Quando morei em Madrid, recolhi textos do Lorca menos conhecidos para meu amigo José Mauro Brant, apaixonado pelo poeta. Por acaso fui ver um Concerto com um ator-cantor , espetáculo montado em cima das conferências que Lorca fez e que chamou de "Como Canta uma Cidade de Novembro a Novembro". Trouxe o CD para o Zé Mauro .
José Mauro costurou todo o material que tinha com uma maestria impressionante. E me pediu para traduzir. Primeiro disse que não, como traduzir Lorca? Como traduzir um poeta que escreve com vento, sangue e fogo? Mas o meu amigo insistiu e acabei aceitando o imenso desafio. Digamos que fiz a tradução num estado alterado de poesia, com todo o meu corpo e não só a mente, de olhos semi cerrados, busquei às vezes, para poder ir ao encontro da sua escrita maravilhosa, uma penumbra dentro de mim.
Ontem , porque queria enviar alguns trechos para um amigo que mora longe, já que conversamos horas sobre poesia, reli o pequeno livro que foi publicado pela Imprensa Oficial de São Paulo em 2009 e que não está disponível, infelizmente. Eu que empresto, dou, perco tantos livros, juro que este nunca perderei.
O livro é magnífico porque os textos são arrebatadores . E a peça montada foi uma das maiores emoções da minha vida. José Mauro Brant era o Lorca no palco. Lorca estava ali, a cada noite a plateia sentia o milagre, Lorca vivo, de corpo e alma.
"A poesia é algo que anda pelas ruas. Que se move, que passa ao nosso lado. Todas as coisas têm o seu mistério e a poesia é o mistério que contém todas as coisas. Se passamos junto de um homem, se olhamos uma mulher, se adivinhamos a marcha oblíqua de um cão, em cada um desses objetos humanos está a poesia"
Federico García Lorca
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
domingo, 27 de setembro de 2015
ATELIÊ DE CERÂMICA
Meu pai conta que tinha um tio ceramista na
Polônia. Meu pai saiu do país com 14 anos, antes da guerra e o tio ficou. Ninguém
da família que tenha ficado sobreviveu.
E minha irmã é ceramista desde quando tinha uns 17
anos. É uma das grandes ceramistas do Brasil.
Meu cunhado Luis Mérigo é ceramista. Ele veio do
México e se casaram.
O ateliê que criaram em Visconde de Mauá é alucinante. Está numa outra dimensão.
Quem for a Mauá não deixe de visitá-lo. É uma experiência sensorial.
No Ateliê Kligerman & Mérigo a poesia se
transforma em cerâmica.
As formas dançam e se transmutam o tempo todo. A
xícara onde uma araucária é acariciada pelo vento antes de receber o café. Uma
escultura que voa. Um saleiro ,um jarro, uma fruteira, uma placa com os
desenhos mais loucos e belos, um porta colheres. Aqui
não há hierarquia. Tudo é arte e impregna as paredes e o chão da sala com a
beleza mais pura.
A cada dia saem peças únicas e novas criações
fabricadas diante dos olhos atônitos de quem chega.
O barro, ofício ancestral, é voo nas mãos da Evelyn
Kligerman e Luis Mérigo
sábado, 26 de setembro de 2015
QUADRO VIVO
Acordo muito cedo. É noite.
passo um café abro a porta.
Gosto de ficar no escuro
feito um gato.
A música do mar desaba
intermitentemente sobre a casa.
Nos seus intervalos respiro.
O jardim é um emaranhado de sombras.
recebo em meu corpo
as últimas lufadas da noite.
Uma luz tão tênue já se espraia.
Estou viva dentro de um quadro vivo.
passo um café abro a porta.
Gosto de ficar no escuro
feito um gato.
A música do mar desaba
intermitentemente sobre a casa.
Nos seus intervalos respiro.
O jardim é um emaranhado de sombras.
recebo em meu corpo
as últimas lufadas da noite.
Uma luz tão tênue já se espraia.
Estou viva dentro de um quadro vivo.
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
GOSTO NÃO SE DISCUTE
Gosto não se discute, mas eu não gosto de calor e tem gente que gosta.
Em meu livro "Quem vê cara não vê Coração", da Ed. Callis/Houaiss, falo disso num poema. O livro é todo de ditados populares. Quando leio esse poema, para crianças, jovens ou adultos, sempre aplaudem no final. Então, se vocês quiserem podem aplaudir, eu vou adorar e quem sabe sobreviverei ao calor que está apenas começando:
GOSTO NÃO SE DISCUTE
Eu gosto de azul,
você gosta de laranja,
eu gosto de caju,
você gosta de pitanga,
eu gosto de escuro,
você gosta de luar,
eu gosto de bosque,
você gosta de mar,
eu gosto de seda,
você gosta de algodão,
eu gosto de cão,
você gosta de gato,
eu gosto de girassol,
você gosta de jasmim,
mas o que importa
é que eu gosto de você
e você gosta de mim.
Em meu livro "Quem vê cara não vê Coração", da Ed. Callis/Houaiss, falo disso num poema. O livro é todo de ditados populares. Quando leio esse poema, para crianças, jovens ou adultos, sempre aplaudem no final. Então, se vocês quiserem podem aplaudir, eu vou adorar e quem sabe sobreviverei ao calor que está apenas começando:
GOSTO NÃO SE DISCUTE
Eu gosto de azul,
você gosta de laranja,
eu gosto de caju,
você gosta de pitanga,
eu gosto de escuro,
você gosta de luar,
eu gosto de bosque,
você gosta de mar,
eu gosto de seda,
você gosta de algodão,
eu gosto de cão,
você gosta de gato,
eu gosto de girassol,
você gosta de jasmim,
mas o que importa
é que eu gosto de você
e você gosta de mim.
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
TEXTOS CURTOS
Nos deparamos o tempo todo com textos curtos no facebook, com alguma mensagem, uma bela imagem. Eles nos fazem bem. É como o roçar de uma fragrância boa.
Hoje li que a felicidade pode estar no seu quintal enquanto você está procurando um trevo de quatro folhas.
O que mais me produz felicidade é doar alguma coisa para alguém. Produzir beleza. Receber as escolas na minha casa. O nosso Clube de Leitura. Ter meus filhos, netos, irmã, cunhado, todo mundo em contato.Ter meus amigos perto. As gatas e Juan ao meu lado. Meus leitores. A felicidade completa é ler um livro maravilhoso. Comer uma comida boa.
A felicidade é uma conquista diária. Apesar de todas as tristezas, do desconcerto que é o mundo, apesar dos limites.
O trevo de quatro folhas é uma escolha. Mas pelo sim pelo não é bom ter um no bolso.
Hoje li que a felicidade pode estar no seu quintal enquanto você está procurando um trevo de quatro folhas.
O que mais me produz felicidade é doar alguma coisa para alguém. Produzir beleza. Receber as escolas na minha casa. O nosso Clube de Leitura. Ter meus filhos, netos, irmã, cunhado, todo mundo em contato.Ter meus amigos perto. As gatas e Juan ao meu lado. Meus leitores. A felicidade completa é ler um livro maravilhoso. Comer uma comida boa.
A felicidade é uma conquista diária. Apesar de todas as tristezas, do desconcerto que é o mundo, apesar dos limites.
O trevo de quatro folhas é uma escolha. Mas pelo sim pelo não é bom ter um no bolso.
terça-feira, 22 de setembro de 2015
OFICINA DE ESCRITA
Uma escola particular de Rio das Ostras me ofereceu um trabalho: uma "palestra" para os jovens da quinta série sobre escrita.
Lá fui eu. A escola Casulo é maravilhosa e fiz também encontros com a quarta serie na biblioteca. Foi muito bom. Brincamos muito!!!
O que se fala com jovens da quinta série sobre escrita? A única coisa que sei é que para escrever bem é preciso ser leitor. Eles são tão pequenos ainda! Mas adoram ler.
Com a turma da manhã propus discutirmos a existência. Quem sou eu? Que tamanho ocupo no mundo?
Pedi que rabiscassem algumas linhas sobre isso. E saiu cada texto lindo! Eles ficaram muito felizes com a minha proposta . Li em voz alta alguns textos fazendo comentários e foi um sucesso.
Pela tarde contei para eles o conceito do UBUNTU. Eu sou eu e sou você. Sem o outro não existo. Falamos sobre isso. Novamente pedi que escrevessem algumas linhas . E novamente alguns textos foram lidos e afinal os encontros foram um sucesso.
Mas eu fiquei quebrada. A minha coluna operada não aguenta este ritmo de viagens e estou tendo que desmarcar algumas. Lidar com limites é uma renúncia muito dura. É um aprendizado contínuo, uma lição de humildade. Mas a gente vai aprendendo o que pode e o que não pode. É como brincar de bem-me-quer, mal-me-quer... isso posso fazer, isso não posso... mas estou feliz porque posso muita coisa!!! E antes não podia nada.
Lá fui eu. A escola Casulo é maravilhosa e fiz também encontros com a quarta serie na biblioteca. Foi muito bom. Brincamos muito!!!
O que se fala com jovens da quinta série sobre escrita? A única coisa que sei é que para escrever bem é preciso ser leitor. Eles são tão pequenos ainda! Mas adoram ler.
Com a turma da manhã propus discutirmos a existência. Quem sou eu? Que tamanho ocupo no mundo?
Pedi que rabiscassem algumas linhas sobre isso. E saiu cada texto lindo! Eles ficaram muito felizes com a minha proposta . Li em voz alta alguns textos fazendo comentários e foi um sucesso.
Pela tarde contei para eles o conceito do UBUNTU. Eu sou eu e sou você. Sem o outro não existo. Falamos sobre isso. Novamente pedi que escrevessem algumas linhas . E novamente alguns textos foram lidos e afinal os encontros foram um sucesso.
Mas eu fiquei quebrada. A minha coluna operada não aguenta este ritmo de viagens e estou tendo que desmarcar algumas. Lidar com limites é uma renúncia muito dura. É um aprendizado contínuo, uma lição de humildade. Mas a gente vai aprendendo o que pode e o que não pode. É como brincar de bem-me-quer, mal-me-quer... isso posso fazer, isso não posso... mas estou feliz porque posso muita coisa!!! E antes não podia nada.
domingo, 20 de setembro de 2015
PESCADORES DE TEMPO
O que somos senão pescadores de tempo?
CAVALOS SELVAGENS
Arrumo flores
nas bordas do dia,
encosto o ouvido no chão
para ouvir o tropel
dos cavalos selvagens
que desde sempre
atravessaram os sonhos.
No fim da noite
recolho o silêncio da rotação
da Terra,
eu, pescador de tempo.
Do meu livro Carteira de Identidade, Lê Editora
CAVALOS SELVAGENS
Arrumo flores
nas bordas do dia,
encosto o ouvido no chão
para ouvir o tropel
dos cavalos selvagens
que desde sempre
atravessaram os sonhos.
No fim da noite
recolho o silêncio da rotação
da Terra,
eu, pescador de tempo.
Do meu livro Carteira de Identidade, Lê Editora
sábado, 19 de setembro de 2015
SAQUAREMA
Chegar em casa é mergulhar na música do oceano, mergulhar no azul, no perfume levemente adocicado das algas.É bom.
Mas a próxima semana é cheia de acontecimentos.
Segunda darei uma oficina em Rio das Ostras. E terça volto para São Paulo para a entrega do Prêmio Comunique-se de jornalismo. Juan Arias, meu marido, ficou entre os três finalistas, o que já é um prêmio. Só se sabe na hora quem é o vencedor. E na quarta vou conhecer a redação do jornal El País em São Paulo e almoçar com o Diretor, que é um excelente escritor e leitor. Não vamos falar nem de política nem do jornal, vamos falar de literatura.
Estou relendo Judas do Amós Oz para o Clube de Leitura. Que livro esplêndido. Estou absolutamente impactada outra vez. Como escreve bem o Amós Oz. E que pessoa magnífica, sempre lutando pela paz. Aconselho a sua leitura. Tenho uma pilha de livros para ler. Não há nada melhor.
Mas a próxima semana é cheia de acontecimentos.
Segunda darei uma oficina em Rio das Ostras. E terça volto para São Paulo para a entrega do Prêmio Comunique-se de jornalismo. Juan Arias, meu marido, ficou entre os três finalistas, o que já é um prêmio. Só se sabe na hora quem é o vencedor. E na quarta vou conhecer a redação do jornal El País em São Paulo e almoçar com o Diretor, que é um excelente escritor e leitor. Não vamos falar nem de política nem do jornal, vamos falar de literatura.
Estou relendo Judas do Amós Oz para o Clube de Leitura. Que livro esplêndido. Estou absolutamente impactada outra vez. Como escreve bem o Amós Oz. E que pessoa magnífica, sempre lutando pela paz. Aconselho a sua leitura. Tenho uma pilha de livros para ler. Não há nada melhor.
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
ARAÇARIGUAMA E SANTANA DE PARNAÍBA
Araçariguama é uma gracinha. Uma pequena cidade do interior com uma bela Igreja azul.
Ao chegar na Biblioteca, tive a surpresa de saber que cada criança ganharia um livro! Os livros comprados foram Poemas de Céu e Duas Amigas da Paulus.
Lá na frente, um homem ensaiava com um violão. Era o Michel, músico e Secretário de Cultura de Araçariguama, que compôs duas canções para meus poemas.
Ah, não pensei duas vezes! Capturei o Michel em três minutos e fizemos juntos várias brincadeiras musicais com o Caixinha de Música. A plateia estava cheia e as crianças amaram. Cantaram, fizeram percussão com o corpo e aprenderam a canção da Menina Vaidosa.
Michel cantou as músicas que fez para meus poemas e fiquei muito emocionada , pois ele é verdadeiramente talentoso.
Soube que a cidade também tem escolas de música gratuitas e ele me contou lindas experiências.
De lá fomos, eu e o motorista Seu Antonino para Santana de Parnaíba. A cidade é histórica e maravilhosa, com um casario altamente preservado e é também um pólo gastronômico.
Demos uma volta pela cidade e rumamos para a Biblioteca. Tínhamos tempo de sobra.
Mas... ao chegar na Biblioteca, não era lá, era numa outra num bairro chamado Colina. Disseram que era logo ali.
Meu encontro era às 15 horas. Só que não chegava nunca. Finalmente pegamos uma estrada e depois de muitos quilômetros entramos numa cidade, que apesar de ser outra, era a mesma, Santana de Parnaíba! Completamente perdidos, a bibliotecária veio nos resgatar e cheguei histérica, com meia hora de atraso.
A sala estava cheia de adolescentes sonoros. E fazia um calor danado.
Expliquei tudo e eles ficaram mais meia hora para compensar. Na verdade nunca mais queriam ir embora. Foi muito bom e muito divertido.
Agora estou em casa. Exausta. Mas muito feliz. Foi uma longa viagem e deu tudo certo.
Ao chegar na Biblioteca, tive a surpresa de saber que cada criança ganharia um livro! Os livros comprados foram Poemas de Céu e Duas Amigas da Paulus.
Lá na frente, um homem ensaiava com um violão. Era o Michel, músico e Secretário de Cultura de Araçariguama, que compôs duas canções para meus poemas.
Ah, não pensei duas vezes! Capturei o Michel em três minutos e fizemos juntos várias brincadeiras musicais com o Caixinha de Música. A plateia estava cheia e as crianças amaram. Cantaram, fizeram percussão com o corpo e aprenderam a canção da Menina Vaidosa.
Michel cantou as músicas que fez para meus poemas e fiquei muito emocionada , pois ele é verdadeiramente talentoso.
Soube que a cidade também tem escolas de música gratuitas e ele me contou lindas experiências.
De lá fomos, eu e o motorista Seu Antonino para Santana de Parnaíba. A cidade é histórica e maravilhosa, com um casario altamente preservado e é também um pólo gastronômico.
Demos uma volta pela cidade e rumamos para a Biblioteca. Tínhamos tempo de sobra.
Mas... ao chegar na Biblioteca, não era lá, era numa outra num bairro chamado Colina. Disseram que era logo ali.
Meu encontro era às 15 horas. Só que não chegava nunca. Finalmente pegamos uma estrada e depois de muitos quilômetros entramos numa cidade, que apesar de ser outra, era a mesma, Santana de Parnaíba! Completamente perdidos, a bibliotecária veio nos resgatar e cheguei histérica, com meia hora de atraso.
A sala estava cheia de adolescentes sonoros. E fazia um calor danado.
Expliquei tudo e eles ficaram mais meia hora para compensar. Na verdade nunca mais queriam ir embora. Foi muito bom e muito divertido.
Agora estou em casa. Exausta. Mas muito feliz. Foi uma longa viagem e deu tudo certo.
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
FRANCISCO MORATO E JUNDIAÍ
Ontem pela manhã fomos para a pequena Biblioteca de Francisco Morato. Recebi crianças de 8 a 10 anos. Eram poucas porque o espaço era mínimo, mas eram deliciosas!!!
Comecei com meu livro Carona no Jipe. As crianças embarcaram com uma alegria luminosa em todas as minhas propostas. Encontramos uma garrafa com gênio dentro e elas me ofereceram seus desejos. Eram desejos maravilhosos, de paz e de amor.
A Biblioteca Municipal oferece várias atividades e o Rap é uma delas e por sorte havia um professor de rap assistindo o nosso encontro então eu pedi e ele aceitou a tarefa de fazer um poema do livro Caixinha de Música em forma de rap. As crianças amaram e é o que o Guga , meu filho e autor das partituras, escreveu no livro..
À tarde fui para Jundiaí. A Biblioteca Professor Nelson Foot fica numa antiga fábrica de tecidos. Ela é uma Biblioteca Viva e oferece muitas atividades. O Complexo é imenso se chama ARGOS. A Biblioteca fica dentro deste complexo. Também a Secretaria Municipal de Educação. A sua beleza pulsa e contagia. Não dá vontade de ir embora nunca mais.
O espaço que prepararam para o encontro era de tirar o fôlego. Pertinho da Gibiteca, maravilhosa, meu neto Luis ia enlouquecer de felicidade com o Homem Aranha pendurado na parede e tantos outros Super Heróis.A Biblioteca oferece wifi grátis e equipamentos de informática.
Há um Projeto que se chama "Trouxeste a Chave?" inspirado no poema do Drummond, de visitação da biblioteca, desde bebês até a terceira idade. Aos sábados há contação de histórias.
A Biblioteca está aberta e recebe corais, teatros, etc, pois tem um ótimo auditório.
O meu público era de jovens e adultos. Umas 150 pessoas. Foi divino o que aconteceu ali. Como o Complexo Argos alfabetiza adultos e eles podem fazer até o Ensino Médio, muitos professores do Eja estavam ali. E tive belos depoimentos sobre o impacto da minha poesia nestes leitores iniciantes.
Fui recebida com um carinho bem quente por toda a equipe que é absolutamente apaixonada pelo que faz e saí exausta mas tão feliz.
Giovana que é quem vai costurando tudo, parece um anjo da guarda, silenciosa, cálida, invisível e presente.
Hoje é meu último dia .Vou para Araçariguama e Santana de Parnaíba. Seu Antonino, nosso motorista, participa de tudo, feliz da vida.
Comecei com meu livro Carona no Jipe. As crianças embarcaram com uma alegria luminosa em todas as minhas propostas. Encontramos uma garrafa com gênio dentro e elas me ofereceram seus desejos. Eram desejos maravilhosos, de paz e de amor.
A Biblioteca Municipal oferece várias atividades e o Rap é uma delas e por sorte havia um professor de rap assistindo o nosso encontro então eu pedi e ele aceitou a tarefa de fazer um poema do livro Caixinha de Música em forma de rap. As crianças amaram e é o que o Guga , meu filho e autor das partituras, escreveu no livro..
À tarde fui para Jundiaí. A Biblioteca Professor Nelson Foot fica numa antiga fábrica de tecidos. Ela é uma Biblioteca Viva e oferece muitas atividades. O Complexo é imenso se chama ARGOS. A Biblioteca fica dentro deste complexo. Também a Secretaria Municipal de Educação. A sua beleza pulsa e contagia. Não dá vontade de ir embora nunca mais.
O espaço que prepararam para o encontro era de tirar o fôlego. Pertinho da Gibiteca, maravilhosa, meu neto Luis ia enlouquecer de felicidade com o Homem Aranha pendurado na parede e tantos outros Super Heróis.A Biblioteca oferece wifi grátis e equipamentos de informática.
Há um Projeto que se chama "Trouxeste a Chave?" inspirado no poema do Drummond, de visitação da biblioteca, desde bebês até a terceira idade. Aos sábados há contação de histórias.
A Biblioteca está aberta e recebe corais, teatros, etc, pois tem um ótimo auditório.
O meu público era de jovens e adultos. Umas 150 pessoas. Foi divino o que aconteceu ali. Como o Complexo Argos alfabetiza adultos e eles podem fazer até o Ensino Médio, muitos professores do Eja estavam ali. E tive belos depoimentos sobre o impacto da minha poesia nestes leitores iniciantes.
Fui recebida com um carinho bem quente por toda a equipe que é absolutamente apaixonada pelo que faz e saí exausta mas tão feliz.
Giovana que é quem vai costurando tudo, parece um anjo da guarda, silenciosa, cálida, invisível e presente.
Hoje é meu último dia .Vou para Araçariguama e Santana de Parnaíba. Seu Antonino, nosso motorista, participa de tudo, feliz da vida.
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
BIBLIOTECA VARGEM GRANDE PAULISTA
A pequena Biblioteca de Vargem Grande Paulista nos acolheu de uma maneira espetacular. Antes do começo das atividades havia uma mesa de bolos e doces e pães de queijo, sucos, cafés e pessoas incríveis que fazem a cultura do lugar. Todas as iguarias foram preparas ali mesmo, na cozinha da biblioteca, pasmem, pela própria diretora , a Wedma, que adora cozinhar. E já havia em andamento dois caldos para a noite: um de mandioca e outro de feijão.
Cristóvão Tezza , que conheci ontem, está sendo um maravilhoso companheiro de jornada.
Estavam presentes as pessoas mais importantes da cidade e , incrível, não se dão a menor importância. São simples, honestas, cheias de sonhos. Há uma nova biblioteca em construção, a cidade possui três escolas públicas de música! com mais de trezentos alunos.
Ficamos ali na copa conversando , o Professor Carlos, Vice Prefeito, Paulo Gaspoar, Secretário de Educação, Alexandre Santisi, Diretor de Cultura, Aline Oliveira, Coordenadora de Cultura, a Wedma que de vez em quando fugia da cozinha, a Coordenadora da Biblioteca e Marcelo Costa, Diretor Administrativo.
Recebemos 120 crianças. Vieram da E.M João Camargo, a E.M Jéssica Yukari, a E.M Antonia Xavier e a Cooperativa Pindorama.
Foram quase duas horas de brincadeiras poéticas. Ainda bem que fiz aulas imaginárias de circo e consigo fazer mágicas e andar na linha do horizonte! Deu tudo certo.
À noite, às 19hs horas Cristóvão Tezza recebeu um grupo de estudantes do EJA e era uma plateia variada.
A sua fala foi belíssima. Um roteiro emocionado da sua vida, da história do Brasil a partir da Segunda Guerra, das suas leituras, do seu fazer literário. Falou sobre o que é literatura, porque lemos, porque escrevemos.
Chegamos tarde e exaustos aqui no Hotel e já estou pronta para esse dia.
Cristóvão Tezza , que conheci ontem, está sendo um maravilhoso companheiro de jornada.
Estavam presentes as pessoas mais importantes da cidade e , incrível, não se dão a menor importância. São simples, honestas, cheias de sonhos. Há uma nova biblioteca em construção, a cidade possui três escolas públicas de música! com mais de trezentos alunos.
Ficamos ali na copa conversando , o Professor Carlos, Vice Prefeito, Paulo Gaspoar, Secretário de Educação, Alexandre Santisi, Diretor de Cultura, Aline Oliveira, Coordenadora de Cultura, a Wedma que de vez em quando fugia da cozinha, a Coordenadora da Biblioteca e Marcelo Costa, Diretor Administrativo.
Recebemos 120 crianças. Vieram da E.M João Camargo, a E.M Jéssica Yukari, a E.M Antonia Xavier e a Cooperativa Pindorama.
Foram quase duas horas de brincadeiras poéticas. Ainda bem que fiz aulas imaginárias de circo e consigo fazer mágicas e andar na linha do horizonte! Deu tudo certo.
À noite, às 19hs horas Cristóvão Tezza recebeu um grupo de estudantes do EJA e era uma plateia variada.
A sua fala foi belíssima. Um roteiro emocionado da sua vida, da história do Brasil a partir da Segunda Guerra, das suas leituras, do seu fazer literário. Falou sobre o que é literatura, porque lemos, porque escrevemos.
Chegamos tarde e exaustos aqui no Hotel e já estou pronta para esse dia.
terça-feira, 15 de setembro de 2015
AMIZADE
Tenho
uma linda história de amizade para contar. Mariana era minha leitora
quando criança e continuou lendo meus livros quando adolescente. Um dia ,
faz muito tempo, me escreveu uma carta perguntando a minha opinião
sobre algo muito importante para ela, pois estava numa encruzilhada.
A minha resposta, sem eu saber, forjou o seu futuro.
Já morando em Saquarema, ela reaparece me perguntando se podia vir de São Paulo para o Clube de Leitura. Era o seu presente de aniversário, o seu sonho.
Ela chegou e a partir daí nunca mais saiu dos nossos corações, meu e do Juan. Desde então ela passa alguns dias comigo uma vez por ano, ou no mar ou na montanha.
E agora, quando tenho a manhã livre aqui em São Paulo antes da primeira viagem, ela está vindo para cá.
A minha poesia está sempre em sua vida e ela com sua leveza , está sempre na minha vida.
A minha resposta, sem eu saber, forjou o seu futuro.
Já morando em Saquarema, ela reaparece me perguntando se podia vir de São Paulo para o Clube de Leitura. Era o seu presente de aniversário, o seu sonho.
Ela chegou e a partir daí nunca mais saiu dos nossos corações, meu e do Juan. Desde então ela passa alguns dias comigo uma vez por ano, ou no mar ou na montanha.
E agora, quando tenho a manhã livre aqui em São Paulo antes da primeira viagem, ela está vindo para cá.
A minha poesia está sempre em sua vida e ela com sua leveza , está sempre na minha vida.
domingo, 13 de setembro de 2015
VIAGEM LITERÁRIA 2015
Amanhã parto para São Paulo, no belo projeto "Viagem Literária 2015" .
São cinco cidades em três dias, encontro com os leitores nas Bibliotecas
das cidades. Terei Cristóvao Tezza como companheiro de viagem.
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
FRONTEIRAS
Se olharmos uma imagem da Terra não vemos as fronteiras entre os países. A Terra navega silenciosa no espaço, indiferente ao que somos e fazemos.
As fronteiras são invenções diabólicas. Daqui não se pode passar. Atenção, pare! O outro lado é proibido.Se as pessoas pudessem ficar nos seus países, poucas iriam embora. Humanos criam laços e raízes. Alguns são aventureiros. Mas a maioria não quer se afastar da sua terra, da sua casa, da sua língua.
É inimaginável a tragédia de cada família que parte fugindo da guerra ou da fome.
Assistimos estarrecidos milhares de pessoas fugindo. São milhares de histórias, sonhos, destinos, que se cruzam, milhares de palavras que ecoam, palavras desesperadas.
Ontem, na fronteira da Hungria, acho que com a Sérvia, soldados humilhavam as pessoas, batiam até em crianças.
O mundo não deveria ter fronteiras. A vida de cada pessoa em sua terra, com seus parentes e amigos deveria ser de tal modo plena e fértil que ela não precisaria fugir. Sairia apenas para ver outras paisagens e culturas e voltaria mais rica de tudo o que viu. Quem sabe se apaixonaria por alguém de outra terra e então não voltaria.
Lá do alto não se pode ver as fronteiras. Nem os guardas, nem os cachorros treinados para atacar.
A Terra navega silenciosa no espaço, indiferente ao que somos, e fazemos.
As fronteiras são invenções diabólicas. Daqui não se pode passar. Atenção, pare! O outro lado é proibido.Se as pessoas pudessem ficar nos seus países, poucas iriam embora. Humanos criam laços e raízes. Alguns são aventureiros. Mas a maioria não quer se afastar da sua terra, da sua casa, da sua língua.
É inimaginável a tragédia de cada família que parte fugindo da guerra ou da fome.
Assistimos estarrecidos milhares de pessoas fugindo. São milhares de histórias, sonhos, destinos, que se cruzam, milhares de palavras que ecoam, palavras desesperadas.
Ontem, na fronteira da Hungria, acho que com a Sérvia, soldados humilhavam as pessoas, batiam até em crianças.
O mundo não deveria ter fronteiras. A vida de cada pessoa em sua terra, com seus parentes e amigos deveria ser de tal modo plena e fértil que ela não precisaria fugir. Sairia apenas para ver outras paisagens e culturas e voltaria mais rica de tudo o que viu. Quem sabe se apaixonaria por alguém de outra terra e então não voltaria.
Lá do alto não se pode ver as fronteiras. Nem os guardas, nem os cachorros treinados para atacar.
A Terra navega silenciosa no espaço, indiferente ao que somos, e fazemos.
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
DIA E NOITE
Faz muito tempo, em 1994, publiquei uma agenda que se chamava DIA E NOITE (Livro Ilustrado de Anotações) os desenhos eram de um cartunista chamado Tiburcio.
Eu estava recém operada da coluna, numa cirurgia que não deu certo e durante a recuperação, para me abstrair das dores, escrevi os textos.
A agenda fez um sucesso absoluto e foi publicada pela extinta editora Memórias Futuras.
Em cada página um texto para reflexão ou um poema.
Em maio, no dia 13, na data da abolição da escravatura, escrevi (em 1994)
" Só poderemos comemorar a Abolição da Escravatura quando houver igualdades de oportunidades para todos os homens.
Até lá, somos ainda um país cheio de escravos"
Não acho que haja oportunidades iguais para todos, hoje em 2015. A Educação ainda não deu o salto quântico que deveria dar.
No dia 10 de setembro de 1994, um sábado, escrevi:
" A felicidade é uma noz pequenininha que se multiplica milhares de vezes pela vida afora.É só não ter medo de trincá-la com os dentes"
Nos encontros que faço aqui em casa com as escolas, observo que nos alunos leitores a felicidade é percebida como um bem imaterial. Nos grupos com pouca leitura a felicidade é percebida como um bem material.
E no dia 20 de setembro escrevi:
"Onde o amigo precisar de mim que eu esteja presente e seja água, pão e acalanto"
Para fechar este texto, no dia 10 de dezembro escrevi:
"Sonhar um mundo justo onde todos possam viver a aventura de uma vida bela e plena.
Esse é um sonho que vale a pena."
Este é o meu sonho de todo dia.
Eu estava recém operada da coluna, numa cirurgia que não deu certo e durante a recuperação, para me abstrair das dores, escrevi os textos.
A agenda fez um sucesso absoluto e foi publicada pela extinta editora Memórias Futuras.
Em cada página um texto para reflexão ou um poema.
Em maio, no dia 13, na data da abolição da escravatura, escrevi (em 1994)
" Só poderemos comemorar a Abolição da Escravatura quando houver igualdades de oportunidades para todos os homens.
Até lá, somos ainda um país cheio de escravos"
Não acho que haja oportunidades iguais para todos, hoje em 2015. A Educação ainda não deu o salto quântico que deveria dar.
No dia 10 de setembro de 1994, um sábado, escrevi:
" A felicidade é uma noz pequenininha que se multiplica milhares de vezes pela vida afora.É só não ter medo de trincá-la com os dentes"
Nos encontros que faço aqui em casa com as escolas, observo que nos alunos leitores a felicidade é percebida como um bem imaterial. Nos grupos com pouca leitura a felicidade é percebida como um bem material.
E no dia 20 de setembro escrevi:
"Onde o amigo precisar de mim que eu esteja presente e seja água, pão e acalanto"
Para fechar este texto, no dia 10 de dezembro escrevi:
"Sonhar um mundo justo onde todos possam viver a aventura de uma vida bela e plena.
Esse é um sonho que vale a pena."
Este é o meu sonho de todo dia.
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
LIVROS NOVOS
Tenho alguns livros prontos. Mas com a situação atual dois estão na Sala de Espera até não sei quando, ignorando meu coração.
Em outubro sairá, se tudo der certo, o livro CORAÇÃO A DERIVA pela Editora Rovelle. As aquarelas maravilhosas são da Cláudia Simões. São poemas mas contam uma história e é uma história de amor. Um amor impossível. O projeto gráfico é da própria Rovelle e está belíssimo.
A Ed. Lê tem um livro pronto, DUAS CASAS, com ilustrações da Elvira Vigna, maravilhosas. Não sei quando vai sair, nem se vai sair. Era para estar na rua em março.
A Ed. Manati tem um livro pronto, o CARTA NA MANGA, ilustrado pelo Eduardo Albini. Os poemas são engraçados, cheios de recheios inusitados, um pouco nonsense . Não tem prazo para sair.
Tudo isso é muito triste para o autor e para as editoras.
Governos que cortam as verbas da Cultura, Educação e Saúde e ao mesmo tempo gastam horrores com a sua máquina pesada e inútil, são governos que não entenderam nada.
Vivemos um tempo sombrio. Cultura e Educação são os cavalos alados de um país.
Em outubro sairá, se tudo der certo, o livro CORAÇÃO A DERIVA pela Editora Rovelle. As aquarelas maravilhosas são da Cláudia Simões. São poemas mas contam uma história e é uma história de amor. Um amor impossível. O projeto gráfico é da própria Rovelle e está belíssimo.
A Ed. Lê tem um livro pronto, DUAS CASAS, com ilustrações da Elvira Vigna, maravilhosas. Não sei quando vai sair, nem se vai sair. Era para estar na rua em março.
A Ed. Manati tem um livro pronto, o CARTA NA MANGA, ilustrado pelo Eduardo Albini. Os poemas são engraçados, cheios de recheios inusitados, um pouco nonsense . Não tem prazo para sair.
Tudo isso é muito triste para o autor e para as editoras.
Governos que cortam as verbas da Cultura, Educação e Saúde e ao mesmo tempo gastam horrores com a sua máquina pesada e inútil, são governos que não entenderam nada.
Vivemos um tempo sombrio. Cultura e Educação são os cavalos alados de um país.
terça-feira, 8 de setembro de 2015
O MAR E OS SONHOS
Vivo na frente do mar desde 2002. Na verdade é quase dentro do mar. Sou capricórnio. Sou da montanha. Sou cabra e sou águia. Então o mar , apesar de belíssimo, é um aprendizado diário. Mas a sua música já é tatuagem. Minha pele já é uma partitura do mar.
Antes de sonhar em vir para cá, em 1996, publiquei o livro O Mar e os Sonhos com ilustrações maravilhosas da Elvira Vigna, pela ed. Miguilim. Era quase uma profecia, O livro foi reeditado num outro tamanho, com outras ilustrações da Elvira, ainda mais bonitas pela Lê Editora e foi comprado pelo Governo Federal, já não me lembro quando e pode ser encontrado em muitas bibliotecas das escolas.
Há um poema que amo :
AS CONCHAS
As conchas ouvem música.
O mar rolando seus violinos,
às vezes violas da gamba,
ou mesmo flautas e sinos.
As conchas ouvem
e depois,
quando em nossos ouvidos,
cantam baixinho.
Antes de sonhar em vir para cá, em 1996, publiquei o livro O Mar e os Sonhos com ilustrações maravilhosas da Elvira Vigna, pela ed. Miguilim. Era quase uma profecia, O livro foi reeditado num outro tamanho, com outras ilustrações da Elvira, ainda mais bonitas pela Lê Editora e foi comprado pelo Governo Federal, já não me lembro quando e pode ser encontrado em muitas bibliotecas das escolas.
Há um poema que amo :
AS CONCHAS
As conchas ouvem música.
O mar rolando seus violinos,
às vezes violas da gamba,
ou mesmo flautas e sinos.
As conchas ouvem
e depois,
quando em nossos ouvidos,
cantam baixinho.
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
OS OLHOS DE FRANCISCO
Publico aqui no blog o belíssimo artigo OS OLHOS DE FRANCISCO do meu marido Juan Arias no El País sobre o Papa Francisco.
Francisco foi o primeiro Papa que diante do drama dos refugiados fugindo do horror de seus países em guerra pediu que o Vaticano e todas as paróquias da Igreja abrissem suas portas a eles.
A
teologia de Francisco é, na verdade, a da compaixão, que se esforça
para se colocar no lugar do outro. Seus olhos observam mais com o
coração do que com as leis e os dogmas. Quando está ao lado das pessoas,
suas pupilas parecem se dilatar para observá-las melhor.
O olhar de Francisco é agudo para descobrir o sofrimento das pessoas mais do que seus tropeços. Ele se fixa principalmente nas cicatrizes que a vida deixa nas pessoas. São olhos mais de mãe do que de juiz. Com os homossexuais, os divorciados, com as mulheres que abortaram, com os teólogos excomungados. Até com as lágrimas do menino que chora a morte de seu cachorro, a quem garante que o encontrará no paraíso. E agora principalmente como calvário daqueles que são forçados a deixar sua terra fugindo do horror da perseguição, da fome e da morte.
Sua reprovação é contra a injustiça que os arrasta ao incerto, e contra o que chamou de “globalização da indiferença”. Aos refugiados, sem se preocupar com sua religião, pede o abraço e que se abram a eles as portas de casa.
Talvez por isso, ao seu lado ninguém se sente com medo ou em perigo.
Seus olhos estão limpos de rancor, penetram nas rachaduras da alma,
sabem intuir a carga de sofrimento que devem suportar os diferentes, os
excomungados, os apátridas. Sua luta é para salvá-los dos restos de
inquisição grudados na pele do legalismo.
“Aquele que estiver sem pecado, que atire a primeira pedra” é o seu slogan, o mesmo que Jesus usou para salvar a mulher adúltera.
É o primeiro Papa, dos sete que conheci, que confessa estar mais interessado no que uma pessoa faz pelos outros do que no número de vezes que vai à missa.
Custa-lhe condenar. Isso ele deixa para Deus. Ele prefere consolar, embora saiba ser duro com os poderes prevaricadores.
Francisco é o primeiro Papa que não prega que a Igreja Católica é a única depositária da salvação. Para ele, as religiões são como as faces de um poliedro, todas iguais e diferentes, nenhuma maior do que a outra. Parece dizer, com seus gestos de aproximação com outros credos, que ninguém tem o monopólio de Deus. Para ele não há crentes ou não crentes, apenas pessoas que sofrem e amam. E aqueles que mais sofrem são sempre os mais esquecidos e invisíveis.
O mundo, com suas tristes caravanas de refugiados à deriva, órfão de guias credíveis, está necessitando de olhares e gestos como os de Francisco para se sentir mais acolhido do que julgado. E mais amado.
Não quer ser chamado de Papa.
É só nosso irmão Francisco, que hoje nos interpela para que não fechemos os olhos para o drama que vivem os refugiados, que são os novos crucificados da História.
Francisco foi o primeiro Papa que diante do drama dos refugiados fugindo do horror de seus países em guerra pediu que o Vaticano e todas as paróquias da Igreja abrissem suas portas a eles.
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O olhar de Francisco é agudo para descobrir o sofrimento das pessoas mais do que seus tropeços. Ele se fixa principalmente nas cicatrizes que a vida deixa nas pessoas. São olhos mais de mãe do que de juiz. Com os homossexuais, os divorciados, com as mulheres que abortaram, com os teólogos excomungados. Até com as lágrimas do menino que chora a morte de seu cachorro, a quem garante que o encontrará no paraíso. E agora principalmente como calvário daqueles que são forçados a deixar sua terra fugindo do horror da perseguição, da fome e da morte.
Sua reprovação é contra a injustiça que os arrasta ao incerto, e contra o que chamou de “globalização da indiferença”. Aos refugiados, sem se preocupar com sua religião, pede o abraço e que se abram a eles as portas de casa.
- O olhar de Francisco chega a suspeitar que no coração das pessoas existe mais urgência de redenção e de felicidade do que confessamos. Que a humanidade, por vezes tão orgulhosa, é como um cristal fino que precisa de uma mão amiga para não se quebrar. E que pode ser mais solidária do que egoísta quando posta à prova.
“Aquele que estiver sem pecado, que atire a primeira pedra” é o seu slogan, o mesmo que Jesus usou para salvar a mulher adúltera.
É o primeiro Papa, dos sete que conheci, que confessa estar mais interessado no que uma pessoa faz pelos outros do que no número de vezes que vai à missa.
Custa-lhe condenar. Isso ele deixa para Deus. Ele prefere consolar, embora saiba ser duro com os poderes prevaricadores.
Francisco é o primeiro Papa que não prega que a Igreja Católica é a única depositária da salvação. Para ele, as religiões são como as faces de um poliedro, todas iguais e diferentes, nenhuma maior do que a outra. Parece dizer, com seus gestos de aproximação com outros credos, que ninguém tem o monopólio de Deus. Para ele não há crentes ou não crentes, apenas pessoas que sofrem e amam. E aqueles que mais sofrem são sempre os mais esquecidos e invisíveis.
O mundo, com suas tristes caravanas de refugiados à deriva, órfão de guias credíveis, está necessitando de olhares e gestos como os de Francisco para se sentir mais acolhido do que julgado. E mais amado.
Não quer ser chamado de Papa.
É só nosso irmão Francisco, que hoje nos interpela para que não fechemos os olhos para o drama que vivem os refugiados, que são os novos crucificados da História.
domingo, 6 de setembro de 2015
UM CAMINHO PARA A TAPIOCA
Hoje cedinho fomos caminhando por dentro, até quase chegar na vila, até a barraquinha linda de tapioca.
Algumas casas de pescadores resistiram, ainda estão de pé. Margeando o aeroporto, que na verdade é um parque, a vista é belíssima. Realmente este recanto de Saquarema é uma máquina do tempo.
A barraca de tapioca é um encanto. Tudo tão lindo e limpo. Coberta com uma toalha branca de babados.
Seus donos moram em Rio Seco, zona rural. Chegamos tão cedo que ainda estavam arrumando as canas para o caldo de cana e nem tinham peneirado a farinha da tapioca. Vi um anúncio de SOLA. Perguntei o que era. É uma tapioca recheada de coco e amendoim, assada no fogão de lenha, enrolada na folha de bananeira.
Também se pode comer pastéis fritos na hora e tapioca feita no momento.
Sou apaixonada por estes restos de passado. Parece que estou entrando por uma fresta no tempo .
Algumas casas de pescadores resistiram, ainda estão de pé. Margeando o aeroporto, que na verdade é um parque, a vista é belíssima. Realmente este recanto de Saquarema é uma máquina do tempo.
A barraca de tapioca é um encanto. Tudo tão lindo e limpo. Coberta com uma toalha branca de babados.
Seus donos moram em Rio Seco, zona rural. Chegamos tão cedo que ainda estavam arrumando as canas para o caldo de cana e nem tinham peneirado a farinha da tapioca. Vi um anúncio de SOLA. Perguntei o que era. É uma tapioca recheada de coco e amendoim, assada no fogão de lenha, enrolada na folha de bananeira.
Também se pode comer pastéis fritos na hora e tapioca feita no momento.
Sou apaixonada por estes restos de passado. Parece que estou entrando por uma fresta no tempo .
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
N.S.APARECIDA
A Vila de Saquarema já está agitadíssima para a Festa da Santa padroeira da cidade, N.S.de Nazareth.
Gosto de sair do Pilates e tomar um café sentada de frente para a lagoa. É meu recreio. Um momento solitário de profundo prazer.
Hoje o cenário era outro: as barracas (centenas) sendo montadas, muita gente chegando. Barracas de comida, de roupas, foi o que vi. Nos alto falantes músicas religiosas.
É muito interessante essa mistura do sacro e do profano. É uma festa religiosa, mas as pessoas querem comer, comprar, beber, passear.
O que nos dá uma lição. Difícil separar as coisas em compartimentos estanques. Tudo é fluido, tudo escorre e se interliga, tudo dança.
Pena que nenhuma livraria aproveite para armar a sua barraca de livros na festa!
Gosto de sair do Pilates e tomar um café sentada de frente para a lagoa. É meu recreio. Um momento solitário de profundo prazer.
Hoje o cenário era outro: as barracas (centenas) sendo montadas, muita gente chegando. Barracas de comida, de roupas, foi o que vi. Nos alto falantes músicas religiosas.
É muito interessante essa mistura do sacro e do profano. É uma festa religiosa, mas as pessoas querem comer, comprar, beber, passear.
O que nos dá uma lição. Difícil separar as coisas em compartimentos estanques. Tudo é fluido, tudo escorre e se interliga, tudo dança.
Pena que nenhuma livraria aproveite para armar a sua barraca de livros na festa!
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
E.M.BRASIL
Hoje, na minha casa, tive a honra de receber uma escola absolutamente extraordinária. a E.M.Brasil, uma escola da periferia do Rio, de Olaria. A escola tem um dos IDEBS mais altos de todo o Estado do Rio: 6.8
Este desempenho se deve ao ofício do sonho. A escola prioriza a literatura e a arte. E o que vivi hoje foi tão emocionante que não podia acreditar!
Um grupo de 20 adolescentes, absolutamente apaixonados por literatura!
A escola vai participar da FLUPP, uma Festa Literária que irá ocupar três dias inteiros e alguns autores e seus livros estarão presentes . Meus livros Colo de Avó, Diário da Montanha, O Mar e os Sonhos e Brinquedos e Brincadeiras foram os escolhidos.
A turma é muito afiada. São pensadores e sonhadores.
Comecei lendo um conto do meu livro Exercícios de Amor. Falamos sobre amor amizade, sobre processos de criação.
Eles fazem aulas de teatro e artes visuais na escola. Agora estão trabalhando com mandalas. Falamos sobre o efeito curativo das mandalas e das cirandas, falamos sobre Bispo do Rosário e o Museu do Inconsciente da Dra. Nise da Silveira. Falamos sobre identidade. Os alunos leram em voz alta alguns poemas do meu livro Carteira de Identidade. Falamos dos nomes de cada um e seus significados. Gritamos nossos nomes para o Universo ouvir.
Tocamos em temas duros como gravidez precoce, suicídio, adolescentes que se cortam. Falamos da importância das palavras. Há palavras que ferem e destroem pessoas.
Outros alunos leram alguns poemas do meu livro Poço dos Desejos. Falamos sobre os desejos.
Amanda disse que o seu desejo é ler todos os livros possíveis, ler infinitamente.
Brendo disse que seu desejo era dar para a sua mãe em dobro tudo o que recebeu
Marcela disse que seu desejo era não errar, acertar sempre. Juan Arias, meu marido, falou que isso era impossível. Erramos e acertamos. E disse que a ciência faz novas descobertas errando.
Lygia quer se formar em medicina.
Chandler quer realizar todos os seus desejos.
Eles estavam acompanhados de Carla, a coordenadora do Projeto Flupp, Rosângela, Regente da Sala de Leitura e uma mãe que parecia uma aluna.
Vieram todos com a camiseta que idealizaram para a Flupp: "Caminhos de Murray" com um desenho lindo.
Tomamos um café da manhã tardio: cachorro quente, coxinha de galinha, (a filha da Vanda fez) bolo, chocolate quente (que ninguém quis) e suco de caju.
Os jovens foram ver o mar de ressaca. Foram ao jardim. Fotografaram MUITO e no final de tudo demos um grande abraço coletivo bem apertado e gritamos de felicidade. Urramos.
Daqui foram visitar a Igreja de Saquarema.
Este desempenho se deve ao ofício do sonho. A escola prioriza a literatura e a arte. E o que vivi hoje foi tão emocionante que não podia acreditar!
Um grupo de 20 adolescentes, absolutamente apaixonados por literatura!
A escola vai participar da FLUPP, uma Festa Literária que irá ocupar três dias inteiros e alguns autores e seus livros estarão presentes . Meus livros Colo de Avó, Diário da Montanha, O Mar e os Sonhos e Brinquedos e Brincadeiras foram os escolhidos.
A turma é muito afiada. São pensadores e sonhadores.
Comecei lendo um conto do meu livro Exercícios de Amor. Falamos sobre amor amizade, sobre processos de criação.
Eles fazem aulas de teatro e artes visuais na escola. Agora estão trabalhando com mandalas. Falamos sobre o efeito curativo das mandalas e das cirandas, falamos sobre Bispo do Rosário e o Museu do Inconsciente da Dra. Nise da Silveira. Falamos sobre identidade. Os alunos leram em voz alta alguns poemas do meu livro Carteira de Identidade. Falamos dos nomes de cada um e seus significados. Gritamos nossos nomes para o Universo ouvir.
Tocamos em temas duros como gravidez precoce, suicídio, adolescentes que se cortam. Falamos da importância das palavras. Há palavras que ferem e destroem pessoas.
Outros alunos leram alguns poemas do meu livro Poço dos Desejos. Falamos sobre os desejos.
Amanda disse que o seu desejo é ler todos os livros possíveis, ler infinitamente.
Brendo disse que seu desejo era dar para a sua mãe em dobro tudo o que recebeu
Marcela disse que seu desejo era não errar, acertar sempre. Juan Arias, meu marido, falou que isso era impossível. Erramos e acertamos. E disse que a ciência faz novas descobertas errando.
Lygia quer se formar em medicina.
Chandler quer realizar todos os seus desejos.
Eles estavam acompanhados de Carla, a coordenadora do Projeto Flupp, Rosângela, Regente da Sala de Leitura e uma mãe que parecia uma aluna.
Vieram todos com a camiseta que idealizaram para a Flupp: "Caminhos de Murray" com um desenho lindo.
Tomamos um café da manhã tardio: cachorro quente, coxinha de galinha, (a filha da Vanda fez) bolo, chocolate quente (que ninguém quis) e suco de caju.
Os jovens foram ver o mar de ressaca. Foram ao jardim. Fotografaram MUITO e no final de tudo demos um grande abraço coletivo bem apertado e gritamos de felicidade. Urramos.
Daqui foram visitar a Igreja de Saquarema.
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
TAIPÉ
Ontem vi um documentário maravilhoso sobre a cidade de Taipé, em Taiwan.
Um fotógrafo canadense que vive na cidade desde 1999, contava: Taipé parece uma grande cidade. Mas é uma ilusão, pois seu espírito é provinciano. Os bairros guardam a mesma estrutura emocional de quando Taipé era muito pequena. As pessoas se conhecem, se ajudam, as casas são bem simples, às vezes precárias, em pequenos becos. A segurança é total. Qualquer um pode andar pelos becos mal iluminados à noite sem nenhum perigo. O individualismo não existe. As pessoas não estão preocupadas em acumular bens . Elas se preocupam em viver bem. Isso quer dizer ter amigos, ajudar as pessoas, comer bem.
Uma correspondente contava: a cidade tem uma vida intensa até às duas da manhã. O que mais os habitantes gostam de fazer é comer. Quase ninguém cozinha em casa, pois há milhares de ofertas de comida na rua e é uma maneira das pessoas se conhecerem ou de estarem juntas. Peixes e frutos do mar são predominantes. Quando alguém viaja na volta a pergunta que se faz é : - Você comeu bem?
Quase todo mundo é budista. Existem muitos templos e de todos os tamanhos. Mesmo quem não segue todas as regras se sente budista e faz pedidos e oferendas.
Duas jovens irmãs, filhas de um casamento misto, viviam nos Estados Unidos mas escolheram Taipé para morar. Elas dizem que não há lugar melhor para se viver no mundo pelo afeto que corre como um rio caudaloso entre as pessoas. Há um clima de amor na cidade que é uma ilha.
Se não fosse tão longe me mudava para Taipé...
Um fotógrafo canadense que vive na cidade desde 1999, contava: Taipé parece uma grande cidade. Mas é uma ilusão, pois seu espírito é provinciano. Os bairros guardam a mesma estrutura emocional de quando Taipé era muito pequena. As pessoas se conhecem, se ajudam, as casas são bem simples, às vezes precárias, em pequenos becos. A segurança é total. Qualquer um pode andar pelos becos mal iluminados à noite sem nenhum perigo. O individualismo não existe. As pessoas não estão preocupadas em acumular bens . Elas se preocupam em viver bem. Isso quer dizer ter amigos, ajudar as pessoas, comer bem.
Uma correspondente contava: a cidade tem uma vida intensa até às duas da manhã. O que mais os habitantes gostam de fazer é comer. Quase ninguém cozinha em casa, pois há milhares de ofertas de comida na rua e é uma maneira das pessoas se conhecerem ou de estarem juntas. Peixes e frutos do mar são predominantes. Quando alguém viaja na volta a pergunta que se faz é : - Você comeu bem?
Quase todo mundo é budista. Existem muitos templos e de todos os tamanhos. Mesmo quem não segue todas as regras se sente budista e faz pedidos e oferendas.
Duas jovens irmãs, filhas de um casamento misto, viviam nos Estados Unidos mas escolheram Taipé para morar. Elas dizem que não há lugar melhor para se viver no mundo pelo afeto que corre como um rio caudaloso entre as pessoas. Há um clima de amor na cidade que é uma ilha.
Se não fosse tão longe me mudava para Taipé...
terça-feira, 1 de setembro de 2015
DON QUIJOTE
Começo a reler Don Quijote. Em espanhol, numa edição belíssima que ganhamos. Será tarefa para muito tempo.
Em 1998 , quando Juan me convidou para morar com ele em Madrid, ele me disse:
_Mas se quer viver com um espanhol para o resto da vida tem que ler o Don Quijote.
Era inverno na Espanha e eu não poderia aguentar o frio. Então decidi esperar em Visconde de Mauá. Juan me disse que avisaria quando as primeiras folhas nascessem nas árvores. Além do inverno severo, ele não queria que eu visse as árvores sem folhas!
Fui para Visconde de Mauá passar janeiro e fevereiro com o livro em português debaixo do braço. Naquela época ainda não lia fluentemente em espanhol. Na minha casa não tinha luz. Eu não tinha carro nem celular nem telefone. E estava sozinha. Passei dois meses sozinha lendo até a luz acabar. Dormia muito cedo.
Para ter alguma notícia, tinha que descer o vale até uma pousada e ligava para a minha irmã Evelyn.
No começo de março ela me disse: Juan disse que você já pode ir.
Eu havia acabado de ler o Don Quijote. Já podia me casar com um espanhol!
Embarquei no dia 13 de março de 1998 para a maior aventura da minha vida. Pelas mãos do Juan fiquei amiga de Pilar e Saramago, tomei café da manhã com Vargas Llosa!
O livro é uma verdadeira maravilha. Cervantes está além, muito além da sua época. Até da nossa! A sua ironia é impressionante. Mais de quatrocentos anos se passaram e Don Quijote é a metáfora dos que buscam.
Em 1998 , quando Juan me convidou para morar com ele em Madrid, ele me disse:
_Mas se quer viver com um espanhol para o resto da vida tem que ler o Don Quijote.
Era inverno na Espanha e eu não poderia aguentar o frio. Então decidi esperar em Visconde de Mauá. Juan me disse que avisaria quando as primeiras folhas nascessem nas árvores. Além do inverno severo, ele não queria que eu visse as árvores sem folhas!
Fui para Visconde de Mauá passar janeiro e fevereiro com o livro em português debaixo do braço. Naquela época ainda não lia fluentemente em espanhol. Na minha casa não tinha luz. Eu não tinha carro nem celular nem telefone. E estava sozinha. Passei dois meses sozinha lendo até a luz acabar. Dormia muito cedo.
Para ter alguma notícia, tinha que descer o vale até uma pousada e ligava para a minha irmã Evelyn.
No começo de março ela me disse: Juan disse que você já pode ir.
Eu havia acabado de ler o Don Quijote. Já podia me casar com um espanhol!
Embarquei no dia 13 de março de 1998 para a maior aventura da minha vida. Pelas mãos do Juan fiquei amiga de Pilar e Saramago, tomei café da manhã com Vargas Llosa!
O livro é uma verdadeira maravilha. Cervantes está além, muito além da sua época. Até da nossa! A sua ironia é impressionante. Mais de quatrocentos anos se passaram e Don Quijote é a metáfora dos que buscam.
domingo, 30 de agosto de 2015
LINDA NOTÍCIA
Nosso Clube de Leitura já deve ter uns três anos ou mais. Nunca conto o tempo. O tempo vai simplesmente escorrendo.
E ontem recebi a mais linda notícia: Felipe Lacerda que havia se afastado do Clube pois está estudando para o doutorado, me contou que fez um concurso para Professor de Português e passou em primeiro lugar , o primeiro entre quatro mil candidatos e me disse textualmente:
"Passei em primeiro lugar para Professor de Português no concurso entre quatro mil candidatos! E a prova não tinha quase gramática, era toda de estilística, media a nossa capacidade de leitura ; por isso tenho certeza absoluta que você, o Clube e todos os livros que lemos têm grande parcela de contribuição nesse desempenho que tive na prova!!! Quero te agradecer com um abraço forte e comemorar com nossos amigos do grupo!!! Então, até breve!"
A alegria do grupo será imensa , mas escrevo hoje esse texto para soprar nas escolas o desejo de construir um Clube de Leitura para os Professores. É muito simples. Ler um livro por mês ou até mesmo de dois em dois meses, depois discutir o livro com um lanche ou um almoço, transformar o encontro numa grande comemoração. Os resultados serão imensos. O Felipe está nos trazendo uma informação preciosa.
Nosso Clube de Leitura da Casa Amarela já criou entre os seus participantes um elo muito forte de amizade e pertencimento. Fico contando os dias para nosso próximo encontro. Desta vez nossos convidados de honra são Amos Óz e Álvaro Mútis.
E ontem recebi a mais linda notícia: Felipe Lacerda que havia se afastado do Clube pois está estudando para o doutorado, me contou que fez um concurso para Professor de Português e passou em primeiro lugar , o primeiro entre quatro mil candidatos e me disse textualmente:
"Passei em primeiro lugar para Professor de Português no concurso entre quatro mil candidatos! E a prova não tinha quase gramática, era toda de estilística, media a nossa capacidade de leitura ; por isso tenho certeza absoluta que você, o Clube e todos os livros que lemos têm grande parcela de contribuição nesse desempenho que tive na prova!!! Quero te agradecer com um abraço forte e comemorar com nossos amigos do grupo!!! Então, até breve!"
A alegria do grupo será imensa , mas escrevo hoje esse texto para soprar nas escolas o desejo de construir um Clube de Leitura para os Professores. É muito simples. Ler um livro por mês ou até mesmo de dois em dois meses, depois discutir o livro com um lanche ou um almoço, transformar o encontro numa grande comemoração. Os resultados serão imensos. O Felipe está nos trazendo uma informação preciosa.
Nosso Clube de Leitura da Casa Amarela já criou entre os seus participantes um elo muito forte de amizade e pertencimento. Fico contando os dias para nosso próximo encontro. Desta vez nossos convidados de honra são Amos Óz e Álvaro Mútis.
sexta-feira, 28 de agosto de 2015
PEQUENOS GRANDES GESTOS
Pequenos grandes gestos nos dão força para não nos desmancharmos num pessimismo que não conduz a nada. O Brasil está vivendo um momento político muito doloroso . Um momento econômico muito doloroso, com tanta gente perdendo o emprego.
Mas como cigarras- formiguinhas muita gente trabalha em silêncio, sem alarde, para o bem . Como diz Bia Bedran em sua música, a gente tem que fazer UM BEM.
Ontem, na escola Joaquina recebi um sopro de vida com aquelas crianças tão entregues ao fazer poético, com aquelas professoras tecendo as suas maravilhas no tear mágico do amor.
Minha amiga Fernanda Candeias, que nunca buscou aparecer, ia simplesmente costurando as suas bonecas terapêuticas para doá-las, com a reportagem que fizeram ao descobri-la, fez tanta gente parar e se emocionar. Alguém, em silêncio, produz bonequinhas mágicas para crianças doentes, de graça.
Fazer um bem ao outro justifica a nossa existência.
O mundo está difícil de engolir junto com o café da manhã, mas existe outro mundo e é neste outro mundo, o das pessoas que constroem um pouco de felicidade para os outros, que eu quero acreditar.
Mas como cigarras- formiguinhas muita gente trabalha em silêncio, sem alarde, para o bem . Como diz Bia Bedran em sua música, a gente tem que fazer UM BEM.
Ontem, na escola Joaquina recebi um sopro de vida com aquelas crianças tão entregues ao fazer poético, com aquelas professoras tecendo as suas maravilhas no tear mágico do amor.
Minha amiga Fernanda Candeias, que nunca buscou aparecer, ia simplesmente costurando as suas bonecas terapêuticas para doá-las, com a reportagem que fizeram ao descobri-la, fez tanta gente parar e se emocionar. Alguém, em silêncio, produz bonequinhas mágicas para crianças doentes, de graça.
Fazer um bem ao outro justifica a nossa existência.
O mundo está difícil de engolir junto com o café da manhã, mas existe outro mundo e é neste outro mundo, o das pessoas que constroem um pouco de felicidade para os outros, que eu quero acreditar.
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
CÃES, GATOS, LIVROS E MÁQUINA DE COSTURA
Hoje a mais linda viagem aconteceu por acaso na minha vida .
Adelaide, do nosso Clube de Leitura, me contou uma história extraordinária, que o dono da livraria de Araruama, cidade vizinha, lhe contou: as crianças da E.M.Joaquina de Oliveira Rangel, escola rural em Águas de Juturnaíba, foram até a livraria com um saco de moedas para comprar meus livros. Antes foram encomendados pois a livraria não os tinha. As crianças, as mães, professores, fabricaram e venderam sacolés para conseguir o dinheiro. Fiquei tão comovida que contei a história no face e disse que gostaria de ir até lá para conhecer as crianças. A Professora Vanessa me respondeu e combinamos a minha ida para hoje, o dia da Festa Literária na escola.
A Escola pediu e a Secretaria de Educação de Araruama mandou um carro me buscar, muito delicadamente. A Secretária de Educação foi comigo e a sua equipe nos acompanhou.
Pois bem, é longe. Depois de São Vicente, que é uma graça, a estrada é de terra. A região é de fazendas de laranja que foram abandonadas. Aqui e ali um gado, casas de roça, simples. Em muitos lugares nem há luz.
De repente a lagoa de água doce que abastece toda a região dos lagos, lindíssima, a lagoa de Juturnaíba. Às suas margens há uma pequena mata.
Da escola se vê a lagoa. A escola fica no alto. Uma casa antiga, grande, gostosa. Casa de roça. O terreno é ondulado, enorme, com belas árvores.
Cheguei e as crianças estavam sentadas no terreno me esperando. Instalações poéticas por todo o terreno. Já falarei de cada uma.
Fizemos muitas brincadeiras com meus livros, amaram! Foi muito bom , prazeroso, divertido. As crianças maravilhosas , cada sorriso mais bonito que o outro. Então apresentaram um coral. Era assim: Um aluno ou uma aluna liam um poema do livro Poço dos Desejos e o coral cantava alguma música que se entrelaçava com o poema. Uma aluna fez um solo.
Fui conhecer cada instalação debaixo de uma árvore.
Meus livros Colo de Avó e Rios da Alegria estavam pendurados numa castanheira. Havia uma linda casa de papelão que era a casa da avó e um barco de papelão para atravessar o rio.
Em cada árvore um varal de poemas.
O Manual da Delicadeza pendurado num flamboyant e sua instalação era um alfabeto em madeira ou papelão, não sei, mas cada letra gerava uma palavra sobre algum valor essencial: honestidade, solidariedade, etc...Os Classificados Poéticos também no flamboyant.
Poemas e Comidinhas debaixo de um coqueiro. Sobre uma mesinha uma geladeira e um forno de mentirinha. E pendurado na árvore umas fotos dos alunos na cozinha fazendo a salada de frutas. Também num coqueiro o livro Casas.
Uma Gata no Coração pendurada num Pau-Brasil.
E numa Acácia, trabalhos de releituras das crianças..
Um carrinho de pipoca, que foi encontrado abandonado na estrada, foi reformado e transbordava de livros!
O refeitório é uma delícia. No caminho para o refeitório encontrei três cachorros dormindo e perguntei se eram da escola. Não são da escola. São dos alunos! Acompanham seus donos e ficam ali dormindo até a hora de ir embora.
A escola também tem uma gatinha que deu cria, a Joaquina. Todos cuidam dela.
Tem uma horta um pouco distante.
E o mais surpreendente: a escola tem uma MÁQUINA DE COSTURA!!!
A Diretora Elsimar ama costurar, então faz para as crianças, ali na escola mesmo, as roupas das festas!
Vi um vestido trabalhado com tramas naturais, fibras, sementes da região.
A escola tem horário integral. Não vi nenhum portão no terreno. Acho que entram cavalos. E as crianças não fogem. Ninguém precisa tomar conta delas!
Para o almoço fizeram uma Salada Arco-Íris do livro Poemas e Comidinhas! Quanto carinho das cozinheiras, merendeiras e das professoras Vanessa, Joana, Taylane, Simone, Claudia, Thais, Cássio, Eliana... O Professor que nos conduziu também é apaixonado pela roça e a gente na ida e na volta ia se maravilhando com as casinhas simples e lindas.Seu nome é Ubiratan. E a Miriam, Secretária de Educação, tão simples e verdadeira na sua paixão pelas escolas. Voltei, mas dentro de mim a viagem ainda não acabou.
Adelaide, do nosso Clube de Leitura, me contou uma história extraordinária, que o dono da livraria de Araruama, cidade vizinha, lhe contou: as crianças da E.M.Joaquina de Oliveira Rangel, escola rural em Águas de Juturnaíba, foram até a livraria com um saco de moedas para comprar meus livros. Antes foram encomendados pois a livraria não os tinha. As crianças, as mães, professores, fabricaram e venderam sacolés para conseguir o dinheiro. Fiquei tão comovida que contei a história no face e disse que gostaria de ir até lá para conhecer as crianças. A Professora Vanessa me respondeu e combinamos a minha ida para hoje, o dia da Festa Literária na escola.
A Escola pediu e a Secretaria de Educação de Araruama mandou um carro me buscar, muito delicadamente. A Secretária de Educação foi comigo e a sua equipe nos acompanhou.
Pois bem, é longe. Depois de São Vicente, que é uma graça, a estrada é de terra. A região é de fazendas de laranja que foram abandonadas. Aqui e ali um gado, casas de roça, simples. Em muitos lugares nem há luz.
De repente a lagoa de água doce que abastece toda a região dos lagos, lindíssima, a lagoa de Juturnaíba. Às suas margens há uma pequena mata.
Da escola se vê a lagoa. A escola fica no alto. Uma casa antiga, grande, gostosa. Casa de roça. O terreno é ondulado, enorme, com belas árvores.
Cheguei e as crianças estavam sentadas no terreno me esperando. Instalações poéticas por todo o terreno. Já falarei de cada uma.
Fizemos muitas brincadeiras com meus livros, amaram! Foi muito bom , prazeroso, divertido. As crianças maravilhosas , cada sorriso mais bonito que o outro. Então apresentaram um coral. Era assim: Um aluno ou uma aluna liam um poema do livro Poço dos Desejos e o coral cantava alguma música que se entrelaçava com o poema. Uma aluna fez um solo.
Fui conhecer cada instalação debaixo de uma árvore.
Meus livros Colo de Avó e Rios da Alegria estavam pendurados numa castanheira. Havia uma linda casa de papelão que era a casa da avó e um barco de papelão para atravessar o rio.
Em cada árvore um varal de poemas.
O Manual da Delicadeza pendurado num flamboyant e sua instalação era um alfabeto em madeira ou papelão, não sei, mas cada letra gerava uma palavra sobre algum valor essencial: honestidade, solidariedade, etc...Os Classificados Poéticos também no flamboyant.
Poemas e Comidinhas debaixo de um coqueiro. Sobre uma mesinha uma geladeira e um forno de mentirinha. E pendurado na árvore umas fotos dos alunos na cozinha fazendo a salada de frutas. Também num coqueiro o livro Casas.
Uma Gata no Coração pendurada num Pau-Brasil.
E numa Acácia, trabalhos de releituras das crianças..
Um carrinho de pipoca, que foi encontrado abandonado na estrada, foi reformado e transbordava de livros!
O refeitório é uma delícia. No caminho para o refeitório encontrei três cachorros dormindo e perguntei se eram da escola. Não são da escola. São dos alunos! Acompanham seus donos e ficam ali dormindo até a hora de ir embora.
A escola também tem uma gatinha que deu cria, a Joaquina. Todos cuidam dela.
Tem uma horta um pouco distante.
E o mais surpreendente: a escola tem uma MÁQUINA DE COSTURA!!!
A Diretora Elsimar ama costurar, então faz para as crianças, ali na escola mesmo, as roupas das festas!
Vi um vestido trabalhado com tramas naturais, fibras, sementes da região.
A escola tem horário integral. Não vi nenhum portão no terreno. Acho que entram cavalos. E as crianças não fogem. Ninguém precisa tomar conta delas!
Para o almoço fizeram uma Salada Arco-Íris do livro Poemas e Comidinhas! Quanto carinho das cozinheiras, merendeiras e das professoras Vanessa, Joana, Taylane, Simone, Claudia, Thais, Cássio, Eliana... O Professor que nos conduziu também é apaixonado pela roça e a gente na ida e na volta ia se maravilhando com as casinhas simples e lindas.Seu nome é Ubiratan. E a Miriam, Secretária de Educação, tão simples e verdadeira na sua paixão pelas escolas. Voltei, mas dentro de mim a viagem ainda não acabou.
quarta-feira, 26 de agosto de 2015
O CORPO
Começo um trabalho novo. Escrevo como se desenrola um novelo. Quando começo vou desenrolando. Não para publicar, mas para ter novos poemas me habitando:
O corpo cântaro
atravessado pelos ventos
que sopram desde a lua
mais distante,
oscila com o tempo
que já foi usado.
O corpo todo escrito
com o alfabeto gasto
das histórias vividas
se lembra que também é terra
quando sente a terra nos pés,
que também é escrita
impressa na pele do outro,
que também é céu e lua
quando se aninha
nas dobras da noite
para respirar.
terça-feira, 25 de agosto de 2015
A BAILARINA
Hoje nos meus pães entraram os últimos fios da noite, era escuro quando comecei a amassá-los . Esperava a Escola Municipalizada Elcira de Oliveira Coutinho e queria os pães ainda quentes para o nosso Café, Pão e Texto. Fiz também um belíssimo bolo de fubá.
Às nove em ponto o ônibus encostou aqui na porta e as crianças se espalharam pela varanda, nos bancos, no chão.
E vieram cheios de novidades , estavam loucos para me contar.
Há um grupo de leitores na Escola que se chama GALE. São alunos contadores de histórias, sempre no contra-turno. Eles contam histórias, mostram o livro, as ilustrações, em outras turmas, até nas turmas dos maiores. E o melhor: vão de casa em casa. Tocam a campainha e perguntam para quem abre a porta: _ Você quer ouvir uma história? A professora vai junto. Achei a ideia genial, maravilhosa!!!
Perguntei para a professora e para eles, de que maneira esse envolvimento com a leitura modificou a vida deles.
Todos me disseram que melhoraram o rendimento nas outras matérias e que melhoraram também como seres humanos. São mais solidários e mais generosos.
A Professora Elisângela disse que eles foram modificados pela leitura contínua.
A escola tem um blog que funciona como a redação de um jornal:Blog da Escola Elcira. Tem equipe de relações públicas, redatores, equipe de fotografia.
http://emelcira.blogspot.com e estão no facebook . Também fizeram um aplicativo para baixar no celular.
Detalhe: É uma escola rural. Totalmente antenada sob a coordenação do Professor Edgard.
Fizemos , como sempre, brincadeiras com meus poemas. Juan falou bastante sobre a importância de se adquirir vocabulário. Como a escola tem uma rádio, dei a ideia de colocarem no ar um poema todos os dias. Invenção da E.M.Gustavo Campos quando trabalhei lá em 2002.
E já que a escola tem um trabalho incrível com informática, dei a ideia de aprenderem espanhol com algum curso on line que é tão barato.
A aluna Sabryne Taina fez a contação do meu livro Maria Fumaça Cheia de Graça , vestida com a camiseta do Gale, o grupo de leitura e a bolsa de pano bordada onde carregam os livros.
E depois a bailarina Gabriela dançou enquanto Manuela dizia lindamente o poema A Bailarina. Trouxeram a música! Foi lindo, emocionante.
Depois chocolate quente, pães, bolo, biscoito de chocolate. E um passeio no jardim com o Samuel para a gincana das árvores. Dois meninos ganharam o livro Uma Carta para Deus, do Juan . Depois sessão de fotos. E hoje não deu para ir saudar o mar, pois o mar está furioso demais, há uma verdadeira ressaca.
E fomos todos felizes para sempre!!!
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
EM CASA
Em casa, com o mar rugindo e cantando nas minhas costas, já que a minha mesa está de frente para as montanhas, ponho em dia a correspondência, depois de duas semanas na montanha sem internet.
As orquídeas aqui do jardim enlouqueceram, abriram todas as suas flores para a minha chegada.
E uma linda notícia me esperava: Juan, meu marido, pela quinta vez é finalista do Prêmio Comunique-se de jornalismo. Sempre ficou entre os três primeiros, mas desta vez é diferente, pois vou acompanhá-lo dia 22 de setembro. Há uma longa cerimônia e nos últimos anos era impossível aguentar todas as horas sentada. Tudo era impossível antes da cirurgia da coluna. Agora estou novamente na estrada e agradeço voltar a ser uma pessoa que pode. Nos últimos tempos cheguei a tomar 6 analgésicos fortes por dia!
Cheguei e já entrei no redemoinho da poesia. Amanhã recebo 20 alunos da E.M Elcira de Saquarema para um café da manhã. Eu mesma farei pães recheados para o café.
Devo dizer que o sucesso do meu Projeto de Poesia CAFÉ, PÃO E TEXTO, me surpreendeu completamente. Não esperava tanta procura. Mas é que as crianças são maravilhosas! E cada encontro sai mais bonito do que o outro.
E quinta-feira dia 24 vou passar a manhã numa escola rural em Águas de Juturnaíba, perto de Araruama. As crianças venderam sacolé para comprar alguns dos meus livros. Fiquei tão emocionada que preciso conhecê-las.
Acho que jogaram pó do Universo em mim! Estou flutuando com o amor das crianças.
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
VIAGEM
Saio agora para uma viagem de 12 dias. Rio - Resende -Visconde de Mauá.
Não terei internet mas quando chegar em algum lugar onde possa escrever envio notícias.
Não se esqueçam de mim!
domingo, 9 de agosto de 2015
DIA DOS PAIS
Se eu tivesse que dar um presente para o meu pai, se ele fosse vivo hoje, daria um livro. É maravilhoso eu ter a certeza absoluta de que para ele um livro ou um disco de música clássica seriam os melhores presentes.
Meu pai era auto didata, se alfabetizou sozinho, já que veio da Polônia com 14 anos sem falar nenhuma palavra de português.
Ele me apresentou aos escritores russos.
Meu pai foi um comunista simpatizante , mas quando a Russia invadiu a Checoslováquia ele rompeu com seus ideais de juventude. Ele prezava a liberdade acima de tudo e Stálin já havia sido um osso duro de roer. Então ele me deu de presente este amor total ao que é livre, ao que é justo. Por isso abomino regimes autoritários.
O que ele me deixou quando foi embora em 1985 é mais sólido do que uma montanha. Herdei valores.
Eu o carrego cada dia em todos os pequenos gestos que faço e ele que era tão grande, se acomodou perfeitamente entre meus ossos.
Lejbus Kligerman, era seu nome.
sábado, 8 de agosto de 2015
PORQUE HOJE É SÁBADO
Porque hoje é sábado o Igor, neto da Vanda tem aula de espanhol com o Juan e começou hoje a ler seu primeiro livro em espanhol: Tres Viejitas Ingeniosas, que é o meu livro Três Velhinhas Tão Velhinhas publicado no México pela ed. Alfaguara. Ele está muito preocupado, pois diz que sua mãe não vai conseguir ler junto com ele!
Juan só fala com ele em espanhol e a aula é dinâmica, eles vão ao jardim, agora ele está lanchando e adora pão com mel, então o Juan diz: pan con miel, repete! e ele vai repetindo cada coisa . É incrível.
Porque hoje é sábado tem feirinha na esquina , bem pequenininha mas linda, comovente. Comprei abóbora e agrião, pois descobri que as duas coisas juntas dão uma mistura fantástica. Se faz a abóbora e quando já está quase pronta se acrescenta o agrião picadinho. Ele cozinha em três minutos.
Comprei coentro, pois sou fanática pelo seu cheiro e o gosto é o mesmo do cheiro!
Brócolis, couve-flor, duas flores fantásticas, também amo a cor do brócolis. A comida tem que ser bem colorida. Hoje teremos arroz integral, feijão mulatinho, abóbora com agrião, beterraba e salmão grelhado. E salada com tomatinhos cereja.Adoro cozinhar, cozinho com alegria.
Porque hoje é sábado terminarei de ler-reler o Grande Sertão Veredas , discutindo por whatsup com o Cristiano Mota, imenso privilégio, estudioso que ele é de Guimarães. Aliás, aconselho o Clube de Leitores Miguilim que a Suzana Vargas montou na Estação das Letras para quem mora no Rio de Janeiro.
Porque hoje é sábado aconselho a leitura do poema Dia da Criação do Vinicius e desejo a todos um dia esplêndido.
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
DIA DE COLO DE AVÓ
As pessoas que vivem na Casa Amarela e a E.M.Almeida Garret, receberam o presente mais magnífico do mundo!
Julia Cardenas, atriz e contadora de histórias chegou junto com a Dora, sua filha e Priscila, dos mil instrumentos. Um pouquinho antes do ônibus da escola encostar em nosso nosso portão.
o dia magnífico fazia o cenário mais esplêndido possível para a festa.
O almoço já estava em andamento, fogão de lenha cantando, o feijão perfumando a varanda. A mesa grande já cheia de pratos , copos, talheres e no chão colchas coloridas.
As crianças chegaram pelas mãos das professoras Christiane e Carla, super amorosas.
Primeiro o momento pipi, depois de uma longa viagem.
Julia já tinha suas magias arrumadinhas no chão.
Priscila com seu caixote de instrumentos aos pés.
As professoras elogiaram as cores da casa, amarelo ocre e azul turquesa . Falei, falamos, das cores frias e quentes, das cores que acalmam, das que excitam, de como as cores interagem com a gente e pudem mudar o nosso ânimo, de como as cores possuem uma frequência, uma vibração. Perguntei a cor do amor. Alguns disseram azul, outros vermelho.
E de repente a magia começou. Julia nos apresentou seu passarinho, a Isadora que possui vários nomes porque é de origem espanhola. Juan também disse seu nome , imenso.
E Julia fez brotar de dentro dos poemas do livro Colo de Avó, a magia mais absoluta. As imagens do livro se tornaram os objetos mais lindos. Nós todos, a sua plateia, não sabíamos se chorávamos ou se ríamos. As canções , entremeadas com os poemas, deixava nossa respiração por um fio.
Priscila tem os instrumentos mais inusitados e loucos, que ela fabrica.
Num determinado momento houve um cortejo no jardim, todos acompanhando a Julia, que carregava nas mãos um arco-íris...
Julia nos contou a história dos seus avós e bisavós, fez um álbum de fotografias muito muito antigas, seus bisavós que saíram da Espanha e foram até o Uruguai de veleiro no ano de 1932... com as crianças a bordo!
As crianças também contaram histórias de suas avós. E o passarinho Isadora participando ativamente de cada momento.
Acho que nunca me emocionei tanto. Com cada poema do livro Julia fazia um feitiço mais impressionante.
Meu livro cresceu, ficou imenso, se esparramou pelo Universo...
Então, antes do almoço brincamos de Unidunitê, com um poema do livro Caixinha de Música e fizemos um jogral com o poema Caldeirão da bruxa, do livro Poemas e Comidinhas.
O almoço estava maravilhoso, preparado pela Vanda. Cada um com seu prato no colo, todo mundo sentado no chão, ou nos bancos.
As Professoras trouxeram doces de leite, de coco, de chocolate.
E depois do almoço tivemos uma gincana no jardim. Eu tinha três livros para sortear. Os três primeiros que acertassem o nome de três árvores ganhava um livro. Foram conduzidos pelo Samuel. Acertaram a árvore de acerola, de canela, a goiabeira.
Depois, todos já de volta, falaram seus poemas.
E finalmente foram cumprimentar o mar. E foram embora com sorrisos de sol.
Foi um dia maravilhoso. Agradeço.
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
MOMENTO
Parece que o Brasil está derretendo.
Mas todas as crises caminham para um desenlace. Tudo é movimento. A Terra dança no céu, pessoas nascem, pessoas morrem.
Esperemos que o país reencontre seu caminho. Que dinheiro público no futuro seja sagrado, já que é de todos. Que os investimentos sejam feitos no que realmente importa: Educação, Saúde, Segurança. Que no futuro as pessoas tenham além disso água potável, rede de esgoto.
Quando nosso dinheiro for respeitado e o bem estar das pessoas passe a ocupar o lugar que merece, então o país voltará a se reconhecer.
Quando comecei a viajar pelo Brasil em 1990 eu me apaixonei perdidamente pelas pessoas de dentro do Brasil.
O Brasil é muito mais do que Brasília e suas imensas decisões equivocadas, obras faraônicas abandonadas, desvios mirabolantes de dinheiro público.
O momento é duro para todos. Mas em determinadas horas precisamos exercitar nosso desprezo pelos que roubam, mentem, enganam.
O Brasil não merece este outro Brasil paralelo que não me representa.
O que eu gostaria de ver enquanto estou viva: a devolução da nossa dignidade que está sendo roubada.
terça-feira, 4 de agosto de 2015
ABECEDÁRIO (POÉTICO) DE FRUTAS
As crianças e jovens me perguntam em nossos encontros qual o livro que prefiro de todos os que publiquei. Um dos livros que mais amo é o ABECEDÁRIO (POÉTICO) de FRUTAS, da ed. Rovelle.
Fiz uma lista de frutas de A a Z e busquei suas texturas, sensações que provocam no paladar e no tato, a memória que podem nos trazer, enfim fiz poemas sensoriais. E busquei deixar bem vivo nos poemas a sua árvore. As aquarelas da Claudia Simões são maravilhosas, são quadros e ela recebeu o Prêmio da FNLIJ como ilustradora revelação.
Quando fiz o poema para o abacate, trouxe de volta o abacateiro da casa onde moramos em 1973, onde nasceu meu filho Gustavo.
Era uma chácara na Tijuca, no Rio de Janeiro. Rua Henrique Fleiuss 409. Uma ladeira imensa de casinhas lindas e a nossa casa ficava lá no final da rua, quase ao lado da mata. Cobras e preguiças eram comuns por ali.
Nosso quarto tinha uma varanda, suas portas se abriam e um abacateiro invadia a varanda. Como a casa ficava numa ladeira íngreme, nosso quarto estava num segundo andar em relação ao quintal lá de baixo.
Eu amava este abacateiro apaixonadamente, como se ama uma pessoa.
Quando escrevi o poema trouxe este abacateiro amado de volta.
E assim o livro foi sendo construído em suas texturas, sabores, cores deslumbrantes. Para cada fruta muitas sensações.
Recomendo o livro para todas as escolas que levem seus alunos para a cozinha. Ler os poemas, buscar Naturezas Mortas nos pintores famosos, fabricar receitas, fazer juntos uma salada de fruta, as possibilidades para saborear o livro são muitas.
E ainda no poema abacate ouvir com as crianças a música Abacateiro do Gilberto Gil...
ABACATE
Antes da fruta
vem a sombra
e o abacateiro
abraça o dia
com seus braços
longos.
Lá no alto, redondos,
verdes, de carme macia
como o vento,
os abacates
parecem pérolas gigantes.
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
DISCUSSÃO
Li em algum lugar que a felicidade é discutida desde os primórdios da filosofia. Há quem que não goste da palavra felicidade e prefira a palavra alegria. E não se pode confundir prazer com felicidade.
Então o que será a felicidade?
No Butão se mede a felicidade.
É possível medir a felicidade como se mede a febre?
É possível ser feliz neste mundo de tantas desigualdades, de tantas crueldades?
E o que produz a felicidade? É um hormônio? É um estado de espírito?
É um cavalo alado? É um vento? Um acorde? Um perfume?
É o amor?
sábado, 1 de agosto de 2015
ONG SAÚDE CRIANÇA
Ontem recebemos 20 adolescentes da Associação Saúde Criança para um café da manhã dentro do Projeto Café, Pão e Texto.
Chegaram atrasados, pois vieram de longe. Então começamos por onde termino: o café da manhã.
Eram lindos e coloridos. Mas muito tímidos.
Havia um constrangimento. Nem queriam chegar perto da mesa.
Enfim comeram e começamos.
Falei para eles do Projeto . Gostaram muito do nome. Dois vieram com camisetas pintadas com meus poemas. Contaram que já me conheciam através da Flávia Lins.
Comecei com o livro Quem vê Cara não Vê Coração, pedindo a eles que me dessem ditados populares. Estavam silenciosos mas de repente um falou um ditado e outro e todos!
Então lemos alguns poemas e foi aí que se soltaram.
Fizemos brincadeiras com os poemas. Eles riram muito.
Com o livro Poço dos Desejos cada um me disse um desejo. Poucos disseram não ter nenhum desejo.
Mas alguns me falaram desejos belíssimos. Um menino desejava felicidade. Uma menina queria conhecer o mundo. Outra queria morar em Londres e Paris. E um outro queria voar para ser livre. Falei pra eles que para isso há que trabalhar e ajudar os desejos.
Depois me fizeram perguntas interessantes e provocadoras. Queriam saber tudo. Duas meninas leram seus próprios poemas.
No final todos gritaram bem alto seus nomes numa brincadeira que faço com o poema Receitas de se Olhar no Espelho.
Sorteamos livros. E eles foram a praia fazer fotos.
Voltaram com os pés sujos de areia e os rostos iluminados.
Tinham pela frente uma longa viagem de volta para casa.
quinta-feira, 30 de julho de 2015
APRENDENDO UMA LÍNGUA
Juan, meu marido, começou uma atividade maravilhosa: todos os sábados dá uma aula de espanhol para o Igor, neto da minha caseira Vanda, que tem 7 anos.
Com apenas três aulas,Igor já sabe os números, os meses, as cores. Já canta uma música linda e faz pequenas frases . Ele se esforça bastante para falar com um belo acento.
Quando termina alguma atividade ele dá pulos de alegria.
Juan lhe perguntou qual era o dia da semana mais feliz para ele e sem pestanejar respondeu que era o sábado. Juan perguntou o motivo e ele disse que era porque tinha aula de espanhol! Eu perguntei se ele já havia contado no colégio a novidade e ele disse que sim, mas que ninguém acreditou. Nem a professora. Parece que aprender uma língua é algo do outro mundo.
As crianças amam aprender uma língua. E por que as escolas não ensinam? Com a facilidade com que aprendem!
Fica registrado o meu protesto veemente. Uma nova língua é um tesouro. Mas para isso é preciso investimento.
Existem os genocídios visíveis. Mas existem os genocídios invisíveis.
Quando num país se rouba como no Brasil, quantos talentos são assassinados? Quantas pessoas são assassinadas por falta de atendimento médico, por falta de hospitais, por falta de remédios? Quando os recursos são roubados e não se investe em saneamento a morte está sendo semeada. Quando o meio ambiente é degradado, rios poluídos e mares e baías, com a morte de tantas vidas, isso é assassinato. Quando os recursos são roubados e não se investe na infância, na cultura, na educação, aumentando e alimentando a roda gigante da violência, quantos assassinatos.
No Brasil , com toda a drenagem dos recursos públicos que seriam investidos e não são, assistimos estupefatos a um genocídio invisível.A destruição sistemática de milhares de vidas ceifadas por falta de investimento.
quarta-feira, 29 de julho de 2015
O FILHO ETERNO
Alguns livros chegam com alguns anos de atraso, mas ainda bem que chegam!
É o caso do livro O Filho Eterno do Cristóvão Tezza. Foi muito recomendado mas eu não o havia lido. Não havia lido nenhum livro dele. Como vou viajar com o Cristóvão num projeto do Governo de São Paulo, comprei o livro.
E fiquei impactada, emocionadíssima, engasgada.
Cristóvão se desnuda de uma maneira impressionante e fala dos sentimentos obscuros, aqueles sentimentos e pensamentos terríveis que escondemos debaixo de sete colchões.
A partir do nascimento do seu filho Felipe, com Síndrome de Down, ele traça a estrada inteira da sua vida, das suas vivências, dos seus fracassos, medos, fragilidades, ambições, vaidades.
Agora só me resta comprar seus outros livros.
Alguns livros que amo me chegaram de uma maneira inesperada. Na Feira de Brasília, parei numa livraria e a mulher olhou para mim e me disse:
"Não vá embora, tenho um livro para você. E voltou com o livro As Brasas do Sandor Marai que amo de paixão perdida e já li três vezes e depois comprei vários outros livros seus. Mas para mim As Brasas é único. Como ela podia saber?
Monica Botkay, minha amiga tão antiga, quando eu tinha 23 anos me emprestou La Vie Devant Soi, do Émile Ajar, pseudônimo do Romain Gary.
Enlouqueci. É um dos livros da minha vida. É perfeito. Nunca mais nos separamos.Tive que devolver o livro naquela época. Mas na única vez em que fui a Paris, no meu primeiro dia fui procurá-lo num sebo na beira do Sena e foi o primeiro livro que vi.
Walder, meu amigo onde estava hospedada, ao sair do trabalho também foi procurá-lo para mim sem saber que eu já o havia encontrado. E me trouxe uma outra edição.
E uma vez , ouvindo o Bartolomeu Campos Queiróz falando em algum evento, de repente ele disse: "todo mundo tinha que ler La Vie Devant Soi". Pronto. Fui fulminada por um raio. Ao sair falei com ele, mas Bartolomeu, esse é um dos livros da minha vida! Ele fez um carinho no meu sapato e sorriu.
Agora, por causa do meu amigo Cristiano Mota Mendes estou viajando com Riobaldo e Diadorim, relendo o Grande Sertão: Veredas. Nos falamos por whatsup várias vezes ao dia para discutir o livro, o trecho onde estou.
Recebi ontem por correio A Lebre de Vaatanen de Arto Vaasilina, autor finlandês. É uma tradução portuguesa. O livro é delicioso e li em francês na casa da Monica Botkay. Depois já li mais dois livros dele. Ele fala de coisas sérias e densas com um humor maravilhoso. A gente sapateia de rir.
Havia indicado o livro para o Clube de Leitura, mas quase ninguém conseguiu comprar, então desistimos.Agora já estou relendo, intercalando. Quando parece que vou explodir de emoção com o Guimarães Rosa passo para ele.
Essas são as minhas veredas. Os livros.
terça-feira, 28 de julho de 2015
O DIA
O dia está escuro, carregado, suas nuvens pesadas de água. Sempre gostei de dias assim cinzentos. Como se houvesse dentro do corpo um ninho onde um pássaro tece seu canto que é feito de uma certa melancolia. E nos dias assim, com novelos de bruma, eu vejo o pássaro.
Cada dia tem a sua tessitura, não sabemos ainda que alfabeto nos trará.
Hoje recebo amigos que moram em Israel. São pacifistas, pró um Estado Palestino, mas a voz da paz não se faz ouvir. Se houver paz os Senhores das Armas não terão trabalho. Eles são os ajudantes da morte e ninguém sabe como podem dormir, comer, caminhar, com tantos assassinatos , com tanto sangue nas solas dos sapatos.
Mas eu acredito na paz. E não estou sozinha. A poesia é o que tenho para oferecer. E pão, que eu mesma faço.E o meu amor imenso por tudo o que é vida.
Sexta-feira recebo um grupo de 20 adolescentes. São jovens ávidos por livros. Flavia Lins trabalha leitura com eles, numa ONG que cuida da saúde de seus irmãos doentes.
Então mostrarei a eles o jardim luxuriante atrás da casa, onde antes só havia areia. O milagre da vida. Basta uma semente e um pouco de água. E cuidado. Mostrarei meus livros, vamos ler juntos os meus poemas.
O esboço da manhã do nosso encontro já dança no ar, como roupas coloridas num varal.
segunda-feira, 27 de julho de 2015
DORES OBSCURAS
Martha Medeiros escreveu um belo artigo ontem, na Revista de Domingo do Jornal O Globo, sobre sentimentos inomináveis, dores obscuras, para os quais não existem palavras.
Todos nós, humanos, somos capazes de fazer uma lista destes sentimentos.
Quando criança e até muito tarde eu tinha um sentimento horrível de não pertencimento.
De repente a dor do outro entra dentro de mim de uma tal maneira que não posso suportar.
Às vezes a emoção de alguma vivência é tão grande que o corpo quase não aguenta, o corpo fica pequeno para aguentar tal emoção.
Ela descreve as suas vivências, diferentes das minhas e das tuas para falar do trabalho de um americano que está no youtube e se chama John Koenig, que fez uma série c
hamada "Dicionário das dores obscuras". A ideia é maravilhosa.
E ela termina dizendo : "A poesia é o verdadeiro dicionário das dores obscuras".
domingo, 26 de julho de 2015
DONA CONCEIÇÃO
Dona Conceição tem 96 anos. Mora sozinha em São João Del Rey. Hoje, domingo, dia 26 de julho de 2015, Dona Conceição está deixando sua cidade para trás, suas raízes, seus parentes, amigos, vizinhos, está mudando de vida. Tem sonhos, novos planos.
Ela é a mãe da Vanda, nossa caseira e decidiu comprar uma casinha aqui em Saquarema. Comprou uma casinha na Barreira, um bairro ainda rural, inacabada e já vem vindo, entusiasmadíssima , de malas e cuias, para terminar a casa e se instalar. A mudança veio antes. Ela planeja o que vai fazer, as cores dos cômodos, a cor da casa. Vai continuar morando sozinha, mas quer ficar perto da filha e dos netos e bisnetos nos próximos anos.
Então acho que a Dona Conceição nos dá uma grande aula. Uma aula de vida. Podemos sonhar e mudar tudo até o último minuto!
Enquanto escrevo ela está na estrada. De São João Del Rey até Saquarema são oito horas de viagem!
Ela é bem bonita, mestiça, toda elegante, como se diz na roça, sacudida! Ainda cozinha muito bem e espero que me faça uma broa de milho assada na folha da bananeira na inauguração da casa.
Ela é a mãe da Vanda, nossa caseira e decidiu comprar uma casinha aqui em Saquarema. Comprou uma casinha na Barreira, um bairro ainda rural, inacabada e já vem vindo, entusiasmadíssima , de malas e cuias, para terminar a casa e se instalar. A mudança veio antes. Ela planeja o que vai fazer, as cores dos cômodos, a cor da casa. Vai continuar morando sozinha, mas quer ficar perto da filha e dos netos e bisnetos nos próximos anos.
Então acho que a Dona Conceição nos dá uma grande aula. Uma aula de vida. Podemos sonhar e mudar tudo até o último minuto!
Enquanto escrevo ela está na estrada. De São João Del Rey até Saquarema são oito horas de viagem!
Ela é bem bonita, mestiça, toda elegante, como se diz na roça, sacudida! Ainda cozinha muito bem e espero que me faça uma broa de milho assada na folha da bananeira na inauguração da casa.
sábado, 25 de julho de 2015
UM PASSEIO
Hoje fomos caminhando até a Feirinha perto da Vila pelas margens do aeroporto para comprar tapioca. O aeroporto daqui de Saquarema não tem pista, é só gramado. Ali, na beira do aeroporto as casinhas ainda são do tempo em que a cidade era um vilarejo de pescadores. São casinhas de pescadores, miudinhas, singelas.
O brasileiro se vira. Cada um como pode. Passo na porta de uma casa e um cartaz diz: "Explicadora formada".
Numa outra casa: "Vende-se sacolés"
E em cinco casas vejo um barzinho na calçada com mesas e cadeiras toscas. Uma improvisação. Num desses estabelecimentos, a janela estava aberta e havia um balcão com algumas garrafas e imagens de Nossa Senhora.
Dá uma ternura. Uma vontade de chorar como na música do Chico. É gente simples e que faz o que pode para sobreviver.
Na barraca da tapioca se pode comer tapioca feita na hora e também pastéis, caldo de cana, bolinhos de aipim.
Há uma outra barraca que faz churrasquinho com farofa.
Amo as feiras. Viro criança num segundo e me vejo lá longe, na minha infância, com a Eunice, minha mãe negra, comendo quebra-queixo, que me levava direto para Pasárgada sem eu saber que Pasárgada existia.
O brasileiro se vira. Cada um como pode. Passo na porta de uma casa e um cartaz diz: "Explicadora formada".
Numa outra casa: "Vende-se sacolés"
E em cinco casas vejo um barzinho na calçada com mesas e cadeiras toscas. Uma improvisação. Num desses estabelecimentos, a janela estava aberta e havia um balcão com algumas garrafas e imagens de Nossa Senhora.
Dá uma ternura. Uma vontade de chorar como na música do Chico. É gente simples e que faz o que pode para sobreviver.
Na barraca da tapioca se pode comer tapioca feita na hora e também pastéis, caldo de cana, bolinhos de aipim.
Há uma outra barraca que faz churrasquinho com farofa.
Amo as feiras. Viro criança num segundo e me vejo lá longe, na minha infância, com a Eunice, minha mãe negra, comendo quebra-queixo, que me levava direto para Pasárgada sem eu saber que Pasárgada existia.
sexta-feira, 24 de julho de 2015
SUPERAÇÃO
Em agosto o médico que operou a minha coluna me dará alta. Seis meses depois da cirurgia. Ainda não pude voltar para o Pilates, só em agosto.
Mas já consegui um ritmo. Estou caminhando 40 minutos todos os dias. Eu e Juan andamos pelas ruas de dentro. São belas, calmas.
É uma conquista tão impressionante que às vezes nem acredito. Antes da cirurgia não podia ir nem até a esquina.
Sou disciplinada. A caminhada é sagrada. E me dá uma dose de bem estar tão grande que fico eufórica.
Faço meditação. É tão difícil meditar. Mas a meditação é o que me dá a fortuna de estar centrada. A meditação me dá de presente o presente! Viver intensamente o que se faz no momento em que se faz. É magnífico. Fazer meditação todos os dias, caminhar, aprender uma língua nova. Tudo isso requer um esforço. Mas o resultado dentro da gente surpreende.
Ontem alguém me perguntou: qual é o seu lazer? Bom, não posso dizer que a leitura seja um lazer. Ler para mim é respirar. Então acho que tudo o que faço é lazer, porque viver para mim é lazer. Já quase morri algumas vezes, então estar viva é impressionante.
Mesmo quando estou fazendo uma tarefa aborrecida, tento colocar algo bom, algum prêmio.
Enquanto escrevo penso: descobriram um planeta gêmeo da Terra, tão longe. tão longe, mas o pensamento o alcança, em toda a sua maravilha.
PARA VER O MUNDO
Para ver o mundo
há que afiar os olhos
com a luz do sol
e da lua
e nos lume dos olhos
do outro.
Então as cores acordam
como flores raras
e pequenas felicidades
(ou sofrimentos)
esvoaçam pela superfície do dia
in Cinco Sentidos e Outros (Lê editora).
Mas já consegui um ritmo. Estou caminhando 40 minutos todos os dias. Eu e Juan andamos pelas ruas de dentro. São belas, calmas.
É uma conquista tão impressionante que às vezes nem acredito. Antes da cirurgia não podia ir nem até a esquina.
Sou disciplinada. A caminhada é sagrada. E me dá uma dose de bem estar tão grande que fico eufórica.
Faço meditação. É tão difícil meditar. Mas a meditação é o que me dá a fortuna de estar centrada. A meditação me dá de presente o presente! Viver intensamente o que se faz no momento em que se faz. É magnífico. Fazer meditação todos os dias, caminhar, aprender uma língua nova. Tudo isso requer um esforço. Mas o resultado dentro da gente surpreende.
Ontem alguém me perguntou: qual é o seu lazer? Bom, não posso dizer que a leitura seja um lazer. Ler para mim é respirar. Então acho que tudo o que faço é lazer, porque viver para mim é lazer. Já quase morri algumas vezes, então estar viva é impressionante.
Mesmo quando estou fazendo uma tarefa aborrecida, tento colocar algo bom, algum prêmio.
Enquanto escrevo penso: descobriram um planeta gêmeo da Terra, tão longe. tão longe, mas o pensamento o alcança, em toda a sua maravilha.
PARA VER O MUNDO
Para ver o mundo
há que afiar os olhos
com a luz do sol
e da lua
e nos lume dos olhos
do outro.
Então as cores acordam
como flores raras
e pequenas felicidades
(ou sofrimentos)
esvoaçam pela superfície do dia
in Cinco Sentidos e Outros (Lê editora).
quinta-feira, 23 de julho de 2015
SIGNIFICADO
Ontem escrevi uma carta para uma sobrinha espanhola. Ela me perguntava em sua carta o que tenho feito e eu respondia:
Alimento meu Clube de Leitura com belos pensamentos constantes, (amo cada um dos participantes) e com livros. Nos encontramos de dois em dois meses e no último encontro, Gil, que antes não era leitora, nem sabia como expressar a vastidão do mundo que se abriu para ela.
Recebo escolas públicas aqui em casa para um café da manhã ou almoço comigo.O encontro e feito de várias vivências maravilhosas.
Recebo professores para lhes dar uma pitada da minha loucura.
E me envolvi agora com a construção de uma escola em Burkina Faso, África, numa aldeia paupérrima e perdida que jamais visitarei, pois não tenho condições físicas para isso.
A escola que será construída arrebatou meu coração, pois os habitantes da aldeia não pedem nada e falta tudo. Mas eles querem uma escola para os pequenininhos, uma escola de ALVENARIA e não de palha e barro como suas casas. Eles querem que a escola dure para sempre.
Monique Malfatto entrou na minha casa pelas mãos da Monica Botkay no dia em que recebia uma escola de Duque de Caxias. Ela vive três meses na África com eles e o resto do tempo entre França e Itália para conseguir doações. Esta será a terceira escola de uma aldeia de 600 habitantes. A primeira era muito pequena. A segunda já era maior e cabia bastante gente. E agora a terceira que ajudaremos a construir será para o maternal.
Quando a escola fica pronta o Estado assume , mandando os professores. É a primeira geração que saberá ler e escrever. As escolas são bilíngues. Aprendem na sua língua e em francês.
Quando acabei de escrever a carta, eu me perguntei: o que significa tudo isso? Acho tão pouco tudo o que faço, às vezes.
Mas tudo isso "me significa", me dá sentido, me mantém viva e pulsante.
Aplico na minha vida diária o conceito africano de UBUNTU. Eu sou eu mas também sou você.
Estou fazendo uma campanha no facebook para quem quiser me ajudar. Você pode entrar em contato comigo.
Minha irmã Evelyn Kligerman e meu cunhado Luis farão juntos uma placa de cerâmica para embutir na parede da escola. E já sei o que quero escrever:
Une école pour toujours Uma escola para sempre
Comme un puits Como um poço
Les amis brésiliens sont ici. Os amigos brasileiros estão aqui.
Alimento meu Clube de Leitura com belos pensamentos constantes, (amo cada um dos participantes) e com livros. Nos encontramos de dois em dois meses e no último encontro, Gil, que antes não era leitora, nem sabia como expressar a vastidão do mundo que se abriu para ela.
Recebo escolas públicas aqui em casa para um café da manhã ou almoço comigo.O encontro e feito de várias vivências maravilhosas.
Recebo professores para lhes dar uma pitada da minha loucura.
E me envolvi agora com a construção de uma escola em Burkina Faso, África, numa aldeia paupérrima e perdida que jamais visitarei, pois não tenho condições físicas para isso.
A escola que será construída arrebatou meu coração, pois os habitantes da aldeia não pedem nada e falta tudo. Mas eles querem uma escola para os pequenininhos, uma escola de ALVENARIA e não de palha e barro como suas casas. Eles querem que a escola dure para sempre.
Monique Malfatto entrou na minha casa pelas mãos da Monica Botkay no dia em que recebia uma escola de Duque de Caxias. Ela vive três meses na África com eles e o resto do tempo entre França e Itália para conseguir doações. Esta será a terceira escola de uma aldeia de 600 habitantes. A primeira era muito pequena. A segunda já era maior e cabia bastante gente. E agora a terceira que ajudaremos a construir será para o maternal.
Quando a escola fica pronta o Estado assume , mandando os professores. É a primeira geração que saberá ler e escrever. As escolas são bilíngues. Aprendem na sua língua e em francês.
Quando acabei de escrever a carta, eu me perguntei: o que significa tudo isso? Acho tão pouco tudo o que faço, às vezes.
Mas tudo isso "me significa", me dá sentido, me mantém viva e pulsante.
Aplico na minha vida diária o conceito africano de UBUNTU. Eu sou eu mas também sou você.
Estou fazendo uma campanha no facebook para quem quiser me ajudar. Você pode entrar em contato comigo.
Minha irmã Evelyn Kligerman e meu cunhado Luis farão juntos uma placa de cerâmica para embutir na parede da escola. E já sei o que quero escrever:
Une école pour toujours Uma escola para sempre
Comme un puits Como um poço
Les amis brésiliens sont ici. Os amigos brasileiros estão aqui.
quarta-feira, 22 de julho de 2015
O VENTO
Ontem veio o vento. De repente entrou cantando num redemoinho, varreu a varanda, encheu a varanda de folhas, virou o mar do lado do avesso, trouxe a chuva.
Em nosso encontro de sábado , do Clube de Leitura, Ronaldo cantou um poema do Manuel Bandeira que amo de verdade. Aliás amo tudo o que ele escreveu. É um dos poetas da minha vida:
CANÇÃO DO VENTO E DA MINHA VIDA
O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.
O vento varria as luzes
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas...
E a minha ida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.
O vento varria os sonhos
E varria as amizades...
O vento varria as mulheres.
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.
O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.
Manuel Bandeira
Em nosso encontro de sábado , do Clube de Leitura, Ronaldo cantou um poema do Manuel Bandeira que amo de verdade. Aliás amo tudo o que ele escreveu. É um dos poetas da minha vida:
CANÇÃO DO VENTO E DA MINHA VIDA
O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.
O vento varria as luzes
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas...
E a minha ida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.
O vento varria os sonhos
E varria as amizades...
O vento varria as mulheres.
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.
O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.
Manuel Bandeira
segunda-feira, 20 de julho de 2015
MIGUILIM
Receber Miguilim em nossa casa foi uma experiência única e
maravilhosa.
Este encontro do Clube de Leitura da Casa Amarela foi
especial pois festejávamos também o aniversário do Juan.
Amigos mais do que amigos chegaram cedo do Rio e a varanda
já estava arrumada para o almoço com as mesinhas que alugo cobertas com as
lindas toalhas de chitão florido. A varanda fica parecendo um imenso jardim.
Um pão acabava de sair do forno quando chegaram Messias ,
Kátia e Monique. Fizemos um botequinzinho com café e pão quente com queijo. E logo
chegaram Cristiano, Ana e Ronaldo com seu violão para as muitas surpresas. O
botequim foi crescendo. Chegaram Norma Estrela e Dirceu. Chegaram César e
Fátima.
E finalmente chegaram Hélio e Fernando, Chico, Gil.
Entramos, nos sentamos. Quis começar pelo fim, marcando a nova data e
indicando os livros:
Dia 10 de outubro. Judas, do Amoz Oz e A Última escala do
Velho Cargueiro do Alvaro Mutis. E li a linda carta da professora Zete.
Cristiano que estuda Guimarães Rosa desde a sua juventude,
também fez a proposta de começar pelo fim. Mas eu não resisti e quis falar só
um pouquinho do começo, quando Miguilim traz para a sua mãe o grande presente:
alguém lhe disse, na sua viagem com Tio Terez, que o Mutum é bonito. E como ele
queria levar esta frase de presente para a sua mãe! Assim ela não ficaria mais
triste suspirando pelos cantos! E ela nem ligou, aprisionada que estava naquele
lugar, naquele triângulo amoroso que Miguilim e seu irmão Dito intuíam.
Mas Cristiano puxou o fio para o fim, para o médico que traz
os óculos e finalmente Miguilim pode ver
tudo e finalmente pode ir embora, a promessa que fez lá atrás quando Dito havia
lhe ensinado que pagar uma promessa antes do pedido ser realizado é muito bom.
Os óculos são o seu ritual de passagem. Messias falou um pouco dos rituais de
passagem em algumas culturas.
Chico e César falaram que o livro contava a infância deles.
Messias contou que seu tio tinha uma fazenda onde passava a
infância que era perto realmente do Mutum. E que ele havia vivido aquelas
maravilhas.
Gil falou que o livro também era a sua infância no interior
do Maranhão.
Ronaldo cantou uma música que ele fez para um espetáculo que
faz a síntese do livro e fala lindamente do Miguilim não é alegre e não é
triste. Nos apaixonamos pela música e
cantamos o refrão.
Maria Clara leu um poema que fez, lindíssimo, sobre o
Miguilim.
Falamos um pouco sobre tudo, a sensibilidade das crianças, o
amor entre os irmãos, a morte do Dito, o ritual que a preta velha Mãiitina faz
com Miguilim, a sensualidade da mãe, a tragédia da família. Seria Miguilim
filho do Tio Terez?
Falamos um pouco de cada personagem.
Todos falaram que ninguém no mundo jamais descreveu a natureza
como Guimarães Rosa . Cores, cheiros, animais, sensações.
Todos nós vivemos no Mutum enquanto líamos o livro. E eu
confesso que jamais sairei de lá. Assim como passei a minha infância no Sítio
do Pica Pau Amarelo, agora vivo para sempre no Mutum, dentro das suas matas.
Nas suas veredas.
Juan , que passou a sua infância numa aldeia pobre no
interior da Galícia , disse que dentro do livro estava em casa, pois foi aquilo
que viveu. E lembrou que antigamente as crianças viviam no mundo real. Tocavam
as coisas, viam a vida acontecer e morrer e que hoje vivem no mundo virtual.
Ainda não temos distanciamento para saber o que é isso. E também disse que ele
descreve um mundo que logo acabará, pois 80% da população já saiu do campo para
as cidades
Devo dizer que nunca li e reli nenhum livro mais belo na
minha vida. E que se alguém não leu corra para ler pois ninguém pode viver sem
Miguilim.
Ana e Ronaldo prepararam uma surpresa para o Juan: cantaram
Se Todos fossem iguais a Você, do Vinicius. Ana tem uma voz maravilhosa.
Todos leram poemas do Vinicius e fechamos o encontro
cantando Uma Tarde em Itapuã. Coral do grupo!
Vanda preparou a melhor feijoada do mundo. Havia empadão de
legumes para quem não come carne.
Cantamos parabéns com violão e tudo. E celebrar a vida e a
literatura alimenta a nossa chama de vida.
sexta-feira, 17 de julho de 2015
CARTA
Ontem recebi uma carta de uma professora, por correio, verdadeiramente impactante.
A carta é muito longa e transcreverei alguns trechos. A professora se chama Eliane.
Curitiba, 09 de julho de 2015
Cara Roseana,
É com grande expectativa que lhe escrevo novamente, porém desta vez com uma expectativa bem maior
Sou professora do quarto ano da Rede Municipal de Curitiba. Nossa escola se localiza num bairro de periferia e nossos alunos vivenciam várias situações: violência, drogas, assaltos e com baixo nível de escolaridade das famílias. Atualmente .a comunidade vem recebendo muitas famílias de Alagoas e algumas agora vindas do Haiti.
...............................................................................................................................................................
No início do ano letivo , tivemos um encontro pedagógico no Núcleo de Educação do bairro que pertence a nossa Escola CEI Professor Antonio Pietruza. Lá a professora do curso apresentou sugestões de textos de sua autoria a serem trabalhados com os alunos. Salientei naquele momento, que eu já havia programado em trabalhar neste ano novamente alguns textos seus, pois obtive resultados surpreendentes e que na época também lhe escrevi juntamente com meus alunos. Foi uma troca de experiências!
Como não foi diferente, desenvolvi um projeto englobando Língua Portuguesa e Matemática.
................................................................................................................................................................
No decorrer do projeto vimos como os alunos foram ficando encantados com a leitura dos seus textos. Um belo dia, uns alunos cogitaram a ideia de lhe escrever e muitos riram pois disseram que autores-escritores não tem tempo... Foi aí que comentei que há uns anos atrás uma turma minha também pensava assim, e você provou ser diferente! Não deixou seus leitores "na mão". Lembro hoje como tudo aconteceu...
...................................................................................................................................................................
Nesta última semana , me emocionei muito na reunião de pais, com um relato da mãe do João Andrei. Ele é um aluno com muita dificuldade em Língua Portuguesa, tem todo um histórico, faz atendimentos e sala de recurso. Contei à mãe que percebi avanços neste último mês na aprendizagem: já está lendo lentamente e formando pequenos textos, o que não acontecia . A mãe, imediatamente, relatou-me a mudança de comportamento de seu filho, disse-me que vem lendo mais e está pedindo muito a ela que compre um livro da Roseana Murray porque a professora Eliane leva textos legais desta autora. Meus olhos encheram-se de lágrimas de emoção, saber que através de seus textos consegui despertar o interesse de um aluno de quarto ano à leitura e escrita. Isto é gratificante, e você Roseana, é parte desta conquista deste aluno! Bem, se fossemos eu e a professora Rosiméri relatar as nossas experiências ficaríamos um tempão falando...
...............................................................................................................................................................
Bom, a carta continua . Ela me conta o quanto gostaria de trazer seus alunos para o meu projeto Café, Pão e Poesia, mas é tão longe...E seus alunos me escreveram e me enviaram cópias de seus próprios poemas e também desenhos. Hoje vou ao correio levar a resposta e estou enviando um livro.
Transcrevo trechos desta bela carta para mostrar a força da poesia.
A poesia é terapêutica . A poesia abre estradas dentro do corpo e da alma. A poesia fez com que um aluno ml alfabetizado, com muitos problemas, retomasse a leitura e a escrita.
Obrigada Eliane, por me fortalecer.
A carta é muito longa e transcreverei alguns trechos. A professora se chama Eliane.
Curitiba, 09 de julho de 2015
Cara Roseana,
É com grande expectativa que lhe escrevo novamente, porém desta vez com uma expectativa bem maior
Sou professora do quarto ano da Rede Municipal de Curitiba. Nossa escola se localiza num bairro de periferia e nossos alunos vivenciam várias situações: violência, drogas, assaltos e com baixo nível de escolaridade das famílias. Atualmente .a comunidade vem recebendo muitas famílias de Alagoas e algumas agora vindas do Haiti.
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No início do ano letivo , tivemos um encontro pedagógico no Núcleo de Educação do bairro que pertence a nossa Escola CEI Professor Antonio Pietruza. Lá a professora do curso apresentou sugestões de textos de sua autoria a serem trabalhados com os alunos. Salientei naquele momento, que eu já havia programado em trabalhar neste ano novamente alguns textos seus, pois obtive resultados surpreendentes e que na época também lhe escrevi juntamente com meus alunos. Foi uma troca de experiências!
Como não foi diferente, desenvolvi um projeto englobando Língua Portuguesa e Matemática.
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No decorrer do projeto vimos como os alunos foram ficando encantados com a leitura dos seus textos. Um belo dia, uns alunos cogitaram a ideia de lhe escrever e muitos riram pois disseram que autores-escritores não tem tempo... Foi aí que comentei que há uns anos atrás uma turma minha também pensava assim, e você provou ser diferente! Não deixou seus leitores "na mão". Lembro hoje como tudo aconteceu...
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Nesta última semana , me emocionei muito na reunião de pais, com um relato da mãe do João Andrei. Ele é um aluno com muita dificuldade em Língua Portuguesa, tem todo um histórico, faz atendimentos e sala de recurso. Contei à mãe que percebi avanços neste último mês na aprendizagem: já está lendo lentamente e formando pequenos textos, o que não acontecia . A mãe, imediatamente, relatou-me a mudança de comportamento de seu filho, disse-me que vem lendo mais e está pedindo muito a ela que compre um livro da Roseana Murray porque a professora Eliane leva textos legais desta autora. Meus olhos encheram-se de lágrimas de emoção, saber que através de seus textos consegui despertar o interesse de um aluno de quarto ano à leitura e escrita. Isto é gratificante, e você Roseana, é parte desta conquista deste aluno! Bem, se fossemos eu e a professora Rosiméri relatar as nossas experiências ficaríamos um tempão falando...
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Bom, a carta continua . Ela me conta o quanto gostaria de trazer seus alunos para o meu projeto Café, Pão e Poesia, mas é tão longe...E seus alunos me escreveram e me enviaram cópias de seus próprios poemas e também desenhos. Hoje vou ao correio levar a resposta e estou enviando um livro.
Transcrevo trechos desta bela carta para mostrar a força da poesia.
A poesia é terapêutica . A poesia abre estradas dentro do corpo e da alma. A poesia fez com que um aluno ml alfabetizado, com muitos problemas, retomasse a leitura e a escrita.
Obrigada Eliane, por me fortalecer.
quinta-feira, 16 de julho de 2015
CHEGADA
Cheguei ontem de Visconde de Mauá. Seis horas e meia de viagem, mas acontece que não são essas horas apenas. É a passagem de uma dimensão para outra. Fico muito cansada. Como se tivesse feito uma viagem interplanetária.
Na minha casinha dentro da mata nem o telefone recebe sinal. Sem internet , sem televisão, sem notícias.
Na última manhã, antes de ir embora, enquanto arrumava tudo, um esquilinho gritava na varanda. Estava no limoeiro a um palmo da minha mão. Acho que me dizia adeus.
Aqui estou, na minha mesa, o mar maravilhosamente azul atrás de mim, está tão calmo que nem fala. Rumino as notícias, rumino o mundo.
Mas sábado temos o encontro do nosso Clube de Leitura com a presença de muitos amigos. Nosso Clube já é uma família, fortes laços nos amarram, as cordas sonoras da literatura.
Discutiremos Miguilim do Guimarães Rosa, de uma beleza estonteante.
E sairemos fortalecidos para aguentar o peso do mundo.
Na minha casinha dentro da mata nem o telefone recebe sinal. Sem internet , sem televisão, sem notícias.
Na última manhã, antes de ir embora, enquanto arrumava tudo, um esquilinho gritava na varanda. Estava no limoeiro a um palmo da minha mão. Acho que me dizia adeus.
Aqui estou, na minha mesa, o mar maravilhosamente azul atrás de mim, está tão calmo que nem fala. Rumino as notícias, rumino o mundo.
Mas sábado temos o encontro do nosso Clube de Leitura com a presença de muitos amigos. Nosso Clube já é uma família, fortes laços nos amarram, as cordas sonoras da literatura.
Discutiremos Miguilim do Guimarães Rosa, de uma beleza estonteante.
E sairemos fortalecidos para aguentar o peso do mundo.
quinta-feira, 9 de julho de 2015
NA MONTANHA
Hoje estou conectada pois vim até o ateliê de cerâmica da minha irmã Evelyn Kligerman
e meu cunhado Luis Mérigo. Cada vez que venho a Mauá ela passa um dia
comigo na minha casinha e eu desço para passar o dia com ela aqui no
Vale do Maringá.
Impossível descrever a minha felicidade todos os dias. Nem tentarei. Como a Bia Hetzel sabe, pois publicou meu livro Diário da Montanha e agora contei para o Cristiano Mota Mendes, e agora conto para todos , eu também sou árvore além de gente (aliás sou muito melhor como árvore do que como gente) e é na montanha. dentro da mata, que posso ser o que sou de verdade, sem medo de mim.
Cada dia é único em sua imensa felicidade. Acendo o fogo bem cedinho e os jacus já estão fazendo a sua primeira reunião, os guaxos gritam suas belas palavras e quando dou sorte vejo esquilos subindo e descendo o primeiro tronco que minha vista alcança.
Meu grande sonho era ver uma onça.
E como a onça do Rosa eu vou andando e falando, bom, bonito, bom, bonito...
Impossível descrever a minha felicidade todos os dias. Nem tentarei. Como a Bia Hetzel sabe, pois publicou meu livro Diário da Montanha e agora contei para o Cristiano Mota Mendes, e agora conto para todos , eu também sou árvore além de gente (aliás sou muito melhor como árvore do que como gente) e é na montanha. dentro da mata, que posso ser o que sou de verdade, sem medo de mim.
Cada dia é único em sua imensa felicidade. Acendo o fogo bem cedinho e os jacus já estão fazendo a sua primeira reunião, os guaxos gritam suas belas palavras e quando dou sorte vejo esquilos subindo e descendo o primeiro tronco que minha vista alcança.
Meu grande sonho era ver uma onça.
E como a onça do Rosa eu vou andando e falando, bom, bonito, bom, bonito...
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