Um poema do Salgado Maranhão para o domingo de Páscoa, não fala nada sobre a Páscoa em si, mas sobre a vida, o desejo, o tempo. Afinal nós humanos somos feitos com poeira de estrelas, tempo , memória e desejo. E Páscoa é vida.
QUEM ?
Para que serve esta labuta errônea
do coração ao que jamais se doma?
Quem dá partida à trama do desejo
que se distende ao acaso e ao ensejo
de um domador que dorme com a loucura?
E quem amarra os nós dessa costura
num tecido que o próprio tempo esgarça
como se feito em linhas de fumaça?
Salgado Maranhão in A Cor da Palavra, ed. Imago
domingo, 31 de março de 2013
sábado, 30 de março de 2013
NO MUNDO DA LUA
Para Joinville me pediram um nome para a minha fala. Escolhi "Estação Lunar" É como se a poesia fosse a casa desejada , não se diz que as crianças e os poetas vivem no mundo da lua?
NO MUNDO DA LUA
Vou inventar uma rua
onde se pinte e borde,
se façla e aconteça
se cante e dance,
se plantem corações...
uma rua onde todos vivam
no mundo da lua.
in No Mundo da Lua, ed. Paulus.
NO MUNDO DA LUA
Vou inventar uma rua
onde se pinte e borde,
se façla e aconteça
se cante e dance,
se plantem corações...
uma rua onde todos vivam
no mundo da lua.
in No Mundo da Lua, ed. Paulus.
sexta-feira, 29 de março de 2013
PARIS A FESTA CONTINUOU
Estou na metade do livro Paris A Festa Continuou (A vida cultural durante a ocupação nazista , 1940-4) de Alan Riding.
Estou impactadíssima. 40 milhões de franceses colaboraram com o nazismo de uma maneira ou de outra. Alguns ativamente, com euforia, outros com seu silêncio. O livro faz um inventário minucioso da vida cultural da cidade e do comportamento de seus grandes artistas. Ficamos sabendo como tantos morreram, tantos sobreviveram, a pilhagem das obras de arte, o frenesi da noite. É uma aula incrível sobre o que o ser humano é capaz de fazer por sua sobrevivência. Eu já havia lido o livro Suite Francesa de Irene Némirovsky escrito em 1942 e publicado apenas em 2004 por sua filha. O livro narra o êxodo parisiense quando os alemães entraram em Paris e é chocante , todos passando por cima de todos, com raras exceções. A norma é sobreviver a qualquer custo, atropelando a ética e a solidariedade. Devemos aproveitar a Páscoa judaica e católica para refletir sobre os limites do ser humano e como seria preciso um salto quântico para que deixassemos de ser humanos, fossemos realmente compassivos e solidários e a bondade fosse a norma. Teríamos que inventar uma nova nomenclatura - ser humano já não serve mais.
Estou impactadíssima. 40 milhões de franceses colaboraram com o nazismo de uma maneira ou de outra. Alguns ativamente, com euforia, outros com seu silêncio. O livro faz um inventário minucioso da vida cultural da cidade e do comportamento de seus grandes artistas. Ficamos sabendo como tantos morreram, tantos sobreviveram, a pilhagem das obras de arte, o frenesi da noite. É uma aula incrível sobre o que o ser humano é capaz de fazer por sua sobrevivência. Eu já havia lido o livro Suite Francesa de Irene Némirovsky escrito em 1942 e publicado apenas em 2004 por sua filha. O livro narra o êxodo parisiense quando os alemães entraram em Paris e é chocante , todos passando por cima de todos, com raras exceções. A norma é sobreviver a qualquer custo, atropelando a ética e a solidariedade. Devemos aproveitar a Páscoa judaica e católica para refletir sobre os limites do ser humano e como seria preciso um salto quântico para que deixassemos de ser humanos, fossemos realmente compassivos e solidários e a bondade fosse a norma. Teríamos que inventar uma nova nomenclatura - ser humano já não serve mais.
quinta-feira, 28 de março de 2013
PÁSCOA
Algumas pessoas me pedem alguma frase sobre a Páscoa. Mas o que é a Páscoa?
Jesus provavelmente estava celebrando a Páscoa Judaica, festa que comemora a libertação dos judeus do Egito. A Páscoa Católica se transformou na Resurreição de Cristo, mas a metáfora é a mesma; LIBERDADE. Na Páscoa judaica a liberdade da servidão. Na Páscoa Católica a liberação da morte. Não me perguntem qual o papel dos ovos de chocolate ou do coelhinho da páscoa. Não sei.Talvez para sublinhar o doce gosto da liberdade.
Jesus provavelmente estava celebrando a Páscoa Judaica, festa que comemora a libertação dos judeus do Egito. A Páscoa Católica se transformou na Resurreição de Cristo, mas a metáfora é a mesma; LIBERDADE. Na Páscoa judaica a liberdade da servidão. Na Páscoa Católica a liberação da morte. Não me perguntem qual o papel dos ovos de chocolate ou do coelhinho da páscoa. Não sei.Talvez para sublinhar o doce gosto da liberdade.
quarta-feira, 27 de março de 2013
A BRUXA DA CASA AMARELA
Recebo uma notícia da Bahia: Caó Cruz Alves, meu parceiro de tantos livros, me entregará as ilustrações do texto A Bruxa da Casa Amarela no final de abril. Passarei as ilustrações para o Gabriel, o menino maravilhoso que cuida do meu site e ele preparará o E-BOOK que estará disponível gratuitamente no meu site para as escolas. O custo é alto e pessoal, mas o resultado é lindo e vale a pena saber que muitas escolas estarão lendo o meu e-book e se deliciando com os desenhos do Caó.
Fechei a minha ida para Natal com meu filho Guga Murray em junho, atuaremos juntos outra vez num Seminário de Leitura. Natal é totalmente mágica para mim porque aí vive a minha sobrinha Júlia, de quem além de tia sou fada madrinha. Além da magia natural da bela cidade.
Minha irmã Evelyn Kligerman e Luis Mérigo, seu marido, ambos ceramistas, fizeram duas placas belíssimas com flores e um poema do meu livro Jardins da Manati, para que eu possa presentear a E.M.Hermann Müller quando for para Joinville . Não há nada que me deixe mais feliz do que dar presentes.
E chegou o outono, para mim a estação da felicidade.
Fechei a minha ida para Natal com meu filho Guga Murray em junho, atuaremos juntos outra vez num Seminário de Leitura. Natal é totalmente mágica para mim porque aí vive a minha sobrinha Júlia, de quem além de tia sou fada madrinha. Além da magia natural da bela cidade.
Minha irmã Evelyn Kligerman e Luis Mérigo, seu marido, ambos ceramistas, fizeram duas placas belíssimas com flores e um poema do meu livro Jardins da Manati, para que eu possa presentear a E.M.Hermann Müller quando for para Joinville . Não há nada que me deixe mais feliz do que dar presentes.
E chegou o outono, para mim a estação da felicidade.
terça-feira, 26 de março de 2013
NOTÍCIAS DO MARANHÃO
A primeira vez que fui a São Luis em 1990, fiquei muito impactada. O Centro Histórico acabava de ser revitalizado e acompanhada por um poeta, William Amorim, participei de um show de Boi, um espetáculo de poesia na rua e fomos ao reggae mas não conseguimos entrar, tanta gente havia. Na minha última ida a São Luis, faz pouco tempo, encontrei o William na minha fala, 23 anos depois e a cidade destruída. O encontro foi emocionante e a tristeza pelos casarões abandonados era imensa.
Agora São Luis entra pela casa em três livros de poesia do poeta Luis Augusto Cassas, que não conheço.Um livro fala de Alcântara e reproduzo um poema que achei muito bonito:
SOUVENIRS
Dorme em toda alma alcantarense
um beco antigo / um anjo barroco
e uma saudade portuguesa
Uma taça de mar
que sirva de oráculo e rota
aos descobrimentos do sublime
Um dia serei ruína
minha memória despencará
das janelas do tempo
Viajante que passa
eterniza o teu momento:
leva do azulejo um pensamento
Cidade de prateleiras vazias
de vidraças vazias
de lembranças vazias
O sol avisa o racionamento
das 6 às 18hs
para manutenção das caldeiras
Diamante cortando a vidraça
o olho de Deus
a atravessa verticalmente.
Luis Augusto Cassas, ed. Imago
Luis Augusto foi muito feliz neste poema. A Alcântara que não conhecí entra pela janela, chega até a minha mesa com todas as suas ruínas , seus ventos, numa taça de mar .
Agora São Luis entra pela casa em três livros de poesia do poeta Luis Augusto Cassas, que não conheço.Um livro fala de Alcântara e reproduzo um poema que achei muito bonito:
SOUVENIRS
Dorme em toda alma alcantarense
um beco antigo / um anjo barroco
e uma saudade portuguesa
Uma taça de mar
que sirva de oráculo e rota
aos descobrimentos do sublime
Um dia serei ruína
minha memória despencará
das janelas do tempo
Viajante que passa
eterniza o teu momento:
leva do azulejo um pensamento
Cidade de prateleiras vazias
de vidraças vazias
de lembranças vazias
O sol avisa o racionamento
das 6 às 18hs
para manutenção das caldeiras
Diamante cortando a vidraça
o olho de Deus
a atravessa verticalmente.
Luis Augusto Cassas, ed. Imago
Luis Augusto foi muito feliz neste poema. A Alcântara que não conhecí entra pela janela, chega até a minha mesa com todas as suas ruínas , seus ventos, numa taça de mar .
segunda-feira, 25 de março de 2013
PAPÉIS
Cheguei na segunda-feira e os papéis me soterram. São pilhas de correspondência , notas fiscais, etc, etc. Mas entre tantas coisas um convite para Natal, quem sabe conseguimos levar o Livro-Concerto com meu filho Guga Murray: fiz a proposta.
A Multi-Rio me telefona e quer um livro meu que está esgotado: No Fim do Arco -Íris com ilustrações do Caó Cruz Alves. Tenho um exemplar, lá vou eu para o correio, o livro tem que estar lá amanhã. Uma rádio ou um jornal de Joinville me faz uma entrevista relâmpago para colher alguma opinião sobre a Feira e agora tenho que descer e fazer o almoço: arroz integral, feijão mulatinho, beringela com cenoura e salada. E começo hoje os pilates com aparelhos depois de anos com a minha fisioterapeuta em casa, tenho que trocar, pois estou com alguns problemas e muita dor.
Ufa, eis a minha segunda-feira, mas... a temperatura está linda e as orquídeas floridas , é um tempo de fertilidade e felicidade, pois sempre há novos nascimentos no fim do arco-íris.
A Multi-Rio me telefona e quer um livro meu que está esgotado: No Fim do Arco -Íris com ilustrações do Caó Cruz Alves. Tenho um exemplar, lá vou eu para o correio, o livro tem que estar lá amanhã. Uma rádio ou um jornal de Joinville me faz uma entrevista relâmpago para colher alguma opinião sobre a Feira e agora tenho que descer e fazer o almoço: arroz integral, feijão mulatinho, beringela com cenoura e salada. E começo hoje os pilates com aparelhos depois de anos com a minha fisioterapeuta em casa, tenho que trocar, pois estou com alguns problemas e muita dor.
Ufa, eis a minha segunda-feira, mas... a temperatura está linda e as orquídeas floridas , é um tempo de fertilidade e felicidade, pois sempre há novos nascimentos no fim do arco-íris.
domingo, 24 de março de 2013
AGRADECIMENTOS
Agradeço ao Maurício Leite a acolhida tão linda, o seu abraço, seus olhos brilhando cheios de luz, na minha chegada em Luziânia. Maurício, junto com a Secretaria de Educação , conseguiu envolver 800 professores em um Congresso de Leitura, o Conçluz.
Agradeço ter sido acolhida pela escritora Iris junto com meu filho Guga Murray em sua bela casa . Iris nos recebeu com suntuosidade, com afeto de veludo, agradeço os vinhos, os pães, todo o amor que escorre pelas paredes da casa.
Agora em minha própria casa com meus grandes amigos Messias e Kátia passando o final de semana com a gente, agradeço ao universo ter recebido como presente amigos tão lindos e valiosos. Ter o Juan na casa, as gatas, a música do mar, agradeço.
Agradeço ter sido acolhida pela escritora Iris junto com meu filho Guga Murray em sua bela casa . Iris nos recebeu com suntuosidade, com afeto de veludo, agradeço os vinhos, os pães, todo o amor que escorre pelas paredes da casa.
Agora em minha própria casa com meus grandes amigos Messias e Kátia passando o final de semana com a gente, agradeço ao universo ter recebido como presente amigos tão lindos e valiosos. Ter o Juan na casa, as gatas, a música do mar, agradeço.
quarta-feira, 20 de março de 2013
LUZIÂNIA
Cheguei em Luziânia com meu filho Guga. O evento se chama CONLUZ (Congresso de literatura infantil) e hoje vou falar na abertura. É um evento de literatura , música e poesia. Viemos pelas mãos do Maurício Leite. Almoçamos juntos no simpatiquíssimo refeitório da Secretaria de Educação que fabrica o evento junto com o Maurício.
O nome é lindo: Com Luz. Sendo assim, pretendo despertar algumas estrelas cadentes.
Fui visitar a exposição de brinquedos antigos, contruídos por alunos e pais, que o Maurício Leite preparou. Emocionante.
E amanhã, se der eu conto mais!
O nome é lindo: Com Luz. Sendo assim, pretendo despertar algumas estrelas cadentes.
Fui visitar a exposição de brinquedos antigos, contruídos por alunos e pais, que o Maurício Leite preparou. Emocionante.
E amanhã, se der eu conto mais!
terça-feira, 19 de março de 2013
DISCURSO DO PAPA
Cedo de manhã eu, judia, chorei com o discurso do Papa. Era de uma simplicidade e poesia e beleza. Cuidar do outro, cuidar da Terra. Parece a Teologia da Terra do Leonardo Boff. Se um bilhão e duzentos católicos hoje seguissem essas regras simples de amor e generosidade, quanta coisa mudaria no mundo.
Vou hoje dormir no Rio para embarcar amanhã cedo para Brasília. Vou com meu filho músico e seu Livro-Concerto. Levo minha sacola de pano que ganhei de uma escola, com alguns dos meus livros dentro. Levo meu olhar de ver a vida, levo amor. E rever o Maurício Leite, menino mais do que inspirado, que entra Brasil adentro com sua Mala de Leitura vai ser uma maravilha. Espero poder comprar um buquê de flores do cerrado que são a minha alegria quando vou a Brasília.
Vou hoje dormir no Rio para embarcar amanhã cedo para Brasília. Vou com meu filho músico e seu Livro-Concerto. Levo minha sacola de pano que ganhei de uma escola, com alguns dos meus livros dentro. Levo meu olhar de ver a vida, levo amor. E rever o Maurício Leite, menino mais do que inspirado, que entra Brasil adentro com sua Mala de Leitura vai ser uma maravilha. Espero poder comprar um buquê de flores do cerrado que são a minha alegria quando vou a Brasília.
segunda-feira, 18 de março de 2013
O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD
Ontem vi um filme maravilhoso, um filme inglês: O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD. Vi por acaso e fiquei muito impactada. O filme é de uma beleza rara na maneira de abordar as relações humanas. Um grupo de idosos falidos, nenhuma pessoa conhece a outra, decidem, seduzidos por uma publicidade na internet, viver na India, num hotel que é um palácio, já que as condições que o hotel oferece são extraordinárias.Claro que não era nada disso e o hotel é completamente decadente. A história de cada um, a maneira como as histórias de um vão interferindo na história do outro, a maneira com que cada um recebe dentro de si toda a complexidade da India, tudo isso sem nunca perder o maravilhoso humor inglês, enfim, fiquei radiante com o filme e fui dormir feliz.
Claro que o céu ouviu minhas preces em forma de poemas e sou uma boa chamadora de chuva: ela veio.
Agora sopra um sudoeste terrível, o mar está cinza chumbo, maravilhosamente horrível, do jeito que eu gosto, eu amo o vento.
Claro que o céu ouviu minhas preces em forma de poemas e sou uma boa chamadora de chuva: ela veio.
Agora sopra um sudoeste terrível, o mar está cinza chumbo, maravilhosamente horrível, do jeito que eu gosto, eu amo o vento.
domingo, 17 de março de 2013
UMA ESTANTE COM PORTAS DE VIDRO
Maurício Leite, que me leva para Brasília onde vou abrir uma Semana Literária conversando com a platéia, me pede que fale um pouco sobre Monteiro Lobato e Andersen.
Então me vejo criança na casa da minha avó Faiga. Vejo a sala austera e dentro de uma estante com portas de vidro uma bela coleção de livros, o Tesouro da Juventude. Dentro da coleção lindos contos de fadas. Na sala da minha avó eu lia e depois virava princesa junto com as minhas bonecas., Eu não podia levar os livros para casa. Depois de ler o recolocava na estante e fechava a porta. Suspirava. Por algumas horas viajara para mundos incríveis.
Na casa da minha melhor amiga Sheila, numa vila, havia a coleção completa do Sítio do Picapau Amarelo. Foi a maior descoberta da minha vida. Dentro do Sítio passei a minha infância. Era tão simples, não precisava de aviões ou trens, nenbum meio de transporte, apenas os olhos. Ia para a sua casa todas as tardes e bastava abrir o livro e pronto, já estava no sítio.
Já adulta busquei um sítio como aquele, onde fica a minha casinha da montanha, onde faço exercícios de ser criança.
Então me vejo criança na casa da minha avó Faiga. Vejo a sala austera e dentro de uma estante com portas de vidro uma bela coleção de livros, o Tesouro da Juventude. Dentro da coleção lindos contos de fadas. Na sala da minha avó eu lia e depois virava princesa junto com as minhas bonecas., Eu não podia levar os livros para casa. Depois de ler o recolocava na estante e fechava a porta. Suspirava. Por algumas horas viajara para mundos incríveis.
Na casa da minha melhor amiga Sheila, numa vila, havia a coleção completa do Sítio do Picapau Amarelo. Foi a maior descoberta da minha vida. Dentro do Sítio passei a minha infância. Era tão simples, não precisava de aviões ou trens, nenbum meio de transporte, apenas os olhos. Ia para a sua casa todas as tardes e bastava abrir o livro e pronto, já estava no sítio.
Já adulta busquei um sítio como aquele, onde fica a minha casinha da montanha, onde faço exercícios de ser criança.
sexta-feira, 15 de março de 2013
UMA CARTA
Leio que um dos primeiros atos do Papa Francisco foi enviar uma carta ao Rabino de Roma estendendo a mão ao judaísmo. Há que lembrar e pouca gente se lembra, que Jesus era judeu e que os judeus, por terem sido injustamente acusados de matá-lo, foram perseguidos durante estes dois mil anos, expulsos dos lugares onde moravam, mortos. Se a simples lembrança de que Jesus era judeu, de mãe e pai judeus, estivesse presente, a história do povo judeu teria sido outra. O cristianismo nasceu do judaísmo e é um belo gesto a ponte que lança o Papa. Agora esperemos que faça o mesmo com o Islã. Afinal, não existe apenas uma verdade. A verdade é a consciência de cada um e se as três religiões são monoteistas, não teria cabimento que o mesmo Deus se dividisse em três e fosse diferente para cada uma delas.Mas, por causa de toda esta confusão, milhões de pessoas foram e são assassinadas em todo o mundo. Esperemos que um dia as religiões não dividam os homens e muito pelo contrário, se unam num belo diálogo para buscar a paz.
Como continuo desejando chuva, faz muito calor aqui em Saquarema, faço uma prece pela chuva com um poema de Adonis, grande poeta sírio, uma voz maravilhosa que nos chega do mundo árabe:
ESPELHO DAS NUVENS
Asas
são, mas de cera
e a chuva a torrente não
é chuva - são barcos levando lágrimas.
in Adonis (Poemas), Companhia das Letras.
Como continuo desejando chuva, faz muito calor aqui em Saquarema, faço uma prece pela chuva com um poema de Adonis, grande poeta sírio, uma voz maravilhosa que nos chega do mundo árabe:
ESPELHO DAS NUVENS
Asas
são, mas de cera
e a chuva a torrente não
é chuva - são barcos levando lágrimas.
in Adonis (Poemas), Companhia das Letras.
quinta-feira, 14 de março de 2013
A CHUVA
Faz muito calor. Hoje às cinco horas da manhã fazia 28 graus sem vento na varanda. Chamo a chuva e o vento. Chamo a chuva com um belíssimo poema do Borges em homenagem ao Papa Francisco que é um leitor de Borges:
LA LLUVIA
Bruscamente la tarde se ha aclarado
porque cae la lluvia minuciosa.
Cae y cayó. La lluvia es una cosa
que sin duda sucede en el pasado.
Quien la oye caer ha recobrado
el tiempo en que la suerte venturosa
le reveló uma flor llamada rosa
y el curioso color del colorado.
Esta lluvia que ciega los cristales
alegrará en perdidos arrabales
las negras uvas de una parra en cierto
Pátio que ya no existe. La mojada
tarde me trae la voz, la voz deseada,
de mi padre que vuelve y que no ha muerto.
Jorge Luis Borges , in Obra Poética,Emecé Editores
Quantas maravilhas me traz o poema. A chuva que é meu desejo ardente neste momento. Um certo pátio que já não existe mais. Imediatamente penso na casa da minha avó, numa vila, no fundo da vila, como num pátio, havia um banco para onde eu levava as minhas bonecas. Minha avó está viva e prepara a manhã com orações e cebolas. Minha avó era profundamente religiosa e sua existência me trazia uma segurança imensa e muita paz. Meu pai também volta, o poema traz sua voz e seu riso contagiante. Eu o vejo, e tudo nele me emociona, seus sapatos, seu jeito de ver o mundo, suas mãos.
LA LLUVIA
Bruscamente la tarde se ha aclarado
porque cae la lluvia minuciosa.
Cae y cayó. La lluvia es una cosa
que sin duda sucede en el pasado.
Quien la oye caer ha recobrado
el tiempo en que la suerte venturosa
le reveló uma flor llamada rosa
y el curioso color del colorado.
Esta lluvia que ciega los cristales
alegrará en perdidos arrabales
las negras uvas de una parra en cierto
Pátio que ya no existe. La mojada
tarde me trae la voz, la voz deseada,
de mi padre que vuelve y que no ha muerto.
Jorge Luis Borges , in Obra Poética,Emecé Editores
Quantas maravilhas me traz o poema. A chuva que é meu desejo ardente neste momento. Um certo pátio que já não existe mais. Imediatamente penso na casa da minha avó, numa vila, no fundo da vila, como num pátio, havia um banco para onde eu levava as minhas bonecas. Minha avó está viva e prepara a manhã com orações e cebolas. Minha avó era profundamente religiosa e sua existência me trazia uma segurança imensa e muita paz. Meu pai também volta, o poema traz sua voz e seu riso contagiante. Eu o vejo, e tudo nele me emociona, seus sapatos, seu jeito de ver o mundo, suas mãos.
quarta-feira, 13 de março de 2013
FUMAÇA PRETA
Imagino Jesus andando pelas ruas poeirentas da antiga Palestina, com seu cortejo de mulheres, leprosos, loucos, os párias. O seu discurso era revolucionário. Dar a outra face ao inimigo, ao invés do olho por olho, dente por dente. Perdoar. Doar amor. Jesus amava, pelo que se conta nos Evangelhos, a alegria, não suportava a dor. Transformou água em vinho, seu primeiro milagre. Queria uma sociedade mais justa, mais igualitária. Sofria junto com os pobres. Não pregava a violência, não andava com os poderosos, não se vestia de sedas e ouro. Pregava a simplicidade, olhai os lírios do campo, ele diz. Amava a natureza.
Imaginemos agora se Jesus estivesse na Praça São Pedro assistindo ao espetáculo dos Cardeais, o luxo, a riqueza. Esperando a fumaça negra ou branca, se Jesus estivesse ali, esta não seria a sua Igreja. E se viesse um Papa que levasse a Igreja verdadeiramente ao encontro da simplicidade e beleza de Jesus ?
Imaginemos agora se Jesus estivesse na Praça São Pedro assistindo ao espetáculo dos Cardeais, o luxo, a riqueza. Esperando a fumaça negra ou branca, se Jesus estivesse ali, esta não seria a sua Igreja. E se viesse um Papa que levasse a Igreja verdadeiramente ao encontro da simplicidade e beleza de Jesus ?
terça-feira, 12 de março de 2013
TARDE
Ontem passei o dia no Rio, entre médicos . Quando vou aproveito para fazer tudo o que tenho que fazer. Finalmente busquei meu passaporte, foi uma novela a sua renovação. Todos na Polícia Federal me enchem de medo, são extremamente duros e nada gentis. Talvez em meu sangue corra o medo dos meus antepassados.
E hoje a tarde está linda depois de uma manhã burocrática entre bancos, correio, papelada. Acabei de arrumar a cozinha, fiz um prato delicioso e simples, batatas cozidas regadas com azeite e polvilhadas com páprica e no meio delas, salmão grelhado. Uma salada com nozes e frutas. Agora descanso um pouco. O mar varre a casa com sua música. E vou reler La Vie Devant Soi do Émile Ajar que havia perdido e recebi ontem da França, do meu amigo João. Vou reler o livro pela décima vez, eu o tenho em português, queria levá-lo para o Clube de Leitura da Casa Amarela, mas a tradução é tão horrorosa que não dá para ler. Mas já tenho um livro em mente para o nosso Clube, para depois do O Físico do Noah Gordon: As Brasas, Sandor Maarai.
E hoje a tarde está linda depois de uma manhã burocrática entre bancos, correio, papelada. Acabei de arrumar a cozinha, fiz um prato delicioso e simples, batatas cozidas regadas com azeite e polvilhadas com páprica e no meio delas, salmão grelhado. Uma salada com nozes e frutas. Agora descanso um pouco. O mar varre a casa com sua música. E vou reler La Vie Devant Soi do Émile Ajar que havia perdido e recebi ontem da França, do meu amigo João. Vou reler o livro pela décima vez, eu o tenho em português, queria levá-lo para o Clube de Leitura da Casa Amarela, mas a tradução é tão horrorosa que não dá para ler. Mas já tenho um livro em mente para o nosso Clube, para depois do O Físico do Noah Gordon: As Brasas, Sandor Maarai.
segunda-feira, 11 de março de 2013
PRESENTE DE ANIVERSÁRIO
Conhecí Nelson Ayres, o grande maestro e pianista, em 1980 em Visconde de Mauá, onde ele também tem um sítio. Um dia era meu aniversário e saimos para passear, eu, Nelsinho, Salvador, meu grande amigo ermitão. Caminhamos muito e chegamos na cachoeira da Grama, belíssima, majestosa, impactante. Era um dia chuvoso de dezembro. Eu perdi a respiração de tanta beleza e Nelson me disse:
_ Não é linda? É tua, é teu presente de anuiversário.
Agora, trinta e dois anos depois, Nelson Ayres vai tocar no lançamento do meu livro Abecedário (Poético) de Frutas que sairá pela ed. Rovelle. É meu presente por estar viva e poder receber esta dádiva.
Cláudia Simões, sua ex mulher, é a aquarelista do livro e estará expondo as suas maravilhosas aquarelas. E então, numa dobra do tempo, nos encontramos os três de novo, só que agora, a filha da Cláudia e do Nelson, Laura Ayres, irá cantar e o meu filho Guga Murray irá tocar.
Quem puder ou estiver passando por ali, será dia 4 de abril às 19:30hs , no Centro Cultural Visconde de Mauá.
_ Não é linda? É tua, é teu presente de anuiversário.
Agora, trinta e dois anos depois, Nelson Ayres vai tocar no lançamento do meu livro Abecedário (Poético) de Frutas que sairá pela ed. Rovelle. É meu presente por estar viva e poder receber esta dádiva.
Cláudia Simões, sua ex mulher, é a aquarelista do livro e estará expondo as suas maravilhosas aquarelas. E então, numa dobra do tempo, nos encontramos os três de novo, só que agora, a filha da Cláudia e do Nelson, Laura Ayres, irá cantar e o meu filho Guga Murray irá tocar.
Quem puder ou estiver passando por ali, será dia 4 de abril às 19:30hs , no Centro Cultural Visconde de Mauá.
domingo, 10 de março de 2013
NOITE EM BÚZIOS
O sarau em Búzios foi uma mistura de poesia e estrelas, pois a noite estava belíssima. Ouvimos Fernando Pessoa e Adélia Prado, ouvimos poetas de Búzios. Encontrei lindas pessoas.
Dormimos na casa de uns amigos queridos e lá passamos o dia, num cenário de sonho.
Agora , aqui em Saquarema, recebo uma carta da minha sobrinha Maria José de Granada, Espanha, onde, apesar de todas as dificuldades, ela me conta da alegria de plantar e colher e se adentrar no bosque para catar pinhas e o mergulho na natureza é a salvação da sua família. Fico muito emocionada .
Dormimos na casa de uns amigos queridos e lá passamos o dia, num cenário de sonho.
Agora , aqui em Saquarema, recebo uma carta da minha sobrinha Maria José de Granada, Espanha, onde, apesar de todas as dificuldades, ela me conta da alegria de plantar e colher e se adentrar no bosque para catar pinhas e o mergulho na natureza é a salvação da sua família. Fico muito emocionada .
sexta-feira, 8 de março de 2013
FAETEC SAQUAREMA
Ontem à noite fui receber a Comenda Mulher de Ouro das mãos do Chico Peres, meu amigo mais do que querido, poeta sensível e inspirado. Mas meu maior prêmio foi conhecer a FAETEC de Saquarema . Fiquei alucinada com a escola imensa e linda com cursos profissionalizantes, inglês e espanhol grátis para quem quiser, piscina, quadra poliesportiva, jardins, espaços para confraternização, teatro!!! Sandra, a diretora visionária, sonhadora, maestra de 3.000 alunos, deveria receber no mínimo cinco comendas.
Estive sentada ao lado da Ana Paula, Secretária de Educação de Saquarema, que me garantiu que as escolas continuarão leitoras, apesar de mudanças no Projeto de Leitura. Dia 26 de março parece que os professores terão um encontro comigo lá no teatro da Faetec, um café da manhã para um bate papo sobre leitura.
E hoje irei a Búzios falar meus poemas e parece mentira mas estou morta de medo. Se for para falar para 500 professores não tenho medo nenhum, me sinto acolhida e amada, mas hoje vou apenas ler meus poemas para uma platéia que não conheço. E se não gostarem?
Estive sentada ao lado da Ana Paula, Secretária de Educação de Saquarema, que me garantiu que as escolas continuarão leitoras, apesar de mudanças no Projeto de Leitura. Dia 26 de março parece que os professores terão um encontro comigo lá no teatro da Faetec, um café da manhã para um bate papo sobre leitura.
E hoje irei a Búzios falar meus poemas e parece mentira mas estou morta de medo. Se for para falar para 500 professores não tenho medo nenhum, me sinto acolhida e amada, mas hoje vou apenas ler meus poemas para uma platéia que não conheço. E se não gostarem?
quinta-feira, 7 de março de 2013
A CANÇÃO INICIAL
Ontem recebi pelo correio um pacote de livros do poeta e cidadão maranhense José Sarney, que foi Presidente do Brasil. Separo o político do poeta e me surpreendo com sua bela, clara e melódica poesia, que flui como água e trabalha com o tempo e a memória. O livro A Canção Inicial, que me tocou especialmente, foi escrito antes de que eu tivesse nascido, em 1948 e a poesia escorre tão naturalmente como se acabasse de ser escrita.
.................................................
III
Tenho os sons saudade
assim como um velho rio
de sombras
no campo do passar.
A sua ausência possui
os dias vagos e despovoados
assim como poços esquecidos
cobertos, velhos detritos
comendo a solidão
e a triste lembrança
nas águas,
boiando.
Quando tua presença foge
foge de meus olhos o tempo.
Sou um trigal abandonado
à espera da colheita.
.....................................................
Somos tantas pessoas dentro , assim dentro do político que atravessou grande parte da história do Brasil recente, existe um poeta que se debruça sobre o poço inesgotável da poesia e lava o rosto e as mãos e bebe suas águas.
.................................................
III
Tenho os sons saudade
assim como um velho rio
de sombras
no campo do passar.
A sua ausência possui
os dias vagos e despovoados
assim como poços esquecidos
cobertos, velhos detritos
comendo a solidão
e a triste lembrança
nas águas,
boiando.
Quando tua presença foge
foge de meus olhos o tempo.
Sou um trigal abandonado
à espera da colheita.
.....................................................
Somos tantas pessoas dentro , assim dentro do político que atravessou grande parte da história do Brasil recente, existe um poeta que se debruça sobre o poço inesgotável da poesia e lava o rosto e as mãos e bebe suas águas.
quarta-feira, 6 de março de 2013
DE VOLTA PARA CASA
Da montanha para o mar o caminho é imenso e não pode ser medido em quilômetros, mas sim em florestas, bichos, nuvens, raios e trovões.
Quando chegueu na minha casinha na semana passada, lá em Visconde de Mauá, um temporal chegou junto comigo e fiquei dezoito horas sem luz, como antigamente.
André, meu filho, me conta que havia uma paca morta no sítio e parecia caçada de onça. Fiquei alucinada, dava tudo para ver uma onça.
Meu neto encheu a casinha de alegria. E meus filhos e minha irmã e meu cunhado. A beleza dos dias era tanta com sol ou chuva que eu quase gritava sozinha.
E ontem, ao chegar em casa, novamente uma tempestade me recebeu. Sentamos na varandinha coberta de frente para o mar, eu adoro sentir medo dos raios e ontem o espetáculo era impressionantes. Os raios caiam no mar com estrondo e beleza.
E hoje toneladas de trabalho acumulado nesta ausência.
E aqui estou novamente no mar.
Quando chegueu na minha casinha na semana passada, lá em Visconde de Mauá, um temporal chegou junto comigo e fiquei dezoito horas sem luz, como antigamente.
André, meu filho, me conta que havia uma paca morta no sítio e parecia caçada de onça. Fiquei alucinada, dava tudo para ver uma onça.
Meu neto encheu a casinha de alegria. E meus filhos e minha irmã e meu cunhado. A beleza dos dias era tanta com sol ou chuva que eu quase gritava sozinha.
E ontem, ao chegar em casa, novamente uma tempestade me recebeu. Sentamos na varandinha coberta de frente para o mar, eu adoro sentir medo dos raios e ontem o espetáculo era impressionantes. Os raios caiam no mar com estrondo e beleza.
E hoje toneladas de trabalho acumulado nesta ausência.
E aqui estou novamente no mar.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
EM VISCONDE DE MAUÁ
Aqui estou em Visconde de Mauá, no ateliê-loja-casa da minha irmã Evelyn Kligerman e meu cunhado Luis Mérigo. Chove, faz um certo frio para quem veio do calor escaldante de Resende.
Nestes poucos dias, além de estar com meus filhos e neto Luis, tive duas notícias maravilhosas: Entrei com dois livros no Catálogo de Bolonha: Quatro Jabutis, ed. Lê e Diário da Montanha, ed. Manati. E o livro Fio de Lua & Raio de Sol que fiz com a minha nora Patricia de Arias foi aceito pela ed. Ibep Jr e sairá em setembro.
Agora vou para a minha casinha onde escreví o Diário da Montanha. Lá não tem internet (por enquanto, a civilização digital está a caminho) e volto para Saquarema no dia 5.
Leitores ficam curiosos: O que levo na mala?
Pouca roupa, alguns livros e uma alegria imensa.
Até o dia 6 então.
Nestes poucos dias, além de estar com meus filhos e neto Luis, tive duas notícias maravilhosas: Entrei com dois livros no Catálogo de Bolonha: Quatro Jabutis, ed. Lê e Diário da Montanha, ed. Manati. E o livro Fio de Lua & Raio de Sol que fiz com a minha nora Patricia de Arias foi aceito pela ed. Ibep Jr e sairá em setembro.
Agora vou para a minha casinha onde escreví o Diário da Montanha. Lá não tem internet (por enquanto, a civilização digital está a caminho) e volto para Saquarema no dia 5.
Leitores ficam curiosos: O que levo na mala?
Pouca roupa, alguns livros e uma alegria imensa.
Até o dia 6 então.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
A MALA DE HANA
Sábado ganhei da leitora do nosso Clube, Ângela Quintieri, o livro A MALA DE HANA, de Karen Levine, ed. Melhoramentos.
O livro é uma pequena jóia. Uma mulher japonesa , diretora do Centro Educacional do Holocausto de Tóquio, a partir de uma pequena mala, reconstrói a história de Hana e de sua família. O livro pode e deve ser lido com alunos e a partir da pequena mala de Hana se pode reconstruir a história da Europa nos anos que precederam a Segunda Guerra.
Ontem li uma entrevista muito interessante com a Diretora da Escola Parque. Ela diz algo tão simples e fundamental: A escola hoje tem que dar ao aluno o que ele não encontra no Google.Este é o desafio.
E hoje leio uma matéria terrível sobre a violência nas escolas, tanto públicas quanto particulares. O diagnóstico: as escolas estão no século XIX, os alunos do século XXI não suportam as aulas entediantes e sua irritação atinge níveis perigosos, além dos problemas emocionais que já trazem de sua casa , do mundo onde vivem.
O remédio: uma mudança radical da escola, o fortalecimento dos laços de afeto, um aluno criativo e com auto-estima não terá vontade de agredir. A arte e a leitura como prática diária mudam completamente a rotina da escola.
E hoje arrumo a minha mala. Vou para Resende amanhã e de lá para Visconde de Mauá, para a minha casinha da montanha.
O livro é uma pequena jóia. Uma mulher japonesa , diretora do Centro Educacional do Holocausto de Tóquio, a partir de uma pequena mala, reconstrói a história de Hana e de sua família. O livro pode e deve ser lido com alunos e a partir da pequena mala de Hana se pode reconstruir a história da Europa nos anos que precederam a Segunda Guerra.
Ontem li uma entrevista muito interessante com a Diretora da Escola Parque. Ela diz algo tão simples e fundamental: A escola hoje tem que dar ao aluno o que ele não encontra no Google.Este é o desafio.
E hoje leio uma matéria terrível sobre a violência nas escolas, tanto públicas quanto particulares. O diagnóstico: as escolas estão no século XIX, os alunos do século XXI não suportam as aulas entediantes e sua irritação atinge níveis perigosos, além dos problemas emocionais que já trazem de sua casa , do mundo onde vivem.
O remédio: uma mudança radical da escola, o fortalecimento dos laços de afeto, um aluno criativo e com auto-estima não terá vontade de agredir. A arte e a leitura como prática diária mudam completamente a rotina da escola.
E hoje arrumo a minha mala. Vou para Resende amanhã e de lá para Visconde de Mauá, para a minha casinha da montanha.
domingo, 24 de fevereiro de 2013
SURPRESA NO CLUBE DE LEITURA
Ontem nosso encontro do Clube de Leitura foi cheio de surpresas. Recebemos muitos hóspedes novos para discutir Morte e Vida Severina do João Cabral e Sagarana do Guimarães Rosa.
Às 10 horas a mesa da varanda já estava pronta, 3 mesas juntas, onde se sentariam 24 pessoas. A temperatura estava amena, o dia lindo. E começaram a chegar os convidados. Hélio e Fernando, Edith Lacerda, pela primeira vez no Clube e Maria Clara. Chegaram as duas Ângelas. Isabela e Adelaide, mãe e filha, primeira vez no Clube. Chico Perez, nosso vereador poeta, Felipe e sua amiga-quase-namorada Gisele, Gil de cabelo afro, Aline, (a filha do Samuel, aniversariante ontem, nosso jardineiro e Vanda, nossa caseira), entrou para o Clube e estava linda e eufórica, era a sua primeira experiência do gênero. Chegaram Flora e Héctor.
Começamos sem o Professor Ivo que chegou logo depois com Rejane e Carmen Regina.
Leila me telefonou do Rio, inconsolável: quando foi estacionar seu carro na Rodoviária do Rio, o vidro explodiu e não podia deixar o carro estacionado sem vidro, então não veio.
Começamos com uma leitura em voz alta do maravilhoso trecho do livro que o Chico Buarque musicou e então destacamos os trechos que mais impactaram cada um. Gil falou da sua avó retirante. Maria Clara e Edith falaram da beleza dos ofertórios, os presentes da terra que era oferecido ao recém-nascido. Juan falou da beleza do que é feito com as mãos. Falamos da morte nômade e do final esplêndido em que a vida vence a morte. Falamos do título: não é Vida e Morte, mas sim Morte e Vida. Falamos do nome Severino usado como adjetivo.Fernando falou da vida "severa" que vem de Severino. Aline falou que era uma grande lição: quando se pensa que tudo está perdido vem a vida e nos oferece outra vida.
Já íamos começar a discutir os contos do Sagarana quando chegou a grande surpresa que guardei no fundo da boca, não contei para ninguém. Felipe começava a ler o conto Fita Verde no Cabelo quando chegaram Ana Cristina, Cristiano Mota e Ronaldo Mota. Os dois foram do grupo Hombu. Eles são um duo que canta Guimarães Rosa e trouxeram o violão. Aí pronto, foi uma aula de Guimarães Rosa recheada de canções.
Impossível escrever tudo o que falamos e ouvimos. Foi uma cachoeira de Guimarães, um grande mergulho.
Ana Cristina trabalha no SESC Teresópolis e também é cantora. Eles foram trazidos pelas mãos do Carlos Dimuro que não veio, mas nos deu este presente ao saber que discutiríamos Sagarana.
Messias, nosso amigo mais do que amado, foi o grande ausente. Mas o vento maravilhoso que soprava ontem, foi um pedido especial do Messias. Ele, como a Menina de Lá do Guimarães, faz muitos milagres.
Quando passamos para a mesa, já estávamos mais do que alimentados, mas a Vanda fez uma comidinha bem da roça no fogão de lenha onde era servida: um arroz maluquinho com muitas surpresas dentro, feijão mulatinho com paio e linguiça e farofa de couve e ovo. Na mesa pães feitos por mim, azeite, vinho, salada de trigo sarraceno.
De sobremesa a torta de aniversário do Samuel., pudemos cantar o parabéns com Ronaldo Mota no violão.Flora e Hélio trouxeram pudim.
Nosso próximo encontro será dia 27 de abril e o livro: O Físico, do Noah Gordon . Pedi que todos tragam poemas árabes da Idade Média.
Às 10 horas a mesa da varanda já estava pronta, 3 mesas juntas, onde se sentariam 24 pessoas. A temperatura estava amena, o dia lindo. E começaram a chegar os convidados. Hélio e Fernando, Edith Lacerda, pela primeira vez no Clube e Maria Clara. Chegaram as duas Ângelas. Isabela e Adelaide, mãe e filha, primeira vez no Clube. Chico Perez, nosso vereador poeta, Felipe e sua amiga-quase-namorada Gisele, Gil de cabelo afro, Aline, (a filha do Samuel, aniversariante ontem, nosso jardineiro e Vanda, nossa caseira), entrou para o Clube e estava linda e eufórica, era a sua primeira experiência do gênero. Chegaram Flora e Héctor.
Começamos sem o Professor Ivo que chegou logo depois com Rejane e Carmen Regina.
Leila me telefonou do Rio, inconsolável: quando foi estacionar seu carro na Rodoviária do Rio, o vidro explodiu e não podia deixar o carro estacionado sem vidro, então não veio.
Começamos com uma leitura em voz alta do maravilhoso trecho do livro que o Chico Buarque musicou e então destacamos os trechos que mais impactaram cada um. Gil falou da sua avó retirante. Maria Clara e Edith falaram da beleza dos ofertórios, os presentes da terra que era oferecido ao recém-nascido. Juan falou da beleza do que é feito com as mãos. Falamos da morte nômade e do final esplêndido em que a vida vence a morte. Falamos do título: não é Vida e Morte, mas sim Morte e Vida. Falamos do nome Severino usado como adjetivo.Fernando falou da vida "severa" que vem de Severino. Aline falou que era uma grande lição: quando se pensa que tudo está perdido vem a vida e nos oferece outra vida.
Já íamos começar a discutir os contos do Sagarana quando chegou a grande surpresa que guardei no fundo da boca, não contei para ninguém. Felipe começava a ler o conto Fita Verde no Cabelo quando chegaram Ana Cristina, Cristiano Mota e Ronaldo Mota. Os dois foram do grupo Hombu. Eles são um duo que canta Guimarães Rosa e trouxeram o violão. Aí pronto, foi uma aula de Guimarães Rosa recheada de canções.
Impossível escrever tudo o que falamos e ouvimos. Foi uma cachoeira de Guimarães, um grande mergulho.
Ana Cristina trabalha no SESC Teresópolis e também é cantora. Eles foram trazidos pelas mãos do Carlos Dimuro que não veio, mas nos deu este presente ao saber que discutiríamos Sagarana.
Messias, nosso amigo mais do que amado, foi o grande ausente. Mas o vento maravilhoso que soprava ontem, foi um pedido especial do Messias. Ele, como a Menina de Lá do Guimarães, faz muitos milagres.
Quando passamos para a mesa, já estávamos mais do que alimentados, mas a Vanda fez uma comidinha bem da roça no fogão de lenha onde era servida: um arroz maluquinho com muitas surpresas dentro, feijão mulatinho com paio e linguiça e farofa de couve e ovo. Na mesa pães feitos por mim, azeite, vinho, salada de trigo sarraceno.
De sobremesa a torta de aniversário do Samuel., pudemos cantar o parabéns com Ronaldo Mota no violão.Flora e Hélio trouxeram pudim.
Nosso próximo encontro será dia 27 de abril e o livro: O Físico, do Noah Gordon . Pedi que todos tragam poemas árabes da Idade Média.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
RETRATOS
A nova edição do meu livro RETRATOS tem um conceito muito diferente da edição anterior. Antes era um álbum de retratos como aqueles de antigamente, inclusive com papel de seda entre as páginas. As fotos não eram da minha família.
Para esta edição recuperei fotos muito antigas da minha família e o projeto gráfico não é o de um álbum de retratos, mas sim de um caderno de anotações.
Com a edição aconteceu um caso curioso que vou contar aqui. Quando fui ao Sul em 1990 receber o Prêmio AGE de Poesia, havia um escritor do Uruguai. Eu havia levado alguns livros e Retratos acabava de sair. Ele se apaixonou pelo livro e me disse:
_Roseana, vou copiar o teu livro, vou fazer um igual, com meus textos.
Eu não disse nada, o que poderia dizer.
Um dia recebi em casa o seu livro, idêntico ao meu, mas sua capa era amarela. Não contei para a minha editora, fiquei com vergonha, era a Antonieta Cunha, da Miguilim. Mas acontece que Antonieta ou foi ao Uruguai ou em algum outro país ela viu o livro. Recebi seu telefonema:
_Roseana, você sabia que copiaram o Retratos?
Eu sabia, mas o que podia dizer?
Agora a nova edição me oferece muita felicidade, tenho poucas fotos da minha infância, da minha família e aí estão meus avós, meu pai e minha mãe apaixonados, minha mãe grávida de mim. E o texto continua lindo e atual, leve e poético.
Para esta edição recuperei fotos muito antigas da minha família e o projeto gráfico não é o de um álbum de retratos, mas sim de um caderno de anotações.
Com a edição aconteceu um caso curioso que vou contar aqui. Quando fui ao Sul em 1990 receber o Prêmio AGE de Poesia, havia um escritor do Uruguai. Eu havia levado alguns livros e Retratos acabava de sair. Ele se apaixonou pelo livro e me disse:
_Roseana, vou copiar o teu livro, vou fazer um igual, com meus textos.
Eu não disse nada, o que poderia dizer.
Um dia recebi em casa o seu livro, idêntico ao meu, mas sua capa era amarela. Não contei para a minha editora, fiquei com vergonha, era a Antonieta Cunha, da Miguilim. Mas acontece que Antonieta ou foi ao Uruguai ou em algum outro país ela viu o livro. Recebi seu telefonema:
_Roseana, você sabia que copiaram o Retratos?
Eu sabia, mas o que podia dizer?
Agora a nova edição me oferece muita felicidade, tenho poucas fotos da minha infância, da minha família e aí estão meus avós, meu pai e minha mãe apaixonados, minha mãe grávida de mim. E o texto continua lindo e atual, leve e poético.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
LEMBRANÇAS
Ontem recebi duas fotos que me deixaram muito emocionadas. Não tenho quase nenhuma foto desta época, a década de 70. Não tinhamos máquina fotográfica. Não tenho nenhuma foto da casa onde morei na Tijuca, na Rua Henrique Fleiuss. Mas eu a tenho na memória, com todos os cantos e cheiros, eu a amava perdidamente. Deixamos a casa e nos mudamos para Visconde de Mauá em 77 , com os filhos pequenos. E numa sinfonia não ensaiada, levas de pessoas foram chegando e não havia uma escola alternativa para as nossas muitas crianças, os filhos de um bando de artistas meio loucos. Então foi criada a Escolinha da Terra, no Vale da Santa Clara. Muitos professores eram os próprios pais. O recreio era na cachoeira. Havia aula de circo, de música, de construção, além do currículo normal. Eu contava histórias.Uma vez uma vaca entrou na sala de aula, quem sabe uma vaca leitora...Até hoje muitas daquelas crianças continuam amigas num elo indestrutível. Desde aquela época, tão nova, eu já sabia que aquele modelo de educação era magnífico. A alfabetizadora havia trabalhado com o Paulo Freire.
Foi em Mauá naqueles anos, que comecei a escrever poesia. E foi morando ali que publiquei meu primeiro livro o Fardo de Carinho, pela extinta ed. Murinho.
Estou na foto acima, à esquerda da moça de trança. Era uma apresentação da aula de Circo e meu filho Guga estava se apresentando.
Foi em Mauá naqueles anos, que comecei a escrever poesia. E foi morando ali que publiquei meu primeiro livro o Fardo de Carinho, pela extinta ed. Murinho.
Estou na foto acima, à esquerda da moça de trança. Era uma apresentação da aula de Circo e meu filho Guga estava se apresentando.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
A FORÇA DAS PALAVRAS
Nunca li o blog da cubana Yoani Sanchez. Mas li sobre a recepção horrososa que teve no Brasil, por segmentos hostis a ela, com agressões físicas e verbais. Fico envergonhada, quer se concorde ou não com suas opiniões ou com o que escreve, o Brasil tem a tradição de receber bem os seus visitantes.
Fica então comprovada a força da palavra. Como pode um blog representar tanto perigo a ponto de sua autora ser agredida em outro país?
Reafirmo minha paixão pela liberdade, de culto, de expressão, de afeto, liberdade política. Os tempos da ditadura já se foram, nós, os que vivemos aquele tempo, carregamos algum morto na algibeira, carregamos alguém que enlouqueceu ou desapareceu.
A força das palavras. Não é por acaso que as ditaduras queimam livros, a Alemanha enlouquecida queimou todos os livros do Freud. Mas as palavras queimadas sempre renascem.
O Brasil , de todas as cores e matizes, não pode receber assim os seus visitantes.
Fica então comprovada a força da palavra. Como pode um blog representar tanto perigo a ponto de sua autora ser agredida em outro país?
Reafirmo minha paixão pela liberdade, de culto, de expressão, de afeto, liberdade política. Os tempos da ditadura já se foram, nós, os que vivemos aquele tempo, carregamos algum morto na algibeira, carregamos alguém que enlouqueceu ou desapareceu.
A força das palavras. Não é por acaso que as ditaduras queimam livros, a Alemanha enlouquecida queimou todos os livros do Freud. Mas as palavras queimadas sempre renascem.
O Brasil , de todas as cores e matizes, não pode receber assim os seus visitantes.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
LIVROS NO FORNO
Quando faço um pão coloco alecrim por cima para que ao assar perfume a casa. Aqui em casa não compramos pão:
RECEITA DE PÃO
é coisa muito antiga
o ofício do pão
primeiro misture o fermento
com água morna e açúcar
e deixe crescer ao sol
depois numa vasilha
derrame a farinha e o sal
óleo de girassol manjericão
adicionado o fermento
vá dando o ponto com calma
água morna e farinha
mas o pão tem seus mistérios
na sua feitura há que entrar
um pouco da alma do que é etéreo
então estique a massa
enrole numa trança
e deixe que descanse
que o tempo faça a sua dança
asse em forno forte
até que o perfume do pão
se espalhe pela casa e pela vida
in Receitas de Olhar, ed. FTD
Tenho vários livros inéditos no forno e de longe já perfumam a minha vida:
Abecedário Poético de Frutas, ed. Rovelle;
Quem vê cara não vê coração, ed. Callis/Instituto Houaiss
Carta na Manga, ed. Manati;
Retratos, ed. Ibeppe, reedição com novas fotos
Agora busco editora para o belo livro que fiz com minha nora, a poeta andaluza Patrícia de Arias:
Fio de Lua&Raio de Sol. Patrícia fez os poemas de lua e eu fiz os de sol numa amorosa tapeçaria.
RECEITA DE PÃO
é coisa muito antiga
o ofício do pão
primeiro misture o fermento
com água morna e açúcar
e deixe crescer ao sol
depois numa vasilha
derrame a farinha e o sal
óleo de girassol manjericão
adicionado o fermento
vá dando o ponto com calma
água morna e farinha
mas o pão tem seus mistérios
na sua feitura há que entrar
um pouco da alma do que é etéreo
então estique a massa
enrole numa trança
e deixe que descanse
que o tempo faça a sua dança
asse em forno forte
até que o perfume do pão
se espalhe pela casa e pela vida
in Receitas de Olhar, ed. FTD
Tenho vários livros inéditos no forno e de longe já perfumam a minha vida:
Abecedário Poético de Frutas, ed. Rovelle;
Quem vê cara não vê coração, ed. Callis/Instituto Houaiss
Carta na Manga, ed. Manati;
Retratos, ed. Ibeppe, reedição com novas fotos
Agora busco editora para o belo livro que fiz com minha nora, a poeta andaluza Patrícia de Arias:
Fio de Lua&Raio de Sol. Patrícia fez os poemas de lua e eu fiz os de sol numa amorosa tapeçaria.
sábado, 16 de fevereiro de 2013
METEORO
Um meteoro cai na Rússia e no seu rastro nos diz o quanto somos frágeis, como a vida é sempre por um triz, como de um segundo para outro podemos cair do trapézio que se balança sobre o infinito.
Convém, então, beijar quem a gente ama, filhos, nosso homem ou mulher, netos, cães e gatos, , não economizar afeto, não economizar palavras e abraços para dizer o nosso amor.
Convém, então, beijar quem a gente ama, filhos, nosso homem ou mulher, netos, cães e gatos, , não economizar afeto, não economizar palavras e abraços para dizer o nosso amor.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
AGENDA
É noite ainda, nenhum sinal da manhã. Sopra um vento fresco, vem da montanha. Já tomei café e apanho na estante um livro de poesia ao acaso. "Sísifo desce a montanha" do Affonso Romano de Sant'Anna e fico sabendo que o Affonso adora fazer listas. Eu também. Faço listas de tudo, de coisas para fazer, de planos para depois, listas de desejos, de livros, de palavras. Quando anoto uma viagem na agenda , a página já fica impregnada de cheiro e as vozes das pessoas que irei encontrar já ecoam , soam como sinos.
Anoto na agenda que dia 26 irei para Resende-Mauá ver o meu neto, meus filhos, minha irmã.
Espero conseguir, pois o meu corpo não está me obedecendo, parece um cavalo brabo, mas ao anotar na agenda, a viagem já vai se fazendo.
Divido o poema do Affonso com vocês:
AGENDA
Toda manhã
anoto uma lista
de coisas por fazer:
contas a pagar
cartas, e-mails, telefonemas
carinhos que responder
livros, palestras, entrevistas
ginástica, compras
remédios, terra, flores
consertos domésticos
desculpas, culpas
livros que ler e escrever.
Olho o que arquivo:
- o ontem só cresce
não há pasta que o contenha.
Melhor seria dissolvê-lo
ignorá-lo sem etiqueta
sem tentar decodificá-lo
entendê-lo.
Vai começar a girândola
de um novo dia.
Ponho o sol na alma
vejo da janela
- a lagoa e o mar.
Olho o presente, o futuro.
Mas o passado, que não passa
como agendar?
Affonso Romano de S'Antanna, in Sísifo desce a montanha, ed. Rocco.
Anoto na agenda que dia 26 irei para Resende-Mauá ver o meu neto, meus filhos, minha irmã.
Espero conseguir, pois o meu corpo não está me obedecendo, parece um cavalo brabo, mas ao anotar na agenda, a viagem já vai se fazendo.
Divido o poema do Affonso com vocês:
AGENDA
Toda manhã
anoto uma lista
de coisas por fazer:
contas a pagar
cartas, e-mails, telefonemas
carinhos que responder
livros, palestras, entrevistas
ginástica, compras
remédios, terra, flores
consertos domésticos
desculpas, culpas
livros que ler e escrever.
Olho o que arquivo:
- o ontem só cresce
não há pasta que o contenha.
Melhor seria dissolvê-lo
ignorá-lo sem etiqueta
sem tentar decodificá-lo
entendê-lo.
Vai começar a girândola
de um novo dia.
Ponho o sol na alma
vejo da janela
- a lagoa e o mar.
Olho o presente, o futuro.
Mas o passado, que não passa
como agendar?
Affonso Romano de S'Antanna, in Sísifo desce a montanha, ed. Rocco.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
INVEJA
Com tantos problemas na minha coluna operada, com uma quantidade de dor difícil de administrar, tenho inveja das coisas mais prosaicas: gente caminhando pela praia, entrando no mar com ondas, gente andando de bicicleta...
e digo como Manuel Bandeira em Pasárgada, na terceira estrofe:
"E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no Pau de Sebo
Tomarei banhos de mar !
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou me embora pra Pasárgada"
O mundo anda esquisito, testes nucleares, meteoros que quase esbarram na Terra, ainda bem que a poesia , a de todos os dias, a beleza desta manhã, os pássaros, a vida, ainda bem que a poesia nos salva.
e digo como Manuel Bandeira em Pasárgada, na terceira estrofe:
"E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no Pau de Sebo
Tomarei banhos de mar !
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou me embora pra Pasárgada"
O mundo anda esquisito, testes nucleares, meteoros que quase esbarram na Terra, ainda bem que a poesia , a de todos os dias, a beleza desta manhã, os pássaros, a vida, ainda bem que a poesia nos salva.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
FILHO DO FILHO
Quem são meus antepassados? Pouco ou nada sei das mulheres que me antecederam. Minha mãe me contava que não se lembrava do navio em que veio da Polônia. Que não se lembrava da viagem. Para a minha avó, mãe da minha mãe, nunca perguntei nada, ela era tão recolhida, parece que a vida não a tocava, imersa em suas orações. A mãe do meu pai morreu quando eu ainda era muito nova, ela é apenas um nome, uma sombra. Quanto do que foram corre em minhas veias?
EL HIJO
No soy yo quién te engendra. Son los muertos.
Son mi padre, su padre y sus mayores;
Son los que un largo dédalo de amores
Trazaron desde Adán y los desiertos
De Cain y de Abel, en una aurora
Tan antigua que ya es mitología,
Y llegan, sangre y médula, a este dia.
Del porvenir, en que te engendro ahora,
Siento su multitud. Somos nosotros
Y, entre nosotros, tú y los venideros
Hijos que has de engendrar. Los postrimeros
Y los del rojo Adán. Soy esos otros,
También. La eternidad está en las cosas
Del tiempo, que son formas presurosas.
Jorge Luis Borges - Obra Poética
EL HIJO
No soy yo quién te engendra. Son los muertos.
Son mi padre, su padre y sus mayores;
Son los que un largo dédalo de amores
Trazaron desde Adán y los desiertos
De Cain y de Abel, en una aurora
Tan antigua que ya es mitología,
Y llegan, sangre y médula, a este dia.
Del porvenir, en que te engendro ahora,
Siento su multitud. Somos nosotros
Y, entre nosotros, tú y los venideros
Hijos que has de engendrar. Los postrimeros
Y los del rojo Adán. Soy esos otros,
También. La eternidad está en las cosas
Del tiempo, que son formas presurosas.
Jorge Luis Borges - Obra Poética
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
AQUARELAS
Meu destino se cruzou com o da aquarelista Cláudia Simões em 1980, quando saiu meu primeiro livro Fardo de Carinho. Naquela época eu morava em Visconde de Mauá e era amiga do grande Maestro Nelson Ayres que também tinha uma casa em Mauá. Um dia ele chegou na minha casa e disse: comecei a namorar uma moça que tem dois filhos pequenos , cheguei na sua casa e para minha surpresa encontrei o Fardo de Carinho, eu não havia falado de você. Ela não me conhecia e deve ter sido uma das primeiras pessoas a comprar o Fardo de Carinho de uma autora totalmente desconhecida. Nos conhecemos e ficamos amigas.
Ela e Nelson se casaram, tiveram filhos e se separaram e nós duas fomos, cada uma, para um lado da vida e estávamos bastante afastadas. Eu sabia que ela havia estudado aquarela com seriedade, com os maiores mestres japoneses de São Paulo. Sabia que fazia exposições pelo mundo afora.
Depois de anos sem nenhum contato, nos vimos em Mauá em 2011. Assim nasceu o desejo de fazer uma parceria. Ela nunca havia ilustrado nenhum livro.
E agora, dia 4 de abril, sairá nosso livro, ABECEDÁRIO POÉTICO DE FRUTAS, pela editora Rovelle. Faremos um grande lançamento em Mauá , no Centro Cultural, com o Maestro Nelson Ayres tocando, para juntar as duas pontas do tempo. Como num círculo. As aquarelas da Cláudia para o livro são estonteantes. E como numa galeria, suas aquarelas estarão em exposição e poderão ser compradas.
Ela e Nelson se casaram, tiveram filhos e se separaram e nós duas fomos, cada uma, para um lado da vida e estávamos bastante afastadas. Eu sabia que ela havia estudado aquarela com seriedade, com os maiores mestres japoneses de São Paulo. Sabia que fazia exposições pelo mundo afora.
Depois de anos sem nenhum contato, nos vimos em Mauá em 2011. Assim nasceu o desejo de fazer uma parceria. Ela nunca havia ilustrado nenhum livro.
E agora, dia 4 de abril, sairá nosso livro, ABECEDÁRIO POÉTICO DE FRUTAS, pela editora Rovelle. Faremos um grande lançamento em Mauá , no Centro Cultural, com o Maestro Nelson Ayres tocando, para juntar as duas pontas do tempo. Como num círculo. As aquarelas da Cláudia para o livro são estonteantes. E como numa galeria, suas aquarelas estarão em exposição e poderão ser compradas.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
A RENÚNCIA DO PAPA
A renúncia do Papa Bento XVI pegou o mundo de surpresa. Não sou católica, mas acho que a grande mudança da Igreja virá quando os revolucionários ensinamentos de Jesus forem levados ao pé da letra. Um Papa que mudasse algumas coisas fundamentais: acabar com o celibato e com toda a riqueza e ostentação da Igreja. Além disso o Vaticano é um Estado doado por Mussolini. O Papa é um Chefe de Estado, aperta e mão de ditadores! Isso é um absurdo. O Papa deveria ser apenas um líder espiritual. A Igreja é lenta e é muito difícil que mude repentinamente. Mas que um Papa como João XXIII, um homem bom, livre e bem humorado, que plantou sementes impressionantes, seria muito propício, com certeza.
Quando eu era adolescente estudei no Hebreu Brasileiro. Tive uma professora de hebraico que passou a infância escondida num convento na Polônia. As freiras não tentaram convertê-la. Isso é cristianismo em estado puro. Conheço freiras maravilhosas, os ensinamentos de Jesus correm de maneira cristalina por suas veias. São despojadas , educadoras, amorosas e não ostentam nada. Já quando vejo a pompa da elite da Vaticano, fico pensando: o que é que tudo isso tem a ver com Jesus?
Quando eu era adolescente estudei no Hebreu Brasileiro. Tive uma professora de hebraico que passou a infância escondida num convento na Polônia. As freiras não tentaram convertê-la. Isso é cristianismo em estado puro. Conheço freiras maravilhosas, os ensinamentos de Jesus correm de maneira cristalina por suas veias. São despojadas , educadoras, amorosas e não ostentam nada. Já quando vejo a pompa da elite da Vaticano, fico pensando: o que é que tudo isso tem a ver com Jesus?
domingo, 10 de fevereiro de 2013
LONGE DAQUI
Li um romance bem curioso. LONGE DAQUI, de Amy Bloom, ed. Nova Fronteira , me levou até a velha Rússia dos tzares onde a vida dos judeus nos povoados era muito dura. De vez em quando os russos faziam uma matança, os pogroms, para quebrar a monotonia, para roubar. O livro começa com um pogrom em Turov e uma mulher vê toda a família ser assassinada. Mas ela ainda tem tempo de jogar a filha de três anos pela janela e lhe recomendar que se esconda no galinheiro. Ela escapa e ao buscar a filha já não a encontra. Muitos dizem que viram o cadáver da sua filha deslizando pelo rio. Ela vai para a América onde tem uma prima. Mas um dia chega até ela a notíicia de que sua filha está viva. O livro é a procura desesperada da filha , a sua louca viagem até a Sibéria. A estrutura do romance é muito interessante, a tradução da Adriana Lisboa é primorosa. Além disso é uma belíssima história de amor.
Releio um livro da minha juventude e é um verdadeiro deleite: La Llama Doble do Octavio Paz (A Chama Dupla), ed. Seix Barral . Tenho que ler aos poucos, tamanha a sua beleza. Transcrevo da página 11:
" La disposición lineal es una característica básica del lenguaje; las palabras se enlazan una tras otra de modo que el habla puede compararse a una vena de agua corriendo. ( Como é lindo isso, já é poesia!)
En el poema, la linealdad se tuerce, vuelve sobre sus pasos, serpea: la línea recta cesa de ser el arquetipo en favor del círculo y la espiral. Hay un momento en que el lenguaje deja de deslizarse y, por decirlo así, se levanta y se mece sobre el vacío; hay otro en el que cesa de fluir y se transforma en un sólido transparente - cubo, esfera, oblelisco - plantado en el centro de la página. "
Assim, o poema é este objeto sólido e transparente, feito de ar e palavras e habita a página como uma estrela o firmamento. Ou como um fogo fátuo. Impossível apreender todos os seus sentidos.
Releio um livro da minha juventude e é um verdadeiro deleite: La Llama Doble do Octavio Paz (A Chama Dupla), ed. Seix Barral . Tenho que ler aos poucos, tamanha a sua beleza. Transcrevo da página 11:
" La disposición lineal es una característica básica del lenguaje; las palabras se enlazan una tras otra de modo que el habla puede compararse a una vena de agua corriendo. ( Como é lindo isso, já é poesia!)
En el poema, la linealdad se tuerce, vuelve sobre sus pasos, serpea: la línea recta cesa de ser el arquetipo en favor del círculo y la espiral. Hay un momento en que el lenguaje deja de deslizarse y, por decirlo así, se levanta y se mece sobre el vacío; hay otro en el que cesa de fluir y se transforma en un sólido transparente - cubo, esfera, oblelisco - plantado en el centro de la página. "
Assim, o poema é este objeto sólido e transparente, feito de ar e palavras e habita a página como uma estrela o firmamento. Ou como um fogo fátuo. Impossível apreender todos os seus sentidos.
sábado, 9 de fevereiro de 2013
AMANHECER
Hoje às 4:30hs já estava tomando café na varanda. Ver e ouvir o amanhecer para mim é como uma sinfonia em homenagem à vida. Parece que vou me abrindo junto com o dia, vou me expandido junto com as primeiras cores.
Acendo as pequenas lâmpadas coloridas do jardim e as plantas flutuam, féericas, dentro do escuro, abaixo da varanda.
Bebo o silêncio entre as ondas do mar junto o café.
E a luz se alarga e pronto , já amanheceu.
Acendo as pequenas lâmpadas coloridas do jardim e as plantas flutuam, féericas, dentro do escuro, abaixo da varanda.
Bebo o silêncio entre as ondas do mar junto o café.
E a luz se alarga e pronto , já amanheceu.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
NOTÍCIAS DO CÉU E DO JARDIM
Hoje as gaivotas decidiram apresentar uma nova dança. Sentada no jardim olhei para o céu e a coreografia das dezenas de gaivotas era lindíssima. Como quando era criança eu pensei: estão dançando para mim.
Orquídeas novas abriram seus botões. As roseiras também florescem. E os jabutis passeiam e namoram por todo o jardim. Passarinhos semeiam os canteiros de cantos, são poemas sonoros.
Orquídeas novas abriram seus botões. As roseiras também florescem. E os jabutis passeiam e namoram por todo o jardim. Passarinhos semeiam os canteiros de cantos, são poemas sonoros.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
CARNAVAL
Tentarei envolver a casa em alguma tranquilidade no carnaval. Preciso de silêncio como de ar e o carnaval aqui é avassalador, mas este ano não consegui fugir para a montanha.
Aqui levamos uma vida muito simples. Cozinho eu mesma todos os dias (quando não estou viajando), faço pão em casa, às vezes cozinho no fogão de lenha, como fiz ontem, já que a temperatura estava muito agradável.. O mar é presença absoluta, sua música corre em minhas veias. O fogo e o mar se entrelaçam dentro de mim enquanto cozinho. Leio, contemplo, medito, escrevo (pouco). O carnaval com sua multidão , música a toda altura, estilhaça a paz da casa. Sobreviverei lendo.
Aqui levamos uma vida muito simples. Cozinho eu mesma todos os dias (quando não estou viajando), faço pão em casa, às vezes cozinho no fogão de lenha, como fiz ontem, já que a temperatura estava muito agradável.. O mar é presença absoluta, sua música corre em minhas veias. O fogo e o mar se entrelaçam dentro de mim enquanto cozinho. Leio, contemplo, medito, escrevo (pouco). O carnaval com sua multidão , música a toda altura, estilhaça a paz da casa. Sobreviverei lendo.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
DUAS AMIGAS
Recebo a quarta edição do livro Duas Amigas, pela ed. Paulus. Texto antiquíssimo e com uma grande carga emotiva. Pois fala de amizade, separação, reencontro. Edmir Perrotti, quando recebeu o texto, me enviou uma linda carta que está na quarta capa. Até hoje sua carta me emociona.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
ENTREVISTA COM BILL GATES
Ontem assisti a uma entrevista com Bill Gates, o segundo homem mais rico do mundo e fiquei muito comovida e impactada. Ele vai doar toda a sua fortuna em vida investindo seu dinheiro em causas lindíssimas: a erradicação da poliomielite no mundo , em lugares onde ainda persiste: India, África, Afganistão. Em programas contra a fome, inclusive tem uma parceria com a Embrapa para a fabricação de sementes que irão para a África. Em educação. Todos os projetos estão em andamento. Ele usa a tecnologia para não deixar que o que é enviado , vacinas, comida, dinheiro, seja desviado.
Ao ser perguntado sobre como o Brasil que já avançou tanto poderia melhorar, ele respondeu que a educação no Brasil é um copo cheio apenas pela metade. Enquanto não tivermos ESCOLAS PÚBLICAS maravilhosas para todos, continuaremos patinando, em franca defasagem com países do Oriente que estão muito na nossa frente.
É chocante a clareza das suas idéias se confrontada com a hesitação das nossas políticas educacionais. É chocante o seu envolvimento com causas para melhorar o mundo, comparado com o descaso, o deboche , a incompetência dos nossos políticos que só sabem trabalhar em causa própria, maquinando seu enriquecimento pessoal , movendo as peças com notável cinismo no tabuleiro do poder (as exceções são poucas ).
Bill Gates se diz um otimista impaciente. Ele nos dá uma aula de humanidade.
Ao ser perguntado sobre como o Brasil que já avançou tanto poderia melhorar, ele respondeu que a educação no Brasil é um copo cheio apenas pela metade. Enquanto não tivermos ESCOLAS PÚBLICAS maravilhosas para todos, continuaremos patinando, em franca defasagem com países do Oriente que estão muito na nossa frente.
É chocante a clareza das suas idéias se confrontada com a hesitação das nossas políticas educacionais. É chocante o seu envolvimento com causas para melhorar o mundo, comparado com o descaso, o deboche , a incompetência dos nossos políticos que só sabem trabalhar em causa própria, maquinando seu enriquecimento pessoal , movendo as peças com notável cinismo no tabuleiro do poder (as exceções são poucas ).
Bill Gates se diz um otimista impaciente. Ele nos dá uma aula de humanidade.
domingo, 3 de fevereiro de 2013
FELICIDADE
A sensação de felicidade é muito pessoal. Difícil definir. Um instante em que nos sentimos latejando de vida, plenos, em que nossa existência faz sentido, em que nos misturamos com a existência do universo. Em que somos nós mesmos . Nossa sociedade de consunmo ao inventar novos desejos a cada minuto, necessidades que não existem, cria uma sensação de falta. Mas a falta faz parte do que somos: humanos. E não podemos suprir nosso desejo de imortalidade com coisas. A música do mar, um cheiro, uma árvore florida, uma voz amada, uma carícia, por algum tempo nos completa. E nos intervalos? Quando a consciência do mundo é uma faca enterrada em nossas gargantas? Tentar fazer algo por alguém sempre acrescenta, nos devolve a plenitude.
Hoje recebo de presente o lindo poema da Cecília Meireles:
Encomenda
Desejo uma fotografia
como esta — o senhor vê? — como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.
Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.
Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.
Hoje recebo de presente o lindo poema da Cecília Meireles:
Encomenda
Desejo uma fotografia
como esta — o senhor vê? — como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.
Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.
Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
COTIDIANO
Estou lendo um livro muito interessante: O PODER DO HÁBITO de Charles Duhigg, ed. Objetiva e recebo hoje um artigo do jornal Estado de São Paulo falando coisas bem parecidas. O cérebro economiza. Quando fazemos algo pela primeira vez nossa mente está atenta e vivencia tudo com muita atenção. Quando o que fazemos já é um hábito, o cérebro já sabe e economiza, entra no automático e não precisamos mais de atenção. Logo , a experiência do que estamos fazendo não é vivida. Um dos antídotos é fazer sempre coisas novas, outra é colocar uma atenção especial e extrema no que estamos fazendo e a meditação ajuda . A poesia ajuda. Ela subverte a linguagem e nos faz pensar diferente.
Retirar a névoa espessa do hábito que nos impede de ver como se fosse pela primeira vez, é o grande segredo.
Recebo um lindo postal dos meus amigos virtuais japoneses Kats e Yuki: a montanha de Iwate que o poeta Takuboku Ishikawa contemplava. Já publiquei um poema seu aqui no blog mas repito:
Fumaça que se desfaz no céu azul
fumaça que se desfaz melancolicamente
meu espelho
Hoje fiz meditação na praia . Deixei que a sinfonia imensa do mar ocupasse todo o meu corpo por dentro, inundasse o meu coração.
Retirar a névoa espessa do hábito que nos impede de ver como se fosse pela primeira vez, é o grande segredo.
Recebo um lindo postal dos meus amigos virtuais japoneses Kats e Yuki: a montanha de Iwate que o poeta Takuboku Ishikawa contemplava. Já publiquei um poema seu aqui no blog mas repito:
Fumaça que se desfaz no céu azul
fumaça que se desfaz melancolicamente
meu espelho
Hoje fiz meditação na praia . Deixei que a sinfonia imensa do mar ocupasse todo o meu corpo por dentro, inundasse o meu coração.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
PILARES
Se os pilares do mundo, da sociedade, fossem a compaixão e o amor pelo outro, quantas tragédias seriam evitadas?
A sociedade violenta de consumo é como o mar que vomita lixo em suas ressacas, os dejetos mais sórdidos. Ela extrai do ser humano o que tem de mais abjeto: a ganância, o egoísmo, o sucesso a qualquer custo.
Na verdade a morte das centenas de jovens em Santa Maria custou em primeiro lugar sessenta e oito reais e cinquenta centavos, que era a diferença de preço entre um sputnik que pode ser usado em ambientes fechados e em ambientes abertos. O fogo começou com o sputnik. Fora todas as outras aberrações . Em nenhum momento a vida humana foi prioridade. A corrupção ajuda. Basta passar uma gorjeta para alguém que fecha os olhos e finge que não vê o extintor vencido, a falta de saídas de emergência, etc, etc.
Quando a vida do outro, os seus sentimentos, a sua dor, sua alegria, forem tão importantes quanto a minha vida, meus sentimentos , a minha dor, a minha alegria, tragédias coletivas não ocorrerão.
A sociedade violenta de consumo é como o mar que vomita lixo em suas ressacas, os dejetos mais sórdidos. Ela extrai do ser humano o que tem de mais abjeto: a ganância, o egoísmo, o sucesso a qualquer custo.
Na verdade a morte das centenas de jovens em Santa Maria custou em primeiro lugar sessenta e oito reais e cinquenta centavos, que era a diferença de preço entre um sputnik que pode ser usado em ambientes fechados e em ambientes abertos. O fogo começou com o sputnik. Fora todas as outras aberrações . Em nenhum momento a vida humana foi prioridade. A corrupção ajuda. Basta passar uma gorjeta para alguém que fecha os olhos e finge que não vê o extintor vencido, a falta de saídas de emergência, etc, etc.
Quando a vida do outro, os seus sentimentos, a sua dor, sua alegria, forem tão importantes quanto a minha vida, meus sentimentos , a minha dor, a minha alegria, tragédias coletivas não ocorrerão.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
A BRUXA DA CASA AMARELA
Além do meu neto Luis tenho dois netos de estimação: Kira e Astor Kay, filhos da Maya, filha do Juan, meu marido.
Kira tem um livro que fiz pela ed. Lê, belíssimo, ilustrado pela Elisabeth Teixeira. Kira agora tem seis anos e é realmente uma artista. Canta, dança, desenha, atua, sapateia. Além disso inventa histórias. Foi ela quem me deu a idéia para o conto que escrevi A Bruxa da Casa Amarela, meu próximo e-book, que dentro de uns dois meses estará disponível no meu site para as escolas. Ela estava brincando na varanda, junto ao fogão de lenha, com a minha linda vassoura de bruxa. Eu perguntei:
_Kira, você é uma bruxa?
Ela respondeu:
_Vovó, sou uma bruxa boa, eu cuido das flores do jardim.
Pronto, ela me deu a história. Agora que o livro já está sendo ilustrado pelo Caó para virar e-book, Kira, lá de Barcelona me diz que gostaria de ter um desenho seu no livro. Escrevi então uma apresentação que sairá com o desenho da Kira.
Kira tem um livro que fiz pela ed. Lê, belíssimo, ilustrado pela Elisabeth Teixeira. Kira agora tem seis anos e é realmente uma artista. Canta, dança, desenha, atua, sapateia. Além disso inventa histórias. Foi ela quem me deu a idéia para o conto que escrevi A Bruxa da Casa Amarela, meu próximo e-book, que dentro de uns dois meses estará disponível no meu site para as escolas. Ela estava brincando na varanda, junto ao fogão de lenha, com a minha linda vassoura de bruxa. Eu perguntei:
_Kira, você é uma bruxa?
Ela respondeu:
_Vovó, sou uma bruxa boa, eu cuido das flores do jardim.
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
CISNE E PEDRA
Chove. O dia está fechado feito um molusco. Mergulho em minha águas e são muitas dores e muitos tesouros. A poesia é a minha pele , por dentro e por fora.
POESIA
juntar cisne e pedra
caminhar pela existência
com esse talho na garganta
no redemoinho das hoas
um barco e nas mãos
um punhado de aurora
um poema se faz
com o avesso das águas
in Poesia Essencial, ed. Manati, 2002
POESIA
juntar cisne e pedra
caminhar pela existência
com esse talho na garganta
no redemoinho das hoas
um barco e nas mãos
um punhado de aurora
um poema se faz
com o avesso das águas
in Poesia Essencial, ed. Manati, 2002
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
TRAGÉDIA
Como falar de uma tragédia que poderia ter sido evitada não fosse a tragédia que é o descaso do Brasil com suas leis? O silêncio de mais de duzentos jovens, o silêncio para sempre, não pode ser dito. Nenhuma palavra, nenhuma frase, nem todo o idioma pode dizer a imensidão deste silêncio.
sábado, 26 de janeiro de 2013
REENCONTROS
Ontem na Casa da Leitura tive várias surpresas maravilhosas. Chegaram Ângela, Felipe e Leila, do nosso Clube de Leitura . Angela com seu primeiro livro, a história do seu avô e um sorriso maior do que o mundo. Felipe levou a mãe e a tia. Leila levou sua amiga Lais que também vai entrar para o Clube e minha irmã Evelyn chegou com Luis, meu cunhado, que havia chegado do México ontem mesmo e me trouxe um xale maravilhoso.
A platéia estava lotada de crianças. Contei o livro da Nana e os Quatro Jabutis, Guga fez seu Livro-Concerto Caixinha de Música. As crianças participaram muito e infelizmente não pudemos ficar para o encontro delas com a contadora de histórias Ilana, pois ontem era sexta feira e a volta para Saquarema é bem complicada. Ilana gentilmente nos cedeu seu horário para que pudéssemos voltar mais cedo.
Estou aqui, ouvindo as coisas incríveis que meu neto fala. Agora está apaixonado pelo livro Sanduíche da Maricota de Avelino Guedes, ed. Moderna. Agora só quer comer sanduiches. E pela história do Peter Pan que já contei quatrocentas vezes. Quando termino ele fala: _ Vovó, outra vez!
A platéia estava lotada de crianças. Contei o livro da Nana e os Quatro Jabutis, Guga fez seu Livro-Concerto Caixinha de Música. As crianças participaram muito e infelizmente não pudemos ficar para o encontro delas com a contadora de histórias Ilana, pois ontem era sexta feira e a volta para Saquarema é bem complicada. Ilana gentilmente nos cedeu seu horário para que pudéssemos voltar mais cedo.
Estou aqui, ouvindo as coisas incríveis que meu neto fala. Agora está apaixonado pelo livro Sanduíche da Maricota de Avelino Guedes, ed. Moderna. Agora só quer comer sanduiches. E pela história do Peter Pan que já contei quatrocentas vezes. Quando termino ele fala: _ Vovó, outra vez!
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
CARAVANA DE ESCRITORES
Hoje estarei na Casa da Leitura , em Laranjeiras, no Rio de Janeiro às 14hs num projeto intitulado "Caravana de Escritores", que é um encontro entre o escritor(a) com seus leitores.
A Casa da Leitura me traz caudalosas recordações. Um dia, na década de 90 , Fernando Lébeis, que deve estar sempre encantando as estrelas com suas histórias, sua voz maravilhosa, me indicou para o Proler. Minha entrevista foi na Casa da Leitura. E lá eu fui dar uma oficina em algum lugar do sul, a minha primeira viagem de dezenas de viagens pelo Brasil, no projeto mais louco e ousado que conheço e que já fez história. Aí sim, éramos uma caravana de artistas e jogávamos nossas âncoras em alguma cidade, às vezes um grupo pequeno, outras vezes um grupo imenso e ficávamos por 5 dias. Pela manhã eram 4 horas de conferências sobre leitura e aprendi muito. Pela tarde eram 4 horas de oficinas de leitura, escrita, cinema, fotografia, contação de histórias. E à noite, em algum barzinho, enraizamos elos eternos. O projeto do Proler neste formato acabou. Era um projeto muito caro, pois a idéia era o intercâmbio e viajar não é barato. Mas sabemos que por onde nossa caravana passava, as pessoas mudavam. Criávamos um anseio. Era um vento novo, era um sonho. As pessoas aprendiam a ler o mundo de outra maneira. Tenho um agradecimento profundo por aquelas viagens, aqueles anos. Eles me ensinaram muito, foram a minha grande escola. Conheci pessoas extraordinárias que ficaram na minha vida para sempre. Hoje estarei na Casa da Leitura. A Casa da Leitura mudou, eu mudei, mas de alguma maneira é um reencontro. O evento é aberto e haverá o Livro-Concerto Caixinha de Música com meu filho Guga Murray. Quem estiver por perto e puder estar junto com a gente, agradecemos.
A Casa da Leitura me traz caudalosas recordações. Um dia, na década de 90 , Fernando Lébeis, que deve estar sempre encantando as estrelas com suas histórias, sua voz maravilhosa, me indicou para o Proler. Minha entrevista foi na Casa da Leitura. E lá eu fui dar uma oficina em algum lugar do sul, a minha primeira viagem de dezenas de viagens pelo Brasil, no projeto mais louco e ousado que conheço e que já fez história. Aí sim, éramos uma caravana de artistas e jogávamos nossas âncoras em alguma cidade, às vezes um grupo pequeno, outras vezes um grupo imenso e ficávamos por 5 dias. Pela manhã eram 4 horas de conferências sobre leitura e aprendi muito. Pela tarde eram 4 horas de oficinas de leitura, escrita, cinema, fotografia, contação de histórias. E à noite, em algum barzinho, enraizamos elos eternos. O projeto do Proler neste formato acabou. Era um projeto muito caro, pois a idéia era o intercâmbio e viajar não é barato. Mas sabemos que por onde nossa caravana passava, as pessoas mudavam. Criávamos um anseio. Era um vento novo, era um sonho. As pessoas aprendiam a ler o mundo de outra maneira. Tenho um agradecimento profundo por aquelas viagens, aqueles anos. Eles me ensinaram muito, foram a minha grande escola. Conheci pessoas extraordinárias que ficaram na minha vida para sempre. Hoje estarei na Casa da Leitura. A Casa da Leitura mudou, eu mudei, mas de alguma maneira é um reencontro. O evento é aberto e haverá o Livro-Concerto Caixinha de Música com meu filho Guga Murray. Quem estiver por perto e puder estar junto com a gente, agradecemos.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
NEANDERTAIS
Faz algum tempo li uma série de livros, uma saga, sobre os neandertais. Sempre fui apaixonada por esta outra espécie de homens e seu desaparecimento me deixa perplexa.
Agora leio que um grande cientista diz que em breve poderemos fabricar um neandertal a partir de seu genoma. E que seria muito interessante saber como pensavam. Diz que no futuro poderemos misturar espécies, clonar seres humanos, etc e que na verdade já se pode. É interessante e horripilante ao mesmo tempo pensar sobre o tema. E diz também que no futuro, através da engenharia genética estaremos livres de doenças.
Hoje vou renovar meu passaporte. Há toda uma trama absurda de fronteiras e passaportes e sempre penso em arames farpados, cachorros latindo e farejando e seres humanos impedidos de entrar e sair.
A Terra deveria ser de todos com livre trânsito. Para isso as desigualdades sociais teriam que mudar radicalmente. Que cada um faça algo para que isso aconteça, o que estiver ao seu alcance.
Agora leio que um grande cientista diz que em breve poderemos fabricar um neandertal a partir de seu genoma. E que seria muito interessante saber como pensavam. Diz que no futuro poderemos misturar espécies, clonar seres humanos, etc e que na verdade já se pode. É interessante e horripilante ao mesmo tempo pensar sobre o tema. E diz também que no futuro, através da engenharia genética estaremos livres de doenças.
Hoje vou renovar meu passaporte. Há toda uma trama absurda de fronteiras e passaportes e sempre penso em arames farpados, cachorros latindo e farejando e seres humanos impedidos de entrar e sair.
A Terra deveria ser de todos com livre trânsito. Para isso as desigualdades sociais teriam que mudar radicalmente. Que cada um faça algo para que isso aconteça, o que estiver ao seu alcance.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
CASA DE AVÓ
Hoje chega meu neto Luis. Estou tão feliz que daria cambalhotas, se pudesse. Casa de avó sem neto é uma casa meio vazia, faltam estrelas no teto, as paredes ficam opacas.
CASA DE AVÓ
Casa de avó
é navio pirata
em alto-mar,
estrela cadente
para sempre no ar.
Avó tem um pouco
de fada, um pouco
de árvore encantada.
Quando a avó anda,
o mundo inteiro balança,
e uma onda de amor
varre quem está junto dela.
Dentro da casa da avó,
todos os caminhos vão dar,
no país sem luar.
in Casas, ed. Formato
CASA DE AVÓ
Casa de avó
é navio pirata
em alto-mar,
estrela cadente
para sempre no ar.
Avó tem um pouco
de fada, um pouco
de árvore encantada.
Quando a avó anda,
o mundo inteiro balança,
e uma onda de amor
varre quem está junto dela.
Dentro da casa da avó,
todos os caminhos vão dar,
no país sem luar.
in Casas, ed. Formato
Assinar:
Postagens (Atom)



