segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

PARA VIAJAR

Como é que se vai para a Atlândida?
De cavalo marinho?
E de unicórnio,
dá para chegar nas montanhas da lua?
Para o centro da Terra
vamos de dragão dourado?
De maria-fumaça a gente atravessa
o tempo?

in Pêra, Uva ou Maça? , ed. Scipione

Desejo que para subir a bordo dos 365 dias de 2013, todos afiem seus sonhos .

domingo, 30 de dezembro de 2012

POEMAS E COMIDINHAS

Recebo a quinta edição do meu livro Poemas e Comidinhas da ed. Paulus. O livro é uma delícia em todos os sentidos : a partir de um poema sempre uma receita gostosa testada pelo meu filho, o Chef André Murray.
Deixo aqui então uma sugestão para um dos pratos da ceia do final de ano: um risoto de flores. Mas antes o poema com a sugestão de que comer beleza é a melhor coisa do mundo:

ELFOS

Elfos comem o perfume
das flores trazido pelo
vento,
comem os mais belos pensamentos,
e as cores do dia
que o galo faz.
Comem o canto do galo,
as melodias dos pássaros
]azuis,
comem a luz que cintila
na folha cheia de orvalho.
Elfos comem a sombra da lua,
o brilho da estrela
que já não existe mais.


RISOTO DE FLORES
Ingredientes:

1 xícara de arroz (de preferência tipo arbório, especial para risoto)
Meia cebola picada
2 colheres de (sopa) de água de rosas (pode ser encontrada em casas de produtos árabes)
3 xícaras de caldo de frango
1 pitada de açafrão em pó
Um quarto de xícara de queijo parmesão ralado
Um oitavo de tablete de manteiga
pétalas de rosas de cores variadas.

Preparo:

Refogue a cebola sem deixar dourar. Junte o arroz, a água de rosas e 1 xícara de caldo de frango.
Mexa sem parar até quase secar. Junte mais 1 xícara do caldo, junte o açafrão e mexa sem parar até quase secar.
Nesta última adição pode não ser necessário usar todo o caldo, então experimente a textura do risoto.
Acrescente o queijo, a manteiga e as pétalas de flores. Prove para saber se está bom de sal. Caminhe até a floresta mais próxima e convide um elfo para dividir este delicioso risoto.

sábado, 29 de dezembro de 2012

REAJA

Recebemos aqui em casa o livro REAJA do Cristovam Buarque, ed. Garamond. O livro é inspirado no manifesto "INDIGNEZ-VOUS" (Indignem-se) de Stéphane Hessel, filósofo francês de 95 anos, texto que varreu a Europa como um vendaval. Cristovam, que se inspirou então no belo texto de Stéphanie , faz uma proposta ao leitor no final do livro:
"Ao fechar um livro que leu até o final, reaja ao que leu. E não reaja apenas por reagir. Aja. Para isto, escreva seu próprio livro, com suas idéias e ações. Esta será uma forma de reagir."

Transcrevo um pequeno trecho já que além de poeta luto com as poucas armas que tenho, a minha voz, por uma educação mais justa e criativa aqui no Brasil e me identifico com o que escreve meu querido Cristovam:

"Reaja contra as desigualdades; mas, sobretudo, contra a mãe de todas elas: a educação desigual.
Veja com horror a cara do futuro do país retratada nas decrépitas escolas de hoje. Veja e reaja. Seja um educacionista: no lugar de querer um país rico para só então fazer a boa escola para todos como o caminho de fazer o país rico. Lute para que os filhos dos trabalhadores estudem nas mesmas escolas dos filhos dos patrões. E cada um evolua conforme seu talento, vocação e persistência - não pela sorte lotérica da genética e da renda dos pais. Lute pelo direito democrático de funcionamento das escolas privadas, e para que um dia elas se tornem desnecessárias, graças à qualidade de toda escola pública".

in Reaja, Cristovam Buarque, ed. Garamond , página 13.

Indico pois o livro como leitura obrigatória para os últimos dias de dezembro. E que no dia 1 de janeiro cada um escreva seu próprio manifesto.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

VOLTA

Ainda é dezembro com o fogo das flores do flamboiã do jardim e o calor e o mar me recebem de volta aqui em Saquarema. Ainda é dezembro de 2012, ontem passei meu aniversário em Visconde de Mauá num almoço esplêndido preparado pelo André, meu filho e Dani Keiko, minha nora, no Babel Restaurante, rodeada de amor:  Juan, filhos, noras, minha irmã Evelyn Kligerman , meus grandes amigos-irmãos Messias e Kátia , seu filho Gustavo e Fabiana que vieram da Itália onde moram, Salvador, meu grande amigo ermitão que saiu da sua toca no mais alto da montanha e Vanda, nossa caseira que viajou para estar comigo. E... meu neto Luis que apanhava flores no jardim e nos presentava durante o almoço.
Ainda é dezembro e pude estar , antes de ir para Mauá, com o Clube de Leitura da Edith Lacerda, e presenciar a discussão amorosa do meu livro Diário da Montanha. Foi uma experiência impactante.
Ainda é dezembro e passamos um dia , toda a família, num Hotel Fazenda em Bananal, indicação preciosa da Ione Duque e do André, que foi meu taxista no Projeto Fala Autor, do Sesc! A casa de mais de duzentos anos nos abriu as portas e aguçou a nossa curiosidade, queríamos saber tudo! Onde ficava a senzala, o que guardavam no porão onde fazíamos as refeições?
Ainda é dezembro e recebo hoje um exemplar da Revista Poesia Sempre da Biblioteca.Nacional, (com três anos de atraso) trazendo um artigo maravilhoso sobre a minha obra. E também um ensaio que me fez chorar, da Vera Tiezman sobre meu livro Poemas para Ler na Escola.
Ainda é dezembro e o mundo não acabou, mas acaba todos os dias, recomeça todos os dias e estamos vivos, eu, você que está me lendo e tanta gente que amo e isso é simplesmente fantástico.

domingo, 16 de dezembro de 2012

SUPERAÇÃO

Ontem vi um documentário emocionante no TV 5: Thalassa.
A história de um homem que perdeu metade das duas pernas e dos dois braços num acidente e que é um oos maiores nadadores do mundo. Com uma prótese e pés de pato para as pernas e uma prótese para ps braços, ele atravessou a nado os cinco continentes: Canal da Mancha, Estreito de Gibraltar, Canal de Bhering, etc. Com um companheiro ao seu lado, com barcos monitorando a travessia, a história deste homem , sua alegria, é uma grande lição de vida.
No documentário há um momento em que ele se encontra com um sobrevivente de um Campo de Concentração que também é um mergulhador. O número tatuado em seu braço e todos os anos de vida, não o impedem de mergulhar e ter uma relação belíssima com a vida.
Alegria: eis a palavra chave, a palavra mágica, a que abre todas as portas.

Amanhã vou para o Rio e de lá para Visconde de Mauá , onde mergulho num mundo com outra medida de tempo. Volto dia 28.

 

sábado, 15 de dezembro de 2012

SEM PALAVRAS

Os Maias erraram. O fim do mundo foi ontem, dia 14 de dezembro de 2012, quando crianças pequenas foram brutalmente assassinadas dentro de uma escola nos Estados Unidos, onde se pode comprar qualquer arma como se fosse aspirina e onde prevalece a cultura da violência, onde os fracos são abandonados e o sucesso é buscado a qualquer preço. A sociedade americana de consumo é brutal. E ama a guerra. É a cultura do desperdício. Nada vale nada. A vida humana nada vale.
Nem todas as palavras de todas as linguas podem dizer o horror de ter um filho assassinado dentro de uma escola.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

DESTINO

Será que você acredita em destino? Algo tem que acontecer ou não tem que acontecer? Destino é diferente de acaso ? O dicionário me diz que não. Se busco a palavra acaso, encontro dentro de várias possibilidades: destino.

EXISTÊNCIA

Será que o destino
é um mapa
e se conseguir decifrar
o que está oculto,
os rios subterrâneos,
as pegadas no chão
de terra,
poderei responder ao poeta
"existirmos, a que será
que se destina?"

Será que o destino
é uma teia
e somos nós as aranhas
e fabricamos as esquinas,
as bifurcações
com nossa saliva?

Basta seguir a seta
onde se lê a palavra
vida?

in Diário da Montanha, ed. Manati

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

UM SOPRO

Sonhei com a minha mãe que morreu em 2009. Ela estava bem viva aqui em casa, com toda a família e fazia suco de laranja na cozinha para todos. Um sonho bem simples e prosaico. Mas está chegando o meu aniversário. Será que é uma mensagem de que mãe é alimento sempre? E de que mesmo tendo partido ela ainda me alimenta?

UM SOPRO

Como chegar ao coração
dos mortos
esse duro coração de hera
perdido entre as águas da memória
como um barco de outros tempos?

Um sopro ainda vive
como uma flauta longínqua.

in Pássaros do Absurdo, ed, Tchê, esgotado.

 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

FIM

Já que no dia 21 de dezembro o mundo vai acabar, convém sorver toda a beleza possível com sofreguidão, acreditar com muita força que todos os problemas insolúveis do planeta serão resolvidos a tempo, que não haverá mais fome, que a poesia, como a flor que brota entre as frestas do cimento , estará ao alcance de todos, basta parar e soprar as suas pétalas . Já que no dia 21 de dezembro o mundo vai acabar, convém dizer eu te amo a todas as pessoas que amamos e trocar corações com os amigos. Convém avivar a nossa chama .
E para o fim do mundo o poema FIM de Murilo Mendes:

Eu existo para assistir ao fim do mundo.
Não há outro espetáculo que me invoque.
Será uma festa prodigiosa, a única festa.
Ó meus amigos e comunicantes,
tudo o que acontece desde o princípio é a sua preparação.

Eu preciso assistir ao fim do mundo
para saber o que Deus quer comigo e com todos
a para saciar minha sede de teatro.
Preciso assistir ao julgamento universal,
ouvir os coros imensos,
as lamentações e as queixas de todos,
desde Adão até o último homem.

Eu existo para assistir ao fim do mundo,
eu existo para a visão beatífica.

Murilo Mendes, in Os Melhores Poemas e Canções Contra o Tédio, ed. Objetiva

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

FAIXA ETÁRIA

É comum chegar numa escola e as crianças apresentarem um poema dramatizado. Na minha última visita a uma escola aqui em Saquarema, pequenos leitores declamavam poemas dos meus livros infantis e alguns poemas do meu livro Poesia Essencial que eu pensava ter escrito para adultos. Adoro isso, a mistura. Para qual faixa etária? Acho que a frointeira nós inventamos, vejo que as crianças trafegam bem entre as duas margens.

O tempo virou e o mar também. As ondas estão grandes e não há sol. Mas olho pela janela e vejo meu filho, minha nora e meu neto na praia. Meu neto: pequenininho lá na areia , naquele espaço imenso e meu coração quase explode de amor.

domingo, 9 de dezembro de 2012

PARTICIPAÇÃO

Leio sobre o movimento de alunos de escolas municipais e estaduais nas redes sociais para revelar publicamente as mazelas de suas escolas, o descaso dos Estados e Municípios com o espaço físico das escolas. Claro que existem escolas públicas maravilhosas e aqui em Saquarema todas são lindíssimas. mas já vi escolas depredadas e denunciar nas redes é uma ferramenta maravilhosa de participação do aluno na defesa do seu patrimônio físico e afetivo, afinal estar num espaço limpo, bonito e bem cuidado aumenta a auto estima de qualquer um.  Leio também que a denúncia funciona, logo consertam um buraco, um vazamento e retiram entulhos. Uma pena que seja preciso denunciar e fazer pressão. Escola pública limpa, bonita, bem cuidada deveria ser matéria obrigatória .

Hoje é um domingo raro: terei os filhos reunidos para o almoço. Para um domingo especial, a flor-estrela que abriu esta manhã:

sábado, 8 de dezembro de 2012

A LEBRE COM OLHOS DE ÂMBAR

Estou nas últimas páginas de um livro maravilhoso que comecei a ler com muita dificuldade, o livro era pedregoso, complicado. Mas de repente A LEBRE COM OLHOS DE ÂMBAR de Edmund de Waal, ed. Intrínseca, se revelou uma imensa tapeçaria e diante dos meus olhos que não são de âmbar, o século XIX parecia um jogo de montar finalmente todo montado. A partir de pequenas miniaturas japonesas entalhadas em madeira e marfim , o autor reconstrói o esplendor e queda de uma família e de todo o Império Austro-Húngaro. Além disso, como há ramificações da família em Paris, passeamos por seus salões, visitamos os impressionistas e Proust. A partir destes netsuquês, coleção que sobreviveu ao saque dos nazistas, o autor rastreia, através de documentos, o dia a dia de seus ancestrais. Finalmente os netsuquês voltam ao Japão pelas mãos do seu herdeiro, um tio-avô do autor. O livro é uma mistura de memória com ensaio e umas pinceladas de ficção ou imaginação, porque a partir de uma simples fotografia ou documento, como se girasse a manivela do tempo para trás e desse corda aos personagens estáticos da foto ou desse vida às palavras, temos de volta uma cena com todos os cheiros e cores da época. Belíssimo livro.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

ACELERA BRASIL

Hoje passei boa parte da manhã conversando com os alunos da E.M João Laureano. É uma escola rural aqui em Saquarema, perto de Sampaio Correia e foi muito agradável o nosso encontro. A Diretora Andrea é empenhadíssima em oferecer o melhor para as crianças. Hoje algumas turmas tinham um passeio e o ônibus não foi buscá-los! Ela conseguiu três carros e eles puderam ir. Mas realmente o meu transbordamento veio por acaso. Eu já estava indo embora quando uma professora me chamou para conhecer a sua turma que está trabalhando com o Projeto Acelera Brasil do Instituto Ayrton Senna. E fiquei em estado de choque. A turma inteira me contava sobre o trabalho. O entusiasmo deles era imenso. Tudo o que eu penso sobre uma nova educação está ali: os temas são trabalhados a partir de textos. A leitura ocupa o primeiro lugar. Trabalham juntos numa roda, não existe uma carteira atrás da outra, muitas aulas de leitura fora da sala, muitos livros são lidos por todos, aprendem a pensar e a trabalhar a auto-estima. Mas, infelizmente, só uma turma trabalha desta maneira. A minha pergunta é : se o resultado é tão esplêndido, por que a escola inteira não pode fazer uma educação assim? E por que todas as escolas não fazem uma educação assim criativa se todos sabemos como os resultados são incríveis?
Li com eles o meu livro Quatro Jabutis, ed. Lê e a partir de um texto tão simples falamos de muitas coisas. Eles representaram meu poema Galinha D"Angola que foi usado no Projeto África. Contei para êles que quando fui visitar minha irmã na Costa do Marfim vi num casamento um griot de verdade!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

LIVRO-CONCERTO

Estou de férias!!! Embora amanhã tenha algumas horas com pequenos leitores numa escola rural aqui em Saquarema. A casa se encherá de filhos e novos barulhos, Luis, meu neto para lá e para cá, André, meu filho-Chef cozinhando maravilhas... E é verão e o mar está latejando de azul.
O Livro-Concerto Caixinha de Música com Guga Murray , ontem à noite no Sesc Barra Mansa foi emocionante, pois era num teatro e não havia nenhuma interferência externa. A platéia participou em ondas de felicidade.  É um trabalho tão bonito que gostaria de levá-lo para onde pudesse!!! E quando se tem um teatro... é a perfeição.
Este ano foi magnífico,cheio de viagens e acontecimentos. Agora finalmente passarei algum tempo em casa .Ou entre as casas, pois passarei o Natal em Mauá.
Aprendi com os astrofísicos que somos feitos com a mesma matéria das estrelas. Niemeyer voltou então ao estado original: agora é novamente estrela pura. Fiquem atentos, esta noite já estará brilhando na Via Láctea.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

ESTRADA

Amanhã irei às 5hs da manhã para Resende e dia 5 estarei às 19hs no SESC BARRA MANSA para o encerramento do Projeto FALA AUTOR!
Vou escrevendo...

ENCONTROS EM CAMPOS

Tivemos grandes encontros em Campos. Chegamos , eu e meu filho Guga Murray, depois de 4 horas de viagem com uma parada num lugar encantador, bastante bucólico, já perto de Macaé, almoçamos correndo pois já era a nossa hora na Caverna da Bienal. A caverna era um espaço bem interessante, meio verde, o público, pais, mães, crianças, avós, alguns adolescentes, se sentavam no chão. Apresentei alguns dos meus livros e Guga fez o seu Concerto Didático com o livro Caixinha de Música projetado na parede, pois era um cinelivro, idéia maravilhosa da Suzana Vargas. De poema em poema, Guga foi envolvendo a platéia. Teve até um concurso de quem lia o poema "Unidunitê"  mais rápido! Os pequenos leitores, com 7 anos, se sairam muito bem. Para o poema "Tempo" Guga preparou uma instalação musical. Ficou belíssimo! A platéia toda fazendo tic-tac e um sonzinho com os dedos na palma da mão , além de um som com conduites que ele distribuiu pela platéia. Pura música contemporânea! A platéia cantou um rap e 2 canções belíssimas com os poemas.
À noite Tino Freitas, meu amigo querido chegou para o jantar. Ficamos 3 horas inteiras conversando junto com a poeta Lila, braço direito da Suzana Vargas, que acaba de ganhar um concurso de poesia importantíssimo no Paraná. Guga e Tino, dois músicos, se entenderam e ficaram amigos de infância. Tino estava vestido de Chef de Cozinha, o seu desejo secreto.
Repetimos a dose no dia seguinte pela manhã, ontem, e foi ótimo. No camarim, antes do encontro na Caverna, Mano Melo começou a ler meu livro Diário da Montanha e não largava mais e fiquei tão feliz e lisonjeada que quase explodi. Pode acontecer.
Tino Freias também nos mostrou no camarim suas canções maravilhosas para um disco para crianças e ganhei um livro de poesia belo e premiado da poeta campista Amélia Alves.
Na volta paramos para almoçar num lugar fantástico chamado Panela de Barro, muito coisa da roça, e comemos tanto por causada nossa felicidade, comi até doce de abóbora cristalizado, como os da minha infância e tabletinhos de doce de leite, eu que não como doces!

sábado, 1 de dezembro de 2012

CAMPOS

Hoje vou a Campos. Minha avó que hoje teria uns 130 anos se fosse viva, não reconheceria a cidade. Nada deve ter sobrado do casarão onde morava, da cidade pequena e pacata onde chegou, jovem, com seus filhos, da Polonia. Havia uma comunidade judaica na cidade. Tenho vagas lembranças, quase uma fumaça. Lembro de mim na cozinha com minha avó, ela limpava carne e dava pedaços para o seu gato e eu achava a cena lindíssima. Lembro de um quintal com árvore de carambola e me sentavam debaixo da árvore e meu primo, muito mais velho, subia na árvore e me jogava as frutas. Minha mãe me contava da sua juventude em Campos, dos bailes, das amigas, dos namoros antes do meu pai. Antes de morrer minha mãe gostava de visitar Campos em pensamento, com seus dezoito anos, e me falava : _"eu era tão namoradeira"!
A última vez que fui a Campos fiquei chocada. O que o petróleo conseguiu fazer com a cidade! Mas há uma notícia maravilhosa, os próximos contratos do pré sal deverão destinar os royalties para a educação. Há que investir em conhecimento , literatura e arte e não em calçadas de mármore ou inchar a lista de funcionários públicos pagando com o dinheiro do petróleo. Ou deixar que os royalties escorram como esgoto para os ralos da corrupção. Dinheiro dos royalties para a educação. Comemoremos. Pois até aqui não temos muito o que comemorar.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

NETO NA CASA

Meu neto já está na estrada. Chegará junto com o final da tarde. Agradeço. Neto é dádiva.
Amanhã , às 9hs da manhã um carro virá de Campos nos buscar, eu e Guga Murray, meu filho, participaremos da Bienal. Guga com seu Concerto Didático Caixinha de Música, eu com minha sacola de livros.
É tão bonito trabalhar junto com meu filho, uma experiência única.
Este ano tem sido muito bom, cheio de viagens, trabalho, novos livros. Agradeço.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

PARA TOCAR NO RÁDIO

Hoje uma pequena imensa notícia no O Globo, enquanto tomava café da manhã, me enlouqueceu de alegria. Fico sabendo que : "Aos 97 anos, Maruja Venegas, entrou para o Guiness: está há 77 anos como locutora, 60 à frente de um programa de rádio para crianças."
Não sei se no Brasil as crianças ouvem rádio, não tenho esta informação. Na minha infância, sim, ouvíamos muito rádio. Esperávamos os programas com enorme impaciência. A idéia de programas pelo rádio para crianças é absolutamente linda e com uma  vovó de 97 anos, o programa fica então muito mais saboroso. Que Maruja viva ainda mais cem para alegrar as crianças.
Aqui em Saquarema houve uma época em que a E.M.Gustavo Campos tinha uma rádio e a Sala de Leitura inventou um programa maravilhoso: Um Minuto de Poesia Todo Dia.
Cláudia, professora responsável pela sala, a inventora, lia os poemas e criava a maior expectativa entre todos. Já pela manhã os alunos passavam pela Sala de Leitura para saber qual seria o poema. Infelizmente a rádio acabou , mas deixo aqui a idéia para ser copiada.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

PROCESSO DE CRIAÇÃO

Nunca planejo meus livros. Eles chegam como os gatos. Entre um suspiro e outro, quando me dou conta, a idéia do livro já germina dentro de mim.
O Diário da Montanha nasceu assim. Eu estava lá, na minha casinha do bosque e de repente escrevi um poema e depois outro, então pensei: vou fazer um diário,  com tudo o que for me acontecendo. Escrevia a mão, como já não faço desde muito tempo, num caderno lindo de papel vegetal. E o diário foi crescendo e às vezes, quando já não estava lá e sim aqui em Saquarema, eu pensava na casinha , no Diário e queria escrever, então pegava o caderno na gaveta, pois sempre o trazia de volta e escrevia algum poema que não se passava lá, mas falava sobre isso, a ausência, a vontade de estar lá. Ás vezes era algum pensamento que me vinha, alguma reflexão, como nos dois poemas abaixo:

OS PRIMEIROS


O que me separa do primeiro homem,

da primeira mulher do mundo,

dos seus medos, pavores, desejos,

anseios?


O que me separa quando o último

fio de lua ilumina a última

folha da mata

e em silêncio a manhã já se desgarra?


Uma fina película de tempo,

um grão de poeira de tempo.


03.12.2011



BASTAM SEIS


Dizem que bastam seis,

seis homens ou mulheres

para que se alcance

qualquer pessoa perdida

em qualquer lugar

sobre a face da Terra.


E os que se mudaram para as estrelas,

os que já se foram e apagaram o cnério,

os que perdemos para sempre,

como alcançá-los, como atravessar

seu silêncio espesso, a sua falta

de substância, a sua dolorosa luz?


06.12.2011


in Diário da Montanha, ed. Manati

Agora trabalho com três livros ao mesmo tempo. Um já está navegando, já pegou um bom vento, o outro nem começou, mas sinto sua vida se formando dentro de mim e o terceiro é um livro de contos de amor que está quase pronto. Leio mais do que escrevo, mas preciso estar sempre envolvida com algum livro que está começando ou que ainda vai começar.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

HAICAIS

Tenho dois livros de haicais. Um deles amo especialmente, O XALE AZUL DA SEREIA, da ed. Larousse Junior.
O poema que dá título ao livro já publiquei num outro post e é assim:

Sereias costuram
com fios de horizonte
seus xales azuis

****************

Sinos na varanda
o rumor azul do mar,
música de vento.

Fazer haicais me acalma. Tenho que contar as sílabas, é um brinquedo. Tenho que fazer uma pintura .E não sou pintora. Tenho que fazer música com três versos e não sei fazer música. Mas tenho as palavras e com elas pinto, faço música.

Como se tecesse uma teia de aranha com palavras, cuidadosamente:

Teia de aranha
fios de seda e luz
amarram o sol.

Hoje por alguns momentos tivemos sol no jardim. As flores explodiam em todas as cores. Passarinhos transportavam alegria para lá e para cá. E isso merece um haicai que costuro agora mesmo:

Passarinhos voam
alegria em suas asas
num raio de sol

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

AUSTERIDADE

Terminei de ler o livro O CHALÉ DA MEMÓRIA de Tony Judt e me impactou muito. Ele nasceu em 1948 na Inglaterra de pais judeus. Eu nasci em 1950 no Brasil também de pais judeus e como em sua família, na minha casa não respeitávamos os feriados e nem os rituais judaicos. Minha mãe não acendia as velas em memória dos antepassados no shabat, nem tínhamos shabat. Mas havia a casa da minha avó com o shabat e os feriados e principalmente as comidas. O judaísmo para mim são os cânticos e as comidas da minha infância. E as histórias da Bíblia que minha avó me contava. Eu achava a Arca de Noé uma maravilha.
Mas as semelhanças da sua infância com a minha não terminam aí. Naquela época vivíamos em completa austeridade. Eu praticamente não tinha brinquedos e então inventávamos nossos brinquedos. O que eu mais amava eram umas revistas que vinham com bonequinhas para recortar e as suas roupas. Brincávamos de loja, recortávamos objetos das revistas e desenhávamos dinheiro e fazíamos uma loja. Brincávamos de Sítio do Pica Pau Amarelo e de Contos de Fadas. Para que brinquedos se tinhamos a nossa imaginação? A época de austeridade nos obrigava a usar a mente e isso era maravilhoso.Hoje o mundo ocidental e "rico" é um entulho só. Uma criança apenas possui mais brinquedos do que uma multidão. Brinquedos que brincam sozinhos e qual é a graça? Os livros são o maior brinquedo. Tony Judt nos fala com muito carinho da austeridade da sua infância. E eu me identifiquei completamente.

domingo, 25 de novembro de 2012

ENCONTRO NA CASA AMARELA

Ontem o Clube de Leitura da Casa Amarela se reuniu e recebeu novos habitantes: três professoras de Saquarema trazidas pela mão do Prof.Ivo.
Discutimos os livros "Madalena, O Último Tabú do Cristianismo" do Juan Arias, com ele presente. (Era surpresa. Foi idéia do Fernando , que não pode vir. Combinamos a leitura do livro em segredo total.) e "O Carteiro e o Poeta" do Antonio Skármeta. Também tinhamos que trazer para o nosso encontro a poeta chilena , Prêmio Nobel de literatura, Gabriela Mistral e quem lesse um poema da Gabriela o dedicaria a alguém.
O dia estava lindo e a temperatura amena. Chico Perez, nosso único vereador poeta, Flora, Héctor, Maria Clara, Gil, Ivo, Leila, duas Ângelas, o filho da Gil de 12 anos , Felipe, as três novas professoras, eu e Juan, nos entrelaçamos na sala para discutir a Madalena. Depois da surpresa inicial do Juan, Gil começou falando que o livro para ela havia sido um terremoto, pois destruia o seu castelo encantado onde Madalena era uma prostituta arrependida. Mas, pouco a pouco , ela ia voltando ao livro e reconstruindo a figura desta belíssima mulher que não era prostituta e nem arrependida, mas uma mulher culta , interlocutora de Jesus. Foi uma discussão acalorada e apaixonada, maravilhosa. Todos participaram, menos Felipe, que disse que se recusava a discutir um assunto ausente da sua vida.
Juan, que estuda teologia desde muito jovem e se formou em teologia e linguas semíticas em Roma, nos trazia a segurança do seu conhecimento, ele nos oferecia uma nova Madalena e seu tempo e ela na frente do seu tempo, uma mulher maravilhosa.
O Carteiro e o poeta também gerou paixões.Leila falou da torrrente de emoções que o livro desatou dentro dela, a partir da amizade entre o carteiro e Neruda e ela chorou muito quando leu o livro e chorou muito enquanto falava. Gil disse que foi o livro mais bonito que leu até agora desde que entrou para o Clube: um livro completo, amor, amizade e poesia. Todos falaram da maravilha que foi o encontro do carteiro com a poesia, como este encontro iluminou e mudou a sua vida. Juan disse que não era um livro sobre a amizade, mas sim sobre a poesia, que o carteiro se apaixonou pela poesia e não pelo Neruda como pessoa. Claro que ficaram amigos e também é um livro sobre a amizade, mas é o encontro de uma pessoa qualquer, simples, com a poesia.  Héctor achou que era um livro político, que a história era apenas um pretexto, mas quase ninguém concordou. Todos concordaram em que saber a história recente do Chile ampliava a leitura do livro.
E vieram os poemas da Gabriela Mistral. Foi um momento luminoso. Cada um trouxe um poema mais belo do que o outro e dedicava a alguém presente.
Angela e Maria Clara trouxeram livros para sortear, o "Confesso que vivi" do Neruda e "A Maior Flor do Mundo" do Saramago., Felipe também trouxe um livro do Quintana, e ele ofereceu a  alguém que verdadeiramente quisesse o livro. E o poema que falou da Gabriela Mistral era para falar da sua dor, da sua decepção amorosa.
E então fomos para a mesa do almoço , na varanda . Espalhei flores sobre a mesa. A feijoada no fogão de lenha. Pão e Vinho, literatura e amizade. Verdadeira celebração.
Próximo encontro: dia 23 de fevereiro.
Livros: Sagarana, João Guimarães Rosa e Morte e Vida Severina, João Cabral de Melo Neto.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

CLUBE DE LEITURA

Amanhã é o nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela. É um Clube flutuante como se fosse uma balsa navegando sobre um mar de ficções. Algumas pessoas faltam , outras novas chegam.
Amanhã discutiremos O Carteiro e o Poeta , um livro pequeno, alegre e triste, denso e leve. Há umpacto com o leitor: o autor não conta o final, mas como o leitor conhece a recente história do Chile, ele pode imaginar.
Desde o começo do mundo precisamos de histórias, nos alimentamos com elas, nos projetamos em personagens, vivemos em outras épocas, outras cidades, outros países, outros mundos. Com isso alargamos nossas experiências, resolvemos conflitos, crescemos, aprendemos a nos conhecer e aceitar o outro, o diferente, o estrangeiro. Aprendemos a lidar com nossas emoções. As histórias curam. Não se pode viver sem elas, como não se pode dormir sem sonhar. Pode ser a vida do vizinho, por isso os mexericos, porque precisamos de histórias. Por isso as telenovelas.
Quando passamos por algum momento difícil, quando ficamos aprisionados em alguma limitação física, nossa mente tem seu acervo de histórias pessoais e lidas e elas se misturam! então podemos suportar a imobilidade , a dificuldade. Um leitor usa a sua mente como ferramenta de exploração do mundo. 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

QUATRO JABUTIS

Recebo o livro Quatro Jabutis da ed. LÊ.Ás ilustrações , lindas, delicadas, são de Regina Rennó. O livro, para criança bem pequena, ficou uma jóia.
Os jabutis do jardim são uma grande inspiração e agora são cinco com a chegada do Godofredo, presente da Bia Hetzel.
Convivem pacificamente com as gatas e os passarinhos e são uma lição de calma e paciência.
Amo os jabutis.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

PEDIDO DE DESCULPAS

Peço desculpas publicamente. Sem nenhuma intenção ofendi a Diretora Janet da Cruz Carvalho , Diretora do Ciep de Porto Real que visitei em outubro.
Na ocasião os alunos da manhã estavam muito agressivos entre eles. Comentei o meu encontro, como faço com todos os encontros, mas a Diretora com toda a razão, ficou triste com a minha  crítica e explica que o Ciep estava invadido por uma epidemia de piolhos de pombo , o que estava deixando os alunos nervosos e também a família.
Entendo que um problema assim tão grave ,que levou a escola a ser interditada, é um fator de grande desequilíbrio para toda a vida escolar e tenho certeza que tudo voltará ao normal e que a Diretora Janet poderá outra vez, na plena função do seu cargo, levar para as crianças outra vez um ambiente de paz e cordialidade, leitura e arte . Diretora Janet, conte comigo para enriquecer a sua Sala de Leitura e acredito que com o seu amor e dedicação tudo na escola voltará a fluir.

CONCERTO DE POESIA

O Concerto de Poesia ontem, na Biblioteca de Botafogo foi muito bom. Era um público pequeno mas  amoroso. Suzana Vargas, que eu não via desde muito tempo. Amigos e amigas do facebook. Bia Hetlzel e Silvia Negreiros, minha editora, Miriam e José Luiz da ed. Rovelle. Revi tanta gente querida, foi um presente.

Cheguei em casa. Foram muitos dias longe e gostaria de trazer da minha viagem o encontro que tive em Barra Mansa com as crianças da E.M Professor Moacyr Arthur Chiesse. É uma escola bem sucedida. Todas as salas lindas, tudo bem cuidado como se fosse a casa da gente. Uma escola leitora. E num lugar de Barra Mansa bastante complicado. Mas a Diretora Monica Gonçalves é uma apaixonada e todos os professores também. São amigos e trabalham em uníssono. Ela busca parcerias, por exemplo a Viação Resendense é parceira e leva as crianças para os passeios em seus ônbus. Ela leva os alunos para os programas culturais do SESC. A escola tem aula de música e 20 alunos participam do Coral 1000 vozes que faz parte do Projeto Música nas Escolas. 40 crianças participam da orquestra. Para uma escola de 306 alunos é uma bela proporção. A Sala de Leitura é lindíssima com espelhos, araras com fantasias e um ambiente super acolhedor. A escola é uma boa notícia.

Agora consigo ficar alguns dias em casa e estou feliz . Estava com muitas saudades.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

MARINGÁ-MINAS

Estou em Maringá-Minas-Visconde de Mauá, no atelier de cerâmica da minha irmã Evelyn Kligerman e meu cunhado Luis Mérigo. Passei 4 dias na minha casinha no Vale do Pavão, sem internet. Recebi sábado a visita da Angela Carneiro que veio de táxi de Itamonte com sua fã e minha leitora Gisele para almoçarmos juntas. Foi um encontro maravilhoso. Almoçamos no Babel uma "festa de Babette" e eu estava comemorando a resenha que saiu no Prosa e Verso sobre meu livro Diário da Montanha, ed. Manati. Juan havia enviado uma mensagem pelo meu celular avisando e só consigo ver no restaurante, na minha casinha também não pega celular! Pedi ao caseiro que fosse de moto comprar o jornal no mercado (a 7km de distância) e quase surtei de alegria! Uma resenha de páginta inteira e com a minha foto.
Amanhã vou para o Rio muito cedo e estarei na Biblioteca de Botafogo às 19hs, na Rua Farani 53.
No próximo post, quando chegar em casa no dia 21, conto meus encontros nas escolas de Barra Mansa.
E gostaria de juntar a minha voz aos que pedem paz
 entre Israel e Palestina. Não há nada mais horrível do que a guerra.  

terça-feira, 13 de novembro de 2012

PÉ NA ESTRADA

Já estou eu de novo com o pé na estrada. Amanhã é a minha última apresentação com o Sesc Barra Mansa e vou hoje para Resende. Depois só o ato final do projeto que será uma festa , no dia 5 de dezembro na sede do Sesc Barra Mansa, quando me apresentarei com meu filho Guga Murray e nossa Caixinha de Música.
Mas como efeito colateral do trabalho, vou passar todo o feriado em Mauá e só volto no dia 20 direto para a apresentação da minha poesia  , às 19hs, Biblioteca de Botafogo, na Rua Farani 53. O projeto se chama Estação Pensamento & Arte.
Em Visconde de Mauá não tenho internet. Ficarei ausente do mundo paralelo virtual e retorno no dia 21.
Desejo a todos dias maravilhosos.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

PAIS NA ESCOLA

Na sexta-feira passada, meu último dia em Ubatuba, a E.M.Marina Salete marcou um encontro com os pais às 19:30hs. São quinhentas crianças. Foram no máximo uns quinze pais. Carmem, a diretora, já havia me falado da dificuldade de trazer os pais para a escola.
Hoje há uma matéria belíssima no O Globo sobre a família na escola, como este envolvimento faz toda a diferença na aprendizagem da criança.
É uma entrevista com Beatriz Pont, analista da OCDE. Ela sugere que "os sistemas priorizem a criação de políticas públicas a fim de incentivar, especialmente em áreas pobres, uma maior aproximação entre famílias e equipes pedagógicas."
A escola Marina Salete , em Ubatuba, onde estive, tem uma área externa muito grande. Eu sugeri a criação de uma horta coletiva com a comunidade de pais ajudando e todos poderiam colher verduras da horta. E também um pequeno jardim. Como na E.M.Hermann Müller, em Joinville no jardim, além de flores, as crianças poderiam plantar poemas em placas de madeiras que fabricariam com a ajuda dos pais.
Sugeri também que as diretoras Carmem e Tania Rita visitassem a casa dos alunos para tentar trazer os pais para a escola e vejo que esta é uma estratégia já adotada em muitos países. Sugeri  que pais e mães que tenham alguma habilidade, costura, artesanato, cozinha, marcenaria, venham até a escola para dar oficinas.
Beatriz diz que é muito importante dar boas notícias aos pais. A Sala de Leitura reinaugurada na E.M Marina Salete é uma excelente notícia e eu sugiro que as mães ajudem a confeccionar almofadas coloridas e que se tente fazer uma Roda de Leitura com os pais e as crianças na Sala de Leitura uma vez por mês, seria um grupo pequeno de cada vez e isso criaria fortes laços entre todos.
Há que criar laços de afeto entre os pais e a escola.

domingo, 11 de novembro de 2012

LONGA VIAGEM

Foi uma longa viagem de Ubatuba até Saquarema. Mas a estrada era linda e a vista impressionante. Infelizmente não consigo ler no ônibus, fico enjoada, então fui contamplando e pensando e afinal as seis horas passaram muito bem. Mas mesmo assim comprei um livro do Carl Sagan para ler nos intervalos. Cheguei em Saquarema às 21hs e Nana, minha gata, que está se tratando de um fungo, havia piorado e está muito mal, cheia de feridas horríveis e estou com muito medo. A médica só poderá vir amanhã. Quando fui para Ubatuba ela estava quase boa. Meu coração está por um fio, ela já tomou toneladas de remédio, banho com sabonete de enxofre, e agora a médica diz que vou ter que colocar um colar nela para que pare de se lamber. Não imagino a Nana com um colar. Estamos todos tristes com a situação.
A despedida em Ubatuba foi emocionante, Carmem e Rita foram comigo até a Rodoviária e virão um dia participar do nosso Clube de Leitura. Elas foram maravilhosas, não mediram esforços para me proporcionar o máximo de bem estar.
Agora pela manhã meu filho Guga Murray está fazendo o seu Concerto Didático em Santa Tereza no Projeto Paixão de Ler.
E terça-feira já volto para Resende pois dia 14 é minha última apresentação com o Sesc Barra Mansa, depois só no dia 5 de dezembro na culminância do Projeto.
Infelizmente amanhã não teremos a nossa feijoada para os alunos de Duque de Caxias, pois a Secretaria de Educação de lá cortou o ônibus prometido. Vai para a minha caixinha de tristezas. Ainda bem que não perdemos a esperança e ano que vem tentaremos este encontro outra vez.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

UBATUBA 2

Ontem pela tarde, no meu encontro com as crianças, havia um grupo de adolescentes lá no fundo da quadra. Eles eram de outra escola, a E.M Dionísia e este intercâmbio é muito bonito.
Quando as crianças foram embora, me sentei com eles numa roda para conversar. E fiquei sabendo que a escola deles está em obras e inúmeros transtornos atrapalham a vida da escola. Os livros estao encaixotados e eles trabalham apenas com uma apostila didática. Como estavam sentados num belo tapete, eu contei a história das Mil e Uma Noites. E fizemos um exercício lindo, tecemos um tapete imaginário com algum acontecimento maravilhoso da vida deles. Todos falaram de nascimento. Uma menina falou da recuperaçao da mae que ficou em coma por um ano. Falamos de profissoes, uma menina quer estudar gastronomia. Li alguns poemas, contei do meu processo de criaçao. Foi um belo encontro. Eles me ouviam em profunda sintonia e silêncio. Depois o professor me disse que aquilo foi um milagre, pois eles sao muito dificeis. Nao é um milagre, absolutamente. De uma maneira simples cheguei até eles. E os livros deveriam ser desencaixotados com a maior urgência possível. A gente faz uma leitura compartilhada até debaixo de uma árvore. Quando o nosso encontro acabou, uma menina veio me contar que ela escrevia poemas.
Decidi voltar amanha de ônibus, acho que é o caminho mais curto.
Hoje tenho a manha livre. Carmem e Tânia Rita me levarao até alguma praia deslumbrante.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

UBATUBA

Ontem saí de casa de madrugada e cheguei aqui em Ubatuba quase no final da tarde. Fiz o caminho mais complicado, pois fui de aviao até Sao Paulo e de Guarulhos até aqui gastamos quase 4 horas de carro. Mas subimos uma serra magnífica e entramos em Sao Luis do Paraitinga, cidade belíssima que quase foi totalmente destruída por uma cheia do rio em 2010. É uma cidade histórica realmente linda de morrer com seu casario antigo. por lá eles cultuam o Saci e quem ia gostar era meu neto Luis que anda apaixonado pelo Saci. Fiquei sabendo que por lá as festas folcóricas sao realmente imperdíveis. Nao encontro o til do teclado do computador que nao é meu, perdao!
A E.M Marina Salete foi quem me trouxe junto com a Secretaria de Educacao e ontem falei num teatro lindo para os professores e foi muito bom. Carmem , a diretora da escola e Tânia Rita, a cordenadora, sao sonhadoras, acreditam em amor na escola, em arte na escola, em fala e escuta. Os alunos hoje fizeram lindíssimas apresentaçoes e foi tudo muito bom. A escola recebeu a visita de um coral de outra escola e as crianças cantaram junto com o coral, dançaram, eram pura felicidade.
Agora estou no restaurante do hotel, estou sozinha, um pianista tocando jazz só para mim e vejam só onde a minha sacola de livros me trouxe: a esta cidade magnífica, cheia de florestas, me trouxe até estas lindas pessoas.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

AMIGOS

Amigos são a família escolhida e a felicidade do amigo nos inunda como se fosse nossa: Este é o selo da amizade. Não há limite para o tamanho do sentimento. Um amigo entende, aceita, acolhe.

AMIGO

que um amigo se reconheça
sempre
na face de outro amigo
e nesse espelho descanse
seus olhos
e derrame sua alma
como a crina de um cavalo
levemente pousada no vento

in Poesia Essencial, ed. Manati

Acordo e ainda é noite. Levanto e faço o café. A música do mar, soberana, invade a casa. Preparo a mala para Ubatuba. Meus leitores me esperam.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

LIÇÕES DA COLÔMBIA

Leio que a Colômbia tem muito mais bibliotecas escolares que o Brasil. Uma biblioteca não é uma Sala de Leitura, que é informal , com tapetes, almofadas, um clima descontraído e não está regida pelas regras da biblioteca. A frequencia a uma biblioteca desde cedo ensina exatamente isso: a usá-la , a saber buscar a informação. E a Colômbia faz um trabalho interessante na área de formação de leitores. Faz Rodas de Leitura com professores e pais. E estimula as mães a ler para os seus bebês. A leitura compartilhada , creio, é a melhor ferramenta para a formaçao de leitores. Ou a discussão de um livro em conjunto, como fazemos no nosso Clube de Leitura. Cada escola deveria ter um Clube de Leitura que juntasse professores de todas as disciplinas., Há um clichê horrível que perpetua a idéia de que leitura é com a professora ou o professor de português, como se a professora  ou professor de história ou de matemática, ao escolher as suas disciplinas, tivessem banido a leitura de suas vidas, que absurdo!!!
Pensei o Clube de Leitura  para professores e para minha surpresa temos gente de muitas áreas. E recebemos gente que nunca havia lido e que já se tornou leitor.
Uma escola que não é leitora está destinada ao fracasso. E com todas as dificuldades há que envolver a família.
Uma vez fiz uma experiência. Duas adolescentes passavam a semana aqui em casa. Dei a elas o livro O Menino do Pijama Listrado de John Boyne e pedi a elas que antes de dormir, cada noite, uma lesse um capítulo em voz alta . No final da semana elas já tinham acabado de ler o livro e amaram e ficaram muito curiosas com o tema da Segunda Guerra. Cada livro se multiplica em mil temas e vai aguçando a curiosidade do jovem leitor.
No meu livro Território de Sonhos, ed. Rocco, criei cada conto com um personagem leitor. Em um dos contos uma menina está esperando a visita de um menino por quem já está apaixonada, tecendo mil fantasias e ao mesmo tempo está lendo o Diário da Anne Frank. O leitor do conto que não leu o Diário pode ter o desejo de buscá-lo . Quando escrevi o livro, nunca tive este retorno, pensei em jogar esta isca. Uma citação pode ser o canto da sereia.

domingo, 4 de novembro de 2012

FICÇÃO

Nos diz Antonio Muñoz Molina, maravilhoso escritor espanhol, autor de SEFARAD:

"Necesitamos relatos para que el flujo de la realidad se nos vuelva inteligible. Unos más y otros menos, todos necesitamos relatos de ficción y de no ficción, fábulas y crónicas, retratos de personas que existen o han existido o que son imaginarias, documentales e historias interpretadas por actores. Necesitamos mirar de cerca la realidad y necesitamos escapar temporalmente de ella, y encontrar en las ficciones donde satisfacemos esa huida claves simbólicas que nos ayuden a entender lo que vemos al abrir los ojos, al apartarlos del libro, al salir de la sala de cine."

Uma vida não basta. E a ficção nos permite viver mil vidas. A literatura nos ajuda a viver a nossa única vida, tão pouca.

Enquanto releio O Carteiro e o Poeta, de Antonio Skármeta, para o nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela , no dia 24 de novembro, além de viver intensamente a relação do carteiro Mário com Neruda, o livro me traz de volta o tempo da sua primeira leitura na década de 80 e me traz também de volta o início dos anos 70 , quando hospedei duas chilenas que fugiam do terror no Chile. Muitos tempos se misturam, muitas Roseanas dentro de mim, algumas sobreviveram, outras já não existem mais. Muitos amigos da época em que pela primeira vez li o livro, desapareceram na fumaça do tempo. Este um dos milagres da ficção, ela nos aduba e ao mesmo tempo revira dentro de nós várias camadas de tempo.

sábado, 3 de novembro de 2012

AS SEREIAS

Hoje o tempo está escuro , meio cinza e o mar também. É o meu tempo predileto. Não faz calor e posso respirar.
Entre todas as notícias da semana , fiquei comovida com a do elefante que fala algumas palavras em coreano. Palavras de delicadeza: "bom dia! Como vai? Obrigado!" Ele é a sensação do seu zoológico.
Abomino desde sempre os zoológicos do mundo inteiro. E amo os elefantes. melhor seria se ele pedisse "liberdade, por favor!".
Não sei se as sereias preferem os dias azuis e ensolarados ou se, como eu, mergulham dentro de suas almas nos dias nublados. E dormem.

AS SEREIAS

Navegar, navegar
pelos sete mares,
atravessar
montanhas de água,
florestas de água,
para encontrar
a pedra azul
onde dormem as sereias.

in O Mar e os Sonhos, ed . Lê, selecionado para o PNBE 2013

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

CAIXA DE PANDORA

Conheci Jorge Vale em 2002 quando cheguei em Saquarema para morar. Ele dava aulas de teatro e pintura numa casa muito simpática. Os anos se passaram. Uma vez ele montou um espetáculo lindíssimo com meu livro Classificados Poéticos. Em setembro ele me chamou para ir até a ONG Educandário do Bem ,que é um Ponto de Cultura, para conversar com as crianças. Lá fui eu sem saber o que me esperava. A casa do Educandário é um encanto total. Lá, 60 crianças fazem aulas de teatro, arte, dança e reforço escolar em dois turnos, manhã e tarde. Ganham um lanche maravilhoso preparado na cozinha sempre perfumada, com cheiro de bolo assando.
Nos sentamos em roda no quintal, com vários dos meus livros espalhados pelo chão e Jorge me explicou : as crianças escolhiam os poemas, os livros estavam todos misturados, para crianças, jovens e adultos. Depois eles costurariam os poemas, tentando dar um sentido. A ONG ganhou dezenas de caixas de sapato vazias, então, o cenário seria feito com as caixas. Das caixas saiu a idéia: CAIXA DE PANDORA.
O espetáculo foi costurado em torno das idéias de esperança, sonho, paz. Os pássaros e o mar percorriam todo o espetáculo. As crianças pintaram as caixas na aula de arte e fabricaram pássaros de origami, que pendiam do teto junto com meus livros. Dentro do espetáculo as crianças estavam quase sempre lendo, ou com um livro nas mãos.A idéia de que a leitura move o mundo. O figurino era belíssimo. E as crianças , de 9 a 12 anos, pareciam atores profissionais. Os efeitos visuais no palco eram magníficos e isso sem tecnologia, tudo com panos e elásticos. As músicas perfeitas , se encaixavam nos poemas.
Caixa de Pandora é um espetáculo que faz a gente chorar de emoção. Tomara que a Secretaria de Educação de Saquarema consiga aproveitá-lo e leve a Caixa de Pandora para uma apresentação nas escolas.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

CHEIRO DE ALGAS

Ontem ao chegar em Saquarema fui envolvida por um cheiro de algas, era quase uma teia que me cobria da cabeça aos pés. Era bom. Estava tão exausta , da viagem, do calor, que nem consegui desfazer a mala.
Mas o trabalho de ontem no C.M Antonio Pereira Bruno em Barra Mansa foi maravilhoso. Queria ressaltar o descaso com que a Prefeitura de Barra Mansa trata as suas escolas. É uma vergonha. A escola onde passei a manhã ontem, já não se aguenta em pé, o chão destruído, infiltrações por todos os lados, chove dentro, etc. Mas os professores vão tecendo os seus milagres. A Diretora Rose pediu ao Sesc que eu chegasse uma hora antes para um encontro com os professores. Já ao entrar na escola senti uma lufada de afeto, é uma energia difícil de explicar. Nos sentamos numa roda e fui já falando que não estudei pedagogia e não sou educadora, sou poeta. Mas ao visitar tantas e tantas escolas por todo o Brasil tenho um mapa do que funciona; amor, leitura, arte, esporte. E escuta. E os professores me contaram o que fazem: se a professora de história está ensinando a segunda guerra e lendo trechos do Diário de Anne Frank, a professora de português indica o livro A Menina que Roubava Livros. Uma outra professora trabalha com o conto O Espelho do Machado de Assis junto com um filme cujo nome não consigo lembrar, mas que trata do problema do capitalismo selvagem, de como rouba a nossa verdadeira identidade . O entendimento entre os professores, a camaradagem, carinho, amizade , era visível, palpável. Ficaram maravilhados com o Clube de Leitura da Casa Amarela e vão fazer um Clube de Leitura na escola para os professores.
Depois de um lanche magnífico, com bolos e pães de queijo, o meu encontro com os alunos foi tão bom que nem sei como contar. Fizemos brincadeiras, dançamos! e falamos de coisas muito sérias. Li muitos poemas, contei um pouco do meu jeito de criar e então eles ganharam o livro Caixinha de Música, ed. Manati e depois de autografar todos os livros eu estava plena, cheia de uma felicidade luminosa. Ainda por cima soube que meus livros Carteira de Identidade e O Mar e os Sonhos, ed. Lê, entraram no PNBE.
Hoje é dia de colocar a vida virtual em dia outra vez. 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

UMA CASINHA DENTRO DO BOSQUE

Cheguei ontem à noite em Resende, de Visconde de Mauá. Passei cinco dias na minha casinha dentro do bosque, desconectada. Na minha casinha não tenho internet e nenhum sinal para celular. É um mergulho total para dentro da natureza. Outubro é o começo da época das chuvas. Choveu granizo depois de um dia lindo de muito calor. Choveu todas as tardes. Li um livro lindíssimo do Hermann Hesse que não conhecia: Pequeno Mundo. São sete contos maravilhosos e não poderia haver lugar mais perfeito para se ler os contos. Passei muitas horas com meu neto. Muitas horas contemplando.
Para este projeto do Sesc Barra Mansa fico sediada em Resende e todos os dias de trabalho, um taxista, André, vem me buscar. Ficamos amigos , ele é um grande lider na sua comunidade em Floriano, luta pela escola municipal, para que não acabe. A idéia é acabar com as escolas rurais, sai mais barato levar as crianças de ônibus para Barra Mansa do que investir nas escolas.  Ele foi almoçar conosco no domingo levando sua bela família, pois meu neto já havia se apaixonado pelo seu filho Ian. André e Ione, um lindo casal. Os dois lutam pelo lugar onde vivem. Eles possuem uma padaria e nos contaram que o ofício de padeiro está em extinção, mas felizmente conseguiram um padeiro e confeiteiro maravilhoso que além de pão, faz bolos e tortas e um maravilhoso pão de queijo. Agora, ele nos contou, a massa vem congelada e pronta e não é preciso um padeiro para fabricar a massa. Heresia, horror dos horrores. Felizmente na minha casa não compro pão, eu mesma o fabrico, todos os dias, com as minhas mãos. E a padaria do André tem um padeiro.
Amanhã cedo volto ao trabalho em Barra Mansa e de lá já vou direto para casa. É uma longa estrada.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

ADOLESCENTES

Ontem tive dois encontros em Barra Mansa. pela manhã com crianças, na E.M Djair Machado e foi maravilhoso. Brincamos com a poesia, as crianças eram alegres, vibrantes e tudo funcionou.
Pela tarde, na E.M Luiz Amaral eu me encontrei diante de 80 adolescentese rapidamente pensei: tenho que mudar tudo. Então conversamos sobre processo de criaço, identidade, desejos, sobre a vida. Foi emocionante e fui aplaudida de verdade. Eles me reconheceram como alguénm que sabe falar a lingua deles.Fui inundada por uma onda de felicidade. A escola  preparou um lanche esplêndido, o bolo de fubá da Diretora Carla vai entrar para a Història.
Hoje vou para a minha casinha do bosque em Visconde de Mauá. Estou bastante cansada e a mata vai me refazer . 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

ENCONTRO NA IGREJA

O táxi do André veio me buscar cedinho da manhã aqui em Resende. Fomos para Floriano. Antes paramos na sua padaria e tomamos um café, ainda dava tempo.
Para minha surpresa, o encontro com os alunos seria na Igreja Nossa Senhora dos Remédios, pois a E.M Municipal Bartolomeu Anacleto, que ficou em oitavo lugar no IDEB Rio de Janeiro e primeiro lugar no IDEB Marra Mansa é tão minúscula que não poderia juntar todos os alunos num mesmo espaço. Na escola não há nada material que justifique tanto sucesso. A estante de livros fica no refeitório, pois não há nem Sala de Leitura. A receita é: o esforço dos professores e o envolvimento da família. Os pais gostariam de uma quadra de esportes, uma Sala de Leitura, uma Sala de Informática. Com notas tão altas no IDEB a escola mereceria mais atenção e cuidado por parte da Secretaria de Educação de Barra Mansa.
Pela manhã nosso encontro foi lindo e pela tarde tivemos a participação do meu filho Guga. Minha nora e meu neto também foram. Música, poesia, brincadeiras, e as crianças ainda levaram para casa um livro autografado. Que maravilha.
|Amanhã o projeto FALA LEITOR! estará em Barra Mansa.  

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

NA ESTRADA OUTRA VEZ

Hoje vou para Resende pois amanhã recomeço o trabalho nas escolas de Barra Mansa e Porto Real junto com o SESC Barra Mansa com o Projeto Fala Autor! O Sesc me ligou dizendo que as escolas estão adorando os encontros e isso me fortalece.
Tenho me sentido verdadeiramente artista e cigana, com a minha mala de livros para lá e para cá e este sentimento me traz de volta os anos do Proler, quando viajávamos em bando e que guardo como um tesouro inestimável, pepitas de ouro puro. Conheci as pessoas mais maravilhosas e muitas ficaram na minha vida para sempre. E muitas estão de volta através do facebook, mesmo que apenas virtualmente me trazem uma lufada de alegria. Na verdade queria ter todas ao redor da minha mesa, mas mesmo que a mesa seja virtual, sintam-se , os que viajaram comigo (encontrei o Gregório no Acre, o nosso maravilhoso patrão) completamente abraçados e amados. O Proler foi a melhor escola da minha vida e que pena que passou, mas foi como um vento mágico que varreu e transtornou as nossas vidas e quem viajou pelo Proler nos anos 90 levando leitura e arte pelo país sabe do que estou falando.

domingo, 21 de outubro de 2012

CAFÉ DA MANHÃ

Saquarema tem tesouros escondidos na sua zona rural. Hoje tomamos café da manhã no sítio de uns amigos muito queridos e me sentia numa fazenda do século XIX. Conto algumas coisas que vi:
Um pavão maravilhoso, logo na chegada. Uma galinha chocando no fogão de lenha, dentro de uma cesta, em cima de quinze ovos. Uma mangueira carregada de mangas e flores e dezenas de vasos de orquídeas floridos, cada um de um tamanho, fazendo uma dança em torno da árvore, uma dança mágica. Uma árvore de lima da pérsia toda carregada e florida. Acabávamos de ler um poema do Neruda na mesa do café e eu perguntei ao Juan: _O que é azahar?  e ele me respondeu: _ É a flor da laranjeira. Depois do café, ao passarmos pela árvore o Juan apontou as flores: _ Veja, isto é azahar! As flores da laranjeira sairam do poema (literalmente).
No café da manhã havia uma salada de fruta em taças individuais e maravilhosas, coberta com lascas de coco fresco, linda! Um bolo de fubá com coco, salgado e bem molhado, devem ter copiado a receita do paraíso. Um bolo cheio de nozes e passas, um pão integral caseiro, geléias da casa, ovo frito com tomate, tudo isso olhando a mata luxuriante e a lagoa. Lugar mais lindo não há, tão virgem, tão bem cuidado. Falamos da vida, eles acabavam de voltar do Uruguai e estavam encantados com o país e a simplicidade do seu presidente que mora numa casa comum e dirige seu próprio carro, ao contrário dos nossos políticos que ao chegarem ao poder se lambuzam. Falamos de livros, de poesia. Vimos fotos da Isla Negra, da casa do Neruda, pois nosso próximo livro do Clube de Leitura é O Carteiro e o Poeta.

sábado, 20 de outubro de 2012

SEREIAS

Para o sábado um haicai do livro O Xale Azul da Sereia, ed. Larousse Júnior :

sereias costuram
com fios de horizonte
seus xales azuis

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

MEMÓRIA

Voltar a um lugar depois de certo tempo e reconhecer uma loja, uma padaria, uma livraria, um restaurante, nos dá uma sensação de conforto e segurança. A marca da nossa época é a fluidez, tudo nos escapa das mãos e dos olhos. Então , voltar a uma cidade e reconhecer lugares que nos marcaram é maravilhoso.
Sou aventureira e conservadora ao mesmo tempo. Adoro o meu bairro que muda tão pouco desde que cheguei aqui. O Seu Teixeira sempre na porta do mercado da esquina, mercado péssimo, não tem nada e assim me obriga a comer frugalmente e a economizar, o Moisés da farmácia , sempre com um sorriso e uma delicadeza para nos oferecer como caramelos. Ele melhorou a farmácia, está linda, mas continua ali, no mesmo lugar. As duas pensões de comida caseira. Uma mudou de um lugar para outro a cinco passos de distância. O bar da esquina que muito amavelmente coloca cadeiras na calçada para que os passageiros irritados com a demora dos ônibus possam esperar sentados e na sombra. Todas estas coisas que estão sempre ali, todos os dias, me dão uma sensação de continuidade, parece que irei viver para sempre. E já fazem parte do meu acervo de memórias.

MEMÓRIA

Há pouco tempo,
aqui havia uma padaria.
Pronto - não há mais.

Há pouco tempo
aqui havia uma casa,
cheia de cantos, recantos,
corredores impregnados
de infância e encanto.
Pronto - não há mais.

Uma farmácia,
uma quitanda.
Pronto - não há mais.

A cidade destrói, constrói,
reconstrói.
Uma árvore, um bosque.
Pronto - nunca mais.

in Paisagens, ed. Lê.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

MICROONDAS

Hoje leio que falta o básico em mais de 27 milhões de moradias. Água e esgoto. Ou seja, saúde. Mas leio na mesma ,matéria que a família de um  gari pernambucano gasta 42% do seu orçamento mensal para pagar uma moto que usa apenas nos finais de semana pois morrem de medo de que a moto seja roubada.Ela fica guardada na sala. E ainda pagam a prestação de uma TV de LCD de 32 polegadas e um forno de microondas.Não sei o que sobra para comprar comida e assim usar o microondas. E também não sei o nome disso.
Quanto mais somos leitores criticos mais podemos resistir ao apelo de uma sociedade de consumo que faz os menos favorecidos consumirem seus tostões em televisões espalhafatosas e microondas inúteis.Com este dinheiro poderiam construir uma fossa. Melhorar a casa. Fazer um curso.
Saber que a sociedade de consumo é uma imensa teia de aranha e nós somos os insetos nos ajuda a resistir. Resistir é não ser engolido pelo sistema que tritura o ser humano com desejos que não são reais.
Aqui em casa não temos carro nem microondas. Tudo o que possuimos é modesto , básico e se não for necessário não compramos. Com o dinheiro de alguma prestação de alguma coisa inútil eu pago um curso técnico e de música para um autista que "adotei".
O Brasil precisa mesmo de leitores. É a única maneira de adquirirmos consciência e valores invisíveis que não são encontrados em lojas.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

LANÇAMENTO EM SAQUAREMA

Ontem a casa estava em festa. Era o lançamento do meu livro Diário da Montanha, ed. Manati e do Juan, O Grande Segredo de Jesus.
Preparamos os pães, a mesa dos vinhos, os queijos, o lugar onde os músicos iriam tocar: encostados no fogão de lenha.
Os músicos marcaram às 16hs em nossa casa, o lançamento começaria às 19hs. Às 18hs me telefonaram que estavam engarrafados em Maricá. Às 19h estavam descendo a serra. A partir de então perdemos o contato com eles.
As pessoas chegava em ondas coloridas. Minhas novas editoras da Rovelle, Carolina e Miriam, vieram do Rio apenas para me dar um abraço. E professoras e professores de todas as escolas. E o Maestro Moisés e meu querido Robledo e o Ivo e o Jorge Vale. E nada dos músicos. E a Secretária de Educação com toda a sua equipe. E o Camilo Mota e os participantes da Terça Poética e a Telma do Cacs. Nada dos músicos. O celular deles dava fora de área.  Leila, minha amiga que veio do Rio me consolava. Mariana, minha leitora, na mesa vendendo livros , me consolava.
E então, depois que muita gente já havia ido embora, eles chegaram às 20:30hs. Eles se perderam horrivelmente, foram parar quase em Rio Bonito, pois em Maricá se enfiaram num caminho errado.
Nunca vi músicos arrumarem o som com tanta rapidez e logo a casa voava e logo todos dançavam ao som do violino cigano. Mariana deu um show de dança árabe, dançamos em roda, uma linda mulher dançou flamenco, Aline, a filha da Vanda , nossa caseira, entrou na roda dançando com a Mariana mostrando a sua verdadeira vocação. Foi maravilhoso!!!
Hoje estou como um bicho preguiça, saboreando os ecos da festa inesquecível, graças aos amigos, aos professores, ao grupo da Secretaria de Educação , Ana Paula e Valdinei puxando a roda.
Agradeço.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

LONGEVIDADE

Qual o segredo da longevidade? Hoje leio uma linda matéria sobre a população de uma cidadezinha do sul onde a maior parte das pessoas tem mais de 60 anos. Todos trabalham nos seus pomares e jardins e vivem a vida com alegria, os amigos são cultivados como plantas urgentes e necessárias. Alguns falam que a receita é a alimentação e o vinho, outros dizem é isso ou aquilo, mas todos são unânimes: não se deve parar de trabalhar no que se ama.
Eu, com 61 anos, aproveito todas as benesses da minha idade: não pago o banheiro na rodoviária, entro em filas especiais, sou a primeira a entrar no avião. No mais trabalho muito e por dentro tenho todas as idades. Ontem passei o dia muito triste e me senti com mil anos, pois afinal , na minha idade, vamos perdendo pessoas muito queridas. Mas hoje acordei com vinte e dois, pois estamos preparando o nosso lançamento e há um rio de alegria correndo pela casa. Cada lançamento é uma inauguração. A nossa casa é uma fábrica de poesia.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

TIA CECÍLIA

No belíssimo livro Luzes Acesas da Bella Chagall , Bella diz que tenta salvar para o Chagall alguns dias e acontecimentos da sua infância.
Ontem minha tia Cecília foi sepultada e eu tambem tento salvar seu retrato dentro de mim. Não quero que se apague nunca. Ela morreu com 92 anos e sua mente partiu antes dela.Mas quando fui visitá-la pela última vez ela me disse "não me lembro de você, mas que bom que veio me ver!".
Ela era gordinha, linda, com as faces rosadas de pura alegria de viver e a mais velha das três irmãs.  Eu me lembro da sua casa cheia de comidas maravilhosas. Ela adorava cozinhar, seu reino era a cozinha.Nós morávamos no bairro do Grajaú, a família inteira, todos moravam perto uns dos outros. E como não havia violência no Rio de Janeiro daquela época, na minha infância, eu visitava cada casa, uma por uma. A casa da Tia Cecília ficava num prédio antigo e um pouco feio e escuro na praça Malvino Reis. Mas quando a gente entrava na casa havia sempre um cheiro de bolo, de doce,de amor. Eu amava as taças de pudim de duas cores. 
Estar perto dela fazia bem. Seu sorriso iluminava qualquer ambiente,a gente ficava feliz, ela era como um passarinho cantando com qualquer tempo.
As três irmãs eram muito unidas, inseparáveis. Minha mãe, Bertha, foi embora primeiro , agora a Cecília partiu e tia Alice ficou tomando conta da memória das duas, como guardiã de uma cristaleira antiquíssima que guardasse os objetos mais frágeis e preciosos .

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

DURANTE A NOITE

Durante a noite a chuva percorria meu sono. Choveu sem parar a noite inteira aqui em Saquarema. Chuva boa prazenteira , como disse Tom Jobim. Pela manhã o jardim agradecia em todos os tons de verde. A chuva se ausentara e a sua volta faz a gente pular de alegria junto com as flores e provoca um surto de fertilidade: comecei hoje um livro novo de poemas, embora meu livro de contos ainda se arraste. Mas assim como leio sem nenhum problema vários livros ao mesmo tempo, posso escrever vários textos diferentes ao mesmo tempo e quem sabe o novo trabalho me forneça alento para continuar os contos.

Lá fora, atrás de mim, pois escrevo voltada para as montanhas, o mar , furioso, envolve a casa em seu rumo a lugar nenhum, não gostaria de estar agora em um barco. Ainda bem que estou firmemente amarrada , junto com minhas memórias, aqui na casa, e hoje é dia de ler, de ver um filme, de sonhar.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

MEU FILHO MÚSICO

Meu filho Guga Murray chegou da Espanha para viver em Resende com a família. Temos um livro juntos, o Caixinha de Música da ed. Manati. Na Espanha Guga trabalhou para o governo da Andaluzia com concertos didáticos e quer fazer algo parecido aqui no Brasil. Já vai participar de dois eventos no Paixão de Ler no Rio de Janeiro e se alguma escola se interessar aqui estão as ementas . Há uma Oficina e um Concerto:

"Caixinha de Música" é um concerto didático (concerto comentado) com a participação do público. O músico vai retirando da sua "caixinha de música" livros de poemas de varios poetas tais como Drummond, Quintana, Arnaldo Antunes, Neruda, Roseana Murray e os poemas lidos desembocam em canções em versão instrumental. Temas transversais como o amor, a separação, a memoria e o tempo, são sublinhados numa releitura musical e discutidos com a platéia. O concerto tem uma duração aproximada de 50 minutos e é dirigido ao público jovem/adulto.




A Oficina Caixinha de Música, a partir do livro Caixinha de Música, Ed. Manati, ,de Roseana Murray com partituras de Guga Murray, propõe para cada poema uma dinâmica musical com a plateia interagindo. São brincadeiras, canções, sons produzidos com o próprio corpo. A Oficina também trabalha com lembranças e memórias, com a escuta e o olhar.



A Oficina pode ser realizada num só encontro ou pode ser desdobrada em vários encontros com a construção de instrumentos utilizando materiais bem simples.



A Oficina pode ser realizada com públicos variados, desde crianças e adolescentes até a terceira idade.



Contato: (24) 8839-2605
(24) 3359-0785
(22) 9944-5874

gugamurray@hotmail.com


Pequena biografia de Guga Murray:

Nasceu no Rio de Janeiro em 1973. É musicista e transita entre a música popular e erudita. Lançou dois discos com o conjunto musical Um Trio Viralata. Trabalhou no Projeto de integração cultural Terra Musical junto ao governo da Bretanha, França. Viajou com seus Concertos Didáticos por toda a Andaluzia , dentro do premiado projeto ABECEDÁRIA do governo Andaluz., durante três anos.
Trabalhou como professor de música em São Paulo, por nove anos, na Escola de Música Companhia das Cordas . É especialista em formação de bandas com crianças e jovens.
Viveu na Espanha de 2004 até 2012 e agora reside em Resende, R.J.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

DIA DA AVÓ

Estou em Resende e hoje é Dia da Avó na escola do Luis, meu neto. Tenho que contar uma história. Mas não vou ler nenhum dos meus livros. Vou contar a história da Dona Baratinha que o Luis, que tem 3 anos, ama de paixão perdida.
Amanhã estarei em Barra Mansa, manhã e tarde e quarta-feira volto para casa. Eu e Juan prepararemos o lançamento dos nossos livros Diário da Montanha, ed. Manati e O Grande Segredo de Jesus, ed. Objetiva. no dia 16 . Há que fazer os pães, preparar as pastas, as tortilhas , etc, etc. Gosto da adrenalina da produção. A Secretaria de Educação, sob a batuta do Valdinei, é quem está distribuindo os convites para os professores. Sempre morro de medo de não aparecer ninguém no lançamento. É um terror infantil que tenho. E do músico, o violinista cigano Dino Guterrez , se esquecer. São meus pesadelos. Mas acaba dando tudo certo e é uma grande alegria abrir a nossa casa . E o violino, embrulhado nas ondas do mar, trará a todos os presentes recordações maravilhosas.  

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

PORTO REAL OUTRA VEZ

Já estou aqui esperando o motorista que me levará a Porto Real. Um porto sem mar, adoro estes nomes poéticos que não se sabe de onde nasceram. Algum Rei terá chegado num outro tempo, num tempo do Era uma Vez em seu barco voador?
Vou para a E.M Cruz e Souza e penso que as paredes da escola deveriam estar cobertas com seus poemas.
Estes dias com meus dois filhos e neto aqui em Resende estão sendo muito bonitos. Nunca imaginei que estaríamos todos juntos outra vez.
Esta casa onde estou hospedada é bela e interessante. No primeiro andar funciona uma escola de cozinha e será também uma escola de música. No segundo andar é uma casa mágica por causa das cinco gatas que a habitam. Da janela do escritório de onde escrevo vejo lindas árvores, vejo um ipê amarelo todo florido. Resende tem uma beleza toda especial, o rio que serpenteia, as Agulhas Negras que parecem uma cordilheira.
Hoje subo para Visconde de Mauá, para a minha casinha da montanha.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

PRIMAVERA

Na escola de Barra Mansa perguntei se alguém poderia me dizer o que era um poema. Uma aluna se levantou e disse: "O poema é um pêndulo que vai e vem no espaço".
Achei a definição belíssima.
Ontem, conversando com meu filho Guga Murray que fará duas apresentações do nosso livro Caixinha de Música, Ed. Manati, no Projeto Paixão de Ler em novembro, ele me disse: "Para mim o poema é uma instalação no espaço e no tempo."

E hoje, aqui em Resende, o dia explode de tanta primavera:

MEL

Na curva da primavera,
no alto da montanha,
abelhas fabricam mel.
Zumbem, dançam, rodopiam,
cantam para as flores
o azul do dia.

in Poemas e Comidinhas, ed. Paulus

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

PORTO REAL

De Porto Real tenho uma linda lembrança sem conhecer a cidade: de lá saíram os tijolos de argila, feitos manualmente , um por um, na olaria do seu Zezinho.
Ontem passei a tarde na E.M Cruz e Souza em Porto Real, mas não conheci a cidade.
Foi um encontro maravilhoso , fiz uma dinâmica linda com cada poema do livro Caixinha de Música e me contaram que a escola tem um projeto de leitura super original: o PARADÃO: a escola inteira para por quinze minutos para ler. Todos, desde os professores, até as merendeiras, faxineiras, passando pelos alunos. Pode ser uma revista, um artigo de jornal, um romance, a Bíblia, o que for.
Quando as crianças receberam seus livros , na linda Sala de Leitura, foi lá que aconteceu o nosso encontro, pude presenciar uma cena emocionante: elas abriram o livro e TODAS AS CRIANÇAS começaram a ler os poemas em voz alta ao mesmo tempo! Fiquei muito impactada.
Hoje fui até a Praça do Tobogã com meu neto, praça linda, cheia de brinquedos maravilhosos e cheia de micos.  Há uma escola municipal dentro da praça e as crianças estavam tendo aula de trânsito sentadas na terra, era lindo de se ver.
Hoje e amanhã tenho o dia livre aqui em Resende. Estou hospedada na Escola de Cozinha do meu filho André Murray e minha nora Dani Keiko e hoje tem aula de cozinha de botequim: galinha com quiabo e costelinha de porco com feijão tropeiro, escondidinho de camarão, bolinho de bacalhau e brigadeirão de sobremesa. Aos interessados: 24 99770152.
 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

ENCONTRO EM BARRA MANSA

Depois de alguns dias em Visconde de Mauá, na minha casinha do bosque, fui ao encontro dos meus leitores ontem em Barra Mansa.
O Projeto Fala Autor! do Sesc é belíssimo, pois além de um grupo de contadores de histórias, uma pessoa com uma Oficina da Palavra, um encontro com o autor, os alunos recebem o livro trabalhado, no meu caso o Caixinha de Música com o Guga Murray, meu filho , como autor das partituras musicais.
Pela manhã Rita me levou para o C.M.Prof.Marcello Drable. Eram oitenta e cinco crianças e adolescentes.
Inventei dinâmicas com os poemas. O resultado foi incrível, emocionante.
Num dos poemas, o do tapete voador, sugeri a construção de um tapete mágico só com acontecimentos maravilhosos da vida de cada um. A primeira menina que levantou a mão para contar nos disse:
" O dia mais maravilhoso da minha vida foi quando fui adotada." E ela é uma atleta premiada com o sorriso mais lindo do mundo. Fiquei muito impactada.
A professora Sirlene, da Sala de Leitura, é uma professora apaixonada e ficou de nos visitar em Saquarema. À tarde fui para a E.D.Cecília Monteiro de Barros. A escola tem um projeto bastante especial: 100 meninas passam a tarde no colégio com aulas de música, teatro, bordado, leitura. As Irmãs Franciscanas são amorosas e dedicadas ao extremo. A sala de leitura é tão linda que dá vontade de morar lá. Há uma arara cheia de roupas para teatralização dos livros. Achei ótimo, além do belo visual .
A nossa tarde foi cheia de música e alegria e nunca recebi tantos abraços e beijos. Cada criança, no final, com o livro Caixinha de Música nas mãos, era música para os olhos!
E já em Resende fui ao encontro do meu neto Luis.
E hoje passarei a tarde em Porto Real.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

AVÓ E NETO

Ontem no fim da tarde fui ao encontro do meu neto em sua escola, Fomos até a sua sala. Eles estavam numa rodinha ouvindo histórias e quando Luis me viu se levantou correndo e veio me abraçar. Nove meses depois. desde a última vez em que estivemos juntos. Foi um longo abraço.
Hoje passamos a manhã inteira juntos. É um amor monumental.
Agora subo para Visconde de Mauá onde ficarei alguns dias sem internet.
Até a volta!

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

CONVERSAS SOBRE O INVISÍVEL

A alegria de recuperar um livro que foi emprestado e perdido: "Conversaciones sobre lo invisible"  de Jean Audouze, Michel Cassé e Jean-Claude Carrière.
Leio, ou melhor, releio, vinte anos depois :

Michel Cassé, astrofísico, diz:
" Sim, somos todos filhos das estrelas, esta é hoje nossa mais elevada afirmação. Inclusive é a descoberta  mais essencial dos últimos vinte anos. Nosso olho está formado pela mesma matéria que constitui o sol. Foi formada pelo sol e é por isso que vemos. Entre o olho e o sol o contato é constante, íntimo. O mesmo fala com o mesmo. O átomo da estrela fala com o átomo do nosso olho a linguagem da luz."

E assim, maravilhada, sabendo que também sou estrela, fecho a porta de casa e inicio a minha viagem .

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A MALA DO VIAJANTE

Já tenho a mala aberta em cima da cama. Levo muitos livros, presentes para o Luis, meu neto (livros) e roupa para 15 dias.
Vou amanhã cedo para Resende. Dia 1 começo meu trabalho no com o Projeto Fala Autor do Sesc Barra Mansa. Serão muitos encontros. Estou feliz.
Houve uma época na minha vida em que viajei muito com o Proler. Estava sempre na estrada. Parece que esta época voltou. Todos aqueles que viajam sem parar sabem que em terra firme somos habitantes provisórios. Parece que já fazemos parte da estrada:

"Ay, viajero!
No vas y no regresas:
eres en los caminos."

fragmento de Pablo Neruda, Antologia General, Real Academia Española.

Não poderei escrever todos os dias, mas farei o possível.

Notícias da minha gata Nana: enlouqueceu. Pensa que é pássaro. Vive pendurada nas árvores, na trave de madeira que atravessa a sala, com quatro metros de altura. Fica horas aí, empoleirada como uma galinha.
Ficamos em pânico. Esta noite dormiu aí . Como, por favor, entender os gatos?

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

VENTO

O vento percorre toda a minha poesia como se fosse a sua coluna vertebral. Amo o vento, as tempestades.
Amo o mar em sua fúria. Não sei explicar o que sinto, parece que meu corpo se desmancha, parece que me dissolvo , que volto a um tempo primordial.
Hoje, aqui em Saquarema, faz frio, venta muito, o mar está imenso, esplêndido.

Releio Madame Bovary, tenho uma ternura imensa por esta mulher perdida, sempre fui apaixonada por ela. Releio Madame Bovary 38 anos depois e como mudou a minha leitura, como melhorei como leitora. Um dia, no passado, também estive perdida de mim. Mas ao contrário da Bovary, os livros me salvaram, a escrita me salvou. Hoje habito meu centro. Minha mandala está bem costurada.

domingo, 23 de setembro de 2012

POESIA DO ACRE

Na mesa em Rio Branco dividi o espaço com Gloria Kirinus e a poeta Francis Mary, conhecida como Bruxinha. Ela faz uma poesia cheia de referências locais, ao mundo mágico da floresta. Ela foi companheira de luta de Chico Mendes . A sua apresentação foi linda. Ela projetou imagens da floresta enquanto lia seus poemas e trouxe alguns amigos músicos para acompanhá-la. Aliás, a fala da Gloria foi tão envolvente que ninguém queria ir embora nunca mais. O público ficou. A mediadora dizia, então acabou, e nada. Ninguém se levantava.
Eu tentei falar sobre o tempo. Se não se pode dividir o tempo ,então, todos , desde a pré-história, são meus contemporâneos. Talvez tenha me enrolado um pouco. Li um texto magnífico do Galeano onde ele nos fala de quem são seus contemporâneos e vai ao encontro do que penso. A poesia habita todos os tempos e seu lugar é sempre.

DESCONVERSA

O Kaxinauá disse assim:
você já bebeu voo de tucano
com sangue de açaí?

Eu desconversei
e saí caçando meus passos
guardados no saco
de sernambí.

Isso aconteceu
num dia de chuva
quati, quati...

Francis Mary

sábado, 22 de setembro de 2012

CLUBE DE LEITURA DA CASA AMARELA

Nosso encontro de hoje do Clube de Leitura da Casa Amarela foi marcado por ausências. Não vieram, Felipe, Andrea e Cris, de Duque de Caxias. Leila não veio . Messias não veio.
Mas vieram todos os outros: Hélio e Fernando, Maria Clara, Chico, Gil, as duas Ângelas, e Ivo, pela primeira vez.
Lemos A DAMA DO CACHORRINHO de Anton Tchékhov. Cada um falou do seu conto predileto, daquele que mais tocou seu coração. O conto Vanka, do menino que escreve a carta para o avô foi uma paixão geral. Hélio se debruçou sobre o coração do menino. Todos nos emocionamos com a história tão triste do menino que quer voltar para junto do seu avô. Falamos do conto nas suas minúcias. Maria Clara identifica o avô com o Papai Noel, é um conto de natal.
Gil escolheu como seu o conto da Corista e fez uma leitura belíssima . Falou da bondade da corista, da sua sensibilidade e era apenas uma prostituta.
Juan falou do conto A Irrequieta e de como o nosso tesouro está quase sempre ao nosso lado e não o vemos .
Todos concordamos que o autor nos leva a um desfile impressionante de personagens e conhece conmo poucos a alma humana. A Russia dos tzares hoje esteve em nossa sala.
Todos amaram o pequeno livro imenso. Todos ressaltaram a abertura dos contos, nenhum final é fechado.
E esse tempo, único, que não existe mais, existe. Basta abrir o livro em qualquer conto e já estaremos instalados numa troika, numa casa de um nobre, de um camponês, um burguês. E a manivela do tempo, a literatura, com todas as suas engrenagens , trará até nós , estas cenas de um passado tão rico, tão denso.

Celebramos com pão, vinho e uma comida maravilhosa preparada pela Vanda, nossa caseira de nome russo, a alegria de discutirmos um belo livro. E cantamos parabéns com uma torta maravilhosa de nozes e chocolate branco, pois Vanda fez 50 anos.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

BIBLIOTECA DA FLORESTA E SAQUAREMA

Cheguei agora em Saquarema. Foi uma longa viagem, uma longa estadia em Rio Branco. Não pude escrever depois do primeiro dia, não tive tempo de ir até a Biblioteca Estadual usar o computador.
Estou exausta mas conto: entendi o Acre a partir da visita que fiz à Biblioteca da Floresta, a única Biblioteca temática do mundo.
É lindíssima e impressionante. Um mergulho profundo na alma e na história do Acre, seu povo, suas lutas, revoluções.
Há dez grupos de estudos interdisciplinares que se se reúnem na Biblioteca. Há cinema, vídeo, instalações maravilhosas, exposições. Há um grupo de filósofos que faz uma imersão na floresta para estudar o tempo e o espaço dos índios e raz este saber de volta para a biblioteca.. Há um espaço indígena no andar de cima, tão forte e emocionante que o visitante fica com falta de ar. Há documentos originais incríveis, por exemplo a carta escrita por Galvez declarando a independência do Acre. Na Biblioteca estão representados todos os povos que habitam o Acre. Há uma carta na entrada que diz isso:
" NOSSA CASA
Nós somos os povos da floresta. Somos pessoas, animais e árvores convivendo na maior biodiversidade do planeta.
Ainda procuramos nos descobrir e descobrir o mundo que nos acolhe e nos cerca.
Esta casa é nossa luz. Nosso espírito mora e trabalha dentro dela."

Há um painel belíssimo com os rostos do Acre: seringueiros, índios, descendentes de sírios , libaneses, nordestinos, etc, etc.

Há uma carta original do Chico Mendes para os habitantes de 2120, onde ele fala dos seus sonhos. E então a Biblioteca fez uma caixa fechada com 5.000 cartas de pessoas que falam dos seus sonhos. Esta caixa será aberta em 2120 . Não estaremos aqui para ouvir a leitura das cartas.

O trabalho em Rio Branco foi bonito, foi emocionante. Estou em casa e amanhã é o nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

RIO BRANCO

Estou neste momento na Biblioteca Pública do Acre, belíssima, deslumbrante. Um espaço onde se pode estar durante horas. Aqui foi uma escola. Da antiga escola nada restou , apenas a cópia do piso hidráulico. A biblioteca tem vários andares e todos nos convidam a relaxar e ler. E um cinema que é um luxo total. Todos os dias há várias sessões. Agora está acontecendo o Festival Jorge Amado.
Na sala de leitura para crianças há uma Arca das Letras para a área rural. Ela viaja e faz pouso na casa de alguma família, então é uma arca mágica.
Cheguei no meio da madrugada. Exausta. A viagem é longa. Passei a manhã meio tonta, mas à tarde já estava recuperada e fui ao encontro da Helena Carloni de quem recebi o convite para estar aqui.
André, um menino muito gentil, foi designado como meu guia e lá fomos nós para a Gameleira onde nasceu Rio Branco, na beira do Rio Acre. O rio, ele me conta, já foi muito maior e muito navegável, mas agora ... já sabemos.
Fui até a Casa da Leitura da Gameleira. O bairro homenageia com seu nome a belíssima gameleira, marco do começo da cidade. A cidade recebeu um enorme contingente de sírios e libaneses. A Casa da leitura é antiga e lindíssima, parece saída das páginas de um conto de fadas. Mas estava vazia e acho, fiquei com a impressão, de quem tem que ser mais ágil na captura de leitores.
Depois visitamos o Cine Teatro Recreio, o primeiro teatro de Rio Branco, lindo. Na entrada há um projetor enorme e antigo fabricado pela Empresa Cinematográfica TRIUMPHO, assim, com ph .
Na Rua da beira do Rio, no Calçadão da Gameleira, as casinhas coloridas possuem uma placa om a memória da casa, assim: aqui viveu fulano no ano de... como na Europa.
À noite fui para a praça do Mercado Velho e assisti a uma dupla maravilhosa, bolivianos, poetas, cantores fantásticos, seu conjunto se chama Negro y Blanco. Foi emocionante.
E hoje de manhã já tomei café com a minha amiga querida Gloria Kirinus.
Hoje falo às 5hs da tarde e me deram uma pergunta de presente:
"Há espaço para a poesia no século XXI?"   

domingo, 16 de setembro de 2012

BIENAL DOS POVOS DA FLORESTA

Hoje vou para o Acre. É uma longa viagem em todos os sentidos, já que vou ao encontro do que não conheço e esta perspectiva é sempre maravilhosa.
Conhecerei lugares que meus olhos nunca viram, pessoas que aumentarão a dose de afeto em minhas veias.
Não tenho nenhum preparo acadêmico, vou apenas com o que sou , com a minha poesia , a minha bagagem de vida, os meus leitores ecoando dentro de mim. Não tenho verdades, apenas dúvidas e assombros. Para mim, a vida é aventura. Nunca sabemos o que cada dia deixará em nossas portas.
Meu passaporte para a vida é a poesia e o amor.

sábado, 15 de setembro de 2012

PEDRA SÓ

Como tem acontecido nos últimos dias, me levantei às 4hs da manhã. A casa oscilava em seu silêncio entre as ondas do mar. Fiz meu café, abri o livro de poemas PEDRA SÓ, ed. Escrituras, de José Inácio Vieira de Melo , que o correio me trouxe ontem. E levei um susto.
A sua poesia é bela . José escreve desde a fazenda Pedra Só em Alagoas , escreve desde a seca. Mas a sua poesia é torrencial e nos arrasta, é , dentro da seca, cheia de água, cheia de imagens lindíssimas e emoção. José escreve desde um lugar : o começo do mundo, o começo do tempo. José escreve a saga do homem: os sonhos.
Separo alguns fragmentos :
........................................
"É da natureza do poeta
sonhar a essência do vento
e soprar na harpa os outros nomes
da pedra e da água."

pg 97

.............................................
"A arte da pedra é ser o silêncio que cresce"

pg 29

............................................

Na Pedra Só,
as formigas tecem as escrituras
no abismo da noite tão enorme
e o espantalho veste a seda do orvalho
para receber de braços abertos,
o sabor das auroras, o sagrado.

pg 25

.......................................................

Eu chego no silêncio que acende
as quatro ferraduras do tempo
e encontro a inesgotável jazida,
catedral do rubi que me habita.

pg 73

...........................................................

E a sua poesia, água, seca, pedra, rubi, vento, silêncio, ficou latejando no resto da noite que ainda havia e quando vi, a manhã havia chegado.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

NANA

Recebo como um presente meu novo livro para crianças bem pequenas: NANA
As ilustrações são absolutamente maravilhosas, da Bebel Callage. O livro sai pela Ed. Prumo e é o primeiro de uma grande fornada que vem por aí entre livros novos e reedições. Tenho a impressão de que minha gata Nana, se soubesse ler, adoraria o livro. Bebel conseguiu captar a sua alma!
Enquanto escrevo aqui no blog Nana dorme enrodilhada na cesta de papéis. É uma gata maravilhosa, falante, muito expressiva e eu a entendo como se ela fosse a minha própria poesia.
Escrevo em vários registros e isso é muito bom, é como se eu fosse feita em camadas, nunca me esqueço da criança que eu era , nem da adolescente, nem da jovem mulher. Hoje sou um novelo bem encorpado de todas as vidas que já vivi, muitas. E é assim que escrevo, com tudo o que tenho, com todas as idades.
Não sei porque as pessoas mais velhas às vezes se envergonham das suas idades, pois o tempo é apenas uma convenção. Somos um acúmulo de vida e de tempo e num mesmo dia posso ter 18 anos ou 92, às vezes 7.

Tenho acordado muito cedo, às 4hs da manhã. Não brigo com a falta de sono, Levanto, é noite, faço o café, o mar ocupa toda a casa e é como se me levasse sempre ao encontro de todas as pessoas que amo e que ainda dormem. Talvez, quem sabe, enquanto tomo café, entre em seus sonhos.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

E.M.IPITANGA

Hoje o professor Ivo veio cedinho me buscar para ir a E.M Ipitanga perto de Araruama. Eu não havia anotado na agenda e confesso que não me lembrava. Estava pedalando a bicicleta ergométrica e ele chegou. Sentou junto comigo para me fazer companhia e enquanto eu terminava já íamos falando de leitura. Tomei um banho rápido e me vestia , surpresa total: chegou na varanda a Secretária de Educação, Ana Paula, belíssima e competentíssima. Ela dispensou o carro oficial e fomos no carro do Ivo. Quebrei o protocolo e sentei na frente, pois caí e machuquei o ombro, dói muito.
Não tenho como descrever a maravilha que foi a nossa manhã poética. A escola é linda de morrer, como todas aqui em Saquarema, cada uma com a sua singularidade.Desde a chegada meus poemas se esparramavam por todas as paredes e no local do nosso encontro, bandeiras com meus poemas escorriam desde o teto. Poemas lindos das crianças a partir dos meus faziam um contraponto.
Foi tudo tão emocionante, as apresentações teatralizadas dos poemas, as curiosidades, o brilho nos olhos de cada um, os beijos que me deram, saí como se tivesse mergulhado numa cachoeira de amor.
Saquarema pode se orgulhar. Já há um grande caminho percorrido até aqui. Saquarema já tem escolas leitoras.

PRESENTE



Hoje recebi um poema de presente da Maria Clara, poeta, grande leitora e membro do nosso Clube de Leitura Amarela:


Guardar
                   Antonio Cicero

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por

admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,

isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro

Do que um pássaro sem vôos.


Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

por isso se declara e declama um poema:

Para guardá-lo:

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.

Maravilhoso poema , maravilhoso presente e eu o guardo e desdobro como se guarda um entardecer, um cheiro molhado de algas, uma saudade.









terça-feira, 11 de setembro de 2012

SEGREDOS

Releio meu livro O Traço e a Traça" da ed. Scipionne que foi escolhido pelo Governo Federal para fazer parte do Programa Alfabetização na Idade Certa. As ilustrações são maravilhosas, não conheço a ilustradora: Elma, do Recife. Releio:

" O João guardava um segredo
tão bem guardado debaixo
da cama que ninguém
sabia o que era.
Parece que era coisa importante,
pois todo segredo é tesouro".

Outro dia li um artigo muito bom sobre privacidade. Há toda uma discussão sobre o tema. Nossa privacidade acabou?
Vejamos: endereço e telefone são facilmente encontráveis.
Banco, conta do banco, cada vez que passamos um cartão estes dados ficam disponíveis. O mesmo acontece quando se compra algo com cartão de crédito nos estabelecimentos, na rede. Nossa casa está visível no Google.
Nossas preferências também ficam disponíveis a partir do que compramos. Também se pode saber da vida do outro através do seu lixo.
Mas temos muitos segredos . Disponibilizamos nas redes sociais apenas o que nos interessa. O que sinto a cada instante , isso me pertence. Como lido com as minhas emoções mais profundas, com as minhas contradições, isso é meu e não pode ser contabilizado nem roubado nem clonado. É um vento que flutua sobre a minha poesia.
Meu acervo de memória, minhas manias, meus ancestrais, tudo isso é privacidade. O tamanho do meu amor , isso é meu. O medo da morte é meu. A paixão pela vida: minha.
Não tenho medo de que invadam ou roubem a minha privacidade. Eu traço os limites.


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

CINCO ESTUDANTES

Sábado recebemos cinco estudantes da Universidade Rural, curso de Comunicação, aqui em casa para um encontro com o Juan Arias . Vieram de Seropedica. Era uma entrevista e uma gravação de vídeo. Foi um belíssimo encontro. As perguntas claras e inteligentes deram ao Juan espaço para falar sobre o jornalismo ao longo do tempo , sobre a liberdade de imprensa, sobre a função do jornalismo: ser a consciência crítica do poder. Pobre dos jornalistas que se acovardam e se vendem.
Era lindo ver aqueles jovens com as mãos e os olhos tão cheios de esperança e futuro.

Quando era criança eu queria ser astrônoma, pois amava as estrelas. Quando jovem quis ser jornalista. Nem uma coisa nem outra: virei poeta. Acho que conciliei as duas vocações, pois escrevo e contemplo as estrelas.