quinta-feira, 25 de maio de 2017

BURANO

Entrar em Burano é como tropeçar e cair dentro de uma aquarela.
A pequena ilha vive dos bordados que vende, dos restaurantes maravilhosos.
 Antes as bordadeiras produziam aí, agora não sei de onde chegam.
Mas a ilha inteira parece um bordado. É irreal.
As casas, coladas umas nas outras, de todas as cores, vibrantes, quentes, nos convidam a nunca mais ir embora.
Ainda mais quando sabemos que um país destroçado nos espera.
As casas exibem suas roupas lavadas ao sol. É lindo o contraste das roupas brancas com as cores vibrantes das casas. E possuem cortinas lindas nas portas, como na Andaluzia. Assim, no verão, podem deixar a porta aberta, só com a cortina.
Tomamos a barca de manhã cedo em Fondamente Nove, o que já dá uma grande caminhada.
A barca parecia a Torre de Babel. Tanta gente, tantas línguas. É tão bonito ouvir tantas linguas diferentes ao mesmo tempo.
As jovens chinesas são maravilhosas. Não me canso de olhá-las. Como se vestem e se movem.
Acho que dentro de pouco a moda virá da China. Elas possuem um charme parisiense/italiano/oriental.
E na volta descemos em Fondamenta para outra caminhada. Paro em S.Marco para um café, encostada no balcão. Acho que é o melhor pingado de Veneza. Não sobrevivo sem um pingado.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

POÇOS ANTIGOS

Nossos passos nos levaram de volta a Fondamente Nuove.
É uma outra Veneza.
Calma. Silenciosa. Belíssima.
Hoje voltamos a este bairro pois os labirintos de Veneza entraram dentro de mim e desde ontem que estou com labirintite. Queria uma pausa. Queria pouca gente.
Pelo caminho vou prestando atenção nos poços. São muito antigos. Maravilhosos. Eu me encosto num de 1527.
 Muitos possuem um recipiente onde os pombos bebem água.
Num deles se pede que as pessoas não joguem cinza de cigarro pois sujaria a água dos poços.
Fondamente Nuove é uma Veneza simples e pobre. Despojada, sem nenhum luxo.
Voltamos ao Tratoria Storica, pois aqui se come muito bem e por um preço justo. Dou o endereço: Cannaregio 4858, Ponte dei Gesuiti.
O segredo é comer onde come gente local.
Na volta fazia um calor de verão e os Cruzeiros haviam despejado um formigueiro de gente pelas ruelas e praças, assim que saímos do bairro Castello, ao lado de Fondamenta.
Na Praça S. Marcos não se podia andar.
É claro que um dia Veneza afundará com o peso das milhares de pessoas que saem dos Cruzeiros para passar algumas horas aqui.
Mas com a Máfia dos Cruzeiros ninguém pode.

O QUE VEJO POR AÍ

Os mendigos de Veneza mudaram de nacionalidade. Em 2015 eram dos Balcãs, agora são africanos. Em várias pontes encontramos africanos jovens com um chapéu na mão pedindo dinheiro.
Perguntamos ao Paolo porque não estão vendendo alguma coisa, afinal são tão jovens.
Paolo responde o seguinte: que a Itália recebe uma quantia da União Européia por cada imigrante e dá um albergue e 300 euros por mês para cada um. Não tenho como saber se é verdade. Disse que é um.negócio lucrativo para a Itália.
Vejo grupos de estudantes de todas as idades. Desde 8 anos até adolescentes. São italianos.
Na Europa há um movimento bem forte de formação de plateia. Vão aos museus, igrejas, concertos. São alegres, dá para sentir como estão felizes na rua. Para cada grupo grande , uns 3 ou 4 professores.
Vejo gondoleiros solitários, sentados em suas barcas, esperando freguês.
Antes, em outros anos, ouvia seus gritos "oiiii", quando cruzavam com outras gôndolas. Uma espécie de saudação. Nunca mais ouvi. Paolo diz que ser gondoleiro, possuir sua própria gôndola, é o desejo de todos os homens que vivem em Veneza, pois dá muito dinheiro.
Este ano vejo menos russos e mais chineses e hindús.
Paolo diz que os hindús não gostam da comida italiana, sentem falta das suas espécies.
Anoitece tarde, às 21.30.
Às 20h meus olhos se enchem com a luz mais  bela do dia. Cristalina.
Hoje amanhece cinza e refrescou um pouco.
Sairemos ao deus dará.

terça-feira, 23 de maio de 2017

CHOGGIA

Passamos o dia no campo com nossos amigos italianos Paolo e Eugenya.
Eles compraram uma casa linda em Conche, perto de Chioggia.
Fomos de ônibus. Eugenya foi nos buscar na P. Roma, pois não sabíamos onde descer.
Paolo  operou o joelho e está de licença, mas já pode caminhar um pouco.
Depois de Mestre e Marghera começa o campo.
A Pianura Padana.
Linda. A época dos aspargos acaba de passar e agora é o tempo das plantações de alcachofra.
Descemos do ônibus e Eugenya perguntou se não queríamos tomar um café.
No Café há um clima de família. Todos se conhecem . A casa fica ao lado, com dois cachorros e um gato.
Nossos amigos prepararam um banquete maravilhoso. Era um festival de amor.
Depois fomos visitar a lagoa de Conche e vimos pescadores em ação. Pegaram muitos "vongoli" que vendem no mercado.
Conheci uma "fazenda":
A casa da avó da Eugenya, uma casa lindíssima, imensa, com um jardim magnificamente cuidado, com horta e galinhas e um campo enorme todo plantado de grãos. Quando chegamos a Sra. Antonieta estava cuidando da horta. Ela não tem NENHUM empregado. Cuida de tudo sozinha desde às cinco da manhã até escurecer com a ajuda do seu filho.
Nos ofereceu um café, mas já se fazia tarde e tivemos que recusar. Fomos até Chioggia dar uma volta.
Amei Chioggia, é uma cidade vibrante, cheia de vida.
E agradeço a minha professora de italiano Celmar Dos Reis (que infelizmente foi embora de Saquarema), pois passei o dia inteiro entre italianos, conversando. Falo muito mal, mas falo. E entendo tudo e leio livros maravilhosos.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

CAMPO S. MARGARITA

O Campo S.Margarita com suas Osterias maravilhosas havia fincado raízes em nossa memória.
A praça é cheia de bancos vermelhos, alguns na sombra de árvores belíssimas. Uma praça para ficar algumas horas.
Na minha frente há uma Erboristeria Il Melograno. Em 2015 uma senhora muito antiga varria a sua loja.
Hoje, dois anos depois, lá está a velha senhora, na mesma posição, varrendo, com movimentos lentos.
Mas será que esse tempo passou ou voltamos no tempo?
Aqui, milagrosamente , falam italiano. Há uma vida de bairro, o que é raro em Veneza. Cada vez mais os venezianos vão embora.  Amigas tão elegantes conversam. Há uma feirinha de verduras e legumes e frutas no meio da praça. Na sombra um vento leve me acaricia. Hoje parece um dia de verão.
E enquanto caminhava, pensava: E como fazem com o lixo de Veneza?
A resposta:
Uma barca no ancoradouro, com um guindaste, recolhe um engradado de metal onde há vassoura e pá e caixas de papelão. O lixo vai para um buraco aberto no chão da barca e o guindaste devolve o recipiente para terra firme. Alguns lixeiros chegam com sacos plásticos e jogam nesse buraco.
Aqui nessa praça a elegância dos italianos é uma festa para os olhos. É impressionante.
Nada a ver com a deselegância americana.
Um gondoleiro pára e beija uma senhora sentada em nosso banco com a intimidade de quem vive no mesmo bairro.
Daqui a pouco vamos procurar um Café, la pelos lados de Rialto, onde trabalha Eugenya, a russa mulher de Paolo, italiano de Puglia. Ficamos amigos em 2015, ele trabalha como garçom na Taverna Maurizio.
Paolo operou o joelho, está de licença médica e queremos visitá-lo em sua casa em Mestre.
Trouxemos algumas lembranças para eles: café artesanal brasileiro, sandália havaiana para ela. Bem clichê, mas com tanto amor.

domingo, 21 de maio de 2017

OS SONS DE VENEZA

Pombos e gaivotas convivem entre arrulhos e gritos.
Há o murmurinho de pessoas falando ao mesmo tempo em tantas línguas. Há o som de risadas . Os gondoleiros passam cantando.
Em pequenos ancoradouros a água sussurra.
Os sinos os sinos os sinos.
Cachorros.
Crianças.
Os ruídos dos passos durante o dia se escondem entre os outros ruídos.
Mas no silêncio da noite costuram becos e ruelas.
Os acordeões nas esquinas, com sua música lânguida, triste, depositam melancolia nas pedras.
Os barcos em todos os tons e sons.

GUARDA-CHUVAS COLORIDOS EM VENEZA

Ontem choveu o dia inteiro e saí com minha amiga para passear na chuva.
Nas ruas estreitas e apinhadas, os guarda-chuvas coloridos formavam um teto único e desencontrado, instável e perigoso.
Vimos numa galeria uma exposição de um artista espanhol contemporâneo, Manolo Valdès, escultor e pintor. Alguns minutos diante de um quadro era o melhor abrigo contra a chuva.
Mas hoje acordamos com sol e fomos ver a Igreja de S.Maria Della Salute. Que vista maravilhosa. Nos sentamos na escadaria da Igreja antes de entrarmos e nem dava vontade de se mexer. Ficar ali, naquele sol de paraíso, com as gôndolas passando, felinamente...
Duas chinesas tão delicadas nos pedem para bater uma foto.
Dentro da Igreja havia uma missa com uma plateia pequena.  O padre falava sobre o dom da vida.
A Igreja foi construída com os ex votos dos habitantes como agradecimento pelo fim da Peste, na Idade Média, que quase dizimou a população. 80.000 mortos.
Pinturas de Luca Giordano e Tiziano.
Nunca saberemos o que sentiria um cristão nessa época, quando entrava numa Igreja tão monumental. Medo? Respeito? Devoção?
Hoje a maioria entra como turista.
O chão da Igreja traz a marca invisível de milhões de pés, em seu mármore gasto.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

FONDAMENTE NUOVE

A ideia de Veneza feito um labirinto era o tecido da nossa manhã.
Saímos apenas com a imagem da escadaria de Rialto e a paz da Fondamente Nuove em mente, sem outros planos.
A vista de cima da ponte de Rialto certamente é a mais conhecida de Veneza.
Da ponte vimos uma instalação curiosa: Duas mãos brancas e imensas segurando um prédio.
Desembocamos na Feira de frutas , verduras e temperos e logo o Mercado do Peixe, antiquíssimo. Novecentos e cinquenta anos!  Mil anos seguidos de pescadores levando seu peixe para ser vendido. A população de pescadores resiste para que continue igual.
Os peixes são tão frescos que espalham um cheiro de mar.
E depois eram becos tão estreitos, prédios que quase se tocavam dos dois lados da rua, que se abriam em praças maravilhosas, indo para a Fondamente Nuove.
Cada praça com seu poço decorado.
No Campo S.Maria Nova vi a exposição iraniana do circuito Bienal.
Um único artista , Binzan Bassani, fez uma instalação curiosa:
Esculturas negras, de um lado pareciam mulheres, em fila, de burka ( assim me parecia) no meio duas esculturas que pareciam homens lendo um livro, e do outro lado a fileira de homens. Entre as figuras um bastão dourado.
Um painel explicava o conceito. Tão complicado que nada entendi. Digo o que senti ao entrar. Senti o silêncio das mulheres. Parecia que estavam sem poder expressar-se. Talvez o bastão dourado simbolizasse o que levavam por dentro.
Continuando a caminhada nos sentamos no Campo Dei Jesuiti. Certamente a Igreja e o que parecia haver sido um convento pertenceu no passado aos jesuítas. Um monge budista em suas vestes passeava solitário.
Já estávamos em Fondamente Nuove, onde há uma vida de gente que mora de verdade no bairro. É belíssimo e calmo e silencioso. As aglomerações que vimos em Rialto já se desvaneceram.
E então encontramos o pequeno e preciosíssimo museu particular de Giani Basso. Uma verdadeira maravilha, com máquinas originais da época da invenção da imprensa. Ao lado do museu ele imprime, como antigamente, cartazes maravilhosos.
Conversamos e ele diz que a Itália acabou. Que o dinheiro prevalece sobre todas as coisas, que nada se faz por prazer ou paixão, que os valores verdadeiros já não existem, que o turismo está destruindo Veneza.
Encontramos um Restaurante maravilhoso onde comem os trabalhadores. Super barato e lindo e bom. Os clientes eram todos italianos.
E na volta vimos uma exposição também do Circuito da Bienal, da Rússia, num Palácio belíssimo, cheio de antiguidades romanas. Ao entrar numa sala de mais de 600 anos, com um sarcófago romano no meio, encontramos uma lua minguante de neon pendurada. O efeito era onírico e tão belo.
A exposição se chama " O homem como pássaro" e é muito bonita. Essa lua vai para muitos lugares insólitos do mundo e o artista fotografa. As fotos estavam expostas.
Instalações simples e emocionantes de vários artistas russos.
E uma outra exposição num outro Palácio, que achei horrivel, só gostei do nome: Diáspora. Coloquei a palavra no bolso. Tão atual.
Então fomos voltando, de ponte em ponte, de beco em beco, de praça em praça.
Hoje sim gastei os pés.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

COMEMORAÇÃO NA RUA

O sol só baixou às 19hs. Saímos. Um cachorrinho entrou de penetra na minha foto. Imagem que amo: os varais de roupa em Veneza. Parecem bandeiras coloridas. As bandeiras íntimas de uma família.
Numa ruazinha maravilhosa havia uma comemoração. Um monte de gente em pé com um cálice de vinho na mão. Uma mesa enorme ( na rua) com um pão muito bonito, parecia os meus, mas muito grande, um parmesão inteiro e bresaola, tipo uma mortadela. Juan logo disse: - Vamos nos misturar com eles e comemorar também, mas estava brincando. A rua se chamava Terrá dei Assassini e era sem saída. Juan disse que como era sem saída, ali os assassinos matavam as pessoas. Os nomes das ruas em Veneza são incríveis.
 Ficamos por ali porque queríamos saber o motivo da festa. Eram todos amigos e italianos. Descobrimos: estavam comemorando o nascimento de gêmeos. Havia uma foto enorme dos bebês.
Achei uma maneira belíssima de comemorar.
Voltamos ao restaurante de ontem para comer o risoto de aspargo com camarões que não comemos . Era divino. Para mim uma miatura insólita. Jamais havia pensado.
Mas antes uma cesta de pães com azeite e como estávamos morrendo de fome íamos comendo os pães animadíssimos. Então chegou um garçom argentino, cobriu os pães com um guardanapo e disse:
- Chega de comer pão! A comida já vai chegar.
Achei incrível o garçom entrar assim no meio da nossa fome!
Tomamos uma taça de Amarone. O suficiente para ir flutuando até San Marco.
Os hindús vendem rosas, os africanos bolsas falsificadas.  E as gôndolas levam americanos para lá e para cá.
E bem longe daqui o Brasil e seu desmoronamento.
Vamos ver o que nos trará o dia de amanhã.

ZATTERE

Então por onde começamos a caminhada da manhã, nessa manhã do dia 18 de maio, primavera quente em Veneza, dia em que o Apocalipse chega ao Brasil, todos os partidos no mesmo naufrágio? Começamos indo para a Academia.
Passamos pelo Campo Sanzolo, Parochia de S. Moise. De uma pequena ponte se vê uma torre torta, inclinada. Não é só a de Pisa. Vamos encontrando antiquários lindos pelo caminho.
Entramos numa exposição paralela, off Bienal: Azirbadjan.
Entramos por uma sala escura, subimos uma escada e desembocamos numa belíssima instalação feita com um instrumento chamado saz, que parece um pequeno alaúde. Uma construção incrivel.
Entramos numa sala escura onde um vídeo projetava na parede pessoas transparentes com o corpo todo escrito com palavras que não conhecemos. Um efeito tão belo e perturbador.
Sim, somos feitos de palavras...
Em outra sala uma exposição com desenhos em cima da impressão digital. A impressão digital usada como um conceito para singularidade.
O nome da exposição de Azirbadjan, esse país longínquo e desconhecido é um poema:
A Arte de Viver Juntos Debaixo de um Único Sol.
Seguimos para a Academia. De cima da ponte uma das vistas mais maravilhosas de Veneza.
Seguimos para o Zattere. O calçadão da Academia.
Uma placa no Zattere dizia , numa placa , que o poeta russo Joseph Brodsky se hospedou ali. Lemos seu belo livro Marca d'Agua em nosso Clube de Leitura.
Depois de caminhar duas horas nos sentamos num Café, na calçada, com a vista da Giudeca do outro lado do canal para tomar um cálice de vinho.
Finalmente havia um pouco de brisa.
Na volta paramos no Campo S.Agnese, nos sentamos num banco, na sombra, debaixo de uma árvore maravilhosa.
Havia uma senhora veneziana com seu velho cachorro chamado Ulisse. Finalmente pude conversar em italiano. Falamos sobre o tempo, sobre Veneza, sobre cães e gatos, sobre a maravilha que é poder sentar numa praça, na sombra.
Depois almoçamos numa praça, ao ar livre, apenas salada. E a praça é uma vitrine a céu aberto. Um desfile de homens, mulheres e cachorros. Excursões de estudantes passavam com sua alegria.
Intervalo para o descanso.

CHEGADA EM VENEZA

Ontem, depois de 23 horas viajando, saímos para comer .
As datas em Veneza fazem o coração disparar.
O Restaurante Antico Martini existe desde 1720 e é belíssimo.
O garçom que nos atendeu trabalha aí há 40 anos. A água que bebemos Acqua Panna da Toscana existe desde 1564 e era propriedade dos Medici.
Comemos um prato de tagliatini feito em casa com trufa negra e um cálice de um vinho de Verona, por um preço mais do que razoável
Então fomos caminhar.
 Andamos duas horas.
Veneza à noite é uma aparição tão bela, com as gôndolas flutuando na sombra.
 Terminamos  em São Marcos, a Basílica toda reformada, a primeira vez que a vejo sem estar restaurando e é a quinta vez que estou aqui.
De pé na praça bastante vazia, ouvia Gershwin com um grupo muito bom no Café Quadri. Não se pode sentar nem para um café, os preços são exorbitantes.
Acordo em Veneza com os sinos.
Amo os sinos.
Faz um dia belíssimo nessa primavera.
Vamos caminhar ao léu, para nos perdermos.
Antes de ir ao pavilhão da Bienal, começarei pelas exposições paralelas, pequenas .

terça-feira, 16 de maio de 2017

SALA DE LEITURA E VENEZA

Agora estou indo para a festa de comemoração da Sala de Leitura da E.M.Clotilde, em Sampaio Correia, Saquarema. Faz um ano que a Sala foi inaugurada e sob a batuta da Roselea Olimpo, seu sucesso é absoluto. São muitos sócios, muitas atividades. É uma Sala viva, vibrante.
À noite embarco para Veneza. Escreverei apenas no face, pois não vou levar computador e não consigo acessar o blog pelo celular.
Veneza é a cidade do coração do Juan, que a conhece bastante bem, mas mesmo assim nos perdemos sempre. A  graça de Veneza é se perder. Veneza é a cidade mais labiríntica do mundo e a palavra delírio é bastante apropriada para defini-la, se é que Veneza aceita definições.
Volto ao Gugenheim, vou ver a Bienal e andar, andar, andar, até que os pés fiquem gastos. E subir escadarias, atravessar pontes, me debruçar sobre o canal, sentar nos cafés ao ar livre para tomar uma taça de vinho, sentar nas praças para ouvir as conversas alheias.
Amamos a Veneza de dentro, onde poucos turistas se aventuram, amamos a Fondamenta Nuove, que nos traz a inesquecível escrita de Joseph Brodsky.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

A CIDADE

Fico pensando que um Prefeito deveria ter seus poderes limitados.
Aqui em Saquarema, por exemplo, a Prefeita anterior começou uma obra na orla em 2015, acabou o mandato e a obra ficou inacabada, cheia de destroços . Foram construídos uns banheiros com inspiração pré histórica, de cimento imitando pedra , imitando caverna, que além de horrendos são na frente do mar . Alguns com as ferragens no teto aparecendo. E nenhum funciona. Espero ansiosa a hora em que serão destruídos.
Como um Prefeito pode fazer uma obra na cidade, que irá interferir na vida da população, sem consultar a população? Claro que deveríamos ter o direito de votar num projeto. O Prefeito ou Prefeita deveria apresentar duas maquetes e a população escolheria. Seria simples, ficariam expostas na Prefeitura e bastaria uma urna ao lado para que os votos fossem depositados.
Essa escolha despertaria nas pessoas um sentido de pertencimento.
Mas ficamos excluídos de toda e qualquer decisão e chegamos ao absurdo de ter uma cidade como Santana de Parnaíba, histórica, onde nada pode funcionar à noite por vontade do Prefeito.
Outra questão gravíssima são os transportes.
Quem não tem carro e mora longe, em Saquarema, está bem mal. Os ônibus são horrorosos e precários.
Numa cidade turística deveriam ser belos, decorados por fora e por dentro, com música e ar condicionado. Afinal, quem anda de ônibus por aqui é quem não pode ter um carro e nada seria mais justo.
Antes de pertencer a um país pertencemos a uma rua, um bairro, uma cidade.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

MANHÃ ESPECIAL

Quando o ônibus que trazia as crianças e jovens da E.M.Marcílio Dias, de São Gonçalo, encostou na porta da casa, a Diretora Cristina Brito me disse:
- Quase não pudemos vir. Hoje houve confronto na Comunidade do Salgueiro, com muito tiroteio
Mas a escola faz um trabalho lindo com leitura e acho que este grupo que veio ao meu Café, Pão e Texto está salvo.
Falamos sobre todos os temas. Violência, tráfico de drogas, identificação dos jovens com os bandidos, poder, corrupção, injustiça social, miséria em todos os seus sentidos.
Falamos sobre amor, paz, compaixão, bondade.
Falamos sobre o poder da literatura para nos conhecermos, para fazermos as melhores escolhas.
Amanda ganhou um Concurso de contos pelo Município e eu li o seu conto, belíssimo.
Contei um pouco da minha vida, dos meus caminhos. Das coisas difíceis que tive que enfrentar e como consegui superar.
Tomamos café da manhâ juntos. Fomos à praia ver o mar.
Antes de ir embora, uma jovem belíssima me pediu:
- Diga alguma coisa que eu possa levar para a minha vida.
Eu disse.
Ganhei um beijo e um abraço de cada um.
Agradeço ao Professor José Leonardo ter me dado essa manhã de presente.
Agradeço a luz dos olhos da Cristina e Núbia, por lutarem por essas crianças e jovens com tanto amor.
Recebi um presente lindo. Um cabide decorado , meus poemas copiados pelos alunos, pendurados no cabide, com fitas e laços.
E que eu possa receber belas notícias dessas pessoas tão lindas que vieram aqui. Que elas escapem da armadilha onde estão aprisionadas e possam voar muito alto.


quinta-feira, 11 de maio de 2017

SUSSURROS POÉTICOS


Na Vila de Igatu, me conta Mira Silva, as crianças estão fazendo sussurros com meus poemas!
É assim: cones de papelão e duas pessoas. Um cone no ouvido da outra e pronto, um poema é sussurrado!
Copiem a ideia, professores. Eu amei. E se pode fazer um cardápio de poetas variados.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

PERGUNTAS DAS CRIANÇAS

As crianças me perguntam sempre quanto tempo demoro para fazer um livro.
Aproveito para falar do Tempo. E dizer que isso não é importante. Importante é o trabalho sair bom.
Elas me perguntam de qual livro gosto mais.
De alguns gosto mais, claro, mas enquanto estou fazendo e envolvida, gosto igual de todos.
E de onde busco inspiração?
Essa é a melhor pergunta.
Hoje conversava com um amigo que amo. E dizia: tiro alegria até das pedras. Se estou viva o meu olhar é poético. Há poesia em tudo. Tudo me inspira.
E é assim que vivo e escrevo.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

EDUCANDÁRIO DO BEM

Hoje vou à inauguração da nova sede do Educandário do Bem, em Saquarema.
É um espaço belíssimo, um Ponto de Cultura, dedicado a oferecer arte para crianças e jovens com poucas perspectivas de futuro.
No contra tempo o Educandário oferece aulas de teatro, leitura, música, reforço escolar, contação de histórias, etc.
Fátima Alves e César Alves são os Capitães deste projeto maravilhoso que sobrevive quase sem ajuda  financeira. Alguns poucos amigos, alguns comerciantes que oferecem ingredientes para o lanche.
O Educandário terá uma sala com o meu nome, uma Oficina de Poesia.
Jorge Vale, que fez muitas peças de teatro com meus livros, com os meninos e meninas do Educandário, deveria estar vivo para estar hoje presente.Mas certamente estará junto.
Quem for de Saquarema e quiser ser colaborador do Educandário, pode entrar em contato com a Fátima pelo facebook.
Um trabalho tão bonito, sem nenhum, nenhum fim lucrativo, muito pelo contrário, cujo objetivo, como o nome do Educandário diz, é apenas fazer um bem.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

MEU COTIDIANO

Meu cotidiano é engraçado.
Caminho meia hora todos os dias pelas ruas de dentro quando não tenho pilates ou pela calçada em frente ao mar quando vou para a Vila. É tudo deslumbrante. É como se eu estivesse caminhando num outro mundo. Muita gente me conhece e vai me cumprimentando aqui e ali.
Hoje quando voltei decidi cozinhar no fogão de lenha, porque fazia uma temperatura maravilhosa e o dia estava lindo demais.
Enquanto cozinho faço outras coisas. Respondo a várias pessoas ao mesmo tempo. E releio o livro Os Judeus e as Palavras , do Amós Oz, livro que amo e que fala de muitas das minhas questões.Enquanto o feijão cozinha eu leio e penso.
Fiz os três poemas para o livro do Walmir Ayala que será reeditado. Walmir, lá das estrelas, deve ter gostado dos poemas. Ele foi amigo do meu melhor amigo, Professor Latuf e imagino os dois discutindo poesia e filosofia lá no céu.
A comida fica pronta e a casa rescende a lenha e o mar envolve tudo como se morássemos dentro de uma concha azul.
Vou ao correio depois do almoço enviar alguns livros para o Adriano Cabral que fará alguma coisa maravilhosa com os meus poemas.No correio sou amiga dos atendentes. Vou ao mercado. Gravo um vídeo para os alunos da Professora Kátia. Recebo um pré convite para um encontro na Bahia, e despacho algumas burocracias. Depois que fizer 20 minutos de bicicleta ergométrica, acho que consigo parar e voltar languidamente, deitada no sofá, para o livro do Amós.
Nenhum dia é igual ao outro.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O QUE ME PEDEM

O que me pedem os professores: um vídeo, uma palavra amorosa para os seus alunos.
Isso é lindo e me emociona.
Cada dia algum professor me conta alguma coisa e acho que os professores são o ouro dos alquimistas. Não existe nada mais difícil do que ser professor neste país. E no entanto, quantos fazem o trabalho mais belo do mundo, se desdobram, dão o melhor, sabem que estão trabalhando com gente em formação.
Em suas mãos está a vida e a auto estima de milhares (ou milhões, não sou boa em matemática) de crianças e jovens.
Recebo professores no meu Café, Pão e Texto e tudo o que posso dizer como poeta é isso: _ Vamos combinar, vocês desobedeçam um pouquinho e arrumem espaço para a literatura, para a poesia.
Essa é a minha sugestão. Se recebem uma tonelada de conteúdo e não sobra tempo para nada, é necessário desobedecer um pouco e ler um conto e um poema. Deixar que entre essa lufada de vento pela janela. Essa lufada de palavras mágicas que podem mover conteúdos emocionais, modificar a vida de alguém.

terça-feira, 2 de maio de 2017

PARA FAZER POESIA

O que é preciso para fazer poesia?
Antes de tudo, como dizia o Gullar, sentir o assombro correndo em nossas veias. Somos mortais e cada dia é único. Pode ser o último. Com esse sentimento amarrado em nosso corpo, certamente não deixaremos escapar nada. Nosso espanto é nosso alimento.
Em seguida, já que não posso desperdiçar nada, tenho que afiar o olhar como se afia uma navalha. Meus olhos tampouco podem deixar escapar nada.
E meus outros sentidos. Sendo poeta tenho que usar meu corpo como um bicho. Farejar e sentir. Nada pode ser desperdiçado. Não posso desperdiçar sensações.
Eu vejo as imagens à medida que vou escrevendo o poema. Eu as vejo e tenho que correr para que elas não escapem.
A minha respiração é a música do poema.
Sem música dentro do poema, alguma coisa deixará de funcionar.
E mesmo que o poema seja muito triste, alguma alegria terá que habitá-lo, será, digamos, a sua luz.
Eu busco alegria em tudo. Foi um longo aprendizado. Mesmo na dor. O poeta tem que gostar das palavras, das suas possibilidades. Quanto mais aberto o poema, melhor. Se você entende desse jeito e o outro de outro jeito, que bom. Uma palavra que vai se abrindo em leque, vai levando o leitor para várias direções...
E também dar de comer aos medos. Os medos podem ser grandes aliados, pois temos que domá-los, são nossos lobos. O poema também tem que ser domado. Quantas vezes for preciso, há que recomeçar, refazer, limpar, cortar.
Enfim, fazer poesia é viver em estado de poesia.