No último dia do ano convém pronunciar todas as palavras belas, sussurá-las, soprá-las ao vento, semeá-las.
Dizem os astrônomos que há um cometa visível no céu. Não o vejo, mas com a notícia,o céu fica mais belo no último dia do ano .
O primeiro lírio dos que trouxe de Joinville floresceu no nosso jardim.
E o primeiro girassol, que plantamos para iluminar dezembro.
O primeiro miquinho veio nos visitar, depois de 10 anos morando aqui, foi a primeira vez.
E bem cedo, às 5:30hs da manhã, havia um filhotinho de gambá pendurado no coqueiro.
Leio um livro delicioso sobre trens: A Morena da Estação, de Ignacio Loyola Brandão, ed. Moderna.. Excelente para este último dia de 2011 pois os trens nos ajudam a sonhar.
O último dia do ano é lindo em Saquarema. Não vieram os amigos, mas estão todos aqui, percorrendo a casa, num ir e vir contínuo. Amigos que moram longe, em outros estados, em outros países, amigos que já se foram, moram em outros planetas. Minha mãe e meu pai, jovens e apaixonados, na linda foto emoldurada com conchas, me sorriem de muito longe no tempo. Meus filhos , que não estão aqui, meu neto Luis, minha irmã, meu novo cunhado, minha sobrinha Julia, não estão estão aqui, mas sim, estão.
Para todos o meu amor tão imenso que quase não cabe em meu corpo pequeno.
E que todos os dias , para sempre, sejam sempre o primeiro dia.
sábado, 31 de dezembro de 2011
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
A CASINHA DA FOTO
Ontem publiquei uma foto no meu post. A minha casinha do bosque, em Visconde de Mauá. Sonia Menezes , de Goiânia, que fez sua tese de Mestrado sobre a minha obra, que cozinha divinamente e que ficou minha amiga depois da tese, me escreveu dizendo que a casinha, imersa na neblina, fabrica sonhos.
Li Bachelard muito jovem e me apaixonei perdidamente pela sua Poética do Espaço. Minha casinha parece ter saído das páginas do seu belíssimo livro e realmente faz sonhar e nos leva por infinitos devaneios . É uma casa tão pequena, tão essencial , que a gente acaba reaprendendo a viver. Todos os dias, quando estou aí, ao acordar, a primeira coisa que faço é abrir a porta para que a floresta entre . Tomo o café na varanda, se está chovendo ou faz muito frio, me cubro com um xale. São momentos preciosos, indescritíveis. Depois acendo o fogo para esquentar a água para o banho. O cheiro do fogão aceso e o perfume da mata se misturam e me fazem levitar.
Guardo todas as sensações no meu cofre de felicidade .
Li Bachelard muito jovem e me apaixonei perdidamente pela sua Poética do Espaço. Minha casinha parece ter saído das páginas do seu belíssimo livro e realmente faz sonhar e nos leva por infinitos devaneios . É uma casa tão pequena, tão essencial , que a gente acaba reaprendendo a viver. Todos os dias, quando estou aí, ao acordar, a primeira coisa que faço é abrir a porta para que a floresta entre . Tomo o café na varanda, se está chovendo ou faz muito frio, me cubro com um xale. São momentos preciosos, indescritíveis. Depois acendo o fogo para esquentar a água para o banho. O cheiro do fogão aceso e o perfume da mata se misturam e me fazem levitar.
Guardo todas as sensações no meu cofre de felicidade .
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
EM CASA OUTRA VEZ

Depois de 15 dias nas profundezas do bosque, sem internet, jornal, etc, volto para casa e para o mundo virtual que já um prolongamento do nosso ser. Há que separar as cartas acumuladas, os e-mails, refazer contatos. A viagem de volta de Visconde de Mauá para Saquarema durou 10 horas, pois havia um caminhão virado na Serra das Araras. É um tempo justo para passar de uma dimensão a outra. Fico exausta cada vez que volto, pois é muita emoçao acumulada. Dormi 11 horas seguidas. Reli um livro belíssimo do Amoz Oz, Não Diga Noite e também estive por um certo tempo no deserto. Recomendo a bela e estranha história de amor. Terminei o meu livro de poemas O Diário da Montanha que será publicado pela ed. Manati.
E como nós humanos precisamos dividir o tempo para seguirmos vivos, 2011 já vai se transformando em papel picado de lembranças.
E como nós humanos precisamos dividir o tempo para seguirmos vivos, 2011 já vai se transformando em papel picado de lembranças.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
E O LUIS VEIO!
E o Luis veio, meu neto, chegou de Granada. Os dias agora são feitos de assombro. Ele fala espanhol e mistura com alguma ou outra palavra em português. Está apaixonado pelo bosque, pelo Merlin, o cavalo velhinho do sítio, pelas gatas, Mia e Nina, as gatas da Dani, minha nora. Está apaixonado pela Dani e a paixão de uma criança de dois anos e meio é coisa muito forte e séria. Joga pedrinhas no fio de água no caminho da minha casinha maravilhado com o mundo.
Desejo a todos os meus leitores que encontrem o pote de amor que se esconde no fim do arco-íris. E que os dias de festa sejam todos os dias!
Desejo a todos os meus leitores que encontrem o pote de amor que se esconde no fim do arco-íris. E que os dias de festa sejam todos os dias!
sábado, 17 de dezembro de 2011
ARCO-ÍRIS
Hoje descemos o vale para vir almoçar em Maringá.Então aproveito a internet. Os dias passam de uma maneira tão bela, contemplando, lendo, escrevendo. Ontem , ao abrir a porta de manhã cedo, havia um arco -íris impressionante . Estar com meu filho André é uma dádiva e nunca nos cansamos de conversar. Amanhã chega meu neto da Espanha.
Plantei meus lírios que vieram de Joinville, fiz uma mandala no jardim. E vi um tucano muito de perto, pois tenho um pessegueiro carregado que se debruça na varanda da casa. Pude me aproximar e por alguns segundos ele se deixou quase tocar. Então voou. Estou feliz. Minha alma voa.
Plantei meus lírios que vieram de Joinville, fiz uma mandala no jardim. E vi um tucano muito de perto, pois tenho um pessegueiro carregado que se debruça na varanda da casa. Pude me aproximar e por alguns segundos ele se deixou quase tocar. Então voou. Estou feliz. Minha alma voa.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
EM VISCONDE DE MAUÁ
Estou em Visconde de Mauá, em Maringá, na casa-loja-ateliê da minha irmã Evelyn Kligerman. É seu aniversário. Passaremos o dia juntas e estou muito feliz.
Hoje de manhã cedo, enquanto acendia o fogão de lenha da minha casinha para ter água quente para o banho, num dos jornais que usaria havia um poema inédito do Cazuza de 1989:
QUAL É A COR DO AMOR ?
Pimeiro é o beijo
quente, procurado
a lingua procurando a outra
e vendo se a boca combina
se combina o beijo
meio caminho andado
Depois é a pele
se a textura vale
ou pelo com pelo
ou o pelo com o seu pelo
ou os pelos com meu pelo
ou o medo
Depois o cheiro
um procura no outro
o cheiro de colônia ou
o cheiro de prazer
e os dois se embriagam
ou vão até o banheiro
Depois a cor
o amor tem cor?
Cada amor tem uma cor
cada beijo tem uma cor
cor de caramelo doce
cor de madrugada fria.Cazuza, 1989
Hoje de manhã cedo, enquanto acendia o fogão de lenha da minha casinha para ter água quente para o banho, num dos jornais que usaria havia um poema inédito do Cazuza de 1989:
QUAL É A COR DO AMOR ?
Pimeiro é o beijo
quente, procurado
a lingua procurando a outra
e vendo se a boca combina
se combina o beijo
meio caminho andado
Depois é a pele
se a textura vale
ou pelo com pelo
ou o pelo com o seu pelo
ou os pelos com meu pelo
ou o medo
Depois o cheiro
um procura no outro
o cheiro de colônia ou
o cheiro de prazer
e os dois se embriagam
ou vão até o banheiro
Depois a cor
o amor tem cor?
Cada amor tem uma cor
cada beijo tem uma cor
cor de caramelo doce
cor de madrugada fria.Cazuza, 1989
domingo, 11 de dezembro de 2011
DENTRO DE UMA ÁRVORE
Hoje faço os últimos preparativos para minha partida amanhã às 5hs da manhã. Vou para Visconde de Mauá onde fico até depois do meu aniversário dia 27. Dentro do bosque, a casinha me espera. E as árvores. E os pássaros.
DENTRO DE UMA ÁRVORE
Existo dentro de uma árvore,
em seu oco,
em seu silêncio, sou sua seiva
enquanto fabrica sementes.
Os pés se misturam
com as raízes,
caminham dentro da terra,
reconhecem o rumor
da noite subterrânea.
Os braços são galhos,
as mãos se balançam
ao redor do vento:
eu e a árvore
o mesmo pensamento.
Minha imobilidade
dura alguns séculos.
in Carteira de Identidade, Ed. Lê
DENTRO DE UMA ÁRVORE
Existo dentro de uma árvore,
em seu oco,
em seu silêncio, sou sua seiva
enquanto fabrica sementes.
Os pés se misturam
com as raízes,
caminham dentro da terra,
reconhecem o rumor
da noite subterrânea.
Os braços são galhos,
as mãos se balançam
ao redor do vento:
eu e a árvore
o mesmo pensamento.
Minha imobilidade
dura alguns séculos.
in Carteira de Identidade, Ed. Lê
sábado, 10 de dezembro de 2011
OSTRA
Recebemos o livro Sísifo desce a montanha do Affonso Romano de S'Antanna, ed. Rocco.
Viver é trabalho de Sísifo. Todos os dias recomeçamos. Sua poesia é bela e emociona. Percorre todos os temas da vida, desde as miudezas do cotidiano até as grandes perguntas, as que querem nos devorar.
OSTRA
Estou num trabalho de ostra.
A areia entrou-me na concha
na carne.
Sangro.
Mas não se vê. O mar é grande
e a pérola
pequena
embora reluza
como um poema.
Viver é trabalho de Sísifo. Todos os dias recomeçamos. Sua poesia é bela e emociona. Percorre todos os temas da vida, desde as miudezas do cotidiano até as grandes perguntas, as que querem nos devorar.
OSTRA
Estou num trabalho de ostra.
A areia entrou-me na concha
na carne.
Sangro.
Mas não se vê. O mar é grande
e a pérola
pequena
embora reluza
como um poema.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
ANJOS
Gosto dos anjos. Da sua existência alada.A um palmo de nós, os humanos.Gosto dos versos do Rilke: "Quem, se eu gritasse, dentre a legião de anjos me ouviria?" Em muitos momentos difíceis este grito era o meu, mas eu sempre soube que no fundo os anjos me ouviam. Todos os dias leio alguns poemas. Os poemas são as minhas orações. Hoje li Jules Supervielle que vive com um pé no céu e Rafael Alberti, seu livro SOBRE LOS ÁNGELES.
EL ÁNGEL BUENO
Vino el que yo quería,
el que yo llamaba.
No aquel que barre cielos sin defensas,
luceros sin cabañas,
lunas sin patria,
nieves.
Nieves de esas caídas de una mano,
un nombre,
un sueño,
una frente.
No aquel que a sus cabellos
ató la muerte.
El que yo quería.
Sin arañar los aires,
sin herir hojas ni mover cristales.
Aquel que a sus cabellos
ató el silencio.
Para, sin lastimarme,
cavar una ribera de luz dulce en mi pecho
y hacerme el alma navegable.
Rafael Alberti,
in Sobre los Ángeles, ed. Alianza Losada
Arrisco a tradução:
O ANJO BOM
Veio o que eu queria,
o que eu chamava,
Não aquele que varre os céus sem defesas,
estrelas sem cabanas,
luas sem pátria,
neve.
Neve como essa que cai de uma das mãos,
um nome,
um sonho,
uma fronte.
Não aquele que aos seus cabelos
enlaçou a morte.
O que eu queria.
Sem arranhar os ares,
sem ferir folhas nem mover vidros.
Aquele que aos seus cabelos
enlaçou o silêncio.
Para, sem ferir-me,
cavar uma margem de luz doce em meu peito
e tornar minha alma navegável.
EL ÁNGEL BUENO
Vino el que yo quería,
el que yo llamaba.
No aquel que barre cielos sin defensas,
luceros sin cabañas,
lunas sin patria,
nieves.
Nieves de esas caídas de una mano,
un nombre,
un sueño,
una frente.
No aquel que a sus cabellos
ató la muerte.
El que yo quería.
Sin arañar los aires,
sin herir hojas ni mover cristales.
Aquel que a sus cabellos
ató el silencio.
Para, sin lastimarme,
cavar una ribera de luz dulce en mi pecho
y hacerme el alma navegable.
Rafael Alberti,
in Sobre los Ángeles, ed. Alianza Losada
Arrisco a tradução:
O ANJO BOM
Veio o que eu queria,
o que eu chamava,
Não aquele que varre os céus sem defesas,
estrelas sem cabanas,
luas sem pátria,
neve.
Neve como essa que cai de uma das mãos,
um nome,
um sonho,
uma fronte.
Não aquele que aos seus cabelos
enlaçou a morte.
O que eu queria.
Sem arranhar os ares,
sem ferir folhas nem mover vidros.
Aquele que aos seus cabelos
enlaçou o silêncio.
Para, sem ferir-me,
cavar uma margem de luz doce em meu peito
e tornar minha alma navegável.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
PRESENTES DE NATAL
Nada mais longe do que o "espírito natalino" do que o consumo desenfreado. Não faz sentido. A essência do cristianismo é outra. Jesus se preocupava com temas muito atuais: a discriminação da mulher e de todos os excluídos, a bondade, a aceitação do diferente,o perdão, a compaixão. Dar presentes por obrigação é ridículo, mas é bom presentear quem a gente ama, não só no natal, mas em qualqer ocasião. Dar livros é tarefa das mais agradáveis, pois supõe um certo conhecimento do outro, dos seus gostos, preferências, imaginário. Dar livros de presente é um ato de muito amor, pois há que imaginar a trajetória do leitor que amamos dentro da história, do ensaio, do poema.Não vemos na televisão publicidade de livros, é raríssimo. Talvez os editores não possam pagar ou , mais grave ainda, talvez o livro ainda ocupe na nossa sociedade um lugar subalterno. Para uma pessoa extremamente sensível, um livro de poesia,Lorca, Gullar, Manoel de Barros, Cecília, Hilda Hilst, para um quem goste de cozinhar, um livro da Isabel Allende bem cheio de receitas,para quem gosta de mistério, romances policiais ou Umberto Ecco,para quem gosta de viajar, 1000 dias em Veneza, etc, etc, etc...
Ganhei um livro antiquíssimo e lindo da Maria Clara ,sobre o poeta que amo (e com seus poemas) Jules Supervielle . Por trás do livro há todo o gesto, a busca, e este sim é o maior presente.
Ganhei um livro antiquíssimo e lindo da Maria Clara ,sobre o poeta que amo (e com seus poemas) Jules Supervielle . Por trás do livro há todo o gesto, a busca, e este sim é o maior presente.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
DO JAPÃO
Recebo um e-mail do Japão:
É uma alegria ler palavra por palavra seu blog,
(ainda estou no ano 2009 !) , é realmente muito interessante para mim.
Estou aprendendo pouco a pouco com o livro NOVO PORTUGUES BASICO DO BRASIL.
Afortunadamente o livro ten um CD.
Ate logo.
Kats Yaegashi
Minhas palavras atravessam mares, montanhas, mergulham no tempo e pousam na mesa de um lindo casal no Japão. Os dois são tradutores e apaixonados por livros. E de tão longe compartilhamos muitos sentimentos e idéias e espero que um dia possam nos visitar. Não nos conhecemos pessoalmente, mas eles traduziram um livro do Juan e nos mandaram fotos, livros, CDS e cartas de verdade. Que um dia possam abrir nosso portão e dividir alguns dias conosco.
Gosto de fazer listas. Desde sempre. Lista de livros, de compras do supermercado, de idéias. Assim escreví Receitas de Olhar (fiz a lista das receitas antes dos poemas), o Manual da Delicadeza (fiz a lista das palavras em ordem alfabética), o livro Casas (fiz a lista dos tipos possíveis de casas). Agora meu filho me pede: _ Mãe, faça a lista das frutas, legumes e verduras que vai querer para a primeira semana em Mauá, assim já deixo tudo encomendado. Fazer a lista do que vou querer me traz a imagem da mesa no jardim cheia das pessoas que amo: filhos, noras e netos. Do fogão de lenha aceso, dos aromas , da cesta cheia de frutas, do meu neto correndo pela casa. E a lista das verduras, frutas e legumes crepita com a chama da felicidade.
É uma alegria ler palavra por palavra seu blog,
(ainda estou no ano 2009 !) , é realmente muito interessante para mim.
Estou aprendendo pouco a pouco com o livro NOVO PORTUGUES BASICO DO BRASIL.
Afortunadamente o livro ten um CD.
Ate logo.
Kats Yaegashi
Minhas palavras atravessam mares, montanhas, mergulham no tempo e pousam na mesa de um lindo casal no Japão. Os dois são tradutores e apaixonados por livros. E de tão longe compartilhamos muitos sentimentos e idéias e espero que um dia possam nos visitar. Não nos conhecemos pessoalmente, mas eles traduziram um livro do Juan e nos mandaram fotos, livros, CDS e cartas de verdade. Que um dia possam abrir nosso portão e dividir alguns dias conosco.
Gosto de fazer listas. Desde sempre. Lista de livros, de compras do supermercado, de idéias. Assim escreví Receitas de Olhar (fiz a lista das receitas antes dos poemas), o Manual da Delicadeza (fiz a lista das palavras em ordem alfabética), o livro Casas (fiz a lista dos tipos possíveis de casas). Agora meu filho me pede: _ Mãe, faça a lista das frutas, legumes e verduras que vai querer para a primeira semana em Mauá, assim já deixo tudo encomendado. Fazer a lista do que vou querer me traz a imagem da mesa no jardim cheia das pessoas que amo: filhos, noras e netos. Do fogão de lenha aceso, dos aromas , da cesta cheia de frutas, do meu neto correndo pela casa. E a lista das verduras, frutas e legumes crepita com a chama da felicidade.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
O BEM DA BIA
Bem é o gato da Bia. Temos um caso amoroso. Por causa do Bem, a Bia Hetzel escreveu seu maravilhoso livro "De Bem com a Vida", da ed. Manati.
Porque estou com saudades do Bem e da Bia, dedico meu poema GATOS do livro Fruta no Ponto da ed. FTD, aos dois:
GATOS
Os gatos são para se beber
com o olhar
bem devagar
de um jeito oblíquo felino
quando os gatos andam
fazem hiatos de veludo
na fazenda azul do ar
Os gatos são para se tocar
bem de leve
que se esgarçam de preguiça
carícia
em sussurros de luar
Os gatos têm alma
de silêncio tafetá
Porque estou com saudades do Bem e da Bia, dedico meu poema GATOS do livro Fruta no Ponto da ed. FTD, aos dois:
GATOS
Os gatos são para se beber
com o olhar
bem devagar
de um jeito oblíquo felino
quando os gatos andam
fazem hiatos de veludo
na fazenda azul do ar
Os gatos são para se tocar
bem de leve
que se esgarçam de preguiça
carícia
em sussurros de luar
Os gatos têm alma
de silêncio tafetá
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
BANANAS PODRES
Não gosto de falar de política aqui no blog. Prefiro falar de poesia e do cotidiano, do jardim, dos livros. É um espaço para se respirar. Mas , como banana podre, finalmente cai o sexto Ministro por corrupção no Brasil, e é um alívio. Dinheiro público desviado é assassinato.
E leio que Gullar, o poeta que me emociona até a medula, publica um lindo livro ilustrado por ele e com a reprodução dos manuscritos. BANANAS PODRES sai hoje do prelo. Os poemas não são inéditos mas chegam de uma maneira diferente até o leitor: com a caligrafia do poeta e com suas colagens.
E pense bem:também
um tumor é um ponto intenso
da matéria viva,
de alta temperatura
como a gestar um astro
de pus
(assim se engendram os sóis,
os sons
no vazio abissal)
e assim também as vozes
de açúcar
( um negro lampejo)
que assustam os mosquitos
(nuvens deles)
pairando no ar
dos escuros cantos
do depósito
de frutas
nos fundos da quitanda
na rua da Alegria esquina de Afogados.
Ferreira Gullar
E leio que Gullar, o poeta que me emociona até a medula, publica um lindo livro ilustrado por ele e com a reprodução dos manuscritos. BANANAS PODRES sai hoje do prelo. Os poemas não são inéditos mas chegam de uma maneira diferente até o leitor: com a caligrafia do poeta e com suas colagens.
E pense bem:também
um tumor é um ponto intenso
da matéria viva,
de alta temperatura
como a gestar um astro
de pus
(assim se engendram os sóis,
os sons
no vazio abissal)
e assim também as vozes
de açúcar
( um negro lampejo)
que assustam os mosquitos
(nuvens deles)
pairando no ar
dos escuros cantos
do depósito
de frutas
nos fundos da quitanda
na rua da Alegria esquina de Afogados.
Ferreira Gullar
domingo, 4 de dezembro de 2011
EQUADOR
Ontem nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela foi no sítio de um dos participantes. O cenário era perfeito para discutirmos o livro EQUADOR, de Miguel Souza Tavares. Parecia que estávamos numa das propriedades da ilha de São Tomé: a casa esplêndida, o mobiliário , a mata, a natureza luxuriante. Pavões lançavam seus gritos tornando a atmosfera onírica. Mas a temperatura era amena, não estávamos na África mas sim em Saquarema.
Conversamos debaixo de umas árvores, ao ar livre e começamos com a leitura do poema do Manoel de Barros "O Menino que Carregava Água na Peneira" . Messias leu a "entrada" que o poeta escreveu para a sua Obra Completa da ed. Leya e aí está , em uma página, toda a sua poética.Felipe, que é contador de histórias, leu o poema maravilhosamente bem, e falamos um pouco sobre a belíssima tarefa de carregar água na peneira. Chico leu um poema de sua autoria, cheio de humor. Maria Clara trouxe uma convidada , uma bailarina de Portugal, tão leve que parecia uma garça e que nos presenteou com seu acento português. Angela disse que estragou o livro , pois, muito ansiosa para saber se a história de amor termina bem, leu antes de tudo, o final e ficou arrasada, já não conseguia mais ler o livro. Juan falou sobre o conflito ético entre os dois amigos que vai além do triângulo amoroso. Gil, falou da sua dor e identificação com os trabalhadores escravos, por ser negra, a dor deles era a sua dor.Falamos da teoria do bode expiatório de Renné Girard e como alguém teria que morrer. Maria Clara lembra que não só uma pessoa precisou morrer, mas todo o sistema vigente morreu.Buscamos uma outra saída para o personagem. Haveria outra saída?
Lembramos que a morte já estava anunciada logo no príncipio do livro. E falamos do crescimento do personagem ao longo do livro, como seus ideais vão se tornando a razão da sua vida. Falamos do livro As Cidades e as Serras do Eça de Queiros , da semelhança dos personagens dos dois livros no começo do Equador.
Felipe nos deu um depoimento belíssimo sobre a sua trajetória de leitor a partir do nosso Clube de Leitura. Ele também criou um Clube de Leitura em Duque de Caxias.
Angela e Andréia estiveram presentes com a sua ausência.
O almoço foi servido numa varanda paradisíaca. Comida farta, no fogão de lenha, comida maravilhosa. Novamente estávamos no cenário de uma das roças de São Tomé e nosso anfitrião era incansável em suas delicadezas. Depois fomos até a Capela e demos um passeio pela propriedade que é uma reserva das maravilhas que Saquarema amorosamente guarda em seu interior.
Nosso próximo livro será O Cerco de Lisboa, do José Saramago. E também os Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada do Pablo Neruda.Nosso encontro será dia 11 de fevereiro.
E para os ansiosos já tenho o livro de abril: A Trégua, do Primo Levi.E o poema Pasárgada do Bandeira.
Ainda temos vagas no Clube. Quem se aventurar, me avise.
Conversamos debaixo de umas árvores, ao ar livre e começamos com a leitura do poema do Manoel de Barros "O Menino que Carregava Água na Peneira" . Messias leu a "entrada" que o poeta escreveu para a sua Obra Completa da ed. Leya e aí está , em uma página, toda a sua poética.Felipe, que é contador de histórias, leu o poema maravilhosamente bem, e falamos um pouco sobre a belíssima tarefa de carregar água na peneira. Chico leu um poema de sua autoria, cheio de humor. Maria Clara trouxe uma convidada , uma bailarina de Portugal, tão leve que parecia uma garça e que nos presenteou com seu acento português. Angela disse que estragou o livro , pois, muito ansiosa para saber se a história de amor termina bem, leu antes de tudo, o final e ficou arrasada, já não conseguia mais ler o livro. Juan falou sobre o conflito ético entre os dois amigos que vai além do triângulo amoroso. Gil, falou da sua dor e identificação com os trabalhadores escravos, por ser negra, a dor deles era a sua dor.Falamos da teoria do bode expiatório de Renné Girard e como alguém teria que morrer. Maria Clara lembra que não só uma pessoa precisou morrer, mas todo o sistema vigente morreu.Buscamos uma outra saída para o personagem. Haveria outra saída?
Lembramos que a morte já estava anunciada logo no príncipio do livro. E falamos do crescimento do personagem ao longo do livro, como seus ideais vão se tornando a razão da sua vida. Falamos do livro As Cidades e as Serras do Eça de Queiros , da semelhança dos personagens dos dois livros no começo do Equador.
Felipe nos deu um depoimento belíssimo sobre a sua trajetória de leitor a partir do nosso Clube de Leitura. Ele também criou um Clube de Leitura em Duque de Caxias.
Angela e Andréia estiveram presentes com a sua ausência.
O almoço foi servido numa varanda paradisíaca. Comida farta, no fogão de lenha, comida maravilhosa. Novamente estávamos no cenário de uma das roças de São Tomé e nosso anfitrião era incansável em suas delicadezas. Depois fomos até a Capela e demos um passeio pela propriedade que é uma reserva das maravilhas que Saquarema amorosamente guarda em seu interior.
Nosso próximo livro será O Cerco de Lisboa, do José Saramago. E também os Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada do Pablo Neruda.Nosso encontro será dia 11 de fevereiro.
E para os ansiosos já tenho o livro de abril: A Trégua, do Primo Levi.E o poema Pasárgada do Bandeira.
Ainda temos vagas no Clube. Quem se aventurar, me avise.
sábado, 3 de dezembro de 2011
NOTÍCIAS DO JARDIM
A roseira que a minha leitora Mariana , que veio de São Paulo para o último encontro do Clube de Leitura,me deu de presente, (eu não conhecia a Mariana!), floresceu. Está com dois botões.
As hemerocallis que trouxe de Joinville e plantei aqui estão ótimas, já com folhas novas.
Uma leitora me conta que participa de um grupo de mulheres que bordam juntas meu livro Jardins.
Hoje a casa amanheceu envolta numa neblina de algas. O jardim parece suspenso , flutua dentro de uma nuvem de mar. O cheiro é salgado.
O mar está misturado com o céu e com suas ondas gigantescas transforma a casa num barco à deriva, ao sabor do destino. Aqui dentro, abrigados, fabricamos poesia.
As hemerocallis que trouxe de Joinville e plantei aqui estão ótimas, já com folhas novas.
Uma leitora me conta que participa de um grupo de mulheres que bordam juntas meu livro Jardins.
Hoje a casa amanheceu envolta numa neblina de algas. O jardim parece suspenso , flutua dentro de uma nuvem de mar. O cheiro é salgado.
O mar está misturado com o céu e com suas ondas gigantescas transforma a casa num barco à deriva, ao sabor do destino. Aqui dentro, abrigados, fabricamos poesia.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
CLARICE E OUTROS ASSUNTOS
Ontem vi uma gravação de uma entrevista com a Clarice Lispector em 1977. Ela estava tão linda, tão triste, tão viva, tão aqui do lado, que a gente se pergunta: o que é a morte? Tudo o que ela falava era tão luminoso e verdadeiro, era pura poesia, ela não tinha medo de se expor, de dizer de verdade o que acontecia bem lá dentro, em seus porões. Eu a conhecí e tinha muito medo dela. Eu era nova demais e Clarice queimava. Fui muitas vezes até a sua casa, eu a ouvia, sua voz tão diferente, tão diferentes as coisas que dizia. Por um momento , assistindo ao vídeo, estive com ela de outra maneira: agora tinhamos quase a mesma idade, na verdade eu era a mais velha e podia entender tudo o que ela dizia, na minha alma, no meu corpo. Naquela época, na década de 70, a minha juventude me atrapalhava.
Amanhã é o nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela. Estou feliz, acho que será um lindo encontro.Fecharemos o ano com Equador, chave de ouro.
Ontem estive na festa de Natal do Castelo, a ESCOLA QUE CANTA, com seu coral maravilhoso regido pelo Maestro Moisés. Ontem o coral veio cheio de surpresas, com mímicas e palhaços. Além do coral a escola tem teatro e uma rádio. Seria ótimo se a rádio "falasse" um poema por dia. A comunidade estava toda presente, a escola, lindíssima, de frente para a lagoa, estava abarrotada. Uma escola pública como a E.M Castelo Branco deixa a gente nas nuvens!
Amanhã é o nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela. Estou feliz, acho que será um lindo encontro.Fecharemos o ano com Equador, chave de ouro.
Ontem estive na festa de Natal do Castelo, a ESCOLA QUE CANTA, com seu coral maravilhoso regido pelo Maestro Moisés. Ontem o coral veio cheio de surpresas, com mímicas e palhaços. Além do coral a escola tem teatro e uma rádio. Seria ótimo se a rádio "falasse" um poema por dia. A comunidade estava toda presente, a escola, lindíssima, de frente para a lagoa, estava abarrotada. Uma escola pública como a E.M Castelo Branco deixa a gente nas nuvens!
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
POSSIBILIDADES
Comprei o livro Poemas da poeta polonesa, Prêmio Nobel de Literatura em 1996, Wislawa Szymborska. Ela está viva e já tem 90 anos. Wislawa viveu a segunda guerra e o stalinismo e o humor terrível e surpreendente são as suas ferramentas. Fiquei muito impactada com a sua poesia, tão diferente. O tempo todo ela nos oferece eletrochoques. Escolhí um poema que amei:
POSSIBILIDADES
Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoiévski.
Prefiro-me gostando das pessoas
do que amando a humanidade.
Prefiro ter agulha e linha à mão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não achar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrevê-los.
Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,
para celebrá-los todos os dias.
Prefiro os moralistas
que nada me prometem.
Prefiro a bondade astuta à confiante demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos conquistadores.
Prefiro guardar certa reserva.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas outras também não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
do que postos em fila para formar cifras.
Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro ponderar a própria possibilidade
de ser ter sua razão.
Wislawa Szymborka, Poemas, tradução de Regina Przybycien, Companhia das Letras
Não sabemos o que a poeta está vivendo no momento em que escreve prefiro isto e não aquilo. Este fato, eu acho, aumenta o impacto do poema.
A edição é bilingue e é uma lástima não se poder ler os poemas no original, mas a tradução é fluente, perfeita.
POSSIBILIDADES
Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoiévski.
Prefiro-me gostando das pessoas
do que amando a humanidade.
Prefiro ter agulha e linha à mão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não achar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrevê-los.
Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,
para celebrá-los todos os dias.
Prefiro os moralistas
que nada me prometem.
Prefiro a bondade astuta à confiante demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos conquistadores.
Prefiro guardar certa reserva.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas outras também não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
do que postos em fila para formar cifras.
Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro ponderar a própria possibilidade
de ser ter sua razão.
Wislawa Szymborka, Poemas, tradução de Regina Przybycien, Companhia das Letras
Não sabemos o que a poeta está vivendo no momento em que escreve prefiro isto e não aquilo. Este fato, eu acho, aumenta o impacto do poema.
A edição é bilingue e é uma lástima não se poder ler os poemas no original, mas a tradução é fluente, perfeita.
Assinar:
Postagens (Atom)