possamos estar em contato com milhares de pessoas ao redor do mundo ao mesmo tempo, é algo muito novo. Ainda é muito cedo para avaliarmos as consequencias, para o bem e para o mal. Já que todos sabemos que bem e mal caminham juntos.
Algumas coisas são do conhecimento de todos: a privacidade acabou, vivemos no tempo da construção de imagens. Já sabemos também que estamos inundados por notícias falsas e manipulações. Sabemos que "eles" , que não sei quem são, escolhem o que será veiculado. Começamos a saber que as "curtidas" podem ser compradas!
As redes sociais são uma extensão das nossas vidas, na palma da nossa mão, a um clique.
Para disseminar o bem e o mal.
Ser leitor é mais do que importante para sabermos como é que nos movimentamos nessa intrincada floresta.
Mais do que nunca a literatura é nosso anjo da guarda.