Estou no atelier da minha irmã Evelyn Kligerman em Visconde de Mauá, em Maringá Minas, para olhar a correspondência. Na minha casinha não tenho internet.
Bia Hetzel, quando esteve na casinha me perguntou: "que bichos você vê por aqui?" Na verdade não vejo muitas coisas. Vejo jacus, tucanos, muitos pássaros, eu tinha um lagarto teiú que era meu amigo, sei que existem jaguatiricas, muitos outros bichos, mas eu não vejo. Mas depois da passagem da Bia pela minha casa eu vi:
ontem ao entardecer, estava sentada na varanda quando no jardim abaixo vi um vulto grande num tronco de árvore com bromélias. O vulto pulou para o chão e era pesado. Então foi andando para o bosque com toda a calma do mundo . Era do tamanho de um cachorro, bem peludo, tinha um rabo enorme e peludo e um focinho alongado. Na verdade o corpo parecia de um pequeno urso. Meu filho me disse que eu tive o privilégio de ver uma raposa que aqui chamam de cachorro do mato. Sei que a raposa foi enviada pela Bia!
Fui convidada pelo Sesc para João Pessoa em agosto. De lá vou direto para para Goiás Velho. estou radiante.
E agora só voltarei a escrever em Saquarema dia 3 de julho. Até lá.
quinta-feira, 28 de junho de 2012
terça-feira, 26 de junho de 2012
LANÇAMENTO MÁGICO
O lançamento do meu livro Diário da Montanha foi totalmente mágico, fora da curva do tempo. Parecia uma irrealidade.
Bia Hetzel e Silvia Negreiros, minhas editoras, que construíram um livro belíssimo, eram os meus anjos da guarda. Evelyn Kligerman e Luis Mérigo, minha irmã e meu cunhado, esvaziaram a sala do atelier de cerâmica para que coubessem os músicos. Então era assim: do lado de fora do atelier havia um caminho de velas e um rio de luz. Algumas mesinhas com cadeiras no meio de belas esculturas. A noite estava fria. Na entrada do atelier ficava o bar com os vinhos e se passava para a sala. Minha tia Alice sentada numa mesa antiga com uma pilha de livros e uma caixinha colorida para o dinheiro, toda produzida e linda nos seus mais de 80 anos, estava totalmente compenetrada na sua função de vendedora. O coquetel preparado pelo Babel Restaurante era estonteante, sofisticado e maravilhoso.Meu filho André Murray e minha nora Dani Keiko trabalharam muito para que tudo saísse perfeito. Dino, um violinista cigano, era o meu sonho personificado. Quando pensei em música , pensei num violino. Ele tocava divinamente bem, um verdadeiro escândalo e tornava a atmosfera mágica, abria um portal para uma outra dimensão. As pessoas iam chegando, chegando, era um fluxo incessante e belo. Meus amigos do passado estavam quase todos aqui. Quando Dino tocou música cigana de repente estávamos dançando numa roda no meio da sala e ele emendou com música judaica e era tudo uma coisa só, afinal judeus e ciganos se abraçam. O Coral de Visconde de Mauá, sob a batuta da Márcia Patrocínio cantou uma música para mim.
Elisa Lucinda que viria e leria alguns poemas me telefonou desejando felicidade , não poderia vir. Juan não pode vir. Messias e Kátia, meus grandes amigos médicos vieram e tiveram que ir embora no domingo por causa de uma emergência. Hélio e Fernando viriam, mas Hélio teve uma pneumonia. Angela Carneiro quebrou o pé e não pode vir, mas garanto que todos os ausentes estavam presentes. E também meus antepassados, e meu tio violinista na longínqua Polonia num tempo longínquo. Numa penteadeira antiga, na sala, uma foto dos meus pais colada num espelho. Todos presentes.
Agora o livro Diário da Montanha já existe .
Bia Hetzel e Silvia Negreiros, minhas editoras, que construíram um livro belíssimo, eram os meus anjos da guarda. Evelyn Kligerman e Luis Mérigo, minha irmã e meu cunhado, esvaziaram a sala do atelier de cerâmica para que coubessem os músicos. Então era assim: do lado de fora do atelier havia um caminho de velas e um rio de luz. Algumas mesinhas com cadeiras no meio de belas esculturas. A noite estava fria. Na entrada do atelier ficava o bar com os vinhos e se passava para a sala. Minha tia Alice sentada numa mesa antiga com uma pilha de livros e uma caixinha colorida para o dinheiro, toda produzida e linda nos seus mais de 80 anos, estava totalmente compenetrada na sua função de vendedora. O coquetel preparado pelo Babel Restaurante era estonteante, sofisticado e maravilhoso.Meu filho André Murray e minha nora Dani Keiko trabalharam muito para que tudo saísse perfeito. Dino, um violinista cigano, era o meu sonho personificado. Quando pensei em música , pensei num violino. Ele tocava divinamente bem, um verdadeiro escândalo e tornava a atmosfera mágica, abria um portal para uma outra dimensão. As pessoas iam chegando, chegando, era um fluxo incessante e belo. Meus amigos do passado estavam quase todos aqui. Quando Dino tocou música cigana de repente estávamos dançando numa roda no meio da sala e ele emendou com música judaica e era tudo uma coisa só, afinal judeus e ciganos se abraçam. O Coral de Visconde de Mauá, sob a batuta da Márcia Patrocínio cantou uma música para mim.
Elisa Lucinda que viria e leria alguns poemas me telefonou desejando felicidade , não poderia vir. Juan não pode vir. Messias e Kátia, meus grandes amigos médicos vieram e tiveram que ir embora no domingo por causa de uma emergência. Hélio e Fernando viriam, mas Hélio teve uma pneumonia. Angela Carneiro quebrou o pé e não pode vir, mas garanto que todos os ausentes estavam presentes. E também meus antepassados, e meu tio violinista na longínqua Polonia num tempo longínquo. Numa penteadeira antiga, na sala, uma foto dos meus pais colada num espelho. Todos presentes.
Agora o livro Diário da Montanha já existe .
terça-feira, 19 de junho de 2012
DENTRO DA MALA
Amanhã cedo vou para Mauá. Levo dentro da mala muitos sentimentos. Um pouco de ansiedade: será que as pessoas irão ao meu lançamento? Tenho um terror infdantil de que não apareça ninguém! Levo uma saudade imensa do meu filho e minha nora, da minha irmã ,da minha casinha, da beleza estonteante da montanha.
Meus grandes amigos Messias e Kátia já chegarão na sexta-feira e levo também na mala o sabor antecipado do nosso encontro. Juan chegará domingo, na véspera do lançamento e levará nossos caseiros Samuel e Vanda. Já reservei uma pousada para eles. Pena que meu filho Guga com sua linda família só chegará em setembro de Granada, quase que a família fica completa. Escreverei no blog quando estiver no atelier da Evelyn, pois no sítio não tenho internet.
Ontem a Roda de Leitura com os jovens da E.E Oscar de Macedo foi maravilhosa. O espaço do CACS é lindo e os 20 jovens gostaram do meu conto, participaram, foi muito descontraído o nosso encontro. Ficou com gosto de quero mais.
Silvane da E.M.Herman Muller em Joinville me conta e me manda fotos, está no blog da escola, que uma avó foi até o colégio ensinar aos alunos a fazer pão de batata. Esta é uma linda idéia. Copiem!!!
Afinal o que fica da Rio+20? Está aberto o debate.
Meus grandes amigos Messias e Kátia já chegarão na sexta-feira e levo também na mala o sabor antecipado do nosso encontro. Juan chegará domingo, na véspera do lançamento e levará nossos caseiros Samuel e Vanda. Já reservei uma pousada para eles. Pena que meu filho Guga com sua linda família só chegará em setembro de Granada, quase que a família fica completa. Escreverei no blog quando estiver no atelier da Evelyn, pois no sítio não tenho internet.
Ontem a Roda de Leitura com os jovens da E.E Oscar de Macedo foi maravilhosa. O espaço do CACS é lindo e os 20 jovens gostaram do meu conto, participaram, foi muito descontraído o nosso encontro. Ficou com gosto de quero mais.
Silvane da E.M.Herman Muller em Joinville me conta e me manda fotos, está no blog da escola, que uma avó foi até o colégio ensinar aos alunos a fazer pão de batata. Esta é uma linda idéia. Copiem!!!
Afinal o que fica da Rio+20? Está aberto o debate.
segunda-feira, 18 de junho de 2012
LEITURA DE UM CONTO
Hoje no final da tarde terei um encontro com adolescentes no CACS em Saquarema para ler um conto do meu livro Território de Sonhos. Tomara que a sala fique bem cheia. Tomara que eles gostem! A Telma Cavalcanti , que dirige o Círculo Artístico Saquarema tem atuado em muitas frentes e seu sonho seria trazer uma bela Feira de Livros para a nossa cidade, já até conversamos com o Salgado Maranhão que ajuda a organizar a Feira de Teresina, mas não há verba, é um evento caro, sonho para o futuro.
Hoje recebí meu livro Diário da Montanha. Ficou lindíssimo e agradeço as minhas maravilhosas editoras Bia Hetzel e Silvia Negreiros por tanto carinho. Estou pronta para o lançamento no dia 25 em Visconde de Mauá.
Hoje recebí meu livro Diário da Montanha. Ficou lindíssimo e agradeço as minhas maravilhosas editoras Bia Hetzel e Silvia Negreiros por tanto carinho. Estou pronta para o lançamento no dia 25 em Visconde de Mauá.
domingo, 17 de junho de 2012
BEIJA-FLORES
Hoje saberemos o futuro da Grécia, o futuro da Europa. A situação é muito grave. Meu filho ainda está morando na Europa e me conta coisas terríveis. Todos estão com muito medo. Como antídoto, para não deprimir, busco a beleza. A beleza é de graça, basta saber olhar.
Beija-flores no jardim:
Beija-flores pendurados
nas flores
são coloridos
trapezistas
fazendo acrobacias
e distribuindo beijos.
No azul do dia
beija-flores
são beijos voadores.
in, Luna, Merlin e Outros Habitantes, ed. Miguilim
Beija-flores no jardim:
Beija-flores pendurados
nas flores
são coloridos
trapezistas
fazendo acrobacias
e distribuindo beijos.
No azul do dia
beija-flores
são beijos voadores.
in, Luna, Merlin e Outros Habitantes, ed. Miguilim
sábado, 16 de junho de 2012
ANJOS E HUMANOS
Adoro anjos. Li o livro Ângela e Antonio de Maria Helena Latini, ed. Nitpress, de rara beleza. Um anjo que cai na terra ou um louco que pensa que é anjo ou um ser etéreo e sensível? Antonio era um anjo ou pensava que era um anjo e tinha vagas lembranças de uma outra dimensão. Era jardineiro e músico, além de anjo. Caiu na terra por distração, por olhar demais para uma mulher, Ângela. A mulher o encontra vagando perdido pelas ruas e o recolhe. Eles se amam , mas há uma impossibilidade. Anjos e humanos não podem se amar. Não os seus corpos. Apenas suas almas. Numa prosa belíssima Antonio nos conta a sua história. Com poemas lindíssimos Ângela nos conta este encontro. Recomendo.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
POEMA VOADOR
Recebí o belo livro de poemas "haicaos" de Múcio Góes e Sandra Regina, ed. Limiar. O livro é um objeto precioso, cuidadíssimo e é bom ter algo tão bonito entre as mãos, capa e recheio.
Reproduzo um poema:
peguei um poema voador
peguei assim com a mão
como se o limite do voo
fosse o céu
como se o limite do céu
fosse o chão
Todos os poemas são pássaros e não sabemos onde irão pousar, aqui, ali, onde menos esperamos. São livres e não podemos controlar seu voo. Às vezes entram por debaixo da pele das pessoas e se misturam com seu sangue.
Reproduzo um poema:
peguei um poema voador
peguei assim com a mão
como se o limite do voo
fosse o céu
como se o limite do céu
fosse o chão
Todos os poemas são pássaros e não sabemos onde irão pousar, aqui, ali, onde menos esperamos. São livres e não podemos controlar seu voo. Às vezes entram por debaixo da pele das pessoas e se misturam com seu sangue.
quinta-feira, 14 de junho de 2012
EQUILÍBRIO
Maria José , minha sobrinha que veio de Granada, hoje vive o seu último dia completo em Saquarema. Amanhã volta para a Espanha. Estes dias conversamos muito sobre o equilíbrio que é preciso buscar numa hora tão difícil como a que a Espanha está vivendo, onde os espanhóis estão constantemente com a sensação de um terremoto debaixo dos pés. Estão todos com muita raiva, com muito mau humor, defendidos contra o outro como se estivessem em guerra. É preciso encontrat o ponto de equilíbrio entre tantas forças antagônicas, tantas correntes submarinas dentro do ser. Há que se ter otimismo, apesar da crise, há que acreditar na força da arte e que é possível viver de outra maneira, voltar a um tempo mais simples. Ela nos diz que sai de Saquarema mais forte. Maria José e seu marido possuem uma terra onde cultivam hortas orgânicas. Formaram uma associação e em breve poderão vender seus produtos. Ela toca contrabaixo numa banda de rock onde seu marido é vocalista. Há muitas fontes de alegria na vida de cada um e em momentos difíceis é preciso encontrá-las. Menos às vezes é mais.
quarta-feira, 13 de junho de 2012
CONSUMO
O nosso mundo, o que conhecemos, se apoia num pilar corroído que certamente se não for mudado fará o mundo desabar: o consumo. De nada adiantará a Rio+20 se não houver uma mudança de mentalidade.
Esta é a encruzilhada do planeta, esta a rua sem saída. Para o mundo funcionar há que consumir e então temos todo o desastre atual. Não cabem mais carros nas ruas, mas há que vender carros. Não cabem mais roupas nos armários, mas a a cada estação a moda nos diz o que vestir e há que trocar tudo. Lembro das festas de aniversário dos meus filhos quando eram pequenos, tão singelas. Hoje há um aparato imenso para as festas infantis. A cada minuto o desejo de ter, de consumir joga os seres humanos numa tristeza imensa ou numa falsa alegria que dura um tempo muito pequeno. E como mudar?
Há que fazer um esforço e resistir.Há que andar do outro lado da rua, na contramão. Há que saber diferenciar os desejos verdadeiros dos falsos desejos e este é um longo caminho. O que é verdadeiro não pode ser comprado: amor, amizade, compaixão.
Esta é a encruzilhada do planeta, esta a rua sem saída. Para o mundo funcionar há que consumir e então temos todo o desastre atual. Não cabem mais carros nas ruas, mas há que vender carros. Não cabem mais roupas nos armários, mas a a cada estação a moda nos diz o que vestir e há que trocar tudo. Lembro das festas de aniversário dos meus filhos quando eram pequenos, tão singelas. Hoje há um aparato imenso para as festas infantis. A cada minuto o desejo de ter, de consumir joga os seres humanos numa tristeza imensa ou numa falsa alegria que dura um tempo muito pequeno. E como mudar?
Há que fazer um esforço e resistir.Há que andar do outro lado da rua, na contramão. Há que saber diferenciar os desejos verdadeiros dos falsos desejos e este é um longo caminho. O que é verdadeiro não pode ser comprado: amor, amizade, compaixão.
terça-feira, 12 de junho de 2012
PARA O DIA DOS NAMORADOS
Para o Dia dos Namorados 3 poemas:
LAGO
No lago dos desejos
teu corpo flutua.
Entrelaço teu nome
no meu,
trança mágica
com que me alimento.
GEOGRAFIA
Faça do meu corpo
o teu mapa,
teu continente perdido,
Atlântida de mistérios,
tua ilha nunca antes habitada.
Faça do meu corpo
teu porto e teu pequeno barco.
Faça do meu corpo tua carta,
tua secreta caligrafia,
tua estrela cadente.
CAMINHO
Teus olhos traçam uma estrada
de pedras enluaradas.
Aí caminho com os bolsos
cheios de música,
as mãos cheias de pássaros.
Em cada curva fabrico um sonho
e semeio dança.
in No Cais do Primeiro Amor, ed. Larousse com azulejos de cerâmica de Evelyn Kligerman.
LAGO
No lago dos desejos
teu corpo flutua.
Entrelaço teu nome
no meu,
trança mágica
com que me alimento.
GEOGRAFIA
Faça do meu corpo
o teu mapa,
teu continente perdido,
Atlântida de mistérios,
tua ilha nunca antes habitada.
Faça do meu corpo
teu porto e teu pequeno barco.
Faça do meu corpo tua carta,
tua secreta caligrafia,
tua estrela cadente.
CAMINHO
Teus olhos traçam uma estrada
de pedras enluaradas.
Aí caminho com os bolsos
cheios de música,
as mãos cheias de pássaros.
Em cada curva fabrico um sonho
e semeio dança.
in No Cais do Primeiro Amor, ed. Larousse com azulejos de cerâmica de Evelyn Kligerman.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
MOINHO DO MUNDO
Segunda-feira: gira o moinho do mundo , nem a morte nem a vida escolhem os dias. Gira o moinho do mundo, tritura ossos e sentimentos e faz correr a seiva , a vida, a delicadeza. Todos os dias o amor.
Hoje acendemos o fogão de lenha, fogo com espuma do mar. Maria José, minha sobrinha andaluza, faz o almoço, uma comida da infância do Juan, para que se lembre. Seus pais eram professores na Espanha franquista, durante a guerra civil e se passava muita fome. Eram então as comidas, cada uma, celebrações.
Cada dia alguém me diz: vou poder ir ao seu lançamento em Visconde de Mauá. Ou vou tentar. Fico muito emocionada. Minha casinha na montanha me espera. Eu a ouço pulsar dentro da noite, quando me deito.
Hoje acendemos o fogão de lenha, fogo com espuma do mar. Maria José, minha sobrinha andaluza, faz o almoço, uma comida da infância do Juan, para que se lembre. Seus pais eram professores na Espanha franquista, durante a guerra civil e se passava muita fome. Eram então as comidas, cada uma, celebrações.
Cada dia alguém me diz: vou poder ir ao seu lançamento em Visconde de Mauá. Ou vou tentar. Fico muito emocionada. Minha casinha na montanha me espera. Eu a ouço pulsar dentro da noite, quando me deito.
domingo, 10 de junho de 2012
CHUVA E SOL
A chuva apaga da memória
todos os dias de sol,
apaga as cores, e em minhas mãos
nascem rios de melancolia.
No fundo do armário um guarda-chuva
espera paciente por esta tarde,
ele me leva, antigo e desbotado,
por um mundo quase submerso.
No final da rua um arco-íris me espera...
in Poemas para Ler na Escola, ed. Objetiva
O azul já começa a rasgar uns pedaços de nuvem e o sol aparece e desaparece. Choveu muito aqui em Saquarema. Três dias seguidos. Mas agora já nos inunda uma outra luz. Não está descartada ainda a possibilidade de um arco-íris no final da rua, que no meu caso, se seguirmos em frente, é no horizonte.
todos os dias de sol,
apaga as cores, e em minhas mãos
nascem rios de melancolia.
No fundo do armário um guarda-chuva
espera paciente por esta tarde,
ele me leva, antigo e desbotado,
por um mundo quase submerso.
No final da rua um arco-íris me espera...
in Poemas para Ler na Escola, ed. Objetiva
O azul já começa a rasgar uns pedaços de nuvem e o sol aparece e desaparece. Choveu muito aqui em Saquarema. Três dias seguidos. Mas agora já nos inunda uma outra luz. Não está descartada ainda a possibilidade de um arco-íris no final da rua, que no meu caso, se seguirmos em frente, é no horizonte.
sábado, 9 de junho de 2012
DEPOIMENTO
Gil, nossa leitora do Clube de Leitura da Casa Amarela, ontem passou aqui em casa para buscar a travessa onde trouxe uma mousse de amendoim em nosso último encontro. E quando já estávamos no portão me disse que agora lê sem parar, que a leitura abriu uma grande janela em sua vida, que ela enxerga tudo diferente e que até está com vontade de escrever poesia. Gil não era uma leitora. Em muito pouco tempo os livros já ocupam um espaço em sua vida. Acho que foi um dos depoimentos mais belos que já me deram de presente. Comecei a trabalhar com formação de leitores em 1990 com o Sesc e em 1994 fui trabalhar com o Proler até 1997 e aprendí muito. Li muito também sobre o tema da formação dos leitores e segui sempre a minha intuição. Frequentei algumas Rodas de Leitura no CCBB organizadas pela Suzana Vargas e aprendi muito com ela.
Uma vez a Suzana me convidou para fazer uma Roda de Leitura no CCBB para crianças. Eu teria que escrever um conto inédito e escreví Babel, Um Conto de Natal, que está no meu livro Pequenos Contos de Leves Assombros, ed. FTD. Foi uma experiência absolutamente impactante: eu tinha uma platéia cheia de crianças , umas 300 ou 500, não sei, e todas as que sabiam ler acompanhavam o conto em silêncio absoluto com a sua cópia na mão! No final faziam fila no palco para contar suas experiências com os seus bichinhos. Ouvi muitas histórias tristes e ali os pequenos leitores encontraram um espaço para desabafar, porque a literatura te permite isso: liberar as emoções.
Uma vez a Suzana me convidou para fazer uma Roda de Leitura no CCBB para crianças. Eu teria que escrever um conto inédito e escreví Babel, Um Conto de Natal, que está no meu livro Pequenos Contos de Leves Assombros, ed. FTD. Foi uma experiência absolutamente impactante: eu tinha uma platéia cheia de crianças , umas 300 ou 500, não sei, e todas as que sabiam ler acompanhavam o conto em silêncio absoluto com a sua cópia na mão! No final faziam fila no palco para contar suas experiências com os seus bichinhos. Ouvi muitas histórias tristes e ali os pequenos leitores encontraram um espaço para desabafar, porque a literatura te permite isso: liberar as emoções.
sexta-feira, 8 de junho de 2012
QUE LIVRO ABALOU O SEU MUNDO?
Tenho entre as mãos um livro muito interessante que se chama 10 LIVROS QUE ABALARAM MEU MUNDO, ed. Casa da Palavra e 10 autores falam do "seu" livro.
Muito cedo, quando era criança, um livro abalou o meu mundo. Eu teria uns 8 ou 9 anos e era uma aventura. Não me lembro o seu nome nem o autor, mas com este livro descobri que também podia ser um menino, pois o personagem principal era um menino, na pré-história, de 12 anos. A sua tribo havia ido embora para outro lugar, fugindo do inverno. Seu pai havia adoecido gravemente e sua mãe não quis abandoná-lo. Ficaram sozinhos os quatro, pois havia um irmão menor. O pai morreu um pouquinho antes da chegada do inverno e a tribo já estaria muito longe, mas a mãe resolveu correr o rico e partir. O menino agora teria que ajudar a proteger a sua família. Eles passam por muitas e muitas aventuras perigosíssias e no final do livro conseguem encontrar a tribo. Eu ERA o menino. Eu estive lá na pré-história. Morei lá, claro, eu era o menino. Era uma emoção tão violenta descobrir isso, bastava entrar num livro e já estava morando em outro lugar!!! Então logo depois passei a viver no Sítio do Pica-Pau Amarelo . Vivi no Sítio até a adolescência.
Muito cedo, quando era criança, um livro abalou o meu mundo. Eu teria uns 8 ou 9 anos e era uma aventura. Não me lembro o seu nome nem o autor, mas com este livro descobri que também podia ser um menino, pois o personagem principal era um menino, na pré-história, de 12 anos. A sua tribo havia ido embora para outro lugar, fugindo do inverno. Seu pai havia adoecido gravemente e sua mãe não quis abandoná-lo. Ficaram sozinhos os quatro, pois havia um irmão menor. O pai morreu um pouquinho antes da chegada do inverno e a tribo já estaria muito longe, mas a mãe resolveu correr o rico e partir. O menino agora teria que ajudar a proteger a sua família. Eles passam por muitas e muitas aventuras perigosíssias e no final do livro conseguem encontrar a tribo. Eu ERA o menino. Eu estive lá na pré-história. Morei lá, claro, eu era o menino. Era uma emoção tão violenta descobrir isso, bastava entrar num livro e já estava morando em outro lugar!!! Então logo depois passei a viver no Sítio do Pica-Pau Amarelo . Vivi no Sítio até a adolescência.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
MÚSICA
Hoje acordei com vontade de dançar. Ouço música e danço sozinha e a alegria invade cada recanto do corpo. Todos sairam e estou só na casa . Minha mãe dançava sozinha até quando a doença a derrubou e já não podia mais. Até quase noventa anos. Dançar nos liberta do peso terrestre, é uma maneira de voar.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
ALMA
ALMA
Onde mora a alma,
em que esconderijo
dentro de mim?
Fugidía como peixe
em águas profundas,
às vezes num espelho
um lampejo, um brilho
ou uma sombra...
Seria a alma o pergaminho
onde o corpo escreve
seus poemas?
in Carteira de Identidade
Penso no conto do Machado, o do Alferes, que quando tira o uniforme não consegue ver mais a sua imagem no espelho. E no conto do Guimarães, que depois de anos e anos de treino um homem consegue ver a sua alma no espelho, um lampejo...
O que somos então?
Onde mora a alma,
em que esconderijo
dentro de mim?
Fugidía como peixe
em águas profundas,
às vezes num espelho
um lampejo, um brilho
ou uma sombra...
Seria a alma o pergaminho
onde o corpo escreve
seus poemas?
in Carteira de Identidade
Penso no conto do Machado, o do Alferes, que quando tira o uniforme não consegue ver mais a sua imagem no espelho. E no conto do Guimarães, que depois de anos e anos de treino um homem consegue ver a sua alma no espelho, um lampejo...
O que somos então?
terça-feira, 5 de junho de 2012
LUNA
Minha gata Luna está envelhecendo com uma velocidade assustadora. Está muito magra, já perdeu dois dentes, a agilidade, e quando a tenho nos braços meu coração quase quebra. Sinto que não a teremos por muito tempo. Ela fez todos os exames possíveis e é envelhecimento mesmo. Ela se isola, parece deprimida. Num dia distante, num ano distante, Juan me trouxe a Luna de presente, uma bolinha de pelo. Vivíamos num apartamento no Rio Comprido com a nossa outra gata, Babel e o cachorro do Juan que veio da Espanha, o Rex. Luna se apaixonou pelo Rex perdidamente. Foi uma linda história de amor. Está no livro Luna. Merlin e Outros Habitantes, ed. Miguilim (o livro ainda existe). Quando a tenho nos meus braços parece um passarinho, tão frágil e meu coração quase quebra.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
NOTÍCIAS (TRISTES) DA ESPANHA
Minha sobrinha Maria José chegou ontem da Espanha com toda a sua alegria e vivacidade. Mas trouxe em sua bagagem muitas notícias tristes : sabemos que a Espanha está numa situação terrível, que muita gente perdeu suas casas, perdeu o trabalho, já muita gente vive de caridade. Mas , ela nos diz, existem pequenas coisas que ensombreiam o cotidiano. Sua filha fazia aula de teatro no teatro da municipalidade e era grátis. Agora há que pagar 150 euros para usar o teatro.Estão começando a privatizar a saúde. Fecharam a biblioteca do seu pueblo. Para ela vir ao Brasil teve que fazer um cartão de crédito, pois tinha medo de vir sem dinheiro e sem cartão. Pois bem, o banco a obrigou a comprar umas panelas (obrigatório para ter o cartão) e para isso lhe abriam uma conta. E disseram: não se espante se aparecer dinheiro nesta conta, mas não pode usar a conta, é para as panelas. E ela tem que depositar 25 euros durante seis meses nesta conta. Agora ela tem 3.000 euros na conta mas não é seu dinheiro, ela não sabe como o dinheiro foi parar aí.. Que loucura é essa ? O banco utiliza laranjas para lavar dinheiro!!! O pior para a Europa é que não há perspectiva nenhuma de melhorar a situação e eles estão perdendo o que conquistaram com tanto esforço, a situação de bem estar, saúde, educação de qualidade, seguro desemprego, etc. Nós, do terceiro mundo, que nunca tivemos isso, não podemos avaliar o que seria perder isso. E a paz da Europa, tão duramente costurada, o que acontecerá?
Mas há que ser otimista e pensar que a Europa se reinventará, com toda a sua arte e beleza, não poderá afundar.
Mas há que ser otimista e pensar que a Europa se reinventará, com toda a sua arte e beleza, não poderá afundar.
domingo, 3 de junho de 2012
ABRAÇO
ABRAÇO
Entrelaçar os braços,
misturar com as tuas
as minhas linhas da mão,
ouvir a música ardente
dos teus anseios,
encostar nossas almas,
nossos olhos, costurar
nossas esperanças,
com o mesmo fio
dividir os sonhos.
in Rios da Alegria, ed. Moderna
Com este poema inauguro o dia, que será de espera, enquanto escrevo, minha sobrinha Maria José voa de Madrid para Saquarema num chão de nuvens, com este poema abraço todos os amigos. Hoje a neblina cobre o mar, apaga os contornos. Farei pão e um creme de abóbora com gorgonzola para a sua chegada. Leio vários livros ao mesmo tempo, com temas tão diferentes e como um beija-flor vou de um para outro. Juan me convida: _"Vamos almoçar no Marisco?" um restaurante bem popular na Vila de Saquarema, e eu agradeço, só a caminhada até a vila já é uma maravilha. E assim la nave va, a vida, feita de tantas esperas, chegadas, partidas, abraços.
Entrelaçar os braços,
misturar com as tuas
as minhas linhas da mão,
ouvir a música ardente
dos teus anseios,
encostar nossas almas,
nossos olhos, costurar
nossas esperanças,
com o mesmo fio
dividir os sonhos.
in Rios da Alegria, ed. Moderna
Com este poema inauguro o dia, que será de espera, enquanto escrevo, minha sobrinha Maria José voa de Madrid para Saquarema num chão de nuvens, com este poema abraço todos os amigos. Hoje a neblina cobre o mar, apaga os contornos. Farei pão e um creme de abóbora com gorgonzola para a sua chegada. Leio vários livros ao mesmo tempo, com temas tão diferentes e como um beija-flor vou de um para outro. Juan me convida: _"Vamos almoçar no Marisco?" um restaurante bem popular na Vila de Saquarema, e eu agradeço, só a caminhada até a vila já é uma maravilha. E assim la nave va, a vida, feita de tantas esperas, chegadas, partidas, abraços.
sábado, 2 de junho de 2012
TITABRUJA
Minha sobrinha Maria José chega amanhã de Granada . estaremos juntas por 12 dias. Maria José me chama de Titabruja e eu adoro. Ela diz que não tem nenhuma dúvida de que sou bruxa e que cozinho muitas coisas no meu caldeirão de poesia. Vou colocar o título no meu curriculum que já tem o de hemerocallis e cidadã honorária de Saquarema.
Mas agora queria mesmo era o título de Avó Honorária, desde que o Sr. Aleksander Laks nos contou no encontro do Clube de Leitura que que era avô honorário de alguma instituição , já não me lembro qual. Fiquei desejando o título como se deseja um pedaço da lua, uma comida estranha, um arco-íris.
Mas agora queria mesmo era o título de Avó Honorária, desde que o Sr. Aleksander Laks nos contou no encontro do Clube de Leitura que que era avô honorário de alguma instituição , já não me lembro qual. Fiquei desejando o título como se deseja um pedaço da lua, uma comida estranha, um arco-íris.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
O MAR
Da varanda do nosso estúdio mergulho os olhos no mar cinza chumbo, violento . Mergulho os olhos como gaivotas e pouco a pouco mergulho inteira, meu corpo se desmancha, vira onda, vira espuma.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
JARAGUÁ DO SUL E FACEBOOK
Voltei. Levei para Jaraguá do Sul uma bagagem de frio. Acho que fiquei com a imagem, a lembrança do frio que passei ano passado em São Bento. Mas... fazia trinta e cinco graus! não olhei na internet e fui rumo a um frio que não existiu.
O encontro com quase 500 crianças foi maravilhoso, crianças leitoras! Atentas, confortáveis, à vontade, participaram de todos os poemas, de todas as brincadeiras.E fazia muito calor, mas era uma energia tão linda que ninguém ligava.
Silvane, minha amiga querida, diretora da E.M.Hermann Muller de Joinville foi ao meu encontro com a Silvia, sua irmã e Kelly, professora da escola. Sempre cheia de novidades maravilhosas!
Conheci o Ovídio, que foi o mediador do encontro, ele organiza a Off-Flip em Paraty e é uma linda pessoa, filósofo e escritor. Reencontrei Carlos Shroeder que foi quem me levou e conheci o João, figura doce e calma, que me buscava e levava para lá e para cá.
Depois do encontro, já no hotel, exausta, me sentei com o Ovídio no saguão envidraçado, numa mesa redonda com uma vista magnífica para um prado, um rio. E de repente lá estava uma bela capivara comendo a grama com seus olhos ternos e um pelo convidativo, fiquei louca para passar a mão! Tranquila, nos olhava sem medo nenhum e fez jorrar dentro de mim rios de alegria.
Fui expulsa do meu facebook, dizem, por motivos de segurança. Devo mesmo ter cara de terrorista, pois apito nos aeroportos, fico presa na porta do banco, etc. Talvez seja porque mulheres poetas são perigosas.
Tento reconhecer as fotos que eles colocam para que eu possa ser readmitida e me sinto desconfortável como num vestibular: erro muitas e não sou readmitida. Quem sabe um dia volto...
O encontro com quase 500 crianças foi maravilhoso, crianças leitoras! Atentas, confortáveis, à vontade, participaram de todos os poemas, de todas as brincadeiras.E fazia muito calor, mas era uma energia tão linda que ninguém ligava.
Silvane, minha amiga querida, diretora da E.M.Hermann Muller de Joinville foi ao meu encontro com a Silvia, sua irmã e Kelly, professora da escola. Sempre cheia de novidades maravilhosas!
Conheci o Ovídio, que foi o mediador do encontro, ele organiza a Off-Flip em Paraty e é uma linda pessoa, filósofo e escritor. Reencontrei Carlos Shroeder que foi quem me levou e conheci o João, figura doce e calma, que me buscava e levava para lá e para cá.
Depois do encontro, já no hotel, exausta, me sentei com o Ovídio no saguão envidraçado, numa mesa redonda com uma vista magnífica para um prado, um rio. E de repente lá estava uma bela capivara comendo a grama com seus olhos ternos e um pelo convidativo, fiquei louca para passar a mão! Tranquila, nos olhava sem medo nenhum e fez jorrar dentro de mim rios de alegria.
Fui expulsa do meu facebook, dizem, por motivos de segurança. Devo mesmo ter cara de terrorista, pois apito nos aeroportos, fico presa na porta do banco, etc. Talvez seja porque mulheres poetas são perigosas.
Tento reconhecer as fotos que eles colocam para que eu possa ser readmitida e me sinto desconfortável como num vestibular: erro muitas e não sou readmitida. Quem sabe um dia volto...
segunda-feira, 28 de maio de 2012
JARAGUÁ DO SUL
Hoje estou indo para Jaraguá do Sul. Estou radiante pois vou encontrar a minha amiga Silvane, diretora da E.M Hermann Muller de Joinville. Moramos tão longe uma da outra , mas a vida vai fazendo com que nos encontremos sempre. A sua escola é um projeto tão magnífico que quarta-feira ela irá ao Rio gravar uma entrevista para o Canal Futura. Em Jaraguá vou falar de poesia, leitores, da vida.Deve estar muito frio na serra de Santa Catarina!
Ontem vi um dos filmes mais belos da minha vida, presente da Angela para o Clube de Leitura. O filme foi sorteado durante o almoço e Samuel, meu caseiro, ganhou o filme e me emprestou.
TARDES COM MARGUERITTE de Jean Becker, com Gérard Depardieu e Gisèle Casadesus é uma obra prima desde o primeiro segundo até o último. Uma obra prima de delicadeza, amor, esperança no ser humano. E para quem ama literatura é absolutamente imperdível. Recomendo com todas as minhas fibras, músculos, alma e sangue. Além disso a senhora é igualzinha a minha mãe na sua maneira de se vestir e de andar. Minha mãe era modista e o que é a poesia para mim, eram os tecidos para ela, as cores, as formas, as linhas. Terminei de ler um livro belo: El Tiempo entre Costuras, de Maria Dueñas, a história de uma modista na II Guerra e o livro também trouxe minha mãe de volta e o momento feliz em que, criança, eu a acompanhava até as lojas de tecidos.
Maria Clara, leitora do nosso Clube, me manda um poema que escreveu a partir do livro A Trégua, do Primo Levi. É belo:
Todo judeu vivo
Um judeu não anda nu
Maria Clara
Acho que não terei tempo de escrever lá em Jaraguá. Até quinta!
Ontem vi um dos filmes mais belos da minha vida, presente da Angela para o Clube de Leitura. O filme foi sorteado durante o almoço e Samuel, meu caseiro, ganhou o filme e me emprestou.
TARDES COM MARGUERITTE de Jean Becker, com Gérard Depardieu e Gisèle Casadesus é uma obra prima desde o primeiro segundo até o último. Uma obra prima de delicadeza, amor, esperança no ser humano. E para quem ama literatura é absolutamente imperdível. Recomendo com todas as minhas fibras, músculos, alma e sangue. Além disso a senhora é igualzinha a minha mãe na sua maneira de se vestir e de andar. Minha mãe era modista e o que é a poesia para mim, eram os tecidos para ela, as cores, as formas, as linhas. Terminei de ler um livro belo: El Tiempo entre Costuras, de Maria Dueñas, a história de uma modista na II Guerra e o livro também trouxe minha mãe de volta e o momento feliz em que, criança, eu a acompanhava até as lojas de tecidos.
Maria Clara, leitora do nosso Clube, me manda um poema que escreveu a partir do livro A Trégua, do Primo Levi. É belo:
O judeu errante
reza à sorte de ter sobrevivido
a um campo de concentração.
Essa alegria triste os perfilia.
Alvo ambulante,
setas em sua direção apontam:
ali vai um judeu errante pela Terra,
carregado de estrelas.
Entre o solidéu e o solilóquio,
fia as tranças.
- a não ser para a morte.
E se preparam tanto,
são tantas guerras pretextadas,
e bombas pelo interior dos templos implodindo,
que penso nos meninos:
Se lhe dessem por um par de horas o globo,
marcavam um amistoso e jogavam bola.
E as meninas,:
Lhe dessem glebas, de manhã cedinho,
desarmavam a chave da luz elétrica,
arrancavam cercas,
e iam brincar na casa da vizinha.
E no conserto de um desenho novo
no deserto de chão arenoso
(se há jardins milagrosos que por lá vingaram...)
poderiam afinal encontrar-se
sobre a terra dos túmulos de comuns ancestrais.
Todo judeu sobre a Terra erra
ou sonha com liberdade.
-
Pra quando
o final da guerra?
Maria Clara
domingo, 27 de maio de 2012
ENCONTRO DO CLUBE DE LEITURA DA CASA AMARELA
TEAR:
Com fios de pensamento
se tece o mundo
se costuram pedaços
rasgados de vida,
nesse tear estranho
que só o homem possui:
tear de sonhos.
in Residência no Ar, ed. Paulus, Roseana Murray, aquarelas Evelyn Kligerman
Nós, crianças, rogamos-Lhe,
nosso Deus, criador do mundo:
conceda-nos uma vida delicada e pura
e cultive em nós a bondade.
Epígrafe do livro O Sobrevivente, Memórias de um brasileiro que escapou de Auschwitz, Ed.Record
Ontem o encontro do nosso Clube de Leitura da Casa Amarela para discutir o livro A TRÉGUA do Primo Levi foi diferente de tudo o que eu havia imaginado. Praticamente não pudemos discutir o livro, mal conseguimos nos aproximar dele, pois Angela, uma das leitoras do Clube trouxe como testemunha o Sr.Aleksander Henryk Laks com seu livro O Sobrevivente. A realidade explodiu a ficção. Aleksander foi prisioneiro de Auschwitz, escapou, veio para o Brasil, se naturalizou brasileiro e vive para contar. Ao contrário do que se poderia imaginar, é um homem alegre, cheio de vida, emotivo, sorridente e nos conquistou a todos, além do seu humor judaico. Em várias ocasiões ele desmentiu o Primo Levi, pois A Trégua é um livro filtrado, literatura e realmente não nos importa o que ali é verdade ou não, nos importa como o livro está escrito.
O Sr. Aleksander nos contou. Respondeu a muitas, muitas perguntas. Nos falou da fome, imensa, indescritível, algo com que ninguém que não tenha sido prisioneiro de Campo, vivido a guerra pode imaginar. O Sr. Aleksander nos contou. E foi muito impactante ouvir. estávamos todos na beira do abismo da emoção, quase todos com um nó na garganta. Hector, novo membro do Clube, trouxe um artigo sobre o antissemitismo hoje no mundo, previu uma nova Hecatombe, um futuro Holocausto e nos falou da sua descrença em tudo. Mas a epígrafe do livro (já comecei a ler, estou na metade e é muito forte e muito bem escrito) do livro O Sobrevivente nos fala da bondade e não da maldade. No livro A Trégua , encontramos dentro das relações humanas, que é a base do livro, a bondade espalhada como fina poeira luminosa dentro do horror. No livro A Escritura e a Vida, Jorge Semprún nos fala da bondade quando um homem, prisioneiro alemão comunista , troca a sua profissão de estudante de filosofia pela de estucador: provavelmente ali sua vida foi salva. Não acredito em nenhuma repetição do passado. Acredito que um dia o mundo descobrirá a paz e a bondade será a partitura do mundo. A presença luminosa do Sr. Aleksander que depois de ter passado cinco anos comendo 200 calorias por dia, ficou vivo para contar, para que o passado não se repita, nos deixou a todos completamente emocionados. E esperançosos.
Francisco leu um poema que escreveu a partir da Trégua. Felipe estava felicíssimo de namorada nova, apaixonado e nos leu, maravilhosamente Pasárgada, do Bandeira, para que cada um construa a sua Pasárgada possível. Maria Clara também leu um novo poema. Juan perguntou ao Sr. Aleksander sobre a história do Padre Kolbe, que morreu em Auschwitz no lugar de um homem e o Sr. Aleksander disse que isso seria totalmente impossível, que ele não acreditava.
Durante o almoço Angela tocou violão e todos cantamos a música "Para não dizer que não falei de flores" , do Vandré, todos cantamos juntos. O Sr. Aleksander se apaixonou pelo meu pão e só queria comer o pão! Tomou proseco, riu, se divertiu, nos seduziu. Minhas duas pastas, a de beringela e de gorgonzola fizeram sucesso.
Messias, nosso médico e amigo-irmão, foi nosso grande ausente, pois às nove horas da manhã me telefonou dizendo que não poderia vir, estava com febre . Eu havia feito um bolo de aniversário para ele, mas cantamos parabéns e ele ouviu pelo telefone.
Fernando e Hélio , emocionadíssimos, nos disseram da oportunidade única de conhecer um sobrevivente de um Campo de Concentração. Dentro de muito pouco tempo , já não haverá mais nenhum sobrevivente vivo para contar com a sua própria voz.
Póximo encontro dia 21 de julho. Livros: O Amante, Marguerite Duras e o conto Os Mortos, do James Joyce. Um poema do Drummond, cada um escolha o seu.
Com fios de pensamento
se tece o mundo
se costuram pedaços
rasgados de vida,
nesse tear estranho
que só o homem possui:
tear de sonhos.
in Residência no Ar, ed. Paulus, Roseana Murray, aquarelas Evelyn Kligerman
Nós, crianças, rogamos-Lhe,
nosso Deus, criador do mundo:
conceda-nos uma vida delicada e pura
e cultive em nós a bondade.
Epígrafe do livro O Sobrevivente, Memórias de um brasileiro que escapou de Auschwitz, Ed.Record
Ontem o encontro do nosso Clube de Leitura da Casa Amarela para discutir o livro A TRÉGUA do Primo Levi foi diferente de tudo o que eu havia imaginado. Praticamente não pudemos discutir o livro, mal conseguimos nos aproximar dele, pois Angela, uma das leitoras do Clube trouxe como testemunha o Sr.Aleksander Henryk Laks com seu livro O Sobrevivente. A realidade explodiu a ficção. Aleksander foi prisioneiro de Auschwitz, escapou, veio para o Brasil, se naturalizou brasileiro e vive para contar. Ao contrário do que se poderia imaginar, é um homem alegre, cheio de vida, emotivo, sorridente e nos conquistou a todos, além do seu humor judaico. Em várias ocasiões ele desmentiu o Primo Levi, pois A Trégua é um livro filtrado, literatura e realmente não nos importa o que ali é verdade ou não, nos importa como o livro está escrito.
O Sr. Aleksander nos contou. Respondeu a muitas, muitas perguntas. Nos falou da fome, imensa, indescritível, algo com que ninguém que não tenha sido prisioneiro de Campo, vivido a guerra pode imaginar. O Sr. Aleksander nos contou. E foi muito impactante ouvir. estávamos todos na beira do abismo da emoção, quase todos com um nó na garganta. Hector, novo membro do Clube, trouxe um artigo sobre o antissemitismo hoje no mundo, previu uma nova Hecatombe, um futuro Holocausto e nos falou da sua descrença em tudo. Mas a epígrafe do livro (já comecei a ler, estou na metade e é muito forte e muito bem escrito) do livro O Sobrevivente nos fala da bondade e não da maldade. No livro A Trégua , encontramos dentro das relações humanas, que é a base do livro, a bondade espalhada como fina poeira luminosa dentro do horror. No livro A Escritura e a Vida, Jorge Semprún nos fala da bondade quando um homem, prisioneiro alemão comunista , troca a sua profissão de estudante de filosofia pela de estucador: provavelmente ali sua vida foi salva. Não acredito em nenhuma repetição do passado. Acredito que um dia o mundo descobrirá a paz e a bondade será a partitura do mundo. A presença luminosa do Sr. Aleksander que depois de ter passado cinco anos comendo 200 calorias por dia, ficou vivo para contar, para que o passado não se repita, nos deixou a todos completamente emocionados. E esperançosos.
Francisco leu um poema que escreveu a partir da Trégua. Felipe estava felicíssimo de namorada nova, apaixonado e nos leu, maravilhosamente Pasárgada, do Bandeira, para que cada um construa a sua Pasárgada possível. Maria Clara também leu um novo poema. Juan perguntou ao Sr. Aleksander sobre a história do Padre Kolbe, que morreu em Auschwitz no lugar de um homem e o Sr. Aleksander disse que isso seria totalmente impossível, que ele não acreditava.
Durante o almoço Angela tocou violão e todos cantamos a música "Para não dizer que não falei de flores" , do Vandré, todos cantamos juntos. O Sr. Aleksander se apaixonou pelo meu pão e só queria comer o pão! Tomou proseco, riu, se divertiu, nos seduziu. Minhas duas pastas, a de beringela e de gorgonzola fizeram sucesso.
Messias, nosso médico e amigo-irmão, foi nosso grande ausente, pois às nove horas da manhã me telefonou dizendo que não poderia vir, estava com febre . Eu havia feito um bolo de aniversário para ele, mas cantamos parabéns e ele ouviu pelo telefone.
Fernando e Hélio , emocionadíssimos, nos disseram da oportunidade única de conhecer um sobrevivente de um Campo de Concentração. Dentro de muito pouco tempo , já não haverá mais nenhum sobrevivente vivo para contar com a sua própria voz.
Póximo encontro dia 21 de julho. Livros: O Amante, Marguerite Duras e o conto Os Mortos, do James Joyce. Um poema do Drummond, cada um escolha o seu.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Lembranças
Enquanto faço a lista do que tenho que comprar para o almoço de amanhã do Clube de Leitura da Casa Amarela, agora que já voltei para a minha alimentação frugal de frutas, peixes e verduras, relembro as comidas maravilhosas que comi em Veneza.
Na primeira noite, a noite em que chegamos , comemos uma salada caprese e um risoto de frutos do mar , inesquecível.
Em Murano comi uma pasta com lula e sua tinta. No Al Conte Pescaor comemos flores de abóbora recheadas com algumas delicadezas da lagoa.
Pasta negra com verduras. Pasta a la Carbonara. Pasta com isso e aquilo. Pedaços de pizza na rua. Frutos do mar fritos. Lazanha com creme de flores da abóbora.
Fora os vinhos, as sobremesas fantásticas, os pães com azeite. Todos estes aromas passeiam por minha memória junto com os belos ruídos de veneza.
Então amanhã tenho que caprichar na cozinha, e já começo hoje, pois em nossa mesa da varanda teremos os leitores da Casa Amarela e todos eles são muito especiais.
Na primeira noite, a noite em que chegamos , comemos uma salada caprese e um risoto de frutos do mar , inesquecível.
Em Murano comi uma pasta com lula e sua tinta. No Al Conte Pescaor comemos flores de abóbora recheadas com algumas delicadezas da lagoa.
Pasta negra com verduras. Pasta a la Carbonara. Pasta com isso e aquilo. Pedaços de pizza na rua. Frutos do mar fritos. Lazanha com creme de flores da abóbora.
Fora os vinhos, as sobremesas fantásticas, os pães com azeite. Todos estes aromas passeiam por minha memória junto com os belos ruídos de veneza.
Então amanhã tenho que caprichar na cozinha, e já começo hoje, pois em nossa mesa da varanda teremos os leitores da Casa Amarela e todos eles são muito especiais.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
DIÁRIO DA MONTANHA EM VISCONDE DE MAUÁ
Estou preparando o lançamento do Diário da Montanha com muito esmero. Ontem contratei os músicos: Bernardino Guterres Lopes, violino e Gustavo Gama, violão. Eles foram indicadíssimos pelo Henrique, grande conhecedor, dono da Pousada Terra da Luz . O livro sai a qualquer hora da gráfica. O atelier de cerâmica da Evelyn e do Luis, que finalmente está completamente pronto com forno a gás e tudo, será um pouco modificado para a festa, e ficará com a lareira acesa. Estará muito frio no dia 25 de junho. Nos aqueceremos com o fogo e o calor dos corpos e das vozes (do vinho tinto também) .Este lançamento para mim é mais do que o lançamento de um livro: é uma celebração.
Celebro muitas coisas, antes de tudo, estar viva. Celebro a vida. Celebro a memória da minha mãe e dos meus antepassados que estão no livro. Celebro a confiança da Bia Hetzel e Silvia Negreiro, minhas editoras da Manati que abraçaram o livro e acreditaram na sua força quando ainda era um caderno com poemas escrito a mão. Celebro a amizade , o amor do Juan, todos os amigos , presentes, ausentes, longe, perto, eles são a minha âncora. Visconde de Mauá foi onde nasceu a minha poesia. Ela se alimentou das suas águas e matas. Aí escrevi meus primeiros poemas. E celebro a minha casinha minúscula, escondida dentro da floresta onde me encontro com o mais secreto de mim, idéia do meu filho André Murray e da minha nora Dani Keiko, de reformar uma casinha de caseiro em ruínas , até transformá-la num conto de fadas.
Todos estão convidados.
Celebro muitas coisas, antes de tudo, estar viva. Celebro a vida. Celebro a memória da minha mãe e dos meus antepassados que estão no livro. Celebro a confiança da Bia Hetzel e Silvia Negreiro, minhas editoras da Manati que abraçaram o livro e acreditaram na sua força quando ainda era um caderno com poemas escrito a mão. Celebro a amizade , o amor do Juan, todos os amigos , presentes, ausentes, longe, perto, eles são a minha âncora. Visconde de Mauá foi onde nasceu a minha poesia. Ela se alimentou das suas águas e matas. Aí escrevi meus primeiros poemas. E celebro a minha casinha minúscula, escondida dentro da floresta onde me encontro com o mais secreto de mim, idéia do meu filho André Murray e da minha nora Dani Keiko, de reformar uma casinha de caseiro em ruínas , até transformá-la num conto de fadas.
Todos estão convidados.
quarta-feira, 23 de maio de 2012
CASAS
Recebo mais uma edição do meu livro CASAS que sai como pão do forno.A editora diz que é a quarta tiragem da nona edição e eu não sei o que quer dizer isso. Só sei que os poemas do livro viajam por todo o Brasil. Hoje mesmo uma escola me escreve contando que os alunos fizeram uns decalques maravilhosos sobre um dos poemas do livro. É um livro muito antigo e sei direitinho como aconteceu dentro de mim. Foi em 1994. Eu estava me separando e teria que mudar de casa. Pensei então em todos os tipos de casa, fiz uma lista, casa de amigo, de avó, casa mal-assombrada, etc.E comecei a fabricar os poemas. E um dos poemas era como um recado que eu me mandava:
MUDANÇA
Mudar de casa
é coisa
muito complicada,
porque uma casa
não cabe
em outra casa:
sempre fica faltando,
sempre fica sobrando.
O caminhão de mudanças,
bicho cruel,
engole mesas, cadeiras, lembranças,
e lá se vai mundo abaixo.
Na casa nova o caminhão
despeja
mesas, cadeiras, lembranças,
e a casa vai criando asas,
criando vida,
já se pode forrar o teto
de sonhos.
E em quantas casas morei depois do livro pronto! Em cada uma forrei tetos e paredes de sonhos.
MUDANÇA
Mudar de casa
é coisa
muito complicada,
porque uma casa
não cabe
em outra casa:
sempre fica faltando,
sempre fica sobrando.
O caminhão de mudanças,
bicho cruel,
engole mesas, cadeiras, lembranças,
e lá se vai mundo abaixo.
Na casa nova o caminhão
despeja
mesas, cadeiras, lembranças,
e a casa vai criando asas,
criando vida,
já se pode forrar o teto
de sonhos.
E em quantas casas morei depois do livro pronto! Em cada uma forrei tetos e paredes de sonhos.
terça-feira, 22 de maio de 2012
EM CASA
Chegamos ontem à noite em casa e a viagem Madrid - Saquarema cansa muito. Cheguei exausta. Nana , nossa gata, dava pulos de felicidade e Luna, a persa, ficou de mal comigo (ainda está de mal, como ousei abandoná-la?)
Toneladas de correspondências atrasadas, contratos, notas fiscais, papeladas que durante horas me soterraram, mas da minha janela vejo as montanhas, as gaivotas voando e o silêncio da casa, atravessado pelo mar, é restaurador.
Hoje tive uma das grandes emoções da minha vida: André, meu filho Chef de cozinha, gravou um programa para a TV Rio Sul para o Dia das Mães e só vi hoje. É tão bonito que eu não sabia o que fazer com a minha felicidade. O vídeo está no meu site em Poemas Animados.
E já começo a preparar o menú para o almoço de sábado do nosso Clube de Leitura da Casa Amarela. Farei duas pastas , pois Primo Levi, nosso autor, era italiano e eu acabo de voltar de Veneza. Aliás, dois quilos e meio mais gorda por tudo o que comi! Mas valeu a pena.
Toneladas de correspondências atrasadas, contratos, notas fiscais, papeladas que durante horas me soterraram, mas da minha janela vejo as montanhas, as gaivotas voando e o silêncio da casa, atravessado pelo mar, é restaurador.
Hoje tive uma das grandes emoções da minha vida: André, meu filho Chef de cozinha, gravou um programa para a TV Rio Sul para o Dia das Mães e só vi hoje. É tão bonito que eu não sabia o que fazer com a minha felicidade. O vídeo está no meu site em Poemas Animados.
E já começo a preparar o menú para o almoço de sábado do nosso Clube de Leitura da Casa Amarela. Farei duas pastas , pois Primo Levi, nosso autor, era italiano e eu acabo de voltar de Veneza. Aliás, dois quilos e meio mais gorda por tudo o que comi! Mas valeu a pena.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
DORSODURO
Ao virar uma esquina depois da Accademia, os turistas desaparecm e começo Dorsoduro, um bairro belíssimo, cheio de pontes e praças e muita vida sem os grupos imensos atravancando o caminho. Vimos uma feira de peixes e frutas e legumes ao ar livre numa praça e as gaivotas faziam uma festa com o resto de peixe que os peixeiros lhes davam.
Comemos numa cantina linda, a AnticaLocanda Montin. Comida inesquecível. Juan diz que se lembra da cena de um filme gravado aí, mas não se lembra do filme.
Há que guardar todo este cenário dentro da retina para levar, enrolado debaixo da pele, como uma tapeçaria.
Comemos numa cantina linda, a AnticaLocanda Montin. Comida inesquecível. Juan diz que se lembra da cena de um filme gravado aí, mas não se lembra do filme.
Há que guardar todo este cenário dentro da retina para levar, enrolado debaixo da pele, como uma tapeçaria.
GIUDECCA
Ontem passamos boa parte do dia na Giudecca, que deve ter sido o lugar onde os judeus moravam na Idade Média antes de serem transferidos para o Gueto. A vista de Veneza da Giudecca é magnífica e o bairro sem os palácios e toda a riqueza que existe no outro lado, é lindo. Aí existe uma vida verdadeira, com venezianos morando, comprando em suas peixarias tão belamente arrumadas que os peixes parecem jóias. Prevalece o tijolo vermelho e seus jardins estavam todos floridos, é primavera.
No final da tarde fomos para a Praça São Marcos, vimos cair a última gota de luz no canal e os grupos que os navios despejam todos os dias na praça como se tivessem aberto um formigueiro já haviam partido. A praça era de quem dorme em Veneza. As gôndolas cobertas , sombras na água escura, faziam música com seu movimento. Caminhávamos já com uma certa nostalgia, avaros de nossas últimas horas, pois amanhã muito cedo partimos para Madrid.
No final da tarde fomos para a Praça São Marcos, vimos cair a última gota de luz no canal e os grupos que os navios despejam todos os dias na praça como se tivessem aberto um formigueiro já haviam partido. A praça era de quem dorme em Veneza. As gôndolas cobertas , sombras na água escura, faziam música com seu movimento. Caminhávamos já com uma certa nostalgia, avaros de nossas últimas horas, pois amanhã muito cedo partimos para Madrid.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
ENCONTRO NUM CAFÉ
Ontem choveu muito de manhã e a temperatura caiu muito também. Quando a chuva parou lá pelas 13hs fomos para a rua mas o vento era cortante, o frio intenso, então andávamos um pouco e logo entrávamos num café para nos aquecer.
Entramos num café superlotado perto da Accademia. Encontramos uma mesa espremidinha e nos sentamos. Depois da operação tira casaco e cachecol comentei com o Juan: _Nossa, o Café está cheíssimo! Um garçom que passava por nossa mesa, sem parar, disse, andando: _É sempre assim.
Era uma correria de garçons para lá e para cá. Não era ele quem nos servia, mas cada vez que passava pela nossa mesa dizia uma frase em português. Sabendo que ele estava desesperado para falar, nós o chamamos quando passava para fechar a nossa conta. Ele trouxe a conta e perguntou: _ De onde são vocês? E ele tinha três minutos para nos contar que era de Natal, que não aguentava de tanta saudade do Brasil e que não estava feliz.Nos desejou uma boa estadia. Queríamos perguntar por que então estava em Veneza, como veio parar aqui, qual era a sua história, mas ele já havia desaparecido, correndo com uma bandeja, para lá e para cá.
À noite jantamos num restaurante magnífico, "Il Giglio". Ao lado da nossa mesa um casal de franceses falava baixinho com a jarra de vinho já terminando. Foram embora e dois senhores americanos se sentaram. Falavam alto, quase gritavam, como dizem os italianos, sem nenhuma elegância. Um deles pediu uma sopa de peixe e veio um prato maravilhoso, com lagosta, camarões, mariscos levemente mergulhados num caldo que se adivinhava saborisíssimo. O americano olhou para a sua sopa com repugnância e chamou o garçom aos berros. Disse que aquilo não era uma sopa. O garçom disse que sentia muito mas que naquele restaurante aquilo era uma sopa de peixe. O americano ia tirando todas aquelas maravilhas e colocando num prato ao lado. Só tomou o caldo. Sem nenhuma elegância!!!
Hoje vamos para a Giudecca, o dia está belíssimo, no céu nenhuma nuvem, vamos deslizar por aí.
Entramos num café superlotado perto da Accademia. Encontramos uma mesa espremidinha e nos sentamos. Depois da operação tira casaco e cachecol comentei com o Juan: _Nossa, o Café está cheíssimo! Um garçom que passava por nossa mesa, sem parar, disse, andando: _É sempre assim.
Era uma correria de garçons para lá e para cá. Não era ele quem nos servia, mas cada vez que passava pela nossa mesa dizia uma frase em português. Sabendo que ele estava desesperado para falar, nós o chamamos quando passava para fechar a nossa conta. Ele trouxe a conta e perguntou: _ De onde são vocês? E ele tinha três minutos para nos contar que era de Natal, que não aguentava de tanta saudade do Brasil e que não estava feliz.Nos desejou uma boa estadia. Queríamos perguntar por que então estava em Veneza, como veio parar aqui, qual era a sua história, mas ele já havia desaparecido, correndo com uma bandeja, para lá e para cá.
À noite jantamos num restaurante magnífico, "Il Giglio". Ao lado da nossa mesa um casal de franceses falava baixinho com a jarra de vinho já terminando. Foram embora e dois senhores americanos se sentaram. Falavam alto, quase gritavam, como dizem os italianos, sem nenhuma elegância. Um deles pediu uma sopa de peixe e veio um prato maravilhoso, com lagosta, camarões, mariscos levemente mergulhados num caldo que se adivinhava saborisíssimo. O americano olhou para a sua sopa com repugnância e chamou o garçom aos berros. Disse que aquilo não era uma sopa. O garçom disse que sentia muito mas que naquele restaurante aquilo era uma sopa de peixe. O americano ia tirando todas aquelas maravilhas e colocando num prato ao lado. Só tomou o caldo. Sem nenhuma elegância!!!
Hoje vamos para a Giudecca, o dia está belíssimo, no céu nenhuma nuvem, vamos deslizar por aí.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
FONDAMENTE NUOVE
Hoje os gondoleiros não podem trabalhar. Chove e faz muito frio.
Ontem passamos boa parte do dia em Fondamente Nuove, um bairro lindíssimo de Veneza onde chegam poucos turistas, onde não há lojas, pouquíssimos restaurantes, uma Veneza menos teatral, mais verdadeira. Aí viveu Casanova. Um gondoleiro nos mostrou o seu palácio e nos disse que até hoje se conserva a sua cama, para onde levava as suas amantes. Hoje o palácio pertence a um conde.
É um bairro muito antigo , medieval, mas foi reconstruído no século XVIII, pois havia sido devastado por um temporal. A beleza das suas praças e ruelas, dos canais , dá vontade de chorar. Há um silêncio que vai se desdobrando como um leque. Fomos caminhando desde São Marcos até lá e como num passe de mágica, ao virar uma rua, a multidão desapareceu e já começava Fundamente Nuove. Desembocamos numa pequena praça "Campiello Widman", com um restaurante precioso, algumas mesas lindas na calçada. Reservamos um lugar e fomos descobrir o bairro. Vimos um mercadinho de peixe que era a coisa mais linda, como o peixeiro arrumou a sua mercadoria na calçada, entremeando os peixes e crustáceos com frutas e flores! O sentido da beleza na Itália é primordial, é como o ar que se respira.
Passeamos pelos inúmeros canais, vimos praças maravilhosas.
Joseph Brodsky, o grande poeta russo, Prêmio Nobel, num inverno longínquo, também almoçou em Fundamente Nuove:
" Eu havia acabado de almoçar em alguma pequena trattoria, na parte mais afastada das Fondamente Nuove, peixe grelhado e meia garrafa de vinho..."
Na hora marcada voltamos para o restaurante Ostaria Boccadoro. Na verdade estávamos quase sozinhos, havia apenas um casal jovem com um menino de 5 anos. Era o dono do restaurante quem servia. Ele nos indicou um vinho maravilhoso, Ronchedone Cá Dei Fratti, uma vinícola do Vêneto que funciona desde 1782.
Pedimos uma pasta negra com algumas delicadezas da lagoa, era indescritível e uma travessa de frutos do mar fritos, verdadeira maravilha, vinham levemente empanados, até os mariscos e caranguejos inteiros e macios.
Conversamos com o casal sobre a crise e os italianos estão menos deprimidos e mais otimistas do que os espanhóis, conversamos com o dono do restaurante sobre a política italiana e ele nos falou do alívio por não estar mais o Berlusconi, principalmente disse ele, por sua "falta de elegância" que para os italianos é um pecado capital.
Fizemos o caminho de volta flutuando, quase como se estivéssemos num tapete voador.
Ontem passamos boa parte do dia em Fondamente Nuove, um bairro lindíssimo de Veneza onde chegam poucos turistas, onde não há lojas, pouquíssimos restaurantes, uma Veneza menos teatral, mais verdadeira. Aí viveu Casanova. Um gondoleiro nos mostrou o seu palácio e nos disse que até hoje se conserva a sua cama, para onde levava as suas amantes. Hoje o palácio pertence a um conde.
É um bairro muito antigo , medieval, mas foi reconstruído no século XVIII, pois havia sido devastado por um temporal. A beleza das suas praças e ruelas, dos canais , dá vontade de chorar. Há um silêncio que vai se desdobrando como um leque. Fomos caminhando desde São Marcos até lá e como num passe de mágica, ao virar uma rua, a multidão desapareceu e já começava Fundamente Nuove. Desembocamos numa pequena praça "Campiello Widman", com um restaurante precioso, algumas mesas lindas na calçada. Reservamos um lugar e fomos descobrir o bairro. Vimos um mercadinho de peixe que era a coisa mais linda, como o peixeiro arrumou a sua mercadoria na calçada, entremeando os peixes e crustáceos com frutas e flores! O sentido da beleza na Itália é primordial, é como o ar que se respira.
Passeamos pelos inúmeros canais, vimos praças maravilhosas.
Joseph Brodsky, o grande poeta russo, Prêmio Nobel, num inverno longínquo, também almoçou em Fundamente Nuove:
" Eu havia acabado de almoçar em alguma pequena trattoria, na parte mais afastada das Fondamente Nuove, peixe grelhado e meia garrafa de vinho..."
Na hora marcada voltamos para o restaurante Ostaria Boccadoro. Na verdade estávamos quase sozinhos, havia apenas um casal jovem com um menino de 5 anos. Era o dono do restaurante quem servia. Ele nos indicou um vinho maravilhoso, Ronchedone Cá Dei Fratti, uma vinícola do Vêneto que funciona desde 1782.
Pedimos uma pasta negra com algumas delicadezas da lagoa, era indescritível e uma travessa de frutos do mar fritos, verdadeira maravilha, vinham levemente empanados, até os mariscos e caranguejos inteiros e macios.
Conversamos com o casal sobre a crise e os italianos estão menos deprimidos e mais otimistas do que os espanhóis, conversamos com o dono do restaurante sobre a política italiana e ele nos falou do alívio por não estar mais o Berlusconi, principalmente disse ele, por sua "falta de elegância" que para os italianos é um pecado capital.
Fizemos o caminho de volta flutuando, quase como se estivéssemos num tapete voador.
terça-feira, 15 de maio de 2012
AS MÁQUINAS DE LEONARDO
Ontem saímos pela manhã em direção a Rialto, mas por dentro. A vista de cima da ponte é o cartão postal mais conhecido de Veneza. Continuamos por dentro em direção a Ferrovia. Chegamos no Campo San Polo e nos sentamos num banco cheio de velhinhas venezianas. Na praça se contava os turistas nos dedos, éramos pouquíssimos, a praça era das crianças, dos velhos e dos cachorros. Uma delícia ouvir as velhinhas conversando e gesticulando . Um africano veio oferecer algumas coisas para as velhinhas tão bem vestidas e elas se recusaram a comprar. O africano pediu ajuda e elas responderam : _"Filho, estamos todos na mesma situação. A crise é de todos". Enquanto caminhamos por estas maravilhosas ruas e pontes a Europa afunda numa crise assustadora e sem precedentes. Aliás, sim, houve uma crise parecida e todos conhecemos o seu desfecho. A Europa , com todas as suas maravilhas e tesouros, terá que encontrar uma saída.
Entramos na Igreja de San Paolo, cuja fundação data do século IX. Tintoreto e Tiepolo com suas cores sombrias me deprimem um pouco, me lembram a intolerância da Igreja, não sei porque, já que as pinturas são uma verdadeira maravilha.
Saímos e logo, ao virar uma esquina caimos numa outra praça e na Igreja havia uma exposição das máquinas do Leonardo Da Vinci. Que maravilha!!! Para cada desenho de uma das máquinas, fabricaram a máquina tal e qual com a cópia do manuscrito ao lado. E Leonardo inventou a asa delta, a bicicleta, o helicóptero, gruas, máquinas de guerra , barcos, a idéia da escada rolante... Era impactante demais a exposição.
Paramos num restaurante enoteca na beira de um pequeno canal e comemos uma salada com uma taça de vinho. Eram apenas três mesinhas na rua e um jarro de flores em cada uma .
À noite fomos jantar num restaurante indicado no livro 1000 Dias em Veneza, "Al Conte Pescaor", ao lado da Praça San Marco. É uma cantina simples de comida maravilhosa. E quando voltamos já Veneza quase dormia, as gôndolas cobertas , apenas sombras oscilando na água.
Entramos na Igreja de San Paolo, cuja fundação data do século IX. Tintoreto e Tiepolo com suas cores sombrias me deprimem um pouco, me lembram a intolerância da Igreja, não sei porque, já que as pinturas são uma verdadeira maravilha.
Saímos e logo, ao virar uma esquina caimos numa outra praça e na Igreja havia uma exposição das máquinas do Leonardo Da Vinci. Que maravilha!!! Para cada desenho de uma das máquinas, fabricaram a máquina tal e qual com a cópia do manuscrito ao lado. E Leonardo inventou a asa delta, a bicicleta, o helicóptero, gruas, máquinas de guerra , barcos, a idéia da escada rolante... Era impactante demais a exposição.
Paramos num restaurante enoteca na beira de um pequeno canal e comemos uma salada com uma taça de vinho. Eram apenas três mesinhas na rua e um jarro de flores em cada uma .
À noite fomos jantar num restaurante indicado no livro 1000 Dias em Veneza, "Al Conte Pescaor", ao lado da Praça San Marco. É uma cantina simples de comida maravilhosa. E quando voltamos já Veneza quase dormia, as gôndolas cobertas , apenas sombras oscilando na água.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
OS AFRICANOS E AS BOLSAS
Nosso hotel fica entre a Praça São Marcos e a Academia. Indo e voltando, de um lugar para o outro, encontramos os africanos vendendo bolsas falsificadas, a qualquer hora do dia e da noite. A noite aqui termina cedo, às 23hs já está tudo fechado. De pé o dia inteiro, faça chuva ou faça sol, lá estão os africanos como belas estátuas de ônix e são tão delicados quando oferecem as suas bolsas. Eu compraria todas para que pudessem voltar para casa felizes. Para que pudessem voltar para a África.
Ontem vimos a bela exposição do Gustav Klimt no Museu Correr que é um palácio deslumbrante. Depois vimos uma exposição de instrumentos musicais antigos, o mais novo tinha 300 anos, violinos, alaúdes, violas da gamba, oboés, cravos e outros instrumentos estranhos , adormecidos em belas vitrines dentro de uma igreja. Certamente suspiravam por seus músicos que hoje, tanto tempo depois, habitam as estrelas.
E andamos dentro do frio, para lá e para cá, andamos e andamos, subimos escadas, descemos escadas até terminar a noite dançando na Praça São Marcos.
Ontem vimos a bela exposição do Gustav Klimt no Museu Correr que é um palácio deslumbrante. Depois vimos uma exposição de instrumentos musicais antigos, o mais novo tinha 300 anos, violinos, alaúdes, violas da gamba, oboés, cravos e outros instrumentos estranhos , adormecidos em belas vitrines dentro de uma igreja. Certamente suspiravam por seus músicos que hoje, tanto tempo depois, habitam as estrelas.
E andamos dentro do frio, para lá e para cá, andamos e andamos, subimos escadas, descemos escadas até terminar a noite dançando na Praça São Marcos.
domingo, 13 de maio de 2012
TORCELLO
Ontem mudamos o programa na última hora e fomos a Torcello, o que deveríamos ter feito junto com a visita a Burano, mas como estávamos exaustos não fomos. E Juan queria que eu conhecesse a imperdível Catedral de Torcello que data de 639. Sendo assim, encaramos a longa viagem, a troca de barcos, para chegar a Torcello.
A ilha é uma pequena jóia de beleza e paz. Pisar o chão de uma Catedral de 1.500 anos , pousar os olhos em seus maravilhosos afrescos vale qualquer viagem. Leio que Torcello foi a primeira ilha habitada de Veneza e realmente ai encontramos muitos restos romanos:
"Possuia já habitações desde os séculos V / VII. Torcello serviu de refúgio para os cidadãos da cidade de Altino pelo motivo das invasões dos unos e dos longobardos. O nome da ilha provavelmente deriva de TURRICELLUM (a torrezinha erigida em lembrança àquela da cidade perdida de origem). Em 638 o bispo de Altino tranferiu para Torcello algumas sagradas relíquias e por este motivo a sua história continuou a existir até a queda da República. Teve governo autônomo, com Podestade e Consiglio,corpo coletivo superior; ali existia a indústria da lã.
Após um passeio entre os silenciosos canais principais, unidos pela conhecida Ponte del Diavolo (Ponte do Diabo), em meio aos canaviais e casas tipicamente vênetas, se chega ao coração da ilha, a sua pequena praça."
Ontem anunciavam uma tempestade para as 23hs. Fizemos as contas e dava tempo de jantar ao ar livre na Academmia, na beira do canal, com Chianti e luz de velas. Chegamos junto com as últimas luzes do entardecer e aqui cometo o pecado da gula todos os dias. Não há lugar mais belo para pecar. Por enquanto ainda estou cabendo nas minhas roupas.
A tempestade caiu pontualmente, mas já havíamos chegado ao hotel e hoje cedo chovia muito e fazia um frio terrível depois de tantos dias de calor. Mas agora a chuva já está diminuindo e vamos para a rua de capa e guarda-chuva.
A ilha é uma pequena jóia de beleza e paz. Pisar o chão de uma Catedral de 1.500 anos , pousar os olhos em seus maravilhosos afrescos vale qualquer viagem. Leio que Torcello foi a primeira ilha habitada de Veneza e realmente ai encontramos muitos restos romanos:
"Possuia já habitações desde os séculos V / VII. Torcello serviu de refúgio para os cidadãos da cidade de Altino pelo motivo das invasões dos unos e dos longobardos. O nome da ilha provavelmente deriva de TURRICELLUM (a torrezinha erigida em lembrança àquela da cidade perdida de origem). Em 638 o bispo de Altino tranferiu para Torcello algumas sagradas relíquias e por este motivo a sua história continuou a existir até a queda da República. Teve governo autônomo, com Podestade e Consiglio,corpo coletivo superior; ali existia a indústria da lã.
Após um passeio entre os silenciosos canais principais, unidos pela conhecida Ponte del Diavolo (Ponte do Diabo), em meio aos canaviais e casas tipicamente vênetas, se chega ao coração da ilha, a sua pequena praça."
Ontem anunciavam uma tempestade para as 23hs. Fizemos as contas e dava tempo de jantar ao ar livre na Academmia, na beira do canal, com Chianti e luz de velas. Chegamos junto com as últimas luzes do entardecer e aqui cometo o pecado da gula todos os dias. Não há lugar mais belo para pecar. Por enquanto ainda estou cabendo nas minhas roupas.
A tempestade caiu pontualmente, mas já havíamos chegado ao hotel e hoje cedo chovia muito e fazia um frio terrível depois de tantos dias de calor. Mas agora a chuva já está diminuindo e vamos para a rua de capa e guarda-chuva.
sábado, 12 de maio de 2012
BURANO
Ontem passamos o dia quase inteiro em Burano. É uma pequena ilha feita de rendas, cores, irrealidade.
São casinhas minúsculas, lindas, de todas as cores vibrantes que se possa imaginar. Parece que caminhamos dentro de um quadro naif. Desde muitos séculos as rendeiras tecem maravilhosos bordados e rendas. Os canais, minúsculos como as casinhas, fazem sinuosos desenhos. Caminhamos a ilha inteira e poderíamos ficar aí por muito tempo, lendo, escrevendo. Não dá vontade de ir embora. Nos sentamos no restaurante mais antigo de Burano, há quatro gerações a mesma família cozinha. Em 1920 o restaurante se mudou para esta casa onde almoçamos e aí funciona até hoje. O azeite é fabricado também por uma família desde 1580, lemos no rótulo, mas nestas paragens o tempo se mede por séculos.
Hoje sim iremos ver uma grande exposição de Klimt, estou esperando o museu abrir. E depois andar para dentro, para longe da multidão , dos grupos imensos e dos camelôs que tanto estragam Veneza.
Por dentro há uma Veneza vazia e é por aí que hoje caminharemos, ao léu, nos perderemos.
São casinhas minúsculas, lindas, de todas as cores vibrantes que se possa imaginar. Parece que caminhamos dentro de um quadro naif. Desde muitos séculos as rendeiras tecem maravilhosos bordados e rendas. Os canais, minúsculos como as casinhas, fazem sinuosos desenhos. Caminhamos a ilha inteira e poderíamos ficar aí por muito tempo, lendo, escrevendo. Não dá vontade de ir embora. Nos sentamos no restaurante mais antigo de Burano, há quatro gerações a mesma família cozinha. Em 1920 o restaurante se mudou para esta casa onde almoçamos e aí funciona até hoje. O azeite é fabricado também por uma família desde 1580, lemos no rótulo, mas nestas paragens o tempo se mede por séculos.
Hoje sim iremos ver uma grande exposição de Klimt, estou esperando o museu abrir. E depois andar para dentro, para longe da multidão , dos grupos imensos e dos camelôs que tanto estragam Veneza.
Por dentro há uma Veneza vazia e é por aí que hoje caminharemos, ao léu, nos perderemos.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
SINOS
Acordo em Veneza com os sinos. Debaixo da nossa janela passam gôndolas. O corpo quase explode com tanta beleza.
Ontem passamos metade do dia em Murano, uma Veneza sem o luxo dos palácios. Fomos nos adentrando e que linda é Murano em seu interior. Encontramos, no Campo San Bernardo uma Osteria cheia de venezianos, trabalhadores, gondoleiros, gente do povo e aí almoçamos comida simples e maravilhosa, uma jarra de vinho da casa e por um momento a sensação de pertencermos a este lugar.
No final da tarde fomos para os lados da Academia e vimos um belíssimo entardecer, vimos a luz desaparecer no Canal , a Giudecca se iluminar do outro lado da água. Andamos até gastar os pés.
Hoje vamos ver duas exposições e talvez algum Palácio. Os dias estão azuis, perfeitos.
Ontem passamos metade do dia em Murano, uma Veneza sem o luxo dos palácios. Fomos nos adentrando e que linda é Murano em seu interior. Encontramos, no Campo San Bernardo uma Osteria cheia de venezianos, trabalhadores, gondoleiros, gente do povo e aí almoçamos comida simples e maravilhosa, uma jarra de vinho da casa e por um momento a sensação de pertencermos a este lugar.
No final da tarde fomos para os lados da Academia e vimos um belíssimo entardecer, vimos a luz desaparecer no Canal , a Giudecca se iluminar do outro lado da água. Andamos até gastar os pés.
Hoje vamos ver duas exposições e talvez algum Palácio. Os dias estão azuis, perfeitos.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
MADRID-VENEZA
Tenho laços profundos com Madrid , pois em 1998 morei na Calle Arquitecto Gaudí com o Juan e era o começo de uma linda história de amor. Juan trabalhava o dia inteiro no jornal e eu ficava sozinha . Muitas e muitas vezes tomava o ônibus 52 passava horas no Café do Oriente vendo a vida passar, com o Palácio Real ao fundo.
Quando volto a Madrid sempre quero me hospedar aí, na Praça da Ópera, ao lado do Palácio Real, perto da Porta do Sol. Estivemos apenas uma tarde em Madrid e percorremos os lugares amados. Para quem chega de fora, para o turista, a crise não aparece. A primavera explodia em luz e eu me sentia, sentada no Café do Oriente, dentro de um filme.
Ontem gastamos o dia inteiro para chegar a Veneza, pois nosso voo fazia conexão em Roma e depois mais uma hora de barco até o hotel. Também precisamos trocar de barco.
O hotel fica em Giglio e o lugar é uma preciosidade. Está perto da Praça San Marco, mas afastado do burburinho. É a terceira vez que venho a Veneza e é sempre um sonho.Estou dentro de uma imensa e feérica aquarela.
Quando volto a Madrid sempre quero me hospedar aí, na Praça da Ópera, ao lado do Palácio Real, perto da Porta do Sol. Estivemos apenas uma tarde em Madrid e percorremos os lugares amados. Para quem chega de fora, para o turista, a crise não aparece. A primavera explodia em luz e eu me sentia, sentada no Café do Oriente, dentro de um filme.
Ontem gastamos o dia inteiro para chegar a Veneza, pois nosso voo fazia conexão em Roma e depois mais uma hora de barco até o hotel. Também precisamos trocar de barco.
O hotel fica em Giglio e o lugar é uma preciosidade. Está perto da Praça San Marco, mas afastado do burburinho. É a terceira vez que venho a Veneza e é sempre um sonho.Estou dentro de uma imensa e feérica aquarela.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
LEITORES
O maior prêmio para um poeta, um escritor, é ser lido. Maior do que qualquer prêmio é um leitor, muito tempo depois, ainda carregar o poema em sua pele.
Hoje , antes de sair para o aeroporto, recebo uma dádiva: um antropólogo que foi ao meu encontro em Bogotá, por ter ouvido a minha entrevista na Rádio Caracol, me escreveu pedindo que eu enviasse um poema do livro Desertos que fiz com o Roger Mello. Eu havia lido o poema e ele o guardou no coração:
Dezessete
Sorri a mulher por trás do véu?
Sussura palavras ou flores
desconhecidas?
O rosto que se esconde, lua oculta,
será indecifrável como a escrita
do vento nas dunas?
Na bolsa a mulher carrega
um lenço de seda azul,
um bilhete escrito em preciosa
caligrafia,
três moedas antigas
como três sonhos.
Hoje , antes de sair para o aeroporto, recebo uma dádiva: um antropólogo que foi ao meu encontro em Bogotá, por ter ouvido a minha entrevista na Rádio Caracol, me escreveu pedindo que eu enviasse um poema do livro Desertos que fiz com o Roger Mello. Eu havia lido o poema e ele o guardou no coração:
Dezessete
Sorri a mulher por trás do véu?
Sussura palavras ou flores
desconhecidas?
O rosto que se esconde, lua oculta,
será indecifrável como a escrita
do vento nas dunas?
Na bolsa a mulher carrega
um lenço de seda azul,
um bilhete escrito em preciosa
caligrafia,
três moedas antigas
como três sonhos.
domingo, 6 de maio de 2012
MADRID E VENEZA
Amanhã vamos para Madrid e seguimos no dia seguinte para Veneza.
Juan escolheu Veneza , de quem quase foi Cônsul Honorário, para comemorar os seus oitenta anos. Juan é uma biblioteca de histórias e não me canso de ouvi-lo. Ontem veio a Globonews aqui em casa entrevistá-lo para o programa Clube de Correspondentes que irá ao ar em julho. Leila Sterenberg , divina, criou um clima fantástico durante a entrevista. As histórias do Juan, ao longo de quase cinquenta anos de jornalismo são tão fantásticas que parecem inverossímeis. Juan trabalha umas dez horas por dia, no mínimo. Não parece verdade que ele vai parar alguns dias.
Veneza não é real. É um teatro, é um sonho. Com chuva, com sol, com bruma, suas águas nos enfeitiçam e aí ficamos, aprisionados para sempre. Como num labirinto:
" Assim, você nunca sabe, enquanto se move por esses labirintos, se está perseguindo um objetivo ou fugindo de si mesmo, se você é o caçador ou sua presa."
in Marca D'Água, Joseph Brodsky, ed. Cosacnayfi
Juan escolheu Veneza , de quem quase foi Cônsul Honorário, para comemorar os seus oitenta anos. Juan é uma biblioteca de histórias e não me canso de ouvi-lo. Ontem veio a Globonews aqui em casa entrevistá-lo para o programa Clube de Correspondentes que irá ao ar em julho. Leila Sterenberg , divina, criou um clima fantástico durante a entrevista. As histórias do Juan, ao longo de quase cinquenta anos de jornalismo são tão fantásticas que parecem inverossímeis. Juan trabalha umas dez horas por dia, no mínimo. Não parece verdade que ele vai parar alguns dias.
Veneza não é real. É um teatro, é um sonho. Com chuva, com sol, com bruma, suas águas nos enfeitiçam e aí ficamos, aprisionados para sempre. Como num labirinto:
" Assim, você nunca sabe, enquanto se move por esses labirintos, se está perseguindo um objetivo ou fugindo de si mesmo, se você é o caçador ou sua presa."
in Marca D'Água, Joseph Brodsky, ed. Cosacnayfi
sábado, 5 de maio de 2012
ACHADOS E PERDIDOS
Não sei vocês, mas eu vou perdendo tudo, canetas, livros, brincos, pulseiras, xales. Em Bogotá perdi um lindíssimo xale negro que a Ieda de Oliveira me emprestou. Xale comprado em Paris. Chovia muito na saída da feira e sem guarda-chuva o xale emprestado foi meu abrigo. Nem a mágica palavra Paris conseguiu grudá-lo ao meu corpo: eu o deixei no táxi. Desolada, ontem, peguei o xale que mais amo e enviei por correio para a Ieda. Na minha última visita ao meu filho em Granada perdi as únicas jóias que tinha, que eu amava,presente de casamento do Juan, que foram encontradas na casa, dentro do armário do meu neto, um ano depois. Não sei o nome disso.
A primeira vez que ouvi um poema do Carlos Pena Filho, foi em Olinda, nos anos noventa, na voz da Elisa Lucinda e no poema, ele ia pintando tudo de azul. Fiquei perplexa com tanta beleza. Vrei uma estátua azul.
Agora leio no "Guia Prático da Cidade do Recife", que acho num canto da estante:
".........................................
Nos subúrbios coloridos
em que a cidade se estende,
em seus longos arredores,
onde, a cada instante nasce
uma rosa de papel,
caminham as tecelãs.
Restos de amor nos cabelos
que ocultam por ocultar,
levam a noite no ventre
e a madrugada no olhar
e em esqueletos da sombra,
onde a luz chega filtrada,
as tecelãs vão parar."
............................................
Porque também sou tecelã de poesia, amores, amizades, vida, este fragmento me toca especialmente.
A primeira vez que ouvi um poema do Carlos Pena Filho, foi em Olinda, nos anos noventa, na voz da Elisa Lucinda e no poema, ele ia pintando tudo de azul. Fiquei perplexa com tanta beleza. Vrei uma estátua azul.
Agora leio no "Guia Prático da Cidade do Recife", que acho num canto da estante:
".........................................
Nos subúrbios coloridos
em que a cidade se estende,
em seus longos arredores,
onde, a cada instante nasce
uma rosa de papel,
caminham as tecelãs.
Restos de amor nos cabelos
que ocultam por ocultar,
levam a noite no ventre
e a madrugada no olhar
e em esqueletos da sombra,
onde a luz chega filtrada,
as tecelãs vão parar."
............................................
Porque também sou tecelã de poesia, amores, amizades, vida, este fragmento me toca especialmente.
sexta-feira, 4 de maio de 2012
SILÊNCIO
Ontem assisti na TV 5 a um filme sobre a vida de Jorge Semprún, escritor que morreu no ano passado já com quase 90 anos. Espanhol Semprún chegou até as minhas mãos, meus olhos, meu coração, não sei como. Nunca sei como os livros aparecem magicamente na minha vida, a não ser os que busco. Ele foi prisioneiro de Buchenwald e do seu livro A Escritura ou a Vida, guardei duas passagens que me marcaram. Semprún era prisioneiro político e falava alemão. Não era judeu, era comunista. Ao entrar no Campo, ao dizer a sua profissão, declarou: estudante de filosofia. O alemão que anotava seus dados, também comunista e preso político lhe respondeu: isso não é uma profissão. Não vai servir aqui dentro. Ele insistiu. Sou estudante de filosofia e nada mais. O homem ficou em silêncio e datilografou. Trinta ou quarenta anos mais tarde, ele voltou a Buchenwald com os netos e uma equipe de televisão. A sua ficha de entrada foi resgatada. E no espaço reservado para profissão estava escrito: estucador. Uma palavra salvou a sua vida. A bondade anônima existe.
A outra passagem é belíssima. Semprún encontra seu professor de filosofia da Sorbonne no Campo, como ele preso político. Um dia seu professor contraiu tifo ou cólera, não lembro. Ele morria . Semprún estava ao seu lado. E como era ateu não podia dizer uma oração. Então recitou baixinho um poema de Baudelaire. Seu professor esboçou um sorriso e morreu. A poesia como oração.
Semprún demorou 30 anos para escrever seu livro. Um silêncio de 30 anos. Porque , diz ele, para viver precisava esquecer. Era uma escolha. Mas então , um dia, ele disse: a escrita E a vida.
A outra passagem é belíssima. Semprún encontra seu professor de filosofia da Sorbonne no Campo, como ele preso político. Um dia seu professor contraiu tifo ou cólera, não lembro. Ele morria . Semprún estava ao seu lado. E como era ateu não podia dizer uma oração. Então recitou baixinho um poema de Baudelaire. Seu professor esboçou um sorriso e morreu. A poesia como oração.
Semprún demorou 30 anos para escrever seu livro. Um silêncio de 30 anos. Porque , diz ele, para viver precisava esquecer. Era uma escolha. Mas então , um dia, ele disse: a escrita E a vida.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
PREPARANDO O LANÇAMENTO
Devagarzinho vou preparando o lançamento do meu livro O DIÁRIO DA MONTANHA em Visconde de Mauá. Trocamos a data, agora definitiva: 25 DE JUNHO.
São pequenos e preciosos detalhes. O lançamento será feito no atelier de cerâmica\da minha irmã Evelyn Kligerman e Luis Mérigo. Estão sendo confeccionadas 50 lembranças em cerâmica, com o nome do livro.O atelier fica em Maringá-Minas, ao lado da loja da Edith e do Café Maringá.O atelier é deslumbrante e será o cenário perfeito para reunir amigos e desconhecidos. André, meu filho e Dani, minha nora, oferecerão um belíssimo coquetel. Estará muito frio, o lançamento será às 19hs e a lareira estará acesa. Estou buscando um violinista.
Já vi o livro , a sua "boneca" e está maravilhoso.
Mas antes do lançamento tanta coisa acontecerá. Segunda-feira, dia 7, embarco para Madrid. Em junho virá minha sobrinha Maria José, da Espanha, passar 15 dias em Saquarema. Enquanto isso, o Diário da Montanha está assando no forno, seus poemas que falam de tudo e de nada.
São pequenos e preciosos detalhes. O lançamento será feito no atelier de cerâmica\da minha irmã Evelyn Kligerman e Luis Mérigo. Estão sendo confeccionadas 50 lembranças em cerâmica, com o nome do livro.O atelier fica em Maringá-Minas, ao lado da loja da Edith e do Café Maringá.O atelier é deslumbrante e será o cenário perfeito para reunir amigos e desconhecidos. André, meu filho e Dani, minha nora, oferecerão um belíssimo coquetel. Estará muito frio, o lançamento será às 19hs e a lareira estará acesa. Estou buscando um violinista.
Já vi o livro , a sua "boneca" e está maravilhoso.
Mas antes do lançamento tanta coisa acontecerá. Segunda-feira, dia 7, embarco para Madrid. Em junho virá minha sobrinha Maria José, da Espanha, passar 15 dias em Saquarema. Enquanto isso, o Diário da Montanha está assando no forno, seus poemas que falam de tudo e de nada.
quarta-feira, 2 de maio de 2012
O FIO DA MEADA
Recebo a sexta edição do meu livro O FIO DA MEADA, da ed. Paulus. A história do livro é curiosa. Ele é muito antigo e saiu pela primeira vez pela editora Globinho que nem chegou a vender o livro porque fechou. Pinky Weiner fez belíssimas ilustrações que a editora perdeu. Mas a edição da Paulus tem lindas ilustrações da Elizabeth Teixeira. A primeira edição saiu com uma palavra errada que estraga (para mim) a página inteira. Foi corrigido o erro na segunda edição. E agora, cinco edições depois , eis que o erro volta! Agora, novamente, terei que esperar a próxima edição para trocar a palavra.
Mas a página que vou reproduzir, a que introduz a história, está toda certinha:
"Pensamentos são rios viajantes. O tempo todo se enrolando, saindo e entrando, às vezes arrumadinhos, outras vezes sem pé nem cabeça. Como fios de um grande novelo. Tem gente que pensa poeticamente, outros só pensam de um jeito guerreiro, violento.
Pensamentos são como pássaros de todos os jeitos e cores. Saindo de uma caixa eternamente aberta. Tem pensamentos que mudam o mundo para melhor, outros estragam ainda mais este mundo" .- O fio da Meada, ed. Paulus.
Podemos melhorar a qualidade dos nossos pensamentos. É uma atividade trabalhosa e diária. Meditação ajuda, música, contemplação. Pensamentos obssessivos também são horríveis e atrapalham bastante a nossa vida, mas podemos substituir estes pensamentos por outros luminosos.
Mas a página que vou reproduzir, a que introduz a história, está toda certinha:
"Pensamentos são rios viajantes. O tempo todo se enrolando, saindo e entrando, às vezes arrumadinhos, outras vezes sem pé nem cabeça. Como fios de um grande novelo. Tem gente que pensa poeticamente, outros só pensam de um jeito guerreiro, violento.
Pensamentos são como pássaros de todos os jeitos e cores. Saindo de uma caixa eternamente aberta. Tem pensamentos que mudam o mundo para melhor, outros estragam ainda mais este mundo" .- O fio da Meada, ed. Paulus.
Podemos melhorar a qualidade dos nossos pensamentos. É uma atividade trabalhosa e diária. Meditação ajuda, música, contemplação. Pensamentos obssessivos também são horríveis e atrapalham bastante a nossa vida, mas podemos substituir estes pensamentos por outros luminosos.
terça-feira, 1 de maio de 2012
CHUVA
Fazia tempo que não chovia tanto em Saquarema nem tinhamos um sudoeste tão imenso revirando as árvores e a casa.
O grande poeta escritor Álvaro Mutis, colombiano, me oferece a sua maravilhosa, caudalosa poesia. Tento traduzir, faço o possível:
VISITA DA CHUVA
Chega de repente a chuva, instala suas hostes, minuciosos
guerreiros de seda e sonho.
Salta alegre pelos telhados, desce pelos canais em precipitada algaravía;
começa a grande festa das águas numa viagem que estabelece
seu transitório domínio
E pela mão nos leva a regiões que o tempo havia
sepultado, parece, para sempre.
alí nos esperam
a febre da infância,
a lenta convalescença nas tardes de um outono incessante,
os amores que se prometiam sem término,
os lutos na família,
os úmidos funerais no campo,
o trem detido diante do viaduto que a cheia arrastou,
os insetos zumbindo no vagão onde nos surpreendeu
a aurora,
as histórias de piratas cobiçosos, de malaios que degolan
em silêncio, de viagens ao Polo, de tormentas devastadoras e ilhas afortunadas;
nossos pais, jovens, muito mais jovens do que estamos agora,
que a chuva resgata de sua parda cinza sem idade, do seu calado
trabalho mineral
e irrompem vestidos de riso e gestos juvenis.
Que bendição a chuva, que intacta maravilha o seu passo
cheio de surpresa e bondade
que nos preserva do esquecimento e da rotina sem memória.
Com que gozo transparente nos instalamos em seu império
de pálios vegetais
e com quanta construída resignação a escutamos calar pausadamente, afastar-se e regressar por um instante
até que nos abandona no meio de um silêencio lavado,
de um âmbito recém inaugurado
que invade o presente com suas turvas matérias
derrotadas, seu cortejo de pálidas convicções, de costumes
onde não cabe a esperança.
Recordemos sempre esta visitada chuva. Fechados os
olhos, tratemos de evocar seu vozerío
e assistamos de novo a vitória de suas hostes que,
por um instante, derrotam a morte.
Álvaro Mutis, Poesía Reunida, ed. Contemporánea
O grande poeta escritor Álvaro Mutis, colombiano, me oferece a sua maravilhosa, caudalosa poesia. Tento traduzir, faço o possível:
VISITA DA CHUVA
Chega de repente a chuva, instala suas hostes, minuciosos
guerreiros de seda e sonho.
Salta alegre pelos telhados, desce pelos canais em precipitada algaravía;
começa a grande festa das águas numa viagem que estabelece
seu transitório domínio
E pela mão nos leva a regiões que o tempo havia
sepultado, parece, para sempre.
alí nos esperam
a febre da infância,
a lenta convalescença nas tardes de um outono incessante,
os amores que se prometiam sem término,
os lutos na família,
os úmidos funerais no campo,
o trem detido diante do viaduto que a cheia arrastou,
os insetos zumbindo no vagão onde nos surpreendeu
a aurora,
as histórias de piratas cobiçosos, de malaios que degolan
em silêncio, de viagens ao Polo, de tormentas devastadoras e ilhas afortunadas;
nossos pais, jovens, muito mais jovens do que estamos agora,
que a chuva resgata de sua parda cinza sem idade, do seu calado
trabalho mineral
e irrompem vestidos de riso e gestos juvenis.
Que bendição a chuva, que intacta maravilha o seu passo
cheio de surpresa e bondade
que nos preserva do esquecimento e da rotina sem memória.
Com que gozo transparente nos instalamos em seu império
de pálios vegetais
e com quanta construída resignação a escutamos calar pausadamente, afastar-se e regressar por um instante
até que nos abandona no meio de um silêencio lavado,
de um âmbito recém inaugurado
que invade o presente com suas turvas matérias
derrotadas, seu cortejo de pálidas convicções, de costumes
onde não cabe a esperança.
Recordemos sempre esta visitada chuva. Fechados os
olhos, tratemos de evocar seu vozerío
e assistamos de novo a vitória de suas hostes que,
por um instante, derrotam a morte.
Álvaro Mutis, Poesía Reunida, ed. Contemporánea
segunda-feira, 30 de abril de 2012
NOTÍCIAS DA CHEGADA
Ontem o dia foi muito longo em Bogotá. Fomos para Uzaquen, um bairro lindo, preservado, parece uma aldeia da Andaluzia. Havia um mercado de artesanato na rua, ocupava todas as ruas. O que vendiam era de encher os olhos. Era uma verdadeira maravilha, produto de várias etnias indígenas. Havia gente cantando e grupos de música. Havia uma energia linda, uma alegria. Almoçamos num restaurante bem popular, comida colombiana e comi uma espécie de panqueca dura de banana , maravilhosa!
Voltamos para o hotel e esperamos o carro que nos buscaria para o aeroporto que é um caos. O Tom Jobim fica uma belezaa perto da loucura que é o aeroporto de Bogotá. Na sala de espera nos sentamos ao lado de uma mulher muito interessante que voltava do México e nos contava os horrores que o tráfico e a polícia fabricam aí. Mas conhecemos bem esta história.
Voltei de Bogotá com um desejo imenso de saber mais sobre a Colombia, fiquei muito impactada.
Em Saquarema faz frio, chove, sopra um sudoeste bem forte, o mar está violento, tudo do jeito que eu gosto. Os ventos vieram me receber.
Voltamos para o hotel e esperamos o carro que nos buscaria para o aeroporto que é um caos. O Tom Jobim fica uma belezaa perto da loucura que é o aeroporto de Bogotá. Na sala de espera nos sentamos ao lado de uma mulher muito interessante que voltava do México e nos contava os horrores que o tráfico e a polícia fabricam aí. Mas conhecemos bem esta história.
Voltei de Bogotá com um desejo imenso de saber mais sobre a Colombia, fiquei muito impactada.
Em Saquarema faz frio, chove, sopra um sudoeste bem forte, o mar está violento, tudo do jeito que eu gosto. Os ventos vieram me receber.
domingo, 29 de abril de 2012
ÚLTIMO DIA EM BOGOTÁ
Ontem fomos para a Feira mais cedo. Eu queria comprar um livro do grande escritor colombiano Álvaro Mutis. O encontro com o público às 14hs foi muito bom. Um casal de professores , super atentos, saiu correndo antes que eu lesse o último poema e achei estranho. Quando acabou eles voltaram e vieram falar comigo. Foram procurar algum livro meu para comprar e não havia nenhum. É uma pena, pois falamos, cativamos as pessoas e elas gostariam de levar um livro autografado para casa mas nenhuma editora trouxe nenhum livro.Dei para eles o Poemas e Comidinhas e Caixinha de Música. Aliás , meu filho André me conta que o programa da TV Rio Sul para o Dia das Mães será feito em sua escola de cozinha com o Poemas e Comidinhas. Aqui o governo não compra livros para as escolas. Deduzo que as escolas não possuem bibliotecas ou Salas de Leitura. Que horror!
Os contrastes são gritantes, como no Brasil.
À noite fomos ao restaurante mais bonito que já fui em toda a minha vida. Não está em Paris ou Madrid, mas em Bogotá. É um palácio de uma beleza impressionante e o bar, na entrada, ao contrário do resto da casa é totalmente louco e contemporâneo. Do segundo andar, onde comemos uma comida fantástica, se pode ver a cozinha lé embaixo, toda envidraçada. Se algum dia algum de vocês vier a Bogotá não pode perder. Se chama Harry Sazon e fica na Carrera 9 #75-70. Ficamos, eu Ieda de Oliveira e Pedro Bandeira, muito impactados. E o preço é um terço do que seria no Brasil.
Hoje temos que sair do hotel às 12hs e um carro vem nos buscar às 19hs para o aeroporto.
Vamos para a rua e amanhã, Brasil.
Os contrastes são gritantes, como no Brasil.
À noite fomos ao restaurante mais bonito que já fui em toda a minha vida. Não está em Paris ou Madrid, mas em Bogotá. É um palácio de uma beleza impressionante e o bar, na entrada, ao contrário do resto da casa é totalmente louco e contemporâneo. Do segundo andar, onde comemos uma comida fantástica, se pode ver a cozinha lé embaixo, toda envidraçada. Se algum dia algum de vocês vier a Bogotá não pode perder. Se chama Harry Sazon e fica na Carrera 9 #75-70. Ficamos, eu Ieda de Oliveira e Pedro Bandeira, muito impactados. E o preço é um terço do que seria no Brasil.
Hoje temos que sair do hotel às 12hs e um carro vem nos buscar às 19hs para o aeroporto.
Vamos para a rua e amanhã, Brasil.
sábado, 28 de abril de 2012
EM BOGOTÁ
Ontem pela manhã demos uma entrevista na Rádio Caracol com uma audiência de dois milhões de ouvintes. Eu e Pedro Bandeira. Foi uma escolha de Sofia, pois éramos três, na verdade a entrevista seria apenas minha mas consegui que abrissem um espaço para os meus amigos. Na última hora eles disseram que no estúdio só cabiam dois e o Pedro e a Ieda decidiram pelo Pedro. Foi espetacular, a Ieda ouviu de fora da cabine e nos disse que demos um show. À tarde, um antropólogo foi ao meu encontro por causa do programa do rádio. No espaço da Fundação a sala estava repleta e felizmente eu tinha dois livros de poemas em espanhol e houve muita empatia com a platéia, foi mágico. Saí esgotada e faminta e comprei um saco de pipocas! O Pedro se saiu muito bem depois de mim e hoje repetimos a dose, só que hoje a Ieda irá falar também.
À noite fomos a um restaurante belíssimo, numa casa senhorial, a comida espetacular com sabores para nós inusitados. Ah, antes, na hora do almoço fomos comer no restaurante da mais famosa Chef de Bogotá, o restaurante se chama Leo, cava y cena, eu acho, O da noite se chama Club Colombia e a proposta é recuperar a comida das avós, da Colombia profunda. Ou seja, como mãe de Chef (André Murray) tenho mesmo que fazer uma viagem gastronômica e como mãe de dono de uma enoteca (Guga Murray) tenho que beber um bom vinho!
Hoje vou cedo para a Feira pois quero ver a exposição da Cora Coralina no espaço do Brasil e quero comprar alguns livros .
Amanhã temos que passar o dia na rua, pois nossa conta no hotel fecha às 12hs e nosso voo é às 23hs!
À noite fomos a um restaurante belíssimo, numa casa senhorial, a comida espetacular com sabores para nós inusitados. Ah, antes, na hora do almoço fomos comer no restaurante da mais famosa Chef de Bogotá, o restaurante se chama Leo, cava y cena, eu acho, O da noite se chama Club Colombia e a proposta é recuperar a comida das avós, da Colombia profunda. Ou seja, como mãe de Chef (André Murray) tenho mesmo que fazer uma viagem gastronômica e como mãe de dono de uma enoteca (Guga Murray) tenho que beber um bom vinho!
Hoje vou cedo para a Feira pois quero ver a exposição da Cora Coralina no espaço do Brasil e quero comprar alguns livros .
Amanhã temos que passar o dia na rua, pois nossa conta no hotel fecha às 12hs e nosso voo é às 23hs!
sexta-feira, 27 de abril de 2012
DE BOGOTÁ
Ontem passamos a manhã no Centro Histórico. Fomos ao Museu do Ouro e ao Museu Botero que está com uma exposição lindíssima, a sua e a do seu acervo particular. Vimos Chagall, Picasso, Dali, Toulouse Lautrec, Klimt e muitos muitos pintores maravilhoisos. Entramos em milk lojas de artesanato e é tudo colorido e lindo. Voltei ao aeroporto e consegui recuperar meu casacão, fiquei radiante, mas não está fazendo frio, a temperatura está amena e deliciosa. A cidade é caótica, seu trânsito horrível como o do Rio, no café da manhã vejoo noticiário na TV e leio o jornal El Tiempo: as Farc continuam aterrorizando e há muita violência. Mas o povo é maravilhoso, doce, amável, atencioso e belo.
Vou agora dar uma entrevista na Rádio Caracoil , consegui a entrevista através de amigos e levo comigo a Ieda de Oliveira e o Pedro Bandeira, faremos um trio.
Depois do almoço vamos os três para a Feira de Livros para nossos encontros com o público.
Li no jornal que em Moscou fizeram uma homenagem maravilhosa para Gabriel Garcia Márquez: um vagão do metrê coberto com seus poemas, retratos, fragmentos dos seus livros. Por que não os imitamos e em cada vagão dos nossos metrôs homenageamos um escritor, um poeta?
Vou agora dar uma entrevista na Rádio Caracoil , consegui a entrevista através de amigos e levo comigo a Ieda de Oliveira e o Pedro Bandeira, faremos um trio.
Depois do almoço vamos os três para a Feira de Livros para nossos encontros com o público.
Li no jornal que em Moscou fizeram uma homenagem maravilhosa para Gabriel Garcia Márquez: um vagão do metrê coberto com seus poemas, retratos, fragmentos dos seus livros. Por que não os imitamos e em cada vagão dos nossos metrôs homenageamos um escritor, um poeta?
quinta-feira, 26 de abril de 2012
BOGOTÁ
Cheguei a Bogotá com a Ieda de Oliveira já como comnpanhia, nos encontramos no aeroporto. Em Bogotá nos esperavam Pedro Bandeira e as meninas da Fundação. Perdi meu casaco para lugares muitio frios e fiquei muito chateada. Eu o deixei no avião e não consegui recuperá-lo. Eu, Pedro e Ieda fomos jantar num lugar maravilhoso, uma casa antiga, Casa Vieja.Comemos comída típica, eu e Ieda uma sopa divina e o Pedro um prato montanhês, com chouriço, ovo, farofa, banana frita, para derrubar elefante. Mas antes vieram uns bolinhos de milho, "arepa", uma maravilha. O trânsito é caótico como no Rio, mas são todos tão amáveis.Sinto um pouco o mal estar da altitude, um pouco de dor de cabeça.
Tive uma impressão agradável da cidade, já que as montanhas a circundam. Hoje tenho o dia livre e vamos visitar o Museu do Ouro no Centro Histórico e o Museu Botero. Nós três agradecíamos a dádiva do encontro, de não estarmos sozinhos.
Tive uma impressão agradável da cidade, já que as montanhas a circundam. Hoje tenho o dia livre e vamos visitar o Museu do Ouro no Centro Histórico e o Museu Botero. Nós três agradecíamos a dádiva do encontro, de não estarmos sozinhos.
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