segunda-feira, 24 de agosto de 2009
KIRA E OS 50 MOTIVOS PARA AMAR O NOSSO TEMPO
Dia 22, sábado, noite fria, mas finalmente sem chuva nem sudoeste, recebemos umas cem pessoas aqui em nossa casa para o lançamento do meu livro Kira, ed. Abacatte e 50 Motivos para Amar o Nosso Tempo, ed. Fontanar/Objetiva, do Juan Arias. Numa sincronicidade incrível, o suplemento Prosa e Verso do jornal O Globo publicou uma resenha do livro do Juan. Kira, nossa netinha, a personagem, estava radiante. Sabia que a festa era para ela. Latuf, nosso grande amigo , fez uma performance maravilhosa com os nossos nomes. Fiquei emocionadíssima, era como se eu e Juan naquele momento estivessemos misturados, como uma só estrela. Juan fez um monte de tortillas, durante todo o dia a casa ardia de felicidade, a cozinha febril. Às 19hs em ponto a varanda já estava arrumada, a mesa linda, com todos os pães que fizemos, os queijos, os vinhos. Vieram os amigos e os amigos dos amigos e os amigos dos amigos dos amigos... numa corrente maravilhosa. Então tivemos dois lindos lançamentos em agosto, o do Latuf, com seu belo livro Águas de Saquarema na Casa de Cultura e o nosso, aqui em casa. Um sudoeste de poesia passou por Saquarema.
sábado, 22 de agosto de 2009
LANÇAMENTO NA VARANDA
Ontem passei o dia fazendo pães para o lançamento hoje dos nossos livros, meu e do Juan, Kira , ed. Abacatte e 50 Motivos para amar o nosso tempo, ed. Objetiva. Fiz 12 pães. O sudoeste soprava sem parar acelerando meu coração. A casa quase levanta voo quando o vento vem do mar. Abrimos a casa para os amigos e a comunidade e estamos esperando uma cem pessoas. A idéia é que a festa aconteça na varanda, a casa é pequena para abrigar tanta gente. Choveu a noite inteira. Ouvia a chuva no fundo do meu sono. Levantei às 4:30hs, chovia torrencialmente, tomei café e subi para o estudio para escrever. Hoje pela manhã faremos as tortillas. A idéia é essa: fazermos tudo com as nossas próprias mãos. Agora espero o milagre. O vento pouco a pouco se acalmará, a chuva cessará, e poderemos fazer o lançamento na varanda.
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
FLORES
Flores passeiam
no azul do dia,
fabricam coloridos
silêncios,
como se fossem lenços
de seda e ar.
Jardins, ed. Manati
Kira, minha netinha de estimação, estava em silêncio. Eu perguntei: "Kira, você não quer falar com a vovó?" e ela muda. Então lhe disse: "Kira, me dá uma palavra de presente? Uma só." Ela pensou, pensou e me respondeu: "Flores!"
Ontem revi Cabaret, com a Liza Minelli. Como se pode fazer um filme tão perfeito? O filme é de 1972 e eu o vi no cinema assim que chegou ao Brasil. Nunca o havia revisto. O filme é totalmente eterno, nada envelheceu. As melhores cenas ficaram gravadas em mim como se tivesse visto o filme ontem. Foi uma grande felicidade.
Hoje chove. As flores agradecem. Está lindo o dia.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
NO MUNDO DA LUA
Vou inventar uma rua
onde se pinte e borde
se faça e aconteça
se cante e dance
se plantem corações
uma rua onde todos vivam
no mundo da lua
No mundo da lua, ed. Miguilim/Ibeppe
Transformar o ambiente em que vivemos, a rua, o bairro, a cidade, é tarefa das mais prazerosas. Na minha casa construimos um bosque onde plantamos corações. O vento sopra todo o tempo e balança as redes na varanda , convida os amigos. A casa está sempre perfumada, com cheiro de alecrim, pois todos os dias fazemos pão. Aqui fabricamos poesia diariamente e fazemos alquimia com as pessoas. Viver a vida ludicamente , como as crianças. Ontem fui ao mercado com minha neta Kira, ela levava uma bolsinha pendurada no carro da boneca e de repente parou, abriu a bolsa e tirou uma flor lá de dentro, toda murcha e amassada, me ofereceu a flor, toma vovó, para você! olha que flor linda. Fizemos um jardim na praia e logo o vizinho nos imitou e o vizinho do vizinho. Nosso bairro se chama Gravatá, que em tupi designa uma espécie de bromélia. Saboreio o nome , uma bromélia floresce em minha boca. Na esquina da nossa casa há um mercado, um bar, uma farmácia (a farmácia da Moisés, onde se pode comprar fiado e botar na conta), um ponto de ônibus. O bar coloca as cadeiras na calçada para que as pessoas se sentem para esperar o ônibus. Um gesto simples que aproxima as pessoas. Enquanto se espera, se conversa. Há uma academia de ginástica e uma lan house. Gatos e cachorros convivem amorosamente. A rua que desce na esquina do mercado leva o olhar até a lagoa. Bicicletas passam e nos acalmam. Aprendo com o zen budismo: cada momento é único e iluminado.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
NOVA CIVILIZAÇÃO
Estou terminando de ler um livro muito interessante : "El pianista en el burdel" de Juan Luis Cebrián, o fundador do jornal El País. Fala sobre os primórdios do jornalismo e vai caminhando até desembocar em nossa nova civilização, nosso novo mundo virtual. E fiquei muito emocionada quando ele diz que nossas memórias, das pessoas da minha geração (tenho 58 anos) estão ancoradas no mundo analógico. Por isso temos tantas dificuldades em nos mover no universo digital. Claro que faço tudo o que posso para entender. Mas pensar que os jornais em papel tendem ao desaparecimento, os livros dentro de muito pouco tempo serão lidos em outros suportes, que o cheiro maravilhoso do papel, o toque , o tato, tudo isso muito em breve ficará para trás, é difícil de aceitar. E a realidade virtual é uma realidade, o que prova que as realidades são múltiplas e as fronteiras entre elas tão finas...Se penso que foi apenas em 1998 que passei a usar a internet, a me comunicar por correio eletrônico! É muito pouco tempo para um salto tão grande. Tenho um site, um blog, recebo notícias de muitos lugares do mundo. A rede cria redes de solidariedade e nunca se leu e escreveu tanto. Mas tento, com todas as forças, preservar um pouco do meu mundo antigo. Não deixo que a internet me devore. Prefiro ler livros do que ler na tela do computador. Prefiro ler um livro de ensaio como o do Juan Luis Cebrián do que apenas me alimentar com textos da internet. E ainda prefiro ter amigos de verdade com cor, voz e cheiro do que uma rede com quinhentos amigos virtuais.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
FESTIVAL DE OUTONO
SONHO
As idéias para Saquarema estão surgindo. Pensamos num Festival de Outono . Por ser a estação do ano mais bela, a mais propícia para a poesia, com pouca chuva e temperatura amena. Queremos trazer um Ciclo de Palestras de Poesia, Dança e Música. Precisaríamos de uma reforma no teatro Mário Lago ou então de uma grande tenda , como em Paraty. Levaremos o projeto para a Prefeita em nome de um grupo de artistas, jornalistas e escritores Pensamos em utilizar a escadaria da maravilhosa Igreja que temos em Saquarema, de uma beleza ímpar. Em noites escuras a Igreja parece um castelo de conto de fadas. Quem sabe conseguimos o Festival já para 2010? São os sonhos que movem o mundo...
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
IDÉIAS PARA SAQUAREMA
UM GRANDE FESTIVAL DE POESIA ?
A Prefeita de Saquarema, Franciane Mello, nos disse no lançamento do livro Águas de Saquarema do Prof. Latuf, que estava aberta para receber idéias culturais para Saquarema. Latuf, meu grande amigo, anda empolgadíssimo. Já soubemos que em alguns países fazem grandes festivais de poesia que lotam estádios! e Latuf quer algo assim para nossa cidade. Contamos com o apoio do Francisco, procurador-poeta . Saquarema é linda e, no entanto, é um deserto em termos culturais. Não temos nada além dos Festivais de Surf e às vezes alguns concertos de rock. No entanto poderíamos ter concertos ao ar livre com orquestras na escadaria da belíssima igreja, concursos de corais, festivais de dança, de cinema, Saquarema é tão bela toda envolta em águas, que parece um cenário à espera. Quem sabe, agora que Latuf vai se aposentar e terá um pouco mais de tempo livre ele consiga sensibilizar os canais competentes? Ganhariam todos.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
INESPERADO
MARINA SILVA
O inesperado abre suas asas. Marina Silva, brasileira, mulher, negra, profundamente conhecedora da nossa realidade, apaixonada pelas árvores, pela Amazonia, pelo meio ambiente, pela vida, quem sabe será candidata a Presidente da República. Marina tem as mãos limpas e não mente. É verdadeira no que faz e não se deixa intimidar. Juan Arias, meu marido, foi entrevistá-la em seu apartamento em Brasília quando ainda era Ministra. Um apartamento pequeno e simples. Não possui mansões, não tem tesouros escondidos. Talvez Marina seja para o Brasil o que Obama foi para os Estados Unidos. Talvez Marina venha para ajudar a drenar os pântanos, o lodo, a vergonha que cobre nosso país. Por favor Marina, estamos todos tão cansados deste teatro de horrores, venha com o teu coração aberto virar o Brasil do lado do avesso. Quando eu trabalhava para o Proler viajei muito pelo interior do Brasil. É um povo tão lindo, tão limpo, este é o Brasil que todos merecemos. Marina pode nos devolver o verdadeiro Brasil.
terça-feira, 11 de agosto de 2009
UM HOMEM DIFERENTE
EN BUSCA DEL HIJO
Por esta casa sencilla,
de paredes blancas
y agua siempre fresca
en la jarra,
pasan caravanas
de mujeres, locos,
leprosos, videntes,
artistas, pescadores,
enfermos, sabios,
payasos, profetas,
en busca del hijo
que escribe poemas
en el viento...
Maria, esa gran desconocida, ed. Maeva (Juan Arias , poemas de Roseana Murray)
Como judia passei uma vida inteira sem nenhum conhecimento mais profundo sobre Jesus. Jesus é uma figura bastante problemática para os judeus, já que fomos acusados, durante séculos, de matá-lo e a Igreja nunca se lembra de dizer aos seus fiéis que Jesus era judeu, sua mãe era judia, seu pai era judeu. Depois que me casei com Juan Arias, jornalista, escritor e teólogo, ex padre, comecei a conhecer Jesus, sua figura impressionante e iconoclasta e todo o horror que foi perpretado em seu nome é inadmissível. Toda a sua vida foi um manifesto a favor da liberdade e a Igreja que não foi fundada por ele até hoje não admite os diferentes. Juan publicou sábado um artigo no El País , "Por que la Iglesia teme a los diferentes? " onde levanta todas estas questões. Já que Jesus abrigava em suas andanças todos os marginais do seu tempo , por que a Igreja continua a detestar os que não pensam como ela? Porque a Igreja condena os que caminham fora das normas estabelecidas? Que Igreja é esta que faz e prega o oposto do que foi a vida deste profeta louco ?
Aprendi a conhecer Jesus lendo os livros do Juan . Escrevi para seu livro " Maria, esa gran desconocida um poema para abrir cada capítulo" e o que posso dizer é que nenhuma Igreja leva sua vida a sério. Já me dizia um teólogo em Madrid que suas idéias eram de tal maneira revolucionárias que tiveram que criar uma Igreja para combatê-las. Mas o que mais gosto dos seus ensinamentos é quando diz que " chegará o dia em que não necessitaremos de templos senão que adoraremos em espírito e em verdade". Nós somos o templo.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
ÁGUAS DE SAQUAREMA
LANÇAMENTO
Medi(t)ação
Como quem olha a onda do mar
-surpresa que entedia -
vou reparando a espuma dos dias.
Latuf Isaías Mucci
Dia 8, sábado de lua-cheia, a antiga Prefeitura de Saquarema, casa lindíssima, recebeu um mar de gente para o lançamento do livro de poesia Águas de Saquarema do Professor/Mestre/Doutor em literatura, arte e vida, Latuf Isaías Mucci. Latuf estava vestido com um túnica oriental até os pés e era o verdadeiro anfitrião antigo, como o beduíno em seu oásis: para cada um tinha um sorriso e uma palavra especial. Seu livro é lindo, mistura todas as águas de Saquarema, é uma celebração, sua poesia é bela e cheia de humor. O livro é uma grande ode à cidade que escolheu para viver.
Conheci Latuf e imediamente a literatura nos uniu e ficamos tão amigos que não consigo imaginar como passamos uma vida inteira sem nos conhecer. Latuf tem o coração aberto como uma caixa mágica de onde vão saindo as coisas mais inesperadas. Com seus olhos de poeta vai lendo o céu e a terra e nos deslumbrando com o que nos aponta, o que não havíamos visto antes dele. Latuf é um dervixe de alegria e seu livro é assim: alegre e denso.
Medi(t)ação
Como quem olha a onda do mar
-surpresa que entedia -
vou reparando a espuma dos dias.
Latuf Isaías Mucci
Dia 8, sábado de lua-cheia, a antiga Prefeitura de Saquarema, casa lindíssima, recebeu um mar de gente para o lançamento do livro de poesia Águas de Saquarema do Professor/Mestre/Doutor em literatura, arte e vida, Latuf Isaías Mucci. Latuf estava vestido com um túnica oriental até os pés e era o verdadeiro anfitrião antigo, como o beduíno em seu oásis: para cada um tinha um sorriso e uma palavra especial. Seu livro é lindo, mistura todas as águas de Saquarema, é uma celebração, sua poesia é bela e cheia de humor. O livro é uma grande ode à cidade que escolheu para viver.
Conheci Latuf e imediamente a literatura nos uniu e ficamos tão amigos que não consigo imaginar como passamos uma vida inteira sem nos conhecer. Latuf tem o coração aberto como uma caixa mágica de onde vão saindo as coisas mais inesperadas. Com seus olhos de poeta vai lendo o céu e a terra e nos deslumbrando com o que nos aponta, o que não havíamos visto antes dele. Latuf é um dervixe de alegria e seu livro é assim: alegre e denso.
sábado, 8 de agosto de 2009
AMIGOS
RIVKA E JACOB
Rivka é uma iraniana que viveu muitos anos em Israel. Jacob é polonês, judeu, homem cultíssimo e bem humorado. Ela é ceramista e ele foi dono de uma gráfica. Falam muitas linguas e são a favor da paz entre palestinos e israelenses. Rivka acompanha todos os movimentos que unem palestinos e israelenses . Rivka tem uns 70 anos e Jacob já vai fazer 90. São apaixonados. Enquanto ela trabalha em seu atelier de cerâmica em Teresópolis, ele pensa na vida. Estão aqui em Saquarema pois Jacob adora viajar e mudar de ares. Ela me conta dos livros que está lendo, me fala de Sandor Marai, escritor que adoro, Jacob também lê muito. É maravilhoso estar com eles, são uma lição de amor, alegria e vida. Jacob adora ver o mar, os surfistas e me diz: "eu também fazia surf " . Rivka diz que não é verdade, mas não importa, a memória também inventa. E ao ver aqueles homens no meio das ondas o desejo de Jacob de também estar ali, no meio do mar, faz com que ele se lembre do que nunca aconteceu! Gostaria de me lembrar que um dia fui bailarina, pianista, cantora, pintora... tudo o que adoraria ter feito e não fiz.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
NA FAZENDA
FELICIDADES
Pequenas felicidades
passeiam por nossos dias
como joaninhas na palma
da mão,
como um desenho de orquídea
trazido pelo vento.
Para não desperdiçá-las
há que estar sempre atento,
caminhar vagarosamente
pelos contornos da tarde,
encher os bolsos com a areia
dourada do tempo.
Rios da Alegria, ed. Moderna
Levamos Kira, nossa netinha, para passar dois dias numa fazenda em Rio Bonito. Foi maravilhoso tocar a sua felicidade feita de bois, cavalos, galinhas, coelhos, cabras, avestruzes, charrete, piscina, cachoeira... A dimensão do humano para mim é a natureza. Por um tempo nos reencontramos com o que fomos no passado, em outras eras, quando tudo era tão mais simples. O campo me faz bem. Fico totalmente em casa com os cheiros de mato, bosta de vaca, lenha, o vento no final da tarde.
Kira brincou com as crianças e é lindo ver como criança não tem fronteira: ela fala em espanhol , eles falam em português e todos se entendem perfeitamente. Sonho o dia em que o mundo também não terá fronteiras. Todos poderão estar em qualquer lugar, onde a felicidade estiver, sem passaportes, carimbos, pedidos de estadia. Talvez as crianças devessem governar o mundo.
Penso que os artistas são os adultos que nunca se esqueceram da criança que foram um dia.
terça-feira, 4 de agosto de 2009
CHEGADA
MAYA E KIRA
Ontem fui buscar Maya, minha filha de estimação, filha do Juan, e Kira , minha netinha. Vieram diretamente de Barcelona até Saquarema. Depois de um ano, Kira, que fala fluentemente espanhol, inglês e catalão, se lembrava de tudo: do jardim, da casa inteira, das gatas, do Samuel e da Vanda, nossos caseiros. Kira já está uma mocinha, fará quatro anos em setembro. Faremos um grande lançamento aqui em casa do livro Kira, que escrevi para ela e sairá pelo novo selo Abacate, da editora Lê e do livro do Juan "50 motivos para amar o nosso tempo", ed. Objetiva. Ao mesmo tempo estaremos comemorando a vinda das duas, a vida. Depois irei para Granada, Espanha, receber Luís, meu netinho. É tempo de netos. Estou muito feliz.
sexta-feira, 31 de julho de 2009
DESERTOS
CINCO
Percorrer o silêncio do deserto,
sua espinha dorsal
feita de murmúrios, vertigens,
caravanas, o ruminar dos camelos.
Numa noite escura
uma fonte escondida
fabrica sonhos e água.
Desertos, ed. Objetiva
Recebi das mãos do Roger Mello, em 2002, um caderno de viagens, a sua viagem ao Marrocos. Pedi ao Roger que me deixasse fazer os poemas para os seus desenhos. Fiz uma viagem imensa até a minha infância e me deixei conduzir pelas histórias da Bíblia que ouvia, pelas Mil e Uma Noites que lia. Gosto muito do resultado. Numerei os poemas, ao invés de dar um título para cada um. O livro é cheio de espaços vazios, o próprio deserto. A ed. Objetiva copiou perfeitamente o caderno de viagens do Roger. Fomos finalistas do Prêmio Jabuti.
A fonte escondida, no poema número cinco, é a que nos dá o poder da criação. Às vezes há que parar para ouvi-la. É no silêncio que posso recolher a sua água e fabricar os meus poemas.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
JARDINS
Flores alimentam sonhos,
dão de comer aos olhos,
arrumam e desarrumam
formas e cores.
Jardins, ed. Manati
Hoje queria falar do meu quintal. Onde antes só havia areia, quando compramos a casa em 2002, hoje há um bosque, um belo jardim. Gosto de me sentar aí, bem quieta , de manhã, e deixo que minha alma se perca ouvindo os pássaros. As árvores já estão bem grandinhas : seis coqueiros sempre carregados , cravo, canela, limoeiro, goiabeira, louro, graviola, acerola, pitanga, romã, jabuticaba, mulungu, bico-de-papagaio , uma imensa palmeira triângulo, uma areca e um jardim só de cactos. Um flamboyant de flores vermelhas hospeda uma orquídea. Tenho uma pequena horta de temperos. Onde antes só havia areia, hoje muitas vidinhas se agitam, visíveis e invisíveis. O quintal é uma aquarela: hibiscos e buganvílias colorem os muros e o mar faz o fundo musical. Na varanda tenho um fogão de lenha que me conecta com os ancestrais. E o vento que sopra do mar une todos os elementos.
A poesia está em tudo, de vez em quando estico a mão e apanho um poema como um beija-flor em pleno voo.
dão de comer aos olhos,
arrumam e desarrumam
formas e cores.
Jardins, ed. Manati
Hoje queria falar do meu quintal. Onde antes só havia areia, quando compramos a casa em 2002, hoje há um bosque, um belo jardim. Gosto de me sentar aí, bem quieta , de manhã, e deixo que minha alma se perca ouvindo os pássaros. As árvores já estão bem grandinhas : seis coqueiros sempre carregados , cravo, canela, limoeiro, goiabeira, louro, graviola, acerola, pitanga, romã, jabuticaba, mulungu, bico-de-papagaio , uma imensa palmeira triângulo, uma areca e um jardim só de cactos. Um flamboyant de flores vermelhas hospeda uma orquídea. Tenho uma pequena horta de temperos. Onde antes só havia areia, hoje muitas vidinhas se agitam, visíveis e invisíveis. O quintal é uma aquarela: hibiscos e buganvílias colorem os muros e o mar faz o fundo musical. Na varanda tenho um fogão de lenha que me conecta com os ancestrais. E o vento que sopra do mar une todos os elementos.
A poesia está em tudo, de vez em quando estico a mão e apanho um poema como um beija-flor em pleno voo.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
LÁGRIMAS
PALESTINA
" No mais profundo do nosso ser acharemos água e ao nos submergirmos nela, choraremos. Nascemos na água e a ela retornamos. Morremos quando a água seca. O mar é um leito sobre o qual repousa a terra. As lágrimas são o leito sobre o qual os homens repousam. " Elias Khoury
Avanço na leitura do livro La cueva del sol de Elias Khoury e traduzi o pequeno trecho acima porque me comoveu demais. Porque todas as lágrimas do mundo não bastam para narrar a triste saga do povo palestino e vou junto, de aldeia em aldeia, expulsa de todos os lugares. Que história terrível a de povos irmãos que não se reconhecem . Sou judia e tenho um amigo-irmão libanês, Professor Latuf. São tantas as raízes que temos em comum, nossas almas caminham tão juntas, que por mais que busquemos, por mais que se cave a terra para encontrar as razões da exclusão de todo um povo por outro povo que sofreu a mesma coisa, dois mil anos de exílio, inquisição, e um Holocausto, não há razão. Os dois povos poderiam e deveriam viver juntos. Enquanto o milagre não acontece lágrimas cobrem a terra.
terça-feira, 28 de julho de 2009
FRASES TÓXICAS
FRASES AMOROSAS
Uma psicanalista francesa, não lembro o nome, falou (em um programa na TV 5 )sobre frases tóxicas. Aquelas frases terríveis que muitas crianças ouvem: "Você não sabe fazer nada direito"! "Que menina mais desastrada!" "Você faz sempre tudo errado"! "Teu irmão faz tudo muito melhor!"
Essas frases, como um veneno mortal e lento, vão ao longo dos anos agindo em nosso psiquismo, minando nossa auto-estima e nossa imagem interior fica frágil, estilhaçada.
O antídoto? Frases amorosas. Frases que nos empurrem suavemente em direção à vida como um vento perfumado e benfazejo. Frases delicadas, gentis, que nos abram as portas do universo. Frases amorosas que serão o nosso passaporte para a felicidade.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
RECEBENDO VISITAS
CASA DE AMGO
Na casa do amigo
os móveis flutuam
a um palmo do chão.
O ar é mais leve:
em cada recanto
os pássaros tecem.
Na casa do amigo
todas as confidências
são permitidas.
Todas as palavras
são entendidas
tâo facilmente,
que é como água
falando com água.
Na casa do amigo
o coração se alimenta.
Casas, ed. Formato
AMIGOS NA CASA
Preparar a casa para receber amigos é a tarefa mais prazeirosa que há. Dr.Messias, diretor da Unidade de Adolescentes do Hospital Pedro Ernesto e Dra. Kátia, sua mulher, diretora da Casa de Saúde Grajau são nossos companheiros nas alegrias e dissabores. O Messias assumiu a sua cadeira na Academia de Medicina lendo, em seu discurso, um poema meu. Chegaram sexta-feira à noite com duas garrafas de vinho espanhol para o jantar.
O sábado era de chuva e mar escuro, dia de ficar dentro de casa falando dos livros que cada um está lendo, dos filhos distantes, da vida, dos sonhos. Domingo veio Jaime e a linda família colombiana. Ele é diretor da agência EFE no Brasil e sua filha de 9 anos já está escrevendo um livro e comenta todas as notícias do mundo! Juan fez os pães e a paella, pois além de jornalista é padeiro. Os pães do Juan já estão famosos.
Agora estão chegando Maya, a filha do Juan e Kira, nossa netinha. Elas chegam dia 3 de Barcelona. Kira fará 4 anos em setembro e fala espanhol, inglês e catalão. Diz que também fala um pouquinho de português, já que sabe dizer vovô e vovó!
Hoje o dia está lindo, o mulungu continua florido e rodamos a manivela da segunda-feira...
quinta-feira, 23 de julho de 2009
UNIVERSO
GLIESE 581d
Leio no El País um artigo maravilhoso sobre planetas fora do nosso sistema solar. A ciência deu um salto e hoje esses planetas que giram em torno de estrelas, como o nosso, estão sendo estudados. Existem muitos planetas parecidos com a nossa Terra e foi descoberto um , o GLIESE 581d, potencialmente habitável.
A notícia me deixa elétrica. Sempre acreditei não sermos únicos na imensidão do universo. Em algum lugar do firmamento deve existir pelo menos um planeta com um homem melhor do que nós, digamos menos humano, menos violento, mais leve e solidário. Alguns grandes homens e mulheres nos provam que esse tipo de humanidade é possível. Um mundo onde o outro nunca seja inimigo, onde o bem estar de cada um seja tarefa coletiva .
quarta-feira, 22 de julho de 2009
MINHA MÃE
ESPANTO POR ESPANTO
a vida é isso?
essa espera de auroras
boreais
estar a sós com seus
pensamentos
falcões amestrados
em direção ao passado
ao futuro
ao fundo duro
dos abismos?
o tempo não se mexe
penhasco imutável
no oceano das horas
nós é que nos vamos
estranhas marionetes
sem rumo
então a vida é isso
segundo por segundo
estrela por estrela
espanto por espanto
Poesia Essencial, ed. Manati
Minha mãe fez 88 anos em 30 de março e tem um câncer terminal. Ela não pergunta nada, mas acho que sabe. Todos os dias sua vida passa diante de mim como um filme. Os retalhos das lembranças que tenho. Ela vive em Teresópolis e eu em Saquarema. Todos os dias nos falamos pelo telefone e a proximidade de sua morte confere a tudo o que diz uma luz diferente e uma dor. Quando desligo o telefone estou destroçada. Será que deveria ficar feliz porque ainda está viva nesse dia? Então eu a vejo . Ela corria o tempo todo, era elétrica e criativa. Veio da Polônia com quatro anos, mas meu avô, muito esperto, a registrou no Brasil. Sempre esteve na vanguarda do seu tempo. Muito jovem saiu de casa para trabalhar, usava roupas extravagantes e platinava os cabelos. Era linda. Estilista de moda, teve uma butique num casarão antigo onde fabricava seus modelos. Amava jardins e descobriu Saquarema em 1969. Ela mesma fazia o jardim e eu a vejo com tesouras de podar e uma pazinha vermelha nas mãos. Desde que eu era criança ela caminhava uma hora bem cedo de manhã quando ninguém ainda caminhava. Ela adivinhava sempre o que iria acontecer no futuro! Quando se mudou para Teresópolis, pintou a parede do seu quarto de vermelho e fazia todos os cursos que podia na Pro Arte. Era viva e jovem e alegre, mas o seu tempo no palco-vida está se extinguindo. Concordo com o Drummond , mãe não deveria morrer nunca. Para onde irá minha mãe? Sei que estará ancorada em mim para sempre , até que chegue também a minha hora de escolher uma estrela para morar.
terça-feira, 21 de julho de 2009
TRANSFORMAÇÃO
RUA CARUARU
A minha primeira escola ficava na Rua Caruaru, no Grajau, onde passei minha infância. Talvez eu tivesse 3 anos. A babá me levava ou meu irmão, de bicicleta. Eu não gostava da escola. Vomitava na escola, todos os dias. Fiz os 3 primeiros anos do primário na E.M Francisco Manuel, escola pública. Fiz o último ano no Hertzlia, na Rua Maxwell e o ginásio no Colégio Hebreu Brasileiro, onde descobri que sabia escrever. Minhas redações eram lidas em voz alta e faziam sucesso. Em todas as escolas a disciplina era cruel e arbitrária, pairava um desconforto sobre todas as coisas e sempre me senti deslocada. Entre todos os professores apenas uma tocou meu coração com seu carinho e paciência: Rosa Hermann, acho que já não vive mais. Ela interagia comigo e fazia com que eu me sentisse única, especial e inteligente.
Leio um longo artigo publicado no El País, onde se coloca a questão: qual a papel do professor hoje? Na minha época o professor reinava soberano, sobre um pedestal, nos infundia um medo terrível e sabia tudo. Hoje os meninos e meninas lidam com a tecnologia muito melhor do que os professores e a informação e o conhecimento estão ao alcance de todos. O que fazer? Mudar a escola ou voltar ao passado, onde o aluno era punido e respeitava o professor por medo? A resposta para mim é clara: a escola vai mudar. O professor será aquele que orienta, conduz, faz o aluno descobrir seus talentos como fazia a professora Rosa comigo, ao me estimular. Cada ser humano tem um dom e às vezes, coisa terrível, uma vida inteira se passa sem que a pessoa descubra o seu dom. O professor(a) seria um descobridor de dons. Todas as matérias precisam interpenetrar-se, circular livremente umas dentro das outras e a literatura será como a estrela-guia. O professor hoje tem que achar o seu espaço, um novo espaço. E o aluno é agora um parceiro, nós todos, viajantes de um mundo em rápida transformação.
domingo, 19 de julho de 2009
BÚZIOS
UM ALMOÇO COM AMIGOS
Fui a Búzios a primeira vez em 1971. Acampamos com amigos na praia da Ferradurinha, completamente vazia. A estrada era uma aventura. Chegamos de madrugada com lua cheia.
Aquela cidade não existe mais. Andando pela Orla Bardot, lá no final, perto da subida para a Praia dos Ossos, há um eco de Búzios , como o mar dentro da concha. Pescadores, gaivotas, jovens saindo da escola, farejo o passado.
Ontem fomos almoçar com os amigos Nelson e Alba, em Búzios, numa bela casa de 1971, magnificamente restaurada. Conhecemos a Cris, escultora das estátuas de Búzios, crianças e pescadores . Conhecemos Ângela, socióloga, professora da PUC e seu marido. Durante o almoço e depois, conversamos sobre os escândalos políticos, o esgarçamento do tecido social.
O mar , na frente da casa, azul e límpido, contrastava com o mar de lama, o cinismo vigente, tema das nossas preocupações. Mas a pergunta mais inquietante : O que podemos fazer? Nós, pessoas comuns, simples mortais, para que alguma coisa mude, para mostrar nossa indignação?
sábado, 18 de julho de 2009
TAPETE DE PALAVRAS
Recebo um livro da Espanha: La cueva del Sol, do escritor libanês Elias Khoury, ed. Alfaguara. Seu livro ganhou em 2000 o Prêmio Palestina e foi eleito o livro do ano pelo Le Monde Diplomatique. O livro narra as andanças do povo palestino. O narrador é um médico sentado junto ao seu pai espiritual, em coma, num acampamento de refugiados. Sua narrativa é errante também, uma história dentro da outra, ao sabor das lembranças. O médico fala para que o homem não morra. Em certo momento ele diz: " Yo alfombro el suelo con mis palabras para que andes sobre ellas."
Seria essa a função do escritor? Atapetar o chão com palavras? Kafka disse que um livro tinha que ser como um machado para quebrar o gelo do coração do leitor.
Enquanto leio é minha a dor do povo palestino.
Seria essa a função do escritor? Atapetar o chão com palavras? Kafka disse que um livro tinha que ser como um machado para quebrar o gelo do coração do leitor.
Enquanto leio é minha a dor do povo palestino.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
DIVAGAÇÕES
OFERENDA
poesia é o que posso
te oferecer
como um pouco de tempo
claro
no fundo do tacho
como uma estrela de água
escuta: os pássaros
forram a tarde
com seus invisíveis anseios
caminha com cuidado
o chão está armado
em cima de horizontes
tudo pode ruir de repente
essa casa de vento
meu coração
Poesia Essencial, ed. Manati
Hoje o dia está completamente azul. Cedo de manhã leio uma conversa com o escritor mexicano Carlos Fuentes. Ele nos conta que não acredita em inspiraçâo e que escreve diariamente com uma disciplina férrea. Penso que a lavoura do poeta é diferente. Trabalhamos sobre o caos: qualquer coisa faz o poema, um cheiro, uma lembrança, uma sensação. O poema não precisa de tramas, é outra sua urdidura. Quando preciso escrever um poema, sinto um chamado físico, é no meu corpo que o poema nasce.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
FALANDO DE PÁSSAROS E GATOS
FAXINA
dia de faxina
na casa dos pássaros
chuva grossa e chuva fina
vassoura de vento
sabão de neblina
**********************
CASA DE GATO
casa de gato
no canto da rua
mobília de vento
tapete de lua
Falando de pássaros e gatos, ed. Paulus
Hoje chove uma chuvinha miúda, o mundo mais ou menos em preto e branco. Ao abrir a porta da varanda cedo de manhã, a que dá para a montanha, a surpresa : o mulungu havia florescido e suas berrantes flores vermelhas eram a única cor da paisagem.
Em dias assim os pássaros ficam preguiçosos, meio adormecidos em seus ninhos, lendo a natureza. Eu leio Isaac Bashevis Singer, (Amor e Exílio, ed. LPM) ,escritor que amo e ele traz meu pai de volta, sua infância de menino pobre numa aldeia perdida no interior da Polonia. Era tão triste e sofrida a vida dos judeus que meu pai não gostava de nos contar nada. Leio Amor e Exílio e penso na sorte imensa do meu pai ter vindo para o Brasil antes da guerra, na sorte que foi para mim ter nascido aqui. Adoro ser brasileira.
Nana, nossa nova gatinha, foi encontrada na rua, abandonada. A sorte da Nana foi igual a minha: imensa. Ela nos faz rir o tempo todo com suas palhaçadas e eu entendo todos os seus pensamentos.
Publiquei o livro Falando de pássaros e gatos em 1990, Edmir Perroti foi meu editor. Num dos lançamentos do livro, na Biblioteca Pública de Belo Horizonte, alguém me perguntou se eu achava que uma criança entenderia as minhas imagens. As crianças sempre amaram as minhas imagens e cada dia recebo mais e mais provas de que uma criança conhece muito bem um sabão de neblina e um tapete de lua!
sexta-feira, 10 de julho de 2009
CAFÉ LITERÁRIO
A PROFESSORA
Com sua lanterna de abrir o céu,
de iluminar as profundezas do mar,
a professora soletra nosso pequeno
coração.
E todos os dias,
diante de nossos olhos
assombrados,
ela costura o passado e o futuro,
desembrulha
os segredos do universo.
Artes e ofícios, ed. FTD
Quarta-feira passada, dia 8 de julho, tivemos nosso Café Literário. Aguardo ansiosa a crônica do Professor Latuf, o nosso escriba oficial, porisso deixo para ele a tarefa de contar tudo o que aconteceu aqui na bela manhã de julho. Mas queria falar da felicidade que sinto quando vejo professoras e alunos misturados, envolvidos com o texto. Mais uma vez contei do livro que estou terminando de ler, A sociedade literária e a torta de casca de batata, de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows, ed. Rocco. A sociedade literária do livro foi formada por não leitores, não vou contar o motivo, deixo para vocês descobrirem lendo o delicioso livro. Mas, este fato confirma a minha intuição de que criar Clubes de Leitura nas escolas para os professores seria uma maneira maravilhosa de incentivar a formação de novos leitores. Um professor(a) leitor(a) faz toda a diferença. Estou tentando passar a idéia para a Secretaria de Educação aqui em Saquarema, eles são incríveis e acreditam nas boas idéias. Uma aluna falou aqui na roda de leitura: "ler para mim é coisa sagrada" ! Um professor apaixonado passa adiante a sua paixão. Imagino que as escolas poderiam criar os Clubes de Leitura e fazer um jantar no final de cada mês para que todos discutissem juntos os livros lidos. Comida faz com que os afetos circulem.
Hoje, com toda a tecnologia, o papel do professor é ser parceiro, é ir junto, é abrir o coração dos seus alunos para a criação, o pensamento e as emoções. Ontem o Colégio estadual Oliveira Viana me chamou para uma homenagem , em Bacaxá, Saquarema. Leram vários livros meus e fizeram interferências nos meus poemas, declamaram dramatizando, pintaram telas, etc. Mas o que me contou a professora me deixou muito emocionada: eram alunos da nona série, já adolescentes, e no começo não conseguiam entender os poemas, mas de repente, com a ajuda da professora, leitora apaixonada, entraram na poesia, uma porta se abriu e o que aconteceu foi um jorro de emoção, uma catarsis. Foi uma avalanche de sentimentos. Só uma professora leitora, cuidadosa , parceira e paciente, poderia ter conseguido o milagre. Sai da escola com uma bromélia lindíssima, poema vivo, presente maravilhoso, e a certeza de que a poesia acende nossos corações.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
CAMINHO PEREGRINO
PEREGRINOS
Lá vão os peregrinos, os loucos,
passo por passo
em busca do possível:
um pouco de água clara
no oco das mãos,
um fio prateado de lua
para costurar os sonhos,
uma toalha feita com o brilho
de todos os olhos
para forrar a mesa
onde se comerá
o fruto permitido.
Rios da Alegria, ed. Moderna
Tenho a casa cheia de hóspedes e de alegria: minha irmã Evelyn, seu namorado que veio do México, Luis Mérigo que me trouxe uma cerâmica linda de sua autoria, Manuela, de quem sou fada madrinha e que saiu de casa para começar uma vida nova, irá viver em Teresópolis. Minha casa está sempre aberta a todos os ventos, os ventos da poesia, e ontem , dia do Café Literário, o carteiro me trouxe um livro lindíssimo: o catálogo da artista plástica Cristina Oiticica, Caminho Peregrino. A idéia da Cristina é linda, o conceito é maravilhoso: ela enterra as suas telas, para que a natureza pinte junto com ela. O resultado é impressionante, os quadros são tão belos que o coração quase não aguenta. No livro-catálogo ela nos conta toda a preparação , as telas foram enterradas no Caminho de Santiago, ela conta como nasceu a idéia de enterrar seu trabalho neste caminho pisado por milhares de peregrinos, neste caminho sagrado. Cristina diz que a energia feminina guia sua criação, portanto nada mais coerente do que pedir que a terra trabalhe junto com ela. Cristina divide com seu leitor espectador a feitura de cada tela, divide todo o seu processo de criação e faz uma espécie de diário de tudo o que ia acontecendo enquanto selecionava os materiais, produzia, enterrava, a natureza o tempo todo atuando junto, sol e chuva, raios e trovões.
desde 2002 Cristina e a natureza são parceiras e sua sensiblidade é mágica. pena que o catálogo não esteja accessível a todos. Cristina conta que sempre encontrava uma mão amiga para ajudá-la e que é essa teia que nos leva sempre adiante. O resultado da caminhada de Cristina é que saimos transformados por tanta beleza. E descobrimos que somos todos peregrinos em busca do possível. Somos todos peregrinos costurando os sonhos.
terça-feira, 7 de julho de 2009
PEDRA
POESIA
Juntar cisne e pedra
caminhar pela existência
com esse talho na garganta
no redemoinho das horas
um barco e nas mãos
um punhado de aurora
um poema se faz
com o avesso das águas
Pássaros do Absurdo, ed.Tchê
Em Paraty tive o privilégio de ouvir ATIQ RAHIMI, o escritor afegão que ganhou o Prêmio Goncourt 2008. Já havia lido seus dois livros publicados anteriormente no Brasil. Livros tristes e impactantes. Seu novo livro, o que ganhou o Prêmio, "Pedra-de paciência" , é uma idéia lindíssima: existe uma pedra para quem se pode contar tudo, uma pedra mágica, e num determinado momento, quando a pedra já está saturada, ela explode. Atiq escreve como poeta, ele mesmo disse que no Afganistão a tradição é oral e que foi criado ouvindo poesia. Ele fala poesia. Realmente junta cisne e pedra. A sua escrita é límpida, delicada e o que ele está contando é tão violento que quase não se pode suportar. Além do marido que em coma tudo ouve, nós, leitores , também somos a pedra e a qualquer momento poderemos explodir, já que não existe medida para os lamentos e confissões da mulher afegã, não existe limite para o seu sofrimento. O texto é cinematográfico até arrebentar no final. Em tão poucas páginas todo o sofrimento, a humilhação da mulher afegã se desenrola diante de nossos olhos atônitos. A intervalos irregulares ela limpa os olhos do homem em coma e é como se também nossos olhos precisassem dos cuidados da água para prosseguir, tamanha a crueldade do que se passa no Afganistão com as mulheres, tamanho o horror da sua realidade.
Como pode existir nos dias de hoje tanta opressão? Quantas pedras mágicas serão necessárias para que as mulheres esmagadas ainda possam continuar vivas?
Que um dia Atiq Rahimi possa escrever apenas cisne, apenas a beleza das tardes e do vento e a mulher afegã possa cantar.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
AGRADECIMENTOS
JARDIM
Infinito é o jardim
das delicadezas,
semeado desde
o primeiro dia do mundo.
Há que alimentá-lo,
hora por hora,
com palavras e gestos
e pedaços de alma.
Há que ser incansável
jardineiro:
para este jardim
cada sorriso é um sol.
Manual da Delicadeza, ed. FTD
Paraty foi um acontecimento onírico. Foi um prêmio ter sido convidada .
Queria agradecer a todos da Flipinha que me receberam como se recebe uma orquídea: me senti acolhida e amada.
Queria agradecer a Bia Hetzel e Silvia Negreiros , minhas editoras, que entendem de delicadezas e literatura e gatos como poucos na face da Terra e me levaram pela mão.
Queria agradecer a Geruza, que veio de Salta, na Argentina, para estar comigo e me ajudou a caminhar pelas pedras de Paraty com toda a delicadeza.
Queria agradecer ao Marcos que dirigiu soberbamente e fez a viagem mais leve com suas histórias e seu bom humor.
Queria agradecer aos alunos da Professora Aline Bonifácio da E.M Professora Marina Salete pelo delicioso livro de receitas caiçaras que prepararam para mim.
Queria agradecer ao Carlos Dimuro que durante tantos anos tem sido um amigo fiel e embora não estivesse comigo em Paraty era como se estivesse.
Queria agradecer ao Bartolomeu Campos de Queirós por ter escrito um Manifesto pela Leitura tão lindo, por estar vivo, por nos deixar ouvir sua voz.
Queria agradecer ao Juan, meu grande amor, por existir e estar aqui com um belo almoço preparado para a minha chegada .
E falar da minha grande felicidade: agora as escolas de Paraty terão uma Roda de Leitura na grade, durante uma hora por semana, inspiradas na experiência de Saquarema.
Queria agradecer a Violeta Parra por ter escrito gracias a la vida que me ha dado tanto...
quarta-feira, 1 de julho de 2009
PARATY
UM BEIJO DOURADO
Um beijo dourado
varre o corpo com luz,
ilumina o céu.
Arabescos no vento, ed. Prumo
Conheci meu marido, Juan Arias, em 1994, quando eu ia para Sevilha, na Espanha, receber meu prêmio, entrar para a Lista de Honra do I.B.B.Y.
Nos sentamos juntos no aeroporto do Galeão. Ela estava voltando depois de uma longa estadia em Mato Grosso para uma reportagem com os índios Tapirapés. Em cinco minutos me contou que trabalhava no El País em Madrid. Fui convidada para conhecer seu jornal quando soube que eu era escritora. Marcamos um dia e uma hora, já que eu iria a Madrid. Fui ao jornal, deixei meus livros e parti. Juan fez uma matéria sobre duas irmãs analfabetas em Mato Grosso que começaram a estudar com mais de 70 anos e na matéria entrava um poema do Classificados Poéticos e ele falava sobre a minha poesia. Juan se apaixonou pelos meus poemas e começou a me escrever. Foi uma longa correspondência sem internet. Cartas cruzavam o Atlântico com poesia brasileira, poesia espanhola. Comecei a estudar espanhol. Em 1997 ele veio ao Brasil para se encontrar comigo. Eu o levei imediatamente a Paraty. Nos apaixonamos pelas ruas, pela luz, pelos telhados cheios de bungavílias, pelas árvores, por cada pedra, pelo mar . Nos apaixonamos tão perdidamente um pelo outro que fui morar em Madrid e depois Juan veio para o Brasil . Voltamos a Paraty muitas vezes, ele fez uma matéria linda para a Revista de Domingo do El País com fotos de Morgana, a filha do Vargas Llosa.
Hoje vou para Paraty sem o Juan, pois ele anda muito ocupado com o jornal e não pode sair da sua mesa de trabalho. Sou convidada da Feira Literária , o que me enche de orgulho e um certo medo. Confesso que sou da tribo dos bichos do mato. Não gosto de muita gente. Mas acho que vou encontrar tantos amigos que posso ficar tranquila.
Estarei de volta ao blog no dia 6 de julho. Até lá.
terça-feira, 30 de junho de 2009
SINAIS DO MAR
GAIVOTAS
Gaivotas em sua rota
de sal e ar.
Gaivotas mergulham,
abre-te-sésamo
e abrem o mar.
O mar e os sonhos
ed. Miguilim/Companhia Editora Nacional
Moro na frente do mar e em 1996, quando ainda vivia na montanha e nem sonhava com Saquarema, escrevi o livro O Mar e Os Sonhos que foi publicado pela ed. Miguilim com ilustrações de Elvira Vigna. Sempre fui um ser da montanha e na verdade nem sei porque escrevi o livro. Talvez fosse uma premonição. Não foi fácil para mim conviver com um Atlântico imenso e bravio que todos os dias ruge na minha porta e faz a casa estremecer. Não foi fácil aprender a sua lingua nem conviver com o sal, a ferrugem e entender o sudoeste. Hoje amo o mar. É meu aliado. Basta sentir seu cheiro que já sei que tempo o mar me trará, se sol ou chuva, se passado ou futuro.
Recebi um lindo livro de poemas sobre o mar da Ana Maria Machado: Sinais do Mar da ed. Cosacnaify. Durante muitos anos Ana ouviu o mar e seus segredos e foi escrevendo os sinais que chegavam até a porta do seu ser. É seu primeiro livro de poesia: é sonoro, musical, azul. A edição é belíssima. Assim como ao longo dos anos Ana foi pescando os sinais do mar, agora seu livro nos envia os sinais de Ana. Nós que escrevemos, como um farol solitário , que coração traduzirá nossos versos de espuma e nuvem?
segunda-feira, 29 de junho de 2009
A CHAMA DAS PALAVRAS
AREIA DOURADA
Tudo é permitido
quando se carrega no bolso
um punhado de areia dourada:
o encontro de peixes e pássaros.
Na ciranda da vida
passe adiante o anel,
a chama das palavras
e dance ao som da Via Láctea.
A Terra gira no céu,
somos todos bailarinos.
Residência no Ar, ed. Paulus
Querida Roseana:
Não consigo colocar o cometário lá no seu blog! Será que você consegue postar para mim? Beijos, Paulo
Querida Roseana, como sempre, você faz com que a delicadeza vença qualquer barreira. tenho muito orgulho de ser seu amigo. Um imenso beijo, um beijo no Juan da minha parte. Paulo Coelho.
No dia 26, sexta-feira passada, o jornal El País pediu ao meu marido, Juan Arias, correspondente do jornal, que localizasse Arash, o médico iraniano que foi salvo pelo Paulo Coelho. Juan escreveu para a mulher do Paulo, Cristina, para que ajudasse. Escreveu para o Paulo. Ele respondeu imediatamente e passou o telefone e o e-mail do médico que já estava em Londres com a esposa e o filho. No dia seguinte, o jornal pedia uma entrevista com o Paulo Coelho, pois o seu gesto comoveu o mundo. Novamente Juan escreveu para o Paulo. Ele retornou: "me telefone agora" . Conversaram e Juan enviou as perguntas por e-mail. Na entrevista Juan perguntou ao Paulo se ele não teve medo de ajudar. O que eu adoro no Paulo é a sua sinceridade, como não esconde a sua fragilidade humana que é a de todos nós. Ele respondeu que sim, teve medo, mas tinha que salvar o seu amigo. E quando ele, Paulo, falou com a esposa de Arash e perguntou se ela estava com medo, ela disse : sabemos que a liberdade tem um preço.
Na entrevista Paulo mostrou a sua preocupação com o amigo: seu visto venceria dentro de um mês e ele não estava conseguindo renovar o visto, isso sim seria um problema gravíssimo.
Pois bem, depois da entrevista publicada soubemos que três países já haviam se oferecido para dar um visto ao médico e sua família. A entrevista é realmente emocionante e quem quiser pode ler no El País digital de domingo, buscando em Internacional: http://www.elpais.es/
Pedi ao Paulo que lesse a minha crônica De Mãos Estendidas aqui no blog e ele respondeu no e-mail que reproduzi acima, pois por algum problema não conseguiu postar um comentário.
Vivemos um momento privilegiado. Paulo viu a imagem do seu amigo tentando salvar Neda, a mártir iraniana, através de um video feito com um celular postado no youtube. Assim pode salvá-lo pois a polícia já estava tentando prendê-lo. Muitas pessoas de muitos países leram a entrevista do El País e o médico já terá o seu visto. A chama das palavras está acesa . Não se pode amordaçar um ser humano quando carrega no bolso um punhado de areia dourada.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
AMOR, ORVALHO, VENTO
CLAREIRA
Dentro do coração
desenho uma clareira
varrida de luz:
aí desdobro os mapas,
arrumo as bússolas
e todos os instrumentos
para velejar no ar.
Iço as palavras
"amor", "orvalho", "vento"
e recolho as âncoras.
Meu corpo,
livre de toda a gravidade,
já pode voar.
Residência no Ar, ed. Paulus
Dr. José Augusto Messias é Diretor do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente da UERJ, mas para mim é muito mais do que isso: é mais do que um irmão, mais do que um amigo. Esteve comigo em todos os momentos, os melhores, os piores. É como o meu anjo da guarda. Para ele, a clareira dentro do meu coração, varrida de luz. Várias vezes salvou a vida do meu marido Juan Arias, é médico dos meus filhos, de toda a família. Grande leitor, aberto, cheio de vida, entusiasmado por tudo o que é humano. Singular, único, ímpar. Dia 23 foi publicada uma matéria sua no Jornal do Brasil sobre a violência em casa, e ele nos diz que às vezes começa com uma simples palmada educativa ou corretiva como se bater nos filhos fosse uma maneira de educá-los, mas ele alerta, a diferença entre essa palmada e a surra é tênue. A criança espancada sofre de uma síndrome que se chama exatamente assim: síndrome da criança espancada e seus sintomas são : baixa auto-estima, inibição, agressividade. A criança pensa : se as pessoas mais importantes da sua vida batem nela então é porque ela não vale nada. Sabemos que violência gera violência e o Dr. Messias nos alerta: a violência do espancamento trafega na mesma via da violência sexual. A criançca um dia será adulta e terá muitas dificuldades em estabelecer relações afetivas e , pior ainda, repetirá o padrão num círculo infernal. Uma casa, por mais pobre e despojada que seja pode e deve ser uma ilha de amor. O afeto fabrica afeto na roca de fiar sentimentos. A criança amada, aconchegada, que dorme com um beijo de boa noite e acorda com um sorriso, será um adulto cheio de amor.
O artigo do Dr. Messias é um alerta. Não se impõe limites com violência física . Trocar um tapa por um afago é a melhor maneira de criar seres humanos melhores. Livre de toda a gravidade, a criança amada um dia poderá voar.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
A MÃO ESTENDIDA
AMIGO
No rumo certo do vento,
amigo é nau de se chegar
em lugar azul.
Amigo é esquina
onde o tempo para
e a Terra não gira,
antes paira,
em doçura contínua.
Oceano tramando sal,
mel inventando fruta,
amigo é estrela sempre
no rumo certo do vento,
com todas as metáforas,
luzes, imagens
que sua condição de estrela contém.
Poemas de Céu, ed. Paulinas
O que se passa hoje no Irã nos deixa tristes, estarrecidos. Mas já há uma brecha, uma fissura , e o terremoto não será em vão. O povo iraniano quer respirar. as mulheres querem respirar. Até quando conseguirão amordaçar um povo inteiro? Não conseguirão.
Hoje, O Globo traz duas matérias comoventes: O Médico e o Mago e A Música na Idade da Pedra.
Conheci Paulo Coelho em 1998, quando Juan Arias, meu marido, fazia um livro com ele, "As Confissões de um Peregrino" ,ed. Objetiva. Passamos cinco tardes juntos em seu apartamento em Copacabana e descobri que o Paulo é uma pessoa maravilhosa, ele é simples, despojado e muito generoso . Um amigo que olha nos nossos olhos e pergunta: quem é você?
Hoje fiquei sabendo que ele ajudou a salvar o médico que tentou salvar a vida da jovem Neda que se tornou a mártir dos protestos. Pois bem, a troca de correspondência entre eles é absolutamente comovente e quando o médico diz que vai tentar fugir e que se não conseguir até uma determinada hora pede ao Paulo que tome conta de sua esposa e do filho, pois eles nâo têm ninguém no mundo além dele, estamos diante da mais pura amizade e confiança.
Com a matéria da música na idade da pedra ficamos sabendo que foi encontrada uma flauta com cinco furos de 35 mil anos. Já então o homem fazia música, pintava, esculpia. Já então o homem queria voar, transcender, o que é incompatível com o que acontece no Irã hoje. Que a música tome conta do coração dos homens .
quarta-feira, 24 de junho de 2009
ITAPERUNA
RECEITA DE OLHAR
nas primeiras horas da manhã
desamarre o olhar
deixe que se derrame
sobre todas as coisas belas
o mundo é sempre novo
e a terra dança e acorda
em acordes de sol
faça do seu olhar imensa caravela
Receitas de olhar, ed. F.T.D
O Colégio Estadual Luiz ferraz em Itaperuna, durante 9 anos realizou um belíssimo projeto de poesia: CIDADE QUE AMANHECE POESIA. Depois de um ano lendo diversos poetas, os alunos saiam para as ruas e diziam poemas para as pessoas. Este ano decidiram me homenagear com o projeto PALAVRAS MÁGICAS DE ROSEANA MURRAY, leram meus livros, reviraram minha vida de cabeça para baixo! Eu iria a Itaperuna no dia 26. Ontem, Miraécia me telefonou e disse: você sabe que são cinco horas e meia de viagem? Eu achava que era logo ali, mas não era. Minha coluna operada e a prótese no quadril tornam as viagens longas muito difíceis e há uma briga imensa entre meu corpo e minha alma. Eu sempre quero ir e meu corpo fica no meio do caminho, doendo e atrapalhando!!! Peço desculpas a todos da escola pela minha ausência. Sei que e dificil me desculpar... Fiz um pacote de 21 livros autografados e coloquei ontem no correio. Pedi que sorteassem 3 livros. Quero dizer que eu não vou mas meu coração já está aí com vocês , pois me apaixonei por este projeto tão lindo, ir para as ruas falar poesia para as pessoas... Sugiro a todas as escolas que copiem o Colégio Estadual Luiz Ferraz em Itaperuna, que saiam pelas ruas recitando Manuel Bandeira, Cecília Meirelles, Drummond... As ruas ficariam muito mais sonoras e belas.
terça-feira, 23 de junho de 2009
DE ALMA LEVE
FONTE
Como trapezista
alcançar o outro
num salto:
mergulhar em seus olhos,
navegar até o fundo.
Alcançar o outro
no que ele tem
de mais belo,
de luz e mel,
delicadeza e mistério.
E, então, beber a água
limpa
dessa fonte.
Manual da Delicadeza, ed. FTD
Ontem recebo um telefonema de Leila Ferreira que até então não conhecia. Ela me conta: tinha um blog na Revista Marie Claire, é jornalista, mora em Araxá. Sua coluna se chamava DE
ALMA LEVE e agora está escrevendo um livro que por enquanto terá este título. É um livro sobre a leveza, a delicadeza, o bom-humor, o mel que existe em cada ser humano e como este mel deveria ser a argamassa das relações. Ela anda entrevistando muita gente e uma mulher lhe disse que deveria ler meu livro Manual da Delicadeza. Dois dias depois ela foi entrevistar Tião Rocha, educador, artista, inventor, recebeu o Prêmio Empreendedor Social 2007. Pois bem, ele não só falou do meu livro, como lhe deu um exemplar e contou que o livro o tinha impressionado tanto que ele tinha um estoque em casa para dar de presente. E se Leila não me contasse, eu nunca saberia! É incrível como os livros vão andando, suavemente, são jangadas, e depois que os escrevemos, não nos pertencem mais. Às vezes, como agora, vemos o seu traço no horizonte, tão longe que nossa vista quase não alcança.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
NO CAIS DO PRIMEIRO AMOR
VENTO
O vento escreve
em minha pele
estranhas palavras:
Sou seu dicionário
quando ando sem rumo,
subo a montanha,
caminho na areia.
Até que você me encontre
e leia em mim
as sílabas do vento,
vago pelo deserto.
No cais do primeiro amor,ed. Larousse.
Tenho uma irmã, Evelyn kligerman, que é escultora e ceramista. Lá pelo começo dos anos setenta , abriguei em minha casa duas chilenas fugidas do regime de terror do General Pinochet:
Bárbara e sua mãe, a grande escultora Teresa Vicuña. Teresa viu o que minha irmã começava a fazer com o barro, suas primeiras experiências e se entusiasmou. Foi a primeira mestra . Logo Teresa foi para Paris e Evelyn partiu para o México para estudar na Unam, a Universidade de Belas Artes . Aí viveu um grande amor, mas não ficaram juntos. Agora, 30 anos depois, ele a reencontrou pela internet. Ele também é ceramista, fazem coisas bem parecidas, azulejos, painéis, revestimentos. Estão apaixonados outra vez. Ele está chegando esta semana do México para encontrá-la. A família inteira está vivendo com ela esta linda história de amor.
Evelyn ilustrou meu livro No Cais do primeiro Amor com azulejos de cerâmica. Para cada poema fabricou um azulejo. Depois , cada azulejo foi fotografado. Agora, por um tempo, trabalharão juntos em seu ateliê, em Teresópolis. O futuro está escrito no vento.
sábado, 20 de junho de 2009
O LOBO
AMIGO
que um amigo se reconheça
sempre
na face de outro amigo
e nesse espelho descanse
seus olhos
e derrame sua alma
como a crina de um cavalo
levemente pousada no vento
Poesia Essencial, ed. Manati
Ontem, no Salão do Livro tive muitas surpresas : uma escola inteira com camisetas com o meu nome, professoras que me trouxeram trabalhos maravilhosos dos seus alunos, Janaína, do Ciep Fernando Pessoa, que ano passado trouxe seus alunos até a minha casa para tomar um café da manhã comigo e foi ao Salão só para me ver, enfim, nunca me senti mais amada.
Mas, entre tantas manifestações de afeto, uma menina (não sei a idade, talvez uns 8 anos ou 9), não sei seu nome, me disse que era minha fã e que seu poema preferido estava na página 72 do livro Poesia Essencial. É um livro "para adultos", então , onde está a fronteira entre a poesia que se escreve para a criança e para o público adulto? Fronteira escorregadia, talvez inexistente. Foi um momento tão único, aquela criança escolhendo um dos meus pouquíssimos livros voltados para o público adulto como livro de cabeceira.
Quando cheguei ao Salão, fui direto ao stand da Manati, foi onde parei primeiro. Um livro me chamou : O LOBO, de Graziela Bozano Hetzel, com lindíssimas ilustrações da Elisabeth Teixeira. Abri o livro e a primeira frase me levou para longe: " Na noite quieta, o menino desliza, só de meias, pela casa, às escuras.
E continua:
" O chão brilhoso e gelado reflete as sombras dos móveis pesados.
O menino desvia-se das quinas pontudas de mesas e aparadores, dos pés arrebitados de uma cadeira de balanço.
Sem ruído, abre a porta de entrada e vai para o quintal.
Lá fora, um céu coalhado de estrelas, um ar perfumado e fresco, e o silêncio."
Li o livro até o final e eu já não estava mais ali, eu era o menino e estava onde ele estava, sua história era a minha e o livro que ele lia era meu. Já não havia nenhum barulho. Só uma leitora e um livro maravilhoso em suas mãos. Não vou contar a história dos dois livros, um dentro do outro, é uma belíssima história. Mas a maneira como Graziela escreve a história, como ela sabe reger os silêncios, é impressionante. Quando terminei a leitura estava profundamente comovida, como se um rio maravilhoso tivesse passado por dentro de mim. Custei para voltar ao Salão, e a música ruidosa das crianças, milhares de crianças como estrelas, me puxava pela mão.
sexta-feira, 19 de junho de 2009
SALÃO DO LIVRO
Hoje estarei no Salão do Livro a partir das 10hs até às 16:30hs. Estarei no Stand da Paulinas e Prumo. Bom para ver e rever amigos, as novidades , lançamentos. Bom para conversar com leitores. O Salão é uma grande conquista e cada ano está mais bonito. Estou feliz . Da minha janela vejo o sol se levantando lá pelos lados da lagoa...
quinta-feira, 18 de junho de 2009
AULA DE COSTURA
FALANDO DE LIVROS
O livro é a casa
onde se descansa
do mundo.
O livro é a casa
do tempo
é a casa de tudo.
Mar e rio
no mesmo fio
água doce e salgada.
O livro é onde
a gente se esconde
em gruta encantada.
Casas, ed. Formato.
Ontem, depois do Café Literário, eu e Maria Clara fomos para a Biblioteca da AMAB (Associação de moradores do Boqueirão). Havia aula de costura. Lemos com as costureiras um conto da tradição sufi: uma moça sonha com um príncipe, ela acorda e corre em busca do príncipe. Passa por um velho perto de uma fonte mas não o vê. Não encontra o príncipe. Na outra noite sonha outra vez, de novo sai em busca do amado. E assim sucessivamente. Até que um dia, exausta, ela para ao lado do velho. Ele lhe dá água e não é um velho: é o próprio príncipe! O conto está no livro Contos Filosóficos do mundo inteiro de Jean-Claude Carrière. Combinamos que já que o curso de costura é oferecido pela biblioteca, no final da aula elas iriam até a biblioteca pegar um livro. Seria uma troca. E para nossa alegria foram. Uma levou O Menino do Dedo Verde para a filha de 15 anos, o filho de uma costureira que fazia aula de Yoga, também uma iniciativa da Biblioteca, apanhou o Hobbit, do Tolkien, outra levou Amor é Prosa, Sexo é Poesia do Jabor, etc...
Eu passei a tarde carimbando e limpando livros e fiquei assombrada com o maravilhoso acervo da biblioteca. Mas o que mais me enterneceu foi a coleção do Tesouro da Juventude. Entrei no túnel do tempo: aqueles livros foram parte imensa da minha infância. Eles dormiam dentro de uma cristaleira na casa da minha avó. Bem pequena eu ia até lá, ela abria a cristaleira, tirava um exemplar para mim, e eu lia, lia, maravilhada... Ali encontrei pela primeira vez os contos de fadas. Eu também sonhava com príncipes e donzelas correndo pelo bosque, como no conto do livro do Jean-Claude Carrière. Ontem, por um momento eu tinha oito anos, minha avó, tão pequena e linda, ainda estava viva e eu também estava no presente, a biblioteca, como num sonho, subitamente cheia de leitores.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
O CAFÉ LITERÁRIO
AURORA
O milagre da noite
se abrindo em manhã,
soltando o jorro preso
da luz,
soltando os pássaros,
as nuvens claras,
as cores todas
e o cheiro bom do café.
Poemas de céu, ed. Paulinas, 2009
Acordei às cinco horas da manhã. Ainda era noite. Ontem, antes de dormir, deixei os textos preparados para o Café Literário de hoje. Meu adorado amigo Latuf fará a crônica e eu posso respirar tranquila, seus textos são sempre lindos e contam tudo, timtim por timtim. Passei o café e o aroma espesso e quente desprendeu os restos da noite. Os primeiros vermelhos já iam aparecendo no céu. Preparei uma montanha de sanduíches.
Depois , às 14hs , vou com Maria Clara para a nova biblioteca comunitária do bairro. Há uma turma de aula de costura. No primeiro dia do curso lemos para elas O Caso do Vestido do Drummond e no final do curso elas irão desenhar o vestido. Hoje vamos ler um conto da tradição sufi, muito bonito e vamos levá-las até a biblioteca para que pesquem o seu primeiro livro.
A biblioteca é uma grande conquista para o bairro e agora vamos iniciar um processo de tombamento de uma amendoeira gigantesca pertinho da biblioteca, na beira da lagoa. No dia da árvore esperamos já ter alguma coisa em andamento e vamos pendurar livros na amendoeira e fazer um grande piquenique em volta da árvore com leitura de poemas.
O dia está lindo, radiante e meu coração parece um esquilo na borda do bosque... dentro de pouco a casa estará cheia de professores, amigos e jovens alunos e a minha felicidade é imensa.
terça-feira, 16 de junho de 2009
DUAS MENINAS
ATRIZ
Que bom seria
se eu fosse atriz,
o meu quarto um camarim,
debaixo do espelho,
cigana ou rainha louca,
eu seria sempre outra
e tomaria chá de açucena
e pintaria as unhas de azul.
Recados do corpo e da alma, ed. FTD, 2003
Em 2002, quando vim morar em Saquarema, fui ao Colégio Gustavo Campos, perto da minha casa e me ofereci para trabalhar com leitura. Pedi alunos de 13,14 anos. Logo uma menina chamou a minha atenção: Manuela. Seus olhos brilhavam, ela gostava de falar, de participar. Um dia eu a encontrei no ponto do ônibus com sua mãe e a mãe me contou que voltava do posto de saúde onde foram buscar insulina, pois Manuela era diabética. Foi o início de uma longa amizade. Manuela andava sempre com sua irmã, Andréia, eram inseparáveis. Comecei a comprar livros para Manuela, a levá-la ao Salão do livro no M.A.M. Numa dessas idas pedi que falasse o poema atriz no meu encontro com os jovens. Manuela se apaixonou pelo poema e foi fazer teatro. Queria um camarim, pintar as unhas de azul. Manuela e Andréia se tornaram grandes leitoras. E fazem teatro.
Dia 27 , semana que vem, Manuela faz 20 anos. Aqueles primeiros encontros de leitura mudaram sua vida. Manuela quis mais. Hoje ela faz faculdade de pedagogia aqui em Saquarema. Andréia fará vestibular para informática. Manuela fala inglês, Andréia fala espanhol. Seus pais são caseiros e nunca puderam estudar. Se alguns livros não tivessem acendido a chama interior das duas meninas, talvez elas seguissem os passos dos pais.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
POEMAS DE CÉU
CREPÚSCULO
Na hora em que o dia
não é mais dia,
em que a noite
não é noite ainda,
tudo é magia,
e o céu parece
veludo furta-cor
escorrendo das mãos vazias.
Poemas de Céu, ed. Paulinas,2009
Durante muitos anos Visconde de Mauá foi a minha casa. Em 1974 a família comprou um sítio e a minha poesia está impregnada dos seus vales , rios, neblinas, montanhas. Minha casa não tinha luz . Aprendi a enxergar no escuro.
Em 1980 quando publiquei meu primeiro livro, o Fardo de Carinho, eu morava em Mauá. Uma vez por semana eu contava histórias na Escola da Terra e foi uma experiência maravilhosa. A escola ficava no Vale da Santa Clara, numa casa redonda e os alunos tinham aula de circo, de horta, aprendiam a construir, tinham aula de música. Os pais ajudavam, cada um com sua habilidade. Até hoje, os que estudaram na Escola da Terra continuam amigos, uma espécie de família, há entre eles um elo inquebrantável.
Como no sítio não havia luz, eu passava horas , durante a noite, olhando o céu. Assim nasceu uma coletânea de poemas que publiquei em 1985, Lições de Astronomia, pela extinta editora Memórias Futuras. Era um livro todo azul, cheio de estrelinhas. A minha idéia era relacionar as coisas do céu com sentimentos. Uma vez, fui a Recife fazer um lançamento estranho: dentro de um supermercado. Pois bem, no meio de todo aquele movimento, uma mulher parou na frente da minha mesinha, apanhou o livro e abriu numa página qualquer. Muito emocionada ela me disse, você sabe o que a sua poesia faz com as pessoas? Se ela faz as pessoas se emocionarem dentro de um supermercado eu fico feliz! A editora Memórias Futuras fechou, o livro ficou esgotado e eu consegui reeditá-lo em 2004 pela ed. Miguilim , que também fechou. Agora, novamente consigo uma reedição com a ed. Paulinas. Ficou lindo o livro com as ilustrações da Mari Ines Piekas, os poemas ganharam muito, ficaram mais sonoros.
Agora o sítio tem luz mas a casa é iluminada de uma maneira tão natural que o céu continua maravilhosamente intenso. Não moro mais lá, mas sim, meu filho André com seu Babel Restaurante e a Dani Keiko, minha nora. Quando vou, me reencontro pela casa, há uma confusão de tempos verbais, o passado é presente e o futuro é presente também.
domingo, 14 de junho de 2009
LUIS
UNIDUNITÊ
Unidunitê,
onde anda você?
Procuro pelas gavetas,
procuro pelas esquinas,
procuro na sombra da lua,
no sol derramado na rua,
no sal das espumas,
nos sinos do vento,
não sei se será menino,
não sei se será menina,
quando um dia você chegar
deslizando na areia do tempo...
Unidunitê,
onde anda você
antes de nascer?
Caixinha de Música, ed. Manati, 2004
Agora já sei: é um menino, se chama Luis como o meu pai e nascerá no final de agosto. Quando escrevi o poema, o Guga, meu filho músico nem conhecia a Patrícia ainda mas eu já sonhava com um neto(a) e sempre me indago por onde andamos antes de nascer.
Fiz o livro Caixinha de Música com o Guga Murray e o poema entrou no livro. A história do livro é linda: eu pensei em fazer um CD com músicas, canções, mas o Guga me disse, mãe, não vou musicar os poemas, vou criar uma possibilidade musical para cada um. Ele acabou fazendo sim algumas canções de tanto que eu insisti. Mas o resultado é lindo, surpreendente. E a ed. Manati precisou encontrar um ilustrador músico para fazer as partituras complicadas do Guga. Saímos todos felizes, as ilustrações, do Sérgio Magalhães, além das partituras, são belíssimas. O livro ganhou uma apresentação maravilhosa do poeta e critico Alexei Bueno que me deixa até hoje tão agradecida e surpresa. Meu grande amigo Latuf é apaixonado pelo livro e o levou para Salta, na Argentina, onde fez uma palestra sobre ele.
Já estou , em pensamento, de partida para Granada, Andaluzia,Espanha, onde o Luis (neto de outro Luis que nasceu no começo do século XX no interior da Polonia e agora anda por outros planetas) ,nascerá. Devo embarcar no meio de setembro. Nem imagino o que vou sentir quando nos olharmos a primeira vez...e eu disser, Luis, cheguei, a tua vovó.
sábado, 13 de junho de 2009
ARABESCOS NO VENTO
Um beijo dourado
varre o corpo com luz,
ilumina o céu.
Arabescos no vento, ed. Prumo, 2009
Ontem foi o dia dos namorados e o hai-cai acima fica como uma foto do dia. Fazer hai-cais é um exercício delicioso, pois requer paciência e concentração. Quando estou em alguma situação que me aprisiona construo o pequeno poema de 17 sílabas e sinto que as portas se abrem. Ontem soprava um sudoeste poderoso e muitos namorados devem ter se desprendido do chão. Namorar é muito bom, e é uma ponte que liga dois mundos, não necessariamente de um humano até outro humano. Agora , por exemplo, estou namorando minha nova gatinha Nana, completamente apaixonada. Namoro árvores, pássaros, livros.
Hoje o caderno Ela, do Globo, traz uma reportagem linda: Ler, comer, falar, sobre os Clubes de Leitura. Pessoas se reunem para discutir livros escolhidos de comum acordo e aproveitam para cozinhar e conversar. Os Clubes são inspirados no sucesso do livro "A sociedade literária e a torta de casca de batata" de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows que não li, mas estou encomendando agora mesmo. Falar de livros com os amigos é uma maneira maravilhosa de namorar...
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Poemas e Comidinhas
ELFOS
Elfos comem o perfume
das flores trazido pelo
vento,
comem os mais belos
pensamentos,
e as cores do dia
que o galo faz.
Comem o canto do galo,
as melodias dos pássaros azuis,
comem a luz que cintila
na folha cheia de orvalho.
Elfos comem a sombra da lua,
o brilho da estrela
que já não existe mais.
Poemas e Comidinhas, ed. Paulus, 2008
Fiz o livro Poemas e Comidinhas em parceria com meu filho André Murray, Chef de cozinha. Para cada poema uma receita e a receita realmente sai do próprio poema. Imaginei os elfos vegetarianos e o André criou para eles uma saboroso risoto de flores que foi servido no lançamento do livro ano passado no Babel Restaurante , em Visconde de Mauá. O livro ficou uma delícia, com ilustrações incríveis do cartunista baiano Caó Cruz Alves. O Caó teve que criar ilustrações tanto para os poemas quanto para as receitas e o casamento saiu perfeito. O livro convida todo mundo para cozinhar junto e isso é muito bom. Algumas escolas me contaram que quando havia algum cozinheiro ou Chef de cozinha na família iam até a escola fazer a atividade com as crianças. Enfim, um rebuliço: era tudo o que eu queria. Adoro cozinhar, realmente é a minha paixão, minha casa está sempre aberta para os amigos e cozinhar para os amigos é o paraíso. Quando tenho alguma dúvida telefono para o André, e pronto. Sua mulher, Dani Keiko, também é Chef e agora, além do Babel Restaurante, eles abriram uma escola de cozinha em Resende. O curso que faz mais sucesso é justamente o Cozinhando para os Amigos, onde preparam um menu completo e depois o grupo inteiro come junto. Bom também para fazer amigos. Estou insisitindo com eles para um curso Criança na Cozinha , lembro muito bem que adorava cozinhar junto quando era pequena. A nossa cozinheira , a Eunice, colocava um banquinho na frente do fogão e me deixava pescar os nhoques boiando na panela e eu nunca me queimei!!! Criança, definitivamente, adora cozinhar!
quinta-feira, 11 de junho de 2009
NO MUNDO DA LUA
BEIJA-FLOR
Beija-flor pequenininho
que beija a flor com carinho,
me dá um pouco de amor,
que hoje estou tão sozinho...
Beija-flor pequenininho,
é certo que não sou flor,
mas eu quero um beijinho,
que hoje estou tão sozinho...
No Mundo da Lua, ed,IBeppe/Miguilim
O poema acima faz parte do livro No mundo da Lua, publicado em 1982 pela Miguilim, pequena editora de Belo horizonte. Naquela época quase nenhuma editora queria publicar poesia e eu soube, ouvi falar, que a Miguilim se interessava. Consegui o telefone liguei para lá. Antonieta Cunha falou comigo, sim, ela disse, gostaria de ver o seu trabalho, não poderia vir até aqui? Marcamos um dia. Naquela época eram 9hs de viagem até Belo Horizonte. Peguei um ônibus noturno e fui. Antonieta me recebeu maravilhosamente bem. Eu levava o livro já ilustrado por uma amiga e ela não gostou das ilustrações mas amou os poemas. Quis cortar o livro pela metade, achou muito grande. Entrei em crise: o que faria com as ilustrações da minha amiga? Voltei para o Rio triste. Na minha casa tinha como hóspede o grande maestro Nelson Ayres, meu amigo naquela época. Pedi um conselho. Ele me disse: publique como a editora quer, você está começando, é a tua chance. Conversei com a minha amiga e ela entendeu. O livro saiu lindo e foi lançado em Sabará num grande teatro, foi tudo alucinante. O poema do beija-flor virou música , teatro e nunca poderia esperar tanto de um poema tão pequeno!!!
Hoje leio no Globo um artigo maravilhoso intitulado BEIJA-FLOR voa mais rápido do que avião. Impressionante. De vez em quando um beija-flor vem até a minha janela enquanto escrevo. Tenho vontade de gritar de felicidade.
Hoje Saquarema, a cidade que escolhi para morar faz tapetes de sal. Fico muito emocionada com a cidade inteira trabalhando junto só para produzir beleza.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Caros leitores: estarei no Salão do Livro, na Gamboa, Rio de Janeiro, dia 19, o dia inteiro. Vocês podem me achar por lá. Estou muito curiosa com o novo Salão. Estou relançando o Poemas de Céu pela editora Paulinas às 14hs . O livro ficou especiamente bonito, fiquei muito feliz .Estou lançando também o pequeno livro de hai-cais Arabescos no Vento pela nova editora Prumo. Fazer hai-cais é delicioso e divertido.
Mas antes, dia 17, abro minha casa para o café literário de junho... Depois conto mais.
Retomo o blog para poder conversar mais de perto, mas estou preparando algumas novidades para o site.
Roseana Murray
Mas antes, dia 17, abro minha casa para o café literário de junho... Depois conto mais.
Retomo o blog para poder conversar mais de perto, mas estou preparando algumas novidades para o site.
Roseana Murray
terça-feira, 9 de junho de 2009
TRANSFORMAÇÃO
Fabrico uma árvore
com uma simples semente,
terra escura e quieta,
umas gotas de água.
Pouco a pouco,
de lua em lua,
de folha em folha,
enquanto o tempo
desenha arabescos
em meu rosto,
minha árvore se transforma
em poema vivo,
suas letras são flores,
são frutos, são música.
Fábrica de poesia, Ed. Scipione, 2008.
com uma simples semente,
terra escura e quieta,
umas gotas de água.
Pouco a pouco,
de lua em lua,
de folha em folha,
enquanto o tempo
desenha arabescos
em meu rosto,
minha árvore se transforma
em poema vivo,
suas letras são flores,
são frutos, são música.
Fábrica de poesia, Ed. Scipione, 2008.
CAIXINHA MÁGICA
CAIXINHA MÁGICA
Fabrico uma caixa mágica
para guardar o que não cabe
em nenhum lugar:
a minha sombra
em dias de muito sol,
o amarelo que sobra do girassol,
um suspiro de beija-flor,
invisíveis lágrimas de amor.
Fabrico a caixa com vento,
palavras e desequilíbrio,
e para fechá-la
com tudo o que leva dentro,
basta uma gota de tempo.
O que é que você quer
esconder na minha caixa?
Fábrica de poesia, ed. Scippione, 2008
Fabrico uma caixa mágica
para guardar o que não cabe
em nenhum lugar:
a minha sombra
em dias de muito sol,
o amarelo que sobra do girassol,
um suspiro de beija-flor,
invisíveis lágrimas de amor.
Fabrico a caixa com vento,
palavras e desequilíbrio,
e para fechá-la
com tudo o que leva dentro,
basta uma gota de tempo.
O que é que você quer
esconder na minha caixa?
Fábrica de poesia, ed. Scippione, 2008
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