quinta-feira, 4 de julho de 2013

PROJETO GRÁFICO

Ontem recebí o projeto gráfico do livro Fio de Lua & Raio de Sol que sairá em setembro pela IBEP Jr. Patricia, minha nora, poeta andaluza, escreveu os poemas da lua e eu fiz os poemas de sol. O projeto está lindíssimo, o livro já vem todo diagramado e onde há uma mancha cinza, Regina Rennó colocará suas belas ilustrações. É o primeiro livro da Patricia que já tem outros dois na fila que serão publicados pela Rovelle.
Conheci Patricia em 1998 em Granada, ela é sobrinha do meu marido. Ela me mostrou seus poemas e eu nunca poderia sonhar que faríamos um livro juntas algum dia, que no futuro ela se casaria com meu filho Guga, que me daria o Luis (que já virou livro, é claro, o Lá Vem o Luis, ed. Leya).
A hisória de amor foi assim: Patricia veio nos visitar em Saquarema e Guga que morava em outra cidade estava aqui nos visitando. Quando ela chegou e eles se olharam, eu vi eles se apaixonando. Guga tinha, por coincidência, um trabalho nas Ilhas Canárias para um mês depois e de lá já foi para Granada. Logo se casaram aqui em Saquarema. E agora eu tenho a alegria de apresentar a linda poesia da Patri. Sou sua tradutora, pois embora ela more no Brasil, sempre escreverá em espanhol, a sua lingua. O meu desafio é fazer com que o leitor nem repare que os poemas não foram escritos em português. E sinceramente, acho que conseguí.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

DIA MÁGICO

Ontem fiz parte de uma das festas mais lindas da minha vida, na Biblioteca Parque Manguinhos, um espaço totalmente mágico, dentro de uma comunidade bastante precária. A Biblioteca tem 23.000 metros quadrados e é completíssima, tem até teatro. Fui pelas mãos da Ed. Rovelle e logo ao chegar nos esperava uma bela mesa de café da manhã. Os professores foram chegando e me abraçando, querendo fotos, construindo para mim um casulo de amor. O evento era a entrega dos prêmios do Concurso dePoesia do Município para alunos e profissionais da Educação e faz parte do projeto Poesia na Escola. Eu era a poeta homenageada.A MultuRio passou um filme com poemas concretos dos alunos, uma maravilha. A Secretária Cláudia Costin estava presente e sua bela fala, pessoal e poética emocionou..Depois vieram os prêmios, depois eu falei. Mas  o melhor estava no palco: a Orquestra da Maré. Que maravilha! Haja coração! Ela é a prova viva de quantos milhões de talentos se perdem por este Brasil afora. É a prova viva de que a arte salva e transforma. Guardarei esta manhã como uma das mais belas experiências que já vivi. Os livros premiados que ganhei de presente , me trazem uma linda poesia.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

FRESTA/FRONTEIRA

Gosto da palavra fresta, que nos permite passar para outros mundos, atravessar espelhos e paredes. Gosto da palavra fronteira que também nos permite passar, embora os homens tenham criado fronteiras artificiais e guardas para impedir a passagem.Cada vez mais as fronteiras se diluem, ficam enevoadas, quase líquidas. Fronteiras entre países com o mundo globalizado, fronteira entre etnias, cores, gêneros literários e sexuais. Até os idiomas se interpenetram, palavras estrangeiras se alojam na nossa lingua e vão ficando. A poesia é o melhor meio de transporte para se atravessar frestas e fronteiras.

POEMA

Um poema líquido
que escorra
pelas frestas do dia,
encontre o tempo exato
onde a noite cai
e traga para dentro da vida
a fragrância de flores:
violetas, margaridas, jasmins.

in Carteira de Identidade, ed. Lê

domingo, 30 de junho de 2013

OBJETOS

Por que alguns objetos nos acompanham por tantos anos? O que existe neles que faz com que de casa em casa nos sigam?
Minha casa é cheia de coisas assim que atravessaram o tempo intactas e transbordam afeto.
Em cima da mesa de jantar tenho uma gamela com uma flor vermelha pintada no fundo. Eu a comprei em 1980 de um artista que morava em Visconde de Mauá, Ricardo Saboya. Posso ler em sua madeira gasta os anos que passei na montanha quando meus filhos eram pequenos e da gamela , diante dos meus olhos , seus risos escapam e os dias luminosos que vivemos juntos.
Tenho um malão antigo na cozinha, que é a minha despensa. Herdei da minha mãe e ele traz de volta a sua figura miúda, a sua voz, cada vez que abro o malão para buscar arroz ou café.
E assim, os objetos são um mapa estranho, caótico, que tentam costurar alguns pedaços de tempo.

sábado, 29 de junho de 2013

KAFKA

Comprei um pequeno livro do Kafka quando fui a Praga em 2001. Cuadernos en Octavo e não sei se existe em português.O meu livro está em espanhol. Amo este livro. São pedaços soltos de texto. Leio traduzindo:

"Como um caminho no outono: acabam de limpar e já está outra vez coberto de folhas secas".

Penso: assim a vida, em todas as horas,  minutos,  segundos, há que recomeçar. Varrer, limpar, escrever, cozinhar, abraçar, amar, acreditar, construir....

sexta-feira, 28 de junho de 2013

UM ALMOÇO ESPECIAL

Ontem recebi 18 crianças e 4 professores de Nova Iguaçu para um almoço. Eram maravilhosas as crianças. Elas me trouxeram uma boneca de pano em tamanho gigante com o meu rosto. A boneca Roseana ficava uma semana na casa de cada um e eles fizeram um diário lindíssimo com as suas atividades com a boneca. Nos sentamos na varanda , li para elas o livro Nana e Juan buscou a Nana de verdade para que fosse apresentada à plateia. A Nana é uma gata muito vaidosa, ela adorou. Por uma coincidência mágica , a querida professora Eunice, de Natal, estava no Rio e veio também. Li o livro Quatro Jabutis e depois todos foram ao jardim encontrar os jabutis. A brincadeira era reconhecer o Godofredo. Cada um trouxe um livro para que eu autografasse. As mães mandaram brigadeiros, bolo de fubá, sonhos, que foram feitos a partit do livro Poemas e Comidinhas. A escola enviou uma cesta lindíssima de frutas em homenagem ao livro Abecedário (Poético) de Frutas. Depois do almoço as crianças foram ver o mar que estava muito brabo, rugia, esperneava, dava cambalhotas e molhou todo mundo! Quando foram embora a casa estava iluminada de amor.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

SAQUAREMA

Ontem eu soube, não sei se é verdade, que terça-feira, no dia da manifestação aqui em Saquarema, quatro ônibus foram interceptados na estrada cheios de gente que não é daqui e que vinha para quebrar. Não puderam, felizmente chegar a Saquarema. Está claro que há uma parcela de gente que só quer destruir. Não sei porque, nem a quem isso interessa. Ontem morreu um homem em Belo Horizonte. Caiu de um viaduto por causa da confusão. A quem isso interessa?
Vivo em Saquarema desde 2002 . É uma cidade maravilhosa, limpa, linda, pacífica, cheia de coisas boas. As escolas são belas, super bem cuidadas, a cidade possui ruas para pedestres,praça para a terceira idade com aulas de hidroginástica, etc, o lixeiro passa e não se vê lixo nas ruas. Os únicos problemas são o transporte que é péssimo, pois ineficiente nos lugares mais distantes (além dos motoristas mal educados) e a saúde.Na saúde sim temos um grave problema. Mas há um hospital novo a ser entregue para a população e que isso se faça rápido, pois já está quase pronto e que não se espere o ano das eleições e o Posto de Saúde foi reformado e está pronto, mas também está em compasso de espera. E os salários dos professores são muito baixos.Nada mais justo que uma manifestação pedindo mais Saúde e um transporte melhor. Portanto, Saquarema tem problemas pequenos e que podem ser sanados. Nada justificaria uma ação violenta, uma quebradeira.  E ainda mais por gente que não é daqui. Uma cidade tão bem cuidada não pode e não merece ser quebrada. E insisto: a quem interessa toda esta violência que vemos nas manifestações?

quarta-feira, 26 de junho de 2013

PEQUENOS LEITORES

Amanhã recebo um grupo de pequenos leitores de Nova Iguaçu, R.J, para um almoço comigo. É uma grande alegria. Sinto muita falta dos meus Cafés Literários, encontros com os alunos e professores aqui da rede pública de Saquarema que aconteciam mensalmente , mas que já não existem por decisão da Secretaria de Educação de Saquarema, infelizmente. Líamos sempre um conto, um poema, um artigo de jornal e discutíamos. Asaudade que sinto dos encontros é imensa. Eu oferecia o café e a cópia dos textos, fazíamos canjica, bolos, pães, cachorro-quente, chocolate quente, era uma festa! A Secretaria precisava apenas trazer as escolas. Mas a minha casa está aberta para as escolas de Saquarema que queiram vir trazendo seus alunos por conta própria. Basta agendar. Contribuir para que cada um se converta em leitor e leitor crítico é uma das tarefas mais importantes. Faço tudo o que está ao meu alcance. Bons leitores não se deixam enganar.
Criei o Clube de Leitura da Casa Amarela pensando nos professores de Saquarema, e eles estão vindo . Não existe ato mais revolucionário do que a leitura. Os tiranos sempre queimaram livros, sempre proibiram livros.

terça-feira, 25 de junho de 2013

GOSTO NÃO SE DISCUTE

Tenho amigos de todas as idades, religiões, cores, opções sexuais, partidos políticos, gostos literários. Tenho como lema de vida aceitar opiniões diferentes da minha, amo a liberdade e a diversidade. Esta é a grande riqueza. Sou poeta, ser poeta é meu ofício. A poesia é a essência da liberdade, a poesia não admite amarras. Jamais irei agredir alguém porque não pensa como eu penso. Jamais me sentirei superior a alguém por conta das minhas convicções e jamais deixarei de dar o crédito a alguém por algo que tenha feito.

GOSTO NÃO SE DISCUTE

Eu gosto de azul,
você gosta de laranja,
eu gosto de caju,
você gosta de pitanga,
eu gosto de escuro,
você gosta de luar,
eu gosto de bosque,
você gosta de mar,
eu gosto de seda,
você gosta de algodão,
eu gosto de cão,
você gosta de gato,
eu gosto de girassol,
você gosta de jasmim,
mas o que importa
é que eu gosto de você
e você gosta de mim.

In Quem Vê Cara Não Vê Coração, ed. Callis/ Instituto Houaiss

segunda-feira, 24 de junho de 2013

AS ÁGUAS AZUIS

No filme Asas do Desejo os anjos escutam os pensamentos dos homens. Quando se juntam 300.000 pessoas numa manifestação seus pensamentos são tão diversos (com alguns pontos e desejos em comum), que os anjos enlouqueceriam. Aceitar o diverso e pensamentos diferentes do nosso é próprio da democracia. O pensamento único é violento e destrói. O que move estas pessoas é o desejo legítimo de mudanças na maneira de se fazer política no Brasil, na maneira com que o Brasil trata os seus cidadãos , na maneira com que o Brasil destrói o seu futuro. Os políticos deveriam ter conselhos de urbanistas, historiadores, artistas, filósofos, enfim, pensadores.E principalmente deveriam ouvir a voz que vem das ruas. Muitas tragédias da história não teriam acontecido se os políticos tivessem se debruçado sobre o pergaminho da história. Nas Mil e Uma Noites o Sultão Harum-Al-Rachid se disfarça e sai pelas ruas para ouvir o seu povo. Os políticos se isolam numa redoma de ouro, saem apenas para fazer campanha. Leio que 75% do Brasil apoia as manifestações. Mais que nunca é preciso pedir paz. ,
"essa palavra tão pequena
e grande,
pássaro palpitante,
palavra viva em carne viva.
Palavra de mudar o mundo,
de fazer pão e telhado,
de abrir os cadeados,
as porteiras trancadas
do universo,
as águas ázuis
que dormem no fundo
de cada homem.,"

in Qual a Palavra, ed. Paulus, Roseana Murray

domingo, 23 de junho de 2013

LORCA OUTRA VEZ

"... A poesia não tem limites. Pode nos esperar sentada na soleira da porta, nas madrugadas frias quando se volta com os pés cansados e a gola do casaco levantada. Pode estar nos esperando na água de uma fonte, trepada na flor de uma oliveira, posta para secar no pano branco estendido no terraço da casa. O que não se pode fazer é propor uma poesia com rigor matemático."

Federico García Lorca, in Pequeno Poema Infinito, ed. Imprensa Oficial

Há poesia nas ruas e há violência, mas não há matemática. Não há direita, centro ou esquerda. Há um movimento ondulante por mais dignidade, por menos humilhação. Como panos coloridos ao vento.

sábado, 22 de junho de 2013

NOVELO

Hoje , ao abrir o facebook, encontrei meu poema Novelo, não me lembro em que livro está, mas acho que a imagem do novelo que se desenrola é muito boa para o nosso momento único . Estamos, o Brasil inteiro, imensas, médias e pequenas cidades, escrevendo uma nova história, já que não podemos mudar o que existiu. Um novelo de esperança corre , se desenrola.
Pobre no Brasil é o resto da escravidão, é periferia. Pobre é maltratado em todos os níveis. Mas o que está acontecendo no Brasil, é tão único em  nossa história, que realmente será um divisor de águas. Dinheiro público tem que ser sagrado, é simples assim. E as prioridades: o que for melhorar o cotidiano e o futuro das pessoas.Mesmo quem não está nas ruas porque não pode estar, manda o seu coração para a rua. No futuro todos serão tratados com dignidade.É o nosso sonho. É um momento único para se refletir sobre valores, solidariedade, compaixão, amor, respeito, amizade, delicadeza. E repudiar a violência.

NOVELO

Com fina linha prateada
o sonhador borda a sua vida:
na fronteira entre o dia e a noite,
entre uma estrela e outra,
uma palavra e sua sombra,
ergue um castelo de vento,
desfralda as bandeiras da paz.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

POESIA

" A poesia é algo que anda pelas ruas. Que se move, que passa ao nosso lado. Todas as coisas têm o seu mistério e a poesia é o mistério que contém todas as coisas. Se passamos junto de um homem, se olhamos uma mulher, se adivinhamos a marcha oblíqua de um cão, em cada um desses objetos humanos está a poesia."

Federico Garcia Lorca, in Pequeno Poema Infinito, ed. Imprensa Oficial.

Milhares de pessoas se movem pelas ruas em manifestações impressionantes, coloridas, gigantescas. Isso é poesia.Mas não vejo poesia na violência.  As depredações ferem, machucam, deixam cicatrizes.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

CAVALO AZUL

Sou apaixonada pelos cavalos azuis que só existem em nosso imaginário, nas obras de Chagall, no belíssimo filme Pele de Asno, na poesia. Cavalos azuis sempre me habitaram , comem grama fresca e bebem orvalho dentro de mim. Recebo um belo livro de poemas de Alexandre Bonafim , Arqueologia dos Acasos e lá está ele , o Cavalo Azul, maravilhoso poema final.

" Um tropel de silêncio e eternidade
desdobra o ar em acordes levíssimos,
feitos de orvalho e bruma.
As crinas vão desatando o infinito,
as estrelas , a solidão mais aguda.
Eis a sagração do céu em nós."

Fragmento de O Cavalo Azul, in Arqueologia dos Acasos, Alexandre Bonafim, ed. Delicatta

Que hoje, nas manifestações, cada um carregue um delicado cavalo azul dentro de si, para que as mudanças tão necessárias possam vir.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

CIDADES PEQUENAS

  • As cidades pequenas começam a entrar na dança. Há uma manifestação marcada para Resende, onde moram meus filhos e Saquarema, onde moro. Não poderei ir, não posso correr se precisar, pois estou operada! mas os ônibus aqui são um deboche. Numa cidade tão pequena custam caríssimo e você pode ficar esperando muito tempo. Os lugares mais afastados , Mombaça, Vilatur, talvez tenham no máximo uns três por dia. Os motorista são grossos, mal educados, freiam propositadamente para que os velhinhos caiam. Os trabalhadores que moram nestes lugares com nomes lindos, Jaconé, Rio da Areia, etc, e vão trabalhar na cidade, podem ter um cotidiano muito difícil.
  • Os salários dos professores são muito baixos, embora as escolas sejam lindíssimas, talvez as mais bonitas do Brasil. Gostaria de poder comparar os salário de um professor daqui com o de um político, mas não sei os números. Desde que me mudei para cá , em 2002, os ônibus são o maior problema da cidade e não conseguem  ou não querem resolver o problema. A Região dos Lagos não tem uma circulação entre as cidades. Se quiser ir a Búzios tenho que tomar um ônibus até Bacaxá, outro até Cabo Frio e depois outro até Búzios. São os pequenos desrespeitos do cotidiano que vão se somando até explodir num rio de águas turbulentas. Torço para que a polícia consiga isolar os depredadores, é o mínimo que se espera, uma polícia que saiba atuar sem machucar, mas protegendo o espaço público, os tesouros arquitetonicos, as lojas, os bancos. Os vândalos são poucos e facilmente localizáveis. A maioria, a imensidão, o mar de gente , é pacífica, colorida e finalmente fala.

terça-feira, 18 de junho de 2013

RESPEITO & DESRESPEITO

Brasileiros pobres ou de classe média possuem um baú cheio de histórias de desrespeito para contar. Os pobres são sempre maltratados, tudo o que recebem é de segunda categoria, é raro que não seja assim., aplaudo as escolas públicas belas e limpas, os parques nos subúrbios. Os de classe média precisam pagar um seguro particular de saúde, escolas particulares para os filhos, se querem algum tratamento melhor, quando pagam os impostos mais caros do mundo. Nunca entendí porque um deputado ganha mais do que um professor e tem transporte grátis. Agora o baú foi aberto e as histórias pessoais de desrespeito saem descontroladas. Acho que o brasileiro não se cala mais.Uma pena que os vândalos de plantão se aproveitem para destruir o que é de todos.  

segunda-feira, 17 de junho de 2013

RESPIRAÇÃO

Quero contar uma experiência pessoal que pode ajudar muita gente. Desde 1993 quando fiz uma cirurgia de hérnia de disco que não deu muito certo, sofro de dores na coluna, que variam de intensidade de acordo com a minha tensão muscular, stress emocional, cansaço físico. Fazem alguns meses minha voz começou a desaparecer, fiquei rouca e ficava exausta para falar. A voz é um dos meus instrumentos e fiquei com muito medo. Fiz uma laringoscopia no consultório do meu irmnão que é oncologista e não era nada grave, dois nódulos nas cordas vocais por mau uso da voz.
Comecei a fazer sessões de fono e a surpresa: com os exercícios respiratórios as dores na coluna foram desaparecendo (além da voz estar voltando). Junto com a respiração sou obrigada a tomar dois litros de água por dia.
A respiração junto com a água estão levando embora as dores que me acompanham cotidianamente , visitante indesejada, fazendo do meu corpo uma moradia desconfortável. Faço pilates, mas agora estou conseguindo caminhar . Estou maravilhada. Além disso o ar por enquanto ainda é grátis. Como o amor.

domingo, 16 de junho de 2013

0,20 e 6.000,00

Tanta confusão por causa de vinte centavos?  Hoje leio que jovens gastam R6.000,00 por noite numa boate, numa iha perto de Angra dos Reis. Leio que numa favela no Rio alguns moradores possuem dois televisores, celular, máquina de lavar, mas a "casa" não tem banheiro, nenhum tipo de saneamento. Um trabalhador de baixa renda passa muitas vezes horas no trânsito, engarrafado , enlatado, agredido , para chegar ao trabalho. O brasileiro tem orgulho em sediar a Copa mas ao mesmo tempo sente náusea ao pensar no preço dos estádios e no que falta em saúde pública , saneamento, educação. O Brasil é uma colcha de retalhos mas o visual da colcha não é belo. É um imenso acorde dissonante que fica entalado entre a garganta e os pulmões. E agora este acorde se esparrama em manifestações caóticas que traduzem esta esquizofrenia, o mal estar.
O brasileiro pobre é tão mal tratado em todos os aspectos que o que espanta é o seu  silêncio e não as manifestações. Que sua voz comece a ser ouvida. Transportes limpos , civilizados e baratos. Hospitais dignos. Moradias populares em bairros com praças, jardins,bibliotecas, um entorno belo e agradável. Escolas onde convivam todas as artes e onde se eduque para a paz  .  Consigo ouvir dentro do acorde anárquico e dissonante, estas notas musicais, este pedido.

sábado, 15 de junho de 2013

NOTÍCIAS DO MAR

O mar hoje está escrevendo em preto e branco. Melhor: cinza chumbo. Eu gosto. A casa vibra, estremece com as suas ondas. O mar me alimenta com seu cheiro salgado e rude. Meus pais vieram pelo mar. Habitaram um navio de imigrantes. Tenho um documento que fala da chegada do meu pai. É uma cópia. O original: seus medos, seus sentimentos, a vida que iria construir aqui no Brasil. Minha mãe me dizia: _Eu não me lembro.
Estes fragmentos de tempo são também a música do mar.

AS CONCHAS
As conchas ouvem música.
O mar rolando seus violinos,
às vezes violas de gamba,
ou mesmo flautas e sinos.
As conchas ouvem,
e depois,
quando em nossos ouvidos,
cantam baixinho.

in O Mar e OS SONHOS, ed. Lê. 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

MANIFESTAÇÕES

Mariana, minha leitora e amiga de São Paulo, nos contava, quando esteve aqui em casa para o último encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela, a sua odisséia diária para chegar até a Escola de Dança onde estuda. São dois ônibus e dois trens superlotados, inchados de gente a ponto de não se poder respirar. Um serviço horroroso, caro, que desrespeita cada um em sua história pessoal. Pagamos os impostos mais altos do mundo.
Finalmente a população acorda e pede por cidadania . E a polícia ataca ferozmente como se estivéssemos vivendo numa ditadura. Será impossível separar os vândalos sem machucar a todos? Os vândalos de plantãi estarão sempre em todas as manifestações no mundo inteiro, mas eles não são a maioria.  As cenas que o mundo viu ontem em São Paulo e no Rio são terríveis , a população acuada e ferida num regime democrático por uma polícia que deveria estar ali para defender a manifestação. Somos cidadãos de décima categoria se nem ao menos podemos protestar. Ótimo motivo para os professores conversarem com os seus alunos sobre os anos de chumbo e sobre os valores de uma verdadeira democracia.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

PENSAMENTOS

A privacidade acabou? Mas ainda tenho meus pensamentos , ainda tenho os meus sentimentos, as minhas crenças.
Claro que no futuro os pensamentos não serão indevassáveis. Cérebro e máquina trabalharão juntos e poderão ser e já são, na verdade, manipulados, assim como os gostos e os desejos. O que sobrará então? Não sei. Talvez um certo jeito de olhar, um certo jeito de pronunciar a palavra amor.
Enquanto meus pensamentos me pertencem deixo que voem como pássaros amestrados, invisíveis e quanto mais leitora eu for, mais eles serão meus.
Por enquanto é minha a geografia interna me pertence, ela não é o meu endereço ou o meu CPF ou o número da minha carteira de identidade.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

SAUDADES

Voltei da cirurgia muito emotiva, com saudades de um mundo antigo, lento. Ainda bem que aqui em  Saquarema, em algumas horas,tenho a sensação de estar vivendo na minha infância. Ouço os galos, cachorros, passarinhos, vozes longínquas de crianças brincando. A gente vai engolindo o mundo como pode, com suas cascas horríveis e ásperas, com sua pressa, seu tempo líquido e pulverizado, seus excessos. Anseio sempre por uma simplicidade de flores silvestres na beira da estrada, por uma essencialidade de osso.
Hoje , Dia dos Namorados, deveríamos ler cartas de amor. Sou apaixonada pelas Cartas a Milena do Kafka. Li umas duzentas vezes. E hoje fico sabendo pelo Segundo Caderno do O Globo que chega ao Brasil o livro reunindo pela primeira vez toda a correspondência amorosa entre Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz.
Não existe nada melhor do que ler e namorar, podemos namorar não só pessoas, mas também flores, gatos, árvores, poemas.

terça-feira, 11 de junho de 2013

CASA

Passei por uma cirurgia e já estou em casa. A médica me pediu repouso total por oito dias. Aproveito para ler tantos livros começados, para pensar e contemplar. Sair do hospital e voltar para Saquarema é como mergulhar numa outra dimensão. Não dá para descrever o tamanho da felicidade.
A editora Paulus me escreveu enviando as ilustrações do meu livro Três Velhinhas Tão Velhinhas feitas pela Andréia Resende. O livro é uma reedição e sairá em breve, ficou maravilhoso.
Hoje levantei tão cedo, ainda noite, ver o dia amanhecendo é um presente tão grande! Parece que abriram uma caixa de onde as cores escapam e assim vão escorrendo e eu vou junto, escorrendo junto com as cores.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

NOTÍCIAS DO JARDIM

Enquanto o mundo desaba e o Governo quer criar Bolsas Absurdas, mergulho em meu jardim. O dia completamente azul me transforma em cor, fabrica outra pele por cima da minha pele, me dá outra substância.. E as flores explodem de felicidade. Borboletas escrevem belos poemas no ar, as orquídeas desenham em meus olhos formas lindíssimas.
Fiz um pão para deixar a casa perfumada de alecrim. E ofereço para meus leitores hibiscos coloridos enquanto o mar fabrica música incessantemente para que eu mergulhe em seus intervalos.

HIBISCOS

Há flores que se comem
como se fossem frutas,
numa comunhão entre
os olhos, a boca e o jardim.
Hibiscos coloridos, caprichosos,
derramam no prato a sua beleza,
passageira como um relâmpago,
e ao morder um hibisco
nos transformamos em poesia.

in Abecedário (Poético) de Frutas, ed. Rovelle.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

INTOLERÂNCIA

Fico muito assustada com a intolerância que a cada dia aumenta no mundo inteiro em relação ao outro, ao diferente, a quem não é nosso espelho. Mas se sou uma centelha divina, se sou uma parte do universo, se sou poeira de estrelas, o outro sou eu também. Que cada um possa ser do jeito que é desde que não me agrida fisicamente, pois no campo das ideias podemos pensar de maneiras opostas e continuar convivendo.

Um poema para este dia azul:

FELICIDADES

Pequenas felicidades
passeiam por nossos dias
como joaninhas na palma
da mão,
como um desenho de orquídea
trazido pelo vento.
Para não desperdiçá-las
há que estar sempre atento,
caminhar vagarosamente
pelos contornos da tarde,
encher os bolsos com a areia
dourada do tempo.
 
in Poemas para Ler na Escola, ed. Objetiva

quarta-feira, 5 de junho de 2013

NATAL

Cheguei de Natal ontem à noite ainda com sua luz magnífica nos olhos. A minha fala sobre os cinco sentidos foi um lindo encontro com as 600 professoras. O Livro-Concerto do Guga Murray foi lindo com um coral de 600 vozes!
Reencontrei Roger Mello e mergulhamos juntos num mar de afetos, foi maravilhoso este encontro.Reencontrei José de Castro, lindo poeta. Foi tudo emocionante. E comi um inesquecível arroz de caranguejo com camarões empanados e salpicados de gergelim, que ninguém é de ferro!
E aqui estou, na minha mesa, neste dia azul, colocando a vida em dia, respondendo a tantas mensagens.

sábado, 1 de junho de 2013

IDENTIDADE

Ontem fazia uma noite fria. Chegamos cedo ao Teatro Mário Lago para assistir ao espetáculo Identidade, adaptação do meu livro Carteira de Identidade. Eu não sabia nada sobre a peça. Não vi nenhum ensaio, não fazia nenhuma ideia do que o Jorge Vale havia preparado.
Fiquei muito impactada. Para mim o livro é silencioso, os poemas são silenciosos. Mas Jorge Vale e sua trupe escolheram um caminho circense e a música, cheia de referências, permeia todo o espetáculo. Cada ator é a reprodução do outro, cada ator é um clown, já que a vida de certa maneira é um circo. Os poemas estão muito bem costurados no espetáculo e para mim a cena mais bonita é quando os atores se despem de suas fantasias, limpam os seus rostos de clown e então é como se tivessem chegado ao fundo do espelho e pudessem se reconhecer, pois o texto inteiro é uma busca. 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

PASSADO E FUTURO

Passado e futuro se encontram: Foi encontrado um mamute congelado mas seu sangue ainda estava líquido. Sou apaixonada pela pré-história, como a maioria das crianças e jovens e cientistas dizem que a partir do sangue podem clonar um mamute. Os cientistas não entendem como o sangue se manteve líquido  e talvez descubram , certamente farão estudos exaustivos. Um mamute vivo o que comerá? Uma floresta inteira? E como se sentirá solitário sem alguém da sua espécie para interagir... Mas se nós, humanos, não conseguimos nem preservar os elefantes, o que faremos com um mamute vivo?

quarta-feira, 29 de maio de 2013

PRESENTE DUPLO

Recebi um presente duplo: a poesia do Luciano Bonfim que vive em Sobral , no Ceará e a poesia de Rubens Cunha que vive em Santa Catarina. São belos os poemas dos dois poetas. São poemas fortes, às vezes,cortantes.
Luciano , com seu pequeno livro Aliterar Versos , fabrica haicais com algo de desconstrução, se fosse para fazer uma aproximação com a pintura, me lembraria Picasso:

5/15

 Andorinha: abnegada ave,
Corta céu / certeira
Verão vem vindo

7/21

Lascívia: l ' art-pour-l'art?
   Alma alcança ares?
Fortuita, fugitiva, fugaz?

Rubens me envia uma coleção de livros mínimos com títulos maravilhosos, eles se desdobram, cada um é um poema, e me diz ele que  vinham numa caixa, mas as caixas acabaram.

Escolho um. Paredes:
 sou homem de sementes falhas

porém com dedos faustos
capazes de corromper
-ou inaugurar -
alegrias
paredes
pernas

e as demais metáforas da carne

a vida líquida
se molda ao corpo

azul na memória
talvez futuro

o sol gaivota o tempo
em outro lugar

espero

escondo os poros nos porões

meu destino
é disfarçar
às escondiduras da casa

e do corpo

faz tempo que não abro as janelas

e as pernas

faz tempo que não enxergo

pedaços de pecado
cimentam as horas

desvelo o céu
do respeito

até sangrar-me
céu e vulva

a vida acometida em aliteração

promete o gozo baixo


terça-feira, 28 de maio de 2013

PLANTA CONGELADA

Ontem numa entrevista de 2009, num documentário , a bailarina Tatiana Leskova, na época com 86 anos e lindíssima, disse que enquanto tivesse garra e curiosidade para aprender coisas novas, não envelheceria.
Ontem , lendo o livro Jerusalém,a biografia , de Simon Sebag Montefiore, Cia das Letras, aprendi que a palavra paraíso e seu conceito vem da palavra persa pariadeza que quer dizer céu. E quando pronuncio paraíso não vejo o céu mas sim a palavra me passa a sensação de vivências maravilhosas, temperatura perfeita, perfumes inebriantes de flores e frutas, beleza em estado puro. Como uma palavra que veio do persa pode ficar grávida de tantas maravilhas ?

Hoje leio que no Ártico , com o recuo das geleiras, uma planta congelada adormecida debaixo do gelo, começou a brotar. Como se o tempo não existisse, os 400 anos de congelamento fossem nada, a vida voltou a pulsar.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

SEGUNDA-FEIRA

Por que os dias da semana falam de feira? Eu realmente não sei mas amava as feiras livres na minha infância.
Eunice, minha babá, me levava e ela conhecia todos os feirantes. A parada em cada barraca era obrigatória e enquanto ela conversava eu provava frutas, quebra queixo, doces variados. Eunice era linda, usava uns vestidos justíssimos de rabo de peixe e para todos ela dizia: essa é a minha filha branca. Por onde passava era uma sensação. Eu amava os cheiros e os pregões. Os pregões da minha infância estalavam no ar feito chicote . 

domingo, 26 de maio de 2013

LIVRARIA DA TRAVESSA

Ontem estive então na Livraria da Travessa no Leblon. Comprei o livro Jerusalém, uma biografia, de Simon SAebag Montefiore, Cia das Letras. Haja fôlego, o livro tem quase 800 páginas! mas parece muito interessante, a história de Jerusalém desde o seu começo com todos os povos que passaram por aí.
Revi duas amigas muito queridas ontem e foi maravilhoso estar com elas. Conheci um dos meus editores, o Francisco, figura linda.
E o motorista do táxi que me levou me perguntou como é que eu aconseguia morar em Saquarema onde não há nada, nem vida noturna, nem livraria, nem vida cultural, bom, é verdade, mas eu amo o silêncio daqui, o barulho do mar, estou cercada de livros, da minha mesa onde escrevo vejo as montanhas , o que mais posso querer? Adoro este quase isolamento, sempre gostei, desde muito jovem. A natureza me abraça, alimenta, acolhe.

sábado, 25 de maio de 2013

LANÇAMENTO


Ontem vi a entrevista da Stella Maris no Globonews literatura, foi linda!  Li um artigo magnífico do Umberto Ecco onde ele enfatiza os anos de paz que a Europa está vivendo depois de perder quarenta milhões de pessoas na II Guerra e a geração atual não se dá conta disso, há que preservar esta paz a qualquer custo.
Depois do almoço um táxi virá me buscar para o lançamento do meu novo livro na Livraria da Travessa do Leblon às 17hs. Quem Vê Cara Não Vê Coração , ed. Callis, Instituro Houaiss. É o meu primeiro livro pela Callis e fiquei muito feliz com o resultado. São lindas as ilustrações da Larissa Ribeiro e eu amei fazer os poemas dos ditados populares. Quem quiser me encontrar para trocarmos os corações que vá hoje até a Livraria da Travessa.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

TEAR

SONHO:
Se houvesse no mundo um tear para fazer um novo tecido social, nenhum ato de terrorismo ou crueldade seria possível, já que as pessoas estariam tão felizes criando, pintando, dançando, exercendo seus ofícios com uma tal quantidade de amor, que a morte só aconteceria naturalmente. Se os governos investissem nas áreas degradadas do mundo, deste tear sairia um novo mundo. Este é o meu sonho.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

QUEM VÊ CARA NÃO VÊ CORAÇÃO

Sábado é o lançamento do meu livro Quem vê cara não vê coração, ed. Callis, Instituto Houaiss. Na Livraria da Travessa do Leblon. O livro é uma delícia , recolhi vários ditados populares e transforei em poesia. Espero vocês!

QUEM VÊ CARA NÃO VÊ CORAÇÃO

O coração é como flor escondida
no mais escondido jardim do corpo
e navega num mar vermelho
de sangue e sentimentos:
a qualquer momento
ele diz amor.

É possível alcançá-lo
com os olhos,
uma simples palavra,
uma lágrima,
um abraço,
uma carícia.

Às vezes o coração
fecha
as suas portas,
mas com um sopro,
um suspiro,
um vento encantado,
elas se abrem
de par em par.

in Quem vê cara não vê coração, ed. Callis, Instituto Houaiss


quarta-feira, 22 de maio de 2013

FORA DO MUNDO

Fiquei tantos dias fora do mundo. Primeiro em Mauá e depois trabalhando em Resende. Chego em casa e o jornal aberto em cima da mesa só me mostra tragédias e tristezas. Pulo o jornal, escapo do mundo. Olho o mar, escuto ainda a voz do meu neto, ressoa em meus ouvidos. Ele me disse: _ Vovó, não quero que você vá embora porque eu gosto muito de você, gosto nove mil! Nunca havia recebido uma declaração de amor matemática.
Sábado é o lançamento do meu livro Quem Vê Cara Não Vê Coração , ed. Callis, Instituto Houaiss, na Livraria Travessa do Leblon. Espero alguns amigos para não me sentir sozinha! 

terça-feira, 21 de maio de 2013

CAFÉ DA MANHÃ

Hoje aqui em Resende, tenho um café da manhã com professores. Falar sobre leitura e formação de leitores já se tornou a minha vida. E ao voltar já começo a arrumar a mala para Natal, onde falarei sobre os cinco sentidos e alguns outros. Para 600 professores. Se no passado alguma bola de cristal me dissesse que eu falaria para tanta gente e o mais incrível: as pessoas gostariam, eu não acreditaria. A menina tímida que fui, sempre escondida atrás de um livro, dorme e sonha em alguma caverna dentro de mim.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

EM RESENDE

Passei dias esplêndidos em Mauá, dentro da mata. Filhos, irmã, cunhado, meu neto: a família. A família é a minha âncora, a raíz. Nos vemos pouco e estar com cada um e sua história é uma dádiva. Minha nora está grávida e é como se ela derramasse uma luz mágica sobre todos nós.
Hoje trabalho aqui em Resende e amanhã também. Apresento meus livros, converso com leitores, pais, professores.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

PRÊMIO

Comecei a escrever o livro Diário da Montanha porque ganhei um caderno lindo de folhas artesanais confeccionadas a partir de plantas, de flores. Estava na minha casinha em Mauá e logo a partir do segundo poema tive a idéia de fazer um diário com o que fosse acontecessendo cada dia, porque sempre alguma coisa está acontecendo. Não pensava em publicar , mas quando já estava com alguns poemas mostrei para a Bia Hetzel que amou e então decidimos fazer o livro e continuei a escrever até que um dia apareceu um arco-iris maravilhoso e quando fiz o poema soube que era o último. O livro nasceu com sorte. Fizemos a sua apresentação no ateliê da minha irmã Evelyn Kligerman com um violinista cigano e logo depois ele ganhou meia página no Prosa e Verso, depois entrou no Catálogo de Bolonha, depois ganhou um Altamente Recomendável da F.N.L.I.J e agora acaba de ganhar o Prêmio de Melhor de Poesia da Fundação. Bia me deu a notícia ontem e claro que acordei várias vezes com fome durante a noite, que é o que acontece comigo quando estou com felicidade sobrando.

Hoje passo o dia com as professoras de Saquarema e amanhã saio às 4:45h para Resende-Mauá. Um encontro com a minha casinha da montanha, com meus filhos e meu neto. Segunda e terça eu e Guga faremos uma participação no Colégio D.Bosco de Resende. Uma conversa com meus leitores e um espetáculo do Livro-Conceryo Caixinha de Música.

Estarei ausente alguns dias. Não se esqueçam de mim!

terça-feira, 14 de maio de 2013

CHEIROS&MEMÓRIA

Leio que o olfato é um dos sentidos mais importantes para a fixação da memória. E que um feto já sente cheiros  dentro da barriga da mãe. E que um bebê pode encontrar a sua mãe pelo cheiro na escuridão mais profunda.
Os cheiros da nossa infância são muito fortes e indeléveis, deixam uma marca profunda. Alguns cheiros durante as minha gestações também deixaram marcas, por exemplo, o cheiro de folhas secas queimadas na gravidez do meu segundo filho. Meu corpo inteiro rejeitava aquele cheiro, mas quando eu o sinto, vejo a chácara onde morava, parece que estou ali.
O cheiro dos filhos ao longo da vida. Uma vez fui visitar meu filho Guga em São Paulo, ele ainda não estava em casa, combinamos que ele deixaria a chave num determinado lugar. Eu entrei na casa e fui para o seu quarto. Ao sentir o seu cheiro no quarto desmontei. Tantos meses de saudade represada cairam sobre mim.
O cheiro do mato faz com que eu me sinta árvore, me sinta bicho, me sinta um pedaço do universo.
O cheiro da chuva: eu o sinto antes da chuva chegar.
O cheiro do mar, de algas, moluscos, peixes, me deixam louca de alegria.
Meu filho André , Chef de Cozinha, tem cheiro bom de comida.
O cheiro da água sanitária traz de volta uma amiga que tive no primário, na E.P.Francisco Manoel, no Grajaú. Ela se chamava Olga e era muito pobre, eu a amava  e suas mãos eram  vermelhas e  cheiravam a água sanitária pois lavava roupa para toda a família.
O cheiro de quem se ama nos desperta para a vida.
E que cada um traga para si cheiros e memórias.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

EUNICE

Eunice foi trabalhar na casa dos meus pais quando eu tinha três meses. Abriu mão da metade da sua vida pessoal para substituir a minha mãe que trabalhava o dia inteiro. Crescemos com a Eunice, foi ela quem nos criou e educou.Quando eu tinha medo durante a noite, ia para a sua cama. Ainda sinto o cheiro dos seus lençóis. Ela ficou comigo até a adolescência dos meus filhos quando se aposentou. Ela já foi embora, deve estar dançando no céu, pois o que mais amava na vida era dançar. Ela deixou dentro de mim sementes fortíssimas de negritude. Precisei conhecer um pedacinho da África, era um chamado. Fui até a Costa do Marfim. Eunice estudou até o quarto ano primário, escrevia e lia muito mal, mas tinha uma fonte inesgotável de humor e sabedoria. E de amor. Quando tive mononucleose aos 17 anos, ela me carregava no colo até o banho. Eunice representa toda uma geração que passou grande parte da vida dentro da casa dos patrões, vivendo esta segunda vida mais do que a sua própria. Neste dia de hoje o maior presente que podemos dar para a imensa população de negros e mestiços que enriqueceu e enriquece cada dia o nosso país, seria uma educação básica de extrema qualidade para compensar a geração da Eunice, a geração dos avós da Eunice, dos bisávós. A avó da Eunice era escrava. Passei muitos domingos na casa da sua mãe em Vila Rosali. Eu amava, cada filho tinha uma casa no terreno, eram tantas crianças para brincar comigo Quando conheci a África, pensei: a casa da mãe da Eunice, Dona Valentina, era África. Além de uma educação básica de qualidade para que possam, por exemplo, cursar medicina numa Universidade pública (o número de negros é ínfimo) a valorização do negro e do mestiço passa pela valorização dos professores com salário digno. Este seria , penso, um grande presente no dia de hoje, quando se rememora a Abolição.

domingo, 12 de maio de 2013

MARROCOS E MESOPOTÂMIA

Ontem vi um documentário maravilhoso sobre o Marrocos . E por coincidência mostravam a filmagem do filme O FÍSICO que lemos no Clube de Leitura. Havia uma cidadezinha de berberes nas margens do deserto absolutamente incrível como se a máquina do tempo nos jogasse para trás , digamos cinco mil anos atrás e isso me leva ao artigo sobre a Mesopotâmia que saiu ontem no jornal O Globo na página de História, sobre a primeira cidade do mundo. Eu já havia lido um livro magnífico sobre a primeira cidade e busco o livro inutilmente na minha estante : desapareceu. Ele falava da independência das mulheres naquela época, naquela cidade.Das torres incríveis, ali foi construída a Torre de Babel da Bíblia, ou pelo menos a sua história foi inspirada nas torres imensas da Mesopotâmia. As mulheres até podiam ter negócios, ter uma taberna! Havia uma carta de uma sacerdotisa pedindo à sua família que não a esquecesse e que lhe enviasse dinheiro, pois ela vivia no templo para rezar por todos. Fiquei louca para ler o livro outra vez mas não o encontro. Mas é muito emocionante saber que há cinco mil anos o homem inventou a primeira cidade e a escrita.

E hoje é Dia das Mães. Não conheço nenhum dia em que a mãe deixe de ser mãe, mas enfim, parece que hoje há que ser mais mãe ainda. Tenho muitas saudades da minha mãe e mesmo morando nas estrelas ela ainda é minha mãe..

sábado, 11 de maio de 2013

SOBRE O CÉU E A TERRA

Estou na metade do livro ENTRE O CÉU E A TERRA, um livro de conversas entre o Papa Francisco e o Rabino Skorka de Buenos Aires. O livro é lindo. Em nenhum momento o Rabino ou o Papa se mostram arrogantes ou superiores , nenhum deles se mostra dono da verdade. Conversam sobre tudo num diálogo amável que flui como um rio limpo e amoroso. É a primeira vez na história que um Papa dialoga com um Rabino e isso é emocionante e pode ajudar a fabricar a paz. Pois existem muitas fábricas de guerra, de ódio, de armas. Mas a única fábrica de paz existente é o diálogo, a arte, o amor.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

NOS ARES

O Diário da Montanha escapa das minhas mãos e semeia seus poemas. Alexandre Lemos, músico, fez lindas canções com o livro e quer gravar um CD.

Carteira de  Identidade, com suas linhas sinuosas que nos conduzem ao centro do ser, escapa das minhas mãos e vira teatro pelas mãos do Jorge Vale e sua Companhia Teatral de Saquarema.

Evelyn Kligerman fez meus haicais em cerâmica.

As crianças da E.M. Hermann Müller de Joinville transformaram minha poesia em flor, plantaram meus poemas no jardim da escola.

E assim os poemas saem da folha do livro ou da tela e se metamorfoseiam em outras artes. E assim meus poemas voam, já que não posso voar.  

quinta-feira, 9 de maio de 2013

TERÊ

A estadia em Teresópolis foi luminosa, apesar do frio intenso e do dia nublado na segunda-feira. O hotel do Sesc era um luxo, o carinho da Ana da Biblioteca era um casulo, e o encontro com a minha tia e minhas amigas Lucy e Rivka me encheram de mel. Amoçamos todas juntas num lugar esplêndido e comprei uma chaleira branca de ágata, bem da roça, para os chás do Juan. Passei o resto da tarde no hotel lendo o livro do Leminski do começo ao fim, como se lê um romance, fiquei possuída por sua poesia maravilhosa. Então já era noite e o Guga chegou. Saímos para comer e entramos num restaurante que parecia uma leiteria antiga. Foi maravilhoso estarmos os dois juntos, filho e mãe tecendo cumplicidades.
Nosso trabalho , manhã e tarde, num teatro lotado de crianças, foi maravilhoso.
Guga foi embora correndo pois tinha que dar aula à noite em Resende. Eu vi a exposição do Salgado Maranhão, belíssima, maravilhosa. Conheci a biblioteca. Ganhei uma braçada de flores do campo, como amo, delicadeza imensa da Ana. E fui dormir na casa da minha tia. Casa de tia é muito bom. Ontem fomos almoçar na casa da Rivka, novamente todas as amigas juntas, brindando e rindo: estamos vivas!
E cheguei às 18hs em casa, o mar ainda de ressaca e Juan e as gatas , cada um com seu jeito de abraçar.

domingo, 5 de maio de 2013

MARIANA

Hoje Mariana, minha leitora que pediu um presente especial para sua mãe quando fez aniversário em algum dia de não me lembro que ano, o presente era me conhecer, volta para São Paulo. Ela passou a semana aqui, depois de ter participado do Clube de Leitura. Mariana é em tudo especial e deixa a casa bem vazia. Ela é dançarina e tomara que consiga seguir o seu caminho. Não é nada fácil ser artista. A nossa produção , como a das aranhas que fabricam a teia com a saliva, tem que sair de dentro do corpo e da alma. Somos nosso próprio instrumento. A vida do artista está sujeita a variações de tempo.

Amanhã a seta me diz Teresópolis. Amo a montanha, então estarei em casa.

sábado, 4 de maio de 2013

AMOR

Já li tantas vezes que o amor como o conhecemos é uma invenção moderna. Não tenho nenhuma base científica para dizer o oposto, mas acho que o amor de um pelo outro sempre existiu no coração humano. Não acredito que seja uma invenção cultural. O desejo de estar junto, quando o outro é alimento para o corpo e a alma, acho que  sempre existiu, desde sempre.
Leio no jornal, no café da manhã, que encontraram os esqueletos de um homem e uma mulher enterrados de mãos dadas, com os rostos virados um para o outro durante a restauração de um convento dominicano em Cluj-Napoca. O jovem casal viveu entre os séculos XV e XVI.
Por que foram enterrados juntos ? Quem eram? O que faziam? Com que sonhavam?

sexta-feira, 3 de maio de 2013

QUEM VÊ CARA NÃ VÊ CORAÇÃO

Recebí meu livro novo Quem Vê Cara Não Vê Coração, uma parceria da ed. Callis e Instituto Houaiss.
Trabalho com ditados populares, eles viraram poemas alegres, divertidos, às vezes cheios de reflexões.Ficou maravilhoso com as ilustrações da Larissa Ribeiro e seu lançamento será na Livraria da Travessa dia 25 de maio às 17hs.

QUEM TUDO QUER TUDO PERDE

Quem tudo quer tudo perde
e entre tantos objetos perdidos
durante a vida,
pentes- colheres-amigos-caramelos,
fotos em preto e branco,
em amarelo,
quem tudo quer tudo perde,
mas também se pode achar
entre os canteiros do quintal
um raio de sol, um girassol
e atrás do horizonte se pode achar
sereias, caravelas e baleias.

Quem tudo quer tudo perde,
mas eu só quero amor.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

LÁ VEM O LUIS

Lá vem o Luis é um livro lindo que a ed. Leya publicou, que fiz para o meu neto, mas que serve para qualquer criança, basta trocar o nome. Em maio participarei da Feira de Livro na escola do meu neto e a surpresa: sua turma fará uma dramatização do livro. Meu neto tem 3 anos e meio e nunca pude imaginar uma surpresa assim. É como ganhar um arco-iris, uma orquestra de vaga-lumes .

Vou para Teresópolis dia 7 para duas apresentações no Sesc com meu filho Guga Murray. Voltar a Teresópolis é muito forte para mim. Desde que minha mãe morreu não voltei. Durante todo o tempo da sua doença eu ia para lá de duas em duas semanas. Minha mãe amava a cidade, a vista do seu quarto. Ainda tenho minha tia Alice, que é uma fortaleza, almoçaremos juntas.

Para descansar do livro árduo que é o Pós Guerra do Tony Judt, comprei um livro que é um relato da travessia de uma trilha selvagem por uma mulher sozinha nos Estados Unidos. A trilha inteira vai do México ao Canadá. Vamos juntas, já estamos quase no fim de cem dias de árdua caminhada pelo deserto, pela montanha, com sol abrasante, com neve. O livro se chama "Livre" de Cheryl Strayed e é uma história de cura. Tenho também muitas dores para curar e como meu corpo não permite uma travessia verdadeira, caminho junto com Cheryl. Assim é o poder dos livros.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

DIA DO TRABALHADOR

No Dia do Trabalhador um pensamento para todos os ofícios do mundo que fazem com que a fábrica do dia possa funcionar: Pão cedinho na padaria,  bonde, trem, ônibus em todas as estações e flores nos jardins. E roupa no armário e comida na prateleira e vacinas nos hospitais e telescópios para ver as estrelas, e pontes para atravessar as montanhas e livros para mergulhar, e poemas de amor para oferecer a quem a gente ama.