quinta-feira, 10 de novembro de 2016

E.M.JOÃO BAPTISTA CAFFARO

Vou começar a história pelo fim. O encontro das crianças com o mar.
Muitas crianças da E.M.João Baptista Caffaro, nunca haviam visto o mar.
Hoje, especialmente, o mar havia feito uma piscina imensa e as crianças não aguentaram de felicidade.
Foi para elas uma experiência extraordinária.
Sabiam tudo da minha vida, lemos muitos poemas brincando, comemos e rimos.
A manhã passou voando e agora vive na mala das lembranças inesquecíveis, dentro de cada um.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

TRUMP

Como acalmar o coração sabendo que Trump, eleito Presidente dos Estados Unidos, afina a sua voz com os grandes ditadores do planeta de todos os tempos, o seu talento histriônico e seu gestual nos lembram Mussolini e o conto Mário e O Mágico do Thomas Mann?
Para onde nos levará, se sua música são os muros, as armas, a expulsão do diferente e seu discurso traz os ecos dos piores nacionalismos?
O mundo já caminhava a passos largos para a destruição. Mas agora, com o ódio como bandeira, há um abismo desconhecido sem passagem de volta.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

MISTURINHA

Misturar crianças da Educação Infantil com primeiro, segundo e terceiro ano dá certo?
Deu certíssimo hoje no Café, pão e Texto da E.M.Outeiro das Pedras, de Itaboraí. Bem que a Paula Botelho, Diretora de todas as boas idéias de leitura de Itaboraí tinha me avisado.
As crianças me fizeram tantas declarações de amor , que saí do planeta , alcancei a lua e agora navego nos anéis de Saturno.
Eu realmente poderia abrir uma loja de suspiros de felicidade, pois hoje suspirei umas 3000 vezes.
Brincamos, rimos, cantamos. As professoras Sabrina, a Diretora Maria do Socorro, Jussara, Suely, Suzana, Gisele, Maria de Fátima, a Supervisora de alunos Adriana Silva e o Professor Lucas , (acho que não esqueci ninguém) acompanhavam as crianças. Minha amiga, também professora, Prica Mota, veio. E vieram 3 convidadas e um marido, alunas de pedagogia da Faculdade Veiga de Almeida de Cabo Frio.Luana, Elisângela e Ana Paula. O marido era o Rubens.
Hoje as crianças brincaram horas no jardim antes de partir. E se encantaram com as árvores de cravo e canela.
Samuel e Vanda, incansáveis na produção do Café junto comigo.
E ninguém queria r embora. Todo mundo queria morar aqui. Para Sempre.

sábado, 5 de novembro de 2016

CHUVA

Chove sem parar aqui na montanha. A época das águas. Frio e neblina.
Amo esse tempo de hortências, fogo para aquecer a casa, livros e novos poemas. Mas hoje é meu último dia aqui. O tempo escorre como a chuva que cai e desaparece entre a terra. O tempo que nos encharca de afetos, amores, perdas e ganhos.
Construo devagarinho uma nova coletânea de poemas. A poesia é a minha verdadeira casa.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

NA MONTANHA

Estar na montanha desmancha o tempo. Quando chego parece que sempre estive aqui, desde sempre.
No livro que estou lendo, do Manguel, A Cidade das Palavras, ele fala do conceito de tempo entre os esquimós e é assim que sinto o tempo: Imóvel . Nós é que nos movemos, para frente, para trás, em círculos. E quado uma história é contada, mesmo que seja tão antiga, que tenha mais de mil anos, o ouvinte está lá, naquele tempo.
Então, nós, leitores, temos a capacidade de sim, viajar no tempo e no espaço, pois vivemos em mundos paralelos. E o tempo não pode ser dividido, claro que não.
Aqui, na montanha, eu flutuo na pele do tempo.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

VINTE E SETE PROFESSORAS DE ITABORAÍ (BASTIDORES)

Receber vinte e sete professoras para o Café, Pão e Texto, é tarefa maravilhosa. Há toda uma preparação prévia. Encomendo o empadão de legumes alguns dias antes da Liliam, filha da Vanda, a minha caseira. Samuel vai buscar o empadão de bicicleta.
Acordo muito cedo para fazer o pão. Quero que saia do forno às 8.30 h, para que comam o pão quentinho. Hoje ralei tomate para passar no pão, receita espanhola, muito simples: rala-se o tomate no lado grosso com casca e tudo. A casca fica inteira na mão da gente, e então, a gente põe azeite e sal.
Bolos e café com leite, sucos também. Ah, a toalha mais linda, que comprei em Olinda com Joana Cavalcânti e Conceição Cavalcânti, num domingo inesquecível.
Separo os livros .Estão ao alcance da mão. Mas nunca tenho um roteiro prévio. Tudo vai se desenrolando naturalmente. Vou puxando o fio da meada.
Todo mundo quer fotos. Todo mundo quer abraços. Todo mundo quer carinho e autógrafos.
Falamos poesia, falamos vida. O que podemos fazer, o que está ao nosso alcance.
E assim, juntando um poema no outro, um desejo de mudança no outro, uma inquietação na outra, um assombro no outro, o tempo escorre das nossas mãos e já fica um gosto de sabor indefinido, uma certa nostalgia : saudade.    

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

OUTRA VEZ A MALA ABERTA

Fui ao Recife e voltei. Foi tudo tão maravilhoso que parece que foi um sonho bom. Dois eventos que tiraram a Terra de sua órbita sossegada e a emoção era tanta que não podia nem dormir à noite. Joana Cavalcânti criou uma atmosfera real e onírica ao mesmo tempo. Eu e William Amorim inauguramos a série de Saraus da Editora Massangana, da Fundação Joaquim Nabuco e inauguramos a Casa Azul, simbolicamente na Livraria Cultura, que logo começará a funcionar em sua sede. Será um Centro irradiador de literatura e arte.
Mas já estou novamente com a mala aberta. Sexta-feira bem cedo vou para Visconde de Mauá, para a minha casinha da montanha.
Dentro da mala levo uma tonelada de saudades da família. Faz muito tempo que não nos vemos. A viagem é muito longa, pois não se trata apenas de estradas. Mas é preciso passar de uma dimensão para outra. De uma atmosfera para outra. De um perfume de algas para os cheiros magníficos da montanha.
Gosto mais do que tudo do cheiro da terra quando a chuva cai. E do cheiro da lenha quando acendo o fogão e inunda a casa. Gosto do cheiro da manhã e da noite. Gosto do breu da noite.
Quando vou subindo a serra uma alegria selvagem começa a me inundar.
Tudo isso eu já sei ao olhar para a mala aberta.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

NORDESTE

Parece que os ventos estão me levando para o Nordeste. Amanhã vou para o Recife fazer dois eventos que me enchem de alegria: Um encontro com professores dia 21 na Fundaj e o Sarau Residência no Ar, a primeira apresentação do meu livro Delírios, que será feita por William Amorim, escritor e psicanalista de S.Luis, na Livraria Cultura Paço Alfândega. O Sarau é a inauguração da Casa Azul de Joana Cavalcânti, um espaço de arte e sonhos.
Esse nome Paço Alfândega é lindo e mexe com a minha memória:
Quando eu era criança, meu pai muitas vezes me levava até o porto, na Praça XV, ou para se despedir de alguém ou para receber alguém. Naquela época as pessoas vinham de outros países de navio e tinham, claro, que passar pela alfândega. Uma parada obrigatória.
Eu era fascinada com um homem gordo, que ficava sentado atrás de uma mesa com uma tabuleta onde se lia POLIGLOTA.
Eu o imaginava falando todas as línguas do mundo e jamais o esqueci.

 Deve ser por isso que meu gato se chama Babel, que o restaurante do meu filho se chama Babel. Adoro uma mistura de línguas!!!

terça-feira, 18 de outubro de 2016

CAFÉ, PÃO E TEXTO

Recebi a E.M.Natércia Rodrigues Rocha, de Itaboraí, para o penúltimo Café, Pão e Texto do ano, pelas mão das professoras Élida, Raquel, Eveline, Geruza e Carmem Valéria.
Vieram crianças de várias séries misturadas e deu muito certo! As dinâmicas com os poemas saíram lindas, as crianças eram vivas, maravilhosas.
Conversamos sobre muitas coisas, sérias e engraçadas.
Com meu livro Colo de Avó, muitos falaram da sua avó e do que ela gostava de fazer. O amor que sentem pela avó transborda. Uma disse que a avó gostava de costurar e li o poema Máquina de Costura. Foi lindo ver como o poema se encaixava na sua avó.
Foi lindo ver como dando linha, a pipa da imaginação deles vai muito longe na apreensão do poema.
As professoras eram tão amorosas, o encontro foi tão bom, as crianças nunca querendo ir embora, que agora estou em pleno voo.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

CACHOEIRA; BAHIA; FLIQUINHA

Poucas cidades me impactaram tanto quanto Cachoeira na Bahia. Já do aeroporto até lá, o verde enche nossos olhos. Assim é o Recôncavo, diz o motorista que me buscou em Salvador. Passei por dentro de Santo Amaro. Ao chegar na cidade, já a Pousada, dentro de um antigo convento, dá vontade de chorar de tanta beleza. O casarão de 1765 impressiona.
Saí andando e o casario e o rebuliço de gente me deixou extasiada.
A Flica e a Fliquinha fazem a Festa Literária mais bonita do mundo. Gente se apresentando na escadaria da Igreja, o Projeto ler na Praça com centenas e centenas de livros para quem quiser ler, seu Museu do Cinema, uma preciosidade, com Roque Araújo, que foi câmera de todos os filmes de Glaber Rocha, memória viva do cinema brasileiro, que atende cada pessoa como se fosse única, as barracas vendendo livros e comidinhas, a casa poesia do poeta Damário da Cruz, que já se foi para as estrelas, mas deixou sua poesia inscrita em Cachoeira.
A cultura negra corre forte junto com o rio Paraguassú e infelizmente não tive tempo de visitar nenhum quilombo. A Flica levou grandes nomes. A Fliquinha era uma alegria só. E havia povo na rua. Uma festa nada elitista: para todos.
Minhas duas apresentações foram lindas. Com as crianças, e a plateia estava lotada, num espaço maravilhoso, dentro do cinema. À noite, com os adultos, houve um entrelaçamento de magias. Passamos o vídeo Visita à Casa Amarela, do Caó Cruz Alves, que está no meu site e depois fui falando meus poemas, contando a construção de cada livro e ninguém queria ir embora. Um jovem que veio de longe falou seu poema que era a síntese perfeita de tudo o que havia acontecido.
Para o meu livro Abecedário (Poético) de Frutas pedi que me dessem alguma memória afetiva de uma fruta da infância. Muitos me contaram e um dos que havia falado, de repente me deu um pote de tamarindo cristalizado sem saber que tamarindo era a fruta querida da minha infância, já que eu andava pela Alameda Engenheiro Richard no bairro do Grajaú, apaixonada pelas árvores de tamarindo e suas frutinhas que catava no chão. Como ele poderia saber?  Pura poesia.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

FLIQUINHA

Amanhã vou para Cachoeira, na Bahia, participar da Fliquinha, Feira de Livros. Terei dois encontros, um com o público infantil e outro com o adulto.
Estou feliz. A Bahia sempre me deixa feliz, aliás o Nordeste. Gosto do cheiro do vento de lá. Gosto do calor humano. Gosto da fala tão musical. Gosto da comida. Fiz amigos maravilhosos na Bahia e talvez encontre algum por lá. Caó, desenhista, cartunista, cineasta, talvez apareça num pé de vento, se tiver carona, pois mora em Salvador. Vamos passar o seu documentário, Visita à Casa Amarela. Malena, que mora em Feira, disse que ia. Malena tem um projeto maravilhoso  de leitura em  Feira de Santana. Vai faltar Verbena, mulher com jeito de flor, minha grande amiga irmã, que está na Espanha.
Sou africana por dentro e a Bahia, pra mim, é um pedaço da África. Infelizmente não vou poder ficar mais tempo pois na sequencia vou pro Recife, quase o tempo de chegar em casa, tomar um banho e trocar de roupa...

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

E BOOKS


Agora estou focada nos meus e books. Sinto uma energia tão grande nesse projeto que parece que vou partir para uma grande viagem, rumo a um planeta desconhecido.
Não consigo publicar meus poemas dirigidos ao público, digamos, adulto. Nenhuma editora se interessa. Então resolvi publicar as minhas coletâneas em formato digital , sem nenhum lucro. Qualquer pessoa pode acessar gratuitamente.
Mas, para não perder a dignidade, mandei fazer 50 exemplares da coletânea DELÍRIOS,, numa edição artesanal, com técnica do século XVII, por Domingo Gonzáles, o que me provoca uma grande alegria. Imagino que poderiam ter sido produzidos na pequena gráfica onde trabalhava Natanael, maravilhoso personagem do livro Como a Água que Corre, da Marguetite Yourcenar, que lemos no Clube. E assim, apago as fronteiras do tempo, apago as fronteiras entre realidade e ficção.
O livro em papel ficou lindo. Mas a edição digital será maravilhosa também, com desenhos feitos em cerâmica pela minha irmã Evelyn Kligerman. Em dezembro estará accessível.
E então aconteceu  uma alegria inesperada, já que a vida é uma caixinha de música, mas ao contrário das caixinhas com a bailarina aprisionada para sempre nos mesmos acordes, a música nunca se repete:
Joana Cavalcânti me convidou para a inauguração da sua Casa Azul, em Recife. E aí vou apresentar meu livro novo, Delírios, com a voz do William Amorim, grande amigo, psicanalista e escritor, que fala poesia lindamente. Ele irá de São Luis ao Recife especialmente para isso e para dividirmos o palco na Fundaj, num evento lindo para professores .
Depois farei um lançamento do Delírios em Mauá, no Babel Restaurante do meu filho André Murray e então, quem sabe terei novamente a voz do William e a presença da Joana. Vou dando corda na minha caixinha. 


domingo, 9 de outubro de 2016

COMO A ÁGUA QUE CORRE

A CASA AMARELA

Essa casa tem cheiro
de algas,
de maré cheia,
de lua entornada.
Essa casa
é uma senhora
que me deixa
dormir
em suas madeiras,
na memória
dos dias acumulados.
Essa casa
tem gavetas
cheias de sol,
janelas e portas
abertas,
por onde entram
borboletas e amigos
cheios de sinos.
Essa casa me habita.

Os amigos vão chegando e enchendo a varanda, transformando o ar em alegria.
De dois em dois meses nos reunimos, o Clube de Leitura da Casa Amarela, para celebrar a literatura, que nos ajuda a viver, para celebrar a amizade e a vida.
Às vezes vem alguém de longe, como o Maximiniano, que veio de Salvador.
Alguns chegam do Rio, como Cristiano e Ana. André e Christiane moram em Niterói.
O livro Como a Água que Corre, da Marguerite Yourcenar, é uma obra prima. São três contos, sendo que o segundo, longo, é uma novela.
O primeiro conto, Ana Soror, fala de uma paixão imensa entre dois irmãos. Amor, desejo, interdição. Em pleno século XVI, numa atmosfera sufocante, de uma religiosidade doentia, que beira a alucinação, Marguerite constrói com poesia e uma maestria absoluta, esse belo , belíssimo relato, de onde saímos transtornados.Pouco a pouco, cada um trazendo a sua parte de leitura, como num mosaico, o conto vai se ampliando, crescendo, transbordando e muitas pessoas disseram que iriam reler o conto depois da discussão.
Um Homem Obscuro, nos traz um dos personagens mais belos da literatura, Natanael. Um homem do século XVII, absolutamente singular, pois a sua mente é atemporal e sua sensibilidade oceânica. Natanael nos contamina com sua bondade , simplicidade e beleza. Vivemos junto com ele os seus amores, a sua maneira de se relacionar com as pessoas, os animais, a sua aceitação sem preconceitos de tudo o que é humano.  Obscuro por excesso de luz?
Da relação de amor de Natanael com a prostituta Saraí nascerá Lázaro, com quem Natanael não conviveu. Mas Marguerite nos oferece a dádiva desse desdobramento de Natanael em Lázaro, no terceiro conto,  e então voamos , e não existe mais nenhuma fronteira entre a realidade e o sonho.
Lázaro é ator, faz papéis femininos, é um menino que vai se transmutando, de personagem em personagem, ele é toda a humanidade, e a morte puxa a carroça, a vida segue, como a água que corre.
Para terminar lemos belíssimos poemas de Murilo Mendes.
O almoço foi esplêndido, parecia que também estávamos na carroça com Lázaro e sua trupe, e logo ali, era a curva fora do tempo, onde a alegria é amarela.
O próximo encontro será dia 17 de dezembro e vamos ler Eça de Queiróz: A Relíquia e As Cidades e As Serras. Cada um deve trazer um poema do Fernando Pessoa.     

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

VISITA ESPECIAL

Amanhã é o nosso encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela. Receberemos uma visita muito especial Maximiniano , que faz sua tese sobre leitura, veio de Salvador para Saquarema apenas para participar do Clube.Ele estuda dinâmicas sensíveis de formação do leitor.
Tem vindo gente de longe. Nosso Clube já escapa e quando vejo atravessou o portão e brilha lá longe no horizonte.
É uma das minhas grandes fontes de alegria.
Este mês de outubro parece que quer me levar pelos ares até onde não sei, de tanta emoção.
Semana que vem vou para Cachoeira, na Bahia, onde faço um encontro com meus leitores no dia 14, na Fliquinha.
E dia 20 vou para o Recife, onde tenho duas atividades maravilhosas.
O meu  primeiro Café, Pão e Texto Itinerante, dia 21 na Fundaj, para os professores, às 18:30h e dia 22 o Sarau Residência no Ar, na Livraria Cultura, Paço Alfândega, representando a Casa Azul da Joana Cavalcânti.
William Amorim apresentará meus poemas do novo livro Delírios.
Alguns momentos são especialmente luminosos em nossas vidas. Este é um deles.  

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

ITABORAÍ

Amanhã será um grande dia: irei a Itaboraí com a Prica Mota, para a culminância de um projeto de leitura imenso e belo. Durante meses, mais de oitenta escolas de Itaboraí estão lendo meus poemas. Muitas escolas vieram até a minha casa participar do Projeto Café, Pão e Texto. Recebi professores absolutamente envolvidos com a leitura. Cada encontro foi mais maravilhoso que o outro.
Amanhã estarei com 250 crianças pela manhã e muitos professores à tarde.
O esforço para superar dificuldades, o entusiasmo, a arte e criatividade dessas professoras e professores me fazem acreditar que sim, se pode fazer uma educação que faça toda a diferença, baseada em leitura e arte.
Estou muito emocionada.Nem consigo imaginar que da minha mesa de trabalho a minha poesia escapa para invadir tantos corações.
Levarei minha neta espanhola Kira, que sábado voltará para Barcelona. Ela terá uma menina de 10 anos como anjo da guarda.É Clarice, a filha da Diretora do Departamento de Leitura, Paula Botelho.
Kira não fala português e está animadíssima e ansiosa com a experiência que viverá.
E eu agradeço essa cachoeira de amor.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

VIAGENS

Meu primeiro livro de poesia para adultos se chamava Viagens e houve apenas uma edição , pela extinta Editora Memórias Futuras, em 1984.
Alguns poemas aproveitei em outros livros.
Um deles , apesar de tão antigo eu adoro. O poema se chama Residência no Ar e define um estado de espírito.
Em minha próxima viagem ao Recife, além do encontro com professores na Fundarj, no dia 21, teremos um sarau de poesia na Casa Azul, idealizada por Joana Cavalcânti. Joana me conta: a Casa Azul será um Centro de Artes, Encontros, Terapias onde muita coisa acontecerá. Mas por  enquanto é ainda uma residência no ar, pois a casa não está pronta, mas simbolicamente já está. E o sarau será no dia 22, na Livraria Cultura, Paço Alfândega, que estará representando a Casa Azul.
Estarei apresentando em primeira mão os poemas do meu livro Delírios, que serão falados por William Amorim.

RESIDÊNCIA NO AR

Não sei o que me convém,
se uma casa segura,
janelas, quartos e trincos
ou se as portas
todas abertas,
se residência no ar.

Não sei o que me convém,
se uma casa encerada,
a família pro jantar
ou se ventania na estrada,
se residência no ar.

Não sei o que me convém,
se uma casa caiada,
com horta, jardim e pomar,
ou se andarilha no mundo,
se residência no ar.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

LIVROS

O filósofo George Steiner, de 88 anos , diz numa entrevista que lê todos os dias algum trecho de livro em cada língua que domina, para prevenir do Alzheimer.
Eu faço quase isso, leio bastante nas línguas que sei, porque tenho pânico de perdê-las. Não há prazer maior do que estudar e saber outro idioma. Ler em outro idioma. O milagre de já não se saber que se está lendo em outra língua.
Ele também diz que onde houver um livro, uma caneta para fazer anotações e um café, já está pronto o território para o voo. Eu não preciso de quase nada. Os livros me dão quase tudo.

LIVROS

Uma vida é tão pouco,
melhor seria viver mil
vidas, mil e uma noites
e histórias.
Nosso tempo é tão pouco,
melhor seria viajar
no tempo.
Mergulhar nas páginas
de um livro e se perder
para se achar.

in Cinco Sentidos e Outros, Lê Editora.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

DE VOLTA PRA CASA

Cheguei em casa. Desfaço a mala e arrumo as próximas viagens. Terei dois encontros no nordeste com meus leitores.
Amo o nordeste de paixão e minha felicidade é imensa, pois estarei com amigos que amo.
Preparo o encontro do Clube dia 8. Muita coisa maravilhosa acontecendo.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

UM PINGADO NA PADARIA

Estou hospedada em Búzios dentro de um restaurante que aluga dois quartos. É um casarão imenso e antigo, maravilhoso.
O Café da Manhã só para nós, pelas mãos da Adriana ,já que ocupamos os dois únicos quartos, é servido com o mar quase aos nossos pés. Ouvimos o sussurro do mar, a voz dos pescadores, o motor dos barcos.
Não entro no mar, não gosto de tomar sol na praia. Gosto de contemplar e caminhar.
Como o café só é servido às nove horas, eu e Juan saímos bem cedinho para tomar um pingado em alguma padaria.
É a hora em que os turistas dormem e os empregados dos hotéis chegam. É a população que mais tarde fica invisível.
Gosto de sentir essa vida subterrânea. Essas pessoas vivem na Rasa. Aqui onde estou o turismo é pesado. Mas só aparece mais tarde.
Gostamos de almoçar num restaurante bem pequeno, no caminho da praia dos Ossos, ao lado de uma peixaria, que se chama O Barco. A comida é boa, o peixe fresco e o preço justo. Búzios é muito cara. Há que tomar cuidado.
De madrugada o vento faz o casarão gemer, chorar, ele quase se dobra, range, fala a língua das madeiras antigas. Lá longe um apito de barco corta o meu sono. Levanto, abro a janela, faço um poema, volto a dormir.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

CORAL ENCANTA BÚZIOS

Estou em Búzios.Aqui vive e trabalha meu amigo Maestro Moisés Santos com seu Coral Encanta Búzios, de meninas adolescentes, que vivem em zonas menos turísticas.
Todos sabem o que a música pode fazer pela auto estima das pessoas.
Mas o Maestro Moisés vai  muito além. A sua comunicação com cada uma das jovens é fantástica e isso é um dom.
Espero que Búzios tenha consciência do nível altíssimo do seu trabalho musical e humano e não o deixe escapar.
O Maestro Moisés é um orgulho para qualquer cidade.
Hoje, de madrugada, na vigília, ainda tinha nos olhos a vista maravilhosa do meu quarto.
Então fiz um poema:

GAIVOTAS

Pela janela
meu olhar escapa
e em seu voo
enlaça
o barco pousado
na pele do mar
e da sua vida
oculta,
na pele da música.
Meu olhar varre o convés
escorregadio,
embaralha
rotas e ventos,
pronto
para desfazer
nós e âncoras,
levantas as cordas,
partir.
Um grito
de gaivota assina
o ar.

domingo, 25 de setembro de 2016

BÚZIOS

Búzios é linda. Eu a conheci em 1972. Não havia NADA!!! Só a beleza solta no vento. Acampamos com meu filho André com 3 anos na Praia da Ferradurinha, numa noite de lua cheia.
Recebo um convite de Búzios: dia 8 de dezembro uma Escola Quilombola me fará uma homenagem. Erika Anjos me escreve e eu respondo que sim, vou. Mas que gostaria da presença do Coral Encanta Búzios com meu amigo Maestro Moisés, que já me disse que sim.
E amanhã vou para Búzios com minha família espanhola: Maya, minha enteada e meus netos de estimação, Kira Velvet de 11 anos e Astor Kai com 4 e Juan. Vieram de Barelona e estamos muito felizes com eles em casa, a casa de pernas pro ar.
Fazia um ano e três meses que não nos víamos. Kira, minha neta, que já virou um livro lindo pela Lê Editora,  cresceu tanto que parece impossível e já combinamos: ano que vem ela virá sozinha para ficar aqui os dois meses das suas férias. Nós nos amamos. Queremos viajar juntas, só nós duas.
Estou esperando a confirmação da E.M.Clotilde , onde tenho minha Sala de Leitura, para fazer uma Roda de Leitura levando a Kira, dia 4. Desmarcaram a data combinada por problemas técnicos e estou aqui torcendo. Kira fala fluentemente três línguas e já entende bastante bem o português.Mas antes de tudo fala fluentemente a língua do amor.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

UTOPIA

Sobre a palavra UTOPIA me diz o Houaiss: Descrição imaginativa de uma sociedade ideal; plano irrealizável, fantasia.
Então a utopia não pode acontecer, porque se for realizada, não era uma utopia. Mas muitas coisas que eram utópicas aconteceram , em parte.Pensar em férias remuneradas no século XIX para os trabalhadores seria uma utopia na época. Então não podemos deixar que as utopias morram dentro da gente. A gente morre junto.
O mundo anda difícil de ser digerido, com todas as suas crueldades, com todos os excluídos. Já no café da manhã o jornal vai me contando: que um barco de imigrantes... que não sei quantas mortes... que a Guerra da Síria...
Mas não se pode desistir .Por isso fica cada dia mais claro para mim que temos que sensibilizar muito as crianças para a compaixão e o amor, para a paz. Quero o bem do outro. Isso não é utopia, Isso pode acontecer hoje, a cada minuto.  

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

MAIS UM

Mais um Clube de Leitura nasceu, inspirado em nosso Clube de Leitura da Casa Amarela.
Silvane Silva , a ex Diretora da E.M.Hermann Muller, na zona rural de Joinville, me dá notícias:
O Clube se chama "Clube de Leitura do Ipê Amarelo" e o primeiro livro será A Alegria de Ensinar de Rubem Alves. O espaço é maravilhoso, a Agrícola da Ilha, do Seu Dario, um parque de tirar o fôlego e que abriga a minha hemerocallis, abriu as suas portas numa linda parceria.
Silvane convida todos os professores de Joinville . E no primeiro encontro haverá uma Oficina  de Danças Circulares.
Devo prevenir: Silvane faz malabarismos de transformação. Nada do que toca fica indiferente aos seus dedos verdes. Pude presenciar a sua maravilhosa pedagogia no que seria para mim uma das melhores experiências de Educação do Brasil.
Com certeza , esse Clube, dirigido pela Silvane, fará muita diferença na vida de cada participante.
Corram e garantam os seus lugares.
Contatos pelo MSN do facebook.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

SILÊNCIO

Preciso de silêncio para funcionar. Quase não consigo ouvir música aqui na beira do mar, pois o mar já é música, sua orquestra, totalmente encaixada no silêncio, ocupa a casa inteira . E a casa acompanha: as madeiras estalam e rangem, a casa quase oscila com o movimento das ondas.
E muitas vezes me deixo flutuar nesse silêncio maravilhoso. Aí os meus poemas acontecem.
Leio artigos interessantes sobre o silêncio. Como é necessário e urgente em nosso mundo tão barulhento e com excesso de estímulos.
Mergulhar no silêncio é uma grande experiência.
Às vezes estou na montanha e é outro tipo de silêncio, mais denso, mais palpável, mais grosso, menos esgarçado. Como se houvesse uma partitura do silêncio. Uma para cada lugar.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

DE OUTRA CIVILIZAÇÃO

Um anigo me diz: _ Você não existe, você é de outro planeta.
Confesso que sou sim de outra civilização.
Sou tão antiga que ainda uso caderno de telefone de papel .
Tão antiga que não gosto de ler na tela. Preciso do livro de verdade, seu cheiro, sua capa, sua textura.
Não sou apaixonada por  tecnologia.  Sei o mínimo para sobreviver neste mundo novo.
Claro que adoro o zap, assim tenho família e amigos perto de mim o tempo todo. Mas sou incapaz de jogar um joguinho, mesmo o mais simples possível com o meu neto. Expliquei isso a ele e então me disse:
_Fica tranquila, vovó, vou te dar um jogo bem simples.
E colocou na tela um ursinho para colorir.
Claro que adoro os avanços da medicina, que permitiu que minha coluna fosse reconstruída e eu pudesse viver sem dor.
Mas me sinto sempre meio à margem. Meio deslocada. Meio imigrante. Meio desajeitada. Meio de outra civilização.
Como um viajante com uma mala de madeira num aeroporto, quando deveria estar numa estação de  trem dos anos 50.
Mas dentro da mala carrego tesouros.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

TRANSBORDAMENTO

Amanhã recebo um grupo de 25 professores de Itaboraí, onde sou lida por mais de 80 escolas.

Ontem Pica Motta, que esteve presente em nosso encontro com as crianças, me disse que com as minhas ideias sobre educação, não caberia numa escola, transbordaria.
Mas ontem as crianças tiveram uma grande aula sobre vários temas, sentadas no chão, em cima de tapetes, brincando e cantando. E onde é que está escrito que a criança não pode ter uma aula assim?
Com certeza jamais se esquecerão do que aprenderam ontem.
E Marguerite Yourcenar, em seu livro De Olhos Abertos, tem ideias muito parecidas com as minhas. A criança tem que antes de tudo ter o sentimento do mundo.
Por isso adoro reeber professores no meu Café, Pão e Texto. Para que juntos a gente transborde.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

CAFÉ, PÃO E TEXTO

Amanhã recebo mais uma escola na minha varanda para um Café, Pão e Texto.
Terei um convidado muito especial para as crianças, mas é surpresa, só conto depois que o encontro acontecer.
Esse Projeto é a maior fonte de alegria da minha vida e vai subindo morro, descendo morro, atravessando montanhas e mares, pois muita gente de longe gostaria de vir.
Hoje recebi uma mensagem de uma turma de professores de Goiânia, mas infelizmente não tenho a data que eles e elas desejavam. Porque também recebo turma de professores.
Nosso Clube de Leitura , que é um desdobramento do Café, Pão e Texto, vai receber em outubro, um convidado que vem direto de Salvador para cá.
E assim, me transformo em Ícaro sem deixar que minhas asas se derretam ao sol, me transformo em chuva benfazeja, em gota de orvalho, me transformo em árvore e semente. De pura felicidade. Não há nada melhor do que doar felicidade.
E talvez aconteça algum Café, Pão e Texto por aí.  O Café, Pão e Texto Itinerante . Quem sabe...
 

domingo, 11 de setembro de 2016

O QUE SOMOS

Não há nada que me comova mais do que o destino das crianças refugiadas.
Em outro país, geralmente hostil, outra língua, geralmente afastados da constelação que era a sua família, muitas vezes longe da mãe. como uma criança pode aguentar tanta dor?
Vi a foto de uma criança que tampava os olhos da sua boneca para que ela não visse a guerra.
Essa foto, junto com a do menino morto na praia, nos diz o que somos: a triste espécie humana.
E ao mesmo tempo, capazes de acolher, ajudar, consolar, amar.
Como resolver este enigma?  

terça-feira, 6 de setembro de 2016

POESIA É FICÇÃO?

Ontem conversando com Roger Mello , ele me diz, "...você que escreve ficção..." e eu disse, mas Roger, eu não escrevo ficção, um conto ou outro, mas escrevo mesmo é poesia."  E ele me responde:
"Mas poesia não é ficção? Tudo o que se inventa é ficção!"
Achei genial, porque ficamos presos a determinadas fórmulas e quando penso ficção não penso em poesia, mas em contos, romances, novelas. E aí vem o Roger e derruba tudo com um sopro.
Escrevo poesia, que também inventa mundos e sensações. Pronto, concordo, poesia também é ficção.
E então um poema do Borges, que realmente escrevia ficção e que oferece o ouro da sua poesia:

A UN GATO

No son más silenciosos los espejos
ni más furtiva el alba aventurera;
Eres, bajo la luna, esa pantera
que nos es dado divisar de lejos.
Por obra indescifrable de un decreto
divino, te buscamos vanamente;
Más remoto que el Ganges y el poniente,
tuya es la soledad, tuyo el secreto.
Tu lomo condesciende a la morosa
carícia de mi mano. Has admitido
desde esa eternidad que ya es olvido,
el amor de la mano recelosa.
En otro tiempo estás. Eres el dueño
de un ámbito cerrado como un sueño.

Jorge Luis Borges - Obra Poética

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A ÁGUA DA ALEGRIA

Nas segundas feiras há que lavar o rosto com a água da alegria,para que a semana comece a funcionar.
Fiz então um poema:

A ÁGUA DA ALEGRIA

Abro os olhos
e deixo que a manhã,
luz por luz,
entre no quarto,
retire a noite
e suas teias
do meu corpo.
Mais um dia
nessa longa lista
de partidas
e chegadas.
Lavo o rosto,
nas mãos em concha
a água da alegria,
coo se fosse um rio.

Poema inédito.

domingo, 4 de setembro de 2016

GUAXUPÉ

Preparo a viagem para Guaxupé, Minas, onde sou a poeta da Feira Literária.
Parto amanhã e adoro aeroportos, repito com o Bandeira: "O aeroporto em frente me dá lições de partir."
É muito bom levar na mala uma cidade desconhecida e acontecimentos que ficarão na memória.
Já sei que a cidade está me recebendo com muito amor:
"Qualquer espécie de amor já e um pouco de saúde, um descanso na loucura." Nos diz Guimarães em Grande Sertão.
Setembro já navega em águas luminosas, cheia de encontros e viagens.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

CLUBE DE LEITURA DOS CAJUEIROS VERMELHOS

No ano passado recebemos a visita em nosso Clube de Leitura da Professora Zete, de Ribeiro do Amparo, interior da Bahia.
Ela passou uns dias aqui em casa e me falou do seu sonho de também fazer um Clube de Leitura.
Agora ela me oferece a bela notícia: seu Clube já vai começar com 10 pessoas.
O primeiro livro será O Pequeno Príncipe.
E ela me pede um nome pro seu Clube, já que sou a Madrinha.
CLUBE DE LEITURA DOS CAJUEIROS VERMELHOS.
Que o Clube incendeie Ribeiro do Amparo e inunde a cidade com o mel dos livros e faça muitos novos leitores.
É o meu desejo.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

EM ESTADO ALTERADO DE POESIA

Há uma maneira de viver que faz a vida mais interessante.
Há que viver em estado alterado de poesia.
Muita gente já disse isso. Filósofos e poetas. Ferreira Gullar sempre diz isso. A palavra mágica é ASSOMBRO.
O que o dia de hoje vai colocar na minha porta?
Quando eu era criança o leiteiro deixava uma garrafa de vidro de leite que eu achava linda.
Ás vezes a vida nos traz garrafas maravilhosas, às vezes com um gênio dentro.
Outras vezes um pão duro e seco, que mal desce pela garganta, com vidro moído dentro.
Mas caminhar com o olhar de assombro ajuda a receber a vida em todo o seu não sentido, em todo o seu caos.
E de onde menos se imagina, um poema salta feito peixe dourado, reluz.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

EQUILÍBRIO PRECÁRIO

Nós, seres humanos, temos uma auto estima tão frágil, seu equilíbrio, em nossas mãos é tão precário. Às vezes se desvanece diante de nossos olhos.
Então nos desmanchamos.
Se somos assim, adultos, imaginemos as crianças.
Eu me lembro, na minha infância, de professores cruéis.  Um grito, uma palavra deslocada, bastava para me deixar aniquilada.
Os tempos mudaram, as escolas mudaram, mas todo o cuidado com a criança é pouco.
A auto estima se fortalece com a criação, com tarefas que amamos.Quando somos reconhecidos.
Dar esse espaço para a criança é fundamental. Abraçar é fundamental.

DESEJO DE ABRAÇO
Desejo de abraço
nunca passa.
Abraço é o nó mais delicado
que há.
Um braço aqui e outro lá
e o coração se derrete,
o corpo afunda na mais
gigantesca felicidade.
in Poço dos Desejos, Ed. Moderna


domingo, 28 de agosto de 2016

AGOSTO

Gloria Kyrinus , minha amiga poeta, me pediu um poema sobre o mês de agosto, perguntou se eu tinha algum. Era para a sua Oficina Lavra Palavra.
Eu não tinha,
Mas respondi: _ Faço um agora.
Respirei profundamente o ar de agosto e fiz o poema.

AGOSTO

Agosto
prepara seus ventos,
seus alvoroços,
redemoinhos
de sonhos e flores
para guardar
em cofres e canastras,
malas de madeira
do passado
cheirando a sândalo.
Agosto prepara
as sementes
de uma primavera
ainda adormecida
no horizonte.
Agosto prepara amores.

Gloria me conta: A oficina foi um sucesso. As pessoas ficaram muito emocionadas em saber que o poema foi escrito para elas.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

COISAS SIMPLES

Se a vida é por um triz, se a vida é um sopro, se é na corda bamba, se somos equilibristas entre a vida e a morte, por que desperdiçar o tempo fazendo o que não se ama?
O tempo é só o que temos e somos feitos de tempo e luz.
Se a vida não tem roteiro e vem um vento e vira tudo, para que acumular tanto, exibir tanto, se para estar vivo basta respirar? Se para estar vivo basta mergulhar no próprio tempo e no amor, já que também somos feitos de amor?
Somos tão frágeis, tecido que se desmancha, somos tão fortes, liana, corda, elo com o outro.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

SEGUNDA FEIRA

Um amigo uma vez me perguntou o que eu faço nas minhas segundas feiras.
Eu adoro  qualquer segunda feira. Porque pressupõe uma primeira que eu não sei onde fica. Talvez em Pasárgada?
Hoje, segunda-feira, posso ouvir o moinho do tempo, movido a ventania, a sudoeste, moendo folhas e pensamentos.
Bem cedinho fiz bicicleta ergométrica olhando o mar de ressaca. Fui ao Pilates. Fui ao Banco. Fui ao Correio. E me sentei no boteco na frente da Lagoa para um pingado e contemplação.
Fiquei muitos dias ausente e agora vou aos poucos retomando contato com o trabalho. Mas a fábrica de poesia não parou nem um dia. São os fios da vida que organizam o seu funcionamento, faça dor ou alegria.
No dia 1 de setembro recebo a primeira escola nesse meu retorno. E me preparo para a Feira Literária de Guaxupé. Tudo isso cabe nesta segunda feira de frio.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

CAMINHANDO POR BOTAFOGO

Estou no Rio, na cidade que já foi minha.
Caminho por Botafogo.
Minha paixão são as vilas. Elas possuem uma maneira tão delicada de falar comigo que quase choro. Sou transportada.
Encontro casarões maravilhosos.
E alguns nichos do passado.
Paro num sapateiro. Numa loja muito velha, com um chão gasto de azulejos hidráulicos, dezenas e dezenas de sapatos se esparramam, se amontoam, esperando a sua vez de serem consertados, pregados, martelados, transfigurados.
Por onde já terão caminhado esses sapatos e que ruas ainda irão percorrer cada um com sua música?

terça-feira, 2 de agosto de 2016

EM SAQUAREMA

Voltar para casa em Saquarema é receber o mundo inteiro de uma vez só, junto com o mar , o jardim, as gatas. Porque sou casada com Juan Arias, jornalista, e em suas veias correm notícias junto com seu sangue.
Vivemos um tempo em que saber de tudo quase nos asfixia e tento me proteger como posso para não me desmanchar .
Enquanto o mundo pulsa em nosso corpo, cresce em nós, como uma planta carnívora, a sensação de impotência.
Penso que trabalhar no pequeno ajuda, pequenos gestos, pequenos atos de escuta e solidariedade, fazer a vida de quem está perto da gente um pouco mais fácil, levar alegria para quem a gente pode.
Quando tenho tantas solicitações que quase me afogo, paro tudo e respiro. Muitas vezes nos esquecemos de respirar.  
Fiz uma opção de vida. Moro numa cidade muito pequena. Acho que as grandes cidades trituram as pessoas.Mas quem não pode sair tem que buscar e construir seus espaços de leveza, leitura e contemplação.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

NEBLINA

Hoje aqui na montanha o tempo virou. Amanheceu com neblina, uma poeira de irrealidade sobre todas as coisas.
Os dias escorrem e logo, feito a neblina que se dissipa, estarei em Saquarema, na minha outra vida, recebendo escolas, planejando encontros.
Esse tempo que passo aqui com a família é um grande tesouro. O que carrego para onde vou. O meu escaravelho dourado.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

E O SOL?

Frio. Quem sabe estou na Polônia, na aldeia do meu pai, quando ele era criança e rezava por um raio de sol.
O sol desapareceu.
Cozinho na lenha. Acendo a lareira. Leio. Escrevo.
O tempo vai se enrolando-desenrolando, aqui na montanha: teia de alumbramentos.

terça-feira, 19 de julho de 2016

GABRIELA

Tenho duas vidas e duas casas. Uma no mar e outra na montanha.
Na montanha é onde me encontro com os filhos e netos. Este mês de julho estou aqui, com a minha família.
Ontem trouxemos minha neta Gabriela para passear em Maringá (Visconde de Mauá é cheia de vales). Seu sonho de consumo é a loja de chocolate.
Enquanto a família se instalava num café, fomos nós duas caminhar. Gabi é falante e adoro seguir o curso do seu rio de pensamentos. A sua última moda é dizer "nem pensar" quando não quer alguma coisa. E meu neto Luis ensinou e ela repete como um mantra: "eu sou doida, eu sou doida, eu sou muito barulhenta". " Ela vai fazer três anos em novembro e não tem medo de nada. Adora atravessar a ponte e vai falando com todos os cachorros e deixa que eles cheirem a sua mão. Adora olhar o rio lá embaixo. Eu vou tentando olhar o mundo com os seus olhos.
A relação da Gabi com gatos, cachorros, cavalos, é emocionante. Todos os dias ela dá maçã ao Merlin, o cavalo do sítio (ele tem quase quarenta anos). Sabe colocá-la na terra a uma distância segura para que ele venha pegá-la. O Merlin é apaixonado por ela e deixa que ela monte a pelo.
Não existe dádiva maior do que uma criança poder viver a sua infância dentro da natureza.

domingo, 17 de julho de 2016

CLUBE DE LEITURA NA MONTANHA

No dia 16, sábado, minha pequena casa no alto de uma montanha, em Visconde de Mauá,  quase explodiu de poesia.
Uma vez por ano, no inverno nos reunimos aqui. Para sentir frio, para celebrar a vida e a literatura, com comida e vinho.
Verdade que ontem o inverno não apareceu. Fazia até um pouco de calor.
Começamos com os dois poemas dos dons do Borges e seus acordes maravilhosos fizeram com que a emoção envolvesse a sala e cada um de nós.
Lemos em voz alta o conto O Outro do Borges e Suzana Vargas falou sobre a diferença entre literatura fantástica e do absurdo e todos falamos dos nossos "outros", os que nos habitam desde a mais longínqua infância.
Falamos de Clarice e seu magnífico conto Felicidade Clandestina. Do conto como um rito de passagem. Da crueldade infantil, da crueldade do ser humano, da bondade. Da relação erótica que o leitor apaixonado tem com os livros que lê. Cada um falou de que maneira toca o  livro.  Ana , como bibliotecária do Sesc Teresópolis, falou do ciúme que tem dos livros que empresta.
Passamos para Teibele e seu Demônio do Bashevis Singer , conto delicioso, saboroso, triste e alegre, o "demônio" que sabe tocar Teibele, com suas carícias e histórias, que a desperta para o amor.
E A Balada de Adam Henry , de Ian McEwan, com o Clube cheio de advogados, Chico, Hélio, André, Christiane e um médico,Dr. José Augusto Messias, foi uma discussão maravilhosa .
Durante o almoço os advogados continuaram discutindo a questão de não se poder fazer transfusão de sangue em Testemunhas de Jeová. E Messias relatou vivências terríveis nos hospitais envolvendo esta questão.
O meu filho Chef André Murray preparou uma feijoada e nos cedeu uma funcionária, a Lurdinha, para ajudar .
Como num teatro, transformamos todos juntos a sala num restaurante para vinte e duas pessoas, pois chamei amigos daqui e a família para comer com a gente.
Dani, minha nora Chef confeiteira preparou uma torta sacher de sobremesa. Cantamos parabéns para a Bruna, aniversariante de julho.
E fomos felizes para sempre.
Nosso próximo encontro será dia 8 de outubro e vamos ler Como a Água que Corre, da Marguerite Yourcenar e cada um deve trazer um poema do Murilo Mendes. 

quinta-feira, 14 de julho de 2016

NA MONTANHA

Aqui na montanha os dias escorrem como areia dourada.
Começo a preparar o encontro do Clube de Leitura no dia 16.
Hoje chegam meus primeiros convidados.
Os dias estão esplêndidos e as noites frias e enluaradas.
Eu me alimento com a música das árvores.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

NA MONTANHA

Quando criança amava um livro que se chamava A Fada Menina. Uma menina entrava no buraco de uma árvore e saía no País das Fadas.
Parece que entrei nesse buraco e ... estou aqui na montanha, dentro do bosque.
O frio chegou à noite, de repente. Amo o frio. Amo tudo aqui. Como descrever o cheiro de mato com o cheiro do fogão de lenha aceso e o cheiro do sol, tudo junto?
Dia por dia estarei aqui para receber os amigos, o Clube de Leitura da Casa Amarela, que acontecerá aqui no dia 16.
A felicidade existe.

terça-feira, 5 de julho de 2016

PALAVRAS

Alguém já namorou uma palavra, assim de se apaixonar, de colocar na boca e sentir seu gosto misterioso, colocar no corpo feito perfuma raro?
Poetas são pessoas que se apaixonam por palavras, querem se casar com elas e as convidam para dançar no poema.E para isso o poeta tem que projetar o Salão de Dança, isto é, o poema, mesmo sem ser arquiteto, ou sendo apenas, arquiteto de nuvens e espaços siderais.
As palavras são a música do poeta, cada palavra tem, além do som, mil esconderijos. E é com elas que os poetas fabricam imagens.
Poetas são caçadores de palavras.
A prova disso? O belo poema do Drummond:

O LICOREIRO

O gosto do licor começa na idéia
licoreiro.
Digo baixinho: licoreiro.
Que sabor no som, no conhecimento do cristal
independente de licor-de-leite,
fabricação mui fina da cidade,
segredo da família de Oscarlina.

O licoreiro, vejo-o
delicioso em si, mesmo vazio
à espera de licor, de tal maneira
na forma trabalhada
habita o gosto perfumado
e em cada prisma-luz, se distribui
ao paladar da vista já gozando.

_ Que tem esse menino, a contemplar
o tempo  todo o licoreiro
se dentro dele não há nada?
Meu Deus, esse menino é viciado,
está na pua, só de olhar o licoreiro!

Carlos Drummond  de Andrade. Boitempo.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

PROFESSORAS DE ITABORAÍ NA VARANDA

Hoje a varanda foi transformada numa sala com tapetes e poltronas para receber as Professoras de Literatura das salas de Leitura de Itaboraí de 2016, pelas mãos da Ana Paula Botelho e Rosane Paiva.
Foi um dos encontros mais lindos e impactantes que tivemos aqui.
Li o poema Guardador de Rebanhos do Fernando Pessoa para contar que esse poema fez uma amiga ter a sua filha, uma decisão que foi tomada ao ouvir o poema.
Chorei muito ao ler o poema, quase não podia ler, pois o poema me trouxe para perto a amiga que amo e a sua filha, hoje uma bela mulher e é um dos poemas mais comoventes do mundo.. Contei essa história para mostrar a força de um poema, a força da literatura, que pode mudar o rumo de uma vida.
Mas elas tinham lido meu novo texto Livros e Leitores que está no meu site em formato de e book. E hoje todo o encontro foi pautado por essa evidência: "A literatura é uma defesa contra as ofensas da vida " Cesare Pavese. A literatura salva.
Lemos poemas, um conto, muitas professoras contaram suas mais belas experiências e todas me disseram: "somos amadas nas escolas e ganhamos muitos presentes".
Falamos dos laços que a literatura faz entre as pessoas. Do agradecimento dos alunos por sentir que são acolhidos.
E no final elas me entregaram um texto escrito a partir da experiência da leitura dos Livros e Leitores e chorei outra vez, porque era muita coisa ter um retorno desses.
Eu tive que aguentar tanta dor por tantos anos, que quase não consigo chorar. Um amigo diz que choro por dentro. Que meus poemas são minhas lágrimas. Mas hoje chorei.
Reproduzo um trecho do texto:
" Obrigada por nos oferecer essa linha tênue entre escritor e leitor, a qual, às vezes, julgamos intransponível. A proposta de conhecê-la era isso:permitir esse contato mais íntimo com o escritor.E você nos abre seus textos, sua poesia, a porta da sua casa literal e conotativa, a sua fala, com Café, Pão e Texto e nos alimenta de fantasia e de reflexões sobre a escola, a Literatura, nós.
Nos presenteia com o lindo texto Livros e Leitores, cujo processo de construção da leitora/ escritora vai se revelando  e nos fazendo pensar..
Frases como: A escola sem literatura é cárcere; O trabalho com a literatura não é evento, é formação do leitor; A literatura é a janela; nos permitem ter consciência do nosso lugar de docentes de literatura e de professores que formam.leitores literários, de que podemos abrir a janela e atravessá -la."

Hoje acordei muito cedo para fazer os pães. A mesa tão linda, cheia de iguarias e amor,  só faz sentido quando os meus convidados se aproximam, fazem uma roda a sua volta . Hoje essas professoras maravilhosas.  Como um livro só faz sentido quando é tocado pelos olhos de alguém.
O meu Café, Pão e Texto, nessa manhã me devolveu algo tão grande, como se o mar tivesse trazido todas as suas baleias e cavalos marinhos até a minha porta para que eu pudesse chorar.

sábado, 2 de julho de 2016

NA SERRA CASTELHANA

Existe um lugar aqui em Saquarema, na área rural, o Palmital, que adoro. Toda a área é bela. Há um lago com patinhos e gosto tanto de me sentar na sua beira . Os lagos para mim possuem um grande fascínio.
É um Hotel Fazenda . Não é original, foi construído com material de demolição. A casa é linda e a comida mineira, que fica num fogão de lenha aceso, faz qualquer um perder o juízo. E não termina aí. Os doces de fazenda, o café com biscoito feito em casa... Pena que eles retiraram as redes do segundo andar.
É tudo bem cuidado, é um passeio necessário para quem vem a Saquarema, pois, se pode ir apenas para almoçar ou passar o dia.
Andreia e Elaine nos recebem tão gentilmente que  afundamos em seus sorrisos como numa poltrona macia.
Hoje iremos até la levando dois amigos que adoramos: Gisele, que conheci quando ela era taxista no Rio de Janeiro e nos tornamos muito amigas e Arnaldo, seu marido taxista, que parece um urso. Agora eles moram em Inoã, Gisele faz transporte escolar em Maricá e as crianças a adoram. Acompanho a sua vida e ela a minha. Foi minha escudeira fiel quando em 2010 tinha que ir todos os dias fazer radioterapia. Ela foi um grande apoio. E Arnaldo me leva e me traz e torna qualquer viagem divertida. Como eu adoro histórias e os dois possuem mil e uma histórias para contar, quando estamos juntos todo o tempo é pouco.
Bom sábado para todos.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

ISTAMBUL

Sempre sonhamos com o Oriente. Desde tempos imemoriais. A Turquia, metade aqui, metade ali, sempre me pareceu uma terra absolutamente mágica.
Vi tantos documentários maravilhosos sobre Istambul.
E então, de um segundo a outro, o aeroporto explode com tantas mortes, tantos feridos, tantas vidas e sonhos despedaçados.
Como entender a mente de um terrorista? De um assassino?
São tantas mortes em Istambul e na Síria e na África e no Rio de Janeiro e em Orlando e na França e na Bélgica...
Há um mar de sangue. Um mapa de sangue que se renova todos os dias e refaz o mapa do mundo em outro desenho. Sangue grosso e viscoso de gente inocente.

terça-feira, 28 de junho de 2016

ESCOLA DUCLER

Pela primeira vez recebi uma turma de Ensino Médio em nosso Café, Pão e Texto. Monica Pimentel trouxe a turma do terceiro ano do C.E Ducler Laureano Matos, de Sampaio Correa, Saquarema.
Entre poemas e um conto, conversamos sobre muitas coisas. Os sonhos e desejos de cada um. Sobre violência e paz, sobre o suicídio de dois jovens recentemente em Saquarema, sobre gravidez precoce, sobre amor.
Perguntei a eles se já haviam participado de algum encontro assim e me disseram que não. Eram lindos. As meninas mestiças e negras com seus cabelos naturais, maravilhosos. Não faltaram cachos.O Professor Fábio leu um poema com ritmo de rap, um menino e uma menina leram meus poemas.
Fiz um pão recheado. Bolos. Muito frio e vento. Precisei emprestar alguns xales para as meninas.
Acho que ficamos todos felizes para sempre e eu torcendo para que eles consigam escolher o melhor caminho.